Como será o amanhã?

Como será o amanhã?

Não faz muito, estive nas estepes da Ásia Central. Região de uzbeques, cazaques e que tais. Viagem inesquecível. Paisagens planas, intimidade respeitosa de homens com a Natureza, silêncios expressivos. O melhor é que apreciei tudo isso sem sair do lugar, apenas fechando os olhos e ouvindo o poema sinfônico de Borodin composto em 1880. Está tudo lá.

O primeiro contato com Borodin veio através de um LP dos anos 60 com canções russas (ainda o tenho, com os amarelos de idade avançada na capa). Eugene Ormandy regia a Orquestra de Filadélfia, cargo que ocupou por mais de 40 anos. Minha geração viveu a transição acelerada das formas de ouvir música. Do disco de goma-laca (78 rpm), que quebrava com irritante facilidade e fazia a festa do demagogo Flávio Cavalcanti, ao LP de vinil (33 rpm), passando depois por fitas cassete, CDs e as atuais plataformas etéreas. Num dos filmes Men in Black, um protagonista comenta que não tinha mais paciência para trocar o formato do disco branco dos Beatles. Ainda ouço CDs com frequência, os LPs de vinil voltaram espantosamente à moda, mas isso já é outra história.

A aceleração das transformações tecnológicas, que não se reduzem à música, me leva a pensar no que aguardam a nova geração e as que virão em seguida. Com filhos e netos nas vizinhanças, dá calafrios desenhar os possíveis cenários do futuro. Não caio na tentação fácil do “antigamente tudo era melhor”. Bestialidades, estupores e inseguranças vêm de muito longe. No entanto, há sinais no horizonte que anunciam tempestades.

Para começo de conversa e manifestação de tristeza, descubro que o hábito da leitura anda patinando. Pesquisa recente mostrou que, no Brasil, 53% dos entrevistados não tinham lido nenhum livro em 2024. No mesmo ano, quase 7 milhões de leitores foram perdidos em relação a 2019. Parece evidente que o vácuo está sendo preenchido por telas de todos os tamanhos e, com elas, cresce a impaciência para dedicar-se à leitura. Livro é objeto grávido de interrogações. Esconde um pacto com a surpresa e o encantamento que se revelam lentamente. Construir na imaginação personagens e histórias exige dedicação, cada vez mais escassa entre os seduzidos pela luz azul do mundo virtual. Aonde isso vai chegar? Ninguém sabe, é como no velho samba da União da Ilha: Como será o amanhã?/Responda quem puder.

A Primeira Guerra Mundial resultou em cerca de 20 milhões de mortos. Usou-se à farta armamento químico. Dizia-se que seria a guerra para acabar com todas as guerras. Vinte e um anos depois do seu final em 1918, a Alemanha nazista invadiu a Polônia, dando início ao conflito mais letal da história (cerca de 80 milhões de mortos). Hoje, os gastos militares no mundo chegam a US$ 2,7 trilhões, cifra maior do que o PIB do Brasil. O investimento na Morte não perde tração. O premiê do Reino Unido, filiado ao Partido Trabalhista (!), acaba de apresentar um plano para construir seis novas fábricas de armas e explosivos, ao custo de US$ 2 bilhões. Esta é a herança que estamos deixando para a turma que chega. Um espírito belicoso, de destruição em massa, de desumanização e ódio. A argamassa solidifica com a ascensão da extrema-direita à tripa forra.

Há duas semanas comentei a patologia chamada bebê reborn. Uma dona de boneca, por exemplo, está na Justiça pleiteando licença maternidade pela posse do plástico humanoide. Quer mais? Em Berlim, funciona um bordel high-tech que oferece aos clientes bonecas para sexo. O serviço é anunciado como alternativa para viver experiências “diferentes” sem “trair de verdade” a parceira. Parece que estamos nos encaminhando para um mundo simulado, um metaverso, o mundo bizarro sugerido nas histórias do Super-Homem. A vida transformada, no limite, em rede social.

Estou partindo do pressuposto de que o planeta continuará existindo. Nem isso se pode garantir. A crise climática não dá trégua. De acordo com a Organização Meteorológica Mundial, há 80% de chances de que pelo menos um dos próximos cinco anos supere 2024 como o mais quente da história.

