por Mauro Nadvorny | 10 maio, 2020 | Brasil, Comportamento, Opinião, Política
A democracia tem seu custo. Não é um sistema capaz de causar no indivíduo a sensação de plenitude ou perfeição. Até por que, não se destina a agradar indivíduos. Ela existe para que o grupo por ela regido sinta-se seguro e em paz, ou em condições de mantê-la. Assim, pobre daquele que depositar suas esperanças de plena realização pessoal dentro desse sistema. As chances são mínimas. Pode sim, ser feliz. Mas não na plenitude. Sempre algo estará incompleto. A parcela da diferença, da dissidência, a parcela do desejo conflitante com o diferente ou divergente que foi sacrificada em nome do pacto coletivo, da negociação.
A democracia é construída sobre vários pilares que são os sistemas de valores e de conhecimento. Entre eles, os sistemas autorizativos de ensino que delimitam as profissões. Você tem o diploma de engenheiro que te habilita a construir um edifício por que esta autorização foi regulada por lei e vinculada a um sistema de ensino no qual você deverá continuamente provar sua capacidade de entendimento, aprendizado e expertise nas múltiplas facetas do conhecimento que permitem que um edifício seja construído, que atenda as necessidades para as quais se destina e que, acima de tudo, fique em pé.
Um edifício – físico ou simbólico – só fica em pé quando seus sustentáculos e alicerces existam e funcionem exatamente como os termos os definem: sustentáculos e alicerces. No simbólico, essas estruturas representam todo o conhecimento adquirido, testado e universalizado de forma que jamais tenham falhado, seja fisicamente ou no plano teórico.
A democracia moderna parte de um pressuposto não explícito de que a ciência é a fonte do conhecimento aceitável para a maioria dos que vivem sob suas luzes. Assim, embora seja saudável e construtivo que o conhecimento seja desafiado permanentemente como forma até de torná-lo mais sólido, mas os desafios ao conhecimento científico só são válidos se conseguirem apresentar resultados experimentais e práticos diferentes a partir dos mesmos pressupostos e métodos ou a partir de matrizes teóricas de raiz comum. Não é possível, por exemplo, contestar a Relatividade de Einstein sem contestar junto o Eletromagnetismo de Maxwell. E como até hoje tudo funcionou exatamente como previram as duas teorias, para demolir este edifício haverá de voltar ainda mais atrás, destruindo os sistemas de Galileu, Newton e Copérnico.
Neste cenário, aparece Osmar Terra, que publicamente e sem qualquer pudor apresenta seu sistema próprio de “conhecimento” sobre epidemias e pandemias, exatamente como aquele insatisfeito que descrevi parágrafos acima, para o qual o conhecimento que não satisfaz as necessidades e desejos pessoais pode e deve ser contestado tendo como base apenas a concepção do indivíduo, que da forma mais deselegantemente sofismática constrói sua teoria sobre fragmentos do estabelecido, e com esses fragmentos tenta montar uma imagem como um quebra-cabeças impressionista, que visto à distância pode parecer um Van Gogh, mas na proximidade não passa de rabiscos desconexos e sem significado próprio.
As argumentações de Osmar Terra sobre o “fracasso” do isolamento social não resistem à primeira camada de análise lógica, física e matemática. Não obstante, ele as apresenta com toda a empáfia e fleugma própria de uma grande academia de ciência britânica. Chega a ser chocante e revoltante o fato de uma rede como a Globo dar voz a este senhor, ainda que em contraponto com o ex-ministro Mandetta e o ex-ministro Humberto Costa, claramente harmonizados com o sistema democrático de conhecimento.
O perigo é a percepção, por parte da audiência, de que o debate posto é um debate legítimo, e que “temos que ouvir todas as opiniões” em uma democracia. Aí, o grande sofisma. A ciência só admite opiniões sobre o que ainda não foi testado ou conhecido. Não se opina sobre a virologia, sobre fisiologia, sobre farmacologia ou anatomia. O que pode-se fazer é apresentar resultados obtidos sob rigor metodológico e técnico.
O brasileiro comum costuma valorizar pessoas “de opinião”, parece ser um valor em si mesmo para certos segmentos de nossa sociedade. E aí jaz o perigo. O diferente, o minoritário, ainda mais aquele se se acusa vítima do “marxismo cultural” e de uma abstrata “ameaça comunista” que seja lá o que for só é percebida como ameaça real, motivando então uma credibilidade quase imediata.
Da mesma forma que Osmar Terra quer “enterrar” o sistema de conhecimento da democracia sob o pretexto da liberdade de pensamento e expressão, Olavo de Carvalho e toda a turba de seguidores embarca na aventura de demolição da nossa sociedade, onde cada um de seus agentes cuida de destruir algum setor do conhecimento, seja na história, na sociologia, na filosofia, e mesmo na física, matemática, medicina, direito, entre outros.
E aqui, entramos no nebuloso terreno dos limites a serem estabelecidos ao que chamamos de liberdade de pensamento e expressão. Certamente, a experimentação vem mostrando que nossa democracia não resistiu ao terraplanismo. Até a presente quadra, o preço da democracia está se tornando demasiado elevado.
Ou a democracia se reforma no sentido de fortalecer suas bases, ou será destruída quando a maioria das pessoas se convencer de que não quer pagar este preço. Fica para os historiadores e os cientistas políticos a fundação de uma nova ciência para a democracia: a imunologia democrática. Como criar anticorpos e vacinas para criaturas como Osmar Terra e Olavo de Carvalho.
NN
por Mauro Nadvorny | 9 maio, 2020 | Brasil, Comportamento, Política
Revendo o que se poderia chamar de início dos fins dos tempos no Brasil, me deparei com aquelas primeiras manifestações verde-amarelas contra a Presidenta Dilma Rousseff. Nelas, crianças nos ombros de seus pais reclamando da alta do dólar e de sua vontade de poder ir a Disney. Lá estão também aqueles que reclamavam da alta da gasolina com histeria nos postos.
