Um ponto de vista sobre aspectos do Judaísmo subterrâneo

Um ponto de vista sobre aspectos do Judaísmo subterrâneo

Em Fondi, Itália, um jovem professor me encontrou em um Bar Café, bem próximo do antigo Quartiere Ebraico. Ele me procurava fazia algum tempo – e me achou, pois vinha em direção ao mundo judaico.

Por isso mesmo, encheu-se de satisfação e falou-me da sua vontade de conhecer o Judaísmo para encontrar D’us, quiçá, vislumbrar um caminho e vencer o mal (ou Mal, como estava mais acostumado).

Mas, porventura, – eu perguntei a ele – já te ocorreu que HaShem (ou D’us, se quiser) não quer (e nem pode) ser encontrado? Por acaso, já pensou na possibilidade do Judaísmo não ser um caminho nem te dar certeza alguma sobre um mundo que não será alcançado? Pensou, ainda, que na formação judaica, não há preocupação nenhuma com o mal ou o bem (ou Mal e Bem, se quiser) e nem há teologia alguma a ser apreendida? Pensou nisso?

Pois bem, no Judaísmo não estudamos, não procuramos e nem vendemos HaShem.

O Judaísmo não tem como escopo o encontro com Ele (ou dEle). Não podemos dizer nada sobre o Mal ou o Bem, vez que são fantasias persas, gregas, medievais, reelaboradas com os cultos africanos. Veja, apenas nos ocupamos, no contexto judaico, dos comportamentos bons ou maus, das escolhas boas ou más. No Judaísmo, não nos projetamos para um mundo futuro e, sendo futuro (se o for), virá naturalmente, independentemente e dentro do que HaShem possa pretender (se pretender alguma coisa).

Não há mágicas, não há fórmulas nem rezas que possam modificar os tempos, os ciclos e a suposta Vontade do Eterno!

E, assim, sem futuro nem surpresas, aprendemos a olhar nossas mãos, nossos pés, nossos olhos, nossos ouvidos, nosso corpo, nossos sentimentos, nossos conhecimentos e tudo aquilo que se nos chega para realização. Ensinamos aos nossos filhos que um precipício é mesmo um precipício (e não um conceito). Ensinamos que um jardim é mesmo um jardim (e não uma fantasia). Ensinamos que determinadas cidades devem ser abandonadas porque concentram vampiros demais, sanguessugas demais, destruidores demais.

E deixamos claro que, sobre nossa mesa, um pão deve ser justo, feito por mãos justas e adquirido com recursos justos, pois, ao pronunciarmos alguma palavra (entre nós) não o fazemos para agradecer (pois filhos não agradecem a seus pais), mas, ao menos as pronunciamos para abençoar HaShem, a fim de termos certeza de que aquele pão não tem outra origem senão a de justiça, bondade e leveza…

Ensinamos, também, que um inimigo é mesmo um inimigo (um inimigo sempre!) E o melhor para nós, é que o inimigo esteja bem, muito tranquilo, ocupado (muito ocupado!) e que more longe de nossas casas, longe mesmo! Mas, o inimigo não é “alguma coisa” caída do “céu”, um ser sobrenatural, um revoltado em “bereshit” ou um ente espiritual com desejos sexuais pervertidos. O inimigo tem mãos e pés, tem fome e sede, tem visão e olfato, assim como nós. Mas, ele, o inimigo, não tem mesa nem pão justos, não tem limites nem conhece princípios. Ensinamos que o inimigo não é a mesma coisa que adversário. O adversário é adversário em um cenário de competição; o inimigo, o amalequita, é o destruidor (o fascista, o  nazista, o nazifascista, o opressor, o explorador, o racista, o antissemita, o islamofóbico, o misógino)

Diferente de nós, quando ele tem fome, come sem medida nem critério. E lança as mãos e avança seus pés, não se importando com este ou com isso. E quando vê ou percebe alguma coisa, o inimigo quer para si, em um incontrolável desejo mimético, arrebatador, destruidor e fatal. Por isso, sempre desejamos que nossos inimigos tenham tudo, ocupem-se bastante e fiquem muito cansados, a fim de que se esqueçam de nós, dos nossos portões, dos nossos bens, dos nossos filhos e de nossas vidas.

Mas, nós, que não sabemos nada dos seus portões, dos seus bens e dos seus filhos, todavia, não nos esquecemos deles, nunca nos esquecemos que são inimigos (e queremos que estejam bem, e longe de nós).

