por Mauro Nadvorny | 7 nov, 2020 | Crônica
Em tempos de milhares e milhares de mortos, cresceu a morte no imaginário. Pensar na morte, recordar os mortos, é perceber as cicatrizes no coração que podem sangrar com lágrimas. São os sofrimentos das separações, e quando o desapego é impossível, se revelam os laços eróticos com o morto, e cai à sombra da melancolia. Os queridos mortos vivem na gente, tanto na consciência como no inconsciente, através dos sonhos, sintomas e atos falhos.
O livro de Freud, “Psicopatologia da vida cotidiana”, é o livro dos diferentes atos falhos, que começa com o esquecimento de um nome próprio estrangeiro. É o caso Signorelli, pintor esquecido numa conversa sobre os costumes dos turcos quanto ao sexo e à morte. As causas do esquecimento do nome do pintor são os pensamentos reprimidos: a morte e a sexualidade. Portanto, pensar os mortos envolve conhecer os laços afetivos com ele, as identificações.
Identificação é a mais precoce manifestação de ligação de sentimentos com outra pessoa, é um processo psicológico pelo qual um bebê assimila um aspecto, uma propriedade do outro, e assim tanto se forma como se transforma. A personalidade se constitui pelas identificações com irmãos, tios, todos que são marcantes e integram as identificações de cada um.As identificações são mantidas pelos desejos inconscientes dos progenitores, que marcam cada pessoa já na escolha do seu nome próprio.
Os nossos mortos vivem em nós, às vezes, no erotismo do luto, e nas dificuldades do desapego. Os mortos costumam visitar nos sonhos, ademais a gente, ao envelhecer, fica aqui e ali mais parecido aos progenitores. A questão é como cada um constrói seu espaço próprio, mais livre do poder desejante dos pais. A pergunta “Quem sou eu?”, quem é mesmo cada um, tem a ver com as identificações, a pluralidade das pessoas psíquicas que formam a psique- alma em grego.
No livro “Sobre a morte”, do escritor Elias Canetti, ele escreve que tinha sete anos quando seu pai morreu subitamente em casa. Elias estava na rua brincando e sua mãe gritou várias vezes para ele: “Meu filho, você está brincando e seu pai está morto!”. Elias buscou saber os porquês da morte de seu pai, de quem ele tanto gostava, e para isso sempre tentou averiguar, até que, 23 anos após a morte do pai, sua mãe fez uma confissão. Ela se entusiasmou com um médico que a tratou e contou isso ao pai de Elias, que ficou abalado. O casal discutiu, e no dia seguinte ele enfartou. Canetti foi o Prêmio Nobel de literatura em 1981, e seu livro mais importante foi “Massa e poder”. Durante vinte e cinco anos buscou entender o comportamento humano diante o autoritarismo, em especial as grandes ditaduras da primeira metade do século XX.
Durante quatro décadas escreveu frases reflexivas sobre a morte que foi reunida no seu livro sobre a morte e se opôs sempre ao conceito de que o homem é um ser para a morte. Defendeu que o com ênfase que o homem é um ser contra a morte, que é preciso combater a morte. Talvez fosse uma forma de protestar pela morte precoce do pai, pois escrever sobre a morte é também escrever sobre o pai morto. Sonhou com uma solidariedade entre os vivos contra a morte Diante dos mortos se apresentam muitos caminhos, e cada um faz o que pode com seu cemitério particular. No velório do pai de Michael Jordan, que foi assassinado, o jogador chorava copiosamente e sua mãe disse a ele: “Seja grato, seja grato” e isso o acalmou.
Nossos mortos vivem em nós, e neste ano a pandemia acentuou o medo da morte, e a luta pela vida. Elias Canetti, nas suas reflexões sobre a morte, se revelou um combatente solidário com os seres vivos contra a morte. Todos os profissionais da saúde, todos os seres de bem, deveriam se opor aos governos que trabalham a favor da morte.
por Mauro Nadvorny | 5 nov, 2020 | Comportamento, Mundo, Política
A democracia na América está doente e, como era sabido, o remédio convencional das eleições não será suficiente para a curá-la. Num corpo político e social com fraturas intransponíveis, sem espaço de diálogo, compromisso e portanto de consenso, é praticamente impossível afirmar valores morais, princípios republicanos, e até legitimidade baseados na vontade popular. Os 4 anos de Trump provocaram uma crise crescente de confiança nas instituições, com uma parte da população convencida de que a democracia é apenas um artifício dos políticos.
