Sobre perdões

Sobre perdões

Há pouco mais de 4 anos atrás tomei duas decisões importantes na minha vida. A primeira foi “me livrar” de todos os racistas, homofóbicos, misóginos e antidemocráticos do meu círculo de parentes, amigos e conhecidos reais ou virtuais. A segunda foi deixar o Brasil de vez e me mudar para Israel, um sonho há muito acalentado e adiado.

Hoje olhando para trás vejo que foram decisões acertadas para mim e minha família. Todos estão morando em Israel e pela primeira vez em muitos anos, passamos a festa de ano novo judaico juntos e felizes.

Ao me afastar de pessoas do mal, deixar de discutir com gente sem a menor vontade de trocar ideias, parar de responder aos ataques a civilização, minha vida melhorou muito. Não é que eu tenha deixado de me importar com a barbárie, pelo contrário, coloquei minhas forças e disposição na construção de um círculo de pessoas do bem para lutar contra ela. Assim, por exemplo, nasceu o grupo do FB Judeus Contra Bolsonaro.

Antes dele ajudei a criar os abaixo assinados contra a ida de Bolsonaro na Hebraica-SP e depois na Hebraica-RJ. Sucesso na primeira empreitada e com a ida de dezenas de judeus a porta da Hebraica-RJ para se manifestar contra a presença do mal lá dentro, no que ficou conhecida como a primeira manifestação de rua contra Bolsonaro, posso dizer que foi uma segunda vitória.

O Judeus Contra Bolsonaro, que administro com a parceria de outros companheiros, atraiu aquela parcela da comunidade judaica que percebia o que estava acontecendo naquele momento difícil do golpe e a prisão de Lula, e desejava fazer alguma coisa. O grupo chegou a ter 8 mil membros, o maior grupo judaico do FB brasileiro. Hoje com cerca de 6 mil, ainda é um dos maiores grupos e concentra, em sua maioria, aqueles que pensavam estar sozinhos. Que surpresa boa saber que existem tantos judeus preocupados com o fascismo.

Criei o site A Voz da Esquerda Judaica, um espaço para judeus de esquerda publicarem o que produzem, poesia, contos, crônicas, artigos, reportagens etc. Um verdadeiro blog do que de melhor existe no judaísmo progressista.

Dentro de poucos dias teremos as eleições no Brasil. Todos que me conhecem sabem que voto em Lula. Sempre fui de esquerda e sempre me guiei por linhas humanistas e socialistas. Nestes anos todos procurei superar meus defeitos, aprimorei meus sentimentos e minha forma de ver o mundo, compreendi meus erros passados e procurei me tronar uma pessoa melhor. Nunca vou atingir a perfeição, mas convivo bem com esta limitação.

Acredito que Lula possa ganhar já no primeiro turno. Não tenho dúvidas de que vai voltar a presidência. Logo após o primeiro turno, tenho a frente o Yom Kipur (Dia do Perdão), a data mais importante do calendário judaico. Segundo a tradição, nós judeus temos dez dias depois do inicio do ano para uma introspecção. Como o nome da data sugere, perdoar os que nos causaram mal e pedir perdão pelo mal que possamos ter causado a outros.

Não sou uma pessoa religiosa, respeito os que o são. Acredito que todo ser humano busca à sua maneira de ser feliz e de estar em paz consigo mesmo e o mundo que o rodeia. Se para alguns existe a necessidade de um parceiro nesta jornada, que assim seja.

Dito isto, eu me dou o direito de pelo fato de ainda não ter atingido a perfeição, e fazendo um balanço do meu último ano, acredito que fiz muito mais o bem do que algum mal aos que me são próximos. Meu saldo neste sentido é positivo. Até mesmo aos com quem deixei de conviver, acredito que lhes fiz um favor ao poupá-los de minhas ideias progressistas. Deve ser muito ruim para eles conviver com um sujeito que se importa com o próximo e acredita que somos todos iguais e merecedores de justiça social e das mesmas oportunidades na vida.