No Judaísmo, não discutimos conceitos teológicos, não defendemos dogmas religiosos, não buscamos fiéis ou infiéis, não levamos ninguém para a Sinagoga, não formamos missionários. Não desprezamos nem aprovamos a religião de outrem, pois o Judaísmo é o nosso melhor silêncio, um singular e respeitoso silêncio. E, assim, nunca estamos nas praças ou esquinas (nem nos palcos religiosos). O palco religioso não é, de fato, para judeus… Ao contrário, estamos envolvidos com o nosso suor, com os nossos livros, com as nossas Sefirôt e com nossos estudos.

Mas, não estudamos o Eterno, e sequer pronunciamos o seu Nome! Não pedimos nada a Ele, mas, com um profundo e respeitoso sentimento de gratidão e reverência, abençoamos seu Nome, todas as manhãs e todas as tardes e, ao anoitecer, olhamos para nossos filhos, cobrindo-os ternamente e lançando-os na Presença de HaShem…

Amamos festas, contamos no dedo os dias que faltam para a próxima festa e o que devemos fazer para que elas sejam alegres, maravilhosas e humanas. Nossas Festas não projetam nada de mágico para o futuro nem devem ser lidas como profecias. Nossas Festas são apenas Festas de memória, com as quais, contamos a nossa história (para os nossos filhos).

Sim, meu caro, com elas contamos a nossa própria história e, por isso mesmo, há milênios fazemos o mesmo pão da amargura e cativeiro, e não comemos, naquele período, fermentos para não nos esquecermos de que sair da escravidão é um ato apressado, um ato que não permite conforto nem reflexão.

Não temos nenhuma vergonha de dizer, em nossas Festas, que fomos escravos! Comemoramos nossas colheitas, o nosso momento de constituição integral no Sinai, e comemoramos nossos novos períodos de trabalho, muito trabalho, lembrando-nos das más ações, dos maus comportamentos em um ciclo completo, das privações, das cabanas (nas quais moramos no deserto). Ademais, lembramo-nos dos momentos em que nossos inimigos destruíram nossos palácios, nossos altares e, de como, fortalecidos em nossos princípios, nos livramos deles, lutando, lutando muito, com espadas, garfos e pedras (reais).

Lembramo-nos do nosso estado em terra estranha e dos governos, persas, católicos, fascistas, stalinistas e nazistas, que tentaram nos apagar da história e de como pessoas do nosso povo, de carne e ossos (homens e mulheres) mantiveram seus propósitos claros, seu amor inabalável e, com sabedoria, utilizaram tudo o que haviam aprendido em casa, com seus pais e irmãos, para decidirem por alguma coisa, para fazerem alguma coisa e definirem que não temos que desaparecer da terra.

Nossos dias não são ocupados, integral e tresloucadamente, com lufa-lufa. Não! Nós paramos, sim, há um dia – Shabat, deliciosamente especial, em que paramos para comer um pão trançado, feito de forma afável por pessoas satisfeitas com HaShem. Paramos para beber o vinho, para comer frutas, doces e mel, para cantar com nossos filhos e filhas e, de mãos dadas, dançarmos, cutucando cada um deles, fazendo-lhes cócegas, dando gargalhadas e cheirando seus cabelos. Mas, não fazemos sermão religioso para eles neste dia!

Também, paramos, neste dia, para nos encontrarmos com outras pessoas a quem amamos, os nossos amigos que, como nós, comeram do seu pão trançado, feito por mãos amáveis e satisfeitas com HaShem, e beberam do seu vinho e comeram frutas, doces e mel, que cantaram com seus filhos e filhas e, de mãos dadas, dançaram com eles, e os cutucaram, e lhes fizeram cócegas e deram gargalhadas, e cheiraram seus cabelos sem, contudo, fazer qualquer sermão religioso.

Por isso mesmo, quando mais pessoas amigas estão juntas, todas sabem o que é o pão trançado, vinho, doces, mel, filhos, filhas, mulheres amáveis e satisfeitas com HaShem, risos, gargalhadas. E os motivos, todos os motivos, de não querermos trabalhar neste dia. Quando estamos juntos, desprezamos discursos e sermões religiosos, porque nossos filhos, mulheres e amigos, valem mais que discursos religiosos ou rezas sem fim.

