por Mauro Nadvorny | 28 jun, 2020 | Brasil, Israel, Política
(publicado originalmente em Brasil247 em 26.06.2020.)
Após um ano e meio de desgoverno, praticamente todos os dias pessoas ainda vêm a mim com as mesmas perguntas: “Por que Bolsonaro ama tanto Israel?” ou “Ele é muito amigo de Israel, não?” ou, ainda pior, “Ele é muito amigo dos judeus, hein?”. E fora perguntas educadas, há também sempre comentários antissemitas em meus textos ou lives, do tipo: “Bolsonaro e Israel são tudo a mesma coisa!” ou “Os judeus amam Bolsonaro porque ele apoia a opressão em Israel.”
Muito bem, sou professor há 20 anos e sei que se uma questão não está esclarecida, a melhor maneira de lidar é repetir a explicação quantas vezes for necessário. Assim, embora eu já tenha escrito outros artigos sobre o tema, cabe sempre mais um. Além disso, novos eventos ocorrem sempre e aumentam os desentendimentos. E a atenção do mundo a Israel, por sua vez, nunca diminui. Parece haver um imaginário quase místico ao redor deste pequenino país (que possui praticamente a metade do tamanho e da população do Estado do Rio de Janeiro, para se ter uma ideia).
Muito bem, vamos lá: a resposta para a questão do suposto amor de Bolsonaro por Israel está resumida no título deste artigo. É simples assim: Bolsonaro não ama Israel, não apoia Israel, não se importa com Israel e isso é completamente claro e evidente em sua agenda. O que ele ama é a direita/extrema-direita que se apropriou de Israel gradualmente na última década, sob o comando do Benjamin Netanyahu. Sim, o “capitão” ama a política e as ideologias do israelense. E uma coisa é totalmente diferente da outra. Apoiar um governo vigente não é apoiar um país e seu povo. Quem de fato apoia Israel deve antes de mais nada atentar para a pluralidade do povo que lá vive. Cerca de um quarto de sua população é árabe e o risco da instalação de uma política de pleno apartheid é cada vez maior. Além disso, a situação de opressão contra os árabes não-israelenses ou palestinos, que vivem na Cisjordânia e em Gaza, é a cada dia mais inaceitável e insustentável. Quem é verdadeiramente amigo de Israel busca chegar a uma situação em que todos no país – e também seus vizinhos – vivam bem, em paz e com dignidade, ou seja, o oposto do que Netanyahu faz e ao que Bolsonaro aplaude.
Deixo muito claro: ao meu modo de ver, Netanyahu é simplesmente a pior coisa que já aconteceu a Israel. Ele é racista, corrupto e possui muito sangue nas mãos. É terrível para os palestinos não-cidadãos do país; é terrível para os árabes israelenses; é terrível para os judeus israelenses que não são direitistas e querem paz e justiça para e com os árabes; é terrível para os judeus da diáspora que não são direitistas pelo mesmo motivo; é terrível para qualquer tipo de contato com o mundo árabe que circunda Israel. Ou seja, ele possui todos os atributos para ser amante de Bolsonaro e, é claro, de Trump, o monstro que representa tudo o que há de pior na essência ianque e que considero também o mais nocivo presidente da história deste país (sim, Nixon e Bush filho eram “fichinha” perto do “very stable genius”).
Estes três estandartes do Neonazifascismo mundial amam somente suas ideologias e seus nefastos projetos. E nada mais. Cada um elege inimigos em seus países (“comunistas” e comunidade LGBT no Brasil; árabes em Israel; imigrantes latinos e árabes nos EUA). Em comum, os três têm o asco pelo pobre, seja ele negro, índio ou parte de outro grupo desfavorecido. Perseguem então os “vilões” de suas nações e trilham a contramão de tudo o que representa Democracia, Justiça Social e Direitos Humanos.
Mas qual é exatamente a razão para esta relação tão estreita entre Bolsonaro e Netanyahu? Pois bem, Netanyahu interessa a Bolsonaro por duas razões principais. Primeira: ao acariciar Netanyahu, o small brother brasileiro agrada seu tão admirado big brother Trump. E como vemos acima na bela charge de meu amigo Renato Aroeira (obrigado pela charge para este artigo, meu caro!), os três “irmãos de fé” passam a formar a perfeita aliança neonazifascista contemporânea, deixando pegadas de sangue por onde passam.
E a segunda razão se dá pelo motivo de que Netanyahu representa a perseguição aos árabes e é o símbolo maior do clamor por uma Israel soberanamente judaica (quase bíblica), e isso agrada uma imensa parte do eleitorado brasileiro: os evangélicos neopentecostais. Estes, que em grande parte seguem a doutrina do Dispensacionalismo, creem que Jesus Cristo retornará ao mundo justamente em Israel, mas somente quando todos os judeus estiverem lá reunidos e o “aceitarem” como o messias (algo completamente contrário ao Judaísmo e que simplesmente não vai acontecer). Mas na mente neopentecostal, vai. E os árabes? Bem, estes devem ser simplesmente varridos de Israel. Ou, se quiserem ficar, terão também de “aceitar” Cristo, ou seja, se converter. Pois é, é mais fácil oprimi-los e expulsá-los, no melhor estilo Netanyahu.
