A propriedade proudhoniana como garantia da liberdade: função da propriedade

A propriedade proudhoniana como garantia da liberdade: função da propriedade

(…)

Dirá, ainda, Pierre Proudhon, que a propriedade é um fato universal, irresistível, irrefreável. Ainda que pareça morrer aqui e ali, após esta ou aquela revolução, ela ressurge, como a fênix. Por quê?

Porque ela é a garantia da liberdade. Proudhon chega a isso: ela é o roubo e a miséria da forma como está, mas ela, na sua substância, é expressão de liberdade e garantia de liberdade.

O roubo e a miséria são frutos de uma anarquia que ele apontou como capitalista ou, ainda, desordem, porque as forças não estão equilibradas. É o contrapeso para o poder do Estado e, por isso mesmo, a propriedade encarna a Justiça, porque limita aquele poder estatal que, de outro modo, seria ilimitado. Os exemplos históricos são os mais numerosos (1945, p. 20).

O conceito que Proudhon vem desenvolvendo desde suas primeiras obras não é unidimensional, mas o das pluridimensionalidades, das pluralidades e das diversidades.

A realidade para Proudhon é a pluralidade, com forças digladiando ininterruptamente, que devem ser compreendidas racionalmente. Tais forças são a razão de ser do homem, da sociedade e do universo e, no equilíbrio, convivendo ou coexistindo, elas se mantêm, porque se manter é seu destino.

Daí o horror que Proudhon tinha por discursos fechados, messiânicos, unitários, religiosos ou políticos, incluindo-se os discursos comunistas.

A ideia de uniformidade, de adestramento, de doutrinação, era considerada por ele de caráter utópico ou de perversão. O homem é criativamente livre, e esta liberdade é a meta, não uma liberdade que termine onde começa a do outro, mas que conviva com a liberdade de outrem, formando um universo de liberdades, diversidade e pluralidades.

Portanto, essa dimensão exige o conhecimento e a investigação, a um só tempo, racional e livre. Ser racional é ser livre para investigar. No início de seu livro “O Que é a Propriedade?” diz ele que sente satisfação em inverter a ordem de seu próprio livro (1997,
p. 11), além de investigar e questionar com toda a liberdade.

Pois bem, a partir desse pressuposto, básico no pensamento proudhoniano — multiplicidade de forças, o que se busca é o equilíbrio. Por exemplo, o equilíbrio entre os princípios da liberdade e da autoridade, o equilíbrio da anarquia com a ordem, em uma dialética em que os termos não se excluam, mas coexistam.

Eis o porquê de Proudhon afirmar que a autoridade, que nasce do seio da família, encontra força na tribo e se torna a autoridade política do Estado. Proudhon é racional e ao pensar (pensare, balança), sabe que precisa sempre de dois pratos na balança.

Quando ataca o comunismo, não o faz por vaidade, mas por compreender que os sistemas efetivados ou possivelmente efetivados no comunismo (1945, pp. 22-29), ao tornar a propriedade estatal, o estatismo comunista (que é autoritarismo), na verdade comete o erro do cavalo de Troia, porque a propriedade não pode ser destruída, e tampouco se harmoniza com o Estado.

Ao trocar o indivíduo pelo coletivo, o comunismo comete outro erro, no pensamento proudhoniano, e estará fadado ao insucesso porque o elemento “egoísmo” é da natureza humana, e força alguma pode abatê-lo. Proudhon não conheceu sistemas comunistas reais, apenas os chamados utópicos, antecipando vários fatos do século XX.

Propriedade, indestrutível e absoluta, opõe-se ao Estado, indestrutível e absoluto. Esta oposição, que gera o equilíbrio, no pensamento de Proudhon é a clareza da razão.

Não há, exceto por utopias, quem tenha destruído o Estado e a Propriedade. Por isso, ao abandonar a justificativa de origem da propriedade, trabalho inglório de civilistas e suas inconclusivas explicações — que considera ridículas (1945, p. 41), ele aponta para o fim, para a função da Propriedade: opor-se e propiciar o equilíbrio com o Estado.

O Estado, pela sua natureza, pelo exercício de autoridade, será sempre contra a liberdade. A Propriedade tem por função a garantia da liberdade. Sem o Estado, a Propriedade degeneraria em abusos incontroláveis, expondo ao máximo o egoísmo — inato a qualquer pessoa, impondo a anarquia capitalista.

Das formas de possuir a terra: a comunidade, o feudalismo e a propriedade privada, a única que expressa integralmente a alma humana, e seu egoísmo, é a propriedade privada.

Mas, não apenas isso, pois tanto na comunidade quanto no feudalismo, a propriedade está controlada pelo coletivo, e Estado, ou pelas forças feudais, entre elas a do senhor feudal e do clero, ambas vivendo, no pensamento de Proudhon, como parasitas (1945, pp. 22-27).

