Trabalhadores do Brasil, uni-vos!

Muitos continuam falando que o PT deveria fazer sua “mea culpa”, como se os demais tivessem somente anjos em seus quadros. Talvez esperem que o PT diga que seus membros faziam caixa 2 para campanhas políticas, que havia corruptos em seus quadros, diferente dos outros partidos.

Tudo que se diga do PT, não é diferente do que foi, e continua sendo a maneira de se fazer política no Brasil. Antes, durante e depois da ditadura, nada mudou. São os mesmos nomes, as mesmas famílias, os mesmos partidos com nova roupagem. Na política brasileira a corrupção começa antes da eleição com dinheiro sujo de campanha, durante o mandato com as rachadinhas de gabinete e “comissões” por favores prestados e depois do mandato com a cobrança por aqueles serviços prestados.

Poucos estão lá para fazerem o bem maior pelo país e pelo povo. Infelizmente a marca registrada do político brasileiro está associada a corrupção. São quatro anos de mandato para pagar de volta os gastos de campanha e ter algum lucro. Em muitos casos, o salário do político durante todo o seu mandato não cobre sequer os gastos da campanha para sua eleição. Então é preciso um “jeitinho”.

É óbvio que no PT também existiram políticos desta laia. Mas do PT se cobra uma áurea moralista imaculada. São muitas as razões para isso. Vão desde o sonho infantil de que com o PT seria diferente, até o ódio puro e simples a um partido de trabalhadores governando o Brasil.

Eu acredito que o PT errou em muitas coisas, mas seu maior erro foi acreditar que ao vestir terno e gravata seria aceito a mesa da Casa Grande. Quando chegou ao poder, o PT não quis ser diferente, desejou ser igual. Achava que como iguais seriam aceitos na sociedade como um todo.

Este não foi, é claro, o único erro, durante os governos do PT as verbas publicitárias foram distribuías para todos os meios de informação. Não falo só da Globo, mas da Abril com a Veja e de outros meios que difamavam o partido diariamente. Como pode haver tamanha ingenuidade? Achavam realmente que em algum momento a mídia coronelista brasileira iria tratar um bando de esquerdistas que ousavam melhorar a vida de milhões de brasileiros, como iguais? Que iriam reconhecer os avanços sociais e econômicos que seus antecessores nunca conseguiram?

O PT deixou de regular a imprensa e continuamos pagando esta conta. Para quem não sabe, regular a imprensa é fazer com os meios de comunicação não fiquem concentrados nas mãos de poucos. É determinar que quem possua uma TV, não possa ter rádios e jornais, por exemplo. O mesmo com donos de outros meios e também quantitativamente. Uma mesma empresa não pode ser dona de mais que um número de canais de TV e rádio, ou jornais.

O PT também não soube passar a mensagem do que é preciso para se governar no Brasil e implantar um projeto de governo. Não deixou claro que o preço a se pagar é se aliar ao Diabo, aos partidos que dão sustentação em troca de favores. Quem sem sustentação política, nada poderia ter sido feito. Que foi preciso fazê-lo em nome do bem maior.

O partido se cobriu com o véu da vaidade e se permitiu rompantes de arrogância. Esnobou aliados tradicionais para permanecer no poder ao lado dos que supunha serem seus novos amigos. A realidade mostrou que quase todos eles eram somente comparsas em troca de cargos e afetos. As fotos com Paulo Maluf, Sergio Cabral, Os Sarneys etc, estão aí para provar o argumento.

O partido não soube aparelhar o estado, uma regra básica na política. Cargos fundamentais foram trocados por apoios em todos os escalões do governo. A falta de aparelhamento, uma medida imprescindível para a manutenção de um projeto de longo prazo foi desprezada. Assim, todos os fracassos e casos de corrupção foram lançados na conta do PT. Todos os acertos, quando reconhecidos, foram creditados ao conjunto de governos passados que pavimentaram o caminho.

De fato, erros foram cometidos, mas nada se compara aos acertos que projetaram o Brasil na comunidade internacional. Acertos que levaram milhões de brasileiros a saírem do mapa da fome, a terem a oportunidade de estudar, de se inserirem no mercado de trabalho com melhores salários e terem o poder de compra.

Nenhum destes acertos diz respeito a classe de brasileiros que abraçou o fascismo. Para eles pobre continua tendo que saber o seu lugar. O mesmo se aplica a mulheres, negros e demais minorias. Se cada um respeitar o lugar que merece na sociedade que eles concebem, tudo vai ficar bem.

A direita brasileira não suportou os acertos de trabalhadores e apoiou o fascismo. Disso ninguém mais tem dúvidas. Este apoio criou o monstro que hoje habita o Palácio do Planalto e levou o país a um retrocesso de tamanha envergadura, que serão necessários muitos anos para se voltar ao ponto de onde paramos antes do golpe.

O Covid-19 é somente mais um exemplo da forma de relacionamento do fascismo com seu povo. A valorização da vida não entra na conta deles. Nunca se importaram com a educação, com o meio ambiente com a melhora da qualidade de vida, porquê se importariam com uma gripezinha? Esta é a forma fascista de governar, o neoliberalismo e a meritocracia acima de tudo.

Impeachment já!

