Por que Impeachment

Ainda há aqueles que, como o presidente do PSDB (outrora um partido respeitável) defenda o diálogo com o capitão, em nome da concórdia. Como se isso fosse possível. Conversar seriamente com Bolsonaro é o mesmo que negociar com o Estado Islâmico, como havia proposto Dilma Rousseff, na tribuna da ONU.

O presidente é a encarnação do mal, pelo que faz, pelo que não faz, pelo que diz, pelo que silencia.

O papel do presidente da República não é apenas propor reformas através da lei. Longe disso.

Todos os líderes populistas atuais, de Trump a Bolsonaro, passando por Modi, Orban, Salvini, Le Pen, não se comunicam pelas regras clássicas. Ignoram os canais tradicionais para se dirigir diretamente ao povo, ou melhor ao seu eleitorado, sobretudo através das redes sociais. E pior, dizem tudo o que lhes vêm à cabeça. E temos aí um problema seríssimo. Por que? esqueçamos por um minuto Bolsonaro. Falemos de Trump. O presidente dos USA, tempos atrás, lançou uma ideia que lhe veio à cabeça no meio de uma coletiva de imprensa: injetar desinfetante no corpo para limpar os pulmões do coronavírus. Dois dias depois, vendo que a loucura que disse afetava a sua campanha eleitoral, voltou à público dizer que se tratava de “sarcasmo”. Pois bem, nesse meio tempo, muitos americanos, acreditando no presidente, tomaram desinfetante; houve muitas internações em hospitais (que já estavam abarrotados) para salvar os seguidores cegos de Trump.

Isso mostra o grau de responsabilidade que tem um presidente da República. Ele não é um cidadão comum, não tem o direito de dizer o que lhe vem à cabeça, sua palavra não tem o mesmo peso da palavra dos polemistas de mesa de bar. Sua palavra, como os seus atos, têm enorme valor simbólico. Governa-se através deles.

Em outras palavras, um presidente da República não pode colocar nas redes sociais um vídeo de “golden shower”. Não é que ele não deva, ele não pode, não tem esse direito. Não tem o direito de dizer que para combater o aquecimento climático vamos fazer cocô um em cada dois dias. Ele não pode mandar publicar no Diário Oficial uma assinatura que não seja a sua.  Ele não pode dar banana para os jornalistas, mandar a imprensa calar a boca, dizer que tal jornalista é gay, fazer brincadeira de cunho sexual com uma jornalista, nem colocar os jornalistas num cercadinho disputando a palavra com os seus apoiadores. Simplesmente não pode, pois agindo dessa maneira desrespeita uma instituição – a imprensa – sem a qual a democracia não existe. Um presidente não pode escolher quais os veículos que participam das coletivas.  Isso é, sim, violação da liberdade de imprensa.

Não pode atacar o Congresso nem a Corte Suprema, a quem deve respeito e até obediência.

O presidente não pode dizer que a facada que levou deve ser investigada e a morte da Marielle não; não tem o direito de defender milicianos, cuja atividade é ilegal; não pode nomear um nazifascista para ministro da Cultura; não pode tecer elogios rasgados ao general Pinochet,  Alfredo Stroessner, nem a Carlos Brilhante Ustra. A apologia à ditadura militar é crime no Brasil, previsto na famigerada Lei de Segurança Nacional (Lei 7.170/83), na Lei dos Crimes de Responsabilidade (Lei 1.079/50) e no próprio Código Penal (artigo 287).

O presidente não pode responder E daí, quando escolhe para diretor geral da PF um amigo do filho que está sendo investigado, nem para comemorar as vítimas da Covid-19; não pode dizer que a pandemia é um resfriadinho, porque o seu apoiador incondicional desrespeita o isolamento e corre solto rumo ao risco de morte. Ele não pode se negar a apresentar o resultado do teste do coronavírus, o que faz até hoje com o teste realizado pela Fiocruz. Ele não pode mostrar desprezo para com os mortos da Covid-19.

Esses e centenas de outros atos e palavras de Bolsonaro têm enorme influência na vida das pessoas, na forma delas pensarem e agirem. Isso também é governar. Ele cometeu e comete diariamente atos de violação à Constituição. O exemplo que dá é o pior possível, menosprezando a exemplaridade, que faz parte da governança. Assim como os ritos, que foram jogados na lata do lixo.

Por que o problema, meu amigo, é que milhões de pessoas acreditam nele, se identificam com ele e saem por aí, em nome dele desrespeitando a lei, promovendo a desobediência civil, o Estado de Direito e as regras básicas da vida em sociedade. Essas pessoas dizem – e com certa razão – Se o presidente pode, eu posso. Se o ministro da Educação pode ser racista, eu também posso.

Acontece que o capitão comete crimes cotidianos, até agora impunidos. Enquanto o cidadão comum corre o risco de ser seriamente sancionado.

Bolsonaro considera que só tem de prestar contas ao seu eleitorado cativo. Também acredita que membros nomeados de seu governo, servidores públicos, deputados e senadores eleitos em sua esteira devem lealdade a ele, e não ao país.

Hoje temos no Brasil uma situação de quase guerra civil: de um lado fanatismo e ódio, de outro angústia e desespero. Perdemos a racionalidade. Estamos num vale-tudo, que pode nos levar para o abismo. Nesse Brasil enclausurado só há uma porta, que indica a saída, o mais rapidamente possível, desse fascista descerebrado chamado Jair Messias Bolsonaro que, apesar do nome, como ele próprio indicou, não faz milagres. Pouco importa que seja pela via do impeachment, pela condenação da chapa pelo TSE, ou pelos crimes comuns que correm no STF. O importante é que vá embora o quanto antes e que assim possamos tentar salvar a democracia.

