Pelo visto, para parte da comunidade judaica no Brasil as eleições para prefeitos e vereadores no Brasil, virou um caso diplomático. Uma parte da comunidade acha que os problemas de suas cidades não são nada se comparados ao que acontece com relação a Israel. A questão não é saúde, educação e segurança, isso tudo fica em segundo plano. O que interessa a eles é o que pensam os candidato com relação a Israel. E não apenas eles, seus partidos, os membros dos seus partidos e todos que um dia passaram por ele.
Umberto Eco, intelectual italiano, romancista e filósofo, autor de “O pêndulo de Foucault” e “O Nome da Rosa”, morreu em 19 de fevereiro, aos 84 anos, mas nos deixou uma fabulosa contribuição para identificar o fascismo e seus apoiadores no texto “Ur-Fascismo”, produzido originalmente para uma conferência proferida na Universidade Columbia, em abril de 1995, numa celebração da liberação da Europa. São 14 características que em parte, ou na sua totalidade, nos permitem compreender que ele está batendo a porta, ou já entrou.
Eco os convencionou “Ur-Fascismo”, fascismo eterno. Eu adaptei estas características para as convencionar de “J-Fascismo”. Veja a seguir estes pontos que identificam parte da comunidade judaica como fascista, aquela que apoia o governo Bolsonaro. São eles:
1. A primeira característica de um “J-Fascismo” é o culto da tradição. Os fascistas judeus são apegados a uma Israel que um dia no passado distante reinou nas duas margens do Rio Jordão. Um reino há muito desaparecido que permanece vivo no seu imaginário. Nesta Israel, não existe lugar para o Povo Palestino e a própria existência da Jordânia é contestada.
2.O tradicionalismo implica a recusa da modernidade. Esta parte da comunidade, vive do passado e do que foi um dia Israel e da sombra permanente do Holocausto. Não se importam com nada além da fantasia de que o mundo é antissemita, e quem for a favor de um estado Palestino, é contra a existência do Estado de Israel.
3. O irracionalismo depende também do culto da ação pela ação. Estes judeus chamam os demais judeus de traidores, de comunistas e até de antissemitas. Nas palavras de Eco fazem uso frequente de expressões como “Porcos intelectuais”, “Cabeças ocas”, “Esnobes radicais”, “As universidades são um ninho de comunistas”. Por isso, agem de maneira atabalhoada, intempestiva e açodada.
4. Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar críticas. Ninguém pode criticar o Estado de Israel, nem mesmo a ONU. Eles são incapazes de aceitar a crítica, mesmo que construtiva ou vinda daqueles que se dizem amigos de Israel. Toda crítica é uma forma de traição e todo inimigo deve ser tratado como tal.
5. O desacordo é, além disso, um sinal de diversidade. São solenemente contra a diversidade, preconceituosos convictos. A comunidade precisa ser uníssona e rezar a sua cartilha. As vozes discordantes são consideradas de desgarrados da comunidade e sua identidade judaica é colocada em dúvida.
6. O “J-Fascismo” provém da frustração individual ou social. Os fascistas judeus em boa parte são excluídos sociais da sociedade, seja por sua fé incompreendida, por sua cor, por sua etnia e em muitos casos por sua condição econômica nos dois extremos, muito pobres, ou muito ricos. Seu mundo é a sua comunidade e só ela importa. Em algum momento de suas vidas foram chamados de judeus de maneira ofensiva e isto os marcou para sempre.
7. Privação de qualquer identidade social. Se dizem brasileiros patriotas, mas se identificam com Israel e com tudo que esteja relacionado a este país. Assim sendo, qualquer pessoa, incluindo especialmente candidatos a cargos eletivos, precisa declarar explicitamente seu apoio incondicional a Israel. Uma xenofobia exacerbada que torna seu inimigo quem não o fizer.
8. Os adeptos devem sentir-se humilhados pela riqueza ostensiva e pela força do inimigo. O fascismo judaico é doentio na sua contradição sociológica. O fato de existirem judeus integrados na sociedade onde vivem, de se importarem com suas comunidades e se identificarem com ela, faz deles traidores de seu povo original, algo inaceitável, principalmente quando se dizem não sionistas, ou pior, antissionistas.