“Ah, mas e as bandeiras israelenses nas manifestações bolsonaristas, não representam amizade entre Bolsonaro e Israel?”, perguntam-me. Respondo: não. Pelas razões doutrinárias que acima expliquei, antes de mais nada é necessário que se saiba que praticamente todas as bandeiras azul-brancas são empunhadas por evangélicos e não por judeus. Os judeus bolsonaristas normalmente não se prestam ao ridículo das manifestações de adoração ao Jair “Messias”, mas sim assistem de longe – do alto de seus olimpos empresariais – o país desmoronar, enquanto os favores econômicos da elite são garantidos. Simples assim: “Rezem para quem quiser, acreditem na fantasia dispensacionalista que quiser, adorem uma Israel cristã o quanto quiser. Contanto que nossa grana esteja garantida, nada mais importa.”
Dito isso, aproveito para fazer uma observação adicional para tentar quebrar mais um esteriótipo equivocado que escuto com frequência: “Os judeus apoiam Bolsonaro porque são todos ricos!” Por favor, né?… Erradíssimo. Existem no Brasil judeus ricos, não ricos, de classe média, de média baixa e até muito pobres, que necessitam de programas sociais e caridade para sobreviver. E todos estes, como toda a comunidade, também se dividem entre pró-Bolsonaro e anti-Bolsonaro.
Em suma, a relação dos judeus brasileiros com Bolsonaro é completamente mista. Ele é apoiado por uma metade da comunidade e rejeitado pela outra. E é combatido diariamente por algumas das mais ativas e militantes instituições contra o seu governo (‘Observatório Judaico dos Direitos Humanos no Brasil’, ‘Judeus pela Democracia’, ‘Judias e judeus com Lula’, ‘JUPROG (Judeus Progressistas)’, para citar algumas).
Enfim, cabe ainda acrescentar que este movimento neopentecostal é também um enlatado norte-americano que como sempre grande parcela do povo brasileiro consome de olhos fechados e com servil reverência. Os ‘evangelicals’, como são por lá chamados, possuem grande poder no país e seu símbolo maior atualmente foi cuidadosamente escolhido por Trump como seu vice-presidente, o de modo igual perigoso Mike Pence. Assim, uma espécie de “sionismo cristão” ascendeu, algo que é claramente nocivo para judeus (pois advoga por um judeu não-judeu, um judeu cristianizado), para muçulmanos e também para cristãos não-pentecostais. E Netanyahu se importa com isso? Não também. Sua mentalidade se concentra em metas muito bem definidas, das quais ele nunca desvia os olhos: contanto que apoiem seu projeto de subjugar os árabes israelenses a cidadãos de segunda classe e de usurpar os territórios palestinos, ele faz qualquer aliança, até mesmo com líderes que incitam o antissemitismo (ou melhor dizendo, o antijudaísmo), como os próprios Bolsonaro e Trump. (Aqui é necessário um adendo: embora relacionado com o assunto do “amor” de Bolsonaro pelos judeus e por Israel, não entrarei no tema do imenso ‘antissemitismo na Era Bolsonaro’, pois esse é um tema que merece ser tratado à parte. Mas anuncio aqui que o ‘Observatório Judaico dos Direitos Humanos no Brasil’ está preparando um documento completo sobre este específico assunto, que será publicado em breve, quando completa-se 18 meses da atual presidência. Aguardem.)
Já vimos o interesse de Bolsonaro em Netanyahu. Qual é a reciprocidade para o israelense então? Bem, o brasileiro é tanto um aliado na ONU, quanto pode tornar-se um parceiro mais próximo economica- e até militarmente. Desta forma, em termos diplomáticos, a trica ultradireitista vota sempre em uníssono quando se trata de qualquer resolução que concirna aos planos de Netanyahu. O Brasil é um país grande e importante na América Latina e tê-lo ao seu lado nesta aliança ultradireitista é um grande ganho para este que pretende se tornar uma espécie de “rei moderno de Israel”.
E desta forma chegamos à principal notícia do momento no Oriente Médio: com o aval de Trump (e do irmãozinho brasileiro ao seu lado lhe dando a mão), um dos maiores passos para a anexação definitiva da Cisjordânia está prestes a ocorrer. Compreendam: isto é uma catástrofe para os palestinos, pois sacramenta de vez a ocupação de suas terras. Mas não é somente isso. Esta ação afeta também toda a região e pode implicar até mesmo no rompimento de acordos de paz entre Israel e alguns países vizinhos. Só mesmo a configuração atual do mundo, com Trump no poder e seus aliados de peso, poderiam permitir que isso ocorresse. É a tempestade perfeita sobre a árida “terra de Deus”.
Vejam, se amanhã o governo netanyahista caísse e – por um milagre – Israel voltasse a ser governado pela Esquerda (como foi por décadas) e as negociações de Paz com os palestinos fossem retomadas e progredissem, como aconteceu na época de Yitzhak Rabin, certamente Bolsonaro não teria absolutamente nenhuma amizade com Israel. E a mesma lógica serve para a relação com os EUA. Se em novembro próximo Biden vencer, veremos uma mudança drástica na relação entre Brasil e EUA. E se Bernie Sanders – para mim o maior político do mundo nas últimas décadas – vencesse, a devoção e a continência de Bolsonaro pelo Tio Sam desapareceria imediatamente.