A Revolução de 1789, ao abolir o sistema feudal, elevou a propriedade como direito natural, fez renascer os pressupostos do direito romano e propiciou o Código Civil francês. Em todos os casos, inaugurou a contradição, como dito acima: a propriedade é direito de abusar de modo absoluto, mas nos limites do regramento legal.

A isso Proudhon chama oposição entre dois absolutos. Assim, Proudhon apresenta a sua nova teoria da propriedade, com base na sua função, no seu fim (1945, p. 78), a partir de um jogo dialético que opõe a autoridade estatal ao egoísmo privado ou, em outras palavras, a propriedade. A síntese, para ele, é a liberdade, aliás, a garantia de liberdade.

(…)

Pietro Nardella-Dellova. “A propriedade proudhoniana como garantia da liberdade: função da propriedade“, in Direito Civil: Relações sobre Coisas. Vol. 3. 2ª edição. 2025, p. 178 e segs.

 

Uma bibliografia para o Direito Civil em chave civilizatória constitucional

Uma bibliografia para o Direito Civil em chave civilizatória constitucional

Amigos e amigas, salve!

Indico, aqui, a  bibliografia que compõe parte do meu acervo bibliográfico pessoal, utilizada como necessária para a compreensão do Direito Civil em chave  civilizatória constitucional. Tal bibliografia encontra-se na “indicação bibliográfica” dos meus livros de Direito Civil.

Mencioná-la pressupõe um ato de resistência contra a o desprezo contemporâneo pelos livros, principalmente no uso (indecente) do ChatGPT para produção de textos (sem autencidade, honestidade e autoria real).

Indicação bibliográfica (real e física) para nossos livros de Direito Civil em chave civilizatória constitucional.

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ZITSCHER, Harriet Christiane. Introdução ao Direito Civil Alemão e Inglês. Belo Horizonte: DelRey, 1999.

 

O que penso sobre os Árabes, sobre os Judeus e sobre a coexistência e convivência entre Judeus e Árabes e entre Israelenses e Árabes-Palestinos?

O que penso sobre os Árabes, sobre os Judeus e sobre a coexistência e convivência entre Judeus e Árabes e entre Israelenses e Árabes-Palestinos?

O QUE PENSO SOBRE ISRAEL E PALESTINA E SOBRE JUDEUS E ÁRABES

 (Pietro Nardella-Dellova)

 

Seguindo minha Palestra sobre Israel e Palestina, o estudante fez três perguntas aleatórias:

 

  1. O que penso sobre os Povos Árabes

 

Expresso uma visão di profundo respeito pelos povos árabes, defendendo a dignidade e o direito à autodeterminação, ao mesmo tempo em que rejeito qualquer forma de ódio ou discriminação contra eles. Minha postura é movida pelo humanismo, pela ética e por uma defesa intransigente dos Direitos Humanos.


Os pontos centrais do meu pensamento incluem:

 

  • Defesa do Povo Palestino: Sou um defensor vocal do reconhecimento global do Estado Árabe-Palestino, argumentando que esse reconhecimento “dignifica um Povo REAL e o direito à autodeterminação.” Para mim, esse reconhecimento é uma questão de “Ética Judaica e Direitos Humanos.”

 

  • Rejeição ao Ódio e à Discriminação: Condeno veementemente o ódio contra os árabes-palestinos, assim como condeno o ódio contra os judeus. Em minhas próprias palavras: “Não há liberdade de expressão para incentivar o estupro e a morte de homens e mulheres judeus, nem para incentivar e celebrar a morte de árabes-palestinos!”

 

  • Visão Universalista e Ética Judaica: Minha abordagem está enraizada em uma interpretação humanista do judaísmo que valoriza o universalismo e a justiça social. Isso me impulsiona a defender a coexistência pacífica e a igualdade entre todos os povos, independentemente de sua origem étnica ou região.

 

  • Crítica à Ocupação e à Extrema-Direita: Critico explicitamente a ocupação dos territórios palestinos e as ações de grupos de extrema-direita, tanto em Israel quanto em outros lugares, que se opõem à paz e ao reconhecimento dos direitos árabes.

 

Conclusão: Em suma, demonstro uma postura de solidariedade e respeito pelos povos árabes, defendendo a coexistência, o diálogo e o reconhecimento de seus direitos legítimos, posicionando-se firmemente contra qualquer forma de racismo, preconceito ou conflito.

 

2. O que penso sobre os Judeus

 

Sou judeu, e minha visão sobre os judeus é a de quem enfrenta a realidade tecendo minha herança cultural, ética e histórica diretamente em minha própria identidade e trabalho acadêmico. Alinho-me a uma “esquerda judaica” e defendo uma interpretação humanista e libertária do judaísmo.