O espetáculo lamentável que assistimos não é a velha clivagem entre esquerda e direita, entre progressismo e conservadorismo, é a oposição entre a decência e a falta de escrúpulo, entre a mentira e a verdade. Se a democracia hesita nesta escolha, é porque se tornou uma banal formalidade.
Em 2016, a América elegeu Donald Trump com a sensação de que a democracia liberal se tornara uma farsa. Em 2020, voltou a lhe dar mais de 67 milhões de votos por acreditar que essa farsa continua.
A vitória anunciada de Joe Biden permite acreditar numa convalescença longa e penosa; a reeleição de Trump confirmaria provavelmente a sua agonia.
Se os americanos elegeram há 4 anos um fanfarrão, demagogo e despreparado, suspeitava-se que o fizeram por raiva ou por protesto contra a sua adversária, representante da política tradicional. Mas como diz o editorial do jornal Público, de Lisboa, “se tantos americanos insistiram em Trump em 2020, depois de anos de erros, de mentiras, de logros, de falsas promessas, de perturbações e ameaças, de cumplicidade com a guerra racial e cultural, de falta de transparência em questões cruciais como os impostos, é porque a democracia se tornou uma moeda de escasso valor facial.”
Trump despreza a democracia. Prova disso, nessas eleições voltou a se comportar como um líder autoritário numa democracia liberal. Transformou a Casa Branca em sede de campanha. Quebrou uma antiga tradição: o vencedor espera que o derrotado reconheça a derrota, antes de proclamar vitória. É este desprezo pela democracia, pelas suas regras e pelos seus rituais que torna o resultado tão cheio de consequências.
Some-se a isso a hipermidiatização da figura de Donald Trump. Praticamente toda a eleição se fez em torno das suas afirmações e da sua personalidade. Houve um grau de personalização do debate político digno de um regime ditatorial. As ideias políticas de Donald Trump, apesar de incoerentes e perigosas, foram amplamente divulgadas, contestadas ou ridicularizadas, mas nunca desprezadas a ponto de não ganhar espaço. Trump foi onipresente, dentro e fora dos EUA. O mesmo não se pode dizer de Joe Biden. A personalidade e ideias políticas do candidato democrata foram, quase sempre, transmitidas como uma vaga boa alternativa ideológica e moral às ideias e à personalidade execrável de Trump.
Por enquanto, a única conclusão segura é que os Estados Unidos continuarão a ser um país profundamente dividido. “Depois de um choque econômico e de saúde pública, depois de quatro anos de drama exasperante, depois do impeachment, os americanos não rejeitaram de forma enfática nem Donald Trump, nem o trumpismo”, escreveu Janan Ganesh no Financial Times.
Não sou daqueles que acham que Biden e Trump são dois lados da mesma moeda. A vitória de Biden será fundamental, pois saberemos então que é possível derrotar a ignorância, o desprezo, a mentira, a desonestidade, a discriminação, o elogio do racismo e da supremacia branca, as violações quotidianas dos direitos humanos. Em outras palavras que é possível barrar a ascensão do populismo nacionalista e retrógrado da extrema-direita. Os Estados Unidos não mudarão radicalmente, o futuro presidente continuará a pregar o America First, mas nós, democratas, compreenderemos que o tempo da pós-verdade não é inelutável. E isso já é muito. Enfim, vamos respirar.
Será preciso também tirar um ensinamento óbvio do trumpismo, o de que não há democracia na desigualdade extrema. Num país onde os habitantes dos subúrbios empobrecem e 1% dos americanos controla 40% da riqueza nacional, a tolerância acaba, a revolta cresce e a democracia se degrada.
