por Mauro Nadvorny | 11 nov, 2020 | Sem Categoria
(Publicado originalmente em 10.11.2020 em Brasil247 – https://www.brasil247.com/blog/o-voto-judaico-nos-eua-a-quebra-de-estereotipos-e-como-sempre-o-conflito-israel-palestina)
Hoje completa-se uma semana desde as eleições estadunidenses e três dias desde que soubemos derradeiramente os seus resultados. E ainda estou celebrando a chegada desse momento que esperei diariamente por quatro anos. Nos últimos dias foram muitas lives, postagens e discussões, nas quais defendi meu argumento contra a turma do “Trump e Biden é tudo igual”. Não, obviamente não é. Biden é um político padrão, que defende os seus interesse e os do seu país, uma pessoa decente e que aceita jogar o jogo político no tabuleiro de xadrez ao qual este cabe. Trump é o oposto de tudo isto e foi o líder mais perigoso do planeta desde Hitler. Simples assim. Assimilado e reconhecido como o indiscutível líder mundial do Neonazifascismo, o “projeto de Führer” estava prestes a remodelar a Ordem Mundial, substituindo a Verdade pela Mentira, a Democracia pelo Autoritarismo, a Ciência pelo Negacionismo, e a Tolerância pelas Armas, tudo isso em um distópico cenário de supremacia branca cristã heteronormativa.
Desde 2016 nós da Esquerda basicamente só sofremos derrotas. A queda de Trump é somente a nossa terceira vitória desde então, se unindo à soltura de Lula em novembro de 2019 e à reversão do Golpe da Extrema-direita na Bolívia em outubro de 2020. Portanto devemos sim comemorar. E muito. Quanto a Biden, a partir do momento em que assumir a presidência em 20 de janeiro de 2021, estaremos atentos e seremos oposição sempre que necessário, como perenemente fazemos frente ao Imperialismo dos EUA.
Mas vamos ao tema deste artigo. Quantas vezes escutei por aí ou li na internet falarem que são os judeus, ou os sionistas (como se este termo significasse alguma coisa fora de um contexto), que colocaram e sustentaram Trump no poder? Incontáveis vezes. Sempre contra-argumentei me utilizando da arma que qualquer pessoa comprometida com a realidade e com a verdade porta: fatos. E os fatos são que os judeus estadunidenses são fundamentalmente democratas, ou seja, inimigos de Trump. Os números não mentem. Em todas as eleições – realmente sem exceção – desde que o voto judaico é computado (a partir de 1916), os judeus sempre votaram a favor dos liberais e contra os conservadores. Em algumas ocasiões, inclusive, a comunidade judaica optou em peso por candidatos de um terceiro partido ainda mais à Esquerda, como é o caso de Eugene Debs (1920), do Partido Socialista da América; de Robert La Follette (1924) e Henry Wallace (1948), ambos do Partido Progressista (todos os dados disponíveis na Jewish Virtual Library).
Em 2016 os números foram o seguinte: 71% dos judeus votaram em Hillary Clinton, enquanto 24% optaram por Trump (além de 5% que votaram em outros candidatos ou não quiseram responder). Pois bem, após quatro anos da pior presidência da história, em 2020 a comunidade judaica ampliou sua diferença entre azuis e vermelhos, votando em 77% para Biden e somente 21% para Trump (segundo estudo do instituto GBAO Strategies, realizado em 4 de novembro). Ou seja, somente um em cinco judeus se mostrou trumpista.
E realmente, em uma eleição cujos resultados foram tão “apertados”, o voto judaico de fato contribuiu para com a queda de Trump. Os números de judeus no país variam entre 7 e 10 milhões, dependendo dos parâmetros dos estudos. Sim, em números absolutos há mais judeus nos EUA do que em Israel. Inclusive, dos dez estados com maior porcentagem judaica na população, em nove venceram os democratas (perdendo somente na Flórida).