 

Os pontos centrais do meu pensamento incluem:

 

  • Identidade Pessoal e Herança Cultural: Sou um judeu italiano, vindo de uma família do antigo gueto de Nápoles, e carrego comigo o “legado cultural judaico de milênios de história.” Minha identidade judaica é central em minha visão de mundo.

 

  • Judaísmo Humanista e Libertário: Vejo o judaísmo não apenas como uma religião dogmática, mas como uma tradição ética e emancipatória. Minha tese de doutorado, por exemplo, explora as “afinidades eletivas” entre o Judaísmo e os Direitos Humanos, sugerindo que a tradição judaica oferece os próprios fundamentos para uma ética universalista.

 

  • Compromisso com a Justiça Social (Tsedaká): Minha visão destaca o princípio judaico da Tsedaká (justiça/caridade) e a importância vital das mitzvot (boas ações) quando se trata de promover a justiça social e o bem-estar do próximo, como um pilar do mundo judaico.

 

  • Crítica ao Antissemitismo e ao Ódio: Como judeu, posiciono-me ferozmente contra o antissemitismo, condenando qualquer forma ou manifestação de ódio ou preconceito contra o povo judeu.

 

  • Uma Postura Política Distinta: Faço parte de um grupo de “judeus sionistas progressistas” que se diferenciam tanto dos judeus de direita (a quem acuso de apoiar cegamente governos israelenses conservadores) quanto de setores da esquerda que, em minha visão, praticam o antissemitismo sob o disfarce de anticionismo. Defendo a solução de dois Estados (Israel e Palestina) com base na ética judaica e nos Direitos Humanos.

 

Conclusão: Em resumo, para mim, ser judeu significa carregar uma herança rica em valores éticos e humanistas, que deve inspirar a luta por um mundo mais justo e a defesa universal dos Direitos Humanos.

 

3. O que penso sobre a coexistência de Judeus e Árabes, e entre Israelenses e Árabes-Palestinos

 

Defendo ferozmente a coexistência entre judeus e árabes, e entre israelenses e árabes-palestinos, como a única solução justa e viável para o conflito na região. Minha posição é construída sobre princípios humanistas, éticos e no direito internacional.

 

Os pontos centrais do meu pensamento são:

 

  • Uma Solução de “Dois Povos, Dois Estados”: Há décadas venho pedindo uma solução de dois Estados (Israel e Palestina) como a única maneira de garantir o direito à autodeterminação para ambos os povos. Acredito que os palestinos têm direito a um Estado, assim como os israelenses.

 

  • Ética Judaica e Direitos Humanos: Para mim, reconhecer o Estado Árabe-Palestino é um imperativo da “Ética Judaica e dos Direitos Humanos.” Argumento que o universalismo intrínseco a ambos os conceitos cria uma base natural para a paz.

 

  • Humanismo e Diálogo: Em debates e ensaios, clamo por uma “perspectiva humanista” sobre o conflito e aponto que, embora a amargura seja profunda na região, as tradições judaica, cristã e muçulmana oferecem fundamentos éticos para a dignidade humana e o diálogo.

 

  • Crítica à Extrema-Direita e aos Terroristas: Critico explicitamente os grupos de extrema-direita que, em minha visão, não querem participar da coexistência e da paz, sustentando que eles devem deixar a Cisjordânia e Gaza. Pela exata mesma medida, critico explicitamente o terrorismo do Hamas e da Jihad Islâmica, os quais afirmo não estarem lutando pela paz, mas pela total exterminação dos judeus israelenses.

 

  • União pela Coexistência: Acredito que árabes e judeus devem se unir, pois viver juntos é uma “questione de fraternidade,” e que a história brasileira, com sua própria experiência desses povos vivendo lado a lado, poderia servir de exemplo para a paz.

 

Conclusão: Quando se olha para o panorama geral, sou um defensor de uma paz fundamentada no reconhecimento mútuo, na igualdade de direitos e na coexistência pacífica e soberana de ambos os povos na Terra Santa.

 Novembro de 2025

Giuseppe Pietro Buono Nardella-Dellova

 

NOTAS:

  1.  Esta perspectiva alinha-se ao arcabouço universalista dos Direitos Humanos, expandindo princípios de dignidade e coexistência internacional.
  2.  Para tratamento acadêmico, ver: NARDELLA DELLOVA, Giuseppe Pietro Buono. Judaísmo e direitos humanos: um estudo das contribuições judaicas na tessitura dos direitos humanos. Tese de Doutorado em Ciência da Religião – PUC-SP, São Paulo, 2021. A tese aborda as “afinidades eletivas” e a matriz multicultural judaica como força histórica emancipatória.
  3.  Posição baseada na crítica do direito como instrumento de libertação estrutural, examinada na jurisprudência libertária e na filosofia crítica das instituições civis.
  4.  Para análise de garantias constitucionais, direitos fundamentais e coexistência civilizatória, ver: NARDELLA-DELLOVA, Giuseppe Pietro Buono. Direito Civil: Relações Sobre Coisas (Vol. 3). São Paulo: Edição do Autor, 2024.

