por Mauro Nadvorny | 24 mar, 2020 | Crônica
Cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo ! (Riobaldo, no Grande sertão: veredas)
Quem diria, hem ? Não faz muito, a gente estava preocupado com qualidade da água, geosmina e desfile de megablocos. Hoje, tudo isso parece mais antigo do que o trono do imperador da Abissínia. Em velocidade que lembra famosa cena do filme 2001: uma odisseia no espaço (o fêmur lançado por um macaco, que gira e transita para um voo comercial para a lua), estamos às voltas com um vírus que se atreve a mexer com nossos mais ardilosos fantasmas.
O que serão os pandemônios que nos apavoram ? Nós, que aqui estamos, isolados, desprovidos das referências cotidianas, habitando uma cidade fantasma, que só conhecíamos nos bangue-bangues. No alto do pódio, tentacular, está o medo da morte. Ou de viver sem objetivos claros, que é morrer aos poucos, percebendo apenas a passagem do tempo. Como disse a Mafalda, viver não é durar. No Sétimo selo, relembrado pela morte recente do Max von Sydow, o personagem Antonius Block conversa com a Morte, sem saber quem era seu interlocutor. Angustiado, reclama da invisibilidade divina, ao que a Morte pondera que talvez não haja ninguém “lá”. Block, inconformado, diz: “Então, a vida é um terror sem sentido. Nenhum homem pode viver com a Morte e saber que tudo é nada”. Em pouco mais de 4 minutos, Bergman resumiu o grande dilema dos homens: por que e para que estamos vivos ? Cada um terá a sua resposta. A minha é reconhecer a falta de sentidos prévios e lutar para criar, sem descanso, objetivos. Pessoais e coletivos. Fácil não é, se fosse o dilema nem existiria.
Também o inesperado, o que não se controla, dá medo. Quando éramos crianças, tínhamos medo do escuro. Por que? O invisível, como o coronavírus, costuma assustar. No Bebê de Rosemary (desculpem-me as feministas, mas tenho que citar Polanski), o Diabo, protagonista assombroso, jamais aparece. É apenas insinuado e o terror quem constrói é cada espectador. Somos diretores dos nossos medos, roteiristas dos nossos pesadelos.
Solidão é lava , que cobre tudo. Amargura em minha boca, sorri seus dentes de chumbo. Solidão, palavra cavada no coração, resignado e mudo, no compasso da desilusão. Só mesmo o poeta poderia traduzir, com trauma e beleza, um sentimento que pode enlouquecer ou sequestrar o que nos faz humanos. No Iluminado, um dos meus Kubrick favoritos, o escritor (Jack Nicholson, genial) enlouquece com a quarentena nevada.
A gente precisa, sempre, do Outro. Recentemente, alguém lembrou uma história da antropóloga Margareth Mead. Reproduzo: “Há muitos anos, um aluno perguntou à antropóloga o que ela considerava ser o primeiro sinal de civilização numa cultura. O aluno esperava que Mead falasse a respeito de anzóis, panelas de barro ou pedras de amolar.
Mas não. Mead disse que o primeiro sinal de civilização numa cultura antiga era um fêmur (osso da coxa) quebrado e cicatrizado. Mead explicou que no reino animal, se você quebrar a perna, morre. Você não pode correr do perigo, ir até o rio para beber água ou caçar comida. Você é carne fresca para os predadores. Nenhum animal sobrevive a uma perna quebrada por tempo suficiente para o osso sarar.
Um fêmur quebrado que cicatrizou é evidência de que alguém teve tempo para ficar com aquele que caiu, tratou da ferida, levou a pessoa à segurança e cuidou dela até que se recuperasse. ‘Ajudar alguém durante a dificuldade é onde a civilização começa’, disse Mead”.
Na ausência física dos meus afetos, tenho procurado ouvir minha casa. Ela fala, e com que eloquência ! Outro dia, aborrecido com o confinamento, ouvi um psiu. Na verdade, dois. Um veio do Radu Lupu, grande pianista romeno. Magoado, disse que eu não dava bola pra ele há tempos. Tinha razão, e lá fui eu, tecnologia antiga, relembrar o CD com Grieg e Schumann. Em seguida, uma saraivada de Irving Berlins, pareciam saídos da trilha sonora de qualquer Woody Allen. Banquetes. A casa, minha, sua, está sempre com fome de conversa. Alimente-a. Descubra velhas imagens, cantinhos esquecidos, sons do silêncio. Boa forma de espantar a má companhia que traz à tona dilemas, medos e solidões. É em casa que nos sentimos acolhidos. Agualusa lembrou de um velho amigo português, exilado em Nova York. Perguntou-lhe do que sentia falta. O amigo respondeu de bate-pronto: “Sinto falta de ser tratado por menino. No meu bairro, todo mundo me tratava por menino: o síndico, o padeiro, a senhora que vendia flores. Em Nova York, ninguém me trata por menino”. Conheço bem este menino. Ou melhor: este Menino.
