Samba Perdido – Capítulo 15 – Parte 01

Capítulo 15

 

“Vida louca, vida
Vida breve,
Já que eu não posso te levar
Quero que você me leve.”

Vida Louca - Cazuza

 

De volta às aulas, descobri que a fama no violão tinha chamado a atenção da turma dos aspirantes a músico. Naqueles tempos de rock and roll, esta era uma casta importante na escola. Tinha ouvido falar que se encontravam regularmente para levar um som e e estava doido fazer parte. No início, impuseram uma distância por não saberem bem qual era a minha mas quando um deles finalmente me convidou, fiquei para lá de amarradão. Nas sessões fui percebendo que todos eram igualmente ávidos para aprender e absorviam tudo que podiam uns com os outros. Todos gostavam de rock, mas ninguém tinha nada contra experimentar com jazz progressivo e ritmos brasileiros. Paradoxalmente, apesar de ser visto como meio estrangeiro, meu interesse estava mais para o batuque do que para a levada da guitarra distorcida. Havia aqueles que eram melhores de solos, outros que, mais parecidos comigo, conheciam mais acordes e criavam levadas interessantes, alguns tocavam bateria, outros teclado, baixo e instrumentos de percussão como bongôs e atabaques.

Haviam varios subgrupos. O ponto de encontro da turma que me acolheu era a casa do Fernando, ou Fefo, que morava numa cobertura no Leme com uma vista fantástica da praia de Copacabana. Por algum motivo, ele e seu irmão mais velho viviam sem os pais, o que fazia daquele apartamento de dois andares uma zona livre. Nas terças e quintas, com a desculpa de ir estudar, a gente se reunia para tocar no quarto reservado para aquilo. Ele era ideal, espaçoso, cheio de almofadas confortáveis espalhadas pelo chão de madeira. Havia duas janelas grandes com grades de metal em estilo art déco lindíssimas que emolduravam a vista do Morro do Leme. Um dos membros da banda do Júlio, o irmão do Fefo, guardava seu amplificador lá. Sempre coberto de pontas de cigarro, copos sujos e garrafas de cerveja vazias, ele servia como o único móvel do quarto.

O som começava com a gente mostrando as últimas músicas e riffs que tínhamos aprendido ou criado. Quando os outros curtiam a novidade, todo mundo ia atrás, dando ideias e adicionando o que podiam. A atitude era parecida com a que tínhamos em relação ao futebol – aquilo era uma pelada musical. Queríamos aprender, curtir, sem nenhuma pretensão de formar uma banda.

Nos finais de semana, Júlio e seus amigos se juntavam à gente. Eles tocavam melhor e sempre traziam uma fartura de “bagulho” bom. Antes de qualquer coisa, enrolavam uns baseados que de tão gigantescos só davam para “pilar” com o dedo. Quando aqueles charutos chegavam ao fim, vinha uma chapação que parecia durar uma eternidade. Ficavamos feito zumbis olhando o cachorro, Pepe, balançar o rabo, latir e nos cutucar com suas patas tentando nos trazer de volta à vida. Volta e meia alguém o segurava e soprava a fumaça para dentro da sua fuça para ver se sossegava, mas, que me lembre, isso nunca funcionou.

Com um esforço sobre-humano, alguém finalmente conseguia se arrastar até o outro quarto onde a gente deixava os instrumentos. Um ou dois iam atrás e começavam a tocar alguma coisa. Aos poucos todos iam entrando e pegando os instrumentos. Com energias renovadas, atingíamos zonas de inspiração esotéricas de onde surgiam uns sons mucho locos. Algumas criações faziam a moçada ir ao delírio, outras faziam a gente cair na gargalhada. No dia seguinte ninguém conseguia se lembrar ou reproduzir nada que tinha acontecido, só sabíamos que tinha sido muito bom. Coisas da madame Cannabis Sativa.

*

Quase que sem perceber passamos à categoria dos doidões da escola; malditos, porém respeitados pelo espírito livre e contestatório. Para os menos simpáticos, éramos um bando de “porra-loucas”, todos fadados a se dar mal na vida, mas e daí? Quem estava falando eram eles ou o medo de levar porrada dos pais? Ainda que não nos víssemos como nem uma coisa, nem outra, os considerávamos caretas. Acreditávamos que, ao contrário deles, sabíamos das coisas e que havíamos descoberto a fórmula de gozar nossas existências sem as paranoias da burguesia. Independentemente de estarmos certos ou não, a divisão era clara e ninguém era de ficar em cima do muro.

Conforme as diferenças foram aumentando, fomos criando nossa própria subcultura. Nela, quem tinha a moral de comprar maconha na favela, atingia um status mais elevado. Resolvi ver qual era. A primeira boca de fumo que visitei foi no Cosme Velho, conhecida como “os trilhos”. Ela ficava logo no começo da linha do bonde que levava turistas ao Corcovado. Daquela vez, todo mundo tinha contribuído com alguma grana, mas fomos somente eu, o Juca e o Pitéo, um cara do ano acima que já tinha ido lá e sabia como lidar com o pessoal do “movimento”, ou pelo menos dizia que sabia.

Descemos no ponto final do ônibus perto da entrada para o Túnel Rebouças e fomos até um caminho na beira da Floresta da Tijuca. O Pitéo pediu para a gente dar o dinheiro e ficar esperando ali.

“Qual é Pitéo? Vai fugir com a nossa grana?”

“Não é isso, mané, os caras me conhecem e não gostam de muita gente chegando ao mesmo tempo.” Ele tinha se ofendido. “E tem mais, não precisa dar a grana agora. Fica com essa porra! Os caras vão descer para entregar o bagulho e aí a gente paga.”

Depois disso, subiu a ladeira cheio de si e sumiu na curva dos trilhos. Ficamos esperando por uns dez minutos que pareceram uma eternidade. Nosso colega voltou nervoso, dizendo que o “vapor” estava vindo logo atrás e que tínhamos que dar a grana agora. Logo depois, um mulato magro de short, chinelo e sem camisa apareceu na curva, olhou para a gente e fez um sinal. Pitéo subiu lá e passou o dinheiro discretamente. Em contrapartida, o cara olhou em volta para ver se não havia ninguém espiando e passou os papelotes de dentro da cueca para a mão do nosso camarada. Depois da entrega, o cara subiu apressado e o Pitéo desceu fingindo ser um morador tranquilo do bairro. Quando chegou, abriu a mão sem falar nada e mostrou as trouxinhas, cada uma pesando dez gramas. Cada um pegou a sua. Depois disso atravessamos a rua e subimos no primeiro ônibus nos sentindo como soldados voltando de uma operação bem-sucedida.

*

O risco me deu uma infusão de adrenalina e eu queria mais. A partir dali, frequentemente era eu quem ia lá para comprar para o pessoal. Um dia, o “vapor” de plantão disse que não tinha nada naquele dia.

“Tá a maior seca, meu irmão!”

Cocei a cabeça sabendo que a galera ia ficar desapontada se chegasse de mãos vazias. Queria fazer bonito com a Soninha, uma menina em quem estava de olho.

