Quatrocentas mil histórias

Todo morto tem uma história de vida, tem um grupo familiar, tem vizinhos, tem nome e sobrenome. Portanto, um morto não é um número, como os números que tatuavam nos braços de judeus nos campos de concentração nazista. Reduzir uma pessoa morta a um número é a forma de nos distanciar do morto, desumanizar, ser indiferente à morte. Por isso, não serão esquecidas as frases do taxista carioca Marcio Antônio do Nascimento Silva sobre os mortos pela Covid-19: “Não são números. São pessoas queridas e íntimas”. Essas palavras de dor e de protesto foram ditas no dia 11/6/2020 no Rio de Janeiro. Uma pessoa começou a tirar as cruzes fincadas nas areias da praia de Copacabana e o taxista Marcio foi recolocando uma a uma das cruzes. Tinha perdido seu filho de 25 anos, Hugo Dutra do Nascimento Silva, no dia 18 de abril do ano passado. Estava caminhando na praia quando viu a retirada das cruzes como um desrespeito ao seu filho que morrera. Disse em alto e bom som que iria recolocar as cruzes quantas vezes fossem necessárias.
Foi um ato de protesto do taxista pelo desrespeito aos mortos no qual estava seu filho querido, pai de seu neto Arthur de cinco anos e parceiro de danças. O ato agressivo de tirar as cruzes da homenagem feita por um simpatizante do presidente foi aplaudido por algumas pessoas. Os aplausos ao atacante da homenagem aos mortos foram coerentes com o governo brasileiro, que ignorou os mortos e desprezou a gravidade da pandemia. O taxista Marcio ainda disse: “Meu filho morreu com 25 anos. Ele era saudável. Vocês têm que respeitar a dor das pessoas. O mesmo direito que ele tem de tirar eu tenho de botar” – disse, ao recolocar os objetos. – Tem que respeitar”. Naquele dia, 11/6/2020, eram 41.058 mortos cujas histórias foram interrompidas pela pandemia. Passados dez meses e meio, mais ou menos, o País está com mais de quatrocentas mil vidas interrompidas, quatrocentas mil histórias.
Em agosto do ano passado tínhamos cem mil histórias, em 9/1/2021, duzentas mil histórias, e em 24 de março, trezentas mil. Hoje, dia 29 de abril, às 12h41, o consórcio de veículos de imprensa informa que são quatrocentas mil e vinte e uma pessoas mortas em pouco mais de treze meses. Não devia escrever tantos números, mas eles são assombrosos, e muito mais assombroso é o descaso do Executivo que atacou as vacinas durante todo o ano passado. Espantoso como até hoje o governo federal estimula as aglomerações e despreza as máscaras e é indiferente aos mortos.
Perguntas: as Forças Armadas têm como função a Segurança Nacional, a defesa do povo brasileiro, logo, o que fez diante da maior guerra já enfrentada pelo País? O quanto esse silêncio diante de um governo que ajuda o vírus está coerente com suas funções? E a grande mídia irá um dia pedir desculpas por não ter feito uma real oposição ao presidente? E o Poder Legislativo? E o Judiciário? E nós, e cada um de nós, não estamos todos assustados e devagar? Não tenho hoje respostas, mas tenho perguntas.
Na adolescência comecei a ler sobre a Segunda Guerra Mundial e os campos de extermínio. Perguntava então sobre o que faria naquela época, se lutaria contra o nazismo ou ficaria em silêncio diante o genocídio. E agora é ou não é um genocídio quando não se tomaram as medidas defendidas por infectologistas, cientistas daqui e de todo o mundo contra o vírus? Sobram perguntas, mas por dever de memória é preciso lembrar cada família que teve um ente querido perdido em pouco mais de um ano. Sinto que nosso coração brasileiro está frio, distante da tragédia que ocorre diante dos nossos olhos. Deveria escrever palavras esperançosas, palavras otimistas, mas hoje só consigo perguntar. Talvez esteja me desculpando, mas: até quando só ler e escrever?