A geração anterior à minha viu surgirem as bombas atômicas e termonucleares. A minha acompanha a erupção da informática e da automação acelerada de todas as dimensões da vida. Ao mesmo tempo, o Brasil, como acentuou um colunista da Folha de S. Paulo, “está aparvalhado, de fanfarras militares, berrantes, motosserras, negacionismo, homofobia e assombrações religiosas”.

Misturem-se todos esses ingredientes e se terá uma pequena ideia da encrenca que a garotada terá pela frente. Seria bom que ela assumisse a inquietação. Não tivesse vergonha de indignar-se. Carregasse de dúvidas todas as fronteiras existenciais. Seriam os primeiros passos para não apenas estar no mundo, mas ajudar a transformá-lo. Que inclua na rotina ouvir trecho de música do Lenine (o recifense, não o barbicha revolucionário): Meu amor/O que você faria/Se só te restasse um dia?/Se o mundo fosse acabar/Me diz o que você faria. Não adianta procurar respostas no Google.

Abraço. E coragem.

Que preguiça

Que preguiça

Vai procurar alegria/Fazer moradia na luz do luar, vai vadiar (Zeca Pagodinho)

Acontece com todo o mundo. A gente anda por aí, distraído, cruza com alguém conhecido e, pimba!, não cumprimenta. Não é por mal, o pensamento está pousado na morte da bezerra, fugindo das mazelas cotidianas. De um modo geral, o rápido desencontro não resulta em ruído forte, laços não se rompem pela distração vadia.

Descobri, casualmente, que faço essa desfeita quase todos os dias. Andando pelo calçadão da avenida Atlântica, cruzo com o vulto simpático, sorriso congelado em bronze, aceno que chama jogar conversa fora sem culpa ou titubeio. Nunca parei para sorrir de volta ou imaginar dois dedos de prosa com a estátua do Dorival Caymmi. Até que…

Proseando com o compadre Miguel, livreiro da Folha Seca, ele me chamou a atenção para um diálogo gravado entre Caetano Veloso e o Dorival. A baianidade, ritmo tranquilo, girava em torno da preguiça, folclórica virtude do Dorival. Disse ao Miguel que admiro os que fogem da obrigação neurótica de estar sempre em estado de produção, das multidões que transformaram telas em novos órgãos do corpo humano.  Vai daí, resolvi explorar o jeitão preguiçoso de viver.

Dorival e Jorge Amado eram grandes amigos. Suas conversas, reais e surreais, deram bons causos. Vejam esse. Estavam eles na casa de Jorge, em Salvador. Dorival recostado numa rede (ah, as redes baianas…), com os pés no chão, uma perna de cada lado da rede. Jorge, sentado numa cadeira em frente ao amigo. Depois de um silêncio gostoso, Caymmi perguntou:

– Jorge, você que está aí em frente, me diga: minha braguilha está aberta?

– Não, Dorival, tá não.

Caymmi espreguiçou-se, respirou fundo, e arrematou:

– Então eu mijo amanhã…

É bom não confundir preguiça com indolência. Dorival compôs alguns dos maiores clássicos da música brasileira. Seu tempo não era movido a turbina, sua necessidade nada tinha de mercantil. Como dizia o poeta Ferreira Gullar, a arte existe porque a vida não basta. Vida que, para Caymmi, ia muito além de compor e cantar. “Compor vou compondo devagar e sempre, tu sabes como é, música com pressa é aquela droga que tem às pampas sobrando por aí. O tempo que tenho mal chega para viver: visitar Dona Menininha, saudar Xangô, conversar com Mirabeau, me aconselhar com Celestino sobre como investir o dinheiro que não tenho e nunca terei, graças a deus, ouvir Carybé mentir, andar nas ruas, olhar o mar, não fazer nada e tantas outras obrigações que me ocupam o dia inteiro”. Em outro momento, sintetizou: “Uma certa vagabundagem faz bem. Sem essa vagabundagem, não sai”.

No Código Penal de 1890, lia-se que vadiagem é crime. Deixava em aberto a definição de vadiagem, o que resultou, claro, na perseguição de ex-escravos que encontravam enormes dificuldades para entrar no mercado de trabalho. Na aurora do samba, músicos eram considerados vadios e, flagrados com seus instrumentos, iam em cana. João da Baiana tocava seu pandeiro quando foi preso. Solto, o instrumento permaneceu na delegacia, “apreendido”.