Por fim, cabe ainda comentar mais uma novidade que surgiu nas últimas semanas: a questão da presença da bandeira palestina em manifestações pró-democracia no Brasil. Primeiramente digo que pessoalmente vejo a presença desta flâmula com ótimos olhos, pois nós judeus progressistas e humanistas somos também ativistas pela causa palestina. Para nós, não há Israel livre, justo e seguro, sem um Estado Palestino livre, justo e seguro. Assim, nestas demonstrações brasileiras, ao lado das bandeiras palestinas, há também sempre representações judaicas, ainda que não empunhando a bandeira israelense. É um erro imenso e um grande desconhecimento de causa pensar que estas bandeiras são antagônicas. O mal uso da flâmula israelense – seja por parte de evangélicos que sequestram símbolos judaicos ou por parte de judeus bolsonaristas – não tem o poder de decretar que Israel e Palestina (ou judeus e árabes) estão cada um em um lado, antidemocrático e democrático. Esta simplesmente não é a realidade destes povos nem no Oriente Médio nem na diáspora.
Em janeiro de 2020, no grande evento do grupo ‘Judias e judeus com Lula’, em São Paulo, (com a presença do próprio Lula, de Haddad, de Gleisi e diversas outras personalidades da Esquerda brasileira), era possível ser vista a bandeira israelense ao lado da palestina na decoração do espaço, feita pelos organizadores do evento.
Enfim, espero que este artigo ajude os brasileiros a compreenderem um pouco mais sobre este complexo cenário. É fundamental que a Esquerda brasileira assimile estes conceitos e compreenda os contextos, para que a verdade supere generalizações, esteriótipos e distorções que levam à intolerância dentro da própria esfera da Resistência no país. A consciência sobre o contexto mundial e uma visão panorâmica sobre temas contemporâneos são essenciais para que não ajamos com a mesma postura racista e ignorante que tanto desprezamos no bolsonarismo, no netanyahismo e no trumpismo.
por Richard Klein | 27 jun, 2020 | Brasil, Comportamento, Crônica, Literatura, Livro
Quando garotos chegavam à puberdade, depois de passarem pela introdução visual e manual trancados no quarto ou no banheiro, seguiam a tradição de serem iniciados no sexo ou por uma doméstica ou por uma profissional. De uma hora para outra, parecia que todos já haviam transado menos eu e os amigos mais chegados. Como nenhum de nós tinha empregadas gostosas e disponíveis, o jeito seria recorrer às profissionais. Dada a nossa limitação orçamentária, todos os dedos apontavam para a mesma direção: a famosa Casa Rosa.
Em famílias locais tradicionais, os pais levavam os filhos para o evento ou pelo menos patrocinavam a excursão. Esse certamente não seria o meu caso. Com Rafael já na casa dos 75 anos, sexo não era provavelmente praticado muito menos discutido em casa, nem mesmo em piadas. Para ele, a libertinagem era uma coisa para domésticas e favelados promíscuos. Nunca aceitei isso, mas não pude deixar de assimilar parte da ideia de que o sexo era algo intrinsecamente sujo e que deveria ser ocultado da sociedade educada. Mesmo assim, já enjoado da minha mão, não via a hora de ser iniciado. Com isso em mente, eu e meus amigos ficamos meses juntando dinheiro para uma ida à Casa Rosa.
Finalmente o grande dia chegou. Numa tarde de sábado, marcamos de nos encontrar após o almoço para ir a nossa expedição erótica. Só que na última hora, quando estava preparando para sair recebi um telefonema do Maurício, meu melhor amigo e comparsa mor nessa aventura. “O Roberto me ligou dizendo que vai ao cinema hoje à tarde.”
“Para o cinema?! Como?! Já não tava tudo marcado!?”
“Pois é, ele disse que tinha esquecido. Que babaca né?”
“Esqueceu o caralho!! O veadinho amarelou!”, respondi com raiva. “E agora? Estou com a grana aqui. Como é que a gente faz? Vamo lá de qualquer maneira!”
“Olha, falei com meu pai e ele disse que só me deixa ir se for com o Roberto.” Maurício era medroso.
“Foda-se teu pai, Maurício! A gente pega um táxi e vai lá. Como é que ele vai saber? Se perguntar sobre a grana, fala que a gente foi no cinema e depois você me emprestou também. Sei lá, inventa!”
“Não dá, Rique. Já falei com o Jaime, com o Mário e com o Leo e ninguém vai. Se você está com tanta vontade, vai sozinho.”
A resposta mesquinha matou o papo. Não tinha coragem para ir pela primeira vez a uma zona sozinho. Mais tarde fiquei sabendo que até o pai do Roberto tinha ficado zangado com ele.
Algumas semanas mais tarde, consegui convencer os outros a ir sem um “guia”. Os pais deles liberaram e partimos para a Casa Rosa. Pegamos um táxi da casa do Léo em Copacabana sem saber ao certo como chegar lá, mas quando o motorista escutou “Rua Alice”, sabia exatamente onde era e o propósito daquela corrida.
Na ida, ficamos discutindo se deveríamos mentir sobre a nossa idade. Jaime, um cara mais ajuizado, porém cagão, falou: “Não sei se vão deixar menores de idade entrar lá, é melhor a gente dizer que tem dezoito anos.”
