Ninguém enriquece com dinheiro

Um rei chamou seu ministro para conversar sobre o chefe dos jardineiros do palácio.
– Acompanho pelas janelas o trabalho cuidadoso dele– disse o Rei –, e me impressiona sua felicidade, mesmo sendo um homem pobre.
– Certamente – disse o ministro –, ele ama a natureza, mas se sua majestade tiver uma moeda de ouro para doar a ele, veremos como reagirá.
O ministro foi ao encontro do jardineiro e disse que o Rei havia doado uma moeda de ouro pelo trabalho que fazia nos jardins do palácio há anos. O homem tímido ficou feliz, pois nunca tivera uma só moeda de ouro em suas mãos. Após alguns anos, o jardineiro seguia trabalhando bem, mas aos poucos o Rei foi notando uma mudança no seu semblante, e com o tempo uma nova metamorfose. Então, após anos, o ministro foi falar com o trabalhador e perguntou como ia sua vida.
– “Estou bem e contente agora, pois cansei de me preocupar com a moeda de ouro. Um dia contei à minha esposa sobre a moeda escondida, da qual ela não sabia, e sua reação foi achar graça da história. Seu suave sorriso me fez pensar que não precisava mais da moeda. Cansei de cuidar do ouro e hoje estou aliviado, tenho uma boa família, e um bom trabalho. Eis a moeda, obrigado”.

Quando o dinheiro passa a ser o maior objetivo da vida de uma pessoa, já está instalada uma certa loucura. Ademais, ao longo da História, o dinheiro esteve também unido à guerra na compra de armas e mercenários. O dinheiro é tão sedutor que pode diminuir a vida amorosa, como ocorreu com o Tio Patinhas que tinha uma imensa caixa forte de ouro, e se banhava nas moedas. Os avarentos se casam com o dinheiro. O conhecido economista inglês J. M. Keynes escreveu que o entusiasmo pelo dinheiro pode ser um sabotador ao revelar propensões criminosas e patológicas. Keynes parece aqui escrever sobre as milícias. O dinheiro não é o vilão, ele é necessário em sociedade, o problema, disse o sábio Mujica, é o tempo que a gente se dedica a ganhar para comprar.

O tema do dinheiro no mundo psi e na cultura em geral, tem sido quase um tema tabu. Isso que Freud escreveu sobre o dinheiro em “Sobre as transmutações das pulsões, especialmente do erotismo anal”. A essência desse escrito de 1917 é uma equação regida pelo “falo”, o significante do desejo quanto a ser ou não ser o falo e tê-lo ou não. A essência da equação entre os vários equivalentes está no falo, que é uma representação do órgão viril que foi pintada e esculpida na Antiguidade. O falo expressa o poder soberano, a virilidade, pois o mundo se constituiu na lei do mais forte e o dinheiro é um dos poderes fálicos da equação. Entretanto, é a mulher hoje que ocupa o centro da vida social, como diz a música de Zé Keti: “Dinheiro pra que dinheiro, se ela não me dá bola…”.

Passados uns cem anos do ensaio sobre as transmutações das pulsões, convém repensar os elementos da equação simbólica. Ademais a palavra transmutações expressa os movimentos das pulsões em busca dos desejos. Quem vive só para enriquecer está fadado a empobrecer seu mundo desejante. Terríveis os que enriquecem a custa das florestas, a custa da fome e miséria dos demais, pois são expressões da crueldade. São os protegidos pelas Forças Desalmadas, que desprezam o amor, estupram a Mãe Terra, idolatram o dinheiro acima de tudo e de todos.

Bem que escreveu o poeta Carlos Drummond de Andrade: “O cofre do banco contém apenas dinheiro; frustra-se quem pensar que lá encontrará riqueza”. A riqueza humana vive e sobrevive em todos os tempos e espaços, como essa que chegou pelos ventos dos Andes. No Chile as mulheres e a juventude lideram a luta pela justiça, a liberdade e a própria dignidade. As lutas pela dignidade passam por pensar que ninguém enriquece com o dinheiro, como o jardineiro da história aprendeu com sua esposa.