 

BIBLIOGRAFIA:

  •  NARDELLA DELLOVA, G. P. B. Judaísmo e direitos humanos: um estudo das contribuições judaicas na tessitura dos direitos humanos. Tese de Doutorado (Ciência da Religião) – PUC-SP, São Paulo, 2021.
  •  NARDELLA-DELLOVA, G. P. B. Direito Civil: Relações Sobre Coisas (Volume 3). Edição do Autor, São Paulo, 2024.
  •  NARDELLA-DELLOVA, G. P. B. Pierre Proudhon e sua Teoria Crítica do Direito Civil. Edição Kindle, 2021.
  •  NARDELLA-DELLOVA, P. (Org.). Direito, Mito e Sociedade. Edição Kindle, 2020
Prefácio ao livro Pierre Proudhon e sua Teoria Crítica do Direito Civil: Anarquismo, Teorias da Propriedade e Kibutzim

Prefácio ao livro Pierre Proudhon e sua Teoria Crítica do Direito Civil: Anarquismo, Teorias da Propriedade e Kibutzim

Pierre Proudhon e o Direito Civil sob o olhar de Pietro Nardella-Dellova: Prefácio ao livro Pierre Proudhon e sua Teoria Crítica do Direito Civil: Anarquismo, Teorias da Propriedade e Kibutzim

 

O anarquismo, cuja teoria revisitada por Pietro Nardella-Dellova, embasa o primeiro capítulo do presente livro, é certamente inerente ao pensamento socialista e imponderável quando colocado ao lado de qualquer pensamento econômico neoliberal, com o qual contrasta: é luz solar que afasta vampiros e combate o vampirismo da exploração.

Conforme destaca Nardella-Dellova, o embrião do anarquismo, enquanto ideia, origina-se nos debates das aulas de Sócrates, entre seus discípulos Antístenes e Platão e, posteriormente, entre suas respectivas Escolas. Antístenes funda a Escola dos Cínicos (em referência a Cinosarges, ginásio onde funcionava a sua Escola), um pouco menor que a Escola de Platão, à qual se opunha publicamente. A Escola de Antístenes ficou conhecida como sendo a Escola da filosofia dos trabalhadores gregos, enquanto a de Platão, excessivamente aristocrática. No mesmo cenário grego, igual tensão já se havia observado anteriormente entre a poesia camponesa e libertária de Hesíodo e a poesia aristocrática de Homero, assim como entre a escola libertária e feminina da poeta Saphos e as Escolas patriarcais atenienses. Posteriormente, verificaram-se embates filosóficos, sobretudo, entre Epicuro, criador da Escola chamada Jardim de Epicuro, caracteristicamente libertária e internacionalista, em face das Escolas tradicionais fundadas em Atenas, entre as quais a platônica. Nardella-Dellova aponta, também, as características “anarquistas” entre os Judeus de Jerusalém no primeiro século, principalmente entre os fariseus e essênios, contra a imposição dos saduceus, detentores do controle dos serviços religiosos do Templo, e contra a ocupação romana. Os sábios Hillel e Jesus de Nazareth são, de acordo com Nardella-Dellova, duas dessas figuras libertárias, contestadoras e “anarquistas” daqueles tempos.

Entretanto, o anarquismo, enquanto pensamento orgânico de caráter filosófico, desenvolveu-se somente na Europa em resposta aos desdobramentos da Revolução Francesa, e como repercussão do Iluminismo, tendo em Pierre Proudhon seu maior expoente, aliás, chamado de pai do anarquismo. O anarquismo é, nesse sentido, parceiro crítico e ilustre do socialismo, como força teórica e prática. Porém, defendendo “a outra” alternativa de superação, foi colocado em permanente debate antagônico com os socialistas, entre os quais, Marx e Engels. Assim como o pensamento dos seus contendores, o anarquismo proudhoniano erguia-se como fórmula histórica contrária a tudo que a sociedade moderna burguesa erigia.

As ideias do anarquismo, mais do que seus próprios formuladores do século XIX, perduram e repercutem até hoje na academia e nas ruas, algumas vezes até de modo inconsciente. Nesse livro, Nardella-Dellova lança luzes sobre o anarquismo como teoria crítica, desfazendo conceitos e preconceitos, e desconstruindo visões distorcidas e equivocadas. Sob a construção do pensamento anarquista se erguem sólidas plataformas, entre as quais: (1) a luta contra a exploração do homem pelo homem como modo de produção que se estrutura no princípio legal da propriedade privada enquanto direito definidor e separador dos homens; (2) a defesa da possibilidade do desenvolvimento de uma sociabilidade humana em direção a formas libertárias, autonomistas, que se oponham a padrões autoritários (de autoridade!), projetos de domesticação e regimes de controle em geral estimulados por direções burocráticas em forma de Estado e; (3) a defesa da capacidade racional e afetiva do homem e em sua punção libertária.

