Samba Perdido – Capítulo 27 – parte 01

 Capítulo27

 

“...Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar.”

Dia Branco, Geraldo Azevedo

 

A próxima parada foi Aracajú, a capital de Sergipe. Apesar do nome bonito e de uma música inspirada do Caetano exaltando a cidade, o lugar não desceu bem. Chegamos a noite e de cara pareceu uma cidadezinha de interior sem charme com ruas desertas e quase sem comércio.  Sabiamos onde queriamos ir: praia da Coroa do Meio, um bairro de classe media alta com uma praia legal indicada por um amigo de Salvador. Nos sentindo como astronautas num planeta estranho, saimos perguntando como chegar lá e nos deparamos com um povo reservado que nos via como extra terrestres certamente por causa do ar largado, das roupas mal tratadas e das mochilas.

Conseguimos finalmente chegar no nosso destino mais sem graça do que o esperado.  A única coisa que curtimos era que dava para acampar na praia deserta. Quando armamos a barraca já era por volta das nove e meia. Olhamos em volta e vimos que apesar da discreta elegância da vizinhança tudo parecia fechado. Apesar disso, a fome nos fez esquecer o risco de deixar as tralhas ali e saimos à cata de um lugar aberto. Depois de uns dez minutos achamos um bar aberto. Ele era de frente para a praia e parecia ser movimentado durante o dia, mas parecia vazio. Subimos para a esplanada e um garçom de uniforme sujo nos recebeu e nos conduziu a uma mesa. Tlavex para nos agradar, ele nos colocou ao lado da única outra mesa ocupada, a de duas beldades que pareciam de fora. Elas sorriram e começamos a papear. Elas eram paulistas pertencentes ao “público alvo” de Pedro: trinta e poucos anos, cultas, bem de vida e interessadas em espiritualidade oriental. Depois que a comida e as cervejas vieram, tentando disfarcar a fome entre garfadas e goles de cerveja, descobrimos que uma delas levava o Rajneesh tão a sério que tinha gasto uma pequena fortuna para passar uma temporada no seu Ashram no Oregon. Contamos o que estavamos fazendo ali e conquistamos a sua simpatia Uma delas se engraçou tanto com o Pedro que depois de pagarmos a conta, partiu com ele para a barraca a fim de aprender seu “caminho para a sabedoria”. Naquela altura, já havia me acostumado a ver ele se dando bem e levava minha desgraça com bom humor.

Embora a outra também fosse atraente, não rolou química nenhuma. Isso não impediu que fossemos para um passeio pela praia onde matamos uma ponta generosa que tinha guardado. Depois de um papo desconfortavel e seco, voltamos para o bar onde ela decidiu manter seu “eu interior” para si mesma e retornou ao hotel. 

Sozinho naquela noite menos que interessante de Aracajú fiquei esperando que liberassem a barraca. Do nada, como num filme surrealista, apareceu um grupo de lésbicas bêbadas que saiu debochando do garçom, falando um monte de besteiras e rindo alto na maior sarração e beijação. Certamente eram as únicas mulheres abertamente homossexuais no estado inteiro.

No meio da confusão apareceu um cara local de visual esquisito que sentou-se na mesa ao lado, colocou os pés em outra cadeira e saiu puxando conversa.

“Caralho, meu irmão! Fumei uma maconha boa pra caralho! tô viajando legal!” Ele virou para mim e perguntou. “E você? tá doidão também?”

Aquilo foi estranho. Tudo me dizia que o sujeito não estava chapado coisa nenhuma. O bigode mexicano, os sapatos brilhantes e a camisa engomada para dentro da calça me diziam que pertencíamos a tribos diferentes. “Não, tô legal aqui, curtindo a noite.” 

“Porra! Eu quero ficar mais doidão ainda! Apresenta aê um do bom para a gente fumar!”

“Desculpa, mas não fumo essa coisa.” Pela reação quase hostil, deu para ver que ali tinha problema.

“Porra, cara! Senti que tu tem! Vai enrustir?” e deu uma risada forçada.

Eu já tinha desmascarado o cara, mas se era para jogar seu joguinho resolvi sacanear. “Chapado como? Tipo um ferro quente? Não estou entendendo.”

O cara insistiu. “Você é carioca, não é? Tou doido para experimentar a de lá, aperta um para a gente!”

“Sou do Espirito Santo, amigo! Apertar o quê? Tem alguma coisa frouxa nessa mesa?” Dei uma balançada nela. “Não… Ela está firme. Não estou entendendo.”

A conversa continuou até o cara resolver sair sem perder a pose. “Não vai apresentar, né brother? Tá bom, vou nessa. ” Ele tirou o pé da mesa, ajeitou o cinto, arrumou a camisa e desceu do platô piscando para mim e mandando um sinal de legal.

Depois que foi embora, o garçom veio falar comigo. “O senhor fez muito bem em não dar trela para aquele sujeito. Ele é capitão da polícia. Tava doido para morder uma grana do senhor.”

“Eu percebi na hora. Obrigado.” Deu vontade de perguntar porque ele não tinha me avisado logo. Agora era fácil. De qualquer forma continuei no bar, tentando me certificar que o policial tinha desaparecido. Lá pelas tantas, o Pedro apareceu para me dizer que ia dormir no hotel.

“Porra, Richard! Como é que tu não ficou com a outra? Tu não viu que ela tava dando mole?”

Sem saber se ele estava me sacaneando ou não, respondi: “Tu não sabe que sou uma merda nisso?”

Ele deu uma risada. “A minha falou que ela tinha gostado de você, mas que você nao fez nada. Meu irmão, tu paga para vacilar!”

Depois que sairam felizes da vida fui para dar uma volta na beira do mar e fiquei pensando naquilo. Quando desencanei, talvez por estar relaxado de novo, a chapação voltou com o vento noturno. Depois de um tempo, tomei corajem e voltei para a barraca ainda receoso que o cara do bar fosse lá me acordar no meio da noite para me levar. Quando entrei, deitei deixei a porta da barraca aberta para ficar apreciando a noite gostosa la fora. Com a visão das ondas quebrando no escuro, seu barulho e a tranquilidade em volta, bateu uma paz ímpar. Talvez se não existessem humanos naquele lugar e aquelas casas sem-graça, Aracajú seria um lugar gostoso. Fiquei pensando na paulista, se ela tinha me dado mole ou não, e quando e se curtiria transar com uma mulher mais velha. Com aquilo rodando na cabeça acabei pegando no sono e dormi bem.

