por Mauro Nadvorny | 22 fev, 2020 | Brasil, Justiça, Política
Para completar a “semana jurídica” onde tivemos o juiz federal Bretas (RJ) adulando Bozo em cerimônias públicas, o que fere o código da magistratura, e Moro jogando Lula no alçapão da lei de segurança nacional (até onde sei a PF rejeitou a queixa), a presidenta da 1a. câmara do TRT Região 15, Dra. Olga Aida Joaquim Gomieri disse ser ‘fãzona’ do presidente, que ‘está brilhando’, ‘com muita garra’, fato que foi filmado em plena sessão de julgamento, algo que em uma visão nem tanto alargada fere também o código da magistratura além de ferir o princípio constitucional da impessoalidade na função pública e da isenção na jurisdição.
Não há muito tempo, a desembargadora Dra. Marilia Castro Neves, do RJ, ofendeu gravemente Marielle Franco, acusando-a de ser “engajada com bandidos”, o que lhe valeu a condição de ré por crime de caúnia.
A densidade crescente de maus comportamentos de magistrados, sua ousadia, e a natureza das lesões aos códigos públicos, à Constituição e a qualquer código de ética de um regime democrático de direito, mostram que está em curso uma verdadeira epidemia de algum tipo de desordem cognitiva caracterizada pela incapacidade de compreensão e adequação de comportamentos e instintos atávicos dessas senhoras e senhores.
É claro que o número de ocorrências deste tipo que vêm a público não é em si mesmo alarmante. Mas temos que considerar, como em qualquer dinâmica sócio-cultural, que a aberração que chega à observação plena da sociedade é um mero sintoma de uma condição subjacente de dimensões difíceis de se avaliar.
Como exemplo comparativo, o recente episódio do ex-secretário da cultura do governo federal entoando Goebbels ao som de Wagner postado em imagem rigorosamente construída à semelhança do regime nazista é também sintoma do aparato ideológico subjacente que criou todas as condições para que aquilo ocorresse, o que envolve um grande número de pessoas dos mais variados níveis hierárquicos.
E se temos que nos lembrar do passado nazista, temos que também lembrar que a máquina nazista apoiou-se fortemente no judiciário alemão da época. Em outras palavras, toda a construção nazista foi feita rigorosamente dentro da lei e julgada inocente.
Para muito além do caráter picaresco ou ridículo das cenas que vimos observando, o cenário mostra que pessoas investidas do poder de dizer à sociedade o que é certo e o que é errado, o que é legal e o que é ilegal, o que é criminoso e o que não é, estão com seus sistemas internos de pesos e contrapesos bastante desregulados, o que é um risco gravíssimo à democracia, o que não é tão novo. Talvez a Operação Lava-a-Jato possa ser mesmo vista aos olhos da história como verdadeira inauguração de era.
por Mauro Nadvorny | 21 fev, 2020 | Brasil, Comportamento, Política
Quando eu soube que o Mauro Nadvorny havia criado este novo e muito importante espaço na internet destinado à voz da Esquerda Judaica, e estava convidando outros ativistas a produzir para este juntamente com ele, me perguntei sobre como eu poderia colaborar. Refletindo sobre isto, e levando em consideração que já escrevo artigos e gravo vídeos para outros jornais e canais da Resistência Brasileira, surgiu-me a ideia de produzir aqui textos mais espontâneos, que relatem passagens interessantes ocorridas aqui na Europa (vivo em Hannover, Alemanha), ou opiniões menos analíticas e minuciosas, e mais despretensiosas e instintivas.
Vamos ver no que dá?
Pois bem, hoje eu gostaria de contar a vocês sobre o “desafio” que enfrento todas as vezes que procuro descrever a um alemão (ou a algum europeu de modo geral) a respeito da absurdez dos fatos que ocorrem no campo político do Brasil hoje em dia.