Abraço
Jacques
por Mauro Nadvorny | 22 mar, 2020 | Brasil, Política
Falecido há 8 dias (14/3/2020), Gustavo Bebianno parece ter sido sepultado não a 7 palmos abaixo da linha da terra, mas a 7 léguas. Desapareceu do noticiário geral e das mídias digitais, não obstante algumas teorias conspiratórias tenham tempestivamente pululado aqui e ali, e o escandaloso silêncio da família presidencial, que por si mesmo daria motivo a uma produção enciclopédica, parece que Bebianno foi literalmente agraciado com o beneplácito e obsequioso sossego, como se tivesse passado por esta vida como um iogue hinduísta, que seguiu diligentemente a diretriz de não incomodar o Universo, não esbarrar nas quinas da vida, não deixar a má palavra ou a ação desnecessária e perturbadora sobre o delicado tecido da existência.
Mas a história não é esta, a de um monge, por mais que em suas últimas manifestações não tenha economizado em viscosidade afetiva com o claro objetivo de descolar-se da besta-fera que ajudou a criar com tanto entusiasmo.
O estudo da biografia de Bebianno deveria sim estar no topo dos “trendings” dos historiadores e cientistas políticos, entre os quais, o analista Kennedy Alencar constitui exceção por ter trazido uma contundente síntese de sua trajetória meteórica no processo que levou Bolsonaro ao poder.
Gustavo Bebianno, que hoje descansa com excessiva e perigosamente injusta paz, condensa nos últimos anos de sua vida a militância protofascista que se apoderou do país usando como ferramentas todas as armas muito bem conhecidas pelos historiadores e cientistas sociais, que se somaram a um reconhecível e talvez admirável talento em retórica e estratégia dignos de um bom advogado que eu não sei se chegou a ser de fato – que alguém me corrija se necessário – que deram abrigo e energia à ressonância de um cabedal desorganizado e paranóide de conteúdos que formavam a mixórdia Olavo-Bolsonarista.
Se das jornadas de 2013 à eleição de Bolsonaro tudo o que se produziu desde Voltaire até Norberto Bobbio, de Spinoza até Adorno, foi esquecido por uma sociedade em transe, tudo o que não se pode permitir é o esquecimento da talvez maior lição que a história recente do Brasil tenha a nos ensinar, qual seja, o papel de um suposto “homem de bem”, de fala mansa e gliscróide, nos processos políticos e jurídicos que viabilizaram a ascensão de um psicopata ao cargo máximo da nação, sob o declarado discurso conservador, patriótico e indignado, dito e reconhecido por ele mesmo em suas últimas entrevistas, onde procurou, falando do lugar de um injustiçado, que a besta-fera que ajudou a criar passou a comportar-se efetivamente como besta-fera, como se isso fosse minimamente surpreendente.
Não podemos dar toda essa paz a Gustavo Bebianno. Podemos sim desejar que sob a Luz Divina possa regenerar sua alma e seguir em evolução no Universo, e pela vontade do Eterno. Mas esta é uma questão que já não nos pertence e à qual não podemos nem devemos nos arrogar, sob o risco de nos adaptarmos perfeitamente ao molde de personalidade e ação que viabiliza o falso Messias. Pois temos ainda, na nossa poluta saga, a missão de evoluir ainda em vida, tendo às mãos vultosa matéria prima para aprendizado que não pode repousar na paz do cemitério, sob pena de lá deitarmos em tempo menor que o devido.
NELSON NISENBAUM
por Mauro Nadvorny | 21 mar, 2020 | Comportamento
Albert Camus descreveu na sua obra-prima La Peste: ”O mundo é cada vez mais igual, com cada qual isolado na sua bolha mas intuindo que, amanhã, nada será como antes.”