É pó, é pedra

A vida é feita de cacos. Quem tentar reuni-los, vai se frustrar. Assim falou Eliav, pai do consagrado coreógrafo israelense Ohad Naharin. Tinha razão. Por mais potente que seja a cola, jamais se consegue recompor o vaso original. A curiosidade científica, no entanto, vive desafiando esta lógica. Arqueólogos são curiosos profissionais, de fragmentos tentam remontar civilizações e rituais, de restos dispersos buscam as pegadas do Homem.

A nave Osiris-Rex, no espaço desde 2016, acaba de recolher amostras do asteroide Bannu, que está a mais de 320 milhões de quilômetros da Terra. Qual é a importância de raspar este pedregulho imemorial ? Acontece que ele é uma espécie de DNA viajante em busca de nada. Na certidão de nascimento consta que existe há 4,5 bilhões de anos, tão velho quanto o Sistema Solar. Em suas entranhas podem existir pistas sobre a gestação da nossa família de planetas. É atrás disso que correm os cientistas. Uma curiosidade tão compreensível quanto aquela que sempre levou o Menino a imaginar Bessarábias e Polônias, origens de uma história que jamais será totalmente contada.

Há nisso aí uma contradição. Enquanto se destrói metodicamente o planeta, extinguindo espécies vegetais e animais, permanece agudo o interesse de responder uma pergunta-chave: de onde viemos ? Não vale, claro, responder com a ironia do Carlos Heitor Cony. Não hesitava na resposta: vim do Lins de Vasconcelos e vou para a Lagoa.

A distância percorrida pela Osiris-Rex equivale a duas vezes a distância entre a Terra e o Sol e mais de 830 vezes a da Terra e a Lua. Estamos vasculhando essa imensidão para recolher algumas gramas de pó e pedra, que só devem estar de volta em 2023. Tudo nessa missão impressiona e mostra a capacidade inventiva da nossa espécie. Atingiu-se um corpo celeste lá nos cafundós com uma precisão molecular. O “beijo”, que durou seis segundos, precisou levar em conta a baixíssima gravidade do asteroide e sua rotação permanente. A margem de erro foi de um metro.

Podemos, então, bater no peito e dizer que somos os maiorais, os reis da cocada cósmica ? Bem, entre o lançamento da Osiris-Rex e seu retorno, terão morrido de fome cerca de 63 milhões de terráqueos. Outros 14 milhões, de diarreia. Somos bambas em olhar outras galáxias, insensíveis para enxergar a vizinhança. Distraídos, pisamos nos astros. E nos corpos.

Vindas de tão longe, guardo a esperança de que as amostras do Bennu, se não desvendarem os segredos da nossa origem planetária, solucionem outros mistérios igualmente transcendentes. Onde está meu time de botões, campeão invicto dos Jogos Infantis, patrocinados pelo Jornal dos Sports, em 1963 ? A escalação ainda sei de cor: Ari, Joubert, Jadir, Bolero e Jordan, Carlinhos e Gerson, Joel, Henrique, Dida e Babá. Onde estão os ossos de Dana de Teffé ? A crônica policial do Rio e, sobretudo, a memória do Cony, merecem uma resposta definitiva. Onde ficou o manual de convivência com os meus mortos ? Um bom rascunho está aqui, bem à mão, no poema Reabilitação, da polonesa Wisława Szymborska. Não basta. Se o roteiro completo estiver perdido no espaço, terei que reconstruí-lo. Quem sabe convidando os espectros para um shnaps amigo ? Pelo sim, pelo não, já vou botando a mesa e separando a garrafa.

Com paciência de monge, espero pó e pedras, emaranhados em mistérios e respostas.

Abraço. E coragem.