Mas e as políticas de Trump pró-Israel? Bem, a questão é simples: Trump acreditou que suas políticas de extrema-direita que beneficiam os nefastos planos do também ultradireitista Netanyahu, fariam com que os judeus estadunidenses caíssem de amores por ele. O que ele não compreendeu desde o início e continua a não compreender é o seguinte: os judeus progressistas – grupo no qual me incluo – de fato se importam dia e noite com Israel, mas se importam também dia e noite com os palestinos, com os Direitos Humanos, com a Democracia e com a Justiça Social. Os judeus que apoiam e aplaudem políticas fascistas são os judeus fascistas, que no caso dos EUA comprovadamente se mostraram mais uma vez absoluta minoria.
E nós continuaremos a lutar pela causa palestina, que ao nosso modo de ver não somente não contradiz a causa israelense, mas – muito pelo contrário – se abraça a ela. Uma Israel segura, livre, independente e soberana depende de uma Palestina segura, livre, independente e soberana. E o verdadeiro compreendedor da Ética Judaica sabe que nunca foi e nunca será admissível termos um Estado que oprime outro povo.
E antes que algum leitor bravo e desavisado regurgite a palavra Sionismo sem conhecer um centésimo de seu significado, já deixo claro: ao longo dos tempos houve diferentes significados para este termo. E em nossa contemporaneidade há também diversas acepções ao seu redor, fazendo com que isoladamente ele não signifique nada. Para mim, enquanto sionista de Esquerda, Israel deve possuir pleno e integral direito de existir soberanamente, da mesma forma que possui plenos e integrais deveres de conduta ética para com povos não-judaicos que habitam o país ou que se avizinham a ele. E a fundação de um Estado Palestino, que já tarda 72 anos, não pode esperar mais. E assim que fundado, terá os mesmos direitos e deveres que Israel e que qualquer outro país no mundo tem.
E por que isso não se concretiza? Simples: forças autoritárias – de ambos os lados, judeus e palestinos – que desejam manter o status quo da maneira que está, simplesmente pois lhes é interessante dos pontos de vista econômico e do mantenimento do poder político. E é claro, não somente os protagonistas judeus e palestinos possuem culpa nesta história, mas também diversos outros países do mundo e do próprio Oriente Médio, que possuem responsabilidade histórica pela verdadeira “bagunça” que criaram ao longo de séculos na região, através de seus impérios, mandatos, guerras e imposições.
Enfim, após um reinado tão longo e destrutivo politica- e ideologicamente de Netanyahu, sinceramente sou pessimista com relação à possibilidade de vermos uma solução vinda unicamente dos judeus israelenses. Minha esperança é que, em algum momento, os judeus da diáspora – aqueles que não vivem em Israel – possam ser a grande chave para o acordo que nós judeus progressistas e nossos amigos palestinos esperamos desde que nascemos. A comunidade judaica estadunidense pode ajudar. A alemã também, afinal é da mesma forma progressista. Já a brasileira, rachada em dois, em inevitável espírito de pura inimizade entre bolsonaristas e anti-Bolsonaro, pode contar com a metade que se propõe a positividades.
E quanto a Biden e Kamala, faço meu pedido público: tragam a Paz à mesa de discussão em Israel e na Palestina. Mediem, colaborem, joguem a favor das duas partes – ou seja, façam o oposto do que Trump sempre fez. Tomem o exemplo de Lula e Celso Amorim e visitem Israel e Palestina diversas vezes. Nós estaremos com vocês, colaborando para que assim como vocês exemplarmente enviaram seu ex-presidente de volta ao covil fascista de onde ele nunca deveria ter saído, possamos também nos livrar de Netanyahu e de todos os seus lúgubres aliados, incluindo o cidadão que hoje preside o Brasil.
Termino com as iluminadas palavras de Marek Edelman (1919-2009), último líder sobrevivente do Levante do Gueto de Varsóvia de 1943, que ilustram grande parte de minha identidade não somente étnica, mas, sobretudo, humana: “Ser judeu significa estar sempre ao lado do oprimido. Nunca do opressor.”
por Mauro Nadvorny | 10 nov, 2020 | Poesia
Vamos falar sobre nascer e morrer
É sobre querer abraçar
Sabendo que é mister deixar ir
É respeitar o livre arbítrio
Ainda que a alma sangre
Como a mãe que se vê impotente diante de um aborto
E ainda ter que sobreviver às lembranças
Resguardando alguma esperança
De um dia, voltar a sorrir
É vivenciar o luto
Sem se permitir uma única lágrima
Enterrar os vivos é como cortar a própria carne
É amputar um órgão
Para salvar a vida.