 

O olho que não quer ver

Diz o velho adágio que “o pior cego é o que não quer ver”. Pois é certo que por vezes temos a impressão de que o próprio olho, apenas um órgão no complexo sentido da visão, passa a ter vontade própria na rebelde perversidade da cegueira voluntária. É o que transpareceu na entrevista de ontem que o Ministro Luis Roberto Barroso, no programa Roda-Viva, da TV Cultura de São Paulo.
O Ministro Barroso constituiu-se, à época de sua indicação, como uma grande esperança para o setor progressista. Em entrevista pouco anterior à sua posse, descrevia o “Mensalão” como “um ponto fora da curva”, o que dava a impressão de ser uma visão crítica sobre os óbvios arroubos meramente moralistas do STF pelos quais a corte se conduziu, dando a impressão à sociedade de que aquilo que ali se julgava era algo realmente extraordinário e novo na política brasileira, nascida corrupta, crescida corrupta, e consolidada corrupta, sob as barbas longas e grisalhas no nosso sistema de justiça e dos órgãos fiscalizadores.
Se o Ministro exibe ao longo da entrevista um extenso cabedal filosófico pertencente ao mundo humanístico e iluminista, permeado de prudência, racionalidade, amor à ciência e devoção à democracia, escorrega pateticamente no “lavajatismo”, chegando a rezar o credo daquela classe média bem descrita pela filósofa Marilena Chauí, peça litúrgica que pretende nos levar a acreditar, nas suas próprias palavras, que “a eleição de 2018 foi uma resposta da sociedade que acreditou ser o certo o caminho do combate à corrupção”.
Nada pode ser mais contraditório e paradoxal do que em poucos minutos ouvir, da mesma pessoa, um discurso humanista e cientificista e o discurso raso do “o que aconteceu na Petrobrás foi crime”, como se a empresa fosse a sede das eventuais atividades criminosas e como se o tempo destas práticas fossem restritos aos governos do PT. Mas tudo pode piorar. O Ministro prossegue na sua exegese histórica afirmando que “a sociedade mudou depois da Lava-a-Jato, tornou-se menos leniente com a corrupção, e que os costumes mudaram”.
Temos então o tal olho que parece ter vontade própria de não querer ver, conectado a um cérebro que parece não ter processado adequadamente tudo o que o olho viu e ainda sem condições ou vontade de processar tudo aquilo que continua vendo.
Uma rápida passada de olhos no que está acontecendo hoje na gestão das OSS (Organizações Sociais de Saúde), aqueles monstrengos nascidos da maior fábrica de corrupção e corruptos da história recente da República, a Lei 9637/98, considerada constitucional pelo STF (já na presença do Min.Barroso, julgada 14 anos depois da instauração da ADI 1923) bastaria para se enxergar o contrário. A sociedade tornou-se ainda mais cega e leniente com a corrupção, e seus agentes ainda mais ousados, como se a crença na impunidade tivesse mesmo se ampliado aos múltiplos. Numerosos alertas foram feitos desde a sanção daquela lei, e não faltaram alertas de ministros mais antigos da corte (4 votos pela inconstitucionalidade) entre os quais o desesperado voto memorável do Min.Marco Aurélio Mello, que certamente já podia olhar a paisagem devastada pelo retrovisor, dado o alargado prazo entre a impetração da referida ação e seu julgamento.
Como ex-procurador do Estado do Rio de Janeiro, o direito de ignorar as práticas sistemáticas nas relações entre o público e privado que já levaram à prisão de 4 ex-governadores do RJ, de juízes, procuradores, de conselheiros do Tribunal de Contas do RJ, deveria ser algo não digno de ostentação, se não bastasse ainda o cenário do Estado de S.Paulo, onde quase nada se investiga e o pouco que se acha é arquivado sem prossecução criminal dos agentes em troca de acordos de indenização e leniência que poucas mães ofereceriam aos seus filhos.
Assim, a estreita visão espacial e temporal do Min.Barroso não combina com a amplitude e o estofo que exibe ao discorrer sobre as virtudes do iluminismo e do estado moderno, deixando-nos a árdua tarefa de buscar as raízes profundas do comportamento de um sistema ótico que na obsessão de formar uma imagem desejada perde-se nas aberrações cromáticas e geométricas próprias das lentes de má qualidade.
Estas contradições, embora humanas, não nos ajudarão a curar as doenças sistêmicas do Brasil. O Ministro Barroso frustrou-nos, definitivamente. Ingênuos fomos nós, que assistimos ao programa na esperança de algo realmente novo.

E havia um vírus no caminho

Nem o pior pesadelo se compara ao que estamos passando com o Covid-19. Ele supera em realidade o que muitos filmes de ficção tentaram mostrar em situações semelhantes. Tudo isso porque somos nós os atores do dia a dia nesta pandemia.

Muitas teorias conspiratórias foram criadas, e provavelmente outras virão à tona enquanto não tivermos a maldita vacina para este vírus, o que se espera para o ano que vem. Enquanto isso, os números de infectados e mortos aumentam no mundo inteiro, especialmente em países que ousaram fazer pouco caso da ameaça, como o Brasil.

Parece que não aprendemos nada com a Gripe Espanhola que em dois anos de pandemia, não havia ainda vacina, infectou um quarto da população mundial da época (1918 a 1920), 500 milhões de pessoas e deixou 50.000.000 de mortes no seu caminho. Teve também uma segunda onda, muito mais mortal do que a primeira neste período.

É fato que os cientistas de nossos dias não presenciaram o que aconteceu, muita informação médica foi perdida. Como hoje, muitos governos maquiaram os números e a gravidade do que aconteceu. A quantidade real de mortes varia entre 17 e 100 milhões, dependendo onde se procure a informação, por isso a estimativa de 50 milhões seja a mais realista.