“Está maluco?! Você acha que a gente tem cara de dezoito anos? Olha só para a cara do Léo? Dezoito anos nem fodendo!”
“Tá bom, a gente diz que tem dezessete.”
Maurício, que gostava de ser o conciliador da turma, concordou. “Dezessete é um bom número, é quase dezoito e vai trazer mais respeito com as putas.”
Eu, que já estava me perguntando o que é que estava fazendo no táxi com aqueles panacas, intercedi. “Cara, se a gente falar que tem dezessete anos, a vamos parecer mais retardados do que a gente já parece. Vamos fazer o seguinte, cada um fala a idade que quiser.”
“Mas e se não deixarem a gente entrar?”
“Você já viu puteiro recusar cliente?”
A gente já estava em Laranjeiras. O motorista, que tinha ficado quieto durante a discussão mas que devia estar rindo por dentro, subiu uma ladeira e parou em frente a um casarão.
“É aqui.”
Depois de fazer a “vaquinha” para pagar o taxista, a gente saiu. A Rua Alice era bonita, arborizada e tranquila. O casarão chamava atenção com seu glamour desbotado de épocas gloriosas de um prostibulo de luxo e ficava atrás de um muro. Os dois eram de fato pintados de rosa. Assim que o táxi partiu, percebemos um carro de polícia estacionado logo depois da curva, o que fez com que o Jaime quisesse desistir.
“Quer ficar calmo, Jaime? Puta não morde!”
Quando estávamos para tocar a campainha, a porta se abriu e um grupo de policiais, uns ainda ajeitando o uniforme, saiu e nos cumprimentou com sorrisos cúmplices. Uma velhinha com cara de mafiosa apareceu logo atrás, deu boas vindas, nos levou até a recepção e desapareceu para dentro do casarão. Fomos sentar ao redor de uma mesa de madeira perto de uma pista de dança vazia e ficamos esperando. O silêncio nervoso era quebrado pelo show de samba que estava passando numa TV preto e branco. Ao lado havia luzes piscantes que subiam uma escadaria em cima de um balcão. Nele havia duas tabelas de preços penduradas: uma para bebidas e outra para programas.
Uma a uma, as garotas vieram descendo para a matinê. Nem de longe elas lembravam as beldades inacessíveis que enchiam nossa boca de água nas praias e nas revistas, mas pelo menos eram mais jovens e mais bonitas que nossas empregadas. A madame veio logo atrás, apontou para nós e disse:
“Está na hora do leite das crianças.”
Estavamos tão apavorados que elas nos escolheram, não o inverso. Quase sem dizer nada, nos levaram de volta para seus quartos. Quando a ação estava para começar, ouvi alguém bater o joelho contra a cama. A julgar pela reação, dava para sentir que tinha doído. Deu para ouvir a voz do Maurício gemendo através da parede fina de madeira e ele pulando de dor. Deu vontade de rir, mas, como todos, estava tenso demais para saber o que fazer.
Minha garota era mais bonita, branca, magra e nova que as outras e tentou me acalmar. “É a tua primeira vez aqui?”
Pensei em mentir, mas respondi que sim com o coração disparado.
Ela continuou. “Você me lembra um menino que esteve aqui na semana passada.”
Enquanto falava ela foi tirando a blusa e depois o sutiã e exibindo seus seios. Talvez pela minha cara hipnotizada ela deu uma risada. “Fica calmo, pode tirar a roupa também.”
Meio desconfortável, fui me despindo enquanto admirava seu corpo já nu. A situação me fez lembrar as cenas de abertura desengonçadas dos filmes pornôs. Quando estava pronto, me recostei no travesseiro e ela veio se deitar do meu lado. O colchão era duro e áspero.
“Meu nome é Lu e o teu”
“Rique.”
“Que nome bonito. É Rique de Henrique?”
“Não, de Richard.”
“Nossa, nome de lorde!” Ela deu outra risada e, vendo que ainda estava sem jeito, olhou para os seios depois para mim e me convidou: “Pode tocar se quiser.”
Nunca tinha visto peitos nus ao vivo antes, muito menos tocado. Coloquei as mãos e gostei. Depois, tomei coragem e comecei a explorar seu corpo, sem fazer a festa que tinha planejado, mas curtindo mais do que tinha imaginado. Sua pele nua era macia, morna e muito gostosa. Me sentindo ousado, coloquei minha boca nos bicos, ela pareceu gostar e depois de uma sessão mais intensa de bolinagem, já estava pronto. Ela se posicionou, me olhou nos olhos e disse.
“Vem, menino!”
O ato foi rápido e decepcionante, mas pelo menos contou como minha iniciação de “amante latino”. Não fui o primeiro a aparecer no andar de baixo, o que me fez sentir melhor. Depois de todos pagarem, descemos a ladeira tirando sarro do joelho e do orgulho dolorido do Maurício.
“E aí Mauricio? Qual era o tamanho do pau com que ela te bateu? “
…
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por Mauro Nadvorny | 25 jun, 2020 | Brasil, Comportamento, Opinião, Política
Respeito quem acha que somos 70%, os que se opõe a Bolsonaro. Aí incluídos os que resistem desde antes da sua eleição e os que se arrependeram de ter votado nele. Entendo a posição de vocês de que devemos nos unir com aqueles que foram responsáveis por esta tragédia em nome do bem maior. Mas, me desculpem, eu estou fora.