Num livro publicado em 2004, Lya Luft defendeu uma “reforma das nossas prioridades”. Cansou de ouvir gente dizendo não ter tempo “nem para respirar”. Sugere uma “faxina em nossos compromissos e deveres”. Claro que há algumas obrigações inegociáveis, que amarram o tempo e a vida. No entanto, há outras que, pesadas corretamente, poderiam ser adiadas ou mesmo canceladas. O objetivo da faxina seria “aliviar a vida, o coração e o pensamento”. O prazer de ficar à toa ou na presença de quem se gosta, sem cronometragem, ajuda um bocado.

Adaptando Mario de Andrade para os dias de hoje, eu diria que muito Elon Musk e pouco Dorival Caymmi os males do mundo são. E antes que me esqueça: cada vez que voltar a cruzar com a estátua do compositor de Marina, O Vento, Maracangalha e Sábado em Copacabana, em frente à colônia de pescadores, vou dar-lhe um saravá silencioso. Sem preguiça.

Abraço. E coragem.

Memória necessária

Memória necessária

O resto é silêncio (William Shakespeare)

Ontem, faria sessenta e oito anos. A Indesejada das Gentes solou o bolo de aniversário. Com Ela, não se negocia. Fez plantão no quarto despojado e não se comoveu com o cortejo de amigos que se revezavam na cabeceira do leito, inconformados com o que estava para acontecer. Caronte já preparava os remos para a travessia final. O barqueiro sombrio desconhece o sentido de concessões.

Com pedaços de lucidez que lhe restavam, desejou apenas escapar do mês de fevereiro. Em anos diferentes, fora nele que morreram pessoas queridas. Não conseguiu. Sob os cantares de mockingbirds, que estavam particularmente agitados sob o sol californiano, parou de respirar no ano passado, no último dia do mês agourento.

Habitávamos extremos opostos. Ela tinha a irrequietude de um suricato. Talvez por isso tenha colecionado frustrações afetivas. Preferiu morar longe da família, embora demonstrasse por entrelinhas que não conseguiria viver sem ela. Mudava de planos à tripa forra, parecia estar ausente mesmo quando ficava ao alcance do olho. Escorregadia como os bons dribladores. Através dos alimentos, como cozinhava bem!, cativou, encantou e agregou vizinhos. A cozinha foi, provavelmente, sua área de descarga, de alívio das tensões, do sossego que, fora dali, não se permitia. Recuperou receitas ancestrais da avó materna, pássaro de Makow Mazowiecki, e as publicou num livreto precioso.

Dei-lhe esquecimento e silêncio, que duraram décadas, uma cicatriz no joelho, crueldade adolescente, o pavor de um fantasma (lençol semovente) em noite de ausência dos pais. Criei rivalidades artificiais, rixas pueris. Afrontava sua paixão beatlemaníaca dizendo que os Rolling Stones eram os maiorais. Bobagem que servia para demarcar territórios em épocas de disputa pela atenção dos adultos.

Hoje, muita estrada percorrida, estou convencido de que não é possível conhecer totalmente uma pessoa. Há tantas pedras no caminho, tanto caos e insegurança pendurados, tanta contradição cotidiana, que o máximo que se consegue é uma silhueta precária. Adaptamo-nos a ela para espantar a solidão. Afinal, caetaneando, de perto ninguém é normal.

No final da década de 80, passei por uma fase difícil, que resultou em muitas reavaliações. Com o degelo, selei um tratado de mútua tolerância com ela. Reconhecemos nossas diferenças, mas tentamos, sem rigidez, criar um pouco de intimidade. Visitei-a no exterior algumas vezes, conversamos um tantinho quando ela vinha aqui. Revelou-me, certa vez, um trauma de rachar. O pai morreu de ataque cardíaco aos 41 anos. Um dia antes, ela lhe deu um sanduíche de pão francês com leite condensado. Ao saber da morte fulminante, imaginou que tinha sido a culpada. Por envenenamento! Criança com 9 anos incompletos, pode-se  calcular o tamanho do estrago psíquico.

Meses antes de morrer, demonstrou um afeto por mim que não esquecerei. Procurou um presente que teria a minha cara. Achou-o numa feira de antiguidades (sou mesmo muito antigo). Era um lindíssimo tinteiro francês, guarnecido por um leão (tara recorrente dos colonialistas europeus) e velho de séculos, que hoje enfeita minha escrivaninha. Todos os dias me saúda com mesuras imaginárias. Prova definitiva de que construímos laços, apesar de fantasmas e silêncios. Dá uma saudade estranha. Filme falado em sânscrito, sem legendas ou dublagem, que faço questão de não decifrar.