Havia dois outros “fregueses” na mesma situação. Um deles perguntou: “E lá no Morro dos Prazeres? Será que tem?”

“Lá é capaz de ter, eles estão esperando um carregamento do bom, mas não tenho certeza se chegou ainda.” O cara olhou para cima e apontou para o mato do outro lado do vale. “É lá em cima daquele morro, vocês sabem como chegar lá?”

Um dos outros dois respondeu: “Eu sei, bora lá?”

“Bora!”

A gente virou para o traficante. “Valeu pelo toque, meu irmão!”

“Valeu! Na semana que vem volta aqui que tem.”

Descemos os trilhos e fomos rumo ao morro do lado oposto do trânsito. Cruzamos a rua e depois que a calçada acabou, tomamos uma trilha que primeiro seguia ao longo do tráfego pesado em direção ao Túnel Rebouças, mas que depois adentrava mato acima. Subimos e no topo do morro chegamos num campo de futebol onde garotos estavam batendo bola. Cruzamos o campo. Por saberem o que a gente estava fazendo ali, continuaram com a sua pelada sem nos dar atenção. De lá, passamos por entre os barracos até chegarmos no final de uma viela. Do alto dos telhados à nossa volta, um pessoal da nossa idade mantinham guarda. No fim do beco, havia uma espécie de quintal e um barraco de frente para o mato. Um mulato alto e magricelo com um revólver na cintura saiu para falar com a gente.

“Aê, playboys, estão procurando alguém?”

Tentando disfarçar nossa apreensão, dissemos da maneira mais calma possível que queríamos comprar cinquenta gramas.

“Ah, é pra isso!” Já dava para ver que o cara estava chapado e estava adorando estar tirando uma onda com a nossa cara, uma péssima combinação para alguém com uma arma na cintura. “Espera aí.”

Ele voltou à porta do barraco e gritou para alguém que estava lá dentro: “Aê, Geraldo, tu já separou aquele tijolo?”

A voz gritou de volta. “Ainda não, o patrão falou que só precisava para hoje à noite.”

“Hoje à noite não dá, mané, já tem freguês aqui fora.”

Ele virou para nós fazendo um gesto para a gente esperar e entrou no barraco. Dois minutos depois, o cara voltou com um baseado enorme na boca e um tablete de dois quilos da coisa debaixo do braço. Aquilo era maior do que vários tijolos de alvenaria juntos – a maior quantidade do produto que já tinha visto na vida.

“Isso chegou hoje de manhã, é paraguaio, prensado, bom pra caralho. Já viu tanta maconha junto?” Ele levantou a mão calejada e ofereceu o cigarro improvisado. “Experimenta aí, playboy!”

Não dava para recusar. O que ele disse era verdade, era do bom e imediatamente sentimos o efeito, mas o medo era demais para relaxarmos a guarda. “Podes crer, é bom!”

Enquanto fomos passando o baseado em silêncio, ele foi separando nossa parte no olho. “Isso aqui é cinquenta gramas, é para dividir por três?”

A gente se olhou e concordamos que sim. Depois que os papelotes estavam prontos, nós entregamos o dinheiro.

Ele gritou para dentro: “Aê, patrão, os fregueses pagaram, quer conferir?” Ele se virou para nós e levantou as sobrancelhas como se dissesse que aquilo era chato, mas tinha que ser feito.

Um cara mais velho, negro e mal-encarado, saiu do barraco e sem falar uma palavra contou o dinheiro e verificou se os pedaços para a gente estavam certos.

“Tá tudo certo, pode liberar. ” Já com o dinheiro na mão, ele pegou o baseado, deu uma baforada e relaxou. “Vocês se deram bem! Essa porra aí chegou fresquinha hoje de manhã e é boa pra caralho.” Ele se voltou para mim e deu uma risada. “Olha só a cara desse maluco, já tá doidão!”

Depois daquela confraternização, colocamos os papelotes na cueca, nos despedimos e fomos embora. Passamos pelos becos enlameados separando as paredes de tijolos dos precários barracos. Apesar de ser minha primeira vez numa favela, não estava com medo. Talvez por causa do efeito e da descontração da despedida, o povo e o local pareciam familiares e passamos desapercebidos.

Quando saímos, percebi que estávamos em Santa Teresa, o bairro às margens da Floresta da Tijuca. Dali, subimos num dos seus bondes e partimos rumo ao Centro da Cidade. O sol estava se pondo e o odor doce das árvores flutuava por entre os bancos de madeira do carro velho e amarelo chacoalhando conforme passava pelas casas coloridas que caracterizavam o bairro histórico.

Longe da Gê, estava de novo em estado de graça, me sentindo de férias, mas com saudades dela. Depois que o bondinho chegou ao seu destino final, seguimos cada um por seu caminho através da selva de concreto do Centro da Cidade.

*

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O que é isso Facebook?

Quando o Movimento Popular Antirracismo começou no final dos anos 80, sua luta contra o neonazista Siegfrid Elwanger e sua editora antissemita, chamada Revisão (sic), tivemos de superar diversas barreiras éticas e morais.

Como é que nós, advindos da luta contra a ditadura, combatentes das liberdades democráticas, especialmente contra toda forma de censura, poderíamos pedir a apreensão de livros? Fazendo isso, a gente não estaria se igualando aos censores que determinavam o que se poderia ler, e o que não?

Não havia precedente para isso. Ao final de muitas discussões chegamos a conclusão de que quando livros são utilizados como arma para difundir um ideário que instiga a morte de alguém, no caso em questão, de todo um povo (o povo judeu), municiado de Fakenews (o termo nem existia), neste caso ocorria uma violação do maior bem de um ser humano, seu direito a vida, portanto se sobrepondo ao direito da livre expressão.

Agora, um ministro do STF decide que as redes sociais devem retirar do ar as contas de notórios fabricantes e divulgadores de Fakenews, investigados em processo do qual se podem se tornar réus. Esta decisão coloca a questão do direito da livre expressão novamente em questão. Teriam eles o direito de dizerem o que bem desejam, acredite quem quiser?

O Twitter obedeceu e tirou as contas do ar, mas o Fecebook fez isso somente para os Brasileiros. No resto do mundo, pode-se acessar suas contas. A desculpa é de que se qualquer juiz de qualquer país, por qualquer razão que seja, resolver tomar atitude similar, o Facebook se veria perdendo membros e em consequência, perderia também receita. Um pouco exagerado, mas esta é a razão pela qual estão sendo chamados a pagar uma multa milionária e seu presidente no Brasil, em tese, pode vir a ser preso por desobediência de uma ordem judicial.

Dito isto tudo, o que está em jogo é a nossa liberdade de escolha, nosso direito de acesso a informação, qualquer que seja ela. A livre expressão não pode ser limitada,  somos capazes de discernimento para separar o que é real e verdadeiro, daquilo que é inventado e mentiroso. Isto é o que a extrema direita quer que você acredite.