Tal como nos disse Camus, hoje cada um vive na sua bolha, isolado dentro de casa, vítima do medo do inimigo invisível; nada mais será como antes da catástrofe humano-sanitária que vivemos.
O mundo globalizado ficou “cada vez mais igual”, sob o império dos McDonalds, Coca Cola, Amazon, Google, Facebook. Um mundo sem surpresas, dirigido por algoritmos e sanduiches sem sabor. Antes de pegar o avião, o turista já sabe exatamente o que vai encontrar do outro lado do planeta, levado por uma mão virtual. Ele parte simplesmente para confirmar (para os outros) que esteve em lugares exóticos, somando cultura e beleza em selfies que desaparecem nas redes sociais.
Nesse mundo descrito por Camus, em 1947, muitas vezes esquecemos o essencial, o homem.
La Peste é o romance do nosso drama, a crônica da vida confinada dos habitantes de Oran, cidade argelina, durante uma epidemia de peste. Uma reflexão profunda e humanista sobre os comportamentos adotados por uma sociedade quando suas liberdades fundamentais são restringidas.
Como após a ascensão do nazismo e durante a ocupação, encontramos na Peste os resistentes – aqueles que lutam e colocam suas vidas em perigo para salvar os outros; os negacionistas, que se recusam a ver e minimizam a propagação do mal; os oportunistas, que aproveitam para enriquecer ou galgar poder.
Quando enfim a doença regride, os habitantes de Oran, libertados, juram não esquecer nunca as provações passadas, confrontados aos absurdos da existência e à precariedade da condição humana.
Ao longo do romance, Camus questiona: o homem é mais humano quando se dedica a salvar a sua espécie ou quando pensa, antes de tudo, em si mesmo e nos seus? um acontecimento como a peste nos engrandece ou nos expõe ao pior de nós mesmos?
Camus não responde, limita-se a lembrar que “somos humanos pelo simples fato de reagir, de esperar, de amar ou sofrer.”
“Chacun la porte en soi, la peste, parce que personne, non, personne au monde n’en est indemne… »
Cada um traz a peste em si, porque ninguém, não, ninguém no mundo está a salvo …
Se o coronavírus não tiver afetado a nossa capacidade de raciocinar, de sentir, de compreender a realidade, alguns erros cometidos poderão ser corrigidos e teremos a chance de construir um mundo diferente. Talvez a gente continue não sabendo como combater o mal, mas pelo menos não faltarão máscaras, nem luvas, nem respiradores para os resistentes, nem leitos para os doentes, nem dignidade, nem um gesto solidário. O homem e não o lucro estará então no centro da vida, reconhecido o direito inalienável à saúde. Não mais se sofrerá com a ganância de uns, com a idiotice negacionista de outros. Seja ele preto, branco, crente ou ateu, rico ou pobre, simplesmente humano.
Vai depender de nós, uma vez libertados da Peste.
por Mauro Nadvorny | 21 mar, 2020 | Comportamento, Mundo
Hoje me perguntei se era possível em meio a tantas tragédias com o Corona Vírus, tentar encontrar um meio de falar de coisas boas. Não é fácil, sou sincero em dizer. Os meios de comunicação nos atualizam a cada hora sobre o que está acontecendo no mundo inteiro.
A última grande pandemia foi há dez anos com a Gripe Suína. Antes dela, em 1968 tivemos a Gripe de Hong Kong. No ano em que nasci, 1957 ocorreu a Gripe Asiática. Em 1918 a Gripe Espanhola. Em comum, vírus da gripe em animais que sofreram mutações e infectaram humanos.
De alguma forma, aprendemos com cada uma delas. As vacinas para gripe são um bom exemplo. Eu mesmo tomo há muito anos. No entanto, a cada novo vírus ela precisa ser complementada. O Covid-19 é o recém chegado. Ainda não temos defesa contra ele. Uma vacina é esperada para dentro de um ano.
Do que estamos vendo hoje, a maior lição talvez seja a de que sem um sistema da saúde governamental e universal, nenhum país vai conseguir combater o Corona com eficiência. Não existe maneira de um sistema de saúde privado dar conta de um surto desta natureza. Estou de olho nos EUA para ver como vão lidar com os 22 milhões de americanos sem seguro de saúde.
Neste momento estamos sendo testemunhas da capacidade humana em superar grandes adversidades. Médicos e médicas, enfermeiros e enfermeiras, profissionais da saúde estão na linha de frente enfrentando o vírus com baixas em seu pessoal. Na Itália já são 13 médicos que perderam a vida.