9. Para o “J-Fascismo” não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”. Pacifismo é coisa de maricas. Eles acreditam que a batalha pela vida é uma luta diária contra o antissemitismo que assola o mundo e está a espreita em cada esquina pronto para atacar. Todo candidato de esquerda em uma eleição é um inimigo a ser combatido juntamente com seus apoiadores, especialmente se forem judeus.
10. O elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária, enquanto fundamentalmente aristocrática. Para os “J-Fascistas”, aqueles judeus que não se identificam com a sua causa, são a escória da comunidade. Eles sequer tem o direito de se intitularem como judeus, não sendo dignos de pertencerem a elite.
11. Nesta perspectiva, cada um é educado para tornar-se um herói. Para o “J-Fascismo”, Israel é motivo de idolatria permanente. Todo israelense é um herói que luta pela sobrevivência do país para que os judeus tenham um lar nacional e um porto seguro onde chegar quando o antissemitismo vingar. Sendo assim, defender Israel é uma razão para viver e para morrer.
12. Como tanto a guerra permanente como o heroísmo são jogos difíceis de jogar, o “J-Fascista” transfere sua vontade de poder para questões sexuais. Como os “Ur-Fascistas”, eles também são misóginos e sentem prazer em atacar as judias de esquerda. Machistas, não aceitam as mulheres da comunidade que lutam por igualdade social e direitos humanos.
13. O “J-Fascismo” baseia-se em um “populismo qualitativo”. A comunidade judaica precisa ter um formato monolítico onde o pensamento é único, o deles. Não podem existir diferenças e a imagem que deve ser passada é aquela de uma comunidade que comunga dos mesmos ideais. Com o advento da Internet e das mídias sociais, isto tornou-se impossível, portanto os grupos dissonantes precisam ser combatidos.
Por fim, transcrevo na íntegra a última característica, apenas substituindo o “Ur-Fascismo”, por “J-Fascismo”.
14. O “J-Fascismo” fala a “novilíngua”. A “novilíngua” foi inventada por Orwell em 1984, como língua oficial do Ingsoc, o Socialismo Inglês, mas certos elementos de “J-Fascismo” são comuns a diversas formas de ditadura. Todos os textos escolares nazistas ou fascistas baseavam-se em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico. Devemos, porém estar prontos a identificar outras formas de novilíngua, mesmo quando tomam a forma inocente de um talk-show popular.
Como podemos observar o fascismo judaico, por mais absurdo e contraditório que seja, existe e está presente na comunidade judaica brasileira. Onde nas manchetes da semana escreveram sobre os rachas de grupos judaicos em favor e contra o voto em Boulos, leia-se, os esclarecimentos a sociedade brasileira sobre a existência de fascistas judeus que em nada se diferenciam de seus congêneres não judeus.
A esquerda judaica brasileira está presente nestas eleições apoiando os candidatos progressistas. Estamos engajados em eleger Boulos em SP e Manu em Porto Alegre. Aos fascistas, judeus e não judeus a mesma mensagem: Não Passarão!
Somo a voz dissonante, aquela com um raciocínio complexo e crítico. Somos a luz do judaísmo humanista, orgulho de nossos profetas. Aqueles que lutam por um mundo melhor, por uma sociedade mais justa e combate o fascismo onde ele estiver.
Na madrugada da sexta-feira passada, dia 20 de novembro, tive um pesadelo. Despertei e anotei algumas frases para não esquecer: “Caminhava por um terreno difícil e percebi que havia avalanches de terra feitas com escavadeiras. Percebi que iria morrer, mas lutava para me salvar”. Foi um pesadelo, o sonho, guardião do sono, falhou na censura e passaram imagens assustadoras e acordei.
Logo pensei no dia anterior para buscar os restos diurnos, que é a porta de entrada para se interpretar um sonho. Escrevi sobre a abolição da escravatura, a queima dos arquivos, a vida cotidiana dos escravos negros. Os arquivos da escravidão foram queimados a mando de Ruy Barbosa, para esconder a violência dos brancos escravocratas. Lembrei também de uma cena da queda de uma barragem em Brumadinho da empresa Vale, matando centenas de pessoas.
Meu pesadelo foi uma mortificação, um masoquismo, talvez tenha me identificado com os negros, pois aprendi ainda adolescente que judeus e negros eram vítimas de crueldades. Associei ao livro de Sartre cujo título, “Racismo”, associa os judeus e os negros como vítimas do ódio na História. As mortificações vividas no pesadelo se associam a sofrimentos na infância e na vida. Na verdade, todos somos masoquistas, uns mais, outros menos. Variações de intensidade, de qualidade, dependendo de muitos fatores, como as identificações. Às vezes, a gente não suporta a felicidade e sonha com sofrimentos sem fim, e ao se acordar, mesmo assustado, se alivia que foi só um pesadelo, bom para se pensar e aliviar o gozo masoquista.