Claro que somos, ao menos a maioria de nós, defensores incondicionais das liberdade democráticas, do exercício da plena cidadania, contra toda forma de censura, afinal de contas, somos humanistas e progressistas. No entanto, para tudo existem limites. Como dizem, a minha liberdade vai até onde começa a liberdade do outro. Se utilizar de sofismas para na verdade atentar contra a vida, a democracia e a liberdade de escolha, é o que estes investigados  fazem. Seu propósito não é outro, senão a manter no poder o atual mandatário, eleito graças a estas  ações.

É uma grande falácia se acreditar que se deve  permitir que indivíduos, ou organizações que pregam o fim da democracia e o respeito aos direitos humanos, tenham o direito de fazê-lo dentro do regime democrático. Isto é crime contra a cidadania e deve ser combatido com leis e restrições. Quem desejar viver sob um regime autoritário que procure um lugar no mundo onde ele exista e para lá se mude.

Quando o Facebook, com centenas de milhões de usuários usa de subterfúgios para  contrariar uma determinação judicial da justiça brasileira, determinada contra brasileiros envolvidos em crimes contra a democracia, ele está prestando um desserviço a democracia como um todo e a justiça brasileira em especial.

Não há margens para engano aqui. Todos eles são notórios fascistas que pregam todo o rol de ações anti-humanas como o racismo, a homofobia, a misoginia e o ódio ideológico contra a esquerda.

Neste caso, está certa a justiça brasileira em impor pesadas multas diárias a desobediência de ordem judicial do Facebook que atua no Brasil, e portanto deve se obrigar a respeitar as leis e a legislação brasileira no que se refere a ações contra cidadãos brasileiros, ou aqueles que aqui vivem.

A democracia não é um regime perfeito, mas é o que nos permite conviver em sociedade  e nos dá a opção de troca de regimes e lideranças a cada número de anos em eleições livres. Com todos os problemas e contradições, nada supera a democracia.

Samba Perdido Capítulo 14 – parte 02

Apesar das frustrações no departamento amoroso, se é que  podia ser chamado disso, a gente adorou o pré-Carnaval do Recife. No Rio, a classe média fugia da folia para descansar, mas ali todos faziam questão de ficar e participar. A cidade inteira entrava na onda e ficava de cabeça para baixo. À noite, havia a tradição do “Mela-Mela”. Blocos improvisados cruzavam pelas ruas abarrotadas de foliões que passavam melando uns aos outros, conhecidos ou não, com uma mistura de água, açúcar e farinha que preparavam em casa. Nossos anfitriões fizeram questão de fazer alguns sacos da coisa para a gente. É claro que era previsível que dois caras de fora seriam mais alvos do que atiradores. Nós revidamos, mas quando nossa munição acabava, tinhamos que voltar para casa parecendo dois pães franceses crus mas felizes e exaustos da diversão.

Nos fins de semana, durante o dia as pessoas passeavam em carros sem portas e em caminhões alugados jogando baldes de água nos passantes. Nas calçadas, as vítimas os aguardavam com jatos d´água de madeira de um metro e pouco de comprimento preparadas para revidar. Quando os carros passavam, era uma guerra e os embates aconteciam em meio a gritos e gargalhadas. A tia do Davi nos avisou para tomar cuidado com as coisas que as pessoas podiam colocar na água, mas nunca saímos cheirando a algo estranho.

O primeiro baile de pré-Carnaval daquele verão foi na parte velha da cidade, junto ao porto. A praça, o Marco Zero, ficava numa área que, por causa do arranjo estreito das ruas e das lojas mal cuidadas, parecia com o pano de fundo de um velho filme preto e branco passado no Oriente Médio, mas com prédios coloniais europeus e povoada por caribenhos.

O ritmo do Recife é o frevo, que para nós parecia uma batida militar acelerada com um quê de africano. Nos bailes, ele era executado por uma sessão rítmica considerável, acompanhando uma orquestra de metais tocando arranjos rápidos e complexos. O jeito tradicional de se dançar aquele ritmo envolvia agachar-se e pular no ritmo da música agitando um guarda-chuvas. Porém a multidão na Praça da Sé estava bêbada demais para acrobacias. Quando a música pegava fogo, a sensação era parecida com a de se estar em um show de punk-rock, onde ninguém sabia ao certo se estava brigando ou se divertindo. Tínhamos que ficar dando cotoveladas acima de nossas cabeças para não sermos atingidos naquela enxurrada de loucura musical.

Chegou uma hora que os organizadores pararam a música e ergueram uma garrafa de whisky nacional, anunciando “Boa noite, povo do Recife! Esta aqui uma garrafa de uísque Drury’s, o melhor do Brasil. Ela vai para o folião mais animado desta gente maravilhosa. Quem está animado aí?”

A praça foi ao delírio.

“Então vamos ver quem é o mais animado de vocês, valendo essa garrafa!”

A banda voltou a tocar e a turba caiu no frevo ainda mais enlouquecida.

*

Algumas semanas mais tarde, o Carnaval começou oficialmente e nós tínhamos duas opções. A primeira delas era ir para Olinda, a cidade histórica ao lado do Recife, onde as autoridades fechavam a cidade para carros pelos quatro dias inteiros. Fora os inúmeros blocos nas ruas da cidade, havia sempre no mínimo quatro ou cinco orquestras de frevo tocando em diferentes lugares ao mesmo tempo. Podíamos pular de Carnaval em Carnaval e nos juntar às multidões que nunca tinham menos de mil pessoas.

A outra escolha era ir aos bailes de Carnaval em Recife. Nos primeiros três dias escolhemos a primeira opção: o Carnaval de rua de Olinda, mas, apesar da animação não obtivemos sucesso com as garotas. No último dia, para tentar mudar nossa sorte, partimos para a segunda alternativa, onde talvez a receptividade feminina fosse ser maior. Foi assim que acabamos no Carnaval do Sport Clube do Recife, sede do famoso clube de futebol.

A entrada estava apinhada. O ingresso era barato e havia uma mistura de gente do povão e de gente rica, sócia do clube. No salão havia uma grande orquestra de frevo no palco. A música estava pegando fogo, o Carnaval lotado e o clima incrível. Havia pessoas dançando onde quer que podiam – na pista, nas mesas e nas cadeiras. Volta e meia tocavam o hino do clube e o refrão levantava todo mundo.

“Este ano o Sport vai ser mesmo campeão,

Todo mundo vai cantar e dizer, ninguém segura o Sport não!”

Depois de semanas de frustração, mas agora inspirados pela animação e por muita cerveja, obtivemos sucesso. A maneira de se “pegar” as garotas, quase todas de saias curtas e vestindo a camiseta do clube, era sair as agarrando pela cintura. Não precisava falar nada, o próximo passo era dançar um pouco ao redor da pista e depois arrastá-las para um canto do lado de fora e lá tentar chegar o mais longe possível.