Eu estava no quarto, à cabeceira de seu leito final. Preparou-se para minha vinda com um cabeleireiro amigo, modelador de cabeleiras hollywoodianas, como se fosse receber o imperador da Abissínia. Perguntou-me sobre preferências alimentares. Esses cuidados, esses carinhos, tão imensamente significativos no momento da despedida derradeira, a Ceifadora não ia levar, não.

O sujeito oculto desta pequena, mas necessária, memória é Felicia Gruman Penido. Minha irmã.

Abraço. E coragem.

Duas páginas

Duas páginas

O diagramador do jornal não deve ter percebido. Colocou em páginas consecutivas, uma ao lado da outra, dois assuntos aparentemente isolados, mas organicamente ligados. Na primeira, verdadeira revelação de horror, somos informados de que quase um terço dos adultos brasileiros (entre 15 e 64 anos) são analfabetos funcionais. Estamos estagnados aí desde 2018. Este mundão de gente não consegue interpretar frases elementares e tem enorme dificuldade para ler com um mínimo de fluência.

Os números aterradores mostram a indigência do sistema educacional básico, amputando o exercício pleno da cidadania. Além da falta crônica dos investimentos necessários, há situações que transformam as escolas em locais perigosos para alunos e professores. De acordo com levantamento do MEC, oito em cada dez professores de escolas públicas já presenciaram atos de bullying em sala de aula. São cada vez mais frequentes, também, os casos de agressões a professores.

A essas barreiras estruturais juntam-se os vícios das onipresentes telas. Conta uma jornalista, hoje professora da graduação, numa crônica recente do Ruy Castro: “É uma luta para fazer com que os alunos leiam um livro inteiro. Eles vivem grudados no TikTok ou no Instagram e não têm concentração. Outro dia, ao ver que todos estavam ao celular, parei a aula. Perguntei a alguns o que estavam vendo – e muitos não se lembravam. Não se lembravam do que tinham acabado de ver 15 segundos atrás!”.

No mundo digitalizado e dinamizado por tecnologias que se renovam rapidamente, o analfabetismo não é diferente de uma prisão. O analfabeto funcional exclui-se não apenas de amplos mercados de trabalho, mas do maravilhamento com as novidades que afirmam a criatividade humana. Não tomará conhecimento, por exemplo, da mais recente descoberta do telescópio James Webb. Analisando imagens do exoplaneta K2-18b, detectou moléculas que podem indicar a presença de formas de vida. Isso a 120 anos-luz de distância da Terra (cada ano-luz representa cerca de 9,5 trilhões de quilômetros)!

Bem, o que aparecia na página ao lado? Um adolescente de 15 anos, tratado como “missionário” e “profeta mirim”, diz ser capaz de curar o câncer. Faz pregações usando gestual e vocabulário de adultos. Simula ataques epilépticos como sinal de contato com transcendências. Já ultrapassou 1 milhão de seguidores em redes sociais. Cada vez que ouço falar neste tipo de charlatanismo, sou tomado por um misto de indignação e compaixão. Charlatães aproveitam-se de carências várias e prometem o impossível. Vejam vocês. Se alguém, qualquer alguém, fosse mesmo capaz de curar o câncer, melhor seria fechar todas as clínicas oncológicas, sucatear os equipamentos terapêuticos e incinerar os medicamentos usados em quimioterapia. Convocava-se o milagreiro, organizar-se-iam (desculpem o modo Jânio Quadros) filas de atendimento e a doença seria banida. Claro que isso jamais acontecerá e as multidões de crédulos, tomadas por dor e desespero, continuarão a idolatrar os mistificadores. Angústia nunca foi boa conselheira.

Há outros minipastores sapateando no rico mercado da fé. Tenho pena desta gente miúda. Encurtam a infância, sacrificada por interesses adultos. Por outro lado, quem consultaria uma criança ou adolescente em busca de orientação de qualquer tipo? É gente imatura, que está em formação, inocente do impiedoso vale de lágrimas, submetida a uma sólida corrente de inseguranças. Podem vestir-se como adultos, mas menores continuam sendo.

Duas páginas de jornal, dois aspectos que nos ajudam a compreender – e temer – o ornitorrinco Brasil.