Quando estou em vias de começar a explicar a colegas sobre algum evento brasileiro, já suspiro, pois sei o que me espera. Além dos choques culturais que nunca permitirão que um europeu compreenda que movimentos políticos inventariam e promoveriam mentiras tão baixas como “kit gay” e “mamadeira de p…”, há também no cidadão do velho mundo uma completa incapacidade de assimilar alucinações em um nível que – aparentemente – só ocorrem no Brasil. “Jesus na goiabeira”, “menina de rosa, menino de azul”… É demais para os gringos. “Empregada doméstica ia à Disney”… Eles nem ao menos sabem o que é empregada doméstica (e nem o que é a neo-escravidão ou escravidão moderna).
Desta forma, após algumas tentativas desesperadas de relatar a colegas sobre os inacreditáveis eventos que começaram a se intensificar no Brasil em 2018, desisti de tentar “impressioná-los”. Escrevi entretanto uma formal carta aberta, lida em público na Universidade de Música de Hannover (onde sou professor e pesquisador), carta esta que continha as declarações mais palpáveis do atual presidente (“negros pesados por arroba”, “não te estupro porque você não merece”, “filho gay é melhor morto” e por aí adiante). Esta carta pareceu surtir algum efeito nos ouvintes. Ainda assim, meu trabalho de conscientização do povo daqui sobre o terror que o Brasil vive, é realizado a passo de formiguinha. Mas sigo em frente, pois sei que não haveria de ser diferente.
Enfim, no mês passado, decidi contar aos colegas o mais recente “causo” brasileiro, afinal este teve tudo a ver não somente com a história dos judeus, mas com a dos alemães também. Dispus-me então a explicar que o então Secretário de Cultura, escolhido pessoalmente pelo presidente, havia se filmado proferindo um discurso copiado de Goebbels de forma praticamente literal.
O rosto de meus colegas sugeria que por suas cabeças passava algo do tipo:
-“Acho que o Jean está gozando de nossa cara… Ele acha que somos bobos de acreditar em algo assim?”
Acrescentei então que no cenário do vídeo, cuidadosamente preparado, havia também a foto do Führer brasileiro e a bandeira nacional, exatamente como mandava o figurino hitlerista.
-“Talvez o Jean esteja confuso… Deve ter sido um vídeo de sátira, um esquete… E o Jean provavelmente não saca nada de comédia…”
Prossegui e relatei a cereja do bolo, mencionando que a trilha sonora era a música de Wagner.
-“Ah, o Jean está querendo impressionar a gente, pintando o terceiro mundo como um lugar selvagem, onde políticos podem emular Hitler em plena luz do dia…”
-“Nem o Trump (este nós conhecemos!), que é completamente lunático, fez coisas assim… Todas estas histórias que o Jean nos conta são meio mal contadas…”
-“Além do mais, o Jean é judeu, sul-americano e artista! Com esta combinação, dá para esperar histórias doidas mesmo!…”
Bem, ninguém me disse nada disso, mas é a impressão que tive, rs. Só ficaram me olhando com uma expressão de ponto de interrogação misturada a um ceticismo do estilo “essas histórias não pertencem ao nosso mundo”.
Diante da reação deles, acabei sorrindo/rindo de maneira genuína, mas ainda assim um pouco irônica e desesperançosa. Posso culpá-los por não entender o que ocorre no mundo paralelo e distópico que é hoje o Brasil? Talvez um pouco, pela conhecida alienação “primeiro mundista”. Mas não muito, afinal, a realidade do país de fato não é crível. Parece um pesadelo maluco todos os dias.
Enfim, eu já devo ter escrito isto em algum outro texto, mas cabe escrever aqui novamente, já que estamos falando de europeus, judeus, nazistas, distopias, incompreensões, etc. Sempre penso muito em Stefan Zweig, tanto por ser um de meus pensadores preferidos, quanto por questões pessoais que fazem com que eu me identifique muito com ele. Pois bem, em 1941 ele escreveu o livro ‘Brasil: Um país do futuro’. É um livro que julgo “problemático”, com traços da ingenuidade e da incompreensão europeia sobre o Novo Mundo. Ainda assim, há nele pontos reais, foi escrito por uma grande mente, e fez com que por muito tempo perguntássemos a nós mesmos se a premissa seria verdadeira em algum momento.