Depois de fazer isso com várias, “peguei” uma morena maravilhosa. Como as outras, a levei para o escuro ao lado da barraca de cerveja. Ela era bem nova, com certeza menor de idade, cabelo macio, carnuda, deliciosa de se pegar. Quase não deu para ouvir o nome dela por causa da música alta, mas entendi que se chamava Gê. Com ela o amasso foi mais intenso do que com as anteriores. O jeito que ela me deixava pegar nela e a maneira com que se esfregava na minha “barra de balas drops” me diziam que, pela primeira vez na vida, havia a possibilidade de levar a coisa para o próximo nível.

A certeza bateu quando ela falou no meu ouvido: “Ah, seu carioca gostoso, estou ficando louca.”

Embriagado pela cerveja e pela a sexualidade dela, sem motivo para ter vergonha na cara respondi: “Você já me deixou louco faz tempo, está sentindo isso? Ele está doido para te conhecer todinha.”

“Aff, seu maluco, deixa eu sentir. Hmmmm…, ela apertou, deu uma olhada safada e disse: “Assim eu não aguento. Vem comigo!”

Ela pegou na minha mão e foi me guiando. A gente se afastou do Carnaval. Depois de passar por umas casinhas dentro do clube chegamos num portão semiaberto e entramos na área da piscina do clube. Depois de mais amassos, descemos uma escadinha e fomos parar na sauna que estava vazia e com a luz desligada.

“Num se preocupe, carioca, eu sou sócia do clube e ninguém vem aqui à noite.” Estava tudo escuro, mas dava para ver ela se sentar em um dos degraus. “Venha cá, meu lindo.”

Apesar de mais nova, ela parecia ter mais experiência na coisa. No meio dos beijos, ela me agarrou e perguntou. “Não tiraste a camisa ainda?! Tire agora!”

Enquanto colocava a camisa no chão, ela foi se esfregando e entendi que era para eu também tirar a camisa dela. Em silêncio, acabamos nus. Depois da delícia da pele contra pele, ela se recostou de joelhos num dos degraus. “Eu gosto assim. Vem.”

Foi a melhor coisa que já tinha experimentado na vida.

*

O ônibus saía às dez da manhã do dia seguinte, quarta-feira de cinzas. Cheguei na rodoviária virado e exaurido pela Gê. A gente tinha amanhecido na beira da piscina, ido tomar café numa padaria e depois passamos para pegar minhas coisas. Ela ficou me esperando embaixo enquanto me despedia de meus anfitriões. Querendo que ficasse, acabou vindo até a porta do ônibus para os últimos amassos na frente de todo mundo.

Embarquei sozinho, o Davi ia ficar com uns amigos que tinham vindo para o Recife.

Por coincidência, alguns dos membros da banda que tinha tocado no Carnaval do Sport Club Recife pegaram o mesmo ônibus. Não eram frevistas mas tocavam as marchinhas de carnaval enquanto a orquestra de frevo descansava. Eram todos ligados à escola de samba Unidos de Vila Isabel e ainda estavam em clima de folia. A festa continuou pela viagem inteira: 43 horas com muita bebida e batucada no ônibus até voltarmos ao Rio. Quando cheguei em casa, tomei café e depois de um banho mergulhei na cama de onde não saí pelas próximas 24 horas. Tudo seria diferente depois daquela injeção na veia de frevo, suor, Recife e Gê. Meu tempo de aprendizado teórico sobre o Brasil tinha acabado. Agora só queria saber das aulas práticas. Volta e meia pensava na minha recifense, mas apesar de a gente ter trocado telefones, nunca mais tivemos contato.

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Não é censura!

A decisão do Min.Alexandre de Moraes, do STF, que mandou o Twitter e o Facebook suspenderem as contas de 16 bolsonaristas gerou diversas reações na sociedade, vindas predominantemente de entendimentos de que a medida caracteriza censura prévia, o que ao meu ver, constitui equívoco raso pelo mau ou não entendimento do contexto.
Basilarmente, trata a nossa Carta Magna de vedar a censura prévia à expressão livre do pensamento e da opinião. Mas trata também a nossa carta de proteger outros bens dos indivíduos e da sociedade, que de forma ainda muito diferente e grave do que era em 1988, pode ser ofendidos pela difusão rápida e exponencial potencializada pelas mídias sociais e internet. Exemplo claro é a atividade dos “antivaccers”, grupos internacionais de difusão de fake news sobre vacinas, que são culpados pelo ressurgimento do sarampo, da coqueluche e talvez outros agravos que ameaçam a vida de pessoas e a economia de nações. Mas o pior aspecto desse tipo de fake news é que ele vem sem assinatura. Constróem-se narrativas complexas, recheadas de pseudodocumentos científicos caprichosamente elaborados com fotos, citações, ilustrações e outros adereços que inspiram confiança nos incautos ou mal instruídos que assim são arregimentados para a visão tosca e cruel de transtornados mentais e mal-intencionados.
Tipicamente, esse difusores de falsas notícias são covardes e dissimulados. Não assinam o que escrevem, colocando-se apenas como difusores daquilo em que acreditam ou daquilo que sirva aos seus torpes interesses. Fossem essas iniciativas acrescidas da assertiva “isto representa a minha opinião” ou “isto representa o meu desejo pessoal”, talvez o alcance da lei maior fosse mais restrito, pois estaria o leitor alertado da individualidade do pensamento e posição. Mas os difusores de fake news não agem assim, usando de todos os recursos para que seja não percebida a pessoalidade da posição ideológica e argumentativa.
No campo puramente das ideias e iniciativas, bem mostrou um certo filme da série “007” que uma informação falsa disponibilizada em massa tem o potencial de desencadear uma guerra mundial, e isto, nos dias de hoje, não está razoavelmente tão distante.
No caso em tela, tratou o Min. Alexandre, sabiamente, ao meu ver, e também legalmente, de proteger bens difusos de nossa sociedade. Não se tratou a medida de impedir a livre manifestação do pensamento, pois os investigados não têm apenas no Facebook e no Twitter as suas vias de expressão.
Novamente, como argumento, voltemos a 1988, sem internet e sem mídias sociais. Nossa fonte de informação e muitas vezes de expressão, eram os jornais e revistas. Pergunto ao leitor que já era socialmente emancipado à época: quantas cartas que vocês enviaram aos jornais foram publicadas? Pelas minhas, posso responder: pouquíssimas. Ora, que tipo de poder era esse que as mídias da época exerciam sobre a opinião ou expressão individual? Obviamente era uma forma “fisiológica” de censura! Absolutamente ninguém àquela época, excetuando-se os grandes proprietários dos grupos de mídia exerciam livremente a liberdade total de expressão, o que analisando-se à luz dos tempos atuais, soa como absurdo. Neste ponto, as mídias sociais cumprem um papel democratizante da expressão, ressalvando-se, claro, as atividades dos algoritmos que direcionam as postagens de forma calculada a certos públicos.
O território da internet muitas vezes dá a impressão de pretender ser uma verdadeira terra sem lei, demanda daqueles que tem um entendimento radical do princípio da liberdade de expressão. Mas, como já dissemos antes, as instituições democráticas devem cuidar de todos os bens fundamentais abrigados pela Constituição, entre eles, o direito do cidadão de receber informação qualificada e que não seja voltada a atacar os mecanismos de proteção da democracia e à própria democracia. Se as próprias mídias sociais tem suas regras internas, e com certa frequência bloqueiam ou censuram certas postagens, por quê não haveria o STF, que tutela os bens fundamentais da nação, de julgar certas atividades entendidas pelo magistrado como propagadoras do mal, do desentendimento, da ofensa, da calúnia, da difamação, sistematicamente praticados por um grupo de pessoas, que no contexto do inquérito em curso revelam evidências de articulação criminosa e ameaçadora aos bens democráticos, sob financiamento por verbas escusas e ocultas, e com evidências de uso de patrimônio público e verba pública?
Ao incauto e precipitado, junto aos quais observei alguns juristas, jornalistas e ativistas, parece mesmo uma iniciativa de mera censura. Mas não é. Não se trata de limitar a liberdade de expressão de pessoas, mas sim, o de prevenir a continuidade de uma prática já caracterizada no âmbito do inquérito judicial como criminosa contra a democracia e a sociedade. As pessoas envolvidas continuam livres para manifestarem-se individualmente em outros fóruns e eventualmente no palanque público, em entrevistas, textos e todo o tipo de matéria em outras mídias. Seus eventuais partidos, continuam livres para manifestarem-se pelas suas plataformas partidárias oficiais, com nome e assinatura.
Em um curtíssimo espaço de tempo a sociedade vem observando o risco e os danos causados pela má informação alavancada por ferramentas eletrônicas, perfis falsos, robôs e outras transgressões. A catástrofe da pandemia da COVID-19 é um verdadeiro genocídio que entre outras causas tem a atividade desses grupos, capitaneados pelo Presidente da República, que desde o início disseminou mentiras, falsos remédios e desinformação à sociedade sobre os riscos e dimensões da pandemia.
Não há mais tempo para o silêncio. Felizmente, o Min. Alexandre de Moraes falou nos autos. E disse, na minha interpretação: “não se trata de liberdade de opinião, e sim da liberdade para o cometimento de crimes contra a sociedade e a democracia, e esta liberdade não existe.”