Ao mesmo tempo, eu tento me perdoar por haver convivido durante tanto tempo com gente da pior espécie. Amigos de infância, parentes próximos, conhecidos de uma vida toda. Eu não me dei conta do tipo de gente que realmente eram e durante um tempo ri de suas piadas preconceituosas, de seus comentários racistas, de suas atitudes grotescas para com o próximo.

Eu não os perdoo de maneira alguma. Não perdoo pelo que são, pelo que representam e principalmente pelo mal que causam ao mundo. Eu disse antes que não sou perfeito, eis a prova. Lamento, mas sou incapaz de estender minha mão a um fascista. Não durante dez dias em introspecção, nem nesta vida serei capaz de uma coisa destas.

Livre desta espécie de gente, mantive perto os próximos dos meus ideais e conheci centenas de pessoas que pensam como eu. Os tenho todos guardados em meu coração e compartilho com vocês os momentos felizes e os menos agradáveis porque sei que nunca largaram a minha mãe e eu sempre segurei a de vocês.

Peço sim perdão aos que não pude ajudar, aos que possa ter decepcionado por qualquer razão que me é desconhecida dizendo que não foi minha intenção. Perdão pela minha maneira franca de dizer as coisas, de ser prático com as decisões e por um senso de justiça que me guia e nem sempre possa ser compreendido. Gostaria de ter feito mais e melhor.

Também é parte da tradição desejar que sejamos inscritos no Livro da Vida, uma forma talvez até poética de dizer que quero ver a todos vocês, gente do bem, presentes em mais um ano da minha vida. Eles não!

 

O malévolo Jo Soares

O malévolo Jo Soares

Porto Alegre, 18 de maio de 2004.

 

Caro Jô

 

 

Venho por meio desta solicitar que a entrevista concedida no dia de ontem (17/05), não vá ao ar pelas razões que vou descrever.

Antes de tudo permita-me te agradecer pela entrevista concedida ao Jô Onze e Meia, no SBT, no ano de 1999. Naquela ocasião buscastes compreender o funcionamento da tecnologia que recém surgia no mercado. Tivemos uma parte séria e depois brincamos com o pessoal da banda. Esclarecemos ao seu público como funcionava esta revolucionária tecnologia explicando desde o surgimento do Polígrafo até a invenção israelense.

Infelizmente desta vez, parece-me que tudo que podia dar errado aconteceu. A Lei de Murphy triunfou.

Há cerca de um mês através do teu site um e-mail contando que pela primeira vez no Brasil, uma pessoa tinha sido inocentada em um tribunal com a ajuda de um laudo meu. Explicava o ineditismo deste fato num país que nunca conheceu o Polígrafo. Duas semanas depois, recebi um telefonema da tua produção perguntando-me se eu gostaria de participar do programa. Aceitei e na sequência a menina da pré-entrevista me contatou. Expliquei a ela quem eu era, o que fazia, as diversas histórias que eu colecionava ao longo destes anos atuando com o equipamento, e que dispunha de um novo produto chamado Detector do Amor. Também expliquei a ela que tenho um contrato com a Rede Bandeirantes para me apresentar semanalmente no Programa Boa Noite Brasil com exclusividade. Importante aqui ressaltar que só fui ao seu programa depois que devidamente autorizado pelo diretor do programa em consideração a sua pessoa, visto que nunca, apesar de constantemente assediado, fui autorizado a isso.

Com relação ao Detector do Amor, expliquei que este programa (assim como toda esta tecnologia), só funciona no mundo real. Seria preciso conversar com pessoas realmente apaixonadas para poder se fazer alguma demonstração. Ela então sugeriu aproveitar a campanha da namorada no maestro, para convidar algumas delas para falarem ao vivo.

Concordei e disse a ela que seria perfeito.

A data inicial que foi marcada teria sido na quarta-feira passada. Tudo certo liguei na segunda-feira pela manhã para confirmar. Tudo certo, me disseram. Então, como costumo fazer nestas ocasiões, marquei uma série de compromissos em São Paulo. No início da noite me ligaram para passar os dados do voo, e logo a seguir para desmarcar tudo. Como resultado disso, tive de ir a São Paulo de qualquer forma, pois alguns compromissos ficaram impossíveis de serem adiados.