No dia seguinte, o Pedro veio me acordar cedo. Apesar do dia sem uma nuvem no céu, o sofrimento continuou: a praia era terrível, as pessoas eram feias e a comida incomível. Era hora de voltar para a estrada.

*

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Samba Perdido – Capítulo 26 – parte 02

Nas praias de Salvador, assim como nas das outras cidades por onde passariamos no Nordeste, haviam figuras há muito desaparecidas nas do Rio: vendedores de caranguejos carregando pencas deles ainda vivos e amarrados a um pedaço de pau, vendedores de queijo coalho derretido na hora, carroças oferecendo sorvete caseiro, vendedores de abacaxi, além das tradicionais baianas vendendo acarajé e outras delícias locais. Separando a linha da costa dos intermináveis calçadões, uma infinidade de quiosques de madeira cobertos de palha vendiam cerveja, água de coco e iguarias da cozinha baiana preparadas com frutos do mar da área. Nas praias afastadas, assim como no Posto seis de Copacabana,  ainda havia pescadores com suas redes e barcos de madeira remanescentes de um passado em que a elite sequer sonhava em expor suas peles brancas ao sol e, Deus o livre, pegar um bronze.

Como no Rio, a praia era o coração do verão. Na segunda visita a Salvador já conhecia as praias certas. As melhores, Piatã e Itapuã eram distantes. Até fomos lá uma ou duas vezes mas a viagem de õnibus era longa e desconfortável. Por isso, adotamos o Porto da Barra que ficava do lado de onde estávamos dormindo. Ela tinha um clima parevido com o do Posto Nove em Ipanema. Localizada um pouco antes da saída da Baía de Todos os Santos, apesar de não ser oceânica as correntes se encarregavam de deixar o mar limpo. Sua água calma e morna era uma delícia e o grande número de pequenos barcos de pesca ancorados em frente davam um charme único ao lugar. Podíamos nadar até eles, pular para dentro e desfutar o luxo de relaxar flutuando sob o sol escaldante.

A hora certa para se chegar era depois do almoço, a hora certa de sair de sair era bem depois do pôr do sol, que volta e meia iamos ver atrás do Farol. Igual ao Posto Nove, aquela praia atraía a moçada em busca curtição, música, amigos novos e interessantes e, é claro, sexo. Talvez até amor. Nao demorou muito para Pedro e eu começarmos a conhecer o pessoal da terra. Em Salvador, como em todo o Nordeste, a rapaziada gostava de ser vista com pessoas de fora e convites para festas eram frequentes e sempre bem-vindos. 

“Hoje à noite vai ter um som porreta na casa de Capilé. O lugar é massa; um casarão antigo na Ribeira. Apareçam lá! Peguem o endereço.”

As festas eram sempre excelentes, com baseados circulando em todos os cômodos, gente jovem e bonita de todas as cores, muito riso e muito charme. Sendo os baianos poetas natos, havia muitas discussões coloridas e acaloradas acerca de cultura, musica, política e filosofia. Havia também o atrativo, quase inconfessável, de oferecerem comida e bebida de graça e de não se importarem com gente passando a noite e dormindo nos cantos. Teve uma festa que a gente foi que durou o fim de semana inteiro.

Se você não tivesse a sorte de estar transando no banheiro – quando o Pedro sumia já sabia onde ele estava – o melhor lugar era a cozinha, onde os convidados compartilhavam a animação com o dono da casa. Havia sempre um quarto ou uma varanda com pessoas reuniadas em torno de um violonista de talento. A qualidade é a quantidade deles era impressionante. Nunca consegui entender como nunca alcançariam sucesso enquanto tantas bandas ruins estourariam no Rio e São Paulo nos anos 1980.

Às vezes, também tocava, mas logo percebi que para causar uma boa impressão em Salvador, tinha que me ater ao rock que ninguém se sentia à vontade para tocar por ser fácil demais. Um local passaria vergonha depois de alguém tocar suas próprias músicas ou de exalar talento interpretando uma de Caetano Veloso, Gilberto Gil e dos Novos Baianos. Só que como nunca conseguiria competir com o que faziam de melhor, descobri que um carioca tocando rock ou reggae era uma novidade bem-vinda, principalmente se cantasse em inglês. Eu conseguia impressionar com Bob Marley, Jimi Hendrix, Pink Floyd e Rolling Stones, algo que muitos nunca tinham ouvido tocado em inglês “legitimo”.

*

A farra, a praia, conhecer pessoas novas, tocar violão e tentar – e, às vezes, conseguir –  transar eram apenas um lado da nossa aventura de verão. Nosso meio de transporte, as caronas, eram um dos pontos altos da nossa turnê Nordestina. A rotina para pegá-las era sempre a mesma: chegar de ônibus até um posto de gasolina na rodovia e lá ir de caminhão em caminhão pedindo uma carona para nosso próximo destino. Muitos dos motoristas mandavam a gente ir embora na hora, mas alguns até apreciavam nossa companhia inofensiva e, talvez, interessante.

A malha ferroviária brasileira é quase inexistente e apesar de 80% da população do país viver perto ou junto à costa, ninguém parece ter tido a ideia de transportar mercadorias por navio. Pelo contrário, quase todo o transporte entre as vastas distâncias é feito por estradas, motivo pelo qual havia um exército de motoristas de caminhão. Como qualquer outra categoria de trabalhadores, eram explorados, dormindo muito pouco e viajando dias a fio pelas estradas malconservadas do país. Faziam isso correndo o risco de serem vítimas de assaltantes e de policiais corruptos. Mesmo assim, os caminhoneiros que conhecemos eram pessoas espetaculares que possuíam sua própria cultura e um forte senso de camaradagem. Eles conheciam todas as curvas, saliências e buracos à frente, bem como os bons e maus lugares em termos de segurança, comida, diversão e mulheres. Todos tinham grandes histórias para contar e as famosas namoradas, ou até mesmo famílias, em cada parada.

Na maioria das vezes, íamos com o camioneiro na cabine. Normalmente havia uma cama de bom tamanho atrás do banco onde podíamos nos revezar para um cochilo. Outras vezes tínhamos que ir na carroceria, vivendo a liberdade mágica da BR trazida pelo ar livre, pelo céu aberto, pelos barulhos e pelo vento. À noite, viamos os faróis passando voados, as cidades na distância e as estrelas cadentes sobre montanhas enluaradas. Durante o dia, o sol forte trazia o cheiro doce da cana-de-açúcar que vinha das plantações ao lado da estrada. 