Com toda a nossa capacidade de informação, os acontecimentos que começaram na China no início do ano, logo chegaram ao mundo inteiro. Todos os países tiveram a chance de fechar suas fronteiras, todos tiveram a chance de se prepararem com o abastecimento dos hospitais e a compra de máscaras e luvas. Estes procedimentos teriam impedido a maioria das mortes, mas foram negligenciados pelos governantes, em maior, ou menor intensidade.

A gravidade da situação podia ser percebida pelas medidas que o governo Chinês tomou. Só não viu quem não quis. Hospitais tiveram de ser construídos as pressas, e o isolamento social radical adotado. Uma cidade inteira entrou em lockdown. O vírus se mostrava altamente contagioso e extremamente mortal.

A falta de bom senso, de precaução, ou mesmo a ignorância de alguns governantes levaram as tragédias sociais que ainda estamos assistindo. Os números de infectados, que não para de crescer, já se aproxima de 8 milhões e o de mortos em 430 mil. Hoje os EUA e o Brasil lideram estas estatísticas.

Quem olhar para o mapa mundial verá que a pandemia veio do oriente para o ocidente. A contaminação foi crescendo na medida que as fronteiras permaneceram abertas e os viajantes doentes foram voltando para casa, ou fazendo turismo onde era permitido. O vírus foi sendo transportado pela aviação no ar, por navios no mar e por terra por seres humanos.

Tanto os EUA, como o Brasil tiveram tempo para impedir o que era uma tragédia anunciada. Ao contrário do resto do mundo que já pagava por seus erros, poderiam ter fechado as fronteiras e não o fizeram. Poderiam ter preparado o sistema de saúde com a compra de material médico, preparação de UTIs com ventiladores, e não o fizeram. Quando foi imperativo, era tarde demais.

No Brasil a situação é ainda pior. O presidente até hoje não acredita na doença e contraria todas as medidas de contenção que a ciência recomenda. Despreza veementemente o isolamento social e o fechamento do comércio em geral. Se dependesse exclusivamente dele, o país teria mantido tudo funcionando. Até hoje não existe um Gabinete de Crise para tratar do Covid-19, algo que todos os países criaram integrando todos os envolvidos com a pandemia, seja pelo lado médico, social e até financeiro.

O ano de 2020 será um ano perdido. Em alguns países o ano escolar não vai contar. Companhias de aviação vão desaparecer, negócios vão falir, empregos serão perdidos, sonhos destruídos. Mas principalmente vidas serão levadas para sempre. Avós, pais, irmãos, primos, amigos, conhecidos que não vão mais estar entre nós.

O Brasil já vinha de uma péssima escolha para presidente e como nada está tão ruim que não possa piorar ainda mais, havia um vírus no caminho.  Espero que a história seja implacável com Bolsonaro e Trump. O americano provavelmente não se reelege nas próximas eleições previstas para novembro deste ano. O brasileiro, que seja impedido de continuar governando, seja pelos crimes eleitorais que sua chapa cometeu, seja pelos inúmeros crimes que vem cometendo enquanto presidente.

Que ambos tenham seus nomes jogados no lixo da história.

 

Samba Perdido – Capítulo 09

Capítulo 09

"O vento beija meus cabelos
 As ondas lambem minhas pernas 
O sol abraça o meu corpo 
Meu coração canta feliz..."

Ricardo Graça Mello - De repente California
 

Apaixonado pelo zen da bossa nova, Frank Sinatra tornou Ipanema famosa no mundo inteiro ao gravar Girl from Ipanema nos anos sessenta. Quando os anos setenta chegaram, tanto Frank Sinatra quanto a bossa nova e a visão romântica e inteligente que representava do Brasil não existiam mais. Agora, sob uma ditadura pesada tudo tinha mudado. Porém, por várias razões, o bairro acabaria sendo central não só a assimilação da nova realidade como também no resgate da naufragada democracia.

Não havia dúvidas que a Zona Sul do Rio era a encarnação do “milagre econômico” proporcionado pelo golpe militar. A vida da classe média, tanto no Bairro quanto no Brasil inteiro, ia de vento em popa. A economia estava crescendo a uma taxa anual na casa dos dois dígitos e com o tricampeonato do México ainda fresco na memória, havia um clima de euforia. Pelo país afora as vendas de carros, televisores, eletrodomésticos e passagens aéreas dispararam. Em Ipanema isso também foi o caso para discos, pílulas anticoncepcionais, roupas “transadas” e pranchas de surf.

Contudo, nas cabeças mais claras, havia a consciência de que essa recém-descoberta prosperidade só era possível graças ao empobrecimento de muitos e ao forte aparato militar garantindo a situação. Talvez por ser o endereço de formadores de opinião bem conectados, gente que não interessava à ditadura molestar, Ipanema se tornou uma ilha de pensamento crítico onde artistas e intelectuais boêmios se reuniam a noite em bares e festas.

No que agora era talvez o melhor bairro da ex-capital do país, a resistência começou cedo. Em 1969 um grupo de residentes lançou um jornal semanal satírico chamado O Pasquim. Essa publicação levaria à prisão por variados períodos de tempo muitos de seus colaboradores, mas seu sucesso também os colocaria na elite jornalística do país.

O Pasquim estava à frente do seu tempo: não somente se posicionava contra os militares, mas também ridicularizava a burguesia e seus valores com humor irreverente. Entre artigos e charges geniais havia entrevistas ótimas, muitas regadas a várias garrafas de whisky, com todo o tipo de personalidades: astros do futebol, artistas, políticos, juristas, atores e outras celebridades. Numa época de censura pesada, a publicação mostrava esses personagens por ângulos até então inexplorados, encorajando-os a falar de suas vidas particulares, suas opiniões sobre assuntos controversos como drogas e sexo e a confessar seus pecados. Entre os entrevistados havia também pessoas de quem a imprensa tradicional fugia, como Luiz Inácio “Lula” da Silva – que nos anos 1970 era apenas o líder de um “inconveniente” sindicato de metalúrgicos na periferia de São Paulo.