Durante a semana, foi então definido que a gravação seria nesta segunda-feira que passou. Inicialmente me comunicaram que a gravação iria ao ar no mesmo dia. Por educação avisei alguns familiares e amigos próximos. Pouco tempo antes do início me avisam que a gravação não iria mais ao ar nesta segunda-feira, e que provavelmente ficaria para dentro de 20 a 30 dias. Novamente por educação, liguei para os familiares e amigos comunicando o ocorrido.

Tudo isso seria perfeitamente compreensível e até relevável se não fosse o que ocorreu durante a gravação. Para minha surpresa não tivestes sequer a delicadeza de me apresentar de forma condizente. Te voltaste diretamente para o Detector do Amor e fizestes justamente o que não podias fazer. Pedistes ao convidado anterior tendo presente na plateia sua esposa para fazer uma declaração de amor para a primeira convidada! Não obstante minha insistência de que não funcionaria assim, insististes em chamar pessoas que nada tinham para ser testado deixando no ar a impressão de que o programa não funciona.

Ao retornares quisestes testar o Detector de Mentiras sem ao menos perguntar o que era, como funcionava, quem havia inventado etc. Eu tive de provocar isso. Ao perceber que irias tratar o programa com o mesmo desdém tomei o cuidado de te informar que o programa não detectava bobagens. Ainda assim continuastes querendo que o programa desse algum resultado. Para coroar a noite forçastes uma mentira e ficastes discutindo comigo que não se tratava de uma história mentirosa. Neste ponto não estava mais ocorrendo uma entrevista, mas um bate-boca.

Na sequência cometestes a primeira grande indelicadeza. Ao te informar que esta tecnologia já era utilizada no mundo inteiro, colocastes deliberadamente em dúvida minha afirmação para na sequência repetir a pergunta para que eu respondesse no microfone ligado ao programa. Estavas me chamando de mentiroso. Sabias que era necessário calibrar o programa e mesmo assim dissestes no ar que minha resposta não era verdadeira, tendo eu que explicar que o programa não estava calibrado para a minha voz.

O pior ainda estava por vir. Ao informar por intervenção do convidado anterior, que já tinha um laudo desde o ano de 2001 em meu site, dizendo que Paulo Maluf mentia ao dizer que não tinha contas no exterior, e que suas contas não eram superfaturadas, tratasse disso com desprezo como se todos os políticos fossem corruptos e este dado nada significava. Tentei te mostrar que estavas sendo indelicado e falei do laudo do Gil Rugai que também não destes maior importância. Contei sobre o uso pela primeira vez no Brasil, durante um tribunal do júri que absolveu um réu acusado de ter mandado sequestrar e matar sua noiva (a razão de toda a entrevista) e para coroar a noite tu dizes que seria uma leviandade da justiça levar isso em consideração, ou seja, que eu estava sendo leviano em buscar fazer justiça.

Para tua informação, cerca de 20% dos presos brasileiros pagam por crimes que não cometeram. O uso desta tecnologia pode ajudar a polícia a trabalhar de forma mais inteligente. Pessoas inocentes poderiam ser logo dispensadas e os verdadeiros suspeitos melhor investigados. Isso faria com que os inquéritos fossem mais bem elaborados e concluídos em menos tempo aumentando a eficiência da polícia.

De toda forma gostaria de deixar claro que na minha opinião fostes extremamente agressivo durante o programa (pegaste pesado na opinião dos outros entrevistados), desrespeitoso para comigo na condição de teu convidado (inconveniente na opinião dos meus amigos presentes na plateia) o que tornou o que poderia ter sido uma boa entrevista, num enorme bate boca que não prestigiam a mim e muito menos a ti.

Por tudo isso estou esclarecendo que não autorizo o uso de minha imagem ou voz gravadas para aparição em seu programa.

Em havendo interesse de sua parte em refazer a entrevista de forma a esclarecer as pessoas do uso desta tecnologia, como o fizemos há 5 anos, pode contar comigo, de outra forma declino.

Com apreço,

Mauro J. Nadvorny

A sua dor é a minha dor

A sua dor é a minha dor

As cenas da morte da jornalista da Al Jazeera, a palestina-americana Shireen Abu Akleh correu o mundo como fogo em palha. Em todas as difusões jornalísticas a acusação de que ela teria sido morta por forças israelenses. Sem dúvida uma possibilidade, mas não a única.