Samba Perdido – Capítulo 14 – parte 01

Capítulo 14

 

“... quero sentir
A embriaguez do frevo
Que entra na cabeça
Toma o corpo
E acaba no pé."

Capiba – Voltei Recife

 

Fui parar no Colégio Andrews, uma escola para a classe média carioca situada de frente às inúmeras pistas de trânsito que cercam a belíssima praia de Botafogo. Estava contente, finalmente meus colegas seriam como quaisquer outros adolescentes da minha idade e as férias que ofereciam eram maravilhosas. Além de serem no verão – nas das escolas britânica e americana eram em julho e agosto – eram enormes. Se as notas fossem boas começavam no início de dezembro e só terminavam no meio de março. Contudo, o início foi puxado. As aulas eram em português e disciplinas como química, matemática e física eram muito mais avançadas. Por isso não fui bem no meu primeiro ano e terminei ficando de recuperação em dezembro e janeiro. De qualquer forma, passar a manhã inteira “pegando jacaré” para depois ir à escola por uma hora ou duas não era nenhuma tortura.

Depois de passar nas provas finais, ainda sobravam dois meses sem aulas pela frente. Do nada, Davi, um amigo novo da turma do Maurício, me convidou para passar um mês em Recife na casa de uns parentes, carnaval incluso. Por ser dois anos mais velho, ter acabado de passar no vestibular e pertencer a uma respeitável família judaica, e talvez por sentirem culpa pela bagunça que fizeram com minha educação, meus pais deram sua permissão sem maiores problemas.

No nosso preconceito viamos o Nordeste como um país exótico dentro do próprio Brasil que vivia cinco ou dez anos atrás do Rio e de São Paulo. Por outro lado, a região havia se tornado um destino turístico da moda graças a uma onda de artistas vindos de lá – Alceu Valença, Fagner, Belchior, Elba e Zé Ramalho, Geraldo Azevedo e Robertinho do Recife, todos no auge do sucesso. Independentemente disso, a reputação do Carnaval do Recife era a melhor possível.

A única coisa diminuindo a empolgação era a viagem em si. A distância entre o Rio de Janeiro e o Recife é de 2.300 km. Aviões na época eram coisa de milionário e o único jeito seria encarar uma viagem de ônibus de 43 horas.

*

Pronto para a aventura, com a mesma mochila dos tempos das machanés nas costas, cheguei com meus pais na rodoviária numa noite quente de Janeiro. O terminal estava apinhado de gente de todo jeito, cores e classes sociais; passageiros e acompanhantes fazendo fila nos balcões das viações e passeando pelas bancas de revistas, pelas barraquinhas de comida e pelas lojas de lembranças. Para mim, o buchicho era uma vibração fascinante mas para o seu Rafael e a dona Renée o excesso de gente humilde era incomodo.

Fomos sentar num pé sujo, o melhor da rodoviária, onde tinha marcado de encontrar o Davi. Pedimos um café e ficamos esperando.

“Tem certeza que é isso que você quer nessas férias, Richard? Você ainda pode mudar de ideia.” Rafael não podia acreditar que seu filho quisesse se misturar àquela gente e partir numa viagem estúpida e de mau gosto. “Viajar nessas condições tendo uma casa confortável para passar o verão em Teresópolis? Não entendo.”

“Sim pai, férias foram inventadas para curtir, não para ficar escondido.”

“Mas o Sérgio Birman e o Mario Halpern têm casa lá. Por que você não faz como eles e passa o verão com a família?”

“De novo!? Eles gostam de ir para lá porque ficam em condomínios jogando bola, saindo e curtindo com um monte de amigos. Entende? Curtir?”

O tom da conversa piorou. “Depois das notas que tirou, você deveria estar pensando em estudar para alcançar os colegas.”

Odiando o lugar, já sabendo o que eu ia responder e com uma ponta de inveja por estar fazendo algo que ela gostaria de fazer, Renée se meteu. “Você é egoísta demais, não quer saber de estudar, nem de ficar com seus pais nas férias. Cadê a apreciação pelo esforço que fizemos para construir uma casa de campo para vocês?!”

“Pra gente? Ah! Dá um tempo!” Já não estava vendo a hora de entrar naquele ônibus. “Vocês construíram a casa para tirar onda com os teus amigos! A gente nunca pediu aquela casa e você sabe disso!”

Meu pai me reprovou com um olhar, mas o sangue já tinha subido à cabeça e continuei. “Egoísta? Eu, né? Quem é que me internava todos os anos numa colônia de férias para ir curtir na Europa? Agora é a minha vez, tá legal?”

O Davi chegou com os pais na hora certa. Paramos de falar em inglês e nos levantamos para cumprimentá-los. A apresentação foi formal e um tanto constrangedora. Seus pais não eram tão velhos, falavam português sem sotaque mas era visível que estavam igualmente desconfortáveis com a “diversidade” na rodoviária. De qualquer maneira, tinhamos pouco tempo para ficar ali; faltava meia hora para o ônibus partir.