por Mauro Nadvorny | 9 nov, 2020 | Crônica
Nenhuma dor envelhece (Osmair Camargo Cândido, o Fininho, sepultador do Cemitério da Penha, em São Paulo)
Não sei vocês, mas as cenas que mais me comovem nesta pandemia são as imagens de pessoas que enterram seus mortos sem fazer a despedida convencional. Os ritos da separação definitiva ficam incompletos, as aglomerações são perigosas.
Não adianta racionalizar o sentimento de incompletude. O que prevalece é uma sensação de que algo muito sério foi interrompido, um nó nos gragomilhos que não desata. Descrição impressionante foi publicada pela Folha de S. Paulo, na cobertura do último Dia de Finados. Fininho, o sepultador, fala sobre o desespero das famílias, proibidas de se aproximar dos enterros: “Dias marcados pela dor e pelos gritos que chegavam antes dos caixões e se enfileiravam como carros em estacionamento. Apanhávamos os corpos, ainda na calçada, e de longe víamos as pessoas em total desespero gritando contra a morte (…) Seguíamos com o caixão sem flores, sem preces, sem acompanhantes. Mas os gritos permaneciam do lado de fora”.
Lendo essa descrição, me transportei para outras despedidas que não se consumaram. O ramo materno da minha família veio da Polônia, pequenas cidades, planos de vida limitados. Tocado por uma grave crise econômica nos anos 20, meu avô seguiu para Buenos Aires. Lá, trabalhou como clientelchik (comerciante ambulante), com autorização da prefeitura buenairina. A partir daí, alguns mistérios. Conta a saga familiar que voltou à Polônia para se casar com minha avó. Deu meia volta e, por motivos não esclarecidos, emigrou, já casado, para o Rio. Por que não Buenos Aires, onde tinha amigos e atividade legalizada ? Contei essa história para um amigo, que me sugeriu um enredo improvável, embora apetitoso. Numa milonga, Abraham teria se engraçado por uma dançarina de tango e a engravidado. Não podia retornar à Argentina, sob pena de levar uma navalhada de um parente da tangueira.
Pois bem, quem não saiu da Polônia acabou trucidado pelos nazistas. Pelo que sei, não foram poucos. Jamais conversaram comigo sobre o assunto. Como souberam do destino trágico de seus parentes ? De que forma reagiram ? O que sentiam com perdas tão dolorosas, sem corpos a velar, com a ausência inapagável de tantos familiares ? Há uma espécie de pacto de silêncio entre os que passaram por experiências tão traumáticas. É como se evitassem voltar no tempo e reviver tristezas tamanhas. Meu sogro, também polonês, com parentes exterminados na guerra, visitou Auschwitz nos anos 80. Na frente do campo de extermínio, abaixou a cabeça e chorou. Minha sogra disse que foi a primeira vez que o viu chorando. Diz um ditado ídish (reproduzo de cabeça): Trern zainen di zaif far di neshume. As lágrimas são detergente para a alma.
A cineasta Lúcia Murat, presa política durante a ditadura, foi torturada e viu companheiros de luta morrerem nas mãos de sádicos. Esses que um figurão da República hoje chama de “humanistas”. Ela diz sentir culpa por estar viva e que esse é um sentimento generalizado. A pergunta “por que sobrevivi e ele não ?” é angustiante. Quanta dor sufocada. Quanto grito parado no ar. Quanto vazio por despedidas que não aconteceram.
Na minha pré-história, botei mochila nas costas e viajei para o interior da Bahia, até Juazeiro, fronteira com Pernambuco. Estava em Bonfim, na Bahia, na pequena estação ferroviária. Havia um movimento febril, que não compreendi. Uma pessoa me informou que eram retirantes, fugindo da seca. Olhei para aquelas caras tristes, franzidas, maltratadas. Não estavam apenas esperando o trem. Tocados pela miséria, estavam se despedindo, muitos sem volta, de suas raízes, de muitas memórias afetivas, dos sons que deram forma à sua sensibilidade. Como nos versos de Patativa do Assaré: Se arguma notícia das bandas do Norte/Tem ele por sorte/O gosto de uvi,/Lhe bate no peito sodade de móio,/E as águas dos óio/Começa a caí.