Soldados israelense e militantes palestinos trocaram tiros em uma área onde não havia ângulo para acertar Shireen e outros colegas que se encontravam próximos. Todos vestiam capacete e coletes a prova de balas que os identificavam como jornalistas. Quem atirou foi um profissional que acertou o olho esquerdo da jornalista a uma distância ainda não identificada.

O mundo se apressou em acusar Israel pela morte, o que até pode vir a ser confirmado pelas investigações em andamento. No entanto, não seria a primeira vez que fatos como estes tivessem um resultado diferente daquele inicialmente tido como verdadeiro.

Em 13 de maio, Giora Eilad, publicou no jornal Yediot Hacharonot que em 2001, durante os primeiros dias da Segunda Intifada, Muhammad al-Durrah, de 12 anos, foi morto durante um violento tiroteio em Gaza entre forças da IDF e militantes palestinos.

Logo um repórter de TV francês, que filmou o momento em que o menino foi baleado, testemunhou que ele foi morto por soldados do exército de Israel.

Naquela época, ele era o chefe da Diretoria de Planejamento do Exército e devido às inúmeras trocas de tiros que ocorreram no momento do incidente, e porque foi relatado por um canal de mídia europeu e não árabe, acabou presumindo que o relato de testemunha ocular estava correto.

Foi quando, segundo ele, cometeu um erro imperdoável ao assumir a responsabilidade pública pela morte do menino frente a mídia estrangeira. Explicou que o incidente foi precedido por tiros palestinos maciços em direção a um assentamento israelense, e os palestinos deliberadamente empurraram a criança para a linha de frente. Achou que bastaria como explicação. Ele estava tremendamente errado.

Uma investigação completa do incidente conduzida pelo exército revelou que o menino quase certamente foi morto pelo fogo palestino. Além disso, fortes evidências começaram a surgir, apontando para a possibilidade de que o menino sequer tenha morrido, e que todo o calvário pode ter sido encenado.

Claro que cada episódio de violência deve ser condenado. Mais do que isto, a ocupação dos territórios palestinos são a causa de todos os ciclos de mortes conhecidos no conflito. Tivera sido encontrada uma solução para viabilizar um Estado Palestino e muitas vidas teriam sido salvas.

Neste caso em especial, a morte da jornalista tem servido de combustível para antissemitas e antissionistas despejarem todo o seu ódio aos judeus e a Israel. A tentativa de saírem do hospital com o caixão nos ombros para o funeral deflagou uma forte reação de parte da polícia. Algo que poderia ser evitado com diálogo, se diálogo houvesse. Todos os funerais em Jerusalém devem ser realizados com o corpo sendo transportado em um veículo apropriado, o que acabou acontecendo. Aqui uma imagem valeu mais do que mil palavras.

Israel propôs uma investigação conjunta com a Autoridade Palestina, o que não foi aceito. Desta maneira, uma investigação está acontecendo por cada uma das partes. Infelizmente esta tragédia não une israelenses e palestinos.

Shireen, devido a sua militância e importância como jornalista despertou os defensores dos Direitos Humanos e a todos que prezam pela liberdade de trabalho e divulgação independente de todas as mídias para um fato que teria passado despercebido, não fosse ela.

Os cidadãos de Israel estão vivendo um terror há cerca de dois meses com o assassinato de cidadãos inocentes e indefesos por militantes palestinos e do ISIS. Na cidade onde eu vivo, no caminho quase diário por onde eu passo ocorreu um atentado. No mais recente, dois jovens mataram quatro cidadãos da pequena cidade de Elhad e feriram outros tantos com o uso de machados. O primeiro a ser morto foi o motorista judeu que deu carona para eles. Civis palestinos também são vítimas de balas perdidas em operações do exército israelense nos territórios ocupados e a mídia não dá a eles uma linha sequer em seus noticiários.