Sendo uma das raras vozes independentes do país, O Pasquim virou um gênero de primeira necessidade para brasileiros de consciência. Com isso, o semanário vendia muito bem em todo território nacional. Por ser do bairro, ele fez com que Ipanema adquirisse uma imagem arejada de boemia, liberdade e resistência. Embora não refletisse completamente a realidade, essa imagem seria fundamental para a forma como o Brasil lidaria com seu retorno à democracia.

*

Os principais beneficiários do “milagre econômico” eram sem sombra de dúvida as novas gerações. Sem compromissos  políticos e bem nascidos, introduziram muitas novidades em Ipanema. Figuras de cabelos compridos e sem classe social definida começaram a aparecer nas suas ruas. Traziam consigo um sentimento vivo que era ao mesmo tempo alienado e contestador. Garotas em camisetas sem sutiã passeavam com rapazes com o cabelo mais longo que o delas atraindo olhares horrorizados e curiosos de uma sociedade que, em sua maioria, ainda era conservadora.

Para aquela rapaziada, a vida era uma aventura. No mundo que estavam inaugurando, não havia a separação por “tribos”; a única coisa que importava era ser ou não ser “careta”. Se você não fosse, era possível surfar pela manhã, assistir a um show de música underground à noite, depois ouvir Led Zeppelin no toca-fitas do carro a caminho de uma discoteca e finalmente terminar a noite na Floresta da Tijuca fumando um baseado ouvindo uma fita do Caetano Veloso. Mundos, gostos e atividades se entrelaçavam na contestação existencial generalizada. Todos queriam ser diferentes de seus pais e do que a sociedade esperava deles. A vida era como uma caixinha de surpresas cheia de novidades, então, por que não experimentar todas? É claro que se você tivesse uma visão de mundo conservadora, o melhor que tinha a fazer era procurar outra turma.

Ao mesmo tempo, com Copacabana se tornando paulatinamente mais acessível e popular, uma nova onda de super-ricos migrou para Ipanema. Eles fariam com que a Avenida Vieira Souto, a sua via beira-mar, o endereço mais caro do país. A rua comercial, dois blocos atrás, Rua Visconde de Pirajá, absorveu o momento e, ao lado de lojas caríssimas, exibia lanchonetes de estilo americano, fliperamas, lojas de surf e butiques com roupas psicodélicas. Enquanto isso, espalhados pelas ruas laterais, bares à moda antiga continuavam sendo o ponto de encontro da geração dos esquerdistas boêmios, que bebiam suas cervejas vendo milionarios passarem sendo dirigidos por choferes nos seus carros de luxo.

Certamente o grupo mais visível do bairro era o dos surfistas. Vestindo shorts e camisetas importadas do Havaí, tomaram conta das esquinas e fizeram de Ipanema uma Califórnia brasileira. Para ficarem louros como seus pares americanos, a moçada tingia os cabelos com parafina para pranchas de surfe ou com água oxigenada. Embora a intelectualidade e o dogmatismo político os afugentassem, acreditavam que estavam resistindo ao sistema ao fazer tudo o que lhes desse na cabeça – essencialmente drogas, sexo, rock e surf. As novas garotas de Ipanema, a segunda geração a ser libertada pela pílula, desfilavam seus corpos torneados no território dos surfistas – a praia – dando origem mundial à tanga, ou biquíni fio-dental.

*

Em 1973 houve uma forte queda nos mercados de ações do mundo inteiro devido ao repentino aumento no preço internacional do petróleo. As bolsas brasileiras também despencaram e pessoas que haviam feito fortuna rapidamente perderam tudo do dia para a noite. No entanto, Rafael teve a sorte, ou a experiência, de vender suas ações dias antes do colapso.

Para a família, essa tacada foi como ganhar na loteria. A crise repentina levou a uma queda substancial no preço dos imóveis cariocas e com bastante dinheiro na mão, meu pai conseguiu comprar um apartamento em Ipanema. Foi assim que nos mudamos para a Rua Nascimento Silva, a apenas algumas portas abaixo da casa de Vinicius de Moraes, o aclamado poeta da bossa nova.

O novo endereço significou um upgrade tanto em nosso status social quanto em nosso estilo de vida. Apesar do apartamento novo não ter uma varanda com vista para o mar como o que alugávamos em Copacabana, era bem maior e, mais importante, era nosso. Os antigos donos, um casal de velhinhos portugueses, tinham juntado duas pequenas unidades de sala e dois quartos em um apartamento grande. Uma cozinha espaçosa separava os dois lados; o de frente, ficou para meus pais e o dos fundos ficou para minha irmã e eu.

Gostamos de cara do novo bairro. Independentemente de ser o olho de um furacão de mudanças comportamentais, o seu dia a dia era muito mais agrádavel. Com exceção dos prédios de luxo imponentes de frente para o mar na Avenida Vieira Souto, em termos de arquitetura e de jeito, Ipanema parecia com uma versão sofisticada de uma cidade costeira. Suas construções eram mais baixas, mais recentes e menos pomposas, proporcionando um ar mais residencial e mais real. A praia era mais vazia e ainda tinha resquícios de vegetação original, as ruas eram calmas e arborizadas e havia sempre uma brisa gostosa passando entre o mar e a Lagoa Rodrigo de Freitas que ficava logo atrás do bairro.