As evidências empíricas de experiências sociopolíticas nesse paradigma são escassas e raramente estudadas de modo substantivo até porque em geral requerem grande erudição para responder a seus adversários do passado e do presente. E porque é absolutamente necessário esclarecer, com excelência, suas bases e fundamentos para que se possa compreender o significado do anarquismo até nossos dias, sobretudo quando deparamos com o avanço do conservadorismo e do neofascismo, características do poder neoliberal hegemônico, do qual o estágio do capitalismo neoextrativista tanto necessita, chegando mesmo, como se verifica nos dias atuais, às raias do genocídio e do necropoder como formas de controle social para ampliar sua ganância ao mesmo tempo em que submete e escraviza corpos fragmentados ampliados como massa de miséria, e para esconder os destroços que gera contra o ambiente e a natureza.

O livro PIERRE PROUDHON E SUA TEORIA CRÍTICA DO DIREITO CIVIL, de Pietro Nardella-Dellova, é esse sopro de conhecimento erudito e jurídico, que poderá ajudar nossas esperanças libertárias a serem mais bem consideradas e compreendidas. Nardella-Dellova, Professor e Pesquisador de Direito Civil Constitucional e de Filosofia do Direito há muitos anos, recupera academicamente, no segundo capítulo do livro, as obras proudhonianas, em especial as três nas quais Proudhon trata da Propriedade: Qu’est-ce que la Propriété? ou Recherches sur le príncipe du Droit et du Gouvernement (de 1840), Système des Contradictions Économiques ou Philosophie de la Misère (de 1846), Théorie de la Propriété (de 1862, publicada em 1865), e as apresenta, primeiramente para contrapor-se, com objetividade, aos preconceitos jurídicos dos repetitivos Manuais de Direito Civil, e, concomitantemente, como elemento teórico para a construção proudhoniana de uma teoria trilógica da propriedade.

Proudhon é um pensador-chave para questionar a suposta condição privada como essência civilizatória. Nas obras acima citadas, respectiva e trilogicamente, Proudhon: (1) denuncia o droit d’aubaine (expressão intraduzível que indica o direito ao roubo); (2) desvela a miséria criada pela visão estritamente burguesa da propriedade “sagrada”, e; (3) apresenta uma possível e nova função libertária da propriedade (para muito além da hoje conhecida função social da propriedade).

Além disso, não é pouco que Nardella-Dellova, cultor da alta Doutrina do Direito Civil e dos valores constitucionais do Estado Democrático de Direito, traga para o seu debate a crítica que Pontes de Miranda, grande civilista, também faz acerca da Propriedade, ou seus elogios, na linha de Ruy Barbosa, sobre o pensamento científico de Pierre Proudhon. Do mesmo modo, aproveita a visão refinada e crítica de Orlando Gomes, referência no Direito Civil e no Direito do Trabalho, em oposição flagrante à visão dogmaticamente estreita de Clóvis Beviláqua, Washington de Barros Monteiro, Luiz da Cunha Gonçalves, Carvalho Santos e de outros civilistas.

Finalmente, no terceiro capítulo desta obra, Nardella-Dellova nos oferece um olhar, a partir da filosofia judaica anarquista dos proudhonianos Gustav Landauer e Martin Buber, do pensamento judaico crítico de Hannah Arendt e da pesquisa presencial conhecida como Kibutz e a Entidade Cooperativa (1964) de Waldirio Bulgarelli (antigo Professor de Direito Privado da Faculdade de Direito da USP), sobre a experiência original dos Kibutzim judaicos como utopia/topia judaico-anarquista, mutualista e proudhoniana, fato muito escassamente documentado e pouco valorizado. À vista do mundo, os Kibutzim foram sendo avaliados como erro enquanto a ênfase deveria estar no processo constituinte do Estado de Israel, em sentido contrário, balizado por um modelo cada vez mais estatista e centralizado, onde outras formas de governança coletiva, como as kibutzianas, foram sendo sufocadas. O livro nos sugere considerar a burocracia autocrática estatal e a pressão do Mercado em tensão com os Kibutzim anarquistas (registre-se, o autor diferencia-os entre Kibutzim judaicos, de 1870 a 1948, e Kibutzim israelenses, a partir de 1948), e nos deixa em suspense e na vontade de retomar essa mesma utopia/topia para, inclusive, ponderar as causas dos vários conflitos e questões regionais. Esse livro muda nosso olhar sobre a história e sobre a liberdade humana, e já por isso me parece extraordinário!