Pode-se compreender que cada um sabe onde mais lhe dói. O povo brasileiro tem gente que não junta uma moeda que caia no chão, e aqueles que fazem de tudo para receber uma moeda em um semáforo. Interessante que o abismo social no país aumentou proporcionalmente ao desarranjo político que se seguiu ao Impeachment de Dilma, o governo Temer, a prisão de Lula e a chegada ao poder de Bolsonaro.
Ninguém sabia que um vírus surgiria na China e causaria um dos maiores desastres econômicos mundiais ceifando vidas por todo o planeta com uma velocidade impressionante. O Covid-19 cobrou e segue cobrando um alto preço em todos os lugares onde a liderança política menosprezou sua força. O Brasil é a prova disso.
Sim, outros países cometeram este erro e isso fez com que a lição fosse aprendida pelos próximos países onde o vírus desembarcou. Dada a velocidade da contaminação e o número de óbitos, lidar com este vírus é como colocar uma pessoa em um carro em movimento e pedir que aprenda a dirigir. Ninguém tem certeza de nada porque ainda não houve tempo para se tirar todas as conclusões necessárias para apontar um caminho de como lidar corretamente com a pandemia, muito menos para se obter uma vacina.
Um fato é reconhecido por todo o mundo, o trabalho incansável do corpo médico para salvar pacientes, com a perda de suas próprias vidas. Em todos os países o agradecimento a estes profissionais em forma de aplausos nas janelas, de mensagens em cartazes nas redes sociais, nas redes de televisão é comovente.
Mas existe uma exceção no mundo, e ela acontece no Brasil. O corpo médico é atacado por aquelas mesmas pessoas que reclamavam da alta do dólar e da gasolina. De verde e amarelo eles agridem os profissionais que lutam desesperadamente para salvar vidas em um sistema que entra em colapso e vai obriga-los em breve a escolher quem tratar, e quem deixar morrer.
Estes brasileiros acompanham somente as redes de informação bolsonaristas. Nelas o importante é a volta ao trabalho, a abertura do comércio e o livre ir e vir. Tudo repetido exaustivamente pelo seu líder ao lado das notícias que mostram, diariamente, o aumento do número de infectados e de mortos. Já são 150.000 e 10.000, respectivamente.
O que se sabe de uma doença contagiosa, qualquer que seja ela, é de que somente o isolamento do doente impede o contágio de outros. Assim, para se combater o Covid-19, em todos os lugares, começando pela China, a população foi colocada em lockdown. Todos permanecendo em casa, os doentes são mais facilmente identificados, hospitalizados e tratados. Reduz-se assim o número de novos doentes e em pouco tempo a vida pode começar a voltar ao normal. Onde não se obedeceu a esta recomendação, o resultado foi desastroso em termos de vidas ceifadas e crise na economia. São 4.000.000 milhões de pessoas infectadas e 275.000 mil mortes no mundo.
Agora o momento de voltar aqueles de verde-amarelo. Aqueles que puderam viajar e trouxeram o vírus para o Brasil. Estes que saem as ruas em carreatas para exigir a volta a normalidade em meio ao desastre causado por eles próprios. Que atacam o corpo médico e ameaçam fechar o Congresso e o STF. Os que colocam o emprego doméstico como serviço essencial, afinal a Casa Grande não pode ficar sem limpeza diária.
Esta escória nacional que continua flertando com um presidente que não tem nenhuma preocupação com o povo brasileiro, além daqueles que o bajulam. O tipo de gente que continua se negando a ficar em casa e saem as ruas sem máscaras. Idiotas que se aglomeram para aplaudir seu ídolo que os recebe de braços abertos e cara limpa.
Todos os países do mundo vão passar por uma crise econômica e social, de maior, ou menor intensidade. Não existem exceções e o tempo necessário para superar a crise vai depender da capacidade de cada país em voltar a normalidade, mas principalmente na capacidade do mundo voltar ao normal. As economias hoje são globais e países dependem de importações e exportações.
No Brasil a crise será ainda pior por conta da instabilidade política e a falta de um presidente no cargo, uma vez que este que lá está, não trabalha. Se o país já estava à deriva antes da chegada do Covid-19, agora está fazendo água por todos os lados, graças a esta turba fascistóide que sustenta esta família miliciana no poder.
Mas se nada está tão ruim, que não possa piorar, o Centrão, aqueles parlamentares de partidos nanicos, de siglas de aluguel, conhecidos como do baixo-clero, que pendem para o lado que mais oferece algo em troca de seus votos, agora estão sendo agraciados com cargos e afagos para darem seu apoio a Bolsonaro. Sem eles, não existe a menor possibilidade de um Impeachment.
Restaria o STF. Mais precisamente um processo por crime de responsabilidade. Crimes estes que se numerados, faltaria papel. Também lá, depois que seu atual presidente, Dias Toffoli, recebe Bolsonaro e sua comitiva de empresários para escutar suas lamúrias pelo isolamento social, nada se pode esperar.
Ao que tudo indica serão tempos muito difíceis para o Brasil. Em algum momento o Corona-19 vai passar, mas em seu rastro, não serão apenas as vidas perdidas para se lamentar. O maior lamento será como foi possível que deixamos isto acontecer, quanto tempo será necessário para recuperar o país enquanto esta gangue de criminosos continuar no poder, e o que virá depois dela.
por Richard Klein | 2 maio, 2020 | Brasil, Comportamento, Literatura, Livro
Capítulo 05
“Tabelou, driblou dois zagueiros,
Deu um toque driblou o goleiro,
Só não entrou com bola e tudo
Porque teve humildade e gol!!!”
Fio Maravilha – Jorge Ben
No auge do reinado brasileiro sobre o planeta futebol, mesmo que por um instante, o esporte produziu o que todo governo totalitário deseja: unir a nação como pessoas iguais. Quando o assunto era futebol não havia classe social, cor ou opinião política; todos eram iguais, salvo, é claro, as mulheres, os gays, os maconheiros e outras minorias.
Naquela realidade suspensa, os jogadores da seleção viraram os super-heróis da garotada. A forma para um menino fazer parte da saga era jogar bola e torcer para um time. Para mim essa fórmula fácil caiu como uma luva; a febre do futebol me ajudou a encaixar num país onde de outra forma seria considerado um completo estranho. Seguindo a cartilha, jogava futebol quase todo dia e virei Botafoguense fanático, talvez por Botafogo ser o bairro onde nasci ou por gostar do emblema.