Dona Marli não voa de helicóptero

A fome contemporânea é a mais violenta da história, pois não é causada pela escassez mas pela concentração de bens (Martín Caparrós, jornalista argentino)

Ainda faltavam dois anos para Gagarin se tornar o primeiro homem a viajar pelo espaço. Sergio Murilo, mastodôntico precursor do rock brasileiro, fase estúpido cupido, sonhou com amores interplanetários em 1959 e gravou Marcianita. Com que tipo de broto marciano sonhava? Um que “não se pinte, nem fume, nem saiba sequer o que é rock and roll”. Tremendo careta, o rapaz. Nada a ver com o espírito libertário dos roqueiros, os requebros de Elvis, the pelvis, as flutuações de Chuck Berry. Marte? Só com a tia solteira tomando conta dos namorados no portão de casa. Socorro, meu santo Hendrix!

Vivíamos numa época sem controle remoto na televisão e nos brinquedos. Rádios transistores eram novidade recente. Aparelhos sem fio? Matéria de ficção científica. Celulares? Chamadas de vídeo? Só mesmo na imaginação fértil dos Jetsons.

Passados sessenta anos, um voo de trinta segundos acaba de promover uma pequena revolução. Na superfície árida de Marte, planeta cuja atmosfera tem menos de um centésimo da densidade da terrestre, o mini-helicóptero Ingenuity pairou sobre rochas e matéria mineral e, com a breca!, abriu um baú de possibilidades científicas. Meu assombro é que a geringonça de 85 milhões de dólares foi acionada a mais de 60 milhões de quilômetros de distância. No curtíssimo intervalo de seis décadas saímos da troca manual de canal, do Bat Masterson para o Repórter Esso, para uma comunicação remota que parece não ter limites.

Trinta segundos. Mas que proeza mixuruca, hein? Bem, eu não diria isso. Lembremos o voo do 14-bis, pilotado por Santos Dumont, em outubro de 1906. Foi a primeira vez que um mecanismo mais pesado do que o ar conseguiu voar com autonomia. Sabem quanto durou? Sete segundos. Percorreu sessenta metros e estava a dois metros de altura. Pouco mais de um século depois, sabemos o que significa a indústria aeronáutica.

Antes de tomar um porre celebrando mais esta prova de engenho e arte do Homem, convém dar uma olhada na dona Marli Oliveira Gama. Moradora da região de Parelheiros, extremo sul de São Paulo, ela é uma das muitas pessoas que, durante a pandemia de Covid-19, perderam a totalidade de sua renda. Passaram a garimpar restos de comida no lixo e a depender da caridade alheia. “Às vezes jogam fora feijão cru, no saquinho, eu pego. Ponho de molho, a gente cozinha”. Sem poder pagar a conta do gás, improvisa um fogão a lenha. “A gente vai vivendo como Deus permite”. A situação é tão dramática que mesmo restos de metal que se encontravam em lixões hoje escasseiam.

Dona Marli está longe de estar sozinha na miséria e na incerteza. A fome atingiu 19 milhões de brasileiros na pandemia em 2020. Cerca de 117 milhões de pessoas conviveram com algum grau de insegurança alimentar no país nos últimos meses do ano. Se ampliar o foco, há 700 milhões de pessoas passando fome crônica no mundo. Caso nada mude, chegarão a 840 milhões, equivalente a quatro Brasis, em 2030. Em contraste, 3% da população adulta são obesos.

Em meio à crise mundial generalizada, a lista de bilionários engorda. Os 2.755 ricaços planetários concentram uma fortuna equivalente a quase 10 PIB brasileiros. Enquanto dona Marli tentava sobreviver catando comida no lixo, o número de bilionários brasileiros crescia quase 50% em 2020.