 

 

 

 

To the son in the Piccola Caffetteria (Pietro Nardella-Dellova)

To the son in the Piccola Caffetteria (Pietro Nardella-Dellova)

The following day, we arrived very early in the outskirts of the Province of Napoli, very close to our ancient Jewish Quarter and the old Synagogue-School (Ah, the Synagogue-School!). We entered, and my son looked at those buildings, some ancient, others modern, with flowers in the windows illuminated by the morning sun. There was already some movement in the streets, and his eyes were wide with amazement at having arrived there. We left the car in a certain place and began to walk along Corso Appio Claudio and Piazza della Repubblica. My son looked all around, at those terraces with clothes hanging high, like open-air cellars; when we crossed Via Giambattista Vico, my son stopped, moved, and said to me:

— Babbino, I am smelling the exact same scent of my grandfather in this place — what nostalgia!

I embraced him without saying a word, and we went to a bar near the Baronial Castle, because that moment demanded another coffee in LA PICCOLA CAFFETTERIA; and at the tables on the sidewalk, letting the fragile sun rest on our faces, for it was very cold, we ordered our macchiato.

My son has an open expression: if he is displeased, you can see it on his face; when he is happy, his green eyes shine, his skin brightens, and a smile is stamped across his face! He had vivid eyes, an illuminated face, a strikingly stamped smile, and his coffee in hand, as he looked deeply at me and intoned ‘O Paese d’ ‘o Sole. I placed my coffee on the table and put my hand on his shoulder:

— Here, son, from the seeds we planted, I have received flowers, trees, and fruits! However, the greatest joy is having planted them, because life belongs to simplicity and is worth more, far more, than existence. Life is Poetry and music, journey, encounter, plains, air. Existence is poem and noise, road, distance, labyrinth, suffocating gases. And the violence committed against one being, any being, is committed against all and against the Eternal!

Love is truly sowing acts of kindness! Wisdom is never calling them seeds! And the heart is the universe where life is privileged with Shalom. There are no cries, deaths, violations there — only music, serenity, loyalty, affection, gentleness! If I fail, son, it does not matter. Make your heart a place of good earth and let there be flowers, of all kinds that can be found, of various scents and colors. But do not die among them! Make delineated paths, with stones that endure, and scatter many signs, large signs, immense, expressive signs, in every corner:

NO KILLING HERE!

Wide paths for people, because, after all, a garden does not exist without people. And do not be displeased if they create pathways between the flowers, of mere trodden earth, to go, come, and be, because this is the life of the human being, opening pathways — but not destroying the garden. Do not wish for more than this! The butterflies and the angels belong to the Eternal.

Turn life into a house, but do not use disposable material. It must endure and generate nostalgia, leave memories, strike deep roots, and bear fruit. Open windows in all directions and raise a high roof that follows the ceiling, so as to have enough air and music diffused like human unction and blessing.

In the house, son, keep few Things — more people. No business and many encounters. Among Things, prefer those that are simple, rustic, and durable. Among people, those who are fully human. And, among them, women, especially those who smell of Poetry and can be called a “blessing of God,” since their senses are more developed than in other beings, their scent is more pleasant, and when they open their mouths, they lead poets toward all worlds.

Do not forget coffee: it is vital. Prepared, never by maids, in cloth filters; and served, never to the hurried, in enameled iron cups. Everything must be deeply lived and seen, smelled, tasted, heard, spoken, and understood — never tomorrow! For this reason, your house must be the gathering of good people, heart and music, much music! And Poetry, much Poetry!

Leave outside the one who commodifies and makes a madhouse of the world, a desert of the forest, a chemical sewer of the river, a slave of the human, an idol of a Rabbi, a market of sacred places. Leave outside the one who tramps on ants, the one who fishes for sport, the one who keeps a dog on a chain and does not remove its ticks, the one who shoots birds; above all, those who kill small birds or display them in a cage — with them, not even a greeting! Leave outside the one who curses children (especially in the womb), despises the elderly (including those in nursing homes), and calls themselves a spontaneous generation.

Leave outside the one who loves the hamburger and the necrophage — who photographs and films too much, incessantly and desperately; the one who sits at the table as if before a trough; the one who loves slander and lashon hara; the one who loves the cell phone and internet nights; the one who loves cars and money; the necrophile who loves porn videos and, above all, pedophiles, even virtual ones.