Torcer era um negócio sério; além da escalação completa do meu time, tinha que saber a dos outros “quatro grandes” – Flamengo, Fluminense e Vasco – de cor. Por vício e obrigaçāo ouvia todas as partidas do “Fogão” no rádio e no dia seguinte, lia a pagina de esportes inteira no jornal para ficar a par de como os jornalistas tinham avaliado o desempenho de cada um dos jogadores. O mesmo valia para os jogadores relevantes dos outros times.
A Rádio Globo era de longe a melhor no futebol. Seu espetáculo auditivo era sem igual, e era a coisa mais emocionante que podia acessar dentro das paredes de nosso apartamento. O estilo circense dos seus apresentadores era irresistível. Quando um jogador fazia um drible de efeito e os narradores, Jorge Curi e Waldir Amaral, iam à loucura. Quando um outro marcava um gol, era um orgasmo. Quando um juiz falhava o comentarista de arbitragem, Mário Vianna interrompia a narração gritando zangado “Errou!!!”. Quando a bola batia na mão de um jogador ele mandava o seu “La mano!!!, cadê o eco?? La mano ôo-ôo-ôo!!!”. Nos casos de impedimento, ele gritava o seu famoso “Banheiiiiira!!!” Para os pênaltis, sempre fazia um comentário solene antes do veredito pesaroso: “Penalidade máxima”. Quando o gol valia ele era sacramentado pelo seu “Gol legal!”.
Depois da partida, era a hora do João Saldanha com suas análises pós-jogo imperdíveis. Elas duravam bem mais de uma hora mas nunca eram chatas. Com sua genialidade, recoloria o que tinha acabado de acontecer no estádio abusando do uso de alegorias inusitadas e metáforas como girafas namorando macacos e elefantes se casando com formigas.
Esses personagens, onipresentes no futebol carioca, faziam dos radinhos de pilha uma ferramenta essencial. Mesmo no Maracanã, todo torcedor tinha um colado ao ouvido. Nas partidas principais, haviam tantos que, dado haver um momento de silêncio, a chamada da rádio ecoava alto no estádio.
*
Com o tricampeonato no México ainda fresco, os dois torneios nos quais os times cariocas participavam – o estadual no primeiro semestre e o Brasileiro no segundo – adquiriram um sabor especial. Como a equipe da rádio Globo gostava de dizer, no Maracanã se jogava o melhor futebol do mundo no maior palco do planeta, uma verdade na época.
O “Maraca” era o templo maior desse culto. Todos os garotos que conhecia já tinham – ou pelo menos diziam que já tinham – ido lâ e eu precisava desse crédito. Meu problema era meus pais. Se imaginando aristocratas ingleses, nas cabeças da Renée e do Rafael o futebol era coisa de operário e da gentalha que vivia em botequins. Ir a um estádio e se misturar com aqueles tipos mancharia de alguma forma a sua posição social, especialmente no Brasil.
Minha sorte mudou no dia em que Peter, um amigo da roda deles, se ofereceu para me levar a uma partida junto com seus dois filhos. Apesar da Renée ser contra, Rafael acabou liberando. Peter era o aventureiro da turma: tinha cruzado a América Latina num jipe, era mais jovem que o resto, tinha menos dinheiro, fumava – um tabu em casa –, possuía um corpo definido e bronzeado, falava inglês com sotaque americano e além de tudo, para a minha alegria, era frequentador assíduo do Maracanã.
Ele os filhos torciam pelo Fluminense e o jogo era contra o Flamengo, um Fla x Flu. Isso não era o ideal para um botafoguense, mas como o time deles iria enfrentar o arqui-inimigo de todos, me senti mais confortável. No estádio, talvez gritaria “Nense!!! Nense!!! Nense!!!”, ao invés de “Fogo!!! Fogo!!! Fogo!!!”, o que, dadas as circunstâncias, era aceitável.
Os três vieram me pegar no início de uma tarde de domingo. Entrei no jipe feliz da vida, preparado para a aventura. Só que assim que cumprimentei seus filhos, Rob e Tony, me lembrei que não gostava deles. Entre outras coisas, toda vez que nos visitavam davam em cima da Sarah de uma forma estúpida o que a deixava chateada. De quebra, ficavam tirando onda com a minha cara por ser mais novo. Apesar dos esforços do Peter em ser simpático, os dois me deram o gelo de sempre, ocupados com seu habitual papo chato, competindo entre si acerca de conhecimentos de eletrônica e de mecânica, coisas que achava um porre. Fiquei sentado no banco da frente com o Peter olhando pela janela e ouvindo a Rádio Globo quando dava para escutar. O entusiasmo voltou quando começei a perceber que quanto mais perto do Maracanã a gente chegava, mais claro ficava que todos os outros carros estavam indo na mesma direção. Neles, torcedores do Flamengo e do Fluminense ou tiravam sarro ou aplaudiam uns aos outros aos gritos pela janela. No banco de trás, em vez de participar da festa, o Rob e o Tony faziam comentários antipáticos a cerca deles. Relevei a esquisitice e fiquei curtindo o momento em silêncio, já ensaiando o que ia dizer para os meus amigos.
*
Por fim chegamos. Assim que parou o carro, Peter foi negociar com o “flanelinha” quanto ia pagar pela vaga – “flanelinha” esse que, evidentemente, não estaria ali quando voltássemos. Enquanto isso, saí para dar uma olhada no Maracanã. Estávamos a uns três quarteirões, mas mesmo dali parecia colossal. O clima era frenético. Em torno de nós, milhares de torcedores, pouquíssimos da Zona Sul, iam apressados para o estádio. Dava para ouvir as batucadas e a barulheira saindo lá de dentro. Aquela eletricidade parecia estar atraindo a multidão como a luminária de um açougueiro atrai moscas.