O brasileiro e seu best self

Em meados do primeiro trimestre deste ano, viu-se de forma quase aturdida as ações de desprezo por parte do presidente e seus apoiadores pela vida dos brasileiros. Ao examinar jornais e fotos daquele mês, é possível detectar as ações das pessoas que participaram das passeatas no dia 15 de março. Postadas em redes sociais e em grupos de mídia de ampla abrangência, muitos desses atualmente investigados na CPI das Fake News, prestavam apoio incondicional ao seu líder. Saudosos à ditadura e a um militarismo a la república de bananas, bem como a pauta presente à época, e ainda hoje: a aclamação (in)popular pelo fechamento do Congresso e Supremo Tribunal Federal, viram suas ações desmoronar, até certo ponto.

Com o bloqueio e a extinção de vários sites que saíram de circulação, e também pelas imposições causadas pela pandemia, além da prisão de uma representante do grupo “300”, o qual raramente contou com mais de 20 pessoas, essas ações ficaram um tanto quanto adormecidas. Com isso, parece que paira uma certa latência no ar. Estariam os bolsonaristas fazendo um espécie de download existencial? Talvez. É possível que exista relação com o contundente envolvimento em corrupção pelos filhos do presidente, ou ainda, pela própria inoperância e incompetência com que o executivo tem lidado com a administração pública, ou mesmo pelo fato de que se vive a maior pandemia do século sem um ministro da saúde. As razões são infinitas.

O grande número de apoiadores surpreende. E com tudo que têm enfrentado os brasileiros, nestes 18 meses de governo, qualquer um questionaria se há algum traço que identifique tais pessoas (latentes) como anormais. No entanto, não há! Possivelmente, se fala em sujeitos que levam uma vida como a de qualquer outro ser humano que trabalha, estuda, cuida dos filhos, vai à feira, ao supermercado. Devem ser considerados cidadãos de bem. Pergunta-se, porém, o leitor, por qual razão empenham-se em uma cruzada rumo às trevas? Sem qualquer relação direta com o Estado Democrático de Direito?

Ao contrário, é observado um certo fervor em exaltar os anos de chumbo vividos neste país, bem como as múltiplas ações arbitrárias que vão de encontro à própria democracia e às liberdades individuais. Nem nos tempos da ditadura houve tantos militares em cargos políticos. Apontar que esses apoidores são contra a corrupção é uma forma rasa e simplista de tratar o assunto, visto que todos são contra a corrupção. O que gera aqui uma questão pragmática, pois ao falar em corrupção, é preciso dizer de quem, ou como, ou ainda, quando? Fala-se até em perdoar o PT, como se houvesse algo do tipo: “eu sei o que vocês fizeram no verão passado”, mas segue-se a máxima de que não há nada tão ruim que não possa piorar. No campo da educação, a exemplo das trocas com diversos ministros, bem como seus respectivos perfis “técnicos”, essa máxima é levada a níveis consideravelmente altos.

Esses mesmos cidadãos levantam a bandeira do que consideram política e o dito “politicamente correto”, no entanto, estão há anos-luz do pensamento crítico, o qual realmente leva as pessoas a pensarem de forma política, dentro de um contexto sócio-histórico e cultural. Isso, no Brasil, virou coisa de comunista. E é facilmente evidenciado quando empregam frases de efeito e sugestões de tomada do poder pela força, utilizando-se dos símbolos nacionais, para com isso, fortalecer uma ideia suprema de governo, de povo. Estão de fato não só fazendo apologia ao pensamento obscurantista, como à própria ignorância política, característica de quem vê em formas democráticas de poder, um problema a ser vencido. A esses, se lhes fosse dado o direito de escolher, não seriam brasileiros, mas Americanos, Canadenses, Alemães.

Obviamente que esses mesmos sujeitos encontram respaldo em manifestações de caráter neofascista, distorcendo informações e conhecimento, conforme suas orientações ideológicas e até religiosas. Atualmente o que se vê é uma onda negacionista, em parte alimentada por outra esfera altamente ideológica do governo, a ala evangélica. Fica nítido que a necessidade de se fazer presente, mesmo em um momento de pandemia, coloca a figura política (do presidente) e seus apoiadores, ainda com todos os riscos à saúde pública, e infringindo a própria constituição, em uma espécie de simbiose histérica.

Lembra inclusive o líder religioso Jim Jones, que motivado por questões religiosas, e uma loucura coletiva, levou 909 pessoas a cometerem suicídio. Aqui, os apoiadores agem como suicidas, mas também como assassinos indiretos. Uma pesquisa liderada pela FGV apontou que o comportamento do presidente está ligado a pelo menos 10% das mortes decorrentes de Corona Vírus no Brasil, que hoje conta com mais de 75 mil mortos, ocupando o segundo lugar em mortalidade, atrás apenas dos EUA. Isso corresponderia a mais de 7 mil mortes diretas. A pergunta que fica é: quanto ainda o Brasil caminhará para trás e pagará com vidas, por conta de um irresponsável e seus fanáticos seguidores, que têm causado um verdadeiro genocídio em nome de uma obsessão política inoperante?

 

Uma surra na educação

De acordo com a Wikipedia, “A Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) é uma denominação reformada, portanto, crê que a Bíblia é a única regra de fé e prática, fonte de toda doutrina ensinada na igreja. Todavia, a IPB subscreve os Símbolos de Westminster: (Confissão de Fé de Westminster (CFW), Catecismo Maior de Westminster e Breve Catecismo de Westminster) que considera ser exposição fiel das Sagradas Escrituras. Tais confissões são modificáveis, caso a igreja perceba erros em suas declarações e não são vistas como sagradas ou inspiradas por Deus.