In fact, leave outside the one who loves any things and despises the human and the Eternal; above all, the oppressive, prejudiced, arrogant, corporatist, usurious nightmare, the banker, the landlord, the trafficker, the legalist, the pedophile, the sadist, the mercenary, the imperialist, the Nazi, the Fascist, the antisemite, the terrorist, the torturer, the executioner (and every vampire and parasite); and, furthermore, the cowardly, envious succubus, the voyeur, the masochist, the fanatic, the racist (black or white), the monarchist, the café-au-lait republican, the neo-Fascist, the Hitlerite, the Mussolinian, the militarist, the anti-ethical, the traitor who embraces and laughs that dental laugh, without reason, and does not look you in the eye. The liar, the vile parliamentarian, and every parasite and dregs of humanity.

 And leave outside, also, the one, with or without a ring — anxious, who spies and loves to talk (well or poorly) about the lives of others, whether at a wedding, at a school-family meeting, at a graduation, at a barbecue, at an electoral, charitable, or orgiastic gathering, at a birthday, for Mother’s Day, Father’s Day, at Christmas, on New Year’s Eve, at a pedagogical meeting, or at a funeral; whether at the hairdresser or in Parliament, in the synagogue, in the mosque, in the temple, in a SPA, in a clinic or in the gym, in a condominium or in a shantytown, on a plane, on a bus, in an elevator, on the stairs, at the front gate, at the door or at the window, in corridors and waiting rooms, at the market or at school, in the tavern, at the club, in soap operas, on TV, in newspapers, in magazines, on the Internet, or in a secret order (and every slanderer in any dark and suffocating alley of society).

And leave outside, too, the one who loves flowers — and other unspeakable things — of plastic, hung diplomas, solitary, artificial, virtual, and over-the-phone relationships; the one who sucks the time of others, the life of others, mainly of their own family members; the one who does not pay alimony and the one who turns a beautiful woman into a trinket, a trophy, a slave, or a zombie. Because they speak of a woman as a thing or an inferior being — ah, son, this is the worst! He is so imbecile and useless that he does not believe in the love of pupils, lips, bread, and navel; he does not believe in Poetry, in music, in sweat, intimacy, and communion! And he does not know nor believe that there are multiple feminine flights. For him — who bars the cellar — wine is for business, ostentation, and vanity, and not to anoint the navel and the mouth of a woman. He has never read a single line of the Song of Songs, nor does he know anything about Creation!

So, open your house to poets, musicians, and women-Poetry. Men, only those of a human character, moderate in the Torah and the Nevi’im, because the light is (and will come with them) and they will not create obstacles to your growth before the Eternal. Do you understand? However, do not be merciless; have mercy on the one who ignores heaven, earth, the sea, hell, and paradise; who has never lost sleep, nor counted the stars, nor stopped before the moon, nor abandoned themselves to the breeze; who has never seen angels and demons, has never looked into the void, nor laughed for nothing, nor cried for nothing, nor sworn for nothing; who has never seen a small cottage in the countryside empty and abandoned, nor brought their hands to their mouth before an ancient bed and mirror; who has never possessed the wings of an archangel or an insect to fly over oceans, nor wished to climb any mountain. He ignores the matter of which the soul is formed. Mercy, son! He is tasteless because he has not yet loved nor been loved!

All right, my son, all right, that is not all! For now, rest, and when you are before the Eternal, cover yourself with your Tallit and your Kippah. And when you are with your family, place homemade bread upon your table. Break it with your hands, the same hands that touch the Mezuzah — never with a knife. Pure bread, without injustices! Bread without the freedom of others, nor the hunger, privation, or deprivation of others, nor the nakedness or dignity of others, nor oppression over another’s person, nor the sadness or pain of others. Bread without the body, soul, spirit, and affections of others, nor the blood or life of others. The table must be simple. Your bread, earned by sweat. And your hands, son, righteous!

(Pietro Nardella-Dellova, Al Figlio nella Piccola Caffetteria, in A Morte do Poeta nos Penhascos e Outros Monólogos. São Paulo: Editora Scortecci, 2009, p. 35)

Presentation of Pietro Nardella-Dellova (Giuseppe Pietro Buono Nardella-Dellova)

Presentation of Pietro Nardella-Dellova (Giuseppe Pietro Buono Nardella-Dellova)

Pietro Nardella-Dellova (Giuseppe Pietro Buono Nardella-Dellova) is a Poet, Writer, Professor, and Researcher of Jewish and Italian descent, originating from the Ghetto/Quartiere Ebraico di Fondi, Italia Meridionale (Latina e Napoli). For this very reason, he carries within himself the Jewish cultural legacy of millennia of pilgrimage and the libertarian cultural legacy of Neapolitans throughout the world. His first job, as a young boy, was at a letterpress printing shop (which he refers to as a “magical place”)—an experience that marked him as a Writer for life, as it was there, in his spare time, that he began playing with the letters in the type cases, exploring various typefaces, composing, and creating his first poems.