É neste pântano que nascem fenômenos como Trump. Ele não é um mero acidente.
por Mauro Nadvorny | 4 nov, 2020 | Comportamento, Mundo, Opinião, Oriente Médio, Política
Via de regra, com exceção de pessoas geniais, como Orson Welles, que virou capa da revista Visão, uma entrevista vale por uma ou duas declarações. O resto são banalidades. Foi o caso da exclusiva que fiz com o aiatolá Khomeini, dias antes dele embarcar para Teerã como líder inconteste da maior revolução da segunda metade do século 20. Após quinze minutos de frases feitas recheadas de citações do Alcorão, desqualificando o xá e seu regime corrupto, o velho de barbas brancas, olhos negros profundos, frieza siberiana, sentiu-se à vontade para falar. Sei lá eu por quê. Após um silêncio constrangedor, olhou nos meus olhos e em um tom pausado e solene declarou:
“Nós não estamos apenas transformando o Irã, não estamos só fundando uma República Islâmica, estamos mudando o mundo. Conosco o islã irá se tornar a religião global. A Revolução Islâmica está destinada a ter um “caráter universal”, a se alastrar para muito além das fronteiras iranianas, para os países muçulmanos obviamente, mas também para o resto do mundo. A existência de um “califado planetário” está prevista no Alcorão. Caberá a nós construí-lo, em nome do profeta, “por todos os meios”.
“Alahu Akbar ! Alá é grande!”
Quatro expressões – revolução islâmica, caráter universal, califado planetário e por todos os meios – me deram calafrios, muito embora na época eu fosse incapaz de compreender a dimensão do que acabara de ser dito. Não podia alcançar, nem intuir, a importância daquelas palavras ameaçadoras. Estava longe de imaginar que naquele instante, naquele vilarejo de Neauphle-le-Château, a 30 quilômetros de Paris, debaixo de uma tenda desconfortável plantada em direção da Meca, meu gravadorzinho de fita cassete estivesse registrando o que viria a ser uma estratégia geopolítica expansionista e sangrenta, que entraria no século 21 e germinaria a jihad, a guerra santa islâmica.
Hoje, passados 41 anos, olho para trás e compreendo que aquele momento marcou uma transformação profunda e duradoura; mudou o mundo muçulmano e deu início a uma nova cruzada, em que o nome do Jesus da Idade Média foi substituído pelo de Maomé. O islã, com todas as suas vertentes ideológicas, se lançou num projeto de poder. Dentro e fora do espaço muçulmano, como anunciara o aiatolá. No plano “interno”, a cisão entre as diferentes correntes – xiitas e sunitas – transformou-se em guerra aberta, liderada pelas potências regionais, Arábia Saudita e Irã, com a inclusão recente da Turquia. O objetivo é claro: criar espaços de influência em torno do Mediterrâneo.
O terrorismo faz parte dessa estratégia geopolítica. Teerã e Riad ontem, Ancara hoje, foram – e são – os grandes financiadores dos atentados que ensanguentam o mundo.
Num determinado momento, os palestinos foram usados como justificativa para a violência. Depois, foram abandonados, jogados no lixão do esquecimento. Hoje, os palestinos são ignorados e até desprezados pelos países árabes.
Tanto o Irã como a Arábia Saudita e a Turquia, têm se unido a países ocidentais interessados nas riquezas da região e não hesitam em combater uns aos outros em teatros como a Síria, Líbano, Líbia ou Iêmen.
Durante anos, os conflitos no Oriente Médio giraram em torno de um fator comum: a rivalidade entre Irã e Arábia Saudita. Esse antagonismo inflamou a violência em áreas já devastadas pela guerra e acabou por criar novos campos de batalha, onde anteriormente existia uma relativa paz.
São estratégias de poder hostis que se digladiam. Neste contexto, o combate a Israel, que outrora serviu de pretexto para alicerçar a unidade árabe, tornou-se uma questão subalterna, como provam os recentes acordos de retomada das relações diplomáticas entre Tel Avive, Cartum, Abu Dhabi e Manama, e o desinteresse pelo conflito israelo-palestino. A própria Arábia Saudita, através de seu príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, já reconheceu oficiosamente o direito à existência de Israel em paz e segurança. Só não o fez abertamente porque, como sede dos principais locais sagrados do Islã, isso simbolizaria a normalização das relações de Israel com todo o mundo muçulmano. E tanto o xiismo como parte do sunismo ainda não estão prontos a dar o passo.