Entre as doutrinas expressas na CFW estão as doutrinas da:  Trindade; Difisismo; Predestinação; Graça Comum; Divina Providência; Queda e Pecado original; Depravação Total; Vocação eficaz; Expiação eficaz; Eleição Incondicional; Perseverança dos santos; Justificação pela fé; Ordo salutis reformada; Dois sacramentos (Batismo e Eucaristia) e a Guarda do Domingo como “sábado cristão”. Além disso, a CFW expressa uma visão positiva da Lei de Deus, afirmando que embora não seja possível que os homens a cumpram integralmente, ela é o padrão que revela o caráter de Deus e deve ser observada por todos os cristãos. O Evangelho não anula a Lei. Assim, embora o homem não possa ser salvo por cumprir a Lei, ele deve obedecê-la por ser a revelação da vontade de Deus para os homens.]

A CFW também afirma que todo poder é instituído por Deus, e portanto os cristãos devem obedecer os magistrados. Todavia, não pode o poder político interferir na igreja, seus sacramentos, cultos e ordens. A Confissão se opõe a bigamia, define casamento como relação apenas possível entre homem e mulher e só admite divórcio em caso de adultério e deserção irremediáveis. O sistema de governo presbiteriano é também definido na Confissão, regulando-se por sínodos e concílios.”

Sim, esta é a ideologia, ou a teologia, como preferirem do novo ministro da educação, Milton Ribeiro, Pastor da igreja presbiteriana.

Mal assumiu e já chegava as mídias sociais o que ele pensa e diz. Não o que disse há muitos anos, mas o que pensa realmente na atualidade: crianças podem sofrer castigos físicos (tomar uma surra, como se dizia na minha época), na sua teoria da “Vara Disciplinar”. Também diz que o homem é quem deve impor a direção da família. Estas são as suas credenciais.

O que pensar da educação no Brasil nas mãos de um sujeito que ainda obedece a preceitos religiosos ultrapassados? Que tipo de cidadãos vamos educar para o futuro? Um retrocesso no ambiente de respeito ao gênero, da igualdade da mulher e respeito as diferenças. Todo um conjunto de conquistas sociais que pacificaram a sociedade em termos de acolhimento social vão para o ralo. O romance de 1985 da escritora Margaret Atwood, The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia) vai se tornando uma possibilidade real.

O Brasil vai tomando todos os caminhos errados possíveis, seja na educação, na saúde ou na economia. Parece uma obcessão pelo quanto pior, melhor. Quanto mais conservador, mais repressivo, mais repulsivo, ideal.

Novamente vou me valer da Wikipedia para uma definição: “Humanismo é a filosofia moral que coloca os humanos como os principais numa escala de importância, no centro do mundo. É uma perspectiva comum a uma grande variedade de posturas éticas que atribuem a maior importância à dignidade, aspirações e capacidades humanas, particularmente a racionalidade.”

Eu acredito na capacidade humana para superar desafios de toda ordem. Acredito que a cada geração somos capazes de melhorar o mundo em alguns aspectos e mesmo na adversidade, encontrar caminhos éticos e morais que fazem deste mundo um lugar melhor para se viver.

Dito isso, também acredito que existam serem humanos que não fazem parte da nossa humanidade. Não pode haver perdão para aqueles que cometem crimes contra ela. Não se pode admitir que genocidas convivam na mesma sociedade de suas vítimas e desfrutem da impunidade.

Sem justiça, não pode haver paz, repetem os afrodescendentes americanos em suas manifestações contra o racismo, uma praga mundial. Toda sociedade preconceituosa é uma sociedade em permanente atrito social. É o que acontece com maior, ou menor intensidade em todos os países do mundo. Cada passo dado em direção as correções na educação, em punições mais rigorosas contra o preconceito nos elevam a novos patamares de bem-estar social e progresso.

A derrubada de estátuas deste tipo de gente no mundo todo é uma forma de jogar no lixo da história aqueles que prejudicaram as relações humanas, lugar merecido para eles. Que permaneçam sendo mencionados apenas nos livros como exemplo de doutrinas que superamos e renegamos, desejando que nunca mais sejam impostas.

Vivemos dias terríveis de pandemia mundial, de crises existenciais, crises econômicas e futuro incerto. Precisamos repensar o futuro como nunca antes visto. Nada pode voltar ao normal porque o normal deixou de existir. O momento para rever conceitos é o aqui e agora, superar o impossível e juntar forças para seguir em frente.

O mundo tal como o conhecemos até 2019 nunca mais será o mesmo depois de 2020. Como será o Brasil? Agora é o momento de usar toda nossa capacidade racional para sair da resistência passiva, para uma resistência ativa.

 

 

 

 

Samba Perdido – Capitulo 12

Capítulo 12

“... aí eu vou misturar
Miami com Copacabana,
Chiclete eu misturo com banana
E o meu samba vai ficar assim...”