Pois é, hoje o Brasil caminha em direção à sua consolidação como a capital mundial do Neonazifascismo. Parece que a intuição de Zweig estava mesmo muito errada. E espero de coração que os europeus – e todos os estrangeiros do mundo – comecem realmente a compreender o que está ocorrendo no Brasil e ajudem a Resistência Brasileira nesta luta que está sendo perdida. Afinal, em breve será tarde demais. E os “causos” que hoje conto por aqui serão compreendidos no futuro apenas como antigas passagens de uma irreversível história de destruição.
por Richard Klein | 20 fev, 2020 | Brasil, Comportamento, Literatura, Livro
Queridos futuros leitores,
Samba Perdido é um livro que acompanha duas buscas por identidade. A primeira é a minha enquanto filho de um sobrevivente do holocausto e de uma judia Londrina na colorida Zona Sul carioca dos anos sessenta, setenta e oitenta. A segunda é a de uma geração que atravessou a ditadura militar para depois enfrentar uma das piores crises econômicas que o país já viveu. As páginas que aparecerão pingadas em capitulos neste blog, são uma homenagem a esses meus companheiros de viajem.
Por uma perspectiva pessoal, semi-estrangeira, tentei dar um depoimento fiel da festa que foram os anos setenta no Rio de Janeiro e da ressaca que veio depois, nos anos oitenta. Vivi a época intensamente, o que me fez arrogar a escrever um livro de memórias. No pano de fundo destes acontecimentos estava o nascimento do mais longo ciclo democrático que já aconteceu no Brasil. O livro está repleto de anedotas, “causos” e reflexões. Devido a meu passado de violeiro e ao clima daqueles tempos, o leitor encontrará um viés musical percorrendo a narrativa.
Aqui cabem três agradecimentos especiais. O primeiro vai para Oliver Marshall, autor e historiador da Kings College de Londres. Talvez graças ao seu parentesco com o autor Austríaco, depois radicado no Brasil, Stephan Zweigg, resolveu me apadrinhar e editar o livro original em inglês, Lost Samba. O segundo agradecimento vai para o tradutor Evandro Veiga, fiel e competente escudeiro na aventura quixotesca de reescrever o livro na língua em que foi vivido. O terceiro vai para meu amigo de longa data, o falecido Fred Gouveia, que editou o a versão em português, e que, por ter passado por experiências parecidas, trouxe mais vida ao escrito. Acima de tudo, estes três me fizeram acreditar no projeto.
Mais do que um relato pessoal em um Brasil que está em risco de extinção, Samba Perdido é um depoimento universal sobre o que acontece quando trilhamos caminhos em territórios desconhecidos e das descobertas que fazemos ao nos abrirmos para o que o universo nos oferece. Embora tenha começado a escrevê-lo quando morava em Jerusalém, este não é um livro sobre judaísmo, mas certamente é um livro sobre um judeu. Ele versa sobre a dança da vida, sobre pessoas – e do que elas têm a oferecer – independentemente da engrenagem em que estão imersas.
Finalmente, gostaria de fazer o quarto agradecimento a Mauro Nadvorny por me oferecer este espaço, lhe mandar um grande abraço e lhe dar parabéns por esta iniciativa de desenvolver uma narrativa diferente para nossa comunidade no Brasil.
Espero que curtam o livro, amor fraternal,
Richard
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por Mauro Nadvorny | 19 fev, 2020 | Brasil, Comportamento, Justiça, Política
SHABAT SHALOM, PAPA FRANCISCO!
Sou judeu e pouco tenho a ver com isso. Mas por ser judeu humanista e universalista não posso deixar de comentar algumas coisas.
Ver católicos revoltados com o Papa por ter recebido Lula no Vaticano é realmente algo inusitado.
Espera-se de um católico (que conheça minimamente a Paixão de Cristo) e outras partes da Bíblia que tenha capacidade de refletir sobre o conceito de pecado, crime, condenação, e sobre o Jesus histórico ou o Jesus homem.
Espera-se de um católico que conheça o fato de que nenhum idiota chega ao papado. Que para sentar-se no trono de São Pedro há de se comer muitos pães amassados pelo diabo. É muita formação, muita informação, muita disciplina, muita continência, muita capacidade. Inclusive sobre leis.