Em todas as cidades, atendentes nos mercados e supermercados abertos, mantém a população abastecida correndo risco de se infectarem. Alguém precisa fazer este trabalho para que a maioria da população possa permanecer em casa.
Existem voluntários entregando gêneros de primeira necessidade para pessoas infectadas que não podem sair. Também entregam para idosos a fim de que permaneçam seguros dentro de casa.
Diante do enorme esforço necessário a contenção do vírus, somente o isolamento social resolve. Sim, ele tem um custo econômico enorme, principalmente para os mais pobres. No entanto, um problema de cada vez e o primeiro deles é preservar a vida. Se as pessoas continuarem saindo de casa, a propagação da doença será exponencial e o sistema de saúde não será capaz de atender a todos infectados. Este é o maior aprendizado com outros países.
O Brasil está começando a sentir o impacto, mas pode fazer a lição de casa com o que já foi feito em cada país onde o vírus chegou com força. Existe a vantagem de poder separar o que foi exitoso do que fracassou nestes lugares. Se não forem tomadas medidas imediatas, o resultado é conhecido.
O maior problema no caso do Brasil é a falta de governo. Temos um executivo inepto em todos os escalões. Quem está na presidência é incapaz de compreender o tamanho do desafio e o que está por vir. Não há como lidar com a magnitude deste verdadeiro Tsunami sem uma liderança dando o exemplo do que se deve fazer, informando a nação dos problemas e apontando os caminhos que devem ser seguidos.
É realmente incrível que praticamente toda a comitiva brasileira que viajou para os EUA esteja infectada, menos o presidente que compartilhou horas e horas com eles. Como é possível que ele ainda não tenha mostrado os resultados de seus exames? Como acreditar nele afirmando que os resultados foram negativos sem a prova?
Se mesmo nos países mais ricos do mundo, onde existem governos fortes e atuantes, o Corona está deixando um rastro de mortos e um enorme impacto econômico o que esperar do Brasil onde o presidente afirma diariamente de que se trata de histeria sobre uma gripezinha?
Minha recomendação, desde Israel, onde já estamos em meio ao crescimento de infectados, é só sair de casa nas próximas duas semanas, se for extremamente necessário. Mesmo assim, use máscara e luvas descartáveis. Não há como saber quem está infectado ainda assintomático.
Trabalhe de casa, se for possível. Mantenha seus filhos em casa também. Leia, joguem cartas, assistam TV, conversem bastante. O Corona vai passar e vocês precisam estar vivos para ajudar na recuperação do planeta.
por Mauro Nadvorny | 20 mar, 2020 | Comportamento, Crônica
Há muitos anos um estudante perguntou à antropóloga cultural Margaret Mead: “O que consideras o primeiro sinal de civilização em uma cultura?”. Mead disse que o primeiro sinal de civilização numa cultura antiga era um fêmur quebrado e cicatrizado. Ela explicou que no reino animal quebrar um osso da perna era morte certa. Porque não poderás mais correr para fugir do perigo, ir ao rio para beber água, ou caçar comida. Animal com perna quebrada era carne fresca para os predadores. Um fêmur quebrado cicatrizado é prova de que alguém teve tempo de ficar com o homem caído, tratou sua ferida, o levou a um lugar seguro, cuidou até completar sua recuperação. Ajudar alguém durante a dificuldade é onde começa a civilização. Incrível como em revistas, jornais, na Filosofia ou na Psicanálise, a palavra solidariedade é quase ausente. Entretanto, uma calamidade mundial, como está sendo essa pandemia, vem desencadeando a responsabilidade mútua.
Solidariedade é uma palavra derivada do francês “solidaire”, cunhada no século XVIII – inteiro, sólido, firme. Expressa a qualidade de solidário, um sentimento de identificação com o sofrimento dos outros. É também uma responsabilidade recíproca, e ajuda as pessoas desamparadas. Creio que vivemos tempos nos quais se evidencia o quanto o excesso de individualização que se vive é perigoso. Recordo das três perguntas do sábio Hilel no Talmud: “Se eu não for por mim, quem será por mim?”. Óbvio que cada pessoa ao crescer precisa aprender a se cuidar, algo como ser seu próprio pai e sua própria mãe. E aí vem a segunda pergunta: “Se for apenas por mim, o que será de mim?”. Essa é a pergunta essencial da solidariedade, porque, cada vez mais, uns precisam dos outros hoje e amanhã. Solidariedade é o caminho, não há outro tratamento para nossa humanidade doente no seu individualismo. A terceira pergunta de Hilel é: “Se não for agora, quando?”. É agora, nesses tempos de solidão real, não virtual, que cresce a importância da solidariedade.