Luxo e lixo. Ciência de ponta e humanos cozinhando com restos de madeira, à moda de remotos ancestrais. Ingenuity e doses monumentais de adaptação conformada. Um equilíbrio esquizofrênico. Se esta maçaroca não gerar revoluções, nosso projeto como espécie vai para o espaço. E não estou falando de voos espetaculares em Marte.

Abraço. E coragem.

Tenho Comigo as Lembranças do que eu Era…

“And when the broken hearted people

living in the world agree

There will be an answer, let it be

Fo r though they may be parted

There is still a chance that they will see

There Will be an answer, let it be”

Existe a vaidade necrófila, aquela de quem ostenta a árvore genealógica na parede e borda o brasão da família no pijama e nas roupas de cama. Como tudo na vida tem dois lados, existe também a narração do próprio nascimento. Igualmente ridícula. Se você não é a Sasha ou faz parte da família real britânica, isso tem zero interesse. Mas Narciso baixou e vou na onda.

Tudo que escrevo se relaciona a memórias de um tempo que fica cada vez mais distante. Dia desses, minha filha adolescente estudava sobre o processo de redemocratização do país, Tancredo Neves, eleição de 1989 e seus desdobramentos e por um momento ficou impressionada como eu sabia de tudo aquilo sem olhar o livro. Até que caiu a ficha que a mãe além de idosa e fumante, passou a ser testemunha ocular da história. O que valeu para mim a piadinha que sempre faz com os avós: ”Mãe, como era a emoção de ir para o colégio montada num pterodáctilo?”  Fecha o pano.

Desse dia que por aqui aportei, não está na minha memória, obviamente. Narro o que me foi contado. Vim ao mundo com muita pressa. Ou achava ilusoriamente que a saída do útero era pra cair na Disneylândia ou era o inconsciente trabalhando para eu não nascer sob o signo de Capricórnio. Por conta disso minha mãe passou longas 48 horas em trabalho de parto. Quando viram que a criança não dava trégua, optaram por uma cesariana. Chovia torrencialmente. Só quem viveu nos anos 60/70 no Rio de Janeiro sabe o significado disso. Em janeiro de 1967, por exemplo, Nelson Rodrigues perdeu um irmão, a cunhada, duas sobrinhas e a sogra do irmão no desabamento de um prédio em Laranjeiras. Trezentas pessoas perderam a vida por conta daquele temporal. Então nasci, bem diferente dos meus irmãos. Todos foram bebês robustos, eu pesava pouco mais de dois quilos e só tinha cabeça. Mas a vontade de estrear era tão grande, que tirei dez no apgar. Cheguei literalmente aos berros.

Quando digo que nasci em 1970, mesmo no finalzinho do ano, o comentário geral é: ”Brasil, campeão do mundo!”  A bendita Copa do Pra Frente Brasil. Copa esta que nem cheguei a assistir, estava sendo gestada. O que posso dizer sobre esse ano que inaugurou uma década  é que o Brasil vivia sob uma brutal ditadura militar, e foi com o presidente em exercício, Médici, que ela atingiu sua plenitude. Vivíamos num Estado aparelhado para torturar e matar. Curiosa, fui no acervo de O Globo para ver a notícia mais relevante desse 14 de dezembro. Um juiz do Trabalho, defensor das causas dos desfavorecidos, foi assassinado salvo engano em frente a sua casa, com vários tiros. A matéria alegava que ele fora vítima da violência urbana e que a família não queria falar sobre o assunto. Jornais escreviam ficção. O Vietnã pegava fogo, o mundo passava pela crise do petróleo, o Brasil numa puta recessão e a Câmara aprovando a censura de livros e periódicos. Médici prometia o tal “milagre econômico”  e toda e qualquer pessoa que discordasse das arbitrariedades desse governo era perseguida.