Abraço. E coragem.

Malandragens

Malandragens

A raça humana/não consegue suportar muita realidade (T. S. Eliot)

Quem mora neste balneário metido a besta conhece bem a expressão malandragem. Embora alguns a levem na maciota, uma brincadeira com assinatura carioca, a verdade é outra. Desde pequeno a ouço com muitas variantes. Quando a cidade era cortada por trilhos, apareceu o malandro que, ardiloso, tentou vender bonde para matutos mineiros. Provavelmente deu com os burros n’água. Mineiro (o folclórico) é quieto, mas de tolo não tem nada. Outros malandros inventaram truques para vender bilhetes de loteria. Existiam os do mundo cão, hábeis na navalha e exploradores do que a crônica policial chamava de baixo meretrício.

As práticas foram se aperfeiçoando e hoje sentam praça na administração municipal do Rio. Temos, aí está!, um prefeito malandro. Adora fazer jogo de cena, fantasiado de gente boa. Na prática, a cidade que governa está entregue às traças. Montado no jogo das aparências, anda lorotando por aí que o Rio deve ser a “capital honorária” do Brasil. Mais um carimbo ilusório, fantasia rota, para quem mora e circula pela cidade, onde o direito de ir e vir em segurança foi amputado e a desordem urbana e a incivilidade reinam sem concorrência e em cada rua, em cada esquina. Não conheço estatísticas, mas suspeito que o Rio não faria feio num torneio de ansiedade, insônia e sustos paranoides.

Desconheço os critérios, mas a Unesco escolheu o Rio como Capital Mundial do Livro em 2025. Sério mesmo? Alguns dos bairros mais populosos da cidade não têm sequer uma livraria decente. A calle Corrientes, em Buenos Aires, tem muito mais livrarias do que o Rio inteiro. Não há políticas públicas de incentivo permanente à leitura e ao consumo de livros. Salvam a honra e o apetite literário dos cariocas os heroicos sebos, polos de resistência bibliófila. Não há mais livrarias como a José Olympio e a Civilização Brasileira, que, muito além da venda de livros, eram pontos de encontro de intelectuais e de convivência entre leitores e seus autores prediletos. O prefeito, claro, capitaliza a notoriedade que lhe caiu no colo. Vai assinar eventos efêmeros, brilharecos que renderão aplausos alugados e morrerão no último dia do ano. Malandragem de baixa estirpe.

Ano passado, o bairro de Copacabana foi violentado muitas vezes por eventos privados. A prefeitura alugou a areia da praia para todo tipo de furdunço. O maior deles, com uma autodenominada periguete recebida a pão-de-ló, forçou os moradores a um exílio interno, ornado por trânsito caótico, vias interditadas, montanhas de lixo, urina e resíduos impublicáveis espalhadas por todo canto. Animado com a publicidade, o Malandro do Piranhão decretou: maio será, doravante, o mês de grandes eventos. Tradução: conformem-se, cidadãos, seu direito de ir e vir estará limitado por um tempinho. Já estou abastecendo meu bunker com provisões e paciência. Daqui a alguns dias, uma certa Lady qualquer coisa (seria a Neide Aparecida, atualizando suas perucas?)  vai sacudir a pança e comandar a massa. Ótimo para os que também vão sacudir panças. Nosotros, os demais, fecharemos pra balanço e aguardaremos a borrasca passar.

Se o Reizinho da Cidade Nova gosta de mobilizações, que tal seria transformar o mês de maio, por exemplo, num período de convocação da população para mutirões de conserto e manutenção das escolas municipais? Seria uma forma criativa de aproximar os cariocas da triste realidade dos equipamentos educacionais públicos desta cidade e uma alternativa não demagógica de fazer política ao lado da que João do Rio chamava “alma encantadora das ruas”. Sem plumas, paetês e figurinos exóticos, mas com verdadeiro amor pela cidade.

Ainda em Copacabana (desculpem o excesso de citações do bairro, mas é aí que moro), aconteceu uma situação que resume o espírito de porco que anda reinando por aqui. O cinema Roxy, inaugurado em 1938, fechou as portas e seus restos mortais foram transformados em Roxy Dinner Show. Trata-se de casa de espetáculos para turistas, com refeições inacessíveis ao cidadão médio.

Assim tem funcionado o botequim. Tapete vermelho e balangandãs para turistas, salve-se quem puder para os locais. Com trilha sonora eletrônica em volumes assassinos.