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Samba Perdido – Capítulo 26 – parte 01

Capítulo 26

 

“No Farol da Barra, o encontro é pouco
A conversa é curta, tudo é tão rápido como
se furta”

Farol da Barra - Novos Baianos

 

A próxima parada era Salvador onde iríamos ficar na casa de uma amiga com quem tinha tido um caso em Mauá. Rochele era mignon e uma gata, seu jeito inocente e sua voz suave escondia um lado selvagem e irresistível. O tom marrom da sua pele e suas feições possivelmente árabes a faziam parecer indiana. Por estar na moda, ela realçava o look usando vestidos soltos e batas e deixava seus cabelos escuros, longos e encaracolados nas pontas fazerem o resto. 

Rochele estava hospedada num apartamento perto do Farol da Barra, a Ipanema de Salvador . O bairro era bonito e tinha uma das praias mais bem frequentadas de cidade, o Porto da Barra, o posto nove de lá. Tambem tinha o Farol com vista para a lindíssima e enorme Baía de Todos os Santos. A rapaziada mais antenada sempre ia ali para curtir o pôr do sol.  Em frente, havia um espaço livre e grande onde, durante o verão havia shows carnavalescos gratuitos que atraiam multidões. Aquela maravilha ficava a um quarteirão de onde a gente ia ficar. 

O endereço perfeito não era o único motivo de estarmos ansiosos para chegar depois de um dia inteiro pulando de um caminhão em caminhão. Além de nos vermos livres dos mosquitos, teríamos um banheiro decente, camas de verdade e ar condicionado. Para mim, ainda havia a possibilidade de reviver o caso e passar noites em companhia feminina para aliviar a seca de Trancoso. 

Só que quando batemos na porta, não foi a a Rochele quem atendeu, foi um cara com sotaque francês e jeito de almofadinha. 

 “Sim, posso ajudarr em alguma coisa?”

Não acreditei, tinha conferido o endereço várias vezes com ela antes de sair do Rio e nenhum francês havia sido mencionado.  Por outro lado, a conhecia o suficiente bem para saber que de jeito nenhum estaria morando com um estrangeiro em Salvador.

Decepcionado respondi: “Desculpa, devo ter batido na porta errada.” 

Quando o cara estava para fechar a porta, coçei a cabeça e antes de aceitar que a danada tinha me dado o endereço errado de propósito, por via das dúvidas, perguntei: “Por acaso você sabe se no prédio tem uma garota carioca com cara de indiana, baixinha? O nome dela é Rochele. Talvez seja uma vizinha.”

“Ah, a Rochelle!” Ele me corrigiu com o sotaque “certo”. “Si, ela é a irrmã da Bebelle, minha namorrada, está morrando com a gente.” 

Ele abriu a porta um pouco mais, mediu a gente dos pés à cabeça e sem parecer muito impressionado, perguntou: “Quem devo anunciarr?”

Me segurando para não corrigir a pronúncia de Bebel, respondi: “Rique, um amigo do Rio, este é Pedro meu camarada de carona.”

“Um momento.” 

Ele fechou a porta na nossa cara sem cerimônia. No corredor, a gente ficou olhando um para a cara do outro sem saber se caía na gargalhada ou se chorava. Nem foi preciso dizer um para o outro que a gente tinha achado o cara babaca. Digerindo o ocorrido em silêncio ouvimos o francês bater numa porta. “Rochelle!! Teim uns carras do Rio lá forra parra falarr com você.”

 Demorou um pouco, a porta se abriu e a gente ouviu a Rochele responder com voz de sono: “Quem era?”

“Um deles falou que erra teu amigo, Rique.”

A gente ouviu os passos dela chegando e quando abriu porta lá estava ela com o cabelo desarrumado pela soneca me dando um sorriso amarelo. Ela perguntou para o francês, Alain, se a gente podia entrar.

“Clarro, clarro, por favorr, podeim entrrar.” 

O arcondicionado na sala estava uma delícia e fazia tempo que a gente não sentava num sofá tão confortável. Depois de reparar na decoração afro-baiana de bom gosto e voltamos a prestar atenção no Alain. “A Bebel foi darr uma volta com umas amigas. Posso oferecerr uma cerrveja? Vinho?”

A cerveja não dissipou o desconforto. Deu para reparar direto que não tinha lugar para a gente ali. Era um sala e dois quartos apertadíssimo. Dava para ver que o quarto da Rochele era mínimo. Mesmo se estivesse sozinho, duvido muito que ele tivesse liberado, ainda mais que não teria motivo para tal. Assim que ficou claro o motivo da nossa visita, ele falou na hora que não dava. Ele tinha razão, o apartamento era organizadinho demais para servir de base para dois malucos. Tinha outra coisa, pelo menos eu não estava com a menor vontade de encarar a frescurada que devia rolar ali. Contudo, nosso anfitrião se revelou mais gente boa que a gente esperava quando percebeu o que a cagada da irmã da namorada.

“Se vocês quiserrem, non vejo prroblema em vocês deixarrem as coisas aqui.” Vendo a decepção ainda estampada nas nossas caras, foi mais adiante. “Podem até vir tomarr banho e cozinharr. Mas vocês eston vendo; o aparrtamento é pequeno demais parra cinco pessoas. Desculpe.”

Depois de um papo estranho no qual poupamos a Rochelle, que não parecia muito arrependida, aceitamos deixar as coisas ali e agradecemos. Depois, descemos com a barraca para ver onde a gente podia acampar ali por perto. Exploramos a área e ficou claro que a única maneira para continuar naquele lugar privilegiado, perto da moleza de ter um chuveiro, uma latrina limpa e um lugar para cozinhar, era dormir no palco. 

Por ser o auge do verão, havia shows quase todas as noites ali, o que significava que teríamos que esperar até que todos fossem embora para subir no palco e passar a noite ali. 

Foi isso que fizemos.  Naquela primeira noite, por volta das duas da manhã subimos lá, desenrolamos os sacos de dormir no piso de madeira e , cansados da viagem, caímos no sono. Para nossa apreensão descobrimos horas mais tarde que não estávamos sós; havia uns mendigos dormindo embaixo do palco. Nunca interagimos, a não ser numa manhã quando um deles, visivelmente de ressaca, saiu para praticar a rotina de ginástica mais esdrúxula que tínhamos visto na vida.