Vacinar é preciso

Quando olhamos para o passado e voltamos ao presente, vemos o quanto evoluímos desde que descemos das árvores e começamos a andar. Não foi um caminhar fácil, as vezes limitado, mas sempre em frente. Chegamos aos dias de hoje muito melhor preparados para enfrentar os desafios da sobrevivência.

Eu gostaria de que o mundo tivesse se desenvolvido por igual, que não existissem fronteiras, que as únicas cores que importassem fossem as do arco-íris, que não houvesse mais fome e todos tivessem garantidos saúde e educação. Um mundo com justiça social, igualitário e solidário. Um mundo mais humano onde o amor e a felicidade fossem a base do sistema, um planeta aberto as religiões, mas que acima de tudo incentivasse a ciência. Sonhar é preciso.

Evoluímos muito, é verdade, mas não chegamos a tanto. O ser humano continua praticando crimes contra outros seres humanos, e apesar de conhecer a Declaração dos Direitos Humanos, mesmo depois de duas grandes guerras mundiais, nossa situação como raça é lamentável. As guerras ainda existem.

A pandemia continua nos desafiando dia a dia. Ela vai e vem em ondas. Em um dia achamos que estamos livres, para no outro ver ela ressurgindo como uma Phoenix. O vírus parece rir de nossas ações para exterminá-lo.

O que já se sabe é que ele surge devagar, se propaga rapidamente. Combatido diminui sua presença para ressurgir em uma nova onda. Uma pior do que a outra nos países que ainda insistem em manter a economia funcionando, mesmo que parcialmente. A China é um exemplo disso. Onde o vírus dá as caras, é Lockdown no restrito significado da palavra. Lá onde tudo começou o número de óbitos é de um país mediano, e se comparado pelo número de habitantes, fica na base da tabela.

Agora estamos assistindo a segunda onda bater na Europa. Em seguida vai bater nas Américas. Os números são assustadores. Da noite para o dia milhares de novos casos de infectados brotam em todo lado na Espanha, Itália, França, Alemanha , Inglaterra etc. Países que reabriram criteriosamente suas economias com o maior cuidado.  Não adiantou.

Muita coisa ainda está sendo estudada sobre o vírus, mas numa coisa todos concordam, ele é transmitido pelo contato entre pessoas infectadas. Se um único doente estiver em uma sala com outras pessoas sadias, provavelmente todos naquela sala vão ficar doentes. Dito de outra forma, a única maneira de impedir a propagação do vírus é impedindo o contato das pessoas pelo período do ciclo de vida dele. É o que faz a China.

A boa notícia é que estamos no limiar da chegada das vacinas. Eu sou do tempo em vacina era dada no braço com um agulhão que deixava uma marca por alguns anos. Era fácil de saber quem já havia sido vacinado para determinada doença, quem não, só olhar quem tinha a “marca”. E havia também o método alternativo para resolver o problema das doenças que não tinham vacina. A gente era levado para ficar na companhia de quem estava doente com a finalidade de pegar a doença. Era sabido que nós crianças enfrentávamos com mais facilidade. Melhor sofrer pouco enquanto criança, do que muito quando adulto.

A vacina só é eficaz para aqueles que são vacinados. Parece o óbvio, mas existe uma corrente que prega o contrário e diz que as vacinas fazem mal, que é a própria doença, que as crianças vão ficar autistas ou ter outras sequelas. Tudo isso sem nenhuma base científica contrariando anos de sucesso com doenças graves como a Poliomielite (paralisia infantil) e a Varíola, por exemplo.

Se vacinar é um ato de amor a si mesmo e ao próximo, especialmente contra o Covid-19, já que a doença também pode ser fatal em pessoas jovens e perfeitamente saudáveis. Não se vacinar é um ato de extremo egoísmo e insensatez.