Entretanto, assim como há sonhos e pesadelos noturnos, a vida mesma oscila entre sonhos e pesadelos no cotidiano. Na manhã do dia 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, fico sabendo do assassinato, por espancamento, do João Alberto Silveira Freitas, no Carrefour de Porto Alegre, na Volta do Guerino. O sadismo branco contra os negros integra a história brasileira no que se definiu como racismo estrutural da vida brasileira. O país ainda não acertou as contas com seu passado, ao contrário, pois 75 por cento dos assassinados pela polícia são negros.
É difícil articular o que ocorre com a pessoa por um lado e com a sociedade na qual se vive. Logo após a Primeira Guerra Mundial, na primavera de 1919, Freud pensou em como explicar a psicologia das massas seduzidas pela guerra. Já em fevereiro de 1920 começa a trabalhar esse tema, e um ano depois conclui a obra: “Psicologia das massas e análise do Eu”. No final do primeiro parágrafo, escreveu: “a psicologia individual é simultaneamente psicologia social em um sentido mais amplo, mas inteiramente legítimo”. A seguir define o caminho das identificações para articular o individual e o social através dos pais, irmãos, professores, o médico, os líderes ocorrem identificações. Freud, assim, reafirma o quanto uma pessoa é dependente da vida em sociedade na qual pode ser passivo diante de um líder, ou buscar a liberdade para viver.
A vida, em geral, oscila entre sonhos e pesadelos. Em 2020 vivemos pesadelos aqui e no mundo, com limitações da vida cultural, saudades de encontros presenciais com longas conversas. Diante das dores é bom sonhar que um dia seremos vacinados e voltaremos a conviver com mais alegria ainda. A luta contra o racismo crescerá graças à militância negra e dos brancos que se unem a essa luta. Se o sonho noturno é individual, o sonho social envolve as parcerias. Unir as vozes na luta antirracista creio ser um dever e uma honra para todos os humanistas. Na luta antirracista me vem à mente uma frase de Martin Luther King: “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons”. Pergunta talmúdica: Se não rompermos com os silêncios agora, quando será?
P.S. Hoje às 20,15 no Instagram da Editora Artes e Ecos estarei com o psicanalista Renato Mezan falando sobre a recente segunda edição do livro “Seria trágico… se não fosse cômico- Humor e Psicanálise. Espero, quem puder, na live que promete ser bem humorada.
POSIÇÃO POLÍTICA BOULOS, SÃO PAULO E OS JUDEUS Em primeiro lugar, adianto que sobre este texto a seguir respondo eu mesmo e não represento qualquer instituição judaica ou israelense aqui. Estando esta questão superada, vamos ao tema principal. Vídeos e posts apócrifos e não apócrifos pronunciam um virulento ataque aos setores progressistas e de esquerda da comunidade judaica que apoiam a candidatura Boulos/Erundina à Prefeitura de São Paulo. Arrogam-se os autores o poder de determinar quem é e quem não é judeu em função desta escolha neste momento para a cidade de São Paulo. Acusam-nos de traição às causas judaicas e relativas à defesa do Estado de Israel. Isto porque membros e grupos do PSOL se envolveram em diversas atividades de ataque político ao Estado de Israel, muitos deles com viés antissemita, segundo acusam. Independentemente de quem sejam, claramente representam setores reacionários e radicais de direita, que, na falta de capacidade de enxergar as prioridades da Cidade de São Paulo e sua sofrida população, tentam trazer para o debate temas e eventuais conflitos que em absoluto não contribuem para a discussão essencial que se faz neste momento para o futuro de nossa cidade, um verdadeiro país de mais de 10 milhões de almas que vivem sob todo tipo de dificuldades, muitas delas criadas pelos artifícios de um planejamento secular em favor de elites financeiras e políticas. Para pessoas como eu, a chapa Boulos/Erundina representa o resgate do pensamento humanista para esta cidade. Traz o estofo intelectual de um filósofo, psicanalista, escritor e ativista social e político com uma legitimidade que muito poucos alcançaram em nossa história, e associa-se