Depois de se entender com o guardador de carros, Peter, preocupado por eu estar sozinho sem os seus filhos, acendeu um cigarro e veio falar comigo com um sorriso nervoso, “O que você está achando disso, Richard?”
Sem palavras, só consegui responder: “Muito legal.”
Ele teve um tique nervoso, deu uma baforada no cigarro e perguntou: “Você está nervoso?”
“Que nada, estou doido para ver o futebol!”
Depois de nova chacoalhada estranha da cabeça, ele me olhou sério “Richard, é fácil se perder num jogo de futebol, principalmente na entrada do estádio. Fique sempre perto da gente, entendeu?”
Engoli seco com a sua firmeza e respondi: “Claro!”
Ainda me ignorando, os filhos já estavam prontos do outro lado do carro. Peter os chamou e fomos, os quatro, nos juntar à multidão rumo às bilheterias. Os guichês já estavam lotados. Pedintes e bêbados vinham importunar os torcedores esperando sua vez nas filas entre separadas por barras enferujadas. Na calçada atrás da fila, camelôs gritavam a plenos pulmões tentando vender seu estoque de bandeiras, almofadas de espuma e camisas dos dois times.
Depois de uns vinte minutos chegou a nossa vez. Com os ingressos na mão, o próximo passo era entrar no estádio, uma tarefa complicada. Havia somente dois portões para as arquibancadas, um de cada lado do estádio. A massa se aglomerava em frente deles e ia se afunilando como areia numa ampulheta até alcançar as poucas roletas de acesso. As duas torcidas estavam misturadas, o clima estava tenso e cheio de testosterona. Esse não era um lugar para mulheres, crianças ou idosos.
Peter estava mais preocupado que nunca. Sem tique dessa vez, virou-se para mim e disse: “Segura na camisa do Toni e não larga!”. Depois se voltou para o Toni e mandou ele ficar de olho.
É claro que obedeci. Em meio à massa que empurrava para todos os lados, sob o olhar atento do Peter logo atrás, grudei na camisa e fui atrás tomando todo cuidado para não me distanciar nem cair e correr o risco de ser pisoteado por centenas de pés ansiosos.
O empurra-empurra demorou uns dez minutos. Foi um alívio quando chegamos nas catracas. Elas pareciam um oásis surreal de paz separando a loucura do lado de fora do estádio da insanidade que nos esperava do lado de dentro. Protegidos por guarda-costas gigantes e mal-encarados, frágeis empregados de meia-idade inspecionavam tranquilos os bilhetes um a um. Quando pegavam aqueles com igressos falsos ou aqueles tentando entrar sorrateiramente sem bilhete algum, os metidos a malandro eram obrigados a escolher entre dar meia-volta e encarar a multidão ou serem escoltados até a delegacia do estádio.
Quando isso acontecia, os funcionários perdiam a paciência. Pegaram um em uma catraca ao lado e o homem explodiu. “Não me interessa que você não tem dinheiro! Pelo amor de Deus, meu filho! Decide logo! Não está vendo a fila?”
Quando chegou a nossa vez, o moreno de cabelos grisalhos examinou nossos ingressos através de seus óculos. Com calma rasgou ao meio os finos papéis azuis, depositou sua metade em uma caixa e liberou a roleta. Já dentro, reagrupamos e saímos correndo com a multidão pela rampa comprida que dava acesso ao anel superior. Guardas com pastores alemães paravam bêbados e torcedores carregando objetos perigosos. Ao final da rampa, a massa se dividiu de acordo com seu time de coração. Nós pegamos o corredor à esquerda e seguimos os torcedores do Fluminense. Passamos rápido na frente de portas dos banheiros e bares sentindo o cheiro forte de urina misturado com cerveja derramada.
Havia entradas a cada trinta metros e Peter tinha que decidir rápido qual iríamos tomar. De repente ele nos empurrou por um corredor estreito onde silhuetas ocultavam a luz no fim do túnel. Subimos sentindo a imensa energia que emanava lá de dentro. Quando finalmente entramos na arena, percebi em extase o quanto o estádio era gigantesco – dava para entender claramente como cabiam 160 mil espectadores ali. As torcidas que já enchiam algumas partes, principalmente atras dos gols. Na parte central das arquibancadas havia a famosa tribuna de honra – a seção cercada onde ricos e convidados especiais ficavam. No resto do estádio, as grades nos parapeitos em frente às torcidas já estavam cobertas por faixas e bandeiras das torcidas organizadas. Embaixo, cercado por aquela construção colosal estava o gramado, o palco que captava os sonhos de toda uma nação.
Enquanto Peter decidia onde iríamos sentar, fiquei olhando para aquilo embasbacado. Dava para ver que o lugar mais animado era no meio das torcidas organizadas, todas começando a engossar dos dois lados. Esse era o lugar de onde vinham as batucadas e de onde emanava toda a vibração. Quando alguém da torcida começava a gritar um refrão, logo depois – como numa reação química – dezenas de milhares de pessoas passavam a gritar a mesma coisa. O problema era que também era ali que a maioria das brigas aconteciam. Não era o lugar certo para um adulto responsável levar três crianças. Por isso, acabamos indo mais para perto da zona neutra, entre as duas torcidas, do lado oposto à tribuna de honra. A pedidos do Rob e do Toni, acabamos num lugar ainda na torcida do Fluminense.
Pedindo licença, se equilibrando entre os torcedores e os degraus das arquibancadas, chegamos numa abertura para quatro pessoas. Sentamos, relaxamos e ficamos assistindo ao jogo preliminar entre as equipes juvenis dos dois clubes. Apesar das torcidas só estarem preocupadas a atração principal, comemoravam os gols dos novatos e ficavam em silêncio quando havia uma cobraça de pênalti.
Assim que a partida secundária terminou, o Maracanã acordou. Já não havia partes vazias no estádio. Os torcedores começaram a agitar suas bandeiras enormes e a soltar foguetes. Os refrãos esquentaram dos dois lados. Em campo, fotógrafos com câmeras e lentes penduradas no pescoço disputavam posições atrás dos gols com repórteres portando microfones e fones de ouvido. Os gandulas uniformizados entraram e foram se sentando ao redor do campo enquanto policiais de óculos escuros segurando pastores alemães patrulhavam as bordas do gramado. Agora, só faltavam os jogadores.