Por outro lado, na briga entre as duas vertentes do Islã, o Irã se coloca como o grande defensor dos xiitas na luta pela hegemonia muçulmana. Não nega esforços nesta direção, seja atuando diretamente na guerra síria, seja armando militar e ideologicamente movimentos terroristas como o Hamas e o Hezbollah.
A Turquia entrou na luta pela conquista regional mais recentemente, a partir do momento em que houve uma tentativa de golpe contra Recep Erdogan (real ou imaginária ?) e que o líder turco fez uma verdadeira purga nas forças armadas, nos tribunais, na polícia e na sociedade civil em geral, prendendo meio milhão de pessoas e acabando com toda contestação. Conquistou assim a fidelidade do exército e instaurou uma ditadura político-islâmica, lançando-se na busca de seu grande sonho, a refundação do império otomano. Além da influência no Oriente Médio, voltou-se para o Mediterrâneo, criando zonas de conflito com a União Europeia e o norte da África. Para tanto, não hesitou em traçar um estranho diálogo com Vladimir Putin, ora amigo ora adversário, e desafiar a Aliança Atlântica, da qual a Turquia faz parte. De quase membro, passou a espicaçar a União Europeia.
Erdogan pôs um ponto final no país secular de Kemal Atatürk, inventor da Turquia moderna, para tornar-se um verdadeiro sultão.
Nos três casos, a religião é colocada a serviço da política, da geopolítica e do devaneio de seus líderes. No Irã, a principal autoridade é o chefe dos Guardiães da Revolução, no caso da Arábia Saudita é o príncipe herdeiro, no da Turquia, o presidente-sultão-ditador. Não há espaço para a separação entre a Igreja e o Estado.
O ocidente e até a China de Xi Jinping são peças nesse xadrez geopolítico, bem como outros grandes países muçulmanos, como o Paquistão. Os Estados Unidos são ao mesmo tempo o Grande Irmão de Riad e o Satanás de Teerã, a Europa (e a França em particular) o infiel dentre os infiéis, a China um possível futuro amigo, ou ao menos aliado.
Se de um lado o mundo muçulmano nem sequer dialoga entre si, de outro os instrumentos para exportar seus projetos de poder são cada dia mais limitados. O fracasso da Primavera Árabe jogou a Irmandade Muçulmana no ostracismo e cada país caminhou numa direção. Os grandes movimentos que alimentavam a violência expansionista – Al Qaeda, Daesh, Al Qaeda do Magreb Islâmico – foram derrotados militarmente e tentam dificilmente se reconstruir para existir através do terror.
Diante desse quadro, uma parcela dos muçulmanos da diáspora voltaram-se para os valores tradicionais. Enquanto os países exportadores da teoria de Khomeini, numa atitude dúbia, passaram a alimentar o ódio aos infiéis, através de uma enorme rede de mesquitas e de associações culturais, esportivas e outras, a exemplo dos evangélicos no Brasil. Optaram por se implantar nos subúrbios dos centros urbanos europeus, onde prosperam conjuntos habitacionais desumanos que com frequência se transformam em guetos, abandonados pelo Estado, onde vivem populações magrebinas. Semearam em terreno fértil, onde já reinava a xenofobia e a islamofobia plantadas pela extrema-direita. A mesma Europa, que abriu as portas a milhões de refugiados das guerras fraticidas, transformou-se no principal palco, porém não único, da violência islamita.
A respeito, é mister abrir um parêntese para assinalar um erro crasso e frequente dos “analistas” da imprensa brasileira, que se auto-intitulam “experts” em assuntos internacionais. Ao criticar o discurso de Emmanuel Macron após a decapitação do professor Samuel Paty, confundem o termo Islamita, islamiste em francês, com muçulmano. Islamiste não significa muçulmano e sim extremista islâmico, aquele que se radicalizou. Erram ao confundir os dois termos, talvez por ignorância; acabam escorregando num amálgama mal odorante.