Depois de pagar a conta, fomos todos para a área de embarque. O sistema de informação era confuso e demorou para acharmos a plataforma. Quando descemos a escadaria de metal, lá embaixo havia filas de famílias nordestinas falando alto e colocando malas velhas e bolsas gigantescas nos compartimentos de bagagem. Nossos pais não conseguiam disfarçar o choque. Constrangidos pela sua presença e sem ver a hora de embarcar, Davi e eu já estávamos de olho em umas “gatinhas” que também pareciam da zona sul, igualmente perdidas naquela confusão. Estavam de vestidos floridos, cheias de pulseiras artesanais e colares de contas. Nos decepcionamos quando subiram no ônibus para Maceió com suas mochilas.

Depois das recomendações finais de nossos pais, demos as passagens ao motorista, entramos, encontramos nossos assentos e nos despedimos na janela enquanto o ônibus saía da baía de ré.

*

Davi era um cara introvertido, porém superinteligente e craque no futebol. Ele tinha acabado de passar para as faculdades de psicologia e de economia e ia cursar as duas. Não o conhecia a muito tempo mas a gente se dava bem. Assim que o ônibus começou a acelerar para fora da cidade, ele soltou um desconfortável “Agora que os pais ficaram para trás, é com a gente.” Mudei de assunto e ficamos batendo papo e fazendo planos até conseguirmos dormir.

Quando o dia raiou, já estávamos em território desconhecido. Os primeiros vilarejos começaram a passar pela janela com homens de chapéu de palha montados em jegues descendo estradas de terra ao lado de carros velhos, gente escovando os dentes nos tanques fora das casas, coqueiros e casebres de barro com cobertura de palha.

Conforme fomos avançando pela BR-101 o que mais chamou a nossa atenção foi a extensão do desmatamento. Na escola, tínhamos aprendido que a Mata Atlântica cobria toda aquela área. Estávamos esperando o ônibus passar por baixo de árvores com macacos pulando de um lado da estrada para o outro. Em vez disso, em ambos os lados, via-se uma paisagem desoladora formada por campos devastados que pareciam não ter fim. As únicas árvores ainda de pé eram aquelas feitas de madeira dura demais para as motosserras e resistentes ao fogo.

Enquanto isso, no ônibus, as coisas começaram a mudar. Quanto mais ao norte chegávamos, mais parecia que um peso havia sido retirado das costas dos nossos companheiros de viagem. Todos tinham começado a ser mais amigos, a falarem mais alto e a perder a vergonha de seu sotaque.

“Oxente, esse ônibus num vai chegar nunca, não? Tamo aqui faz mais de um dia!”

“É verdade, já tô aperreado! Mas pelo menos esse ônibus da Cometa é mió que os de lá!”

“Você é di ondi?”

“Sou de Teresina, mas tô indo mais os filho visitar a família no Recife e você?”

“Sou do interior, de Itapetim. Tou trabalhano no Rio faz dez anos e tô voltano só agora pra visitar a família.”

“Cunheço Itapetim, uma das minhas irmãs se casou e foi pra lá pra morar.”

Os restaurantes de beira de estrada foram mudando também: a comida ficou mais barata, porém bem menos saudável e a quantidade de moscas sobrevoando os pratos, os talheres e os copos baratos começou a incomodar. Os DJs das rádios passaram a soar nordestino e entre anúncios de pamonha, rapadura e do comércio local, tocavam os ritmos da terra que nossos artistas favoritos tinham estilizado.

Nossos companheiros de viagem começaram a se abrir com a gente.

“Já experimentaste rapadura? Não? Pega um pouquinho aqui. Isso com queijo coalho é mió do que caviar importado.”

“Ocês tão indo para o Recife? Para o Carnaval, né? O sinhô sabia que lá a gente não fala aipim, a gente fala macaxeira.”

Um outro acreditou na nossa curiosidade forçada e emendou: “É, e abóbora a gente chama de jerimum. É tudo diferenti!”

Outro começou a falar sobre as maravilhas da cachaça pernambucana. “O Geovina! Ainda tem daquela cachaça de alambique para o rapaz experimentar? Traz aqui pra esses minino. Vê, tome um pouquinho, num tem gosto de cana memo?”

Eles sabiam quem éramos: bons garotos da elite educada, para eles o orgulho da nação. Em vez de raiva ou inveja, mostravam por nós um respeito genuíno. Não tinha certeza se podiam enxergar a diferença entre a gente e a maioria das pessoas de nossa idade com o mesmo status social. Nós os respeitávamos e tínhamos algum interesse pelas coisas que tinham a dizer, algo bastante incomum.

Apesar do encantamento com a acolhida calorosa, para nós aquela viagem não era um exercício político-social. Nossas intenções não eram, de forma alguma, nobres. Como todos adolescentes do sexo masculino no planeta, só tínhamos um objetivo em mente: pegar garotas. Estávamos a caminho do Carnaval do Recife atrás de sexo gratuito, consentido e sem o envolvimento das mãos. Nossas expectativas eram grandes. Estávamos prontos para se dar bem usando a vantagem de vir do Rio, terra da TV Globo e de seus atores atrizes famosos, e a reputação sexy dos cariocas.

*

Quando finalmente chegamos, fomos recebidos calorosamente pela família do Davi. Sua tia morava com o marido num sobrado charmoso no bairro da Boa Vista. A casa era antiga, o chão era de azulejos e o frescor do vento fresco entrando pela janela imensa compensava a falta de ar condicionado no quarto a noite.

Quase não parávamos em casa. De dia partiamos para praia de Boa Viagem e a noite, ou ficávamos por lá ou nos aventuravamos nos pré carnavais do bairro. Neles, nossas esperanças de aspirantes a faunos foram confirmadas apenas parcialmente: as únicas garotas que nos davam qualquer tipo de bola eram as certinhas vindas de boas famílias. Só que sexo para elas era só depois do casamento. Apesar dos olhares assassinos e de até conseguirmos dar uns amassos, os avanços sempre acabavam bem antes do motivo pelo qual tínhamos viajado tão longe.

“Se acalme minino, não pode botar a mão aí não.”

“Mas você não está gostando?”

A cara dizia tudo. “Pare! Se meu irmão ali vê, ele conta pra minha mãe e ela me mata. Num era nem para eu estar aqui com você!”

“Então me dá teu telefone que a gente marca para outro dia!”

“Aff, se meu pai atender ele me deserda! Num dá!”

E elas não davam de jeito nenhum. Beijar um estranho vindo do Sul já era muita audácia. Se para conseguir ao menos isso a gente tinha que suar a camisa e ter paciência, o resto era inimaginável.

Houve uma exceção: uma loira falsa, um pouco mais velha e sem sutiã, que a gente deu uma azarada casual enquanto um bloco pré-Carnavalesco passava numa tarde na praia. Agimos como sempre: a elogiamos enquanto passava e ficamos esperando por uma reação. Ao contrário das outras que olhavam para trás ou sorrindo ou fechando a cara, mas que continuavam em seu caminho, ela parou para conversar.