Nas arquibancadas, era como estar no meio de uma festa de meninos levados. Os torcedores entoavam as mesmas musiquinhas provocadoras que nós ensinávamos uns aos outros na escola e jogavam copos descartáveis amassados nas cabeças de quem estava abaixo. Os carecas sofriam. A pior coisa que me lembro de ter visto foram uns caras mijando nos torcedores que ficavam na área inferior ao lado do gramado, a “geral”. Essa parte do estádio tinha os ingressos mais baratos. Lá embaixo, não havia lugar para sentar e o campo de visão era na altura dos pés dos jogadores. Os espectadores eram obrigados a assistir os jogos em pé em meio às brigas frequentes.
Um amigo me contou a história de um repórter que estava em uma das cabines de imprensa que ficava bem em cima da “geral”. Para fazer graça com os colegas, o repórter começou a xingar e a gozar o pessoal em baixo. Junto com os palavrões veio a dentadura. Mesmo com suas súplicas, os caras não pensaram duas vezes e pisotearam sem pena seus dentes falsos assim que aterrissaram.
*
Uma voz surpreendentemente formal e monótona saiu pelos alto-falantes anunciando a partida e o nome dos jogadores. Os torcedores fizeram silêncio, mas cada vez que mencionava um dos seus craques iam a loucura. Quando a apresentação terminou, o painel eletrônico acendeu e começou a mostrar o placar do jogo: “Flamengo 0 Fluminense 0”.
Sendo tradicionalmente o time da elite social branca, o símbolo do Fluminense era o pó de arroz. Em preparação para a chegada do seu time, membros da torcida tricolor circulavam com baldes cheio de saquinhos da coisa, os distribuindo como se fossem fazendeiros dando ração aos animais. Assim que o Fluminense entrasse em campo, todos rasgariam os sacos e atiraram o pó no ar criando uma espessa nuvem branca. Quando o ar clareasse, pareceria que tinham acabado de sair de uma tempestade no deserto.
Com o estádio completamente lotado, dava para ver que a torcida do Flamengo era bem maior, tomando quase dois terços do estádio. Por causa de suas cores: vermelho e preto, o símbolo do clube era um urubu. Em cada jogo, torcedores levavam um urubu de verdade. A tradição era amarrar uma bandeira do clube no pé do bicho e soltá-lo quando os jogadores entravam em campo. Se a mascote conseguisse voar para fora do estádio, aquilo era considerado como um bom presságio. Naquela situação, a ave desnorteada correria o risco de mudar de cor por causa da nuvem de pó de arroz e de ser confundida com uma águia branca quando retornasse ao ninho.
Os dois times entraram em campo juntos. Quem abriu o caminho foi o árbitro e seus auxiliares seguidos pelos jogadores em fila indiana, uns se aquecendo e outros subindo o túnel dando a mão aos mascotes dos times. Esses meninos ficariam livres para correr pelo campo depois que posassem junto com os atletas nas as fotos para a imprensa. Na manhã seguinte, aquelas imagens seriam estampadas nas últimas páginas de todos os jornais da cidade. Quem quer que tivesse ido ao jogo sentiria como se houvesse participado de um grande evento. Depois da foto, os jogadores se espalharam pelo campo e ficaram tocando a bola entre si, dando piques no gramado e chutando a gol para aquecer o goleiro. Enquanto isso, repórteres corriam atrás dos craques tentando fazer com que tecessem comentários sobre o jogo. Pegando carona nos rádios dos vizinhos, quando os astros do futebol falavam com um radialista, podíamos dar um rosto, mesmo que distante, às vozes que vínhamos acompanhando desde que saímos de casa.
O juiz mandou a polícia liberar o campo. Quando só ficaram ele e os jogadores, o árbitro chamou os dois capitães para o centro do gramado para decidir quem sairia com a bola e em que lado cada um dos times ia começar jogando. Com um barulho ensurdecedor nas arquibancadas, os jogadores tomaram suas posições, o homem de uniforme preto olhou para o seu relógio e deu o apito inicial. Uma estrela da seleção campeã, Gérson, se não me engano, passou a bola para trás dando início à partida. O estádio inteiro conseguia reconhecê-lo pela careca como também os demais jogadores por causa dos cortes de cabelo, dos números nas camisas e pelo seu estilo de jogar. Quando faziam algo de errado, as pessoas os criticavam em altos brados como se os conhecessem pessoalmente. Na hora que os atacantes estavam prestes a marcar um gol, todo mundo se levantava e quando o adversário oferecia algum risco, ficavam em silêncio enquanto a torcida rival festejava. No segundo tempo, o Fluminense marcou abrindo o placar. Ainda que não torcesse pelo time, não pude me conter e fui à loucura como se fosse tricolor de nascença.
*
Naquele tempo, a televisão ainda estava dando seus primeiros passos e raríssimos jogos eram transmitidos ao vivo. Nossos heróis da bola ainda não tinham empresários planejando suas carreiras milionárias nos campeonatos europeus. Ao contrário, seus horizontes começavam e terminavam dentro dos campeonatos estaduais e nacionais. Para a nata, havia a convocação para a seleção nacional e a fama internacional mas raríssimos iam jogar no estrangeiro. Por isso, jogavam para a torcida e faziam o que podiam todas as tardes de domingo para reafirmar sua condição de craques. O ali e o agora eram cruciais, o que tornava a qualidade daquelas partidas, sem dúvidas, a melhor do mundo. O Maracanã daqueles tempos traz memórias aos torcedores do Rio parecidas às que Woodstock traz para os amantes do rock. Houve momentos de pura magia, gols inesquecíveis, dribles, jogadas e delírios coletivos de outro planeta. Como deve ter sido no Coliseu em Roma, o clima daquelas partidas foi um fenômeno único e irrepetivel.
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por Richard Klein | 25 abr, 2020 | Brasil, Comportamento, Literatura
O próximo jogo era contra a Inglaterra. Torcendo em segredo pelo seu time mas sem entender nada do assunto, Renée e Rafael de repente se viram inundados por perguntas e comentários.