a um verdadeiro ícone da mulher brasileira, nordestina, lutadora e bem-sucedida em sua trilha política recheada de experiência, trabalho, ética e cultura política. Valores que se acomodam perfeitamente nos ambientes judeus concretos e abstratos onde fui criado e educado. Tudo o que sou e o que penso pode sim ser conectado às minhas raízes históricas, culturais, familiares e teológicas, e todas essas forças me encaminham ao encontro desta escolha política que faço neste momento. Se existe antissemitismo em setores da esquerda, ele também existe em outros campos políticos, muitos deles associados ao governo atual, que conta com membros e apoio de setores da comunidade judaica brasileira (e estrangeira também), não obstante a proximidade deste governo com padrões de atividade que fariam vergonha a todos os nossos sábios reverenciados em todos os tempos e lugares. Se o PSOL tem setores que odeiam Israel, a proximidade artificial do governo Bolsonaro a Israel não é menos nociva, pois trata-se de um apoio ignorante e néscio, que se em nada enriquece a história das relações Brasil-Israel, por outro lado aumenta o antissemitismo arraigado em diversos setores da sociedade brasileira, algo que já é patente e inquestionável. Como já escrevi aqui antes, sou daqueles que defende a legitimidade do Estado de Israel, mas, que ao mesmo tempo, não fujo à responsabilidade de criticá-lo quanto a certas políticas que representam clara ameaça à soberania do povo palestino e que em absoluto não contribuem com o processo de pacificação. Por outro lado, não sou daqueles que acreditam que apenas Israel cometa erros neste campo, mas deixo todas estas questões para outros fóruns, da mesma forma e com a mesma convicção que penso que este debate deve ser isolado do momento político atual da cidade, sendo claro que a posição e escolha dos judeus de S.Paulo corresponde a irrisórios 0,45%, se tanto, do eleitorado, e que Boulos não é candidato a prefeito de nenhuma cidade de Israel ou da Palestina. Voltando às manifestações de setores radicais, posso afirmar com segurança que estas, sim, representam algo totalmente externo à cultura e tradições judaicas, que por milênios aprendeu a viver na diversidade, e, muito além disso, deixou registrados nas suas mais profundas literaturas os grandes debates teológicos e filosóficos sobre toda a complexidade da vida e do mundo judeu e não judeu. Não, vocês não dirão o que é ou o que não é judeu. Nem hoje, e nem amanhã. Nelson Nisenbaum São Paulo, 26/11/2020.
Nós, quando moleques, fanáticos por futebol, crescemos com aquela interminável questão: quem é o melhor de todos os tempos? Pelé ou Maradona? Ah, para nós brasileiros era fácil: Pelé era incomparável. E já dizia algum “filósofo do futebol”, que ele era o número um e Maradona e era o número cinco, afinal números dois, três e quatro simplesmente não havia. Que orgulho era para nós assistir aos vídeos do Rei do Futebol, do Atleta do Século. Era um deleite para os olhos observar os gols que fez e também os que não fez, na Copa de 70. Até mesmo sua parceria musical com Jair Rodrigues nos soava tão bem aos ouvidos… É, o homem tinha três corações mesmo e nós tínhamos ele em nossos.
Em minha visão ingênua e pequena de menino era simples: Pelé era um ícone, um herói, e Maradona era um vilão, um cocainômano, alcoólatra e envolvido com a máfia napolitana. E ainda por cima havia trapaceado no gol de mão de 1986!
Ok. Ainda bem que este tempo em minha existência já passou. Diferentemente de Drummond que tinha saudades dos seus oito anos e da aurora de sua vida, e de Chico que cantava a saudade ingrata dos seus 12 anos, eu fico feliz por ter crescido. Não tenho saudades alguma daquelas épocas, mas isto é outra história. O que importa aqui é dizer que hoje me sinto feliz em ser consciente e sabedor de coisas. E também sabedor de que não sei muitíssimas coisas ainda. Ah, também cabe dizer que parei de assistir futebol há muito tempo, afinal a máquina capitalista simplesmente destroçou o antes saudável esporte, transformando-o em mero “entretenimento-pop-enlatado-multibilionário”.