Abraço. E coragem.

Silêncios

Silêncios

Olha bem no dicionário e reflita: não há nenhuma palavra com um significado só (Millôr Fernandes)

Colecionador e pesquisador precisam de sorte. Num porão semiabandonado, o filatelista sonha esbarrar no Olho de Boi. Num sebo, soterrado por livros e revistas empoeirados, o pesquisador atento, e bem-aventurado, descobrirá a edição original do Almanhaque 1949, autografada pelo Barão de Itararé. Dentro de uma lata enferrujada, amassada e descartada de Balas Balsâmicas Silva Araújo, o numismata pode encontrar a pataca há muito desejada. Pé de pato, mangalô, três vezes. Salve o pé de coelho!

Imaginem então a excitação do jornalista, escritor e pesquisador Thiago Uberreich quando descobriu o conteúdo de um lote de áudios que ganhou de um desconhecido. Eram registros sonoros de transmissões pela TV dos jogos da seleção brasileira na Copa de 70. Estavam no acervo da falecida TV Tupi (canal 6, no Rio de Janeiro) e, há muito, dados como perdidos. A transmissão naquela Copa foi feita por um pool de emissoras, com imagem e locução unificadas. Ali, ao alcance dos tímpanos de Thiago, ressuscitavam Fernando Solera, Geraldo José de Almeida, Walter Abrahão e Oduvaldo Cozzi. Equipe de lordes da voz, antíteses dos esgoeladores sem noção que dominam as narrações de hoje.

A ascensão dos locutores estridentes não é gratuita. Ela se dá no exato momento em que tudo no tecido social parece demandar algazarra e som nas alturas. Desde a praga dos bares aos shows megatônicos nas praias, dos “debates” tóxicos nas redes sociais à prática política. O silêncio, a introspecção, o murmúrio, o papo calmo, viraram esquisitices. Coisa de gente chata.

Com o excesso de ruído, perde-se o espetáculo das vozes ao redor. Drummond conversava com a amendoeira que coloria seu olhar na janela do apartamento em Copacabana. Quantas poesias nasceram desta troca silenciosa? Numa das cenas mais belas da história do cinema, com enorme carga dramática, não há palavras. No final de Eles não usam black tie, os personagens de Gianfrancesco Guarnieri e Fernanda Montenegro catam em silêncio as pedrinhas que vinham misturadas com os grãos de feijão. Tinham acabado de passar por experiências difíceis, traumáticas. Suas expressões mostram cada nervo rompido, cada angústia, cada afirmação de solidariedade. Quem precisava de palavras? The sounds of silence.

Certa vez, perguntaram ao José Saramago o que achava da morte de palavras, aquelas que desaparecem pelo desuso. Respondeu lamentando-se e projetando um futuro em que nos comunicaremos por monossílabos. O empobrecimento vocabular acentua-se com a linguagem telegráfica das mensagens eletrônicas e o tombo na leitura de livros. Este tipo de silêncio destrói conteúdos.

Há vozes sufocadas, muitos pedidos de socorro que caem no vazio. As populações periféricas nas grandes cidades não conseguem interlocução para agregar vozes à luta permanente contra violências identificadas e toleradas. Moradora do Complexo da Maré, conjunto de favelas na Zona Norte do Rio, descreve sua infância com trilha sonora de tiros e gritos. “Cresci achando que o mundo era assim. Que era normal ter tiro toda hora. Aqui na Maré a gente conhece a maldade cedo”. E vai seguindo a procissão, a cidade barulhenta, surda às vozes de seus filhos persistentes.

Como Thiago, eu gostaria de recuperar vozes do passado. Melhor dizendo, uma voz. No Bar Mitzva, o Menino discursou por cercaintimidade de 15 minutos. Texto decorado depois de meses de ensaios. Escrito em ídish, idioma com o qual tinha pouca . O Grande, enfatiotado e cabelo reco fazendo dupla com o Menino, segurou o microfone e lascou: “Manda brasa!”. A coisa foi toda gravada, mas a expressão robertocarlista acabou cortada na edição final. Tantos anos depois, eu queria ouvir novamente o Zissinho sair do sério por breves segundos e me animar daquele jeito. Se pudesse, eu pediria que, depois, ele largasse o microfone e me abraçasse. Em silêncio cúmplice. Faria muita diferença.

Abraço. E coragem.