A solução acabou sendo melhor que o esperado. O lugar se revelou seguro, retivemos as mordomias do apartamento do Alain e continuamos num dos melhores pontos da cidade. Talvez por não ter conseguido ficar zangado com a Rochelle, tivemos uma recaída e quebrei o jejum que estava me incomodando. Além disso, as pessoas achavam graça quando a gente explicava onde estava dormindo o que ajudava a quebrar o gelo nas conversas. 

*

No segundo dia saímos para explorar a cidade.

No início dos anos 1980 Salvador ainda estava alguns anos atrás do Rio. Mesmo assim, os efeitos nefastos a nova década já estavam começando a aparecer. A era do trio elétrico estava ficando obsoleta e novos gêneros de músicas de carnaval estavam aparecendo. Nos bairros populares, o reggae havia tocado os ouvidos, corações e mentes da comunidade culturalmente dominante na cidade: a afrodescendente. Nela, uma nova forma nova e adaptada de se tocar o ritmo jamaicano tinha surgido misturando o samba e o reggae, o samba-reggae. Esse genero dominava a cidade e onde quer que passassemos, quiosques, vendas, carrinhos ambulantes e pessoas comuns tocavam essa música alto para que todos pudessem ouvir, seja em rádios ou em toca-fitas .

O maior expoente do gênero era o Olodum, uma banda do Pelourinho, o bairro mais antigo de todo o país e um ícone da cultura afro-brasileira. No passado, as autoridades usavam sua praça central para punir publicamente escravisados mal comportados, fugidos ou revoltosos. Existem relatos de homens recebendo mais de cem chibatadas, molhando o poste de sangue e suor e depois tendo sal esfregado em suas feridas. Ao contrario do que acontecia em outras cidades pelo mundo onde os casarões das suas partes históricas eram habitados por cidadãos abastados, agora, os descendentes daqueles mesmos escravos moravam nas casas dos antigos opressores. A Unesco tinha inclusive tombado a área como patrimônio histórico mundial em 1985. O Olodum galvanizava essa herança em forma de música com orgulho das suas raíses africanas. Seu som reverberava por toda Salvador. Mais tarde, o a banda ganharia atenção internacional ao gravar com Paul Simon e Michael Jackson.

Por outro lado havia a novidade musical das bandas mais voltadas para o público branco e bem de vida que usavam teclados eletrônicos, caminhões futurísticos, aparelhagem de ultima geração e dançarinos performáticos numa tentativa de reinventar o trio elétrico. Elas eram bregas até dizer chega, tocando uma mistura facilmente digerível de salsa, soca e outros ritmos caribenhos. Fiquei aliviado ao saber que o Trio Elétrico de Dodô e Osmar e blocos afros e de afoxé como o Ilê Aye e o Filhos de Gandhi ainda estivessem ativos. Tivemos a oportunidade de vê-los juntamente com o Olodum e outros blocos tradicionais em eventos pré-Carnavalescos. Só que nenhum deles chegava aos pés do encontro dos trios que tinha presenciado quando fui com o Maurício.

*

 

Samba Perdido – Capítulo 25 – parte 02

Quem passava o verão em Porto Seguro  eram turistas convencionais do Brasil inteiro. A gente estava ali para se juntar à malucada de Ajuda e Trancoso, por isso dois dias depois estavamos de saida. Só que o retorno foi decepcionante. O paraíso de dois anos atrás parecia um outro lugar. Agora a principal atividade era o turismo. A temida luz elétrica já havia chegado e, com uma balsa melhor, havia carros estacionados por tudo quanto é canto. A vila estava abarrotada e tinha se tornado muito mais estruturada com bares mais elegantes, restaurantes e pousadas exclusivas. É claro que a inflação de vinte procento ao mês tinha chegado lá também e tudo estava mais caro. Cheguei a perguntar por pescadores que conhecia e descobri com tristeza que a maioria tinha deixado o vilarejo depois de vender seus barcos e suas casas a preço de banana.

Para mim, a santidade do lugar estava sendo ofendida pelo clima semi urbano e por cortes de cabelo estilo anos 1980 e a maquiagem gótica que alguns visitantes – e até mesmo alguns jovens da terra – estavam usando . Não queria ter contato com a maioria das pessoas ali e o sentimento parecia mútuo.

Para piorar as coisas, comecei a reparar que a agenda do Pedro na viagem era a de se enturmar com o pessoal mais “interessante”, leia-se mais abonado, ligado às artes, à neo-sofisticação mística-zen e em produtos alternativos. Essa turma era mais velha e com vidas estáveis. No geral estavam o mesmo circuito que a gente, só que de carro e parando em pousadas confortáveis.

Em Ajuda havia agora uma hierarquia ditando que aquele grupo era melhor que o resto. Eles alimentavam esta percepção se isolando em pousadas exclusivas e em praias afastadas, igual ao que o Gabeira tinha feito a dois verões passados. Para Pedro, seu público alvo era uma porta de entrada para um mundo de conforto financeiro e de sucesso profissional. Não que tivesse qualquer coisa contra aquelas pessoas, mas amizades por interesse não tinham nada a ver com o que estava fazendo ali.

À noite, com todos relaxados pelos dias mágicos daquelas praias, as pessoas se juntavam em rodas de violão num espírito mais comunal. Afinal de contas, esse sentimento era o motivo pelo qual todos tinham viajado de tão longe. Nessas horas, ficava claro que todos estavam atrás de uma experiência parcida com a que eu tinha tido na primeira vez, só que para mim aquela energia já tinha alçado voo.

Contudo, a magia eterna da música continuava viva e com esforço e sinceridade dava para fazê-la presente de novo. Naquele segundo verão em Ajuda, já tocava faziam cinco anos. Tinha melhorado a técnica e tinha incluído um monte de músicas e estilos novos no repertório. Também estava começando a dominar as manhas de cativar o público, algo aprendido em rodas e festinhas da escola e agora da faculdade. Quando um pequeno público se juntava a volta, era com o maior prazer que tocava noite à fora. Com alguns bares agora pagando músicos amplificados, as sessões aconteciam na praia onde a luz elétrica ainda não tinha chegado. Era comum encontrar um ou outro cara com um instrumento. A gente saía tocando e o pessoal ia se chegando. Se rolasse o clima certo, saía cantando.