Jackson do Pandeiro – Chiclete com Banana

 

Apesar do fiasco na Escola Britânica ter quase acabado com o projeto de estudar cinema no exterior, ele continuou. A única alternativa que sobrou no Rio de Janeiro foi a Escola Americana ou a EA (pronunciada i-ei por todos que a conheciam). Inegavelmente era um melhor e mais sólida para adolescentes e ainda tinha a vantagem de que os cursos iam até a idade pré-universitária. O currículo, porém, era inteiramente voltado ao sistema americano. Quando me formasse teria que fazer faculdade nos Estados Unidos. Por todas serem privadas, isso custaria uma fortuna. Ao contrário, se fosse estudar no Reino Unido, muitas das melhores universidades eram praticamente gratuitas e melhores do que a maioria das Americanas. Ciente como nunca de que estávamos, mas não éramos, ricos, Rafael aprovou a decisão salgada. Um detalhe preocupante era que se mudasse de ideia e resolvesse permanecer no Brasil a escola não preparava para o vestibular.

O início foi desconcertante. O colégio possuía tudo o que se poderia esperar de uma High School americana: garotas e garotos ruivos e loiros falando inglês anasalado, um campo de baseball, uma equipe de futebol americano e a competição social inerente àquele tipo de instituição. Cobrindo o morro logo em frente a favela da Rocinha, a maior do mundo, era um lembrete de que aquele terreno enorme abrigando prédios futurísticos era o foco de um vírus estrangeiro.

O lado pedagógico da EA era tão avançado quanto sua arquitetura apesar das aulas serem ridiculamente fáceis. Não havia uniforme, construíamos nosso próprio currículo e estudávamos com diferentes alunos em diferentes salas de aula. Havia uma área de fumantes para os estudantes e vários professores, todos americanos e muito profissionais, tinham cabelos compridos, algo que nenhuma outra escola no Rio tinha nos anos setenta.

Numa cidade influenciada pela cultura Estado Unidense, em matéria de curtição, a escola era o Olimpo para a juventude da Zona Sul carioca. Quem havia introduzido o surfe, os biquínis e a maconha à cidade tinha estudado ou estava estudando ali. Meus colegas de turma eram filhos dos estrangeiros poderosos enviados para assegurar que a filial seguisse de perto as diretrizes da matriz na construção do “Novo Brasil”. Essa mentalidade colonial era visível na maioria dos estudantes e eu tinha que tomar cuidado para não absorver o sentimento generalisado de superioridade em relação aos brasileiros.

A maior parte dos colegas não era santa e estava vivendo junto com suas familias os melhores momentos de suas vidas. Longe de sua terra, os pais ganhando mais do que estariam ganhando em casa e onde tudo era mais barato, a rapaziada fazia todas as coisas erradas que outros da mesma idade faziam, mas com a vantagem de poder contar com a IBM, a Merck ou a Esso para intervir quando as aventuras terminavam mal. Esse tipo de impunidade era normalmente reservada apenas às famílias locais do mais alto escalão.

A elite da escola se conhecia bem por meio das festas, dos clubes e das organizações que seus pais participavam. Era fácil excluir os que não faziam parte da roda. Com o status de brasileiro, não-surfista, não-sarado e filho de um judeu idoso dono de um pequeno negócio, me barraram na hora. Os que faziam parte daquela turma tinham imaculados pedigrees americanos ou europeus, irradiavam autoconfiança, eram atléticos e pareciam arrasar em qualquer atividade física na qual se envolviam, menos no futebol. É claro que as meninas só davam bola para eles.

Aquela galera levava um estilo de vida difícil de se imaginar. Para começar, a maioria tinha barcos a sua espera na marina do Iate Clube do Rio de Janeiro. Muitos moravam em casas espaçosas, uma raridade mesmo naquele tempo. Os que moravam em apartamentos, viviam nos melhores endereços da cidade como as avenidas beira-mar de Ipanema e do Leblon, a Vieira Souto e a Delfim Moreira. Sempre que era convidado para suas festas ou para passar um tempo com algum deles, pensava comigo mesmo: “Então são essas as pessoas que moram aqui!” Aquela turma tinha acesso a coisas que eram ficção científica: videogames (algo que quase ninguém tinha na época), pranchas de surf e skates importados, discos de todas as bandas imagináveis e os melhores equipamentos de som disponíveis nos Estados Unidos. Seus fins de semana, quando não passados velejando num iate, eram passados em casas de veraneio que pareciam saídas de revistas especializadas e isso nas melhores localidades. Lá utilizavam todos os seus brinquedos.

Como se isso não bastasse, suas mesadas em dólar eram muito maiores do que o que eu recebia em um ano inteiro, que, por sua vez, era mais do que um salário mínimo. Meu pai tinha ganho bastante dinheiro extra com sua jogada na bolsa, mas comparados a essas famílias éramos pobres.

Os poucos amigos que fiz estavam numa situação parecida. No entanto trouxeram uma novidade: fumavam maconha. Depois que ficaram sabendo que tocava violão e dos meus gostos musicais não demorou muito para que me convidassem a descobrir qual era o motivo de tanto barulho.

Minhas primeiras tentativas foram decepcionantes. “Cara, cadê? Esse bagulho não era bom pra caralho? Já é o segundo e nada!”

“Calma, Rique, não bateu porque você está nervoso. Vou colocar um Pink Floyd para relaxar, Dark Side of The Moon. ”

“Tenho em casa, sei até tocar Time no violão.” Paranóico de que minha tirada de onda tinha caído mal, mudei de assunto. “Será que não bateu porque tossi demais?”