Mas voltemos ao propósito deste breve artigo: Maradona, que hoje sei, é o verdadeiro ícone e herói, faleceu ontem e este texto é dedicado à sua memória. É dedicado à sua incontestável posição política socialista, à sua convicção ideológica e ao seu desejo de sempre externar tudo isto. É dedicado à sua camiseta de Che, à sua tatuagem de Fidel, à sua camisa da Seleção com o nome de Lula. E é também – por que não – uma celebração ao seu “gol roubado”, que gerou a melhor resposta da história dos esportes, quando o argentino foi perguntado se assumia que o tento foi feito com a mão. Sim, hermano de Lanús, foi mesmo com la mano de Dios.
Já Pelé, fui compreender depois, era a pessoa que aceitou com “imensa satisfação a honrosa missão de representar o ilustre governo” ditatorial brasileiro em 1970. Tais palavras estão contidas em uma carta do atleta ao militar Emílio Médici, ao qual ele se dirige como “muito digno Presidente” (história publicada em 2014 pelo jornalista Lúcio Castro no portal da ESPN Brasil).
Pelé era também a pessoa que não reconheceu sua falecida filha legítima, a vereadora Sandra Regina Machado. Como se justifica algo assim?…
Compreendi também que aquela fala aos prantos após seu milésimo gol no Maracanã, “Vamos proteger as criancinhas necessitadas”, era só demagogia mesmo. O tempo provou. Este sempre foi o caminho de Pelé: pensar somente nele mesmo e se alinhar àqueles que detêm o poder. Desde 1970, quando a famosa a foto erguendo a Jules Rimet ao lado de Médici foi tirada, só poderíamos esperar dele isso que vemos em 2020: o cidadão sujando a camisa do Santos Futebol Clube com o mais nefasto nome da história da política brasileira. Simplesmente asqueroso e vergonhoso, da mesma forma que provou ser o patético Neymar e tantos outros neymares que existem por aí.
Maradona, ao contrário, ao invés de falar à imprensa mainstream sobre “as criancinhas”, decidiu falar diretamente ao Papa João Paulo II, lembram-se? E que “enquadrada”, hein? Ele próprio depois explicou a discussão:
“Discuti com ele porque estava no Vaticano e vi todos aqueles tetos dourados e depois ouvi o Papa dizer que a Igreja estava preocupada com o bem-estar das crianças pobres. Venda seu teto, amigo, faça alguma coisa!”
Por fim, cabe ainda lembrar que Maradona se pronunciava sobre a causa do povo palestino, sobre o conflito das Malvinas e era muito consciente sobre as questões políticas em seu próprio país e na América Latina como um todo.
Infelizmente Maradona sofreu sempre com problemas de drogas e de alcoolismo e certamente isso contribuiu para que partisse muito antes da hora certa. Termino este breve tributo ao maior personagem da história do futebol com as palavras de quem dispensa apresentações, Presidente Lula:
“O Maradona, além de ser um grande futebolista, era um grande político. Falava de política, de soberania, de América Latina, em defesa dos pobres, em defesa da vida. O Maradona tinha palpite para quase todas as coisas que aconteciam no mundo que prejudicavam o povo trabalhador e o povo humilde. E quero dizer ao povo argentino: poucas vezes vi um jogador de bola parar de jogar e não parar. Porque Maradona parou, mas continuou jogando. Continuou jogando em pensamento, em suas opiniões políticas, em suas críticas, e continuou jogando para o povo pobre do mundo inteiro.”
Valeu, Pibe de Oro! Realmente você e Pelé são mesmo incomparáveis. Saudações da Resistência daqui da Terra aí ao Céu.
Na visão do capitão-presidente e de seu vice, que obviamente só poderia ser um general, a existência de racismo no Brasil é uma falácia criada por traidores da pátria. Jair Bolsonaro deixou isso muito claro na reunião dos líderes do G20, no final de novembro, ao comentar os protestos contra a discriminação racial após o assassinato do negro João Alberto Freitas, por seguranças de um supermercado Carrefour no Rio Grande do Sul. Espancado até a morte, Beto Freitas ficou como triste exemplo, na véspera do Dia da Consciência Negra, de como os negros continuam a ser os maiores alvos da violência no Brasil.
Como de hábito, o capitão não achou necessário prestar solidariedade à família da vítima, ignorando assim, pela enésima vez, o papel de um chefe de Estado. Desavergonhadamente, jogou a responsabilidade dos protestos sobre aqueles que querem “colocar a divisão entre raças” no Brasil. “Aqueles que instigam o povo à discórdia, fabricando e provocando conflitos, atentam contra a nação e contra a nossa própria história”.