*

Sarah e eu passamos da infância à adolescência nesse lugar que era certamente um dos melhores para se viver em todo o planeta. Agora, com cada um em seu próprio quarto, me vi livre do domínio da minha irmã. Com uma privacidade que até há poucos meses tinha sido coisa de sonho, a primeira coisa que fiz foi colocar pôsteres para marcar meu território, um do Jimi Hendrix e um outro com uma capa de disco psicodélico do grupo Yes.

Outra novidade foi que Renée finalmente teve que dar o braço a torcer e autorizou a compra de um televisor, talvez admitindo que a sociedade elegante estranharia aspirantes que não possuíssem um. Por ter horror ao aparelho – talvez porque a programação lhe roubasse o centro das atenções – ela mandou colocar a televisão no quarto vazio do nosso lado do apartamento.

Com uma TV em casa, minha irmã e eu nos integramos ainda mais no universo brasileiro. Agora, como qualquer outra pessoa, podíamos assistir às novelas da Globo, as principais produções culturais brasileiras da época. Embora me cansaria delas depois de um tempo, no início fiquei vidrado. Elas passavam cinco dias por semana: às seis da tarde tinha uma voltada aos jovens, às sete uma comédia para antes do jantar, às oito a grande produção para toda a família e às dez da noite uma produção mais adulta. Todas eram excelentes já que por conta das salas de cinema e teatros estarem perdendo espaço para a televisão enquanto a censura e a repressão política barrava de produções de nível os melhores escritores, atores e técnicos se viram obrigados a trabalhar nelas por falta de outras opções. Essa concentração de talento trouxe uma qualidade espantosa, e essas produções que se tornariam um sucesso nos quatro cantos do globo.

Se meu interesse pelas novelas dissipou rápido, esse não foi o caso com a pessoa que mais gostou da novidade: dona Isabel. Toda noite às sete, enquanto preparava o jantar, ela ligava o aparelho para ficar ouvindo seus dramas e seus momentos da cozinha. Essa trilha sonora só terminava na hora que ía dormir. A maneira que aproveitei o televisor foi outra. Agora podia assistir a jogos de futebol, programas de comédias como A Grande Família, Chico City e Os Trapalhões além de filmes e séries de TV importadas das quais todo mundo falava. Nas tardes de sábado curtia videos das melhores bandas internacionais no Sábado Som. De repente, deixei de ser um completo esquisito na escola.

*

Não demorou muito para a gente descobrir o motivo pelo qual os antigos donos tinham vendido o apartamento a um preço tão camarada; a pior gangue do bairro utilizava a entrada do prédio como sua base. Só um deles morava no prédio, noss fundos , mas de qualquer forma estavam sempre ali. Em pouco tempo gente passou a conhecer todos de vista da rua. Era evidente que todos aqueles surfistas cabeludos e sarados eram “dissidentes” de famílias de classe média. Era também evidente que eram vagabundos de verdade; não trabalhavam nem estudavam e não tinham respeito a qualquer tipo de autoridade. O pior para meus pais era que, ainda por cima, nos olhavam com desprezo por sermos tão tipicamente burgueses. Com a rebeldia dos anos 1970 na porta de casa, se sentindo sitiados por um bando de bárbaros, Renée e Rafael passaram a odiar toda e qualquer coisa que se relacionasse àquela subcultura.

Ainda que o minhas habilidades como pegador de jacaré tivessem melhorado muito nas ondas oceânicas do novo bairro, meu status praieiro era microscópio comparado ao daquela rapaziada, os bad boys no topo da cadeia alimentar de Ipanema. Eles controlavam não só as ruas, mas também as ondas na parte da praia conhecida como as “Dunas do Barato”, o Píer de Ipanema. Agora há muito destruído, o Píer foi erguido para a construção de um emissário submarino que levaria o esgoto de Ipanema até o alto-mar. A obra alterou as correntes e o leito marinho o que resultou em ondas incríveis, a ponto de a imprensa especializada internacional classificar aquele point como um dos melhores lugares para se surfar na América Latina.

O Píer acabaria produzindo os primeiros campeões brasileiros de surf. Um dos membros da gangue, o Pepê, foi o mais destacado deles. Ele se tornaria campeão mundial tanto de surf quanto de voo livre, e anos mais tarde sua popularidade o ajudaria a se eleger vereador e a abrir a barraca de praia mais conhecida do Rio. Porém, seu irmão mais novo e menos talentoso, o Pipi, levou um tiro depois que pulou para trás do balcão para agredir o dono do boteco que ficava na nossa esquina. No dia, estava voltando da escola quando vi o surfista de cabelo oxigenado sentado imóvel na calçada. Amparado por um amigo, ele estava esperando por uma ambulância com sua camiseta empapada de sangue grudada na barriga. Na manhã seguinte quando estava saindo de casa, o porteiro me disse que o Pipi tinha morrido no hospital.

*

Sempre que não havia ondas, a galera se reunia do outro lado da rua para andar de skate na rampa de uma garagem. Enquanto faziam suas manobras radicais, Deep Purple, Alice Cooper, Led Zeppelin e Black Sabbath bombavam num toca-fitas. Nenhum deles conseguia entender as letras das músicas, mas eu entendia cada palavra, o que, de alguma forma, me fazia participar do que estava rolando. Ficava assistindo as suas manobras da janela de nossa sala de estar como um garoto doente fica vendo as outras crianças brincarem pela janela da enfermaria. Naquelas tardes, as letras das músicas e o som das guitarras distorcidas flutuavam para dentro do apartamento junto com o cheiro de maconha. Ver baseados do tamanho de um charuto passar de mão em mão entre aqueles surfistas era como testemunhar um assalto a banco de uma posição privilegiada. Esse era o crime subversivo, o fruto proibido, sobre o qual as autoridades nos advertiam na televisão agora que o medo do terrorismo de esquerda tinha ficado para trás.