Entretanto, quando um dos nossos amigos trabalha neste dia, e não podemos vê-lo em nossos encontros, isso não nos aborrece nem encanta. De fato, não mandamos nenhum espia em sua casa, nenhum missionário e, muito menos, um profeta! Não investigamos nosso irmão nem nossa irmã, pois, no Judaísmo cada qual é responsável por si mesmo e, assim como as letras do alfabeto hebraico, cada qual vale por si mesmo, tem seu peso e sua medida (que ninguém procura conhecer, pois é a medida indecifrável de cada um, da individualidade de cada um).

A responsabilidade, em nós, alcança níveis de grandeza e profundidade, de peso e substância, mas ela é individual, singular e intransferível. Desde a tenra idade somos instruídos no comportamento bom, somos ensinados no exemplo de nossos pais e de nossas mães (sim, no Judaísmo conhecemos bem as palavras pai e mãe!).

Aprendemos a fazer, a concretizar, a transformar um tijolo em castelo, uma página em biblioteca e, assim, somos exercitados continuamente ao aprofundamento, ao estudo e à busca pelo saber. De fato, frequentamos mais lojas de livros usados do que restaurantes…

Desenvolvemos, assim, naturalmente, o respeito por aqueles que, eventualmente, sejam nossos mestres, nossos professores. Porém, eles não são nossos guias espirituais, não são nossos pastores nem nos conduzem a lugar algum.

São mestres que nos ensinam a Torá e o Talmud, e que nos incentivam a ensinar a Torá e o Talmud, transformando-nos em mestres e professores, que ensinam a Torá e o Talmud… Eles, os mestres, não são nossos donos e donos de nossas casas, porque o que eles têm nas mãos e nos legam é de tal modo precioso, grandioso e essencial que, por conta disso, exatamente disso, aprendemos que nossa casa é nosso jardim, nosso recanto e uma projeção de nós mesmos. Aprendemos que nossas casas refletem o nosso amor por Jerusalém.

Ah, Jerusalém… Jerusalém é o nosso centro. E dali, aprendemos a olhar o mundo, o universo, o kosmos… Ali, especialmente ali, nos reencontramos como um povo, como seres humanos que venceram a morte, as câmaras de gás e toda sorte de maldades, que suplantaram as dores e renasceram! A cidade de Melech David e de Melech Sh’lomo, a Poesia e a Sabedoria de mãos dadas!

Não, não meu caro, Judaísmo não é solidão. Somos calorosamente sociáveis- e solidários. Judaísmo é silêncio realizador, fogo que queima sem discurso, energia que faz e refaz a nossa alma.

Se quiser andar conosco, poderá vir. Sim, você poderá vir (por que não?). Mas, não pretenda sair pelo mundo, tentando consertá-lo com o Judaísmo, nem voltar-se contra seus antigos pares, incriminando-os, derrotando-os e causando-lhes dissabores. Não faça isso!

Se quiser, venha. Mas, se vier e viver como judeu, você não se fará melhor que seus antigos companheiros, nem poderá lhes dizer coisa alguma.

Apenas apontará para si mesmo (apenas para si mesmo!) um comportamento único, próprio, sobretudo se perceber que nosso D’us é seu D’us e que nosso Povo é seu Povo e, assim, não poderá fazer  – nem permitir que se faça aos outros, o que lhe parecer odioso, injusto e indecente a si mesmo.

 

© Pietro Nardella-Dellova

NOTA:

Texto originalmente publicado no livro A MORTE DO POETA NOS PENHASCOS E OUTROS MONÓLOGOS. São Paulo: Editora Scortecci, 2009, p 168 e segs., mas escrito em 2008, em Fondi, Itália, a partir de um diálogo com um jovem professor.

Alma libertária, porque não quero uma língua, mas várias…

Alma libertária, porque não quero uma língua, mas várias…

Não quero um país, mas o mundo. Não quero uma língua, mas várias (de carne, letras e fogos). Não quero uma bandeira nacional (e, muito menos, um hino nacional), mas a mente aberta para compreender as dores da humanidade. Não quero fronteiras, mas jardins imensos. Os  jardins são prazerosos; as fronteiras, destrutivas.

Não quero a teologização do mundo, mas a sua espiritualidade. E a espiritualidade não se encontra na Teologia, mas na Poesia, na Música, na Pluralidade, na Diversidade.