Do seu ponto de vista, o presidente tem razão, já que para ele não apenas inexiste racismo no Brasil como tudo não passa de uma montagem com o objetivo de desestabilizá-lo. Obra de comunista, claro. Numa publicação no Facebook defendeu que “o Brasil tem uma cultura diversa”, um “povo miscigenado”, “uma única família”, mas “há quem queira destruí-la e colocar em seu lugar o conflito, o ressentimento, o ódio e a divisão entre classes”.
Para o chefe de Estado brasileiro, “problemas como o da violência são vivenciados por todos, de todas as formas” e quem pretende dividir “o sofrimento do povo brasileiro” com questões de raça, apenas quer jogar uns contra os outros, porque “um povo vulnerável é mais fácil de ser controlado”.
“Como homem e como Presidente, sou daltónico: todos têm a mesma cor. Não existe uma cor de pele melhor do que as outras. Existem homens bons e homens maus”, garantiu.
Jair Bolsonaro pode ser acusado de todos os males do mundo, mas não de ser opaco. Foi, é e sempre será transparente. Ninguém tem a desculpa de dizer que não sabia quem era o personagem ao apertar a tecla 17 da urna eletrônica. Durante uma entrevista no programa Roda Vida, da TV Cultura, o então candidato, num caso exemplar de revisionismo histórico, chegou a negar a responsabilidade do homem branco no passado escravocrata do país; amenizou o papel de Portugal e responsabilizou os próprios negros pelo tráfico negreiro que perdurou do século 16 ao 19, levando de forma forçada cerca de 12 milhões de africanos às Américas, mais de 4,8 milhões dos quais para o Brasil.
“O português nem pisava na África, disse Bolsonaro. Foram os próprios negros que entregavam os escravos”.
Ao ser indagado pelo diretor da ONG Educafro, Frei David, sobre a política de cotas raciais, o candidato se declarou contra, argumentando que as cotas visavam “dividir o Brasil entre brancos e negros”. Foi questionado sobre de que forma pretendia reparar a dívida histórica existente diante da escravidão, no que respondeu: “Que dívida? Eu nunca escravizei ninguém na minha vida”.
Dias antes da entrevista, Jair Bolsonaro comparou os negros que vivem nos quilombos a gado e disse que eles não servem nem para procriar.
Ao contrário do presidente, o vice Hamilton Mourão chegou a lamentar a morte de Beto Freitas, mas atribuiu-a apenas ao despreparo dos seguranças e não ao fato da vítima ser negra, até porque, como ele próprio sublinha, não há racismo no Brasil. “Eu digo para você com toda a tranquilidade: não tem racismo aqui”, sublinhou o general em declarações à imprensa. “Não, para mim no Brasil não existe racismo. Isso é uma coisa que querem importar, isso não existe aqui.”
O vice continuou então dizendo que racismo existe em outros países, como nos Estados Unidos. Acrescentou ter morado naquele país na década de 1960 e, com base nessa experiência, pode concluir que não existe um problema racial no Brasil.
Acontece que Mourão, a exemplo de seu chefe, é racista.
Após conversar com jornalistas ao desembarcar no aeroporto de Brasília, às vésperas do primeiro turno da eleição presidencial, o general elogiou seu neto, afirmou que ele representava o “branqueamento da raça”. “Gente, deixa eu ir lá que meus filhos estão me esperando. Meu neto é um cara bonito, viu ali. “Branqueamento da raça”, afirmou no fim da conversa, dando gargalhada.
É salutar abrirmos um parêntese: A tese do “branqueamento” teve origem na segunda metade do século XIX e na primeira metade do século XX, quando vigoraram em várias partes do globo as teses eugenistas, que defendiam um padrão genético superior para a “raça” humana. Argumentava-se que o homem branco europeu tinha o melhor padrão de saúde, beleza e maior “competência civilizacional” em comparação às demais “raças”: amarela, referindo-se aos asiáticos, vermelha, relativa aos povos indígenas, e a negra, africana.
Foi então que intelectuais brasileiros incorporaram essas teses e delas derivaram outra, aplicável ao contexto do continente americano: a “tese do branqueamento”, que partia da ideia de que, dada a realidade do processo de miscigenação na história brasileira, os descendentes de negros passariam a ficar progressivamente cada dia mais brancos.