Necessário sublinhar para que não haja dúvida: a violência vem dos islamitas e não da comunidade muçulmana, cujos representantes a denunciam sistematicamente.
O terrorismo faz parte do projeto de poder e pouco tem a ver, por exemplo, com as caricaturas de Maomé. Até o século 16, as imagens do profeta, hoje proibidas pelos extremistas sunitas, integravam a iconografia islâmica. Centenas de quadros magníficos, representando Maomé, embelezam até hoje as paredes do Palácio Topkapi, de Istambul. A proibição veio de uma reescrita do Alcorão pela seita radical. E é polêmica até hoje entre os estudiosos do islã.
Assim, as caricaturas verdadeiras de Maomé (veja o texto sobre as falsas caricaturas, no final) publicadas inicialmente na Dinamarca e depois no France Soir e finalmente Charlie Hebdo entre outros jornais europeus, são apenas a parte visível do iceberg. Servem de bode expiatório, na medida em que os integristas precisam de uma razão para explicar às suas comunidades atos que não tem nenhuma. Se as caricaturas são tão provocadoras a ponto de explicar a decapitação de um professor, como entender a degola de um sacristão, a morte a facadas de uma dançarina brasileira ou a morte a tiros de várias pessoas diante de uma sinagoga em Viena só para citar os ataques mais recentes? como compreender os atentados islamitas cometidos no Reino Unido, na Alemanha, na Holanda, na Itália, na Noruega, na Espanha e até na longínqua e pacífica Nova Zelândia? como aceitar que os islamitas tenham lançado, via redes sociais, ameaças de morte à comunidade asiática de Paris, sob o argumento de que os chineses, além de terem criado o corona vírus, cometem as piores atrocidades contra os uigures (muçulmanos sunitas de Xian Jiang), escravizando, assassinando, estuprando?
As caricaturas não podem ser usadas como justificativa. A violência como resposta é falta de argumento. Aliás, o jovem que feriu dois jornalistas em frente à antiga sede do Charlie, no final de setembro, confessou a amigos nunca ter visto as tais caricaturas, nem sabia que o jornal satírico tinha mudado de endereço após o massacre de sua redação, cinco anos antes.
Vingar-se da França colonialista? tampouco. Os autores dos recentes atentados são chechenos, paquistaneses, afeganes. Apenas um era de origem tunisiana. O que não exime o país de uma mais que necessária autocrítica, que, diga-se de passagem, está sendo feita, embora tardiamente.
Por que então fazer da França ou de outros países europeus alvos privilegiados do terrorismo islâmico? Porque os atentados cometidos contra populações muçulmanas em países muçulmanos, embora muitíssimo mais numerosos, não viram notícia na grande imprensa internacional. A repercussão da tentativa de morte da menina Malala, que cometeu o crime de querer estudar, é exceção, apesar da quantidade incontável de Malalas.
O que explica o terrorismo islâmico é o projeto de poder de Erdogan, bin Salman, aiatolá Ali Khamenei pela supremacia no mundo islâmico. Os atentados só são possíveis graças a uma extraordinária e eficaz rede de associações religiosas ou não, instaladas na Europa e financiadas sobretudo por essas três potências islâmicas, mais o Qatar e o Paquistão. Várias mesquitas instaladas em solo europeu, dirigidas por imanes originários e pagos por esses países, defendem abertamente a xaria, a lei islâmica, em detrimento da Constituição local. Nelas, legitima-se desde o casamento forçado de crianças de 10 anos até a morte por apedrejamento de homossexuais ou de mulheres adúlteras. Os frequentadores são instigados a matar os infiéis. Acabam se radicalizando, alguns matando.
Mila, uma estudante adolescente de 16 anos, viu sua vida virar de cabeça para baixo no dia 18 de janeiro, quando publicou um vídeo criticando o islã para se defender do ataque homofóbico de um rapaz muçulmano, que a chamou de “lésbica asquerosa”. Seguiu-se então uma das maiores ondas de mensagens insultantes jamais vista na história da internet na França. Foram cerca de duzentas por minuto nos dias que se seguiram. Desde então Mila recebe ameaças de morte diárias, já foram mais de 35 mil, está sob proteção policial e foi obrigada a deixar de frequentar a escola.