Não quero esses políticos tacanhos, mas Política, grandiosa e eloquente.

Não quero comer ou ser comido por alguém, mas amar intensamente ao ponto de aproximar almas e corpos e despertar prazeres diversos em todo percurso. Eu quero o prazer do encontro de almas e corpos libertos, libertos pelo amor, libertos para o amar. Não quero a tristeza das Academias, mas a alegria da simplicidade. 

Não quero falar ou ouvir sobre pessoas que não estejam presentes, mas apenas com pessoas sentadas para o café – um demorado café, com as quais eu possa rir, chorar, avançar, mergulhar, aprofundar, verticalizar ou simplesmente falar e ouvir de poesia, música, dança e de amores libertários.

Eu preciso de muito mais verduras e frutas, e menos – ou nada, de animais assassinados e seu sangue sobre a mesa. Não quero a financeirização do mundo, mas os valores que norteiam a economia. Não quero a escravização da terra, e sua exploração, mas a libertação da terra e seu uso familiar, solidário, comunitário, mutualista, inteligente, inclusivo. Quero a terra que produz o pão; não a especulação financeira.

Não quero o Ensino à Distância, mas Presencial, de encontros circulares, dialógicos, alegres. Não quero uma foto diante de mim, mas faces verdadeiras, que riem e choram. Não quero matriculados diante de mim (com seus celulares fiscalizadores ou emburrecedores), mas Estudantes, Estudantes profundos, com sua liberdade para ouvir, falar, ler, debater e compreender um mundo plural.

Não quero um Deus acima de tudo e de todos (esse Deus não presta!), mas quero a Alma humana e seus Atos de bondade, praticando, diuturnamente, a justiça, a igualdade e a solidariedade! Quero espaço para todos os Deuses e Deusas criados pela sensibilidade humana (e nenhum deles maior ou menor!).

Enfim, eu quero Poesia, não Poema!

Pietro Nardella-Dellova

imagem: Over the Town 1918 Marc Chagall

Quando o antissionismo é antissemitismo e o sionismo é osmótico: uma reflexão!

Quando o antissionismo é antissemitismo e o sionismo é osmótico: uma reflexão!

Há um tipo de antissionismo por parte de árabes e de palestinos que, no exato contexto político, econômico e histórico (do conflito entre Árabes e Israelenses), até se explica e se compreende. É admissível para o debate (ainda que eu considere esse termo inadequado e estúpido), ou seja, dá para ser objeto de diálogo ou debate. Nesse sentido dizer-se antissionista não pode ser compreendido como se fosse “antissemita”. É forçar demais e confundir conceitos.

Mas, quando essa bandeira do antissionismo é levantada por qualquer um sem qualquer consideração crítica, especialmente por aqueles de fora do conflito, tenho visto – e parece-me muito claro, tratar-se de antissemitismo (ódio e repulsa aos Judeus e ao Judaísmo).

Há grupos que, por osmose ou falta de conhecimento, defendem e abraçam o antissionismo, e, realmente, não disfarçam mais seu antissemitismo, incluindo a fala estereotipada contra Judeus. Por isso mesmo, muitos desses antissionistas atacam Judeus em qualquer parte do mundo em nome de um antissionismo tosco e osmótico.

É muito pouco dizer-se antissionista apenas para defender palestinos. É preciso dizer, e demonstrar, que tipo de antissionista se pretende ser, qual é o objeto da fala. Ser antissionista é colocar-se contra Israel e querer que ele seja esmagado ou “afogado no mar”? Isso, então, é antissemitismo, pois não existe uma entidade política israelense sem os princípios, valores e pressupostos judaicos históricos. O antissionismo que pretende a destruição de Israel é o mesmo antissemitismo que levou, no momento anterior à criação de Israel, aos extermínios e campos de concentração: essência e modus nazifascistas.

Entretanto, se o discurso do antissionismo se refere à expansão do Estado israelense, em especial, à ocupação da Cisjordânia, dá para conversar. Os Judeus de Israel (diga-se: nem todo israelense é judeu), sobretudo, os conscientes, também se colocam contra à expansão e ocupação daquelas terras, reconhecida pelo Direito Internacional como terras pertencentes aos palestinos, e fundamental para a base territorial do Estado Palestino. Nesse caso, seria menos que antissionismo, isto é, seria movimento contra a ocupação israelense da Cisjordânia.