Apesar de estar sozinha, aceitou vir com a gente para os fundos de uma construção e sentou entre nós dois. Sua calça jeans justa revelava um corpo magro e torneado. O seu perfume e suas unhas pintadas de vermelho, meio “aputalhadas”, nos encheram de tesão adolescente. Ela parecia estar gostando da situação. Havia muita excitação no ar, mas nem o Davi nem eu queria deixar o prêmio para o outro. Conforme a bagunça começou a esquentar ela não demonstrou qualquer preferência, só que acabou não conseguindo lidar com o ataque de quatro mãos adolescentes, se levantou e foi embora.

*

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Samba Perdido – Capítulo 13

Capítulo 13

 

“...foi quando meu pai me disse filho,
Você é a ovelha negra dá família.
Agora é hora de você assumir.”

Rita Lee – Ovelha Negra


Teresópolis era uma cidade de veraneio na lindíssima Serra dos Órgãos. Situada a uma hora e meia do Rio, era famosa por ser o balneário onde a seleção se concentrava antes das Copas do Mundo. Também era popular junto a colônia judaica e meus pais conheciam muita gente que tinha casas de campo lá. Quando criança, costumávamos passar verões ali hospedados em sítios de amigos ou em hotéis fazenda.

Durante uma dessas estadias, surgiu a oportunidade de comprar um terreno a um preço acessível num recanto remoto chamado Jardim Salaco. Sempre aberto a explorar oportunidades, Rafael foi dar uma olhada e levou a família junto para ver se a gente gostava. Adivinhando que acharíamos chato, teve a ideia de organizar a ida numa charrette.

Partimos cedo para o passeio ao som do trote de cavalos. Depois que passamos pela Granja Comary, o enorme hotel fazenda onde a Seleção treinava, a estrada se tornou de terra batida. Os arredores viraram mais rústicos e campestres. A paisagem se revelou maravilhosa e começei a gostar do passeio. Fomos seguindo por um vale até entramos por uma estradinha. Lá, cobertos por árvores, subimos um morro sentindo o ar puro da manhã ensolarada. Na sombra ficava fresco e nas clareiras ficava calor. Enquanto a natureza nos encantava, o dono da charrete açoitava sem parar os coitados dos dois cavalos. Com viseiras nos olhos, levando uma charrete com cinco pessoas, suavam pelo corpo inteiro deixando um cheiro forte.

Paramos no final da estrada num fim de mundo. O corretor tinha ido na frente de carro e estava a nossa espera. Seu Mendes era um senhor careca vestindo uma calça de tergal segura por suspensórios passando por cima da sua barriga avantajada. Ele estava cheio de sorrisos e de conversa fiada. Depois das introduções, ele abriu a porteira e nos convidou para entrar. O dono dos cavalos ficou do lado de fora e foi amarrar os bichos para que descansassem do passeio mais puxado que deviam ter feito na vida.

O terreno ficava na descida de um morro e tinha uma vista maravilhosa; um mar de montanhas se estendendo na nossa frente. Seu Mendes garantiu que num dia claro dava para ver até o Estado de Minas Gerais. Fora isso e a carona apertada que nos ofereceu para voltar, não me lembro de muito mais daquele dia. Só sei que Rafael acabou não resistindo à pechincha e comprando a terra em sociedade com um amigo, um ex-combatente da resistência francesa, Emile Weil, um sujeito magrelo com cara de invocado.

Depois da compra, meu velho não se entusiasmou pela ideia de construir uma casa de campo. Além de ser caro, o projeto o faria o casal perder o hábito de passar as férias esquiando na Europa enquanto nos mandavam para colônias de férias. Levou quase uma década para decidirem o que fazer com aquele elefante branco. Enquanto empurrava a decisão com a barriga, monsieur Weil construiu uma casa lá. O que Rafael não sabia é que, talvez esperando que o amigo acabasse vendendo sua parte, ele invadiu nosso lado do terreno sem consultar ninguém. Quando demos conta, o francês já estava usando a área toda como se fosse sua e isso chamou a atenção de meu pai.

Dez anos mais tarde, subimos a serra e fizemos aquele mesmo passeio, só que dessa vez de carro do Rio direto para o terreno. A ideia era avaliar por quanto poderíamos vender o terreno, mas o resultado acabou sendo bem diferente. Apesar da casa do agora ex-amigo ter o charme de um posto de gasolina e da presença do seu pastor alemão psicopata, Dayan, a beleza do lugar convenceu Rafael a construir uma casa ali para, quem sabe, viver a aposentadoria nela. Dona Renée, se animou com a ideia. Além de ter um sítio significar uma subida de degrau na escada social, o projeto a daria um passatempo novo e desafiador já que a idade estava começando a prejudicar sua performance no tênis.

Talvez por ver aquela empreitada como um investimento a longo prazo e que uma casa mais elaborada daria um retorno melhor na hora de vender, Rafael cedeu à insistência da esposa e deu carta branca para que tocasse o projeto. Com uma responsabilidade concreta pela primeira vez em sua vida de casada, Renée deu asas a sua imaginação e passou a devorar revistas de decoração do mundo inteiro. No fim das contas ela planejou, junto com um arquiteto e um mestre de obras local, uma casa de estilo campestre francês. Como era de se esperar, o custo da construção estouraria o orçamento várias vezes e colocaria em cheque a saúde financeira da família.

Sarah e eu não vimos com bons olhos aquela decisão. Para nós, Teresópolis era um lugar chato onde a judeuzada careta se isolava nos fins de semanas. As casas dos poucos amigos que iam lá, ficavam a quilômetros de distância daquele fim de mundo. Mais tarde fui descobrir que o único transporte público era o ponto final de uma linha de ônibus que saia de hora em hora, a uma caminhada de meia hora da casa.

Tendo isso em mente, para nos atrair, jogaram mais dinheiro no mato para construir uma piscina, se esquecendo que já havíamos passado há tempos da idade de ficar brincando na água rasa. Para Sarah e eu, a ideia foi um enorme elefante branco sugando a atenção, a energia e a grana dos nossos pais. Quando a inauguraram estava com 14 e Sarah com 19. A gente quase nunca ia, e o resultado foi que nos finais de semana, ficávamos com a casa liebrada sem qualquer supervisão. É claro que aproveitamos.

*

Estranhamente, aconteceu que o Fred, o líder da “esquadriha da fumaça” da Escola Americana, dono do apartamento onde fui iniciado, também tinha uma casa no Jardim Salaco. Ela ficava na outra extremidade da nossa rua. Quando meus pais travaram conhecimento com os dele, promeiro ficaram contentissimos pela coincidencia mas logo depois se horrorizaram quando o casal confidenciou que compravam eles mesmos a maconha para o filho a fim de evitar que se envolvesse com traficantes. Fred, sem sombra de dúvida, era um cara esquisito. Desengonçado, grande, meio gordinho e com um olhar transtornado, parecia estar eternamente chapado e vivia rindo de coisas bizarras e sem graça. Para Rafael e Renée, se fosse pobre jamais seria material para uma amizade com seu filho. No entanto, resolveram tolerar minhas visitas a sua casa já que poderiam me fazer ir mais para Teresópolis. Além disso, o pai era um arquiteto famoso, o garoto bem que poderia mudar e se tornar um contato valioso para o meu futuro.