Nestes dias, mais uma expoente da intelectualidade brasileira, a escritora Lya Luft, deu uma entrevista contando seu arrependimento em ter votado em Bolsonaro. Mais uma do grupo de arrependidos que deveria ser cumprimentada por se somar aos 70%. Eu postei na hora: “Não sei o que me causa mais asco, se a Lya Luft dizendo que votou no Bozo, ou explicando que se arrependeu.”
Eu posso compreender as razões que levaram a massa de manobra a votar em Bolsonaro. Entendo todas a tiazinhas do WhatsApp que tiveram certeza da existência do Kit Gay e da Mamadeira de Piroca. A falta de conhecimento, de bom senso, de estudo, de cultura, de condições financeiras, enfim, todos os componentes que levam algumas pessoas a acreditarem no que os amigos acreditam.
O que eu nunca vou aceitar é o grupo que ela representa ter votado nele. Os esclarecidos, os que estudaram, os que leram, os cultos, os de boas condições financeiras, os capazes de discernir entre o bem e o mal. Estes não merecem o meu perdão.
Se engana quem pensa que os Nazistas chegaram ao poder apoiados somente pela classe baixa alemã. Quem levou Hitler ao poder foram os intelectuais, os cultos, os letrados alemães que votaram nele e aproveitaram para lucrar com os despojos dos judeus.
Lya Luft representa a classe alta, branca, cristã, escritora, intelectual e boa mãe de família. Uma racista, homofóbica, misógena que apoiou um Fascista que enaltece torturadores. Como perdoar uma criatura destas? Existe algum perdão que faça com que ela se transforme em uma pessoa normal, humanista que respeite o próximo? Que mágica seria esta? Isso é pura fantasia. Ela é o que é, e a esta altura da vida, nunca vai mudar.
Ela é da mesma classe de alemães que sabiam o que estavam fazendo. Bolsonaro nunca escondeu o que era. Seu apoio aos torturadores e assassinos da ditadura eram repetidos a cada entrevista sua. Seu desprezo pelas minorias era sua marca registrada. Ela sabia disso e ainda assim escolheu votar nele a um professor. Que fosse em Amoedo, mas não no fascista. Que fosse em branco, mas nunca em um genocida.
Não tem perdão! Eu não perdoo, como não perdoo os nazistas. Ela tem o meu total desprezo por sua contribuição para levar uma família miliciana ao poder. Uma família que assiste as mortes diárias de brasileiros, vítimas do Covid-19, sem nenhuma comoção. Mais de mil mortes ao dia e o eleito por ela é incapaz de uma demostração de empatia e de ações de combate a pandemia.
Ela e os Lobões arrependidos, que aceitem o que são, será melhor assim. Vocês podem dizer agora que se arrependeram, mas o resultado é o mesmo. O mal que vocês causaram ainda está aí e nada do que vocês disserem vai mudar isso. O Brasil não precisa de vocês.
Eu consigo me imaginar perdoando as massas de manobra. Aqueles que não tiveram capacidade de compreender o que estava acontecendo e, principalmente, as consequências de eleger Bolsonaro. Estes, na minha opinião, são os que vão ajudar a derrotar o fascismo, não a elite brasileira do Zé Carioca da Havan.
Desde já deixo claro que nada contra os companheiros da resistência que pensam diferente. Apenas o meu pedido de que aceitem a minha maneira de pensar e sigamos na luta.
por Mauro Nadvorny | 24 jun, 2020 | Brasil, Comportamento, Opinião, Política
O arrependimento público e publicado da escritora Lya Luft na “cuestão” de seu voto em 2018, que foi um dos votos que entre outros votos e outras omissões nos trouxe a esta quadra. “Não havia outras opções, e deu no que deu”, é a síntese de seus argumentos.
A publicação reacendeu com gasolina o debate sobre a outra questão, a dos arrependidos e a dos movimentos pró-democracia que se aglutinam no momento em torno de diversas figuras do mundo político às quais o ex-presidente Lula recusa-se (corretamente, ao meu ver) a aderir.
Importantes pensadores aos quais dedico a devida vênia classificam como prioritário o foco no combate ao fascismo e a este governo como forma de derrubá-lo e abrir o caminho para um mínimo retorno à ordem institucional democrática.
Outros, chegam a fazer uma crítica à visão moralista que setores da esquerda aplicam ao grupo dos arrependidos.
Mas, ao meu olhar clínico, temos um problema de diagnóstico diferencial. Por que o problema não é o governo atual. Insisto que a situação atual é uma resultante de múltiplos vetores que não obstante suas diferenças de orientação e intensidade tem algumas origens e destinos comuns: o antipetismo radical, o antiesquerdismo, o anticomunismo, o lavajatismo, a “venezualização” do debate político, a fobia propagada e contagiosa do tal “Foro de São Paulo”, o terraplanismo, o olavismo, e enfim, todo o extenso cardápio da direita fascista e ignorante que sufocou a sociedade com desinformação, mentiras, delírios e alucinações.