Por outro lado, há vários que se dizem “sionistas” ou defensores do “sionismo” e, da mesma forma, quase não conseguem esconder seu ódio e desprezo por árabes e muçulmanos. Há cristãos, em especial, batistas, pentecostais, neopentecostais e, também, os chamados “judeus messiânicos” (cristãos de teologia batista com o rebolado neopentecostal e utilização indevida de símbolos judaicos e israelenses, entre os quais, Kipá, Mezuzá, Menorá, Tefilim Sefer Torá, Bandeira de Israel etc) que se dizem “sionistas” à luz dos seus perversos e descontextualizados versículos bíblicos. Consideram-se sionistas “em o nome de Jesus“, aglomeram-se em viagens turísticas ao Rio Jordão para o batismo hollywoodiano e facebookiano, e esperam o “retorno” do seu Messias crístico para reinar em Israel, esmagando muçulmanos e transformando em montanhas de cadáveres os não salvos em Cristo. São, na verdade, tipos perigosos anti-árabes e anti-islâmicos (ódio e repulsa pelos Árabes e Muçulmanos: islamofobia). Por isso mesmo, muitos desses sionistas atacam árabes e muçulmanos, por palavras (bíblicas, trumpistas ou bolsonaristas), ou atos de violência, em qualquer parte do mundo.

É esse tipo de sionismo que foi pensado, debatido e formado no final do século XIX, e que, de resto, alimenta toda alma judia desde o antigo Cativeiro babilônico, assim como do primeiro século desta era comum? Certamente que não!

Os valores do sionismo clássico, substancial, histórico, não têm a ver com ódio a qualquer grupo ou destruição de quaisquer sociedades. Muito pelo contrário, o sionismo histórico é ato de resistência e defesa do ideal judaico. Dito com outras palavras, o sionismo histórico é a ética da humanização e solidariedade humanas.

Há, portanto, sionismos em termos históricos e políticos que podem ser trazidos para a mesa do debate. É muito pouco ser sionista apenas para defender israelenses (pois defender israelenses é um termo abstrato, tendo em vista a diversidade e pluralidade da sociedade israelense). É preciso dizer, e demonstrar, respondendo às seguintes perguntas: qual o tipo de sionista se pretende ser? Histórico, substancial, filosófico, de alma para alma judias? Ou um sionista sem qualquer substância, isto é, um sionista osmótico?

Enfim, há um limite para a criticidade proativa e construtiva, há um limite para se defender ideias, propor ações, contestar teses, e até bater na mesa, e este limite chama-se, de um lado, Dialética e, de outro, Direito Internacional (em especial, Direito Internacional dos Direitos Humanos). Ficar de um lado ou de outro, sem qualquer ponderação, demonstra apenas os ódios represados, os rancores sonoros, o antissemitismo (ódio e repulsa aos Judeus e ao Judaísmo), o anti-islamismo ou anti-arabismo (ódio e repulsa a Muçulmanos e Árabes: islamofobia) e, desde logo, em um caso ou outro, a antessala do extermínio.

Da minha parte, sou Judeu, sou Sionista (buberiano e histórico), e sou de Esquerda libertária kibutziana. Defendo a existência política e jurídica de dois Estados para dois Povos: Israel e Palestina, e mantenho-me em luta diuturna contra o antissemitismo e suas afinidades eletivas, ou seja, contra a islamofobia, contra o racismo, contra a discriminação, contra o machismo, contra a misoginia, contra a intolerância religiosa, contra a xenofobia, contra o trumpismo, contra o bolsonarismo, contra o salvinismo e contra o regime norte-coreano e agregados (todas expressões atuais do mussolinismo, hitlerismo, stalinismo), contra a especulação neoliberal, contra a destruição de direitos dos Trabalhadores, enfim, contra o neofascismo.

publicado originalmente no Blog Café e Direito

Pietro Nardella-Dellova

Era uma vez o BraZil sem Educação nem Pesquisa ou, muito piolho, confete e nenhum investimento no que importa

Era uma vez o BraZil sem Educação nem Pesquisa ou, muito piolho, confete e nenhum investimento no que importa

Quando qualquer país investe para valer em Educação, sobretudo, básica, fundamental e média e superior (e aqui incluo a Pesquisa) precisa esperar mais 50 anos para sentir a mudança intelectual e os resultados em suas ciências.

