Dizer que o nome dele era José seria, talvez, cumprir uma formalidade cartorial daquelas que só servem pra manchar papéis e preencher lacunas em biografias que ninguém pediu, com a mesma indiferença com que se anota a direção do vento numa segunda-feira sem história, mas o que importa mesmo, e nisso nem vale discussão, não é o nome com que se nasce, mas o nome com que se segue vivo, ou melhor ainda, o nome com que te chamam quando já não precisam mais te distinguir dos demais, mas apenas te reconhecer, e foi assim que José virou Pepe, não por vontade própria, nem por truque de marqueteiro querendo fabricar afeto onde só há cálculo, mas porque o povo — esse bicho estranho, difuso, que não tem rosto definido mas às vezes tem razão — decidiu que aquele homem magro, de costas curvadas e fala mansa, era um dos seus, e por isso podia ser tratado como se trata um irmão velho, um amigo que já errou o bastante pra não errar mais, alguém que viveu grande demais pra caber nas pequenas biografias, e por isso mesmo merecia um apelido, porque o apelido, ao contrário do nome, não se impõe, se ganha, e quando se ganha, revela.
E foi assim que Pepe, o ex-José, virou não só um homem com nome curto, mas um homem com história longa, história que não se escreve com verbinho educado nem advérbio que pede desculpa, mas com substantivos secos, ásperos, diretos: prisão, assalto, sequestro. Porque foi isso mesmo que ele fez. E não se deve esconder, nem enfeitar, nem empacotar com eufemismo, roubou banco, sim, sequestrou embaixador, sim, enfrentou o Estado com arma na mão, sim, e por isso foi preso, e por isso foi torturado, e por isso ficou catorze anos trancado entre grades que não serviam só pra separar do mundo, mas pra tentar apagar o homem por dentro. E durante três desses anos não viu sol, não viu gente, viu só formiga — sim, formiga — essas sim fiéis, essas sim constantes, essas sim capazes de escutar sem julgar. E não enlouqueceu porque aprendeu a conversar com o que ainda estava vivo em volta, e talvez por isso, quando finalmente abriu a porta da cela e pôs os pés de novo sob o céu, já não tinha sede, já não tinha pressa, já não tinha nenhuma gana de vencer, só a firme intenção de não trair.
E assim viveu, sem trair — o que já é mais do que se pode dizer de quase todos os que sentam em trono — e governou, sim, foi deputado, foi senador, foi ministro, foi presidente, e em nenhum desses cargos trocou de casa, de roupa, de mulher, de rotina, ficou no sítio, ficou com o mesmo carro velho, ficou com Lucía, que nunca foi primeira-dama porque nunca precisou ser, que nunca fez pose porque já era grandiosa, e ali, entre cachorros e hortas, entre silêncios e reuniões, entre o absurdo do poder e o milagre da vida comum, ele mostrou que não era necessário escolher entre ser gente e ser governo, que era possível ser os dois, e ao mesmo tempo, e com coerência, e com humildade, e com humor, e com desapego.
E quando a doença chegou — e doença assim não chega como quem bate na porta pedindo licença, chega como chegam as sentenças que já se sabem definitivas — Pepe não quis prolongamento, não quis tratamento que adia sem curar, não quis sobrevida, quis só o que ainda fosse vida, e o que já não fosse, que morresse logo, e foi assim que morreu, como morre quem não tem mais conta pra pagar nem palavra por dizer, e isso, sejamos francos, é raro, raríssimo, quase pecado nos tempos de agora, e ele se foi sem grito, sem câmera, sem cortejo, deixando só o silêncio como prova de que, sim, foi possível, ainda que só uma vez, ainda que só com ele.
E o problema, o verdadeiro problema, é que quase ninguém em Israel sabe disso, ninguém ouviu, ninguém leu, ninguém ensinou, e se perguntarmos nas escolas, nas universidades, nas redações, nas filas do supermercado ou nas cadeiras do Knesset, poucos saberão quem foi Pepe Mujica, e isso não é acaso, é projeto, porque se soubessem, talvez não aceitassem que o apelido mais repetido por aqui seja outro: Bibi — nome curto também, nome fácil também, nome dito com a falsa intimidade de quem acredita que conhece, mas só consome, porque Bibi não é apelido dado pelo povo, é apelido herdado da infância e transformado em marca de campanha, é apelido que se impôs como logotipo, como escudo, como perfume caro sobre carne podre, e todo mundo repete, Bibi pra lá, Bibi pra cá, como se isso bastasse pra torná-lo próximo, humano, acessível, quando ele nunca foi nada disso, nunca andou a pé, nunca abriu mão de nada, nunca ouviu o que não quis, nunca pagou pelo que fez.