Assim, um arrependimento que não passe pelo reconhecimento de uma ignorância vultosa sobre a realidade brasileira (e global) e que não passe por um processo de extensa revisão dos mecanismos de avaliação da realidade não conduzirá o arrependido a um novo ponto de vista do qual consiga vislumbrar com mínima clareza que as melhores verdades para o nosso país passam por um amplo espectro de abordagens, objetivos e meios. Por que a primeira coisa que esta pretensa coalizão democrática que pretende aglutinar FHC, Huck, Sérgio Moro, Dória, entre outros fará, é jogar a parte “esquerda” do pacto ao mar, na primeira oportunidade, e trabalhará arduamente para reagrupar o pacto da direita em torno do projeto neoliberal que não saiu da pauta.
Como sempre digo (e é o que deu título ao meu primeiro livro publicado), o meu diagnóstico segue as doutrinas clínicas, e o diagnóstico etiológico é fundamental para o tratamento e eventual cura para qualquer doença. A etiologia do processo que levou Bolsonaro ao poder continua bem viva como a bola na marca do pênalti. A parte que não deu certo no grande golpe e sua continuidade foi apenas o surfista da onda, que como tudo no nosso capitalismo, é descartável.
Até prova em contrário, robusta e incontestável, os arrependidos não são confiáveis. Eles apenas admitem que Bolsonaro foi um erro. E nada mais. E Bolsonaro é apenas um acidente de trajeto. É mais do que certo, a não se mobilizarem em um grande esforço intelectual, que também, na primeira oportunidade, arrumarão outro diabo que os carregue.
por Richard Klein | 20 jun, 2020 | Brasil, Comportamento, Crônica, Literatura, Livro
Capítulo 10
“... naturalmente minha mãe dizia,
Ele é uma criança não entende nada,
Por dentro eu ria satisfeito e mudo
Eu era um homem que entendia tudo.”
Erasmo Carlos – Não Entendo Nada
Segunda geração de Brasil, bem mais novo que Rafael, Daniel, o pai do meu amigo Avi, não teve a mesma sorte com a queda da bolsa de valores. Junto com a manada, perdeu muito dinheiro e talvez por isso morassem em um apartamento abafado em Copacabana.
Gostava dele. Por trás das feições duras, bigode espesso e olhar frio, havia uma personalidade simpática e generosa. Ele estimulava a amizade com seu filho gorducho por me considerar uma influência saudável. Mesmo sendo magro que nem um bicho-pau, em vez de passar o dia todo assistindo televisão e me entupindo de doces, jogava bola direto e ia para a praia fazer bodyboard.
Por isso, nossa amizade girava em torno de esportes. Nos fins de semana ou ele vinha comigo ao clube, ou íamos praticar alguma atividade ao ar livre com Daniel. As opções eram caminhadas na Floresta da Tijuca ou piqueniques em praias distantes. A tarde, como compensação pelos esforços matutinos, acabávamos em um dos muitos parques de diversões que viviam abrindo e logo depois fechando em terrenos baldios nos arredores e pela Zona Sul afora.
Depois que descobrimos o skate, nosso lugar favorito passou a ser o Aterro do Flamengo. Esse era um parque enorme ao longo da Baía de Guanabara, construído durante o governo Juscelino Kubitschek como uma forma de compensar o Rio de Janeiro por ter perdido seu status de capital nacional. A despeito do custo gigantesco de aterrar a baía e da decoração do melhor paisagista do país, Burle Marx, o que a cidade acabou recebendo foi um tremendo monumento à chatice.
Apesar de seus vários campos de futebol viverem cheios, as “atrações” do parque enorme incluíam o Museu de Arte Moderna que raramente tinha trabalhos empolgantes para um adolescente, uma área para se voar aeromodelos de brinquedo, um lago para barcos em miniatura, um memorial para os soldados brasileiros mortos na 2ª Guerra Mundial, playgrounds de concreto para crianças e um avião antigo para pessoas que nunca tinha entrado em um entrarem para ver como é que era. Mesmo assim, o cimento liso do seu passeio público e com várias rampas suaves eram ideais para skatistas iniciantes.
Nós dois tínhamos o mesmo skate: o horroroso Torlay, fabricado no Brasil. Era uma tábua dura de madeira com dois pares de rodas de borracha vagabunda presos embaixo. Eles quebravam toda hora e faziam a gente passar vergonha quando apareciam outros meninos andando em skates importados com rodas de poliuretano semitransparentes e com shapes de fibra de vidro. Além disso, para falar a verdade, a gente era ruim demais, típicos nerds tentando tirar onda. Os caras da gangue da minha rua – que de alguma forma também arrumavam skates importados – davam de mil na gente, isso sem falar dos californianos que apareciam na revista Skateboarder realizando manobras impressionantes em piscinas vazias.
Um dia, talvez para levantar nosso moral, o pai do Avi levou sua câmera Super 8 para filmar nossas performances. Eu nunca tinha visto um aparelho daqueles antes na vida e, percebendo minha curiosidade, Daniel me perguntou se queria dar uma olhada.
“Quer ver como funciona? É fácil. Você olha por este visor aqui, aponta a câmera e foca com esta rodela aqui.” Por estar sempre mexendo com a câmera dos meus pais, entendi na hora. “Para filmar é só apertar este botão aqui. Quer experimentar?”