O plano meio que funcionou e passei a ir quando ele e a galera subiam. Num fim de semana fatal, fui sabendo que estariam lá. No sábado a tarde, fui visitá-los. Além dos baseados de praxe havia muita bebida. Desacostumado, acabei tão bêbado que depois de atacar a cadela da casa e de uma crise copiosa de choro, tiveram que ligar para meus pais. Bebida era algo que não se via em casa, ao ponto que, em toda a minha vida, nunca vi meu pai sequer alegre por causa de álcool. Por isso, quando me viram, com 15 ou 16 anos de idade, caindo pelas tabelas, ficaram chocados. Colocaram a culpa no Fred, suspeitando que tinha colocado algo em minha bebida. Talvez fosse verdade, mas o mal já estava feito. Até então, era um artista sonhador, mas depois do ocorrido virei um adolescente problemático com tendência a ser vagabundo.

*

Minha vida doméstica refletia os versos de Panis Et Circenses dos Mutantes:

“Eu quis cantar

Minha canção iluminada de sol

Soltei os panos sobre os mastros no ar

Soltei os tigres e os leões nos quintais 

Mas as pessoas na sala de jantar, 

Estão ocupadas em nascer e morrer.”

Seguindo a canção, nos transformavamos naqueles personagens na hora do jantar. Sempre vestidos de maneira “apresentável”, nos reuníamos em torno de uma mesa clássica grande, escura e fortemente envernizada no meio da ampla sala de jantar. Em cima, havia um candelabro macabro. As cadeiras eram pomposas porém desconfortáveis. Os móveis em volta, também eram de madeira escura e as paredes tinham pinturas clássicas de naturezas mortas e de passagens bíblicas, emolduradas em um dourado pesado imitando antiguidades. Parecíamos estar numa mistura dos filmes caricaturais de Fellini com os filmes de vampiros do Bela Lugosi.

Antes das refeições havia sempre frutas frescas a nossa espera num vaso chinês. Isso porque, por recomendação de um médico amigo da família, começávamos com alimentos saudáveis, antes de passarmos às comidas mais pesadas. Quando todos haviam terminado, me pediam que pisasse numa campainha que ficava embaixo do meu pé. Seu barulho estridente fazia com que a dona Isabel interrompesse a sua novela na cozinha e entrasse com seu andar desajeitado para limpar a mesa e depois voltar com o prato principal. Enquanto comíamos, tínhamos que manter a pompa: nada de rádio ou televisão e não podíamos atender ao telefone. Quando terminávamos, me pediam para dar outra pisada na campainha para a sobremesa. Depois da sessão, Sarah e eu regressávamos ao planeta Terra enquanto Renée e Rafael iam para a sala de estar e passavam o resto da noite lendo em silêncio, lendo ao som de música clássica.

Foi durante um desses jantares que meu pai limpou a garganta para me dizer que uma faculdade de cinema nos Estados Unidos ou na Inglaterra estava fora de questão. Apesar da decepção, depois de tantas cagadas a notícia era previsível. Além do mais, o  conceito de publicidade e de cinema eram estranhos demais para eles e depois do ocorrido, a escolha mais parecia uma provocação do que qualquer outra coisa.

Ligeiramente chocado, reclamei. “E o que é que você quer que faça agora? Como que vou conseguir trabalhar com o que eu quero?”

“Trabalhar com o que você quer? O que você sabe sobre trabalho e sobre cinema?” Ele me olhou sério. “Isso não é profissão, é hobby! Profissão é médico, engenheiro, advogado.”

Me sentindo atacado, respondi a altura. “Fiz um filme que foi exibido na América Latina inteira, e sei o que quero! É tão difícil aceitar isso?” Ele não respondeu, mas desaprovou. Encorajado, continuei. “Quem não sabe do que está falando é você! O que você entende de cinema? Qual o último filme que você foi ver? Charlie Chaplin? Fred Astaire?”

“Essas ideias de saber o que você quer são coisas que esses vagabundos, filhinhos de papai estão colocando na sua cabeça.” Rafael não tinha o pavio curto como eu, mas pegava pesado nos argumentos. “Vê a tua irmã? Ela está indo bem na faculdade. Vai ser dentista. E sabe por quê? Ela não fica perdendo tempo. Você é mais inteligente que ela, tira nota boa sem precisar estudar. Toma jeito e vira homem?!”

Fiquei puto. “Será que estou falando com as paredes?!” E já fora de controle emendei. “Se virar homem significa baixar a cabeça e virar capacho em um escritório cheio de escrotos, quero ser um super-homem e ser dono do meu nariz.”

Ele também subiu o tom. “Você é um moleque mimado que não faz ideia do que está falando. Se você não me ouvir agora, a vida vai te ensinar.”

“Pois é, não tenho nada a aprender com você.”

Talvez se fosse de outra família ou se meu pai fosse mais jovem, teria levado uma surra, mas a resposta foi o silêncio passivo-agressivo de sempre que durou semanas.

*

Quem precisava daquela Escola Americana cara e cheia de maconheiros alcoólatras se eu não ia mesmo estudar cinema? Pouco depois daquela conversa, me colocaram de volta no sistema brasileiro. Tinham que fazer isso o rápido para que tivesse tempo de me preparar para o vestibular e entrar em uma universidade brasileira.

Da minha parte, conseguia entender que o dinheiro estava curto e que o esforço em apostar numa carreira acadêmica exorbitante no exterior seria puxado. Mas todo aquele papo furado para mascarar o fato de que o dinheiro tinha ido para construir uma casa que ninguém precisava, me deixou inconformado. De qualquer forma, a grana era deles e quem tinha que construir meu futuro era eu. Pensando bem, a situação não seria das piores; mais tarde poderia estudar cinema no Brasil. Tinha ouvido falar que havia um curso bom em São Paulo. Com algum talento e muito esforço, tudo poderia dar certo e um dia poderia alcançar meu sonho.

Depois do incidente, a atitude deles mudou radicalmente. Queriam me enquadrar. Os sermões sobre a importância do sucesso financeiro e de ter uma profissão “de verdade” passaram a ser quase diários e a pressão cada vez maior. As conversas terminavam em discussões acirradas e se resumiam a dois adultos com um plano contra um jovem tentando descobrir seu lugar na vida. Sem educação universitária ou experiência profissional, os dois estavam tentando me convencer sobre coisas que não entendiam, mas quanto mais tentava explicar meu ponto de vista, por mais racionais que meus argumentos fossem, pior as coisas ficavam. A Sarah entendia o meu lado, mas com seus problemas por causa dos namorados que ela arranjava, já tinha atritos suficientes para pensar em me defender.

Com tudo isso martelando na minha cabeça, ia para o quarto, pegava o violão e tocava uma dos Novos Baianos:

“Por que não viver? 

Não viver este mundo

Por que não viver?  

Se não há outro mundo??”

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