Contra sua vontade, Mila tornou-se um ícone do partido xenófobo Rassemblement pour la République, de Marine Le Pen, que defende a expulsão de todos os estrangeiros.
Para a divulgação das mensagens hediondas, nada melhor que as redes sociais divulgadoras do ódio, islamita como neofascista.
Face a esse quadro, alguns politólogos europeus não hesitam em falar em guerra de civilizações, enquanto outros veem aí uma guerra de religião. Estamos diante de uma cruzada em que o futuro da democracia e dos direitos humanos está em risco. Se os governos não adotarem uma atitude firme de combate a todas as discriminações, a todos os fundamentalismos – islamita, judaico, cristão – dentro das regras de respeito ao Estado de Direito, a extrema-direita ocupará o espaço. O tempo é agora, se já não for tarde demais. A pandemia abre uma janela de oportunidade, que se não for aproveitada fará com que a saída do confinamento marque a vitória do populismo fascista e transforme o velho mundo iluminista na antessala do inferno dantesco. Se abandonarmos nossos valores, expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, estaremos dando razão aos integristas de todas as religiões e ideologias.
AS FALSAS CARICATURAS QUE INCENDIARAM O MUNDO
Num texto sobre a história das caricaturas, a jornalista Caroline Fourest, ex-Charlie, conta:
“Em 30 de setembro de 2005, o Jyllands-Posten, principal diário conservador dinamarquês, publicou doze desenhos sobre Maomé nas páginas de cultura, sob o título “Os rostos de Maomé”. Não por provocação gratuita, mas para denunciar uma forma de censura. Meses antes, um autor dinamarquês de esquerda, alérgico ao fundamentalismo, Kare Blutgen, não conseguiu encontrar um só desenhista que aceitasse ilustrar um álbum para crianças contando a vida de Maomé. O horror do assassinato do cineasta de extrema-direita Théo Van Gogh, degolado por um islamita marroquino, em 2004, ainda estava na cabeça de todos.
No mesmo Jyllands-Posten, um humorista escreveu: não tem problema urinar na Bíblia na frente das câmeras, mas eu não faria o mesmo com o Alcorão.
Em Londres, após os atentados de 7 de julho na capital britânica (52 mortos e mais de 700 feridos), o diretor da Tate Gallery anulava uma exposição satírica, já programada, sobre o Talmud, a Bíblia e o Alcorão. Na Suécia, meses antes, o museu de Goteborg anulou uma exposição sobre símbolos sexuais e citações do Alcorão.
Foi nesse contexto de autocensura que o editor de Cultura do jornal dinamarquês teve a ideia de realizar um concurso de desenhos sobre a imagem de Maomé.
A maioria dos desenhos apresentados mostrou um profeta estilizado e poético. Alguns satirizavam o jornal. Dois deles eram mais duros: um mostrava Maomé com um facão em companhia de duas mulheres vestindo burca. O outro, um Maomé severo com um turbante em forma de bomba. Era uma forma de denunciar o terrorismo cometido em nome do profeta.”
Até que um grupo islamita paquistanês colocou a cabeça dos desenhistas a prêmio. Mas não por causa das caricaturas publicadas no jornal dinamarquês e sim por causa de falsas charges.
Como assim? eis aqui a verdadeira história, pouco conhecida: com o intuito de colocar ainda mais lenha na fogueira, Abou Laban e Ahmed Akkari, dois paquistaneses de grande prestígio, levaram para uma reunião com líderes do Egito, Turquia, Líbano, Síria e Golfo Pérsico um dossiê contendo caricaturas publicadas em sites fascistas na internet, que nada tinham a ver com aquelas do Jyllands-Post. Dentre elas, uma acusando Maomé de pedófilo, outra mostrando um homem com cabeça de porco, outra ainda com Maomé sendo sodomizado por um cachorro.