Ele colocou a caixinha futurística na minha mão e, depois de explicar tudo de novo e de se certificar que tinha entendido, me liberou o aparelho. “Só filma quando você tiver certeza de que está tudo em foco e de que você sabe o que vai filmar, senão vai gastar filme à toa.”
Falei que estava tudo bem, esperei o Avi começar, mirei a câmera e consegui gravá-lo descendo e passando pela nossa frente. Quando parei, o Daniel pegou o aparelho de volta para examinar um mostrador na lateral do aparelho
“Filmou! Parabens! Ainda faltam mais trinta segundos.Ele me olhou meio confuso. “Vou guardar porque a gente ainda tem que gravar a visita na casa da tia do Avi na semana que vem.”
Depois, guardou o aparelho sem me perguntar se também queria ser filmado. “Quando revelar a gente te convida para dar uma olhada, tá bem?”
Ninguém notou o quanto tinha ficado embasbacado com aquilo. Aquele aparelho de capturar tempo, cheio de botões de controle e com luzinhas futurísticas piscando no visor era a coisa mais incrível que já tinha tocado. Fantástico demais para se traduzir em palavras. Depois daquela manhã o interesse pelo skate evaporou. Quando me convidarem para ver o resultado, o entusiasmo aumentou e não conseguia pensar em outra coisa. Aquilo era magia em estado puro, tecnologia de ponta, quase igual ao aparelho utilizado para fazer o 007 e os faroestes de John Wayne.
Minha obsessão fez com que pedisse uma câmera Super 8 e um projetor como presente de Bar Mitzvá. Esse pedido era quase um mandamento divino para um pais judeu. Tive a sorte dele poder ter me atendido. Com um equipamento meu, a obsessão só aumentou. Minha mesada ia toda para comprar filmes com os quais registrava férias, idas à praia, passeios na Floresta da Tijuca, surfistas pegando onda, gente jogando futebol, festas e qualquer outra coisa que desse na cabeça. Quando os cartuchos de três minutos e meio acabavam, mandava para revelar. Quando voltavam, reunia amigos e a família no escuro do quarto e projetava o filme na parede branca.
As estréias eram grandes eventos. Antes da apresentação, passava dias editando cuidadosamente as cenas com um cortador de película, colando os pedaços com cola especial e revisando os cortes em um precário retroprojetor. Meu quarto cheirava à cola química e havia tiras de filme penduradas por todo lado. Mas como dizem, me sentia feliz como um pinto no lixo.
*
Esse interesse ganhou uma nova dimensão durante uma viagem de férias da família a Bariloche, uma pequena cidade turística nos Andes argentinos com uma atmosfera europeia que dava a visitantes brasileiros – e aos nazistas escondidos ali – a impressão de estar no Velho Continente.
Um dia, saímos de barco numa excursão para uma ilha no enorme lago Nahuel Huapi. O lugar era tão bonito que artistas de Walt Disney tinham viajado até ali em busca de inspiração para criar os cenários do filme Bambi. No entanto, não demorou para a viagem se tornar chata. Não conseguindo aguentar as piadas forçadas e as conversas sobre meu futuro, saí da cabine e fui me juntar a um grupo que estava jogando pão às gaivotas lá fora.
Cerca de meia hora depois, meu pai também saiu, aparentemente para acabar com a festa. O vento estava forte. “Richard, o que você está fazendo sozinho aí? Não está com frio?”
“Não. Pai, olha só que legal essas gaivotas mergulhando para pegar o pão.” Joguei um pedaço e uma das aves planando sobre o barco mergulhou a toda velocidade e conseguiu pegar a comida antes que caísse na água.
Rafael me deu um sorriso. “Vamos entrar para um chocolate quente?” Vendo que não tinha me convencido, emendou. “A gente conheceu um senhor inglês lá dentro que tenho certeza de que você vai gostar.”
“Por quê?”
“Porque ele é diretor de cinema.”
Bill era um cara grande nos seus cinquenta anos, largado, barba mal feita, olhos verdes e vivos e com um papo de bon-vivant. Se deleitando num copo de whisky, me contou que estava na América Latina fazendo um documentário para a BBC sobre um explorador que no século 19 havia viajado a cavalo desde a Argentina até os Estados Unidos. Quando explicou aquilo, achei que era a coisa mais incrível que alguém jamais poderia fazer – não ficar meses a fio andando a cavalo – mas viajar para rodar um filme. Decidi naquele momento que essa era a profissão que queria seguir quando crescesse.
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De volta ao Rio, fiz um curso de Super 8 onde acabei escrevendo um roteiro e dirigindo um curta-metragem. O filme, “Cheque Mate”, combinava duas histórias paralelas: a de um homem jogando xadrez com uma pessoa que ninguém via, e o romance do mesmo personagem com um manequim feminino que tinha roubado de uma loja. Ao final do filme, ficava-se sabendo que o protagonista estava jogando contra a manequim de plástico. Ele joga o tabuleiro para o ar dizendo numa voz lenta e melancólica “Minha vida foi um jogo de xadrez.”
Como qualquer diretor moderno da época, nunca vou saber o significado de meu filme. Anos depois, fiquei lisonjeado ao ver um filme de Ingmar Bergman, O Sétimo Selo, e perceber estarrecido que tinha um enredo parecido ao meu. A diferença sendo que era um longa-metragem aclamado no mundo inteiro e o herói jogava xadrez com a morte.