E é aqui que a comparação se torna insuportável, porque de um lado temos Pepe — o homem que roubou e pagou, que matou e pensou, que lutou e depois se calou, que caiu e voltou sem rancor — e do outro temos Bibi — o homem que sempre teve tudo e ainda quer mais, que não se contenta em ter, precisa manter, precisa impedir que os outros tenham, que os outros sonhem, que os outros respirem. E o povo, esse mesmo povo que deu a Pepe um apelido com afeto, se deixou enganar por um apelido herdado, como se o som curto bastasse pra esconder o abismo longo, e ainda o chamam assim, Bibi, como se ele ainda fosse menino, como se ainda merecesse o colo que já traiu mil vezes, como se ainda fosse dos nossos, quando nunca foi, e nunca será.
E eu, que pertenço aos dois mundos, o daqui e o de lá, o das sirenes e o dos silêncios, digo com a dor de quem perdeu em dobro, que Israel nunca teve um Pepe, mas teve e tem um Bibi, e isso diz mais sobre o que somos do que qualquer guerra, qualquer lei, qualquer eleição, e por isso peço, não que o odeiem, nem que o derrubem, nem que o esqueçam, só que o chamem pelo nome que merece, Benjamin, porque Bibi não é mais dele, não tem direito, não tem afeto, não tem povo, não tem verdade, e se um dia teve, já perdeu.
Talvez o melhor seja começar logo por aqui, por essa ideia incômoda, difícil de engolir, mas tão verdadeira quanto qualquer susto diante do espelho: a de que a gente não é exatamente quem acha que é. O homem bom — esse que acorda cedo, leva o lixo, alimenta o cachorro, paga os boletos em dia e evita parar na vaga de deficiente — esse mesmo é capaz de arrancar a língua de outro se alguém soprar no ouvido certo as palavras “pátria”, “honra” ou “família”. E não sou eu quem inventa, é a história que grita pelos ossos deixados pra trás nos becos do mundo, ossos empilhados, embranquecidos, catalogados, às vezes até exibidos em museu, como se a gente dissesse com orgulho: olhem como fomos eficientes até na matança.
E não me venham com essa conversa simplista de separar os bons dos maus, como se o mundo fosse um teatro de bonecos em que alguns mexem os fios da maldade e outros só dançam a musiquinha da virtude. Porque, se tem uma coisa que já deu tempo de aprender, mesmo a contragosto, é que ser bom depende muito das circunstâncias — e ser cruel também. O mesmo sujeito que hoje abraça o vizinho, amanhã pode mirar nele, se o mapa mudar, se a bandeira trocar de cor ou se alguém gritar que é isso ou morrer — e nem falo da morte do corpo, mas daquela outra, a que nos arranca da tribo, que nos expulsa do grupo, e que, convenhamos, é a que mais mete medo.
Dizem que somos civilizados, modernos, que aprendemos com os erros do passado. Mas basta uma crise, um colapso no mercado, uma eleição mal digerida, um inimigo fabricado na prensa da propaganda, e lá estamos nós outra vez, com a tocha na mão e a convicção inflada no peito, prontos pra fazer justiça do nosso jeito — como se a justiça algum dia tivesse tido mãos que não fossem as nossas. E se me perguntarem onde estão os maus, eu digo: em todo lugar onde os bons acham que têm razão demais pra ouvir.
Ah, os bons. Essa turma tão cheia de certeza, tão limpinha, tão moralmente alinhada. Nunca hesitam, nunca tropeçam, nunca suam. Só apontam, denunciam, corrigem. Como se tivessem recebido um crachá de pureza e agora fossem os únicos autorizados a decidir quem merece o chão e quem merece o buraco.