Essa curiosidade sobre “o dia em que apareci no mundo”, citando Ary Barroso, foi movida por uma postagem no facebook, em que num clipe apareciam trechos de músicas icônicas do ano que você nasceu. A minha foi Let It Be. Justamente o último álbum dos Beatles.

Nesse mesmo dia, remexendo no quarto da bagunça, achei por acaso a cópia da minha dissertação de mestrado, de 1996, intitulada: ”A Escravidão Negra em Antônio Vieira”. Detive-me em um capítulo :”O Engenho da Ilusão”. A ideia era falar sobre arquitetura, fé e sonhos. Quem me conhece sabe dos meus rolés aleatórios na escrita, mas que no fim chegam a algum lugar.  Aqui reescrevo um trecho:

God is Dead. Estampada na capa da Times como uma manchete, em grandes letras vermelhas, nos anos sessenta, esta frase traduzia o pessimismo de toda uma geração. As flores não venceram os fuzis, a intolerância germinava nos mais variados cantos do planeta, assumindo formas diversas. Apresentava-se nas ditaduras militares da América Latina, na brutalidade da Guerra do Vietnã, nos campos de trabalho forçados da Sibéria.

A geração que decretava a morte de Deus não era uma geração qualquer. Era a mesma que em escala mundial desafiou a ordem estabelecida, considerada por eles caduca e reacionária. Nunca os jovens ousaram sonhar tão apaixonadamente e mais ainda, nunca acreditaram tanto no poder dos seus sonhos. Os desejos de mudança estavam nos hippies com seu ideal de paz e amor, nos estudantes franceses que arrancavam paralelepípedos do chão das ruas parisienses, para se defenderem das forças policiais, no ato extremo do jovem tcheco na Primavera de Praga, que ateou fogo ao seu próprio corpo a maneira dos monges budistas do Vietnã para protestar contra a Guerra, contra  a falta de liberdade no seu país e por toda a estupidez que ocorria num mundo governado por maiores de trinta anos. Forma de lutas diferentes, mas ideal semelhante. A reformulação do mundo. Este ideal valia mais do que a própria vida e esta era uma questão que ultrapassava as ideologias, era uma questão de fé”.

Não fosse eu mesma ter escrito, lendo hoje, duvidaria que era meu. Não pela escrita em si, mas no que nela contém. Assim que  se deu  o encontro da menina de 25 anos com a mulher de 50. Estranhamento. Hoje me pareceu um tanto quanto pueril e posso citar mil e um defeitos aí, tanto no pensamento quanto na forma. Nesse parágrafo está a admiração de uma guria por uma época que nem chegou a viver. Dividi esse momento com duas pessoas dessa geração, meu pai e o pai de um amigo, figura combativa, do mundo das artes. Copiei esse trecho com a minha letra e gravei um pequeno vídeo.

Esse reencontro da mulher com a moça de 25 anos me despertou riso, críticas (nossa, podia ter escrito melhor), mas me situou no presente. Perdi a crença. A cada volta que o mundo dá me torno mais cínica e desesperançada. Flores jamais venceriam canhões. Já não consigo ver grandeza num jovem atear fogo no próprio corpo por uma causa. O mundo não merece isso. A morte de Janis Joplin e Jimmy Hendrix, justamente em 70, não  tem nada de  romântico. Foram jovens que tinham uma carreira a frente, brilhantes no que faziam, mas que perderam completamente os limites. Ninguém merece morrer aos 27 anos. Hoje sou alguém com mais de trinta. Lá atrás, quando escrevi, nem ouviria o que a Céu de agora acha de tudo isso.

De qualquer forma, ao gravar o vídeo, agradeci a esses representantes daquela geração por influenciarem a menina de longos cabelos encaracolados que escreveu o texto. Ela era cheia de esperanças e tinha um coração cheio de ternura. Aos 25 temos licença poética para sermos ingênuos. Um dia fui assim. E isso é lindo.

Quanto ao mundo de hoje, to de folga dele… Let It Be.