Começava com músicas mais intimistas e psicodélicas como Terra, de Caetano Veloso, Caravana, de Geraldo Azevedo e Chão de Giz, de Zé Ramalho. Conforme a atenção ia aumentando, tocava algumas do Milton Nascimento, do Beto Guedes, dos Secos e Molhados, do Fagner e do Belchior. Depois de estabelecer o clima, introduzia uns clássicos da bossa nova como Wave e Garota de Ipanema. Do início suave, engrenava numa parte mais ritmada: músicas dos Novos Baianos e do Djavan, forrós de Luiz Gonzaga, algum rock nacional da Rita Lee e do Raul Seixas. Animado e cantando junto, o pessoal estava pronto para sucessos mais ritmados do Gilberto Gil e do Caetano Veloso. Com todos em ritmo de festa, mandava canções carnavalescas de Alceu Valença e de Moraes Moreira e para fechar a noite recorria ao Jorge Ben.

Havia vários músicos na area. Às vezes, não era eu no volante e quando isso ocorria fazia o mehor para adicionar lenha à fogueira música para que a magia acontecesse e que Ajuda voltasse a ser Ajuda. Era uma alegria sentir as pessoas serem maiores do que a aura negativa tomando conta do pais, voltando a ser elas mesmas e curtindo junto sob o céu estrelado.

Nem todos apreciavam a este experiência. Ficar ouvindo um violeiro acústico era considerado ultrapassado por muitos, principalmente pelos mochileiros heavy metal acampados no mesmo terreno baldio onde outrora tinha dividido a cabana com as brasilienses. Durante o dia, o clima era horrível: a praia vivia lotada e barulhenta. Gente das cidades vizinhas chegava de carro e, para se mostrar, ligavam o som nas alturas colocando música para lá de brega. Na vila, havia muita gente agressiva, ninguém se conhecia direito e o pessoal da terra estava antipático e dinheirista. O Arraial d’Ajuda estava estragado e queria ir embora. Trocar Ipanema por aquilo não fazia sentido.

Não era possível que Trancoso fosse dar tanta decepção. A eletricidade ainda não tinha chegado lá e o acesso continuava difícil. Mesmo se esbaldando em encostar no monte de gente “interessante” passando o verão em Ajuda – que eram as pessoas que mais gostavam do que eu tocava – Pedro também estava de saco cheio de ser tratado como um turista. Foi fácil convencê-lo de que se trocassemos de vila, a experiência seria mais autêntica, mais em conta e haveria um número igual ou talvez maior de pessoas “interessantes” para conhecer.

*

Dessa vez não foi necessário cruzar rios profundos no meio do nada e no escuro, afinal tínhamos uma barraca que montamos num canto do quadrado assim que chegamos. Contudo, as coisas haviam mudado em Trancoso também. Não encontrei ninguém conhecido e até o dono do bar havia mudado: Seu Manuel tinha sido substituído por um sujeito sizudo e antipático de Eunápolis.

Em nossa primeira noite tivemos uma introdução à nova realidade. Estava dormindo e o Pedro me cutucou: “Aê, Rique, tu ouviu isso? ”

Confuso e meio puto por ter sido acordado perguntei: “O que?”

Ele sussurrou: “Tem alguém mexendo com as nossas paradas lá fora.” Fiquei alerta na hora. “Shhh, abre a barraca quietinho e vamos pegar esse merda agora.”

Segurei no zíper da barraca e abri o mais rápido e mais silencioso possível, só que o cara ouviu, tomou um susto e saiu correndo. Quando conseguimos sair da barraca já era tarde demais. O louro falso de cabelos encaracolados e de shorts já estava longe, correndo protegido pela luz da lua.

O Pedro ainda gritou: “Volta aqui, ladrão filho da puta!”

A gente tinha dormido com nossas carteiras dentro da barraca por precaução. De qualquer forma, fomos checar as mochilas e foi um alívio ver que ainda estava tudo lá. No dia seguinte, vimos o ladrãozinho na praia todo enturmado jogando vôlei com a moçada.  Como não podíamos provar nada, a única coisa ao nosso alcance foi ficar encarando ele com a cara fechada, o que ele fingiu ignorar.

Tomar cuidado para não roubarem minhas coisas não foi a única coisa que aprendi naquela noite. Quando começou a clarear me dei conta que os mosquitos de Trancoso usavam as barracas dos campistas como centros de convenções. A claridade revelou um tapete deles cobrindo as paredes de nylon. Da outra vez, não tinha sido assim no barraco no meio do mato, devia ser o abafado quente que os atraía. Depois de ver aquilo não dava mais para dormir ali dentro. A única maneira de conseguir algum alívio foi sair com o saco de dormir, se deitar na sombra de uma casa e deixar que o vento os levasse.

*

Ao contrário de mim, um vara pau desengonçado em quem se podia contar as costelas e com cara de viajandão, Pedro tinha o corpo de um jogador de polo aquático. Com olhos pequenos e maliciosos, voz grave, pele cor de caramelo e cabelos encaracolados meio louros, ele fazia sucesso com o sexo oposto. Com um talento natural para aquilo, era supertranquilo, ia direto ao ponto e sabia as palavras certas e a hora certa de dizê-las.

Depois de uma semana e pouco no Sul da Bahia, os insetos e os ladrões não eram as únicas coisas me incomodando: minha falta de sucesso com as mulheres comparada com os triunfos dele estava difícil de digerir.

À noite, enquanto ele se dava bem, quando não estava tocando e todos estavam se divertindo perto de fogueiras, ocasionalmente a seriedade da minha situação fora dali tomava conta de meus pensamentos. Como seria o futuro naquela faculdade que não era para mim? O que aconteceria com a crise econômica cada vez pior e com a idade do meu pai avançando? Onde estava a namorada que se importava comigo e que gostava das mesmas coisas que eu? O quanto as coisas teriam que piorar até que elas começassem a melhorar?

Me sentia como se tivesse alcançado o topo de uma montanha em meio a uma linda paisagem para descobrir que do outro lado havia um depósito de lixo. Aqueles problemas eram como a parede de mosquitos na barraca: podia espantá-los temporariamente, mas eles voltariam não importa o que eu fizesse.