Abraço. E coragem.
por Mauro Nadvorny | 7 nov, 2020 | Mundo, Política, Protesto
Breve mensagem ao Nazifascista: Volte ao covil do Ódio de onde você nunca deveria ter saído. Entrará no rol das vergonhas da história estadunidense, e todos lembrarão de você como uma figura ao mesmo tempo cruel e patética. Acabou.
A Joe Biden: Parabéns, presidente, espero que você se mostre uma grande resposta ao Neonazifascismo e seja um grande líder.
E, sobretudo: Obrigado Bernie, meu maior ídolo político, por me inspirar sempre, na vitória e na derrota. Você é incrível todos os dias.
E parabéns a todxs estadunidenses que votaram e a todxs do mundo que fizeram campanha desde o início (eu inclusive).
Eu espero por este dia há quatro anos. Agora, emocionado, vou celebrar e refletir sobre este momento. E vou brindar a beleza da Luta, da Resistência e da Esperança, que mantivemos mesmo durante os dias mais obscuros.
Próximo passo: libertar o Brasil. E Israel. Como sempre, ninguém solta a mão de ninguém. E o Amor vencerá o Ódio.
Jean Goldenbaum
por Mauro Nadvorny | 7 nov, 2020 | Comportamento
“Ao meu pai, pela sua verve combativa, por seu amor pelos filho e netos, por nos ensinar a nunca fechar os olhos a injustiça”
Quando eu tinha uns 4 anos de idade, minha alegria eram os finais de semana que meu pai ia pintar, me dava tintas, pincéis e telas e me deixava fazer minha arte, ao lado dele, enquanto ele fazia arte de verdade (deixa me gabar um pouquinho…papai é psiquiatra, trabalhou desde sempre com Dra. Nise, foi Diretor do Museu Imagens do Inconsciente e junto com Mario Pedrosa escolhia os melhores trabalhos para catálogos. Para quem não sabe, o Sr. Mario Pedrosa foi um dos maiores críticos de arte do Brasil. E amava os desenhos do meu pai). Pouco tempo atrás fui achar semelhanças entre os desenhos de papai e os de Harry Clarke, o melhor ilustrador dos livros de Edgar Allan Poe.
Desenhos com algo sombrio, muitos feitos a nanquim, com detalhes que sempre me fascinaram. Haja elaboração! rs.
Eis a alegria de uma garotinha de 4 anos.
Um dia papai adoeceu. Muito. Teve uma hepatite quase mortal e acabou ficando isolado de mim, na casa dos meus avós. Só que aos 4 anos eu já era eu. E NUNCA ia deixar o meu pai sozinho. Lembro do desespero da minha mãe, dos receios da minha avó, mas fui impávida, não teve quem me dissuadisse, levando comigo meu talismã, meu cachorrinho de rodas e boné, o Xereta, brinquedo da década de setenta, que eu puxava com uma cordinha.
Alguns dias meu pai estava melhor, outros dias não, uma cor amarela que eu nunca vi, muitas vezes minha avó me colocava perto do meu avô, que ria de me ver correndo com meu cachorrinho pela casa. Quase perdi meu pai. QUASE. Ele conseguiu vencer a doença, e está aqui, até hoje. Brigamos muito. Porque somos dois geniosos. Mas mesmo sem o Xereta, nunca deixei de acompanhá-lo nos momentos complicados. Passou por outras situações, deu a volta por cima e está com a saúde melhor que a minha, se duvidar.
Ah, porque estou falando disso??? Impulsividade é fogo. E ao mesmo tempo existe uma enorme vontade de repartir o vivido. Pessoas muito próximas sabem. Mas é a primeira vez que me abro dessa forma.