Foram estas caricaturas que incendiaram o mundo muçulmano, provocando protestos violentos por multidões no mundo muçulmano e uma onda de atentados, inclusive contra embaixadas da Dinamarca, Áustria, Noruega e França no Oriente Médio. Furioso, o ministro egípcio das relações exteriores, Ahmed Aboul Gheit, presente à tal reunião, entrou com um projeto de resolução na ONU pedindo a proibição de todo ataque às religiões.
A xaria contra as caricaturas estava lançada.
por Mauro Nadvorny | 3 nov, 2020 | Crônica
Levanto âncora. Um bocadinho. A sensação é estranha. Depois de sete meses de isolamento espartano, arrisco ir ao supermercado, a uma farmácia, caminho no calçadão da orla, lotado de kamikazes sem máscara. Inseguro, me desvio das pessoas nas ruas, mesmo daquelas que usam máscaras. É uma neura que, desconfio, vai demorar a passar. O mundo virou ameaça invisível, à espera de um espirro imprudente ou uma fresta desleixada. Coisas triviais, como ir ao barbeiro, fazer uma fezinha no bicho ou comprar um engradado de guaraná Jesus, viraram bicho-papão. Caso de vida ou morte.
No início do isolamento, virei atleta de sala-e-quarto. As caminhadas monótonas dentro do apartamento deram lugar a uma esteira, igualmente monótona. A gente anda, anda, e não sai do lugar. Deve haver aí uma metáfora inteligente ou uma conclusão genial, mas não sei qual é. A verdade é que, mesmo com esses exercícios tediosos, não consegui evitar uma pança esplêndida. Devidamente avacalhada pelos netos, que não se cansam de perguntar de onde veio esse barrigão. E dão nele uns tapinhas, confirmando que a visão grotesca não é pura imaginação. Sorrio meio sem jeito.
Já os pássaros parecem felizes. Nas árvores, celebram a vida à sua maneira. Voam, o que está sendo difícil para nós, mesmo como licença poética. Cantam neste tempo ruim, com ou sem nuvens. Agitam-se, numa liberdade que definha nos bípedes sem asas. Procuram seus pares em linguagens coloridas, comunicação interditada nos ninhos pandêmicos, cinzentos e acuados.
As emoções, para variar, flutuam. Não dá para enfrentar essa encrenca viral impávido colosso. A escritora argentina Silvina Ocampo, descoberta recente, diz que somos um compêndio de contradições, afetos, amigos, mal-entendidos. Somos mutantes e carentes, em suma. Um certo isolamento, via aberta à introspecção, é vital para qualquer um. No entanto, o impedimento do encontro, da troca, do toque, empobrece, atrofia e angustia. Acrescente-se a absoluta indefinição de quando vamos conseguir trocar a marcha e estará aí um convite à valsa Mephisto.
Em aulas à distância (ô praga !), minha neta, sete anos, aprendeu a jogar xadrez. Encantou-se com o jogo e me desafiou para partidas virtuais. A cada lance impacientava-se, e então, vovô, não vai jogar ? E eu mostrando que a gente tem que pensar antes de agir, as peças não têm vida própria, há uma coletividade em jogo. Veio o dia em que, nos visitando depois de longos meses de quarentena, ela viu tabuleiro e peças de madeira que, adolescente, ganhei do Grande. Quis levar para casa, sempre leva alguma coisa para nos fazer presentes em seu cotidiano. Pelo menos é assim que interpreto, na persistência narcísica dos analistas de botequim. Daquela vez não deu. O jogo de madeira faz parte do caleidoscópio afetivo que não pretendo liberar. Ao lado de peões e realeza, minha neta começa a aprender que frustração faz parte do jogo.
Quando comecei a aprender a jogar xadrez, ganhei dois livros sobre o jogo. Relíquias que conservo. Reproduções de partidas famosas, a arte da abertura. Adolescente, vivia uma fase de desafio à autoridade, de afirmação não sabia do quê. Nas férias de verão, Ilha do Governador, passava os dias estudando aqueles livros. Quando o Grande chegava, moído pela rotina triste, eu já tinha colocado as peças no tabuleiro e o desafiava para uma partida. Era a situação ideal. Se ganhasse, melhorava meu ranking de entrada na “adultice”. Se perdesse, confirmava a imagem heroica que pintava do Grande. Não sei quantas ganhei, quantas perdi, meu parceiro foi generoso. Ajudou a atravessar o rio tormentoso. Pena que caiu da ponte no meio da travessia.