Crianças e adultos dependentes não podem ficar a mercê de adultos que atentam contra a sociedade impedindo com que sejam vacinados. A vacina tem de ser obrigatória, ela salva vidas que são preservadas e permite com que todos possam retomar suas rotinas com o restabelecimento da economia. Escolas podem ser reabertas, assim como o comércio em geral e a cultura sem riscos. Podemos voltar a ter uma vida normal outra vez.

Quando um presidente diz que não vai obrigar ninguém a se vacinar, e que sequer vai comprar vacinas de determinado país, deixando a população a mercê de seus infames intempestivos desígnios, ele  coloca todo o país de joelhos e ameaça a sobrevivência de toda a nação.

Bolsonaro é um desastre sob todas as óticas, mas agora se trata de preservar vidas e o país como nação viável e independente. Até quando vamos suportar este inepto?

 

 

A vassoura, a mendiga e o analista

A vassoura é um objeto humilde, vive escondido, envergonhado. Desde criança vi vassouras sem fim, sejam as de palha, como as feitas por galhos, dos varredores de rua. Vassoura é o símbolo da limpeza impossível, pois o pó e a sujeira sempre voltam. Tristes os maniáticos por limpeza bem como os que vivem no meio da sujeira total. Bobagem, é claro, cada um vive como pode, sem regras de limpeza ou de sujeira. No meio de certo tédio, fiquei espantado com uma vassoura que foi a ponte entre uma mendiga e um analista. Nunca li sobre a relação entre um colega e uma moradora de rua, pois um mendigo dificilmente conhece um psicanalista. Os que vivem em pobreza extrema são obrigados a pôr todos os seus esforços em se alimentar e dormir. Um mendigo tem uma vida de sobrevivência, já um analista teve a chance de estudar e assim vive de escutar histórias. Definitivamente, vivemos em uma sociedade desequilibrada, são muitas as injustiças. Logo, os personagens dessa história são quatro: a vassoura, uma mendiga, um analista e um mundo enlouquecido.

Tudo começou quando a mendiga que caminhava na rua perguntou ao analista: “Tens uma vassoura velha para me dar?”. Ela era uma senhora com roupas que arrastavam pelo chão, com duas panelas velhas e pedaços de papelão. Primeiro foi um choque, os dois se olharam intrigados, curiosos até, e ela então se aproximou do colega e perguntou se ele tinha uma vassoura. Não haveria história se o analista se fizesse de surdo, mas, felizmente, disse sim. Quando ela havia se aproximado, ele pensou que iria lhe pedir dinheiro ou comida e já pensava em dar uma esmola.

Quando a mendiga recebeu a vassoura, foi logo varrendo seu espaço na rua, pois desejava um lugar limpo para suas panelas e roupas. Às vezes, varria toda a rua, como se fosse uma dona de casa. Um dia, ela queria pegar água no jardim e perguntou se podia, e o colega, mais uma vez, disse que sim. Então, ela falou mais ou menos assim: “A vida não é fácil! Já tive carro, trabalhei em escritório, mas é tudo bobagem… Não quero saber de mais nada. Vou levando minha vida. As pessoas correm atrás disso, depois daquilo, e depois morrem. Vou levando minha vida, moro na rua. Tudo é bobagem. Não quero saber de nada, nada é importante…”. O colega poderia silenciar, no entanto, disse: “Uma vassoura, às vezes, é importante…”. Os olhos tristonhos da mendiga sorriram. O sorriso, muitas vezes, confirma a interpretação, pois o colega, ao dizer que uma vassoura, às vezes, é importante, surpreendeu a senhora, que havia falado com tanta raiva da vida.

Como e por que a mendiga deixara seu trabalho, sua casa, seu automóvel, para viver na rua? Abandonou tudo após uma desilusão, exilou-se do seu mundo para se tornar uma mulher de rua. Que traumas a levaram à mais terrível solidão? Eis uma história que daria um livro entre a ficção e a realidade. Interessante como o fato de pedir uma vassoura revelou sua educação de cuidado com a limpeza. Um dos aspectos dessa história da mendiga é que ela não tem nome, aliás, os mendigos em geral não têm nome conhecido, são ignorados em seu nome próprio. São completamente marginais na sociedade. Todos buscam passar longe deles, poucas vezes recebem alguma atenção.