Eu não vou entrar numa discussão do porquê não escutamos das mesmas mídias e Defensores dos Direitos Humanos uma única condenação a estas mortes. Não se trata de uma disputa entre quem tem mais ou menos mortos para mostrar. Trata-se de deixar claro que famílias judias e palestinas estão sofrendo os males causados pela falta de diálogo entre aqueles que deveriam estar sentados em uma mesa de negociações para tratar do fim do conflito e da criação de um Estado Palestino.

Eu como judeu, como sionista-socialista condeno toda forma de violência. Mais do que isso, como ser humano e como israelense, não posso admitir o uso da força para ocupar um território que não nos pertence e subjugar todo um povo as nossas leis e costumes contra sua vontade.

Quem realmente deseja que palestinos e israelense possam viver em paz com justiça, deveriam estar pressionando as partes para se reunirem e chegarem a um acordo. Ficarem apontando dedos não vai resolver nada e apenas nos colocam a horas da próxima vítima.

 

 

 

 

E a corda esticou

E a corda esticou

Só se fala nisso. O cara resolveu chutar o pau da barraca e num ato já há muito planejado, indultou um criminoso condenado pelo STF. Usou de uma prerrogativa esquecida da Constituição de 88, o ato de “Graça”, um tipo de perdão presidencial.

Todos conhecemos os famosos indultos de Natal. Ato do presidente da república em favor de presos, geralmente condenados pela primeira vez por crimes menores e há poucos anos. Uma forma de aliviar o espaço nas penitenciárias e ao mesmo tempo dar uma segunda chance aos condenados.

O que fez Bolsonaro foi algo nunca visto na história do Brasil. Ele usou de sua prerrogativa presidencial para indultar um condenado, sem trânsito em julgado, ainda cabendo apelação, quando a tinta da pena ainda não havia secado no papel. Sua ousadia é uma afronta ao Estado de Direito e uma declaração de guerra ao poder judiciário.

Normalmente os crimes cometidos por cidadãos percorrem um longo caminho na justiça. Os políticos acharam que por serem cidadãos de uma outra categoria, mereciam serem julgados em fórum especial. Existem os crimes de responsabilidade e até mesmo os crimes políticos. Eles podem ter seus mandatos cassados, se tornarem inelegíveis e até mesmo serem presos. Políticos são julgados por seus pares e/ou pelo STF.

Os poderes da república têm seu papel definido pela constituição. Temos o executivo, na pessoa do presidente, o judiciário, representado pela suprema corte e o legislativo representado pelo Congresso Nacional. Cada poder tem sua atuação limitada ao seu papel na democracia e suas decisões precisam ser respeitadas.

Quando um dos poderes não acata as decisões de outro, o processo democrático sofre uma cisão. Nestes casos o impasse merece tratamento urgente para que o problema não se transforme em um impasse e cause uma ruptura democrática de consequências imprevisíveis.

A atitude de Bolsonaro abriu o caminho para um confronto direto com o STF. Ao conceder o indulto, sem mais delongas, ele abriu caminho para a possibilidade de um presidente da república perdoar pessoas específicas de acordo com a sua vontade, independentemente do crime que cometeram e da pena que receberam. Neste caso, aos amigos as benesses do poder, e aos inimigos o rigor da lei.

O que vamos assistir na semana que entra é um embate sobre a constitucionalidade do ato. Se ele pode ser utilizado na forma e no tempo em que foi promulgado. São questões levantadas por diversos juristas e tudo ainda está no campo teórico, justamente pelo ineditismo do ato em si.

Independentemente do resultado, já podemos contabilizar o resultado dele. Se continuar valendo, mesmo assim o criminoso continua com seus direitos políticos cassados, não podendo concorrer nas próximas eleições. Para alguns juristas, a multa imposta terá de ser paga. De toda maneira o precedente abre uma brecha na lei para proteção de criminosos condenados ao sabor da vontade presidencial. Em tese, ele pode, desde já, se auto indultar por futuras condenações que possa sofrer, e ato contínuo indutar seus familiares e amigos.

Se a promulgação for declarada ilegal, estamos diante de um crime de responsabilidade cometido pelo presidente da república contra o Estado de Direito numa afronta ao país. O que acontece a seguir? Quem obedece a quem? Quem tem a palavra final?