Um dos caminhos da Psicanálise para se pensar a solidariedade é a dívida simbólica. Dívida da criança, que antes mesmo de nascer está sendo inscrita como sujeito no mundo simbólico da linguagem e da cultura. Toda pessoa é assim um antigo futuro sujeito: antigo pelo passado dos pais e e gerações passadas e futuro porque há uma vida pela frente. Essa dívida simbólica só se paga, em parte, pelo que damos aos filhos ou aos demais. Dívida no sentido de ajudar ao outro, de contribuir com a comunidade, com a natureza, fazer o bem. Ser solidário é expressar a gratidão de viver, retribuir o que recebemos do intercurso com o mundo. Um mundo com graves desigualdades sociais, com alguns líderes egoístas, mesquinhos, narcisistas. São faces da humanidade que atacam a dívida simbólica, atacam vida, atacam a saúde da população.
O coronavírus, para ser combatido, requer isolamento de mãos dadas. Nessa verdadeira pausa da vida, há chances de olhar as flores, aumentar os amores, aliviar as dores cotidianas do isolamento. Tempo para nos humanizar. Angustiante está sendo a vida dos pobres, sempre os que mais sofrem. Vamos ter que aprender a solidariedade esquecida, praticada pelos imigrantes, quando o capitalismo era mais humano. O terror do neoliberalismo pode ser visto na série “Na Rota do Dinheiro Sujo”, série norte-americana sobre as milícias dos lucros a qualquer custo. O primeiro da série é a história do famoso banco norte-americano Wells Fargo, que mentiu em suas corrupções em busca de lucros bilionários. A direção do Banco mentia de forma deslavada, tanto como se faz hoje no Brasil.
Quanto a nós, vamos manter o norte, seguir à risca as orientações da medicina, pois chegarão dias melhores. Lembro o poeta Tiago de Mello: “Faz escuro, mas eu canto, porque a manhã vai chegar”. Precisamos viver o hoje e imaginar outro amanhã para o nosso país e para o mundo.
por Mauro Nadvorny | 20 mar, 2020 | Crônica
“Toda mulher, ao saber que está grávida, leva a mão à garganta: ela sabe que dará à luz um ser que seguirá forçosamente o caminho de Cristo, caindo na sua via muitas vezes sob o peso da cruz. Não há como escapar.” (Clarice Lispector)
Não sei quando me dei conta de que existia. Tinha sensações estranhas que invariavelmente chegavam na pergunta: o que estou fazendo aqui??? Fui enganada por adultos, que me disseram que ia passar, mas nada. Continuo na mais profunda ignorância. Sei que a vida me dava agonia. Nervos, cabelos, membros. Medo de pesadelos e por isso a insônia crônica. Cachorros uivando. A mulher de cabelos escorridos é a minha mãe. O homem de óculos e cigarro meu pai. Eu não sei precisar, tudo se confunde. Fui morena e baixinha como qualquer polinésia. Mas existir… Eu me estranhava inteira. Escamoteava esses pensamentos porque pode não parecer, mas sou uma cartesiana enrustida. Tenho um pai mórbido. Mas até então nunca tinha visto um morto. Foi quando minha cachorrinha teve filhotes. Ela ficava brava, ninguém podia chegar perto da cria. Mas estamos falando da Céu, né? Claro que fui escondida ver os cachorros. Um estava afastado dos outros que mamavam. Tentei botá-lo em pé. Nada. Não se movia. E ali entendi que estar morto é só ser algo. Não coisa viva. Chorei, chamei meu pai, ele me disse que o cachorro tinha virado estrela, enquanto eu enfiava minhas pernas nas grades das janelas e olhava o céu. Esse papo de estrela nunca colou comigo. Religião nunca colou comigo. A única transcendência que eu sentia, não sei dizer o porquê, era o retrato do menino ruivo onipresente espalhado pelos muros da cidade, o Carlinhos. Eu já era míope, confundi várias vezes com o Ferrugem. Não posso dizer que minha família não era alegre. Eu que era deslocada. Aconteciam coisas sinistras. Meu bisavô teve um infarto fulminante, meu pai chegou da escola e teve a notícia. Precisava avisar um grande amigo do meu