Muitas pessoas estavam na mesma situação: essa era uma geração de classe média órfa da prosperidade e da ideologia libertária e igualitária dos anos 70.Agora estava desprotegida da crise econômica e despreparada para lidar com ela. Alguns nos viam como um nicho de mercado. Um dos exploradores era Rajneesh, atualmente Osho, um guru indiano radicado nos Estados Unidos. Em Trancoso, só se falava dele. Baseando-se na psicologia ocidental e em filosofias orientais, ele pregava que o caminho para a iluminação espiritual era através da aniquilação do ego por meio da exaustão da libido. Criador de uma seita mundial em torno dessas teorias, suas terapias tinham forte conotação sexual, algo que duvidava ser autêntico na sociedade tradicional hindú. Naquele verão havia inclusive vários iniciados e iniciadas usando camisa/uniformes laranjas e carregando um colar de contas com a sua foto. Cheguei a ler alguns do seus livros; eram tão bem escritos que cheguei a ficar tentado a participar – muitas gostosas estavam fazendo isso – mas o preço exorbitante dos encontros e estadias nos  seus Ashrams me convenceu a ficar de fora.

Havia paralelos entre a filosofia do mestre indiano com o discurso do Gabeira. Os dois pregavam mudanças pelo uso do corpo. A diferença era que o ex-exilado estava interessado em se promover como autor e como político enquanto a seita era voltada para tirar dinheiro dos seguidores. Encontramos pessoas que tinham chegado a conhecer Rajneesh, ou o Bagwan, pessoalmente no seu centro gigantesco no estado do Oregon, nos Estados Unidos, um caro privilégio. Elas falavam em cair aos prantos ao ver seu olhar “penetrante e amoroso” que havia “libertado suas almas”.

*

As praias de Trancoso continuavam maravilhosas, bem mais tranquilas do que as de Ajuda. Igual ao que tinha acontecido na minha ida anterior, todos frequentavam de dia. Ficávamos sentados – a maioria brancos de centros urbanos – conversando, olhando para o horizonte azul claro e curtindo a brisa suave nos refrescando enquanto balançava as árvores e o verde logo atrás. Num flagrante contraste com minha primeira visita, ao invés de falar das maravilhas do aqui e agora, o assunto principal eram os livros daquele guru estrangeiro, velho e barbudo e as suas terapias tântricas para alcançar a iluminação espiritual. Nas cabeças daquelas pessoas ele era o único que, por uma quantia fixa, podia deixá-los em um estado de paz semelhante ao que tinha sentido apenas por estar sentado ali há dois verões atrás. Para começar um quebra-pau ou se tornar impopular com a galera, era só lembrar que ele estava desfrutando o seu sucesso em outro país, sendo conduzido de Rolls Royce no seu Ashram dando tchauzinho para seus seguidores que pagavam uma pequena fortuna para estar ali.

Eu ficava na minha, pensando que esse era “o” produto que todos queriam: se desligar da realidade num orgasmo infinito. Isso não era novidade. Vender uma ficção reconfortante como um refugio de uma realidade hostil já era – e ainda é – feito pelas grandes religiões há séculos. Já tinha problemas suficientes com a minha para brigar com os outros por causa disso.

Era compreensível que em um lugar com Trancoso, ninguém quisesse falar sobre suas angústias naqueles tempos sombrios, mas para que ficar falando o tempo todo sobre o Rajneesh? Meu instinto me dizia que as infelicidades, como as daquele momento, estavam além do nosso controle, da mesma forma que as bênçãos que havíamos recebidos nos bons tempos. Tínhamos o poder de decidir como reagir aos contratempos, mas nenhum guru ou pílula mágica poderia abrandar o que o destino tinha guardado para nós. Podíamos tentar transformar a realidade. Deixar a realidade nos transformar? Para mim, nunca!

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Samba Perdido – Capítulo 25 – parte 01

Capítulo 25

 

 "..Não me amarra dinheiro não
Mas os mistérios."

 Caetano Veloso - Beleza Pura

 

O barulho dos carros em alta velocidade indo em direção à Bahia naquela manhã quente e ensolarada prometia. Depois daquela noite bizarra, o que estaria nos aguardando estrada acima? Tínhamos dois meses de aventura pela frente. Animados, fomos de caminhão em caminhão pedindo carona para nosso próximo destino, Porto Seguro. Em pouco tempo conseguimos uma na traseira de um caminhão transportando carne seca.

“Podem deixar as coisas aqui na cabine, mas a viagem vai ter que ser lá em cima com os outros.”

Largamos as tralhas com um cara bem vestido ao lado do motorista e fomos para a traseira. Para subir, colocamos um pé no pneu, as mãos nas cordas grossas que prendiam a carga e num impulso paramos em cima. Lá, no plástico grosso que cobria a mercadoria, nos juntamos a um grupo de trabalhadores. Logo depois de nos acomodamos, o motor ligou e o caminhão partiu para a estrada. 

Sem entender o que estávamos fazendo ali, nossos companheiros deram umas boas-vindas desconfiadas. Usando roupas rasgadas e chinelos pré-históricos nos pés calejados, pareciam extras num filme sobre revolução na América Central. O caminhão pegou velocidade, ficamos todos curtindo em silêncio o vento da rodovia, eles segurando seus chapéus de palha e seus bonés para que não votassem. 

Viajar sem proteção em cima de um caminhão além de ser perigoso era ilegal. De repente, o cara bem vestido da cabine  abriu a porta, inclinou-se para fora e gritou: “Polícia!”

Todos tivemos que nos esconder embaixo do plástico engordurado por dez minutos enquanto ouvíamos o cara conversar com os policiais. Quando o caminhão partiu, ficamos deslizando sobre a carne escorregadia por mais cinco, até ele gritar dizendo que podíamos sair novamente. De volta a parte de cima do plástico passamos a fazer parte da galera. Para se fazer ouvir tínhamos que falar alto.

“Ó xente! Cês foi assaltado? Tão pegando carona por quê?”

“Estamos viajando sem grana pelo Nordeste, vamos subir até o Ceará.”

“Ceará?! Mas esse caminhão só vai até Feira de Santana!”

“A gente tá sabendo. Vamos descer em Eunápolis e de lá vamos para Porto Seguro.”

“Ah Porto Seguro, cês são sabido, terra de visitante bacana e de mulher bonita. Nós também vamo sair antes.” 

Um outro se juntou na conversa. “Nóis trabaia no frigorífico que fez essa carne seca. É fora de Vitória. Tamo voltando para casa depois de um mês.”

Um terceiro interrompeu: “Nós mora em Santa Maria do Paré, já ouviu falar?”