O que está por vir vai mudar a história do Brasil, vai influenciar diretamente no processo eleitoral e vai determinar a saúde do regime democrático vigente. As instituições estão diante da corda esticada ao máximo e próxima da ruptura. Os lados vão rebentar a corda, ou vão se aproximar para uma solução intermediária?

Uma boa e eletrizante semana a todos.

 

 

Errei ao pedir o fim do PCO

Errei ao pedir o fim do PCO

Reconheço que errei ao pedir o fim do PCO, não se pode pedir a extinção do que de fato nem existe. Isto não é um partido, é um amontoado de clichês do século passado completamente desconectados da realidade.

Em meu artigo anterior, não me referi à pessoa de Rui Pimenta em nenhuma linha. No entanto, Pimenta se refere a mim, pessoalmente, oito vezes em defesa da sua causa. Como todo articulista com falta de argumentos, começa desqualificando o mensageiro, só depois então tenta menosprezar meus argumentos, que se diga de passagem, são os mais óbvios possíveis, com uma linguagem acessível a qualquer um.

O fundador e presidente do PCO defende sua agremiação da minha acusação de antissemitismo, dizendo que “Nosso crítico busca apresentar nossa posição como uma posição de extermínio do povo judeu. Ele busca dizer que liquidar o Estado de Israel seria acabar com o povo judeu, uma completa falsificação. Acontece que eu não escrevi nada disso, ele vestiu a carapuça.”

Diz ele que “O Estado de Israel é um país com religião oficial de Estado, estabelecido em 1948 na Palestina contra a vontade da maioria do povo daquele território naquele momento e com apoio do imperialismo mundial e até mesmo do stalinismo.”

O Vaticano e o Irã, só como exemplos, também são estados com religião oficial e não me consta que você esteja pedindo o fim destes estados. Em 1948 a ONU aprovou a promulgação de dois estados, um judaico e outro palestino, com o apoio da União Soviética e graças às armas enviadas através da então Checoslováquia, Israel sobreviveu à guerra da Independência. Ao final da guerra que envolveu outros 6 países árabes, apenas um estado foi estabelecido, o de Israel. Os territórios que foram tomados pela Jordânia e pelo Egito, que poderiam ter dado origem ao Estado Palestino, ficaram sob a tutela destes países até a Guerra dos 6 dias e hoje são territórios ocupados por Israel.

Segue Pimenta afirmando que “O PCO sempre defendeu o fim do Estado de Israel por ver o óbvio: não somos favoráveis em geral a Estados religiosos e raciais, ou seja, excludentes do restante da população que não pertence a determinada raça ou religião, somos favoráveis a um Estado democrático que represente os interesses de todos, independentemente de credo, de raça ou outras distinções. O Estado de Israel não é nada disso. Os palestinos foram expulsos do seu país e espalhados pelo mundo como há muito o Império Romano fez com os próprios judeus. Uma parte da população palestina vive hoje em uma região administrativa artificial sem quaisquer condições reais de vida, um verdadeiro gueto como o imperialismo alemão fez uma vez com os judeus.”

Acima ele faz uma salada de frutas. Como já disse anteriormente, existem outros países com religião oficial. Israel não é um estado teocrático. Todos os cidadãos têm direito a voto e podem ocupar qualquer cargo público ou privado. Isto se chama democracia. Durante a guerra de Independência, cerca de 600 mil palestinos deixaram a região por vontade própria ou foram expulsos pelas milícias judaicas fascistas. Crimes de guerra foram cometidos por elas e acobertados pelo governo Ben Gurion. Em contrapartida, crimes de guerra também foram cometidos pelas forças jordanianas e milícias palestinas.

Finalmente o autor da resposta ao meu artigo chega aonde interessa: “Só pode haver um Estado Laico, uma república e um sistema de governo que garanta os direitos de todos os grupos étnicos e religiosos sem exceção. Tanto os judeus como os islâmicos têm motivos histórico-religiosos para dizer que aquela terra é deles, mas não se trata de julgar quem está certo e quem está errado. Nenhum lado aceitará ser despossuído do seu território. Trata-se de corrigir uma barbaridade que tem sido feita aos árabes desde 1948, trata-se de acabar com o genocídio palestino e de liquidar um enclave militar do imperialismo na região. Os judeus podem ficar, o Estado genocida tem que ir, tem que ser derrubado, tem que ser destruído e substituído por um Estado democrático.”