Como alguns sabem, em 2014 o pai da minha filha, meu marido, teve um derrame. Coisa séria. Mais séria ainda foi como as coisas caminharam. Não interessa aqui, nesse momento,falar. O fato é que minha filha tinha 8 pra 9 anos. E podem acreditar, NINGUEM sofreu mais que ela. Um dia estava sendo mimada pelo pai, no outro dia só sabia que ele estava num lugar chamado UTI. Só que diferente de mim, que sou de choro fácil, Alice é cedro do Líbano, como escreveu Miguel Torga. Não me mostrava as emoções porque via como eu estava mal. Sumindo. Pesando menos de 45 quilos. Sem força. Sem acreditar que tudo aquilo tinha acontecido. Eu só sabia que ela sofria através do colégio. Um choro, um abraço. O banheiro, chorando na cozinheira da escola que ela adorava. Soube disso muito depois, porque acho que nem as pessoas tinham coragem de me contar devido ao meu estado.
Aí num sábado eu deitei. Tinha comida pra ela. O computador estava no nosso quarto. Eu sabia que ela estava lá. Morávamos as duas num apartamento no Recreio. Ela me oferecia comida, eu não conseguia engolir. Eu não conseguia levantar. Passei dois dias ali, catatônica, inerte. E então, minha pequena hebreia, como apelidou para sempre um amigo meu, disse: CHEGA. Me levou o pior Nescafé que tomei na vida. Me deu o comprimido de antidepressivo que eu passei aqueles dias sem tomar. Escolheu um vestido azul pra mim, que julgara bonito. E foi me carregando, eu trôpega, para o banheiro. Ligou o chuveiro. Me deu um banho. Me enxugou. Me ajudou a me vestir. Viu que eu estava febril (passei por três pneumonias até saber que era artrite), abriu as janelas da sala e ligou pra quem? Pra o vovô. Acho que meu pai nunca fez um percurso tão rápido da Freguesia para o Recreio. Fomos ao hospital. Sim, outra pneumonia , aliada a depressão e lá foi ele, de mala e cuia, cuidar de nós duas. Minha mãe estava longe, são 4 filhos, 5 netos, ela viajou um pouco mais tarde. E me deram comida na boca. E me fizeram beber todo o líquido possível do mundo. Fiquei boa, apesar de nos momentos complicados os dedos ainda entortarem de dor.
Durante um bom tempo tive vergonha disso. Fui confidenciar a história da minha filha para uma pessoa que achava amiga e hoje não suporto, falei dessa situação da Alice ter me dado banho, me arrastando ate o banheiro, naquele momento de fraqueza e ela, que não é e nunca será a melhor mãe do mundo, falou: ”Coisa horrorosa! Vc é uma irresponsável! Vê se sua filha ainda pequena, sofrendo ,tem que fazer esse papel. Quem é a mãe na história??? Coisa mais horrorosa trocar de papéis”. Nem vou entrar no mérito do que ela deixou o filho passar, senão fica pesado e a gente tem que manter longe. Aquilo me deixou mais culpada ainda. Que mãe horrorosa que eu devo ser???
Eu me torturava. Como deixei minha filha me ver daquele jeito? Como mostrei essa fraqueza quando deveria ser forte? Só passei a contar isso para os mais íntimos quando li isso do Almodóvar, numa resenha, sobre seu filme Julieta (que ainda não tive tempo de ver e sei que vai mexer por demais comigo):
“Talvez o mais comovedor de Julieta seja como são descritas, com poucos traços, as relações entre mãe e filha quando o pior, seja a doença ou a loucura, está presente. Bastam apenas alguns segundos focados em um rosto, o da atriz Susi Sánchez, ou um gesto, o de uma menina dando banho em sua mãe deprimida, numa cruel inversão de papéis. Almodóvar recorda que vem de um lugar onde isso é comum: as filhas cuidam das mães, as mulheres cuidam de outras mulheres. Essa raiz manchega está presente no filme…”
A única pessoa que não me julgou: Meu pai.