O antropólogo e médico carioca João Baptista de Lacerda foi um dos expoentes da tese do branqueamento, tendo participado, em 1911, do Congresso Universal das Raças, em Londres. Esse congresso reuniu intelectuais do mundo todo para debater o tema do racialismo e da relação das raças com o progresso das civilizações. Baptista levou ao evento o artigo “Sur les métis au Brésil” – Sobre os mestiços no Brasil, em que defendia o fator da miscigenação como algo positivo no caso brasileiro, por conta da sobreposição dos traços da raça branca sobre as outras, a negra e a indígena.
Em um trecho do artigo, ele afirmava: “A população mista do Brasil deverá ter pois, no intervalo de um século, um aspecto bem diferente do atual. As correntes de imigração europeia, aumentando a cada dia mais o elemento branco desta população, acabarão, depois de certo tempo, por sufocar os elementos nos quais poderia persistir ainda alguns traços do negro.”
A partir dessa teoria, felizmente desmentida, temos condições de saber quem é de fato o general Hamilton Mourão.
O Brasil é racista. Talvez, como disse a ex-consulesa da França no Brasil, Alexandra Loras, em debate na Flip de Paraty com a antropóloga Lilia Schwarcz, seja um dos países mais racistas do mundo. Ela conta que nas recepções dadas em sua casa, os convidados sistematicamente a confundiam com a empregada doméstica.
A realidade se apresenta em números. De acordo com os dados do Atlas da Violência 2020, os assassinatos de negros no Brasil aumentaram 11,5% na última década, enquanto as de não negros caíram 12,9%. Em 2018, 75,7% das pessoas assassinadas no Brasil eram negras.
Na pandemia, a cada dez brancos que morrem vítimas da Covid-19 no Brasil, morrem 14 pretos e pardos, que representam a categoria de brasileiros negros. Os dados são resultados de uma análise da reportagem da CNN com base nos boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde. No caso das internações pela doença, há um equilíbrio: negros representam 49,1% dos internados, enquanto brancos representam 49%. Mas na análise das mortes, o descompasso aparece, pretos e pardos representam 57% dos mortos pela doença enquanto brancos são 41% dos mortos.
“As pessoas negras são maioria no mercado de trabalho informal, tendo muito mais dificuldade de procurar os serviços de saúde no tempo adequado, já chegando em condições piores. São pessoas que também têm uma localização geográfica que não favorece a busca por hospitais, ficando geralmente em pronto socorros e serviços de saúde periféricos, que vão ter o maior tempo de espera para a transferência para uma vaga de UTI, por exemplo, além desses serviços serem serviços de qualidade inferior”, segundo a médica Denize Ornelas.
Outro fator que os especialistas afirmam poder explicar esses números é o perfil de quem está na linha de frente e tem contato direto com os infectados pela doença. “Dentre os profissionais de saúde, com exceção dos médicos, os auxiliares de enfermagem e técnicos de enfermagem são majoritariamente pessoas negras e isso também os coloca em maior risco de contaminação, adoecimento e óbito”, diz Alexandre da Silva, professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí.
Entre os profissionais de enfermagem brasileiros, 42,3% são brancos e 53% pretos e pardos, de acordo com a Pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasil, de 2013, feita pela Fiocruz em parceria com o Conselho Federal de Enfermagem.
Em São Paulo, apenas um em cada dez alunos de escolas privadas (via de regra melhores que as públicas) é negro.
E a diferença salarial entre brancos e negros, é de 45%, de acordo com a Pnad, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, de 2019.
Essa diferença não pode ser atribuída apenas à falta de oportunidade de formação para pessoas negras. Segundo cálculo do Instituto Locomotiva, a diferença continua a ser significativa, de 31%, mesmo quando comparados os salários de brancos e negros com ensino superior. Sobra apenas a cor da pele; diz um artigo do jornal Folha de S. Paulo, de 6 de janeiro de 2020.
“Trata-se de uma desigualdade persistente que só pode ser explicada pelo racismo estrutural. Por um lado, ele se expressa no preconceito racial. Por outro, no maior capital social dos brancos: o famoso ‘quem indica’ um branco é outro branco que está em um cargo alto”, afirma Renato Meirelles, presidente do Locomotiva.
Apesar da realidade fria dos números, apenas 5% dos brasileiros consideram que o racismo é um problema no país. Entre estes não estão os membros do governo civil-militar liderado pelo capitão.