Aquilo foi a chave de ouro para a minha pagação de mico e todos caíram na gargalhada.

Rod, um cara que não ia com a minha cara, conseguiu parar de rir e falou. “Não falei que esse cara é muito louco?! Não bateu porque ele tossiu demais!!” E as gargalhadas voltaram.

Na terceira ou quarta sessão, tomando mais cuidado para não falar bobagem, fiquei na minha e de repente a ficha caiu que estava muito chapado.

“Caralho, cara, esse som tá muito bom!!”. Os caras olharam para mim esperando que eu falasse mais besteira. Levantei, olhei em volta me sentindo diferente e emendei. “Porra!!! Eu tô doidaço!!”. Dessa vez todos riram comigo.

A experiência não foi como tinha esperado, não havia unicórnios galopando pelo ar e as coisas não tomaram cores psicodélicas. A única mudança foi que a gente continuou rindo sem parar sem motivo nenhum enquanto trocavamos discos de bandas obscuras na vitrola. Sem dúvida, a onda dava uma dimensão diferente às coisas. Talvez por estar aprendendo violão, o efeito da fumaça deixava nítida as diferentes camadas da música. Eu parecia compreender o que se passava na cabeça dos músicos quando as criaram e quando as gravaram.

Enquanto a turma ficou inventando mentiras sobre ácido, heroína e maconhas mais potentes, falei que tinha que ir ao banheiro e fui curtir a novidade dando uma volta pelo apartamento. Os pais do dono da casa, Fred, tinham viajado e a casa estava vazia. Fiquei vagando no escuro pela sala de estar enorme vendo pinturas na parede, esculturas e plantas decorativas. Tudo tinha adquirido uma beleza que nunca teria notado em meu estado normal.

Quando voltei, já estavam fumando outro.

“E aí, Rique? ”

“Cara, esse negócio é muito bom! Me passa essa porra aí!” e todo mundo caiu de novo na gargalhada.

Depois daquela noite entrei numa sintonia diferente tanto na escola quanto na praia, no clube e em casa: agora pertencia a um clube secreto. Coisas e pessoas que nunca tinha entendido passaram a fazer todo sentido. Participar dessa realidade paralela era como a conquista de uma nova identidade. Na minha cabeça, meus pares em outras rodas, o Maurício, o Jaime e o Léo estavam morrendo de vontade de fazer o mesmo mas não tinham coragem.

O lado negativo foi que passei a levar uma vida dupla. Não disse nada para os meus outros amigos, muito menos para os meus pais. Os dois Riques não se misturavam, para um grupo continuei sendo o mesmo de sempre só que com sumiços e momentos estranhos, para o outro era um iniciante estabanado. Logo descobriria que a maconha era um repelente contra as garotas, mas e daí? Nunca iria conseguir nada com as beldades da Escola Americana mesmo.

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Samba Perdido – Capítulo 11

Capítulo 11

 

“…Eu fico contente da vida

Em saber que a Bahia é Brasil.”

Francisco Alves – Bahia com H

 

Se para Rafael e Renée o sonho de levar uma vida idílica num paraíso exótico era difícil de encaixar com a responsabilidade de criar filhos, imagina lidar com um que tinha decidido ser diretor de cinema. Seu investimento pesado em educação era para gerar um herdeiro médico, engenheiro, advogado ou algo parecido, não um menino sonhador. Ansiosos pela escolha um tanto precoce e irrealista e sem saber nada sobre o assunto, os dois fizeram o melhor que podiam. 

Após consultar um monte de  “especialistas”, ou seja, amigos e familiares com as mesmas percepções e limitações, chegaram a uma conclusão. O mais aconselhável seria me mandar estudar na Inglaterra onde, na cabeça da dona Renée, seria treinado para ter meu nome em cartazes de filmes importantes. 

Para tanto, minha vida acadêmica teria que mudar. Entrar para o sistema britânico dependia do sucesso nos O-levels, um teste difícil que todos tinham que fazer por volta dos dezesseis anos. Quem passava se qualificada para a próxima etapa, os A-levels, um teste mais direcionado e ainda mais puxado, que teria quando fizesse dezoito. Esse sim, servia de passaporte para as universidades britânicas.

O único curso no Rio que preparava para os O-levels não era outro senão a mesma Escola Britânica que havia praticamente me expulsado. Para os A-levels, não teria jeito, a única opção seria me mudar para a Inglaterra e meus pais começaram a ver as possibilidades. 

A volta para a minha primeira escola era uma decisão arriscada e cara. Minha turma seria a primeira na escola a se preparar para aquela prova. Serviríamos de cobaias e seríamos os alunos mais velhos que já tinham tido. 

Houve muitas discussões a portas fechadas, com minha mãe fantasiando sobre meu futuro de cineasta e meu pai preocupado não só com o custo, mas também com meu comprometimento e com as possibilidades nessa carreira. Isso era coisa de menino rico. Talvez essa condição não duraria para sempre e essa era uma clareza que só ele possuía em casa. 

Contudo, resolveram correr o risco. O ano letivo começa fim de Agosto, espelhando o Britanico, e quando o momento  chegou, lá estava eu, cinco anos mais velho, de novo num uniforme azul e cinza, pegando o ônibus, dessa vez sozinho, rumo ao mesmo lugar onde tinha visto a rainha entrando de Rolls Royce. Na minha cabeça esse era o primeiro passo para me tornar um diretor de cinema. 