Como não somos retilíneos, tem gente que permanece adolescente, nesta zona cinzenta, até a maturidade. Desloca conflitos semeados na insegurança dos 14, 15 anos para as relações adultas. Não costuma dar certo. Pior. Pode causar rupturas, às vezes definitivas. Faltou a eles um bom jogo de xadrez na hora certa.
Um abraço. E coragem.
por Mauro Nadvorny | 31 out, 2020 | Brasil, Comportamento, Direitos Humanos
“Agora eu virei ‘boiola’. Igual maranhense, é isso?. Guaraná cor-de-rosa do Maranhão aí, quem toma esse guaraná aqui vira maranhense“.
Este é o presidente do Brasil fazendo o que mais sabe, emitir preconceitos na forma do que ele chama de “brincadeira”, algo para não se levar a sério. Sem o menor constrangimento ele segue sendo o que sempre foi e fazendo exatamente o que disse que faria como presidente, nenhuma novidade nisso.
Quando li a notícia, além da vergonha nacional e internacional que isso representa para mim como brasileiro vivendo no exterior, me lembrei das razões pelas quais limpei minha lista de amigos durante as eleições, incluídos nela parentes e conhecidos virtuais.
Tem gente que sempre fez este tipo de comentário, mas a gente achava que era só uma brincadeira, como diz o presidente, até que não mais. Houve um tempo para se perceber o quão errado e impróprio são estes comentários. Quem cresceu e percebeu isso, imediatamente parou de fazê-los. Quem continua não está mais fazendo uma “brincadeira”, está destilando ódio e preconceito contra as minorias. Não os quero próximos.
Nas últimas eleições, a despeito de todos os avisos e alarmes, a barbárie venceu a civilização. O Brasil vive um retrocesso civilizatório sem precedentes na sua história. Nem na ditadura o país teve um milico parecido com este presidente em termos de comportamento inconveniente. O único episódio do qual me recordo foi em 1978 quando o General Figueiredo que viria a se tornar presidente, disse preferir o cheiro de cavalo ao cheiro de povo. Na verdade o fato ocorreu assim: um repórter perguntou se o futuro presidente gostava do “cheiro do povo”, ao que ele respondeu “o cheirinho do cavalo é melhor (do que o do povo)”.
A barbárie social já assola o Brasil há tempos, o crime tomou conta das ruas. A fome voltou e milhares de brasileiros não tem o que comer. Se isso não fosse o suficiente, a pandemia deixou milhões desempregados. Milhares de pequenos negócios faliram.
Grupos supremacistas brancos, nazistas, os camisas verdes Integralistas e todo tipo de aberração racista vieram a público. Saíram do esgoto e agora andam a céu aberto propagando seu ódio sem serem molestados. O país conhecido pelo samba, futebol e seu povo hospitaleiro ficou na lembrança. Agora somos apontados como a terra do presidente idiota que permite a queima das florestas e que não acredita na existência do Covid-19.
Esta semana teremos eleições nos EUA, e talvez um dos maiores expoentes desta corrente fascista que chegou ao poder em muitos países, esteja sendo mandado para casa. Trump não deve se reeleger deixando órfão seu maior admirador no Brasil, o único presidente do mundo a bater continência saudando a bandeira americana.
Depois do México, a Argentina disse não ao neoliberalismo. Agora a Bolívia se recuperou do golpe e disse sim ao socialismo. Os chilenos disseram sim por uma nova constituinte e assim vão se livrar das leis draconianas que dividiram o povo em duas classes sociais, os muito ricos e os muito pobres.
Os regimes de exclusão social chegaram ao fim para estes irmãos latino-americanos. Quando é que este gigante chamado Brasil vai acordar? Quando é que esta família miliciana será escorraçada e devolvida para o inferno?
Levanta Brasil!