Como escreveu Fernanda Mena, mestre em sociologia e direitos humanos pela London School of Economics e doutora em Relações Internacionais, “os protestos antirracistas em algumas capitais do país indicam que, assim como muitos americanos diante do caso George Floyd, muitos brasileiros não estão mais dispostos a se calar sobre as violências que ceifam vidas negras no país. Se os protestos são o início de uma onda, só o tempo o dirá, mas parece cada vez mais difícil fechar os olhos para o fato de que o racismo finalmente caminha para ser compreendido como um problema de todos.”
Magnífico ! Mal terminavam os últimos acordes do concerto, vinha aquela voz grave, antecipando-se aos aplausos. Os músicos já a conheciam no teatro Municipal e na sala Cecília Meirelles, e lembro dos gêmeos Santoro sorrindo com a manifestação mais do que esperada. Tinha variações. Maravilha ! e um hilário Wundenbach! (sic) na apresentação de um conjunto de câmera suíço. Com direito a sotaque maranhense.
Mariano Gonçalves Neto reservava sempre a mesma poltrona, bem próxima às orquestras. Seu grito despertava reações diferentes. Alguns o levavam na esportiva, afinal de contas o baixinho careca trazia um pouco de surpresa para o ambiente solene da música clássica. Outros, presos à tradição, olhavam torto e murmuravam “ridículo, a que ponto leva a vaidade!”. Mariano, do alto de sua elegância terno-e-colete, pouco se lhes dava. Se divertia e, reza a lenda, conseguiu acesso às estrelas do palco. Dizia, com orgulho, que Luciano Pavarotti deu-lhe um telefone de contato. Seu lema, variação de um Milton Nascimento clássico, era: Solto a voz no teatro/já não quero parar.
Mariano chegou a ser deputado estadual nos anos 80. Brizolista, seita em acelerado estágio de extinção no Rio. Figura folclórica, desses tipos que dão forma ao que João do Rio chamava de alma encantadora das ruas. Do mesmo nível do Bloco do Eu Sozinho, do feirante inventor do bordão “mulher bonita não paga … mas não leva”, dos velhos camelôs que, antes de fugir do rapa, vendiam giletes Wilkinson, a ingreza legítima, e perfume francês made in Praça Paris. Do Beijoqueiro, do Sheik das Cocadas, do Oi de Botafogo (vendedor de amendoim em viaduto, vestido de terno e gravata), do Profeta Gentileza.
A cidade, mergulhada numa depressão de dar gosto, vai matando seus tipos folclóricos. Geraldinos e arquibaldos, expulsos do Maracanã, coloriam o cimento com seus dentes sumidos, seus radinhos de pilha, seus urubus e pós-de-arroz. Madame Satã, travesti perito em rabos-de-arraia e navalhadas, soberano da velha Lapa, pródiga incubadora de causos, não deixou herdeiros. Conta-se que Madame Satã matou com um soco só o sambista Geraldo Pereira (“O escurinho era um escuro direitinho/Agora está com mania de brigão”). Enfrentou rádio-patrulha a pernadas e levou vantagem.
Políticos? A gente logo associa com máfia, pestilência, dissimulação. Pois já tivemos Barão e Lurdinha, digo, Tenório. Apparício Torelli, o Barão de Itararé, foi eleito vereador pelo PCB, nos anos 40. Consta que as sessões da Câmara tinham audiência redobrada quando ele estava em plenário. Ficou célebre seu discurso de despedida, quando a legenda do PCB foi cassada em 1947. Concluiu dizendo: “Saio da vida pública e entro na privada”. Alguém consegue imaginar Crivella ou Paes falando assim? Saudações baronis. Tenório Cavalcanti era outro estilo. Andava com uma submetralhadora, a quem apelidou de Lurdinha, escondida numa capa preta. Jogou Flávio Cavalcanti, apresentador de TV demagogo e conservador, na piscina de sua casa, em Duque de Caxias. Não faço juízo de valor, mas reconheço nele os traços do folclore político, que tanto nos enriqueciam de histórias.
A escassez das figuraças, dos inventores da realidade montados em nuvens, entristece as calçadas, os becos, as esperanças. Sua ausência carrega nas tintas a nossa pressa de não chegar a lugar algum. Sua falta nos lembra como andamos mais estressados, menos cordiais, indisponíveis para sair da couraça. Vivemos, oh vida, oh azar, o ocaso da carioquice.