He is a Professor who has dedicated three decades to Civil Law, a productive Author, an untiring Researcher, an intense Poet, and a supportive friend through long and inspiring academic and literary journeys. I met him in 2016 when, in the face of the deconstruction of public policies in Education and Health and the assault on the values of the Democratic State under the Rule of Law, he courageously stood up, with ethical and legal authority, in defense of Democracy and the Constitution, against necropolitics and neofascist movements that were gaining strength through the violation of constitutional values. He possesses the authority to combat anti-democratic forces and to teach Law, Philosophy, Human Rights, Education, Judaism, the Science of Religion, Literature, Poetry, and Civil Law through a constitutional and human rights framework—a highly relevant approach in light of the constitutionalization of Private Law, the overcoming of the public/private dichotomy, and its humanizing impact. His work in defense of the human person constitutes the democratic and constitutional ethics of a constant struggle against the commodification of Education and the Law.

Pietro Nardella-Dellova is a member of the Accademia Napoletana per la Cultura e Lingua di Napoli, under the presidency of Doctor Massimiliano Verde, from Napoli; he is a faculty member of the Cátedra Libre por la Cultura de Nápoles at the Universidad Nacional de La Plata, in Argentina; he created, in New York, the Gruppo Martin Buber for dialogue between Israelis and Palestinians; he was a co-author with Paolo Filippi, together composing dozens of songs in Italian (Paolo was Sicilian and Pietro, Neapolitan), uniting the two cultural forces of Sicily and Napoli. He developed Jewish Education studies at the Hebrew University of Jerusalem, Israel, and taught at the Universidade de São Paulo and the Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro; he is the director of the Journal of Civil Law [RDC] and coordinator of the International Civil Law Conferences. He was a contributor to St. Thomas University, Miami, USA, delivering a lecture against Human Trafficking. As a scholarship recipient, he researched and defended the doctoral thesis Judaism and Human Rights at the Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, where he currently also develops research on Religion, Politics, and Neofascism. He collaborates with the Massoret Jewish Cultural Center. He is completing the bilingual book Philosophy of Law and Politics (English and Italian). He is a peer reviewer for the International Journal of Latin American Religions (Editor-in-Chief: Frank Usarski, Ph.D.), a journal that publishes original research articles, interviews, conference reports, and book reviews.

In addition to this new Direito Civil – Relações sobre Coisas, Vol. 3 (2026), which we now celebrate, he is the author of Direito Civil – Relações Sucessórias, Vol. 5 (2025); Direito Civil – Relações Familiares, Vol. 4 (2024); Direito Civil – Relações Obrigacionais, Vol. 2, 2ª ed. (2025); Judaísmo, Cristianismo e Islam (Ed. Vozes, 2023); Direito Civil – Teoria Geral do Direito Civil, Vol. 1 (2023); Direito Civil-Constitucional (2023); Filosofia e Direitos Humanos (2023); Direito Constitucional: uma introdução (2022); Introdução ao Direito das Sucessões (2025); Introdução ao Direito de Família (2024); Introdução aos Direitos Reais (2023); Introdução ao Contrato e Responsabilidade Civil (2022); Introdução ao Direito das Obrigações (2022); Introdução à Teoria Geral do Direito Civil (2022); Pierre Proudhon e sua Teoria Crítica do Direito Civil (2021); Judaísmo e Direitos Humanos (PUC/SP, 2020); Direito, Mito e Sociedade (2020); Antropologia Jurídica (2018); Uma Reflexão Sobre Direitos Humanos e Refugiados (2017); Para Além do Direito Alternativo (2016); Alternativas Poético-Políticas ao Direito (2014); A Crise Sacrificial do Direito (USP, 2000); A Palavra como Construção do Sagrado: Estudo de Osman Lins (PUC/SP, 1998); and the poetry books: A Morte do Poeta nos Penhascos e Outros Monólogos (2009); Adsum; No Peito and Amo. He has published hundreds of articles. He is the creator and coordinator of the RDC – Revista de Direito Civil.

In short, the author of this new poetry book POIESIS—Inflessioni anarchiche e un po’ di poesia nell’ombelico della donna amata / Inflexões anárquicas e alguma poesia no umbigo da mulher amada / Anarchic inflections and some poetry in the navel of the beloved woman (trilingual edition: Italian, Portuguese, and English)—thinks the Law with liberty, autonomy, and detachment, offering us a cure for ignorance. His interlocutors, students, and readers recognize his profound, unsettling, and challenging work, because his vast scientific and human production and contribution indelibly mark his life and trajectory.

Prof. Dr. Luzia Batista de Oliveira Silva
Author, Poet, CNPq Researcher
Ph.D. in Education, FE/USP; Master in Philosophy, PUC/SP.
Post-Doctorate in Social Sciences and Anthropology, PUC/SP.
Post-Doctorate in Philosophy, University of Burgundy, Dijon/FR.