Um país esgotado e no fundo do poço

Muita gente deve estar se perguntando o que acontece depois do STJ ter confirmado que Moro nunca poderia ter julgado Lula, e mesmo que o tenha feito, ser declarado um juiz parcial, a pior acusação a um magistrado.

A primeira vista parece um contrassenso. Se primeiro foi declarado que os casos envolvendo o ex-presidente não poderiam ter sido julgados em Curitiba, tudo o que seguiu a este fato perde a validade. No entanto a suprema corte fez questão de julgar os atos cometidos pelo ex-juiz também. Sábia decisão.

Moro perseguiu Lula para impedir a sua candidatura e assim abriu caminho para a chegada ao poder de Bolsonaro a quem serviria mais tarde como Ministro da Justiça. Isto ainda não foi mérito de julgamento ainda. Moro se locupletou de suas decisões, algo nunca visto antes na jovem democracia brasileira.

O que foi decidido confirmou o que já se sabia e vinha sendo denunciado há muito tempo. Ainda assim, tem gente inconformada, e com alguma razão dizem que Lula não foi absolvido de seus crimes. As decisões do que aconteceu em Curitiba foram anuladas e os processos foram remetidos para Brasília onde ele pode se tornar novamente réu e se julgado, vir a ser condenado.

Claro que esta possibilidade existe, mas esquecem o principal, o que foi decidido depois da anulação foi a perseguição a Lula que se deu sem a preocupação em apresentar provas. Lula foi primeiro condenado, depois julgado. Bastaram convicções para colocá-lo na prisão. Assim sendo, se os processos forem recebidos, existe a possibilidade de sequer serem levados a julgamento.

É preciso lembrar que os lavajatistas se vangloriavam pela condenação em segunda instância pelo TRF-4. Lá, em tempo recorde, Lula teve confirmada sua condenação e teve sua sentença precisamente aumentada para cumprir pena de prisão. Estes 3 desembargadores tiveram participação ativa no conluio e não podem ficar impunes. Eles serviram a mesma quadrilha e seus atos deram legitimidade aos atos de Curitiba.

Quando o STF diz que Moro foi parcial, está mandando um sinal claro a quem vier a receber as denúncias. Existem provas cabais no processo? Ele aponta os crimes cometidos e a ligação do acusado com  eles sem sobra de dúvida? Enfim, a denúncia está consubstanciada de maneira a permitir uma acusação formal? Em outras palavras, existe a possibilidade concreta das denúncias não serem aceitas.

Todas as pesquisas eleitorais colocam Lula em primeiro lugar de preferência se as eleições fossem hoje, não importa contra quem. O povo lentamente começa a se dar conta de que foi ludibriado. Induzido a acreditar numa farsa, boa parte da população acreditou que aquele grupo de procuradores realmente desejava livrar o Brasil da corrupção e colocar os corruptos na cadeia, começando por quem diziam ser o master criminoso nacional.

Acrescente a isso uma boa campanha de marketing baseada em Fake News bancada pelos setores empresariais e divulgadas pela mídia conservadora, as vezes de fato, as vezes fazendo vista grossa pelas correntes de WhatsApp, e o resultado foi avassalador. O projeto de afastar Lula e destruir o PT foi quase alcançado. Estiveram muito próximos de alcançar seus objetivos.

O que talvez não contassem, é que aquele Meme que dizia que haviam colocado um idiota na presidência, mas não precisava ser tão idiota, era real. Mesmo sabendo do passado de Bolsonaro, acreditaram que os fins justificavam os meios. O resultado é que aquele idiota se mostrou um total inepto e levou o país ao fundo do poço. Incapaz de exercer o cargo para o qual foi eleito, é uma caricatura de si mesmo, um zumbi com a faixa de presidente caminhando sem rumo.