E os maus? Ora, os maus são uma delícia. São úteis, funcionais. Eles explicam tudo: a decadência, a violência, a bagunça, o trânsito. Com eles, a gente dorme tranquilo — porque o mal tá sempre lá fora. Nunca dentro. Nunca na gente. Nunca no jeito que a gente ama, teme, decide ou se cala. E assim seguimos, com a consciência lavada e o sangue nas mãos dos outros.
Porque, no fundo, todo mundo está pronto. É só aparecer a causa certa. E se não aparecer, a gente inventa. Ou então pega emprestada de alguém mais convicto, mais barulhento. Não faltam bandeiras, slogans, hinos, líderes carismáticos e frases de efeito. E então o homem bom marcha, o homem bom grita, o homem bom aperta o gatilho. E quando tudo passa, ele diz que não sabia, que só cumpria ordens, que era pelo bem maior. Depois volta pra casa, dá ração pro cachorro, paga os boletos e segue se achando bom. Talvez até melhor. Mais consciente, mais patriota, mais cidadão.
E é aí que mora o perigo. Não no grito selvagem, mas no silêncio limpo. Não no monstro escancarado, mas no sujeito comum cheio de certezas. E se me pedirem um jeito de distinguir o bem do mal, eu respondo: não sei. Talvez nem tenha como. Talvez o mais sensato seja desconfiar — não do outro, mas de si mesmo. Porque quem confia demais na própria bússola moral corre sempre o risco de bater palma pro horror, desde que ele venha bem justificado.
E aqui, diante da tela acesa onde se escrevem hoje as velhas confissões do mundo, eu deixo essa dúvida como quem planta não um fruto, mas uma faísca:
se todo mundo é capaz de tudo, quem é que vai nos salvar das nossas causas?
Eu, que de paciência pouco me sirvo e da esperança já fiz penhor em tempos mais ingênuos, pergunto-me, e não é uma pergunta retórica dessas que se fazem apenas para enfeitar o papel, mas uma daquelas que, quando surgem, vêm com o gosto amargo do fel e o peso de uma verdade que se arrasta atrás de si como corrente mal quebrada, pergunto-me, repito, em que momento aceitamos — aceitamos, veja bem, e não finjamos que fomos apenas arrastados pela maré — que a miséria moral deixasse de ser vergonha e passasse a ser projeto de governo, que a barbárie se sentasse à mesa e ainda fosse servida primeiro, enquanto os que deveriam levantar-se em protesto preferiram ajustar a cadeira, fingir que não era com eles, olhar para o lado como quem contempla a paisagem de um abismo sem perceber que já está com um pé lá dentro.
E digo mais, porque já que começamos a caminhar sobre este fio de navalha, vamos até o fim: o nome há de ser dito, não porque mereça, mas porque escondê-lo seria fazer-lhe o favor de preservar a decência que nunca teve, Itamar Ben-Gvir, esse é o nome que já deveria causar engulho antes mesmo de ser pronunciado, mas que, no entanto, circula com a desenvoltura de um velho conhecido nos salões onde se distribuem decretos e se legisla a desgraça como quem organiza o cardápio de um banquete fúnebre.
E não me venham, peço encarecidamente, com a história de que tudo é mais complexo, de que há nuances a considerar, porque a complexidade é o álibi dos covardes, e se há algo que este sujeito jamais foi, é complexo, porque o seu caminho é uma linha reta e suja, traçada desde a juventude quando, sem o menor pudor e com a arrogância própria dos que não têm sequer a grandeza da vergonha, arrancou o emblema do carro de Yitzhak Rabin e o ergueu como troféu diante das câmeras, numa exibição pública de um ódio que, poucos dias depois, se materializaria em tiros disparados por mãos que também penduravam na parede de casa o retrato do carniceiro de Hebron, Baruch Goldstein, retrato esse que, não por coincidência, decorava a sala do próprio Ben-Gvir, uma sala que jamais conheceu o incômodo de um pensamento decente.