bisavô, professor. Pegou a bicicleta e lá foi o menino magrelo, cujas orelhas se repetiram na minha filha, avisar da morte repentina. O professor estava dando milho às galinhas. E assim continuou. Olhou gravemente para aquele moleque de 9 anos e disse: “É meu filho, nós somos os deus das galinhas e as galinhas de Deus.” Essa história era contada sempre com uma certa gravidade. E eu só pensava que deus havia abandonado as galinhas há muito tempo. Esquisita. Estranha. Princesa Soraia dos olhos tristes. E por aí vai… Não me venham falar de infância idílica. Eu me virava para sobreviver na selva. Minha distração era driblar os pensamentos para escamotear essa dor de existir, era ler. Tudo. Xaropadas como Sabrina, Julia e Bianca a O Estrangeiro, de Camus. Adolescentes deveriam ser proibidos de ler esse livro. Esse daí decretou o fim da minha fase infantil. Meus bisavós sofreram muito. Perderam tragicamente dois filhos. Um, às vésperas do casamento, o ônibus que estava indo para o trabalho colidiu com um trem, tinha apenas 26 anos. O outro teve uma apendicite supurada na adolescência, aos 15 anos. Minha avó perdeu uma filha de disenteria amebiana, com um ano de idade, de uma hora para a outra. O que me comovia era que eles não se deixavam abater. A morte era trágica e triste, recebia toda a solenidade que se exigia, mas corria como num vilarejo. Acho que foi aí que percebi que conversar com quem tá no topo da idade poderia me ajudar em alguma coisa. Não que esperasse grandes respostas às minhas questões, não precisava ser nenhuma gênia pra ver que existe o que ninguém sabe. Já falei sobre minha infância estranha e aqui repito. Era uma vida que não tinha hora pra dormir nas férias, que podíamos participar das serestas e dar golinhos nas cervejas, que andávamos sem cinto de segurança no bagageiro do carro. Conheci pracinhas da FEB, conheci gente que padeceu no campo de concentração, conheci uma seita chamada Meninos de Deus que toda vez que via nas ruas tinha ímpetos de me esconder. Mais tarde soube que o líder era pedófilo e obrigava aqueles adolescentes bonitos, com seus uniformes azuis, a se prostituírem prá ele. Só os tolos desprezam a primeira impressão. Meu maior medo: o Minotauro do Sítio do Pica-Pau Amarelo… Animadamente mostrei para Alice e ela acabou com a minha infância ao vê-lo no youtube e falar sem dó: “Mãe, você tinha medo de um gordinho de cueca com máscara de boi que mugia?” Nunca mais fui a mesma. Não se pode destruir o medo alheio assim, sorrateiramente, sem avisar. Mas havia as histórias. Sim, havia as histórias. E tô aqui vendo esse corona vírus, quarentena e não tinha como não lembrar de duas pessoas. Uma, Nelson Rodrigues. Narrando o carnaval que se seguiu à espanhola na Aldeia Campista. Uma história trágica como sói ser as rodriguianas, que envolve uma mãe velha de mulher bonita, uma pessegada, uma garota que apanhava e um olho cego. A outra da minha avó. Criança, subia num caixotinho e assistia pela janela o espetáculo pavoroso dos corpos sendo empilhados numa carroça. Não tinha mais coveiro. O mundo foi tragado. Meu bisavô pegou, mas se salvou. Muitos não tiveram a mesma sorte. Talvez a proximidade com a morte. Talvez a raiz camponesa, de quem sabe que o chão é seu, sempre reparei minha avó e as irmãs nos enterros das famílias. Firmes, plantadas, com seus tornozelos em riste sem titubear. Aquilo sempre me remeteu algo ancestral, nós, as mulheres e a terra. Anos se passaram. Minha avó já falecida. Apenas uma irmã dela viva. E lá estávamos nós. Em 2013 Enterrando meu sobrinho de 3 anos que se afogou na piscina. Dor sem tamanho. A mãe da criança dopada. Eu em negação. Até a hora que uma da nossa geração falou: “Vamos ficar em volta dele”. E cada uma das primas fincou seus pés no chão. Nascemos sabendo aquilo. Existem coisas tão maiores que não são ensinadas.
Céu Bauler