Uma simples vassoura é importante, assim como um fogão, um brinquedo, um toca-discos, marcam a vida. São mais que simples objetos, fazem parte da história de cada um. A importante vassoura foi uma ponte entre a mendiga e o analista, num diálogo espantoso. As boas conversas são inesquecíveis, são carícias na alma.

O ódio islamita que decapitou um professor é o mesmo da extrema-direita

Após ter sido uma vez mais vítima do terrorismo islâmico, a França vive em estado de choque. Desta vez, ao contrário  dos atentados de 2015, não foram os grandes números de mortos que abalaram a população. Foi apenas um morto, o que de certa forma tornou o ato ainda mais simbólico. Um homem foi decapitado; um professor de história, acusado por seus carrascos de ter dado uma aula sobre a liberdade de expressão.

Um jovem russo, de origem chechena, de 17 anos de idade, com estatuto de refugiado, cortou-lhe a cabeça em plena rua da pacata cidade de Conflans-Sainte-Honorine. Ele não conhecia o homem que assassinou. Até alguns dias antes nunca ouvira o nome de Samuel Paty. Mas fundamentalistas islâmicos, fichados nos serviços de segurança por serem radicalizados, chamaram sua atenção. O professor, como fazia todos os anos,  teria cometido o “crime” de mostrar aos alunos as caricaturas de Maomé numa aula de Cidadania, a propósito da liberdade de expressão. Teve o cuidado de advertir os alunos muçulmanos para que pudessem sair da sala de aula se quisessem. Mesmo assim, alguns pais de alunos, islâmicos integristas, se insurgiram nas redes sociais, alegando blasfêmia. O pai de uma menina, que nem sequer era aluna de Paty, colocou nas redes sociais um vídeo em companhia de um conhecido islamista, denunciando o professor e exigindo sanções. Em um outro vídeo, o agitador afirmava que o professor havia mostrado fotos de um homem nu, simbolizando o profeta. Mentira.

As caricaturas em questão já tinham sido usadas como desculpa para o atentado ao Charlie Hebdo cinco anos antes (12 mortos) e à recente agressão a dois jornalistas, apunhalados em frente ao antigo prédio do jornal.

A França é tida como o país que mais leva a sério a questão da laicidade, baseada na estrita separação entre o Estado e o divino e na liberdade religiosa, dentro do respeito individual. Laicidade é um dos pilares da République Française. Respeita-se o direito de cada indivíduo praticar ou não uma religião. 

Em nome desse respeito, ao contrário do que acontece em outros países, na França a blasfêmia não é punida. Aliás, a sátira não é reservada ao fundamentalismo islâmico. Não passa uma semana sem que Charlie ou o Canard Enchainédesacate indiferentemente um rabino, Moisés, um monge budista, Sidarta, Jesus, o papa.

O problema é que uma minoria de islâmicos radicalizados (nada a ver com a imensa maioria da população muçulmana francesa) se nega a obedecer as leis do país. Defende uma espécie de separatismo (termo utilizado por Emmanuel Macron), e exige que a charia, a lei islâmica, seja superior à Constituição. 

Certos imãs pregam a desobediência civil e a violência contra os infiéis, em nome da leitura de uma versão radical e polêmica do Alcorão. Isso fez com que algumas mesquitas fossem fechadas.

Na verdade, o tema da radicalização islâmica foi ignorado por governos anteriores, abandonado entre as mãos da extrema-direita, cuja propaganda fazia um nauseabundo amálgama entre o fundamentalismo e a comunidade muçulmana como um todo, para desembocar na condenação generalizada da imigração. Para evitar entrar no jogo de Marine Le Pen, optaram por fechar os olhos. Consequência: o tumor cresceu e criou metástase.