Todas as vezes que eu passava na frente daquela gangue, parecia ouvir o comentário: “Lá vai aquele magricelo veadinho”. Os momentos mais constrangedores eram quando ia de carro com a minha mãe para o clube e o porteiro tinha que pedir educadamente que os caras saíssem de lado para que pudéssemos deixar a garagem. Sob olhares de desprezo, passávamos com as janelas fechadas, minha mãe nos seus cinquenta e poucos trajando um uniforme de tênis que incluía uma minissaia branca e eu com as minhas pernas finas e meus trajes de futebol desproporcionalmemte grandes. Por causa daqueles caras, para o meu desespero, meus pais acabaram proibindo o surf. Por outro lado, aquela turma me forçou a provar, ainda que apenas para mim mesmo, que não era o bostinha que eles viam. Ainda estou tentando.

…  

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Samba Perdido – Capítulo 7 parte 2

O presidente recém eleito, Jânio Quadros, lembrava o primeiro-ministro britânico do pré-guerra, Neville Chamberlain na aparência e na bizarrice, mas compartilhava com Churchill a fama de amante da garrafa. As massas o adoravam mas, apesar de servir seus interesses, a elite o ridicularizava pelos seus trejeitos exagerados e por sua inteligência medíocre.

Quando assumiu, o ciclo de crescimento econômico iniciado pelo seu antecessor, o carismático Juscelino Kubistchek, estava dando sinais de cansaço. Depois da euforia veio a ressaca econômica e com ela o descontentamento das classes que mais tinham se beneficiado dos anos de vacas gordas: os trabalhadores e a classe média emergente.

A freada no ritmo da melhoria da qualidade de vida dos brasileiros causou uma guinada à esquerda na preferência ideológica do país. Havia uma influência cada vez maior de sindicatos e de organizações trabalhistas na vida pública. Esses novos elementos fizeram com que as elites ficassem nervosas.

Talvez Jânio não fosse o melhor presidente para lidar com a situação. Ele tentou, à sua maneira, conciliar a crescente divisão política proibindo biquínis nas praias para agradar os conservadores de direita e reconhecendo a Cuba Castrista para agradar a esquerda. Essa decisão ousada foi fatal; além de fazê-lo perder o apoio da bancada direitista, em especial da UDN, a União Democrática Nacional, responsável pela sua chegada na presidência, o gesto chamou a atenção dos Estados Unidos.

Pressionado para fazer reformas populistas de um lado e para freá-las do outro, sem apoio no congresso, em 1961, Jânio renunciou na esperança de que o país se unisse para exigir o seu retorno. Isso nunca aconteceu e seu vice-presidente João Goulart tomou posse. Jango, como era conhecido, tinha fortes ligações com movimentos sindicais e com governadores de esquerda, como Miguel Arraes em Pernambuco e Leonel Brizola no Rio Grande do Sul. Contrariando interesses poderosos tanto fora quanto dentro do Brasil, assim que assumiu, deu início a um projeto de nacionalização de setores importantes da economia, apostou na educação das camadas menos privilegiadas e contemplou políticas abrangentes para melhorar a distribuição de renda.

No pano de fundo estava a ainda muito recente Revolução Cubana. Confrontando a hegemonia dos Estados Unidos na a América Latina, o levante trouxe a Guerra Fria para o continente. Na opinião da esquerda, Cuba havia demonstrado que a região tinha a capacidade de gerir o seu próprio destino. Em contrapartida, para as potências dominantes, países governados por revolucionários rejeitando a sua tutelagem e focados em cooperação ao invés dos lucros de uma minoria eram inaceitáveis. Washington fez tudo para esmagar o exemplo, impondo um embargo comercial, ajudando exilados numa invasão fracassada e tentando assassinar seu líder. O único resultado dessa tática foi o de empurrar os cubanos cada vez mais para perto da União Soviética e essa aliança tornou uma América Latina socialista – ou mesmo comunista – uma possibilidade assustadora, porém bastante real.

Situações parecidas com a qual o governo de Jango ameaçava não eram novidade e haviam sido revertidas por golpes de estado. Os primeiros apareceram no Irã no início dos anos 1950 e no Iraque quando estes resolveram nacionalizar suas reservas de petróleo. Pouco depois, Colômbia, Venezuela, Guatemala, Síria e Nigéria entre outros países, sofreram o mesmo quando resolveram enfrentar a ordem econômica estabelecida. O que todos tinham em comum eram pactos entre elites locais e potências mundiais interessadas nas riquesas naturais dos países em questão.

No caso brasileiro, os Estados Unidos estavam determinados a manter o maior país da América do Sul “livre”. Com apoio americano, os poderosos iniciaram uma conspiração para garantir sua permanência no comando do país. Para tanto, seguiram a mesma receita que Rafael tinha presenciado na Alemanha nos anos 1930. O primeiro passo foi conquistar a opinião pública. Distorcendo a verdade e apostando nos preconceitos dos leitores, a imprensa envolvida passou a retratar uma crise profunda na economia e uma ruptura nos valores tradicionais da sociedade. Em paralelo, começaram a “denunciar” a desonestidade dos dirigentes e sua inabilidade em restaurar a ordem. Pessoas comuns passaram a acreditar na imagem contraditória de uma liderança ao mesmo tempo corrupta e disposta a impor uma ideologia totalitária, destruidora da propriedade privada e nociva à herança cultural e religiosa do país. Os “cidadãos de bem”; sensatos, trabalhadores e honestos passaram a ver o governo de Jango como um inimigo. Agora, precisavam de um salvador da pátria acima do sistema político viciado e corrupto demais para resolver os gravíssimos problemas. Em 1964, esse “salvador” seria o exército.