Claro que os terraplanistas e adeptos de teorias conspiratórias vão seguir louvando o que chamam de mito. Nada os fará desistir de seguir seu líder. Eles são como o ajudante de Drácula. Seguem cegamente o mestre não importa o quanto ele os use e humilhe, nunca vão deixar se enganar pelos comunistas que desejam retomar o poder. Sim o Brasil foi comunista, pouca gente sabia disso, mas aí já é outra história.

A magia das palavras

Nas origens certas palavras faziam magias, as palavras curavam, eram ensalmos, daí o “Livro dos Salmos”. As palavras aliviam, emocionam, excitam, as vezes são enganadoras e cruéis. Tem os que desejam amarrar as palavras as suas origens, não sabem que as palavras têm vida, sofrem metamorfoses, vibram, pulsam. A magia das palavras está no canto, encanto, sorrisos e prantos. As vezes são torcidas e distorcidas, já outras podem transpor o limite do papel e entrar na vida de quem lê. E assim se cria um vínculo de mistério e beleza, pois com as palavras se contam histórias, se briga e se faz as pazes.
A magia das palavras está numa simples piada, daí a piada ser o modelo das formações do inconsciente como o sonho e o sintoma. O poeta alemão Henrich Heine escreveu: “Quando for velho eu só desejo a tranquilidade de uma casinha na montanha, com um pouco de pão e manteiga, para viver a paz da natureza. Escutaria os pássaros e por uma janela gostaria de ver as árvores distantes, onde estivesse dependurado por uma corda, cada um dos meus inimigos”. O que escrevi só é uma piada para quem sorriu, Heine foi um crítico feroz do prussianismo, o que despertou o ódio dos fanáticos. Quem odiou Heine, hoje poderia odiar os cientistas, artistas, negros, índios, pobres, esquerdistas, os sonhadores de um amanhã. Aliás, uma das mais famosas frases de Heine, que antecipou o nazismo foi: “Onde se queimam livros, acabam se queimando pessoas”. Os que odeiam o conhecimento atacam a vida.
A magia das palavras é o que cada um pode encontrar; lembro o ex-sargento Steinlauf falando à Primo Levi em Auschwitz, ao vê-lo evitar o banho: “Devemos nos lavar sim, ainda que sem sabão, com essa água suja e usando o casaco como toalha. Devemos engraxar os sapatos, não porque assim reza o regulamento, e sim por dignidade e alinho. Devemos marchar eretos, sem arrastar os pés, não em homenagem à disciplina prussiana, e sim para continuarmos vivos, para não começarmos a morrer”. Já memorizei palavras essenciais para Levi viver mais de quarenta anos, após o campo de concentração, e escrever dezenas de livros como “É isso um homem?”.
A magia das palavras está hoje na discussão da palavra genocida. Já li nas redes tanto que o Presidente é genocida, como que não é. A palavra genocídio nasce em 1944 através do advogado polonês judeu Raphael Lemkin para definir o crime nazista e outros semelhantes. Em 1948 as Nações Unidas definem na “Convenção para a Prevenção e Punição de crimes de Genocídio”, ampliando seus sentidos como o ponto c): “Impor deliberadamente ao grupo condições de vida que possam causar sua destruição física total ou parcial”. Genocídio, concluem: “são atos cometidos com a intenção de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial, ou religioso”.
Brasileiros matando brasileiros não é novidade na História, é só perguntar aos índios, negros, pobres e rebeldes. O país está comandado pelas Forças Desalmadas, é a turma do Robin Hood ao contrário: tira dos mais pobres para dar aos mais ricos. As palavras dos altos poderes perderam o crédito no mundo, não confiam mais nesse país. Entretanto, um dia será recuperado a potência da palavra entusiasmo para impedir mais destruição e a morte. Com paciência ocorre a recuperação da fértil imaginação onde a fantasia e a poesia dançam. Aí as magias voltarão, a magia do abraço, a magia do amor, a magia das conversas e os sonhos para construir o amanhã.