Mas verdade seja dita: não foi só a radicalização islâmica que decapitou Samuel Paty. Embora quem apontou para o alvo tenha sido os agitadores, acompanhados dos pais mais ofendidos com a exibição das caricaturas, é preciso levar em conta que  vivemos num mundo onde os conteúdos de ódio se tornaram virais. A violência, ao extremo da  decapitação, é resultado e causa, num círculo vicioso.

Como escreve a economista Maria João Marques no jornal Público, de Lisboa:  “Não é a primeira vez que as palavras de incentivo ao ódio levam a atos de violência e a mortes.”

As Nações Unidas, em seu boletim ONU Info do mês de fevereiro, foi categórico: “La haine sur les médias sociaux contribue directement à la hausse des crimes de haine contre les minorités”, em tradução livre O ódio nas redes sociais contribui diretamente ao aumento dos crimes de ódio contra as minorias.

Muitas vezes, a violência se limita às campanhas de assédio e ódio online. Em outras porém, as palavras de ódio frutificam. Jovens fragilizados e pessoas fanatizadas, prontas a endeusar mitos, se deixam enredar em ideologias promotoras de violência, tomam como ordens o ódio vomitado por terceiros, frequentemente por líderes populistas da hiperdireita como Trump e Bolsonaro.

Em agosto, em meio a protestos por um homem negro ter sido alvejado pelas costas pela polícia americana, um adolescente armado, de 17 anos, matou duas pessoas e feriu uma terceira.  Ele tinha viajado do Illinois ao Wisconsin, onde ocorriam os protestos, para impor a ‘lei e ordem’ – o mantra de Trump contra os Black Lives Matter.

Não foi tampouco por acaso que o número de assassinatos explodiu no Brasil de Bolsonaro, apesar da pandemia.

O ódio alimenta a violência dos islamistas radicais bem como da extrema-direita hipernacionalista e retrógrada. Ambos partilham ideias e ódios. São visceralmente contra a modernidade, a inclusão, a liberdade sexual. Usam a religião – muçulmana num caso, evangélica no outro – como forma de organizar cruzadas, que via de regra nada têm a ver com os valores religiosos.

A este título, o exemplo da ministra Damares no recente episódio da menina grávida, de 10 anos de idade, estuprada pelo tio, foi exemplar. Apesar do direito ao aborto ser reconhecido pela lei e pela Justiça, a ministra da goiabeira insistiu em levar a gravidez até o fim, tratou o médico e a menina de assassinos e, em total ilegalidade, divulgou o nome e o paradeiro da criança para a então bolsominion Sara Winter, formada por neonazistas ucranianos do movimento militar Azov e líder do grupo supremacista 300 do Brasil.

Esse ódio é o mesmo partilhado pelos fundamentalistas islâmicos e radicais de direita em relação aos gays, às feministas, aos transexuais, aos negros, aos democratas, enfim, a toda e qualquer alma que seja diferente da sua e não queira viver na Idade Média. É o ódio que mata e decapita.

Ciência, política e seus filhos órfãos

Nas últimas semanas tivemos episódios talvez inéditos, envolvendo publicações científicas que expressaram em seus editoriais e artigos opiniões políticas e sobre a política, no contexto da pandemia de COVID-19, que certamente só causou até agora o volume de danos e perdas pelas omissões e ações de governos irresponsáveis e desumanos, na saga negacionista em relação à ciência, à história e mesmo aos mais evidentes fatos.

A iniciativa dos periódicos Lancet, New England Journal of Medicine e Nature foi contundente. Em pelo menos um caso, o da revista Lancet, uma forte reação de dois grupos de médicos brasileiros protestou contra o que foi rotulado como uma “intromissão política indevida” para um periódico científico, que nos dois casos foi literalmente instado a não manifestar-se sobre isso.