Alice não tinha um Xereta, mas de certa forma, muitos anos atrás, também invertemos os papéis. E isso nada mais é que amor
PS: Esse texto foi escrito para o meu pai no Dia dos Pais, em 2016.Trata-se de algo pra lá de intimo e durante 4 anos permaneceu escondido no Facebook, só os muito próximos tiveram acesso a ele. O tempo porém é o melhor remédio e decidi dividi-lo com vocês. O pai da Alice continua muito mal, mas não é sobre isso que quero falar. E sim sobre quando a vida passa uma rasteira na gente, e mostramos o que somos. Demasiadamente humanos. Hoje estamos caminhando, levando nossas vidas, aquela menina se transformou numa mocinha altiva e meu pai, que muitos aqui conhecem , o Dr Bahiense, continua firme.
por Mauro Nadvorny | 7 nov, 2020 | Brasil, Comportamento, Mundo, Opinião
Biden será o próximo presidente dos Estados Unidos, isto já ficou claro, é apenas uma questão de tempo para que os votos finais sejam contados e o anúncio seja feito. Não existe a menor chance de que Trump seja reeleito.
Algumas lições da eleição americana podem servir para as eleições no Brasil em 2022. A mais importante delas é que mesmo o maior fascista dos tempos modernos pode ser derrotado. Nem todas as Fake News disparadas, todo o dinheiro investido numa campanha milionária e a soberma megalomaníaca de Trump foram capazes de sustentar sua candidatura a reeleição.
A segunda delas, é de que quando as pessoas saem para votar e não se eximem da participar da eleição, o bem vence o mal maior. Sem entrar no mérito de que Biden é parte do mainstream americano, o importante a ser dito é de que ele é um mal imensamente menor do que Trump.
A terceira delas diz respeito as pesquisas. Inicialmente se imaginou que elas estavam mais uma vez equivocadas e que Trump, contrariando todas elas, seria reeleito. Os fatos mostraram que desta vez elas acertaram no que importa: Biden venceu. As pesquisas recuperaram a credibilidade perdida na eleição de Trump quando davam como certa a vitória de Hillary Clinton.
O fascismo sofre uma grande derrota, ou melhor dito, nós antifascistas tivemos uma grande vitória. Se o maior deles na atualidade foi derrubado, o caminho está aberto para que o mesmo aconteça em outros países. Um a um, eles todos serão devolvidos ao esgoto de onde nunca deveriam ter saído.
A eleição para a presidência dos EUA não é exatamente democrática. Numa democracia, como acontece em todo o mundo, cada cidadão representa um voto. A maioria dos votos em determinado candidato aponta o vencedor, simples assim. Não nos EUA, lá ocorre uma eleição em cada um dos estados que determina um número de delegados para um colégio eleitoral que é quem de fato elege o presidente. Em cada estado, um vencedor diferente, e os delegados dele vão todos votar nele. Isto faz com que um presidente possa ser eleito com menos votos recebidos pela população. Em outras palavras não é necessário obter o voto da maioria dos cidadãos, mas apenas vencer nos estados que possuam mais delegados.
Cada estado organiza sua eleição, não existe um órgão central para administrar o processo. Diferentes meios de votação são empregados, fazendo com que cada estado tenha sua própria forma de aferir os resultados. Eles se consideram a maior democracia do mundo.
Estamos diante de um grande acontecimento. Mesmo com a pandemia batendo forte, o país fez a sua eleição. Nos últimos dias o número de novos infectados bate recordes nos EUA. A população preferiu votar pelos correios, principalmente os que votam em Biden. Estes votos são os que estão sendo contados agora e que Trump tenta sem sucesso impedir.
Bolsonaro perdeu seu mestre e mentor. Não terá as bênçãos que imaginava receber no futuro. Perde sua bússola, e com ela o Ministério das relações Exteriores fica sem rumo não tendo mais como se alinhar automaticamente. Nossa submissão ficou momentaneamente órfã.
Ainda resta muito que se fazer. O fascismo sofre um grande golpe, mas continua vivo no Brasil. Precisamos unir forças e continuar na luta, ele será derrotado aqui também. Bolsonaro está com seus dias contados se todas as forças progressistas entrarem unidas na próxima eleição. Precisamos construir uma Frente Ampla.
Hoje vamos nos permitir saborear a vitória numa importante batalha. Amanhã novas batalhas nos aguardam.