Lembrar para quê?

A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti (John Donne)

Sir András Schiff dava uma masterclass na sala Pierre Boulez, em Berlim. O genial pianista comentava as Variações Goldberg, de Bach, que interpretaria em seguida. Com humor fino, perguntou à plateia (reproduzo de memória): Afinal de contas, quantas gravações novas destas Variações serão ainda possíveis? O que poderá haver de novo nelas? Notou-se um leve sorriso entre alguns presentes, já com cócegas no raciocínio. Sir Schiff não respondeu à sua provocação, mas vou expandi-la para outros departamentos.

Há 78 anos, começava o Levante do Gueto de Varsóvia. Todos os anos, esta insurreição armada, a primeira dos judeus contra os nazistas, é lembrada em círculos judaicos. Não foi a única, mas é a mais citada quando se quer falar sobre a resistência contra o genocídio promovido em escala industrial contra o povo judeu. Aqui entra uma dúvida à la Schiff. Faz sentido ficar repetindo os mesmos fatos, as mesmas estatísticas, os mesmos nomes e organizações? Não seria excessivo, enfadonho, meramente ritual?

A execução de uma peça para piano ou orquestra permite interpretações diferentes. Durante muitos anos, tive tatuada na memória musical a Abertura 1812, de Tchaikovsky, executada pela Orquestra de Philadelphia, com a regência de  Eugene Ormandy. Quando me mostraram a mesma obra tocada pela Filarmônica de Berlim sob Karajan, quase caí pra trás. Outro andamento, outras ênfases, quase outra obra. Assim como na música, a partitura da História permite muitos olhares.

O Levante, desencadeado na véspera do Pessach de 1943, me evoca uma das passagens da Agadá, a clássica narrativa da libertação do cativeiro egípcio. Nela, somos convidados a vivenciar a saída do Egito como se nós mesmos tivéssemos sido cativos. Mudam os tiranos, permanece o desejo de liberdade. Aprendizado em dó maior.

A resistência armada em Varsóvia só foi possível porque as várias correntes políticas representadas no gueto aceitaram unir-se. Comunistas, socialistas, bundistas, sionistas de esquerda, construíram a ZOB – Organização Combatente Judaica em 1942. A influência da esquerda foi decisiva em vários sentidos. Conheciam a prática da ação coletiva e não alimentavam ilusões sobre o caráter genocida do inimigo. Além disso, tinham militantes com alguma experiência armada. Elia Moses, que lutou nas Brigadas Internacionalistas na Espanha, foi instrutor militar dos insurretos. A estratégia de enfrentamento armado derrotou a visão burocrática da Judenrat, a administração judaica do gueto, que mediava contatos com os nazistas e acreditou, até o último instante, numa “salvação negociada”.

Unidade na luta: herança valiosa da revolta. Enfrentavam uma espécie de mal absoluto, que Marcelo Coelho definiu como “alegria no desamor, embriaguez de morticínio, preferência sistemática pela treva e pela estupidez”. Saberemos assimilar a sabedoria da unidade entre diferentes, quando temos pela frente um inimigo comum que, à sua maneira e no seu tempo, cultiva valores semelhantes aos do totalitarismo nazista? Os rebeldes de Varsóvia, e as gerações futuras, cobram uma resposta.

Emanuel Ringelblum criou um arquivo, o Oineg Shabes, que preservou documentos sobre o cotidiano do gueto de Varsóvia. Socialista, sua intenção não era legar apenas uma memória acadêmica, congelada. Ofereceu matéria para novas perguntas. Como faremos para evitar que a história se repita? Que meios usaremos para abortar novas aventuras totalitárias? Lembrar o Levante do Gueto de Varsóvia não é só prestar uma justa homenagem aos combatentes, mas avançar na construção de um mundo sem muros, sem exploradores, sem predadores da Natureza, sem tiranos.

Abraço. E coragem.