Respondi: “Não, nunca ouvi falar.”

“Ô Chico, esse carioca nunca ouviu falar de nossa cidade, passa a garrafa da cachaça de lá.”

A garrafa sem rótulo chegou em dois toques. “Essa cachaça é de lá, de alambique, é a mió dessa região toda.”

Um outro riu e gritou lá de trás: “Fala que é a mió do mundo!!”

O que tinha começado a falar com a gente disse: “Zeca, mostre a eles como que nóis bebe da garrafa. Num podi encostá na boca.”

As tremidas do caminhão e o vento forte faziam a manobra difícil. Depois dos três que estavam com a gente darem um gole, passaram a garrafa. “Beba aí, carioca!”

O Pedro foi primeiro e foi na manha, não caiu um pingo e ele sorriu para a galera tirando uma onda.

“Muito bem, carioca! Agora é você!”

Comigo não teve jeito, o caminhão deu uma sacolejada e a cachaça caiu fora da boca, escorreu até o pescoço e todos caíram na gargalhada.

Depois que a cana brava tinha passado pelas mãos de todos, outros se juntaram. A garrafa terminou logo mas apareceu outra. Quand a gente se deu conta ja estavamos bêbados e falando bobagem também.

“Meu irmão, essa carne seca foi a coisa mais fedida em que eu já deitei.”

“Minha mulher cheira mal assim, mas é de peixe!”

Após algumas horas subindo a BR aos solavancos e já com três garrafas de cachaça jogadas para o mato, o caminhão pegou uma estrada de terra e parou num bar no meio do nada. Todos saltamos e fomos para o balcão daquela cabana rústica. Nossos novos amigos fizeram questão de nos dar mais cachaça e nos ofereceram uma iguaria local: um órgão assado de um animal desconhecido, escuro, forte e em forma de um disco. 

“Isso aí é ruela de boi, vai te curar da cachaça.” Orgulhoso por nós sentirmos nojo, continuou: “Isso é uma dilícia e aínda faz o cabra dar cinco sem tirar de dentro.”

“Isso é o saco do boi amassado, não é não? Deixa eu cheirar esse negócio.” O cheiro só não fedia mais do que a carne seca debaixo do plástico quente misturada com bafo de cachaça.

Um deles pegou o pedaço dele, entornou um gole de cachaça, arrancou uma metade, mastigou um pouco e engoliu. “É assim que a gente come, come aí!”

Nosso orgulho nos forçou a fazer o mesmo. Estávamos embriagaos demais para ficar com nojo. Quando coloquei a coisa na boca, o sabor era tão ruim que curou a bebedeira na hora.

O cara bem vestido que tinha nos avisado da polícia – provavelmente um administrador – veio nos dizer que o caminhão já estava de saída e que o motorista estava a nossa espera. Ele e a rapaziada iam ficar ali até que o ônibus deles passasse e os levasse para casa. Nos despedimos da moçada e voltamos para o caminhão.

Dessa vez fomos na cabine e descemos em Eunápolis. Agora, estávamos apenas a uma uma hora de ônibus de Porto Seguro. Chegamos lá exaustos, mas com a sensação de que tínhamos cumprido a primeira missão. Foi fácil encontrar um camping perto da praia. Depois de montar a barraca, fomos curar a cachaça e limpar o fedor na água salgada curtindo o visual de fim de dia na praia cercada de coqueiros. A noite caiu rápido, achamos um chuveiro, tomamos banho e fomos dormir um sono merecido.

Passamos o dia seguinte nos esbaldando no sol e na água azul clara do sul da Bahia, curtindo a paz pela qual estávamos ali. A noite, fomos conhecer a vida noturna de Porto Seguro. Apesar de pequena e colonial, a cidade tinha muito charme e era quase urbana. O lugar era animado. O pessoal da terra enchia seus quintais com luzes coloridas, colocava mesas e cadeiras do lado de fora, entupia as geladeiras de cerveja, ligava o som no máximo e pronto, suas casas viravam lambaterias. 

A decoração e as pistas de dança pareciam com a de festas escolares, mas depois de convidar as garotas locais para dançar, logo se via que o jeito delas se esfregarem nas nossas coxas não tinha nada a ver com brincadeiras de recreio. Havia lugares mais caros e refinados abertos por pessoas que tinham se mudado das cidades grandes para lá, mas mesmo ali, não era surpresa sentir uma galinha bicar seu pé enquanto dançava. 

O engraçado é que, partindo dessa origem modesta, as lambaterias logo se espalhariam pelo país e seu sucesso ecoaria até mesmo na Europa.

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Samba Perdido – Capítulo 24 – parte 02

Ficamos sem entender nada e, meio envergonhados, os dois se levantaram para vir falar com a gente afastados da mesa.

“Pois é, meu irmão, os veados convidaram a gente para ir lá e falaram que vão pagar um jantar para nós quatro.”

Já eram dez da noite. Cansado da praia e da viagem, doido para dormir, falei: “Já comemos um hambúrguer, tamos na boa.” Cocei a cabeça e disse: “Aê, não dá para a gente dormir no quarto de empregada e deixar a chave com o porteiro amanhã de manhã?”

O Fernando respondeu: “Meu amigo, não me leve a mal, mas a gente mal conhece vocês, eu tô na responsabilidade do apartamento do meu tio e não dá para deixar vocês lá sozinhos.”

“Porra, mas a gente não está numa de comer veado.” O Pedro era menos diplomata que eu.

O Luiz já tinha entendido o problema. “Já falei com eles, vocês não precisam fazer nada, só precisam ir no restaurante e serem bem-educados. Depois a gente vai para o apartamento deles, vocês fazem uma salinha, vão dormir na sala de estar e a gente faz o resto. Já falei com eles. Pode ficar tranquilo, é só isso.”

O Fernando emendou: “Mesmo que vocês já tenham comido uns hambúrgueres, eles vão levar a gente para um restaurante de moqueca bonzão. Cês vão gostar.”

Me segurando para não fazer uma piada com comida, não acreditando que a gente estivesse naquela situação, me lembrei. “E amanhã? A gente vai ter que pegar as nossas coisas para pegar a estrada.”

O Fernando olhou para o Luiz também esperando uma resposta, dava para ver que ele estava menos entusiasmado com a coisa toda.