“Vocês vão torcer pelo inimigo!!??” A pergunta vinha amistosa, mas deixava claro que eram adversários. “Voces acham que vão vencer?! É?! De quanto? ”
“O que vocês acham dos jogadores ingleses? Dá para comparar Pelé com Bob Charlton?”
Embora nenhum dos dois soubesse responder a essas perguntas e fossem desinteressados por futebol, haviam motivos suficientes para que assistissem à partida. Fora o meu estado exaltado, queriam manter sua discreta pose de atuais campeões mundiais. Além disso, por coincidência, o árbitro seria o israelense Avraham Klein: o nosso sobrenome!
*
O jogo caiu numa tarde ensolarada de domingo. Os fogos de artifício que começaram a pipocar nas primeiras horas da manhã pareciam sinos de igrejas lembrando a todos que esse era um dia da maior importância. A Rádio Globo, minha fonte indispensável de notícias futebolísticas, estava fervilhando. Os apresentadores não falavam sobre outra coisa. A todo momento interrompiam o que estivessem falando para dar lugar às transmissões ao vivo de repórteres que haviam conseguido qualquer informação nova vinda do México.
Como de costume, a família saiu para o Clube Paissandu por volta das dez da manhã. Fanático, vestindo minha camisa canarinho, assim que o carro saiu da garagem, abri a janela e coloquei para fora minha bandeira verde e amarela que tinha amarrado num cabo de vassoura. Quando cruzávamos com alguém com a mesma camisa, sacudia meus punhos de fora do carro e gritava, “Brasil!!!”. As respostas ecoavam de volta com a mesma euforia.
A Sarah não veio. Sortuda e acometida de vergonha alheia pelo meu entusiasmo, ela tinha sido convidada para ver o jogo na casa de uma vizinha amiga e ia passar o dia lá.
No clube, fomos direto para a piscina onde fiquei chocado ao deparar com o que era, talvez, a única bandeira inglesa flamulando no céu do Rio de Janeiro. Ela estava dependurada entre dois coqueiros sobre um grupo de homens pálidos de meia idade bebendo whisky e olhando a todos com ar de gozação. Do outro lado, no bar coberto, os outros garotos, o pessoal do serviço e eu, em cochichos, ficamos questionando a masculinidade daqueles indivíduos, bem como as virtudes de suas mães.
Havia uma roda amontoada em torno do rádio do salva-vidas. Alguns de nós saíamos para dar um mergulho, mas voltávamos logo para aquele grupo que mais parecia um enxame de abelhas nervosas. Ávidos por informações e tentando ouvir o radinho melhor, faziamos silêncio quando um repórter conseguia entrevistar um de nossos craques.
Por volta da hora do almoço, o aumento no número de rojões avisou a todos que a hora do pontapé inicial estava chegando. A televisão começou a transmitir ao vivo de Guadalajara e as ruas se esvaziaram.
Para poder pegar o início do jogo, tinhamos comido mais cedo no restaurante do clube. A caminho do apartamento do Paulo, passamos por aglomerações em frente às lojas de eletrodomésticos se preparando para assistir o jogo nos televisores que tinham deixado ligados para a ocasião. Quase todos os torcedores na rua seguravam um radinho de pilha no ouvido, da mesma maneira que as pessoas hoje se agarram a seus telefones celulares. No carro, consegui convencer minha mãe a ligar o rádio na Rádio Globo. Tinha que ouvir o que João Saldanha, agora um comentarista, estava falando sobre o iminente jogo. Quando começou com sua voz lenta e grave, me esqueci da bandeira e me concentrei em cada palavra que dizia.
Paulo morava na Rua Barata Ribeiro, num apartamento modesto em frente ao nosso açougueiro que ficava do lado de um ponto de ônibus. Chegamos dez minutos antes do início da partida. A televisão já estava ligada e enquanto os adultos se cumprimentavam, fui logo me acomodando e consegui ver os jogadores entrarem em campo, se perfilarem e cantarem seus hinos nacionais. Pouco depois, com todos em seus lugares, o juiz apitou dando início ao jogo. Os nomes dos jogadores que logo entrariam para o panteão do futebol mundial, ressoavam da televisão: “Jair pra Pelé, Pelé com a bola, para Tostão… Gérson… para Rivelino”.
Copacabana inteira estava em silêncio torcendo pela seleção nacional. As ruas estavam desertas: lojas, delegacias, hospitais, corpo de bombeiros – tudo estava fechado. Caso você tivesse um ataque cardíaco, se seu apartamento pegasse fogo ou se você estivesse prestes a dar à luz, o azar seria seu.
O início foi nervoso e defensivo. O estilo chato tinha uma razão; a tática de Zagallo era segurar seu time atrás no primeiro tempo. Confiando na melhor forma física e no talento natural dos seus jogadores, ele esperava seus adversários cansar para depois líquida-los no final da partida. No entanto, nada estava garantido. Todos estavam tensos e o adversário era difícil. No segundo tempo, os ingleses começaram a sofrer com o calor e a exaustão tomou conta. O Brasil passou a dominar e o goleiro inglês, Gordon Banks, estava fazendo milagres para manter a partida no zero a zero. Dava para sentir que a seleção estava prestes a marcar – não era uma questão de se, mas de quando – ainda assim a espera era angustiante. Naquela altura, até Rafael e Paulo estavam totalmente concentrados na partida. Quando o ataque brasileiro finalmente conseguiu superar a defesa da Inglaterra e Jairzinho marcou, brasileiro nenhum conseguiu conter sua emoção e todas as casas explodiram em gritos selvagens.