No início de Abril, tropas e tanques foram para as ruas das principais cidades do país, onde os militares “revolucionários” não encontraram qualquer resistência organizada que os desafiasse. Ainda que os líderes do “movimento” declarassem que seu objetivo fosse restaurar a democracia livrando o Brasil do comunismo, o país precisaria de mais de duas décadas para voltar à normalidade política.

Assim que tomou posse, o novo regime exilou o presidente Goulart e seus aliados, além de perseguir e prender personalidades públicas e ativistas de esquerda. Como é comum em golpes de estado, enquanto a atenção se voltava ao drama político, passaram uma legislação revertendo os direitos dos assalariados e privilegiando os interesses dos grandes grupos econômicos que patrocinaram a mudança de regime.

Apesar da indignação de intelectuais e de pessoas mais esclarecidas houve, no início, uma indiferença geral dentro da classe trabalhadora. Por outro lado, os militares encantaram a comunidade dos negócios, inclusive Rafael. Para eles, o Brasil precisava se modernizar, imitar os americanos e alcançar o seu potencial econômico: o gigante tinha que acordar. Com os militares, amigos do “mercado”, no poder e com a orientação e a simpatia do Tio Sam – que na época financiava prosperidade como uma arma para enfrentar os avanços da esquerda – haveria um final feliz onde todos iriam enriquecer.

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Por suas mudanças terem beneficiado apenas os muito abastados, por não terem cumprido com a palavra de restaurar a democracia e pela corrupção ter aumentado em vez de ter diminuído depois do golpe, quatro anos mais tarde, em 1968, a sociedade civil brasileira se levantou em oposição ao regime.

Os protestos partiram de movimentos universitários inspirados na explosão do espírito revolucionário pelo mundo afora. Na mesma época, em pontos tão diversos como Paris, Chicago e Praga, a juventude estava tomando as ruas para reivindicar um mundo mais justo e mais livre. Embora a maioria silenciosa os considerasse sonhadores inconsequentes, as autoridades os levavam a sério. Tendo em conta o sucesso de vários movimentos revolucionários acontecendo na época, obcecados com a ameaça comunista e ouvindo ecos da Guerra Civil Espanhola, da Revolução Chinesa, da Revolução Russa e mesmo da Francesa, o complexo financeiro, industrial e militar acionou suas defesas.

No Rio de Janeiro a tensão estava borbulhando. Depois que a polícia baleou e matou um estudante, uma passeata 100 mil pessoas, incluindo artistas e intelectuais de peso, tomou conta da avenida Rio Branco no centro da cidade. Esta foi a maior manifestação contra um governo já vista no Brasil. A oposição se alastrou tão rapidamente que mesmo alguns deputados no congresso, agora tutelado pelos militares, passaram a criticar abertamente o governo.

A resposta do regime foi brutal; ignorando a constituição, publicaram o infame AI-5 – Ato Institucional Número Cinco – dissolvendo o congresso e o senado e dando total autoridade executiva e judicial ao presidente. Logo em seguida prenderam membros da oposição, líderes estudantis e jornalistas. A tortura tornou-se prática comum e quem pôde fugiu para o exílio.

Acuados, alguns estudantes passaram à clandestinidade e se juntaram às guerrilhas urbanas. Nelas, treinados em Cuba e em outros satélites soviéticos, organizaram bem-sucedidos assaltos a bancos e sequestros. Em 1969, depois do sequestro do embaixador americano no Rio e de ataques a bomba em quartéis militares, as autoridades intensificaram a repressão. Pessoas começaram a desaparecer, incluindo o filho do nosso médico de família. Por outro lado, núcleos embrionários de milícias revolucionárias partiram para o campo tentando emular a Revolução Cubana. Em uma ocasião, no começo dos anos 1970, o exército brasileiro enviou uma divisão de cerca de 10.000 soldados para capturar uns vinte jovens maoístas na remota região do rio Araguaia. As forças armadas acabariam por executar a maioria dos militantes capturados.

Esses eram tempos obscuros em que tudo era censurado: livros, peças de teatro, filmes e músicas. Os regime também controlava com rédea curta o conteúdo dos jornais e das estações de rádio e de televisão. Intuindo a tensão mas sem ter informações, as pessoas fantasiavam. Havia todo tipo de teorias circulando sobre o alcance do poder dos guerrilheiros, possíveis alianças militares com Cuba, China e União Soviética, ligas de camponeses prestes a invadir as cidades trazendo desapropriações e pelotões de fuzilamento para os ricos.

Como tudo na vida, quando a imaginação substitui a realidade nada de bom vem à tona. Nesse caso, tanto os militantes quanto seus repressores superestimaram o que minúsculos grupos de extremistas poderiam alcançar num país tão grande e tão complexo como o Brasil. Juntos, jogaram o país num período de trevas. A polícia e o exército montaram departamentos com amplos poderes para espionar a população e para coibir qualquer tipo de oposição. Entre eles estavam o SNI, o Serviço Nacional de Informações e o Destacamento de Operações Internas, DOI-Codi, em cujas dependências presos eram torturados, alguns até à morte. Também reativaram o DOPS, Departamento de Ordem Pública e Social, criado por Getúlio Vargas para esmagar seus adversários e agora utilizado para aterrorizar qualquer atividade contrária à ditadura.

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O final dos anos 1960 foi um tempo politicamente intenso não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Havia uma forte consciência social, revoluções, guerras e guerrilhas pela liberdade e pela igualdade e um aprofundamento da guerra fria no planeta inteiro. Paradoxalmente, este foi o período de maior prosperidade econômica que o ocidente conheceu. Essa bonanza veio acompanhada de uma redistribuição de renda inédita e uma consequente ampliação gigantesca do mercado consumidor. Foi nesse contexto que o mercado jovem nasceu. Esta leva de novos consumidores abastados, filhos da vitória contra o nazi-fascismo, sem vínculos com o passado e ávidos por novidades, sacudiriam as bases dos valores tradicionais e inaugurariam o uso de inúmeras novas tecnologias.