Como judeu, eu poderia até ficar verde de raiva e de sede de vingança contra a Igreja Católica. Mas meu tempo e lugar é outro. O Papa Francisco também está em outro tempo e lugar. Temos a felicidade e o privilégio de poder vê-lo à frente do Vaticano, pedindo perdão pelos erros do passado e lutando para corrigir os atuais.
Assim, é difícil imaginar-me como católico e não me sentir verdadeiramente intimado a uma reflexão profunda sobre o fato de o Papa Francisco receber Lula. Se sou católico observante e conhecedor da Igreja e do Papa, sou obrigado a rever meus conceitos e ideias preconcebidas sobre Lula quando o Papa o recebe. Na realidade, quando o Papa recebe Lula, ele convida todos os católicos que não gostam do Lula a fazer isso. Afinal, tenho que ter como pressuposto fundamental que o Papa tem conhecimentos, experiências e uma capacidade que eu não tenho.
Se como católico, coloco-me acima do Papa, é por que nunca fui católico. Não aprendi nada. Estou condenando uma pessoa simplesmente por que outras o condenaram. Isto, a Bíblia chama de “fofoca”. E penaliza gravemente, especialmente aos judeus, uma vez que este regramento é da Torá, ou Pentateuco, parte das Bíblias cristãs e judaicas.
O Papa sabe que boa parte da Lava-a-Jato é fofoca. O Papa sabe o que é LAWFARE e está protestando contra isso. Para tomar esta posição, ele, além de ser muito sábio e corajoso, está muito bem assessorado. Muito melhor do que pseudocatólicos hidrofóbicos e ignorantes.
Eu saúdo o Papa Francisco! Muito obrigado pela sua coragem!
por Mauro Nadvorny | 19 fev, 2020 | Brasil, Comportamento, Política
O PADRÃO MUDOU. CHIC É SER DESONESTO.
O assim chamado filósofo Luiz Felipe Pondé brinda-nos hoje, com seu artigo na Folha/UOL, com uma verdadeira ode ao pseudoevangelismo que assola o Brasil, defendendo a política pública proposta pela Ministra Damares, que é a da abstinência sexual como forma de prevenção de gravidez precoce e outras questões de impacto social.
Pondé defende que as igrejas evangélicas formam um poderoso vetor de organização social, que na sua descrição, “adiar a vida sexual, principalmente das meninas de classes sociais vulneráveis, é uma ferramenta comportamental de grande uso para evitar a gravidez indesejada, a violência contra a mulher, filhos abandonados que migram para o crime”.
Alega ainda que diante da “falência total do estado” as igrejas vem sendo ferramentas de organização de vidas”, e que “tem alunas que contam que seus pais, evangélicos, mantiveram-nas afastadas do destino mais comum de suas amigas, o de envolverem-se com traficantes que logo são assassinados e deixam filhos órfãos”.
Ele apoia a política de Damares, em síntese.
Como assim? Pode um professor de filosofia de nível universitário, pós-graduado e titulado, defender uma política pública sobre a qual, confessadamente (pela equipe da Ministra Damares) não há evidência científica alguma sobre sua eficácia?
Pode um professor de filosofia aceitar que o tipo de neopentecostalismo praticado no Brasil seja uma boa (e única, a julgar pelo seu texto) forma de se preencher os vazios do estado?
Pode um professor de filosofia induzir seus leitores a acreditar que a simples repressão moralista e vazia de valores sociais estruturantes é capaz de diminuir a violência contra a mulher, logo em um momento em que, associado ao crescimento do neopentecostalismo brasileiro, a violência contra a mulher e os feminicídios crescem epidemicamente?
Pode um professor de filosofia tentar convencer seus leitores com uma absurda visão racista que o crime nasce nas classes mais vulneráveis, quando vemos a violência miliciana crescente e oriunda de ex-oficiais e graduados das polícias?
Amigas e amigos, estamos diante de uma das maiores fraudes intelectuais já vista por estas paragens. Sabemos muito bem que a violência contra a mulher (e também contra os LGBTI) é na maior parte originária do moralismo de fundamento neopentecostal (não exclusivemente) que por sua vez fomenta a sociedade patriarcal machista e intolerante. A visão de mundo provida por boa parte destas igrejas forma pessoas limitadas a um tipo de visão de mundo em detrimento de outras, restringindo assim, especialmente so jovens, o acesso a experiências e diálogos com outros setores do conhecimento e com formas de amadurecimento psicológico, social e político.