O fundador do PCO advoga a si a solução para o conflito. Ele determina que a solução passa por um estado laico e democrático. Não sei se ele já esteve na nossa região, mas vou contar uma verdade: não existe nenhum país árabe democrático, muito menos laico. Isto é básico de quem faz alguma ideia do que seja o Oriente Médio.

Segundo Maria do Céu Ferreira Pinto* Professora Auxiliar no Departamento de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade do Minh, em Democracia no Mundo Árabe, “O debate ocidental sobre a democracia no mundo árabe refere o carácter excepcional da cultura política do Médio Oriente e a sua impermeabilidade às formas democráticas. Explicações de várias ordens são propostas para explicar a persistência de regimes autoritários e repressivos nesta região. Uma refere o aspecto religioso: o Islão como uma barreira ao desenvolvimento, à liberdade e à democracia. Uma visão menos sofisticada atribui as culpas à mentalidade árabe, que é naturalmente inclinada para o autoritarismo e incapaz de aceitar o pluralismo e a crítica. Diz-se com alguma razão que no Médio Oriente falta uma tradição contratual como a que existiu na Europa durante o feudalismo. As cidades do Médio Oriente antigas/medievais representavam mais uma urbs – uma aglomeração física de diferentes grupos sociais – do que uma civitas – um espaço de interação e debate coletivo entre estes grupos2. Nas grandes metrópoles do mundo árabe coexistiam grupos baseados em critérios como o parentesco, a ocupação, etnia ou a religião (os ulama, as corporações, seitas religiosas, grupos étnicos). Mas gozavam de um alto grau de autonomia, não só entre si, mas em relação ao próprio poder central. Havia, assim, uma coexistência baseada na tolerância, não na interação. Tal explicará possivelmente a fraqueza histórica da sociedade civil3 no mundo árabe. Alguns autores também referem que na tradição árabo-islâmica não existe a noção de liberdade assente no conceito de individualismo4 . É que a esfera da liberdade individual é muito reduzida devido ao controle social muito forte que se faz sentir nos círculos mais íntimos, mesmo na esfera do privado por excelência, a família. A cultura árabo-islâmica é, por excelência, orgânica, comunitarista e coletivista.”

Não vou discutir o mérito, mas esta é a realidade desta região. Pimenta pode jogar seus clichês ao vento, que o resultado é nenhum. Me fez recordar do tempo de Libelu na luta contra a ditadura. Sua ideia do que seja melhor para os palestinos, e para os judeus israelenses, é completamente desconectada da realidade e perseguir tal proposta seria condenar o povo palestino ao ostracismo. Cada dia mais países árabes se aproximam de Israel e se distanciam da causa palestina. Não existem soluções mágicas, tampouco propostas mirabolantes de um lunático que vive em um mundo paralelo.

A verdadeira luta por um Estado Palestino se baseia na livre determinação dos povos. O governo de Israel e a Autoridade Palestina precisam voltar à mesa de negociações e encontrar soluções que possam encaminhar a existência do Estado Palestino de fato. A comunidade internacional faria muto bem em pressionar ambos para que isto aconteça.

Pimenta precisa cair na real. Uma escola de samba de qualquer cidadezinha do interior tem mais filiados que vocês no Brasil inteiro. Se apenas 10% de qualquer uma de suas propostas tivesse algum valor para a classe operária brasileira, vocês teriam ao menos um, eu disse UM vereador em um dos 5.565 municípios brasileiros. E olhem que em alguns municípios um vereador se elege apenas com os votos da família.
Vou ser justo, em 2004, no município amazonense de Benjamin Constant, o PCO elegeu seu primeiro e único vereador no país até hoje: João Vieira da Silva recebeu 635 votos graças a uma coligação com mais 3 partidos.
Claro que o autor, que tantas vezes menciona meu nome, foi candidato à presidência do Brasil por duas vezes. Cabo Daciolo recebeu quase três vezes mais votos do que ele na sua única candidatura à presidência. Este é o tamanho da insignificância desta agremiação e a prova real de sua dicotomia com o mundo real. Vocês podem se achar os arautos da causa operária, mas a classe trabalhadora, com toda razão, quer distância de vocês.