Em poucas semanas deu para sentir que a escolha talvez não tivesse sido a melhor. A escola não era mais a mesma. Além de estar ligeiramente dilapidada, o curso era desorganizado e, apesar de serem todos estrangeiros, os professores em sua maioria, pareciam aposentados ou donas de casa fazendo um bico.

O ex-oficial disciplinador da marinha que havia cismado comigo tinha há muito voltado para a Inglaterra. Agora, o diretor era o esquisitíssimo Mr. Lewis, um sujeito seboso, com óculos “fundo de garrafa”, baixinho e troncudo. Parecendo um ogro do Harry Potter sempre exalava um bafo poderoso das suas feições de buldogue bêbado. Além de ter vários tiques nervosos, era meio gago e falava com um sotaque exageradamente elegante do qual tirávamos sarro. Acima de tudo, o coitado não tinha a menor ideia de como impor respeito a adolescentes.

Por outro lado, apesar de em termos acadêmicos aquela ser a hora errada para se estudar alí, em questão de diversão a história era bem diferente. Com exceção de nosso professor de matemática, Mr. Bindley, um enorme ex-jogador de rúgbi do norte da Inglaterra, ninguém era capaz de controlar nossa turma. Isso nos permitiu criar um regime de terror e fazer tudo de errado que garotos entre 14 e 16 anos são capazes. A capetagem era horrível, enfiávamos nossas mãos não convidadas embaixo das saias das garotas, destruíamos os cadernos dos alunos certinhos no ventilador, dávamos descarga em peixinhos dourados e escapávamos da escola no horário do almoço para voltar embriagados para as aulas.

Ainda que o currículo fosse o mesmo que escolas similares no Reino Unido, nem eu nem os meus novos amigos, todos filhos de diplomatas e de executivos de alto escalão, jamais tiraríamos qualquer proveito daquelas aulas. No final do ano, tive que ser honesto e falar para o Rafael que ele estava jogando o seu dinheiro suado fora. Com toda aquela loucura, seria necessário um esforço sobre-humano para deixar a farra de lado e me focar no meu objetivo.

Mudar de atitude radicalmente para recuperar cinco anos passados no sistema brasileiro e passar naquela prova dificílima era uma tarefa pesada demais. É fácil criticar um menino privilegiado de 15 anos de idade, mas não tinha sido criado para aquilo. Também, apesar do sonho de ser cineasta continuar vivo, depois de conversar com os colegas e a entender a mentalidade Britânica melhor perdi motivação. A ideia de deixar a vida boa do Rio de Janeiro e me mudar para a dura realidade de ser um estrangeiro num colégio interno na Inglaterra passou a não ser convidativa. Lá, com certeza, os colegas e os professores ingleses fariam de tudo para colocar o estrangeiro novato “na linha”. 

*   

Depois de constatado o erro, Renée e Rafael ficaram sem saber o que fazer com o filho. Em meio ao caos, talvez visando me colocar de volta nos trilhos ou me fazer esquecer a carreira de ser cineasta, minha mãe sugeriu que aprendesse a tocar violão. Tinha levado jeito com a flauta quando criança, quem sabe se me tornasse bom com as cordas, minhas habilidades poderiam abrir as portas da popularidade com uma turma mais positiva. Em casa já havia um violão excelente, um Del Vecchio artesanal. Era da Sarah, mas ela nunca tinha conseguido aprender. Pelo menos daquela vez, o conselho materno acabou sendo um tiro na mosca e sem conseguir levar a escola a sério, popular ou não, mergulhei fundo no instrumento. Dali nasceu uma amizade que duraria para toda a vida. 

O professor particular veio através de uma amiga de tênis da Renée. Romualdo tinha uns vinte e tantos anos, magro, testudo, óculos “fundo de garrafa” a frente de um rosto coberto de espinhas que não combinavam com suas feições africanas. Ele parecia, e se vestia, como um nerd mas no violão era inacreditável. Ele tinha sido roqueiro, mas – nunca descobri o porquê – havia se convertido para o fundamentalismo da bossa nova e era isso ensinava. 

No início, não gostei. Queria tocar como Jimi Hendrix, enquanto ele só me ensinava o estilo conservador de João Gilberto. Os deveres de casa eram doloridos, tinha que me esforçar para fazer os acordes de jazz que forçavam os dedos a segurar as cordas em posições que pareciam com uma aranha. 

Foi difícil, mas quando peguei o jeito e a mão esquerda começou a cumprir o seu papel enquanto a direita fazia a batida do samba, a magia musical começou a sair. Daquele momento em diante, descobri não só um estado de espírito que trazia harmonia, mas também algo que amava.  É claro que a medida que o violão foi tomando um papel central no meu dia a dia, a escola e os deveres de casa foram ficando ainda mais distantes.

*

Presos no conservadorismo da minha mãe, em casa só tínhamos discos de música clássica. Para avançar, precisava ter acesso à música que o Romualdo estava me ensinando. Não era só bossa nova, era também o que a nova geração da música popular brasileira estava fazendo. A saída foi a biblioteca do Ibeu, o Instituto Brasil-Estados Unidos. Armado na altura em que planejavam o golpe militar, o instituto tinha sido uma tentativa de relações públicas positiva. Ficava perto de nosso antigo apartamento em Copacabana. Além de oferecer cursos de inglês e de outros serviços, tinha uma biblioteca respeitável. Era isso que era o que interessava, em particular a sua coleção de discos. 