Qualquer país que tenha um passado jesuítico, extrativista, escravista, patriarcal, golpista, café com leite, fascista, ditatorial, escapista e, atualmente, bolsonarista, e não tenha investido (nem queira investir) para valer em Educação básica, fundamental, média e superior (e, insisto, Pesquisa), poderá até ser rico, vender muito, arrecadar muito, desenvolver um grande comércio internacional e será, assim mesmo, um rico burro, estúpido e fadado a morrer na praia (ou nos milhares quilômetros de praia) ou, ao menos, não conseguir preencher vagas de seu Judiciário por absoluta ignorância e deformação educacional.

Um país que vende diplomas universitários pelas mãos das Privadas (ressalvo os projetos particulares que são estupendos e comprometidos), enganando-se a si mesmo, enganando os números oficiais, enganando o mundo, não terá, nunca, asas para voar, nem fôlego para mergulhar em quaisquer ciências, tecnologias e humanidades: será, portanto, o quintal do mundo e o eterno fornecedor de commodities!

Então, se a “glória” de um país realmente depende apenas de suas commodities, ou de uma ideia vaga de futebol ou,ainda, do “tolerado” turismo sexual (e estelionato neopentecostal) as glórias terminarão no gramado, digo, na grama,onde ficarão marcas de ferraduras!

Educação não se inventa, ao contrário, realiza-se no vagar do tempo de, pelo menos, duas gerações (para ser otimista!). Um país educado não discursa, faz!

 

Pietro Nardella-Dellova, 2012

photo: Biblioteca della Facoltà di Giurisprudenza dell’Università di Zürich, Svizzera

 

Para as mulheres de preto com algum toque vermelho… (um soneto completo e um poemeto de luta)

Para as mulheres de preto com algum toque vermelho… (um soneto completo e um poemeto de luta)

há uma certa beleza e há encanto

nessas Mulheres que se vestem,

assim, de vermelho e, no entanto,

sem pressa, em prazer, se despem

nos corredores, bibliotecas, Cafés…

e levantam os braços em vitória,

e lutam, e dançam sobre os pés

como quem levita e faz história;

e, quando em preto, há poesia plena

na delicadeza dos toques em vermelho:

porque há luta sem ódio – luta serena,

luta constante de quebrar o espelho:

é vida somente de beleza preto-rubra

e, pois, que eu viva e ela se descubra

sempre, em cada rua, avenida, praça, vila, bairro, sol e chuva, com uma canção de amor, nenhum hino, marcha, ódio ou grito, caminhando pelos mesmos sonhos anarquistas: para todos e todas, o pão e a uva, sem qualquer opressão, morte, reza, choro, dor e espírito aflito…

© Pietro Nardella Dellova

 

Imagem: L’Origine du monde, de 1866, de Gustave Courbet

A mulher feita de gozo e tudo azul…

A mulher feita de gozo e tudo azul…

A mulher

que vem pelo corredor

no vento, fogo, carne e ardor,

me leva pelos céus do seu rosto

e me beija com beijo de carne e gosto

voando nos azuis dos maiores cantos:

mulher de amar entre livros e aos cantos

atrás da porta, no pátio e sob escadas:

esta mulher, a mais branca das fadas,

a mais ungida de saliva, urros e vinho,

do umbigo mais ébrio e do maior carinho,

do maior sorriso, do gozo mais vermelho,

da beleza jamais vista em qualquer espelho

esta mulher

sem véu nem túnica

da boca mais lúbrica,

é tudo, é louca,

é céu e inferno: é única!

diante de quem,

largo o mundo, vírgulas e pontos,

assim, sem freios, sem Éden e, tontos,

no mergulho de frase livre, libertária,

sem fim ao fundo do seu mundo,

e

desde o seu desavergonhado rosto

beijo com beijo de carne e gosto

e

beija com beijo de carne e gosto

no gozo multifacetado sem receios

gozo de música sem partitura

gozo de ruptura

gozo de dança de corpo colado

que avança insano

dos

pés pernas jardim flor

braços umbigo cabelos e seios:

gozo de gozo integral de gozo humano!

© Pietro Nardella-Dellova

in “A Mulher Feita de Tudo Azul” (traduzido em português do meu poema italiano “La Donna D’Amore Blue“, 2001

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imagem: pintura de Iza Borgonovi Tauil, Rio de Janeiro