Pelo fim do PCO

Pelo fim do PCO

O Partido da Causa Operária é a favor do fim do Estado de Israel. Este é o mais recente panfleto do PCO chamando a filiação ao partido. O PCO é aquele partido com um Zero com a foice e o martelo como símbolo. Zero representatividade.

O fato é risível sob qualquer aspecto. A classe operária brasileira tem muitas questões importantes por resolver, e depois destes anos sob Bolsonaro, com todos os retrocessos aos trabalhadores, falar da destruição de Israel como uma causa operária é uma piada, daquelas de mau gosto.

Um partido que tenta se insinuar como comunista autêntico, sem nenhuma expressão nacional, estadual ou municipal, que enche uma Kombi quando realiza um congresso, deveria ser mais coerente com sua ideologia.

Claro que a esquerda em geral tem muitas restrições quanto as políticas dos últimos governos israelenses. É legítimo que se discorde e se diga, por exemplo, que cometem uma política de Apartheid nos territórios ocupados. É aceitável que se condenem estas políticas.

Mas quando um partido se coloca pelo fim do Estado de Israel, estamos falando de um partido com uma retórica antissemita. Um dos valores da esquerda é o seu humanismo, sua preocupação com a vida, não desejamos a destruição de nenhum país, de nenhum povo. Lutamos por mudanças que levem a um mundo melhor para todos. Colocar em um panfleto uma mensagem destas é o anúncio de que de esquerda o PCO não tem nada diferente do Partido Nazista. São iguais em número, gênero e grau.

Não é por nada que eles apoiam o Talibã, a invasão da Ucrânia e se dispõe a uma aliança com Bolsonaro. Tudo pela causa operária, evidentemente. Eu fico me perguntando a todo momento que diferença faz para o operário brasileiro a existência, ou não de outros países. Vamos imaginar desejar o fim da Argentina. Talvez isto tirasse um rival dos gramados e consequentemente a seleção canarinho teria um caminho mais fácil na Copa América. Isto traria mais felicidade a classe trabalhadora.

Quem sabe a destruição dos imperialistas americanos. Com o fim dos EUA, os operários comeriam menos junk food, tomariam menos refrigerantes e a saúde dos trabalhadores teria uma melhora substancial.

Agora, vamos imaginar um mundo sem o Estado de Israel. Que diferença isto faria para nosso proletariado? O que de bom traria de proveito para os trabalhadores? Quais seriam os ganhos benéficos aos operários? Eu respondo, nenhum, nadica, nada.

Isto é o que eu chamo de retórica antissemita. Uma panfletagem inconsequente que em nada contribui para a eleição de Lula. Precisamos de todos os votos possíveis, de todas e de todos que possam nos ajudar a vencer estas eleições, e o que vemos é um bando de sem noção insuflando causas fora de contexto, estapafúrdicas e alienadas da realidade. Devem estar tomando muito chá de cogumelo por lá.

Este partido sem causa nenhuma, que só existe no papel, deve ser extinto em breve. E eu lanço a campanha por sua perda de registro. Ninguém, nem mesmo uma agremiação política pode expressar antissemitismo impunemente. Racismo é crime e deve ser combatido.

Neste mês as três maiores religiões monoteístas estão em festa. Os muçulmanos pelo Ramadan quando o profeta Maomé recebeu revelações divinas, os cristãos pela Páscoa quando da ressurreição de Cristo, e os Judeus pelo Pessach quando da saída do Egito até a chegada na Terra Santa.

Durante os anos que levaram até chegar a Terra Santa, Moisés trouxe os 10 Mandamentos. As primeiras leis com princípios éticos que regraram a convivência humana. O mundo começou a mudar ali naquele momento. E para melhor. Não serão estes pulhas que nos farão retroceder.

Ramadan Kalil! Feliz Páscoa! Chag Pessach Sameach!

Nazistas do PCO não passarão! Lula Presidente!