Não se trata aqui de promover ódio contra a religião ou de negar seu valor como forma de organização social e cultural. Trata-se de combater a visão de que a religião e seus valores, em um dado momento de uma nação é a única forma (e como já disse, sem demonstração científica) de combater certas mazelas da sociedade, bem como combater a visão racista e restrita sobre a origem de nossos males.
O pior de tudo, a sociedade está engolindo este tipo de fraude e ainda paga por ela. Parece que a desonestidade intelectual passou a ser um valor capitalista, definitivamente.
por Mauro Nadvorny | 19 fev, 2020 | Brasil, Comportamento
Não sei se eram todas, mas existiam escolas judaicas no Rio sob autogestão. Comissões de pais cuidavam da administração, avaliavam a concessão de bolsas de estudo, debatiam linhas pedagógicas. E não apenas as chamadas progressistas, que o faziam por convicção ideológica. O Colégio Hebreu Brasileiro, na Tijuca, com suas tintas conservadoras, era gerido pelos pais de alunos, entre eles o meu. As candinhas diziam, cala-te boca !, que, depois das reuniões, rolava uma cervejinha no bar da esquina, uns tremoços talvez, ninguém era de ferro. A espelunca guardava os segredos daqueles homens castigados por vidas sem poesia.
Num carnaval triste, manhã tão tristonha manhã, o coração do Grande não suportou os pesos que carregava. Disse adeus e foi-se embora. Atônitos, descobrimos o valor que davam ao seu trabalho voluntário, para o qual sacrificava parte da vida afetiva. O Colégio resolveu, então, homenageá-lo. Inauguraram um retrato na secretaria, daqueles bem comportados, meu pai olhando para um infinito que jamais alcançou. O Menino, então, teve uma visão.
O prego onde seria pendurada a imagem começou a se mexer. No início, não acreditou. Coçou os olhos, apurou a vista, mas o metal insistia em se mover, de início lentamente, depois mais atrevido. O mais estranho é que ninguém percebia. Muitos anos depois, lendo o poeta Manoel de Barros, soube que o olho vê, a lembrança revê, a imaginação transvê. Os solenes apenas viam. O Menino teve seu momento transviado.
O prego-libélula ficou à deriva por muitos anos. Silencioso, mas desejante. À espera do porto de outro olhar. E ele chegou. O colégio foi demolido, móveis e documentos velejaram para o exílio e as cinzas, os homens pensaram outras raízes. Um dia, visitei a diretora do colégio onde ganhei maioridade religiosa (que perdi quase em seguida). Divulgava uma videoteca com grande valor pedagógico, oferecida sem custo a todos os colégios judaicos do Rio. Sinal de uma patologia grave, ninguém se interessou. Ao reconhecer meu sobrenome, a diretora pediu que aguardasse um pouco e se retirou para uma saleta contígua. Voltou de lá com uma moldura, que me ofereceu. Antes de identificá-la, percebi um leve movimento, que logo se transformou num voo arisco. Era meu prego-libélula, que, finalmente livre do metal, se aninhou numa folha de mangueira. E partiu em busca de outros Meninos.
Virei a moldura. Era ele, Zissi, meu Velho, que, agora, deixara de procurar o infinito e se satisfazia em achar meus olhos. Podia, enfim, compartilhar sua indiscutível solidão. Saímos por aí, acordando de um sonho estranho, coração de vidro e corte. Coloquei a moldura no meu pequeno altar doméstico, recorte de lembranças que degelam a cada dia. Ali, eu cuido das nossas feridas, dos nossos desassombros. E sou feliz. Somos felizes.
O argentino Alberto Manguel, falando sobre o ato de ler, garantiu que, em meio a um monte de livros, haverá sempre um que está à nossa espera, quietinho, escrito, sabe-se lá como, pensando em nós. Circuitos misteriosos que dão sabor à vida. Buscar esta beleza, em imagens ou letras, é, parafraseando Manoel de Barros, uma solenidade de amor.