Seu acervo era generoso. Além de LP’s dos óbvios: João Gilberto, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Jorge Ben, também havia discos de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Cartola, Elis Regina, Clementina de Jesus, Milton Nascimento, Paulinho da Viola, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Fagner, Walter Franco, Luiz Melodia, Os Mutantes, Raul Seixas entre muitos outros. Havia também uma respeitável coleção de títulos de rock internacional. Apesar de não ter nada das bandas principais; Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin, Pink Floyd, havia bastante coisa interessante como The Band, Bob Dylan, Focus e Ten Years After.

Os sócios podiam levar três discos de cada vez. Com tanta coisa para escolher não sabia por onde começar. Fui com sede ao pote, queria conhecer tudo. Esses sons passaram a ser uma presença constante no velho toca-discos do meu quarto e aos poucos, fizeram com que o mundo se tornasse um lugar maior.

*

O Ibeu passou a ser mais do que um portal de acesso a novas paisagens musicais; sua coleção de livros também ajudou a expandir os horizontes literários. Comecei com as coleções inteiras do Asterix e do Tintin. Agora, mais velho, descobri livros. Entre eles achei os de Jorge Amado. Meu primeiro livro foi Capitães de Areia. Suas páginas descreviam a vida de moleques de rua de Salvador enfrentando a pobreza, a ignorância e o preconceito racial bem antes de o “Novo Brasil” entrar em cena. Fascinado, acabei devorando a obra inteira do escritor baiano. 

Como a maioria dos autores e intelectuais latino-americanos de sua geração, Jorge Amado era de esquerda, de fato comunista. Seus trabalhos mostravam como as chamadas massas eram sofisticadas e tinham vidas mais completas do que a dos novos ricos neuróticos, urbanos, moralistas e brancos. Suas estórias eram dramáticas e cheias de sensualidade e falavam do povão que via na rua todos os dias mas com quem não me relacionava. 

Seus livros voltaram minha atenção para a enorme celebração da mistura de raças e de culturas, que é o Brasil e me fizeram dar vários passos adiante na aventura que meus pais começaram quando resolverem mudar de continentes. Descobri a Bahia pulsando no coração do país. Talvez por Salvador ter sido a primeira capital, a brasilidade ali era mais enraizada. Além de fornecer seu melhor escritor, o estado era o Delta do Mississipi do mundo lusófono e tinha dado ao país seus músicos mais talentosos: Dorival Caymmi, João Gilberto, Gilberto Gil e Caetano Veloso, todos agora devidamente presentes no meu toca-discos, e nas cordas do meu violão. 

O Samba tinha nascido lá, bem como as religiões afro-brasileiras e a capoeira, criada nas batalhas dos escravos contra seu destino. Com exceção do Haiti, a Bahia era o lugar mais africano no planeta fora do próprio continente. Ao contrário da maioria dos negros espalhados pelo mundo, os baianos eram orgulhosos de suas origens e viviam de acordo com suas tradições, não como uma expressão da resistência política, mas por amor.

Não era o único fascinado pela Bahia nos anos 1970; a abundância de praias inexploradas, os talentos da terra e a aura afro-brasileira, transformaram aquela parte do Brasil no destino preferido de hippies do país inteiro. Havia algo que emanava daquela terra que permitia com que a juventude rejeitasse o sistema de uma maneira mais verdadeira do que a estilo californiano e exclusivista acontecendo nas praias cariocas. Talvez não coincidentemente foi por volta dessa época, que o maior mestre de capoeira do seu tempo, Mestre Camisa, discípulo do lendário Mestre Bimba, chegou de Salvador e popularizou o esporte na classe média carioca. Ele começou treinando um pequeno grupo de capoeiristas, Gato, Peixinho e Garrincha, que mais tarde se tornariam eles mesmos mestres. Juntos com seu mentor, formariam o grupo Senzala. Agora separado em diferentes subgrupos, o Senzala viria a dominar tanto o cenário brasileiro como o internacional da capoeira.  

*

Um dia, fuçando a caixa de surpresas musicais do Ibeu me deparei com um disco novo. A capa era com um monte de hippies sorridentes posando para uma foto. Tirei ele da pilha para dar uma olhada. A contracapa era de uns pratos misturados com uns bules de café e panelas de alumínio amassado espalhados em círculo no chão de um barraco. O título do disco era Acabou Chorare e o nome da banda era Novos Baianos. Na fase que eu estava, tudo nele parecia dizer “por favor, me leve para ouvir em casa”. 

Quando coloquei para tocar, reconheci de imediato uma música que tinha ouvido na rádio e que eu gostava muito, Preta Pretinha. Conforme fui ouvindo o resto do disco, fiquei consumido pela mistura bem-feita de rock com música brasileira e dos instrumentos elétricos com o som caseiro de instrumentos acústicos. Tudo tocando com harmonias e ritmos complexos porém cheios de vida. Ouvi o disco repetidamente até a hora do jantar e continuei depois. Fui dormir absorvido pela ginga musical e pela malandragem lisérgica das letras e acordei querendo mais. Foi assim que descobri o que, para mim, foi a melhor banda de todos os tempos.