O Luiz respondeu: “Deixa comigo, vou convencer eles a passar em casa antes da gente ir para o reastaurante.” Ele deu um sorriso maroto e emendou. “Ainda por cima vou conseguir que te levem para a estrada amanhã, quer ver?”

Apesar de não gostar daquilo, naquela altura do campeonato não havia muita escolha. A barriga também estava interessada em experimentar a famosa moqueca capixaba. Saímos do passeio, nos apertamos dentro do carro das “amigas”. O Luiz explicou o problema e fomos todos ao apartamento para pegar nossas coisas. Quando viram o violão, “uma” virou para “outra” e disse.

“Nossa, que meninos talentosos, olha esse violão!”

“Ai, eu adoro cantar! Vocês vão fazer uma serenata pra gente?”

Respondi com um sorriso amarelo: “De repente… se rolar um clima.”

Esperando uma festa quentíssima mais tarde, a dupla gay levou todo mundo para o tal restaurante de moqueca. Bebemos vinho e a comida estava deliciosa, tudo por conta deles e em troca fomos educados e rimos das suas piadas. A “loura” era de fato muito engraçada.

“Tudo o que eu queria ser era o Papa. Aquela bicha é chiquérrima, não acham!? Eu ia me vestir toda de seda e ficar sentada naquele trono podre de chique mandando as bichas pobres limpar meus quadros.”

Após a sobremesa, o aperitivo e a conta, o próximo passo era ir para o ninho de amor. A “loura” morava num apartamento de dois quartos com varanda, mas sem vista. “Ela” era pintora e espírita e as paredes eram cheias de quadros da cara de um Jesus Cristo em cores gritantes e rodeado de pétalas.

“Essa é a entidade que me vem em sonhos para me proteger. Aposto que vocês não acreditam nessas coisas.”

A “morena”, que era mais recatada, mas que ria de tudo que a “loura” dizia, falou com orgulho. “Ela é muito talentosa, pintou todos estes quadros, não são lindos?”

O Luiz concordou: “Nossa, são lindos!”

A “loura” respondeu:“Obrigada, lindo, mas essa neguinha está sendo falsa, só gosta de quadros como aquele. ” Ele apontou para uma foto artística em preto e branco de um cara bem-dotado numa pose erótica. Daí ela se virou para mim.

“E você? Não vai tocar pra gente? Eu adoro bolero e música antiga. Aliás pode me chamar de Maysa.”

O Pedro e eu não aguentamos e caímos na gargalhada, me recompus e respondi: “Sabe o que é? A viola está desafinada.”

“Então afina ela, menino!”

Todo mundo, até o Pedro me pressionou.

“Beleza então.” Tirei a viola, que já estava afinada. “E então, Maysa, conhece essa? A noite do meu bem?”

A “Maysa” só faltou me agarrar. Ela até que cantava bem. Toquei essa e mais duas e depois guardei o violão.

“Muito bem carioca! A gente adorou!” O Luiz estava a ponto de soltar a franga também.

Dava para ver que ele ia ficar com a “Maysa” e o Fernando com a “morena”. O papo foi ficando tenso e depois de uma sessão de insinuações e evasivas, chegou a hora do vamos ver. Conforme combinado, cada um dos mergulhadores foi para um quarto com suas respectivas, enquanto a gente foi para a sala de estar para tentar dormir um pouco.

As luzes se apagaram, os casais fecharam suas portas e nós ficamos na sala, deitados em camas improvisadas e rindo feito dois idiotas.

“O Luiz deve estar perguntando para o barbudinho; você pinta como eu pinto?”

“Barbudinho! Hahahaha! ”

“Cara, ri mais baixo senão os caras não vão conseguir se concentrar.” Estava inspirado para falar besteira. “Tu reparou que o moreno é a cara do Little Richard. Brincadeira! O Fernando vai mandar ele abaixar para amarrar os sapatos e ficar só no wop bop a loo bop a lop ba!”

“Hahahahaha!”

Cerca de uma hora depois, uma das portas se abriu e fingimos estar dormindo. O Fernando estava para sair do apartamento e ouvimos ele dizer: “Desculpa, mas não estava inspirado essa noite.” Quase me levantei para perguntar se a gente podia ir junto, mas não deu tempo.

Depois que saiu, o apartamento ficou em silêncio, mas a porta do quarto permaneceu aberta e a luz acesa. Dava para sentir a energia inquieta do moreno.  Alguns minutos depois ouvimos passos vindo em nossa direção. Com meus olhos fechados, comecei a pensar comigo mesmo: “Xiii, vai dar merda!”

Aí ouvi o Pedro dizer: “Meu irmão, tira a mão daí porra!!!”

Após alguns segundos, o mesmo aconteceu comigo e dispensei o cara e a sua mão boba. Depois disso, o moreno baixinho saiu do apartamento batendo a porta e dizendo:

“Seus brochas mal-agradecidos, vocês deveriam estar dormindo na rua!”

No dia seguinte, o outro casal nos acordou num astral muito melhor. A “Maysa” estava felicíssima vestindo um robe de seda lilás já bastante maquiada. Agarrada no pescoço do Luiz, ela disse: “Bom dia, meninos”. Daí olhou com carinho para a cara do Luiz, ainda meio sem graça com a gente. “Esse bruto roubou minha virgindade ontem à noite, vocês acreditam?”

Sentamos para conversar em volta da mesa e acabamos descobrindo que a “morena” insatisfeita era o vizinho de cima. Ele era o dono do carro que a gente tinha andado e que possivelmente ia nos levar até a BR. Ficamos conversando, esperando que descesse para o café. Quando chegou, estava mal-humorada e, por vingança, disse:

“Olha, o carro está sem gasolina e tenho um monte de coisas para fazer hoje de manhã, não vai dar para ir até a estrada.”

A “Maysa” estava do nosso lado.

“Deixa de ser amarga, neguinha, hoje é um dia novo e você vai achar um lindinho tão gostoso como esse para você. E não seja mentirosa, enchi o tanque do teu carro ontem e o salão está fechado hoje.”

O outro tentou protestar, mas a nossa ”amiga” emendou:  “Somos duas moças de família e vamos fazer o que prometemos para esses cariocas, depois vamos dar uma volta com esse bofe.”

Tomamos café juntos e não demorou muito para o moreno melhorar seu humor. De barriga cheia, fomos os cinco até um posto de gasolina fora da cidade. Ainda meio atordoados por conta daquela primeira noite maluca, agradecemos e nos despedimos.

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