E eu, que de espectador já me cansei, e que de silêncio não faço profissão, pergunto-lhe diretamente, sim, a você que me lê com esse leve desconforto que tenta disfarçar sob a desculpa de uma análise equilibrada, em que ponto exatamente você decidiu que era possível ser tolerante com o intolerável, e mais ainda, que era possível manter-se neutro enquanto o chão à sua volta arde em chamas acesas não por acaso, mas por mãos sabidas e intencionais, como aquelas que, entre um ajuste ridículo de paletó e uma cuspida de intolerância bem ensaiada, entregam ao mundo a mais repulsiva das certezas: a de que ainda há quem prefira o fogo ao esforço de construir pontes.
E porque não basta apenas apontar o dedo sem colocar o espelho, pergunto-lhe sem qualquer vontade de ser ameno, você, justamente você, que talvez tenha hesitado em condenar, que se calou em reuniões de família, que preferiu mudar de assunto nas rodas de amigos, que justificou a ascensão do monstro com aquela frase miserável de que “as coisas não são bem assim”, o que pensa agora, diante desta fogueira que já lambe as paredes da sua própria casa? Acha mesmo que se salvará do calor apenas porque, até agora, limitou-se a aquecer as mãos à distância?
Não há mais espaço, e nunca houve de fato, para essa farsa piedosa da neutralidade, porque a neutralidade, quando o intolerante já ocupa o centro do palco, é apenas a forma mais covarde de tomar partido, é sentar-se entre os bárbaros e acreditar que, por não levantar a taça no brinde à destruição, já se está absolvido da culpa.
Pois saiba, e saiba bem, que a história que vier, porque sempre vem, escreverá com a frieza dos que já perderam a paciência até para a compaixão, que entre os incendiários e os que simplesmente observaram, não há distinção moral, apenas diferença no método.
E no fim, quando as cinzas assentarem, e que ninguém duvide de que elas virão, não restará sequer a sombra para protegê-lo da pergunta que ressoará em sua cabeça como um martelo final: onde você estava enquanto o intolerante incendiava tudo? E pior ainda, por que diabos você nada fez?
E esta, lamento informar-lhe, será a pergunta sem resposta. E que esse silêncio, ao menos, lhe sirva de penitência.
Empatia é palavra suave para um ato árduo: sentir a dor alheia como se fosse sua. Não é fácil abrir o coração à tristeza do próximo; requer uma generosidade de alma que só floresce nas horas mais sombrias. Em Israel, no Dia do Memorial – o Yom Hazikaron – essa empatia se torna um rito coletivo. Cada israelense carrega a memória de alguém que a guerra levou. Quando a sirene toca, o país inteiro se imobiliza em dois minutos de silêncio. E não há ali desconhecidos: todos choram juntos. Confesso que essa cena, a cada ano, ainda me emociona e quase devolve minha fé na união pelo sofrimento partilhado.
Mas a realidade faz questão de testar essa fé. Na noite do Yom Hazikaron de 2025, em Ra’anana, nem mesmo a solenidade daquela data escapou à barbárie. Uma cerimônia em memória de israelenses e palestinos mortos – realizada em uma sinagoga reformista – foi atacada por um grupo de extremistas. Pedras e insultos voaram pelas janelas, estilhaçando vidraças e calando preces. Famílias inteiras tiveram de sair sob escolta da polícia, com o medo nos olhos. Houve feridos, houve pânico, houve sacrilégio naquele recinto dedicado à lembrança dos caídos. Por instantes terríveis, judeus fugiram de judeus dentro de uma sinagoga — algo impensável até que se tornou realidade.
Sim, existem pessoas más. Gente que age com intenção, método e frieza. Os agressores se julgam patriotas, mas não passam de profanadores do luto alheio. Gritaram “traidores” aos que rezavam, sem enxergar que a verdadeira traição à pátria é semear o terror entre os próprios irmãos. Não há simetria possível aqui: quem atira pedras contra compatriotas em pranto não defende valor algum — apenas conspurca a memória que a nação deveria honrar. Justificar tamanha agressão seria corromper ainda mais o sentido de decência. Nenhum pretexto, desculpa ou contexto atenua o que se viu.
Fico a pensar no significado desse abismo moral. Se nem mesmo nossos mortos conseguem mais unir os vivos, que futuro espera este país?
Por que eu digo – e afirmo sempre, que sou anarquista?
2
Digo que sou anarquista (prefiro a palavra anárquico) pela manhã, pela tarde, noite e madrugada? Por quê? Qual razão?