Um dos subscritores da reação à Lancet é amigo pessoal deste autor, e ocupa posição destacada no meio científico médico brasileiro, e desta amizade de longa data surgiu então um intenso debate sobre a polêmica. De um lado, penso que em um ambiente onde a ciência é negada, atacada e negligenciada enquanto fonte de informação para ações políticas em saúde pública que venham a proteger governados, cabe sim a reação dos veículos legitimadores do conhecimento médico científico. Afinal, se a ciência não tiver como objeto o progresso da humanidade e seus frutos não se transformarem em fomento técnico de bem-estar e segurança pela instrumentação política, estará decretado o seu fim, bem ao gosto do neofascimo hoje à beira da institucionalização. No outro lado, meu velho amigo impugnando a resposta política da ciência, insistindo em uma separação total dos territórios, com uma visão de mundo que isola a ciência da vida real e cotidiana e a coloca em um verdadeiro altar onde os dados e números são de pureza absoluta e totalmente desarticulados do universo político. Tudo se passa como se a carreira acadêmica máxima que fez em instituição pública bem como as verbas que recebeu para suas pesquisas no ambiente da universidade pública nada tivessem a ver com a atividade política ou com a visão de estado daqueles que tomam as decisões sobre os investimentos. Tudo também se passa como se a ciência não necessitasse do processo de debate político para que seus conhecimentos sejam incorporados à vida do cidadão comum, às mudanças de práticas e hábitos, à formulação de leis e políticas de estado.

Paul Feyerabend, falecido professor de filosofia em Berkeley deixou uma vultosa obra que nos clarifica de forma paralisante o mundo onde a ciência tomou o lugar da religião seguindo hoje como verdadeira fonte de poder econômico e…político! Ele nos adverte sobre o tipo de conhecimento que a ciência vem desenvolvendo principalmente no mundo ocidental e capitalista, em um círculo vicioso de financiamento/empoderamento e formação de monopólios de saber que literalmente estão ditando os rumos da humanidade. Não bastasse isso, para aquele autor a ciência reclama permanentemente a si mesma a chancela do conhecimento, criando barreiras a qualquer outra forma de apreensão e compreensão do mundo e da vida que não passe pelo crivo cartesiano. Vale a leitura de suas obras “Como proteger a sociedade da ciência” e “Adeus à razão”.

Meu amigo parece não aperceber-se de que sua (entre outras tantas) vida está condenada em um mundo onde a ciência é atacada, não por aqueles que como Feyerabend possuem uma visão crítica necessária a uma revisão sobre o lugar, o poder e as dimensões da ciência na sociedade moderna, mas por aqueles que certamente não têm alcance mental para compreender o que é ciência e muito menos para fazer uma crítica qualificada. O ataque vem das sombras, das trevas, dos saudosos de tempos de ódio e barbárie, e se não defendido pela ciência, será vitorioso, como mostra a tragédia da pandemia atual.

Diante da desfaçatez do governo brasileiro, que divulgou ontem um estudo dando conta da “eficácia da Nitazoxamida” no combate ao COVID-19 sem apresentar uma única estatística ou debate, provoquei o meu amigo novamente, instando-o a mandar uma carta para o Ministério da Ciência e Tecnologia protestando contra a intromissão de políticos no mundo da ciência, em situação absolutamente simétrica à que ele denunciou antes. A resposta foi de causar frouxos de riso. Para ele, não é papel dele fazer esta reclamação, mas sim dos políticos profissionais, mostrando de forma pornográfica a sua visão fragmentada de mundo, de ciência, de cidadania, de médico e do complexo universo onde vivemos.

Destas conversas que se estenderam por dias, resta a visão de que o meu romântico mundo cultivado durante tantos anos desde o meu ingresso na faculdade de medicina pariu muitos filhos que voluntariamente se puseram na condição de órfãos. O que é verdadeiramente assustador.

A revista Nature, talvez encerrando o episódio, publica na semana que passou um statement: “Está cansado da negação da ciência? Pois abrace a política!”.

Que alívio.

NELSON NISENBAUM