A efervescência daqueles tempos afetaria a todos de uma maneira ou de outra. As novas gerações se veriam obrigadas a escolher entre serem agentes das mudanças ou serem defensores da situação. Muitos se esbaldariam na explosão de drogas ilícitas e no sexo livre facilitado pelo aparecimento da pílula anticoncepcional.

No Brasil, com a impossibilidade de se resolver as coisas pela via política, a contracultura surgiria como talvez a única alternativa de se manter vivo o germe da resistência fosse através da arte ou de atitudes. O slogan que sintetizaria aquele tempo foi “Seja marginal, seja herói!” do artista plástico Hélio Oiticica.

Considerada inofensiva pela repressão por não representar nenhuma organização política, a contracultura, além de conseguir manter uma certa distância da censura, tinha atrativos comerciais. Apesar do tempero subversivo, gravadoras e outros empreendedores da área cultural não hesitaram em explorar as oportunidades oferecidas por seu forte apelo, tanto artístico quanto ideológico, junto ao lucrativo mercado jovem. Essa aliança forçada entre revolução e lucro proporcionaria uma explosão de talento que daria luz a um dos períodos culturais mais criativos e pungentes da história, tanto nacional quanto internacional.

Apesar da repressão brasileira ter sido vitoriosa em abafar uma possível reviravolta política com censura, exílio, tortura e prisão, ela não contava com um porém; as ideologias de revolução tinham se tornaram dominantes na cultura jovem do mundo “desenvolvido”. Vindas dos mesmos países que patrocinaram o golpe, elas eram parte do pacote cultural apresentado à juventude privilegiada pela ditadura. Não dava para tapar o sol com a peneira. No país inteiro, qualquer pessoa munida com um dicionário tinha acesso às vozes dos contemporâneos estrangeiros, fosse em discos, livros, em revistas ou mesmo em filmes que conseguiam driblar a censura.

Embora a América fosse a maior responsável pela derrubada da democracia brasileira, sua juventude estava na vanguarda dessa rebelião. Eles tinham sofrido o seu próprio golpe com os assassinatos mal explicados do presidente John Kennedy, do seu irmão Bob Kennedy e do reverendo Martin Luther King, todos defensores de uma América mais próxima dos ideais libertários e progressistas dos seus fundadores. Isso, junto com a possibilidade de serem mandados para a Guerra do Vietnã – um conflito que visava tão somente manter os interesses americanos na região –  criou um enorme contingente de jovens inconformados.

A manifestação maior dessa onda contestatória aconteceu na música, mais especificamente o rock, que na época tinha um forte caráter revolucionário. O paradoxo de protestos nas ruas gerando uma demanda comercial por vozes subversivas, abriu espaço para ícones tais como Bob Dylan, Arlo Guthrie e Joan Baez. No Reino Unido, as superestrelas dos Beatles e dos Rolling Stones interessadas em atingir esse novo público e a dizer alguma coisa mais profunda do que canções românticas, juntaram forças com a rebelião. Ajudados por estratégias de marketing modernas e orçamentos milionários, expuseram a contestação no coração do sistema, num palco muito maior do que qualquer revolucionário de outrora jamais teria sonhado.

Talvez seja difícil de entender no cínico mundo de hoje que no auge das suas carreiras aqueles roqueiros genuinamente acreditavam que suas criações faziam parte de um movimento mais amplo para derrubar o status quo. A presença de novas tecnologias em sua música reforçou sua imagem de catalisadores de grandes mudanças. As possibilidades sonoras inéditas permitiram que o espírito revolucionário fosse espalhado nas guitarras distorcidas de gênios musicais como Jimi Hendrix, Jimi Page e David Gilmour, cujos solos forneceram uma trilha sonora – e mesmo um lado espiritual – a esse momento excepcional.

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Essa foi a educação musical da minha geração. Eu tinha oito anos quando os Beatles se separaram; Led Zeppelin lançou Stairway to Heaven quando tinha nove; os Rolling Stones lançaram Exile on Main Street quando tinha dez e o álbum Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, foi lançado quando tinha onze. Para alguém de origem judaica tradicional crescendo numa uma ditadura militar, esses foram mísseis aterrissando no meu toca-discos. No entanto, igual aos programas matutinos do Haroldo de Andrade que ouvia quando criança, ninguém da família, nem a maioria dos meus amigos, conseguia entender como alguém poderia gostar daquele “barulho”. Dessa vez, nem a empregada estava do meu lado.

Apesar da incompreensão, era como se um circo mágico musical tivesse parado na esquina de casa. Queria fugir com ele. Não estava sozinho nessa busca, milhões de outros jovens pelo mundo afora também estavam sintonizados nessas mudanças. Muitos acabariam mais próximos uns dos outros do que das suas próprias famílias.

Trancados no quarto, ouvindo rock, se sentindo oprimidos por nossos pais e professores, meus irmãos de geração digeriam as palavras de ordem nos seus postos avançados. A mensagem era clara: resistir aos caretas, lutar para sermos nós mesmos e subverter os planos que o sistema tinha reservado tanto para nosso futuro quanto para o futuro do planeta.

No Brasil, a repressão acabaria percebendo que havia algo no ar mas não conseguia dizer ao certo o que era, muito menos sabia como lidar com aquilo. Podiam prender um hippie por fumar maconha, um militante por suas ações ou pelos seus livros, mas não dava para acabar com a insatisfação com a pequenez do mundo. Como nossos pais, torciam para que fosse fase de adolescente e que depois nos juntassemos docilmente ao rebanho.

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