3.
Porque vivo, aliás, existo, em sociedade! E, entre seres humanos maravilhosos há, também, asnos, asnos conservadores, asnos midiáticos, asnos convictos, asnos militarizantes, asnos dogmáticos, asnos crentes, asnos místicos, asnos idólatras, asnos pregadores, asnos alucinados, asnos noveleiros, asnos criadores de asnos… e todos esses asnos consideram um anarquista como alguém que seja capaz de fazer o que apenas asnos fazem!
4.
Mas, enganam-se os asnos! Sou anarquista – e asno não serei, porque ser anarquista significa, desde sempre, não ser conservador, midiático, convicto, militarizante, dogmático, crente, místico, idólatra, pregador, alucinado, noveleiro e criador de outros asnos… Ser anarquista é ter a opção de não ser nada disso…
5.
Optei pela palavra “anarquista” ou “anárquico” por ser, então, a mais confusa e mal utilizada. Até os bodes e os cabritos, bem como as ovelhas que andam pelas ruas quebrando orelhões, vidraças e ônibus se chamam (a si mesmos) de anarquistas. Mas, são apenas bodes, cabritos e ovelhas – alucinados, quebradores de orelhões, vidraças e ônibus!
6.
É preciso dar a essas palavras, ou seja, anarquista, anarquismo, anárquico, anarquia, o seu exato sentido, o sentido grego (e, mais ainda, o sentido judaico), assim como para a outra palavra, que uso com orgulho incontido, “ateu”! Neste caso, não tem a ver com as forças incompreensíveis do Cosmos, da Natureza (que respeito!), mas com a futilidade e idiotia das teologias que bloqueiam o mundo! Falarei disso oportunamente…
7.
Por que eu digo – e afirmo sempre, que sou anarquista? Porque é preciso resistir à cola asfáltica, ao mundo ensebado, à uniformização, à anulação, à destruição da criatividade! É preciso respirar, sonhar, amar, viver, viver, viver, sem muros e sem senhores! É preciso viver sem cascos!
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Dezembro de 2014
Pietro Nardella-Dellova
“Por que digo – e afirmo, que sou anarquista” in INFLEXÕES ANÁRQUICAS E ALGUMA POESIA NO UMBIGO DA MULHER AMADA. (prelo)
Façamos amor por todo este dia, nus (e desnudados) em gozos plurais, multifacetados e libertação plena! Vem, amor!
III
Quando nos cansarmos da cama, faremos amor no sofá, na mesa da cozinha, no corredor, no chão da sala. Vem, amor!
IV
Abriremos nossas pupilas e nossos poros, abençoaremos nossos lábios com nossos próprios corpos, libertaremos nossos fogos e, em urros, voaremos às alturas e, sem trégua, mergulharemos, profundos, em nossos corpos e almas!
V
Lá fora, hoje, meu amor, na rua, há apenas torcida organizada por anencéfalos, e há torcedores drogados carregando suas bandeiras e seus paus, e há repressores, e há reprimidos, e há destruidores da Educação, e há osmóticos, e há repetidores de PowerPoint, e há homofóbicos, e há islamofóbicos, e há banqueiros, e há antissemitas, e há fascistoides, e há nazistas, e há preconceituosos, e há os exterminadores, e há os militaristas, e há machistas, e há psicóticos, e há bipolares, e há espancadores de mulheres, e há autoritários, e há golpistas, e há ignorantes, e há racistas, e há noveleiros, e há midiáticos, e há ressentidos, e há vingativos, e há antidemocráticos, e há os que odeiam, e há egoístas, e há ovelhas, e há curiosos, e há os absolutamente incapazes, e há igrejeiros, e há roubadores de merendas, e há especuladores, e há agiotas, e há roubadores de dízimos, e há escravagistas, e há roubadores de almas e há, por desgraça, a massa assexuada e acrítica, arrastada e centrifugada pelos seus donos! Lá fora, hoje, meu amor, há apenas caixa de gordura e bonecos que marcham!
VI
Vem, amor, vem pra cama!
VII
Vem, amor, vem hoje. A política, meu amor, deixaremos para depois de amanhã, quando se reunirem apenas os esclarecidos, conscientes e libertários!