O também baiano Tom Zé, o gênio musical da Tropicália foi quem juntou a banda em Salvador e os trouxe para o Rio. Lá, como os poetas gregos, não só cantaram mas também viveram o sonho hippie. Morando em comunidade num apartamento em Botafogo, se tornaram as abelhas-rainhas do enorme contingente de alienados na juventude carioca.

Eles tiveram sorte: junto com Milton Nascimento e seu “clube da esquina”, sua presença preencheu o vazio deixado para trás pelo exílio dos grandes nomes da música brasileira: Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso. Somado a isso, ainda no Brasil, João Gilberto, a expressão máxima da bossa nova, resolveu apadrinhar a banda. Trabalhando com eles, conseguiu lapidar seu talento bruto nos mais altos padrões de qualidade. 

Com tanta energia positiva, a banda acabou conseguindo um contrato com a Som Livre, a gravadora das organizações Globo. Cientes de que o astral do grupo era fundamental e preocupados com os problemas que os seus excessos no apartamento em Botafogo poderiam trazer, a produção os mudou para um sitio em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio. Lá, a banda dividia seu tempo jogando bola, ensaiando, criando, comendo comida vegetariana, se chapando e fazendo filhos. O rancho se tornaria um ícone da época.

O afã daquela geração em aproveitar a vida, se distanciando da toxicidade dos caretas e de suas caretices, podia ser resumida na pergunta que faziam em seu bem-humorado samba, Besta é Tu: “Por que não viver este mundo se não há outro mundo?” 

Os Novos Baianos personificaram o que os hippies brasileiros foram durante a ditadura: uma força da natureza. Com uma repressão assassina à solta, a resistência tinha virado existencial, quase espiritual, daí talvez mais saudável do que a política convencional. Seu caminho buscava resistir sendo não urbano, tentando achar uma nova maneira de se relacionar com o mundo, tendo a cabeça aberta, mas ao mesmo tempo preservando integridade consigo mesmo e com os outros. 

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Para não dizerem que não falei de Decotelli

 

Durante uma semana ficamos sabendo quem seria o novo ocupante do MEC e a seguir de sua demissão do cargo. Carlos Alberto Decotelli da Silva teve uma passagem “celeríssima” pelo governo Bolsonaro.

Eu não me importo com a cor da pessoa, mas com o seu caráter, sua honradez, sua capacidade de trabalho, sua honestidade etc. Ele não foi o único ministro do atual governo a mentir em seu currículo, mas foi o mais destacado deles até pedir para sair.

Tenho certeza de que seus amigos e alunos, ao menos os que se dispuseram a dar entrevistas, foram sinceros ao dizerem que se tratava de uma ótima pessoa, muito querida e excelente professor. Com certeza, sua família, além dele próprio sofreram muito com todo o episódio.

O fato é que nada justifica uma fraude. O que ele fez em seu currículo se chama Crime de Falsidade Ideológica e, se quisesse, o MP poderia abrir um processo contra ele. Não se pode atribuir diplomas de cursos não completados, de trabalhos não realizados e de universidades não frequentadas.

Decotelli foi muito ingênuo ao achar que poderia assumir o cargo do até então pior ministro da educação da história do Brasil, que acabava de fugir para os EUA usando um passaporte diplomático que não tinha mais direito, sem ter sua vida escrutinada. Parece ter ficado ébrio com o convite.

Não tenho dúvida que servir como ministro ao país é uma grande honra para qualquer um. Mas vamos falar sério. Uma coisa é servir de ministro em uma ditadura, outra coisa numa democracia. E mesmo em uma democracia, uma coisa é servir a um governo popular, outra a um governo fascista. Muita gente não tem o menor discernimento.

Existem outros ministros que mentiram descaradamente em seus currículos que haviam estudado em Harvard. Foram motivo de piada, corrigiram o erro e se mantiveram no cargo. Decotelli foi um pouco exagerado. Cometeu plágio e também escreveu possuir títulos inexistentes. Começou mal e terminou pior ainda.

Em um governo cheio de estrelas nazistas, de crentes na Terra Plana, adoradores de Trump, adeptos das teorias da conspiração, como a do Covid-19 ser um vírus criado para os comunistas dominarem o mundo, tudo agora é visto com uma lupa. Se mais alguém acha que pode entrar para este governo com qualquer manchinha no passado ser esquecida, perca as esperanças. Sua vida será revirada ao avesso.

O exemplo Decotelli acabou se tronando didático. Imagino que o Lattes nunca teve tanto acesso de pessoas “corrigindo” erros cometidos. É bom que o façam, de farsas e mentiras neste governo, já chegamos ao limite do tolerável.

A classe dos professores foi maculada por um dos seus. Nenhuma classe está a salvo de pessoas assim. Creditar-se ter alcançado na vida aquilo que era desejo, sem ter cumprido as atividades formais, ou ter sido reprovado nos trabalhos, não é algo que a gente esperava de um professor. Muito menos de um economista. É como se ele tivesse trapaceado nas contas.

Bolsonaro consegue errar em absolutamente tudo o que faz. Até na nomeação de um ministro o cara não acerta. Era de se supor que lhe são trazidos nomes que passaram por todo tipo de exame e seriam todos ilibados. Nada disso. Em um governo sem presidente a altura do cargo, são estas baixarias que vamos seguir assistindo.