Os organizadores do curso gostaram do resultado e acabaram levando o filme para vários festivais latino-americanos de cinema feitos por jovens, o que me encheu de esperança e de orgulho.
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Quando entrei na fase mais hormonal da adolescência, meus amigos e eu começamos a usar o projetor para um tipo muito menos pretensioso de filme. Qualquer um que conheça do assunto vai concordar que os anos 1970 foram a era de ouro dos filmes pornôs: a depravação era autêntica e deixava garotos como a gente enlouquecidos. Havia centenas de filmes Super 8 suecos saindo clandestinamente das bancas de revista e indo para o fundo de nossos guarda-roupas. Por causa disto, meu projetor se tornou um equipamento raro e cobiçado na turma. Acabei tendo a ideia de emprestar o aparelho em troca de poder ficar com os filmes por alguns dias. Essa atividade secreta acabou sendo o começo do fim do meu sonho nunca concretizado de me tornar cineasta. Sem ninguém para compartilhar minha paixão, a carência de cursos decentes e a falta de encorajamento por parte de meus pais, meu interesse, embora sempre presente, acabaria se dissipando na psicose tropical.
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por Mauro Nadvorny | 20 jun, 2020 | Brasil, Opinião, Política
Flávio Bolsonaro está em apuros, isso é inegável. Ele sabe que o cerco está se fechando e acha que seus problemas se devem a eleição de seu pai para presidente. Em postagem recente no Twitter afirmou “ Encaro com tranquilidade os acontecimentos de hoje (se referindo a prisão de Fabrício Queiroz). A verdade prevalecerá! Mais uma peça foi movimentada no tabuleiro para atacar Bolsonaro. Em 16 anos como deputado no Rio nunca houve uma vírgula contra mim. Bastou o Presidente Bolsonaro se eleger para mudar tudo! O jogo é bruto!”
Antes de comentar sobre isso, gostaria de mostrar alguns dados sobre a Alerj. Até janeiro de 2019 o número de cargos vinculados aos gabinetes dos deputados era de 20 vagas que podiam ser desmembradas em até 63 postos de trabalho. Agora o desmembramento poderá chegar a “apenas” 40 vagas.
O fenômeno da “rachadinha” é um velho conhecido da política brasileira. Basicamente consiste na divisão do salário do assessor com o parlamentar que o contratou. Ela é considerada comum em outras casas legislativas, tais como Câmaras de Vereadores, Assembléias Legislativas e até no Congresso Nacional, e resultou em várias denúncias contra parlamentares no Supremo Tribunal Federal (STF) por configurar crime de peculato.
Esses crimes são de difícil apuração, porque geralmente envolvem saques de baixas quantias em dinheiro, com o objetivo de não alertar os órgãos de controle, e pagamentos em dinheiro vivo. Os órgãos de investigação conseguem avançar nas suspeitas quando algum ex-funcionário decide contar o que sabe, o que raramente acontece. Na maioria das vezes o benefício é mútuo.
Na Alerj o salário de um assessor parlamentar parte de uma salário mínimo e com os acréscimos de todos os penduricalhos permitidos legalmente, pode chagar a mais de R$ 20.000,00. Como se pode ver, a “rachadinha” aumenta o rendimento do parlamentar em muito. Normalmente este retorno acontece em dinheiro vivo e paga as contas do parlamentar e de seus familiares. Como as movimentações acontecem com baixos valores, não chamam atenção. Assim, ele foi flagrado fazendo 48 depósitos de R$ 2.000,00 em um Caixa Eletrônico.
Por exemplo, posso citar a Assessora Parlamentar Aparecida Santos Dias Braga que recebe R$ 21.724,50 reais líquidos. A fonte é a Folha de Pagamentos de Abril 2020, disponibilizada no Portal da Transparência.
Com este artifício, Flávio Bolsonaro conviveu por 16 anos na Alerj, tendo como seu principal assessor Fabrício Queiroz, que se encarregava de receber a “rachadinha” dos funcionários e administrar o “fundo de reserva” do patrão.
Fabrício Queiroz pode ser a bola da vez, mas é preciso deixar claro que existem inúmeros casos iguais acontecendo todo final de mês por todo o Brasil. A maioria das “rachadinhas” acontece com pessoas amigas ou conhecidas que recebem este dinheiro como um bônus a mais em suas vidas. Na realidade, sequer batem ponto no gabinete do parlamentar. Não há do que reclamar.
Flávio Bolsonaro vai fazer o possível para atribuir a investigação sobre ele a perseguição jurídica e política que seu pai está sofrendo. O choro é livre. De fato, caso sua família tivesse permanecido na sua insignificância e mediocridade política, nada disso estaria acontecendo. No entanto a ganância falou mais alto, e eles vão pagar caro por isso. Não, ele não está tranquilo e se a verdade vier a tona, vai estar acabado.
Se Queiroz abrir o bico e disser tudo o que sabe, Flávio Bolsonaro pode estar com seus dias contados como Senador, provavelmente abrindo também o caminho para o Impeachment de seu pai. As relações criminosas da família podem vir a tona através de seu mais fiel funcionário.
O jogo é bruto!