Não podia deixar de ir à loucura e fazer com que os adultos – todos na sala menos eu – achassem graça da minha espontâneidade. O apartamento de Paulo destoava furor do lado de fora. Para já, minha mãe, decepcionada com o placar, apesar de estar quase na faixa dos cinquenta, era a mais jovem do grupo. Quando o jogo terminou e a transmissão retornou para os estúdios no Rio de Janeiro, não houve cerveja ou nem mesmo uma taça de vinho para comemorar. Enquanto os adultos se voltaram para assuntos mais sérios, sobretudo Israel, peguei uma tigela de bolachas, uma Coca-Cola na geladeira e mudei para o canal onde passava Tarzan. Fiquei horas curtindo a liberdade de ter uma TV à minha disposição. Enquanto isso, meus pais ficaram esperando que o Carnaval fervoroso dos “selvagens” acalmasse na rua antes de ir para casa.
Conforme o Brasil foi progredindo, as comemorações foram durando mais e o samba foi ficando mais intenso. Entre um jogo e outro, a combinação da exposição exagerada da seleção com o verdadeiro show de bola que seus craques estavam dando no México, fez com que um estado de espírito especial tomasse conta do quotidiano. Artificial ou não, dava para sentir a tal “corrente pra frente” a toda hora e em todos os lugares.
Depois da vitória contra a Inglaterra, até a Sarah acabou imersa na febre do futebol. Ela passou a vestir uma camisa canarinho nos dias de jogo e a torcer pelo Brasil na casa da vizinha. Por ser cinco anos mais velha e por ter a escolta dos irmãos mais velhos da sua amiga, meus pais permitiram que fosse à rua para participar das comemorações. Isto me fez questionar a justiça divina pela primeira vez na vida.
*
Na final, o Brasil derrotou a Itália por quatro a um em um dos mais famosos jogos da história do futebol. A campanha terminou com Pelé passando a bola para Carlos Alberto Torres que deu um chute cinematográfico de fora da grande área estufando a rede italiana. O triunfo deu início à uma catarse nacional e proporcionou ao país uma autoconfiança que duraria anos. Por ser seu terceiro campeonato mundial, a taça Jules Rimet veio para o Brasil de vez, selando a glória. A vitória também significou um sucesso para a máquina de relações públicas do governo militar. Agora os generais se sentiriam ainda mais legitimados para expandir seu domínio político-policial.
Ninguém chegou a perceber que essa foi a maneira grandiosa que a época de ouro de Copacabana havia encontrado para se despedir. Dentro de poucos anos, o charme desse bairro à beira-mar começaria a desbotar. Pessoas de círculos sociais alheios começariam a substituir a elite carioca em seus prédios hollywoodianos. A classe alta migraria para as áreas requintadas de Ipanema e do Leblon, e para bairros mais afastados como São Conrado e Barra da Tijuca. Enquanto isso, à noite, o calçadão da Avenida Atlântica acabaria se transformando no maior bordel a céu aberto do mundo.
Quanto a mim, aquela Copa do Mundo selou minha identidade como Brasileiro. A partir dali, a Inglaterra passou a ser o país de onde meus pais vieram, só isso.
…
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por Mauro Nadvorny | 23 abr, 2020 | Comportamento
O problema com Bolsonaro é que ele age como um ioiô : ele vem e vai ,sempre criando polêmica e fazendo provocações , com suas bravatas.
As pessoas caem como patinhos .Perdem seu precioso tempo discutindo os disparates que ele diz ou ameaça fazer.
No dia seguinte, Bolsonaro pede desculpas para ,em seguida, fazer novas provocações ….
São versões da mesma ladainha.
Será que Bolsonaro quer acabar com a Democracia?
Faz sentido ,que Bozo queira acabar com a Democracia , regime no qual ele vem se elegendo regularmente há trinta anos?
E não apenas isso: seus três filhos também foram eleitos ,dentro da Democracia!
Bolsonaro precisa alimentar seus apoiadores mais fiéis e fanáticos, dizendo- lhes o que amam escutar: ” Vamos promover outro AI 5, acabar com STF ,etc….”
Bozo faz sua encenação : os bolsominions aplaudem e ficam felizes….
Parte grande da oposição e das esquerdas ficam indignadas.
Bozo pede desculpas….
Nada acontece.
Enquanto isso Bolsonaro, vai destruindo toda a organização do país e vai transformando o Brasil num tipo particular de Democracia caricata e caótica, algo dantes nunca visto.
Enquanto a maioria continua ,fixada em experiências passadas de ditadura militar, Bolsonaro vai gestando seu faroeste, miliciano tupiniquim!
Para enfrentar Bolsonaro a oposição e as esquerdas precisam perceber a particularidade e a novidade, implícitas no ” Projeto “.do Bolsonaro.
Enquanto os opositores de Bolsonaro se deixarem iludir, afirmando que a situação atual é um repeteco do que foi 1964 (ou reprise de alguma ditadura conhecida) , continuarão dançando em círculo como tolos, tal qual mariposa em torno da lâmpada.
Um diagnóstico preciso é o primeiro passo para o sucesso do tratamento!
por Mauro Nadvorny | 21 abr, 2020 | Brasil, Comportamento, Política
Hoje pela manhã reli em algum lugar a famosa frase de Winston Churchill: “A democracia é o pior regime que há, à exceção de todos os outros.”
Também li no blog do Reinaldo Azevedo que o assim dito “presidente” do Brasil comete todos os dias inúmeros crimes, e que nada disso provoca o menor incômodo no Procurador Geral da República, Augusto Aras, único cidadão no mundo com atribuição legal para iniciar um processo judicial por tais atos.
Lembrei-me de uma preocupação que me acometeu há uns 17 anos atrás, quando era Chefe de Gabinete recém-nomeado, da Secretaria de Segurança do Paraná.
Surgiu uma denúncia de que o Delegado Geral da Polícia Civil do Estado apresentava à instituição notas fiscais frias, para ser “reembolsado” de despesas que não fizera. Foi encaminhada ao Corregedor Geral, que detinha competência exclusiva para abrir sindicância em face daquela autoridade.
Novato na área, descobri que o Corregedor era cargo de confiança do próprio chefe da polícia, o denunciado. Escolhido e nomeado por ele, e por ele demissível ad nutum (sumariamente, sem necessidade de qualquer justificativa).
Nunca fiquei sabendo se o cara era culpado ou inocente. Nem eu nem ninguém. O Corregedor, que não era bobo, obviamente engavetou o caso.
Volto ao início. Concordo que a democracia é o que há de melhor. Só tem um problema, meio esquecido. O que é, exatamente, essa tal de democracia?
Comecemos pelo próprio Churchill, seu arauto, um defensor empedernido da mais cruel e abjeta opressão imperial exercida por seu país sobre inúmeros povos ao redor do mundo. Democracia? Pra quem, cara-pálida?
Mas não para por aí. Debrucemo-nos sobre aquela que é chamada de a maior e mais sólida democracia do mundo, a dos Estados Unidos da América do Norte. Sério? Ela é governada no dia de hoje – nada menos do que no dia de hoje!! – por um cidadão que recebeu, nas urnas, menos votos do que sua concorrente! Irrelevante? Não acho. Chamar de democrático um regime em que a maioria não governa, pra mim, é uma contradição absoluta. Mas ok, vá lá.
Podemos concordar que um dos elementos que faz parte da essência da democracia é a diversidade? E que, do ponto de vista do exercício político dela, cada ramo tem uma visão de mundo e de País? E que a melhor maneira de implementar tal visão é chegando ao poder, e que o melhor caminho para isso é um partido político?
Bem. Nos Estados Unidos da América do Norte só existem dois partidos políticos reais. Todos os demais, somados, são de tal forma insignificantes, que ninguém deles sequer ouve falar. Ora, é possível acreditar que a esmagadora maioria dos zilhões de pessoas que habitam um país daquelas dimensões e complexidade tenha apenas dois pontos de vista sobre o mundo e o seu país? Tem quem ache que sim. Eu, não. Pra mim, o que determina isso responde pelo nome de dinheiro. Poder econômico. Em uma palavra, manda quem pode, obedece quem tem juízo. A antítese da democracia.
Tem mais. É democrático ser o país mais rico de todos os tempos, e tolerar a existência, em seu território, de milhões de miseráveis destituídos dos mais elementares direitos de cidadania? Ou privar uma pessoa de assistência médica porque não tem meios de pagar (e são também milhões, mesmo além dos miseráveis)? Tem quem ache. Eu, não.
Não chega? Tá bom. É democrático um país que, por séculos afora, intervém militarmente em qualquer lugar do mundo onde um povo ou um governo não seja de seu agrado, matando, no processo, outros tantos milhões de pessoas, sem distinção de sexo ou idade? Respeito quem acha que sim. Mas eu, não.
Pra mim, o nome disso é hipocrisia. Simplesmente hipocrisia. Olhar, ver e fingir que não viu. Ou, pior, admitir que viu mas não achar importante.
E o Brasil? Nem vou me estender muito pra falar de um país que em 520 anos de história conta, somados, com menos de 50 nos quais conviveu com alguns (poucos) elementos democráticos. Quero apenas, e para ficar em um fato atual e marcante, chamar a atenção para o que disse Reinaldo Azevedo. Como chamar democrático um sistema no qual a única pessoa que pode levar o chefe de estado às barras da justiça é nomeada por ele? Considere-se a quantidade de arranjos e conchavos necessários para se alcançar tal nomeação.
Alguém já disse – e com razão! – que, enquanto projeto, o ser humano é o maior e mais espetacular fracasso da história.
Como espécie, somos monstruosos em uma escala espantosa. Não é possível ignorar isso minimamente, se se olha qualquer aspecto de nossa aventura terrena, mesmo que com um mísero fiapo de boa-fé.
Como seríamos, então, capazes de criar um sistema político cujos pressupostos são escancaradamente o oposto absoluto daquilo que nos constitui biológica, mental e culturalmente?
Democracia implicaria, entre tantas outras coisas impossíveis para o homem, em respeito à diversidade, liberdade para todos, honestidade, solidariedade, espírito público e generosidade. Alguém pode citar uma única sociedade e/ou um único momento na história humana em que – digamos – ao menos três entre esses elementos conviveram por um tempo razoável?
Cartas para a redação.
Eu não posso. E olha que – embora amador – sou um estudioso insaciável de história.
Então, deixemos de hipocrisia. Democracia não há, e nem nunca houve, em lugar algum. Ela é uma contradição intransponível com a própria natureza humana.
Essa é uma verdade, para mim, clara e insofismável.
Resolvi escrever sobre isso hoje porque a leitura da frase do Winston Churchill, mais cedo, foi a gota que transbordou o copo da minha paciência.
Vivemos sob a ditadura das “narrativas”. Ao mundo global hiperconectado pouco importam os fatos ou sua análise. O que vale é a imagem que se consegue instalar deles na mente do maior número possível de pessoas.
Há miríades de exemplos contundentes. Mas o propósito deste texto é focar em um deles, a meu ver dos mais graves.
O que pretendem aqueles poucos que exercem o verdadeiro poder global, e que não por acaso são os grandes capitalistas é, utilizando-se dos infinitos meios de comunicação de massa hoje disponíveis, fazer com que a humanidade aceite a mentira de que democracia é sinônimo de capitalismo. Ou seja, que sob qualquer outro tipo de organização econômica, nenhuma sociedade será verdadeiramente livre.
Trata-se de um embuste de proporções gigantescas. A existência ou não de democracia independe do sistema econômico sob o qual funciona a respectiva sociedade.
Nenhuma delas, capitalista, socialista, ou qualquer outra, é genuinamente democrática. Nem mesmo a anarquista, pretensamente a mais libertária de todas.
Essa constatação, a meu juízo, desloca o eixo do debate para outra direção, mais realista em relação às limitações humanas.
Considerando que absolutamente todos os regimes do mundo são, em alguma medida, e inevitavelmente, autoritários, qual o critério comparativo que se deve adotar entre eles para um melhor julgamento de suas virtudes ou defeitos?
Simples: a justiça.
Sob qual sistema econômico são melhor e mais igualitariamente garantidos os direitos humanos elementares dos cidadãos em geral?
A resposta não é nada fácil. Eu tenho cá uma opinião e muitas dúvidas. Acho que para a grande maioria é difícil definir qual é tal sistema. Mas, de minha parte, tenho certeza absoluta de qual não é. Justamente o capitalismo. Basta olhar.