Cúmplices

Algumas notícias para começar o ano:

  • A Argentina (aquele país odioso e primitivo que tem Oscar, tem Papa, tem Nobel, tem imposto sobre grandes fortunas, e teve Maradona) agora tem aborto legal. O monstro desqualificado que outros 57 milhões de desqualificados colocaram no poder, neste paraíso chamado Brasil, criticou a medida, sob o surrado argumento de ser a favor da vida. Diz apiedar-se dos embriões. Trata-se da mesma pessoa que, no ano recém findo, não apenas causou a morte, por ação e omissão, de dezenas de milhares de brasileiros, como debochou acintosamente delas (as mortes e as pessoas) e das famílias enlutadas.
  • O jornal O Estado de São Paulo, cúmplice proativo, explícito e protagonista, dos desmandos, ilegalidades e arbitrariedades que atiraram o país ao abismo em que está metido, começa seu editorial de hoje, 01/01/2021, dizendo que os brasileiros contam as horas para o final do governo Bolsonaro, tido pelo centenário periódico conservador como, de longe, o pior da história do Brasil.
  • O nosso Ministério da Saúde, liderado pelo maior especialista em logística do mundo, atravessou o ano da maior tragédia sanitária global, em um século, mais perdido do que cego em tiroteio. É o mais atrasado do planeta. Não sabe qual vacina utilizará, não se sabe quando vai possuir alguma, e, muito embora disponha da mais completa, sofisticada e experiente infraestrutura de vacinação do mundo, não tem a menor ideia de como imunizará nossa população contra o vírus. Deixou vencerem, sem utilizar, vários milhões de testes diagnósticos de COVID-19, arma sabidamente eficaz no manejo da pandemia. Fármaco e dinheiro foram pro lixo. Para não deixar cair a peteca, e fechar o ano com chave de outro, fracassou miseravelmente na tentativa de simples compra de seringas. O pregão, destinado a adquirir 330 milhões delas, não comprou sequer 10 milhões. Não dá nem pra vacinar a população da cidade de São Paulo.

Estou tentando heroica e estoicamente encontrar palavras com as quais possa construir uma reflexão minimamente coerente em relação ao contexto capaz de gerar semelhantes fatos. Deixo ao(à) eventual leitor(a) a tarefa de, se quiser, também pensar sobre o respectivo significado e os desdobramentos, tanto independentes, de cada um deles, como do conjunto interconectado.

Confesso que pra mim está muito difícil. Chegamos a um ponto em que a barbárie foi  naturalizada de tal forma que desconfio que se um brasileiro comum se deparar com um cão de duas cabeças e seis patas, na rua, não vai achar nada de mais.

Afinal, pouco se lhe importa a hipocrisia demagógica de um presidente que, ao tempo em que mata diariamente milhares de pessoas, vem a público, movido pela conveniência política mais abjeta, afirmar-se a favor da vida.

Tampouco se apercebe, nosso prezado concidadão, da manipulação canalha a que é submetido pela mídia oligárquica todo santo dia. Culpado direto, doloso e premeditado da própria existência de Bolsonaro, o Estadão agora, ao condená-lo, adota o tom de um terceiro desinteressado. No que, aliás, não é nenhuma exceção.

Igualmente, não faz cócegas intelectuais ao brasileiro comum a inépcia colossal justamente das autoridades mais importantes no dia de hoje, para o destino da sua vida e da dos seus. Lé é lé, cré é cré, e tudo bem.

Lembro-me com impressionante nitidez do terror que me tomou de assalto no momento exato em que soube da eleição de Donald Trump.

Aquilo era simplesmente inconcebível. Como podia ser? Uma caricatura de ser humano, cuja simples figura era um atentado civilizatório, iria liderar o mundo? Como poderíamos ser tão imbecis, tão irresponsáveis, tão inconsequentes? Qual destino nos aguardava?

A mesma sensação, agora multiplicada ao infinito (seja porque dizia respeito direto ao meu dia-a-dia como brasileiro, seja porque a repetição poderia indicar uma tendência), sobreveio na proclamação da vitória de Bolsonaro, este uma caricatura daquela caricatura. Uma perplexidade sem limite, sem medida, sem explicação.

Felizmente estamos prestes a nos livrar do primeiro, muito embora não tenha decepcionado no que tange aos estragos que causou, cujos efeitos custarão gerações para serem amenizados.

O segundo, porém, ainda está aí. E tampouco decepciona. Ao contrário. Não apenas concretiza todo o horror que previmos (nós, os milhões que não o elegemos), como se esmera todos os minutos de todas as horas de todos os dias em piorá-lo ao limite do intolerável.

Nós, os milhões que não elegemos esse monstro, sabíamos que ele o era. O que, diga-se, não constitui nenhum mérito, porque ele jamais teve a menor preocupação em esconder ou mesmo disfarçar a sua monstruosidade. Ao contrário, ostentou-a sempre com o orgulho de um sociopata ordinário.

É preciso admitir, porém, que nem o mais realista, ou o mais pessimista, poderia imaginar que chegaríamos tão fundo, sob o nariz apalermado de um povo incapaz de qualquer reação.

E assim aporto à única reflexão que me é possível.

O Brasil carece de pessoas de caráter em posições decisórias.

A serpente que hoje o devora não é fruto de geração espontânea ou de maldição divina. Ela nasceu de um ovo que foi posto, gestado e chocado à vista de todos.

E que poderia ter sido aniquilado em todas as suas etapas evolutivas, antes de dar o mal puro à luz.

À História caberá, com o necessário distanciamento temporal, compreender e explicar as razões pelas quais não o foi.

Arrisco, entretanto, algumas hipóteses.

O povo brasileiro, manipulado, enganado, cegado e manietado pelas elites e seus fantoches midiáticos, foi reduzido a uma patética impotência, ou tangido à destruição de moinhos de vento.

Os políticos de todo o espectro ideológico jamais foram capazes de dar uma resposta minimamente digna porque jamais tiveram a decência de olhar um centímetro além de seus próprios umbigos.

Restavam os juízes. Alguns analistas, escorados nos precedentes históricos, nunca apostaram neles um níquel furado; outros eram menos céticos.

A meu ver, a História, essa dama implacável, dará razão aos primeiros.

Todos os olhos conscientes deste país viram quando a elite, pela enésima vez, colocou as mangas de fora para abortar um incipiente e insignificante processo de equalização da cidadania brasileira.

Impune, sentiu-se encorajada para levá-lo adiante, nas barbas passivas dos que podiam evitar.

Nem nós nem a História esqueceremos que os Ministros do STF ficaram desgostosos quando Dilma lhes negou indecente aumento salarial.

Tampouco esqueceremos que, mesmo instados a agir, pelos meios próprios, eles ficaram inertes diante do boicote liderado por Eduardo Cunha nas pautas-bomba do Congresso.

O Brasil jamais deixará de sentir o impacto que sofreu quando os representantes da mais putrefata dessa elite escancararam a cumplicidade dos ministros da Suprema Corte no acordo espúrio “com Supremo com tudo” para atirar as instituições – e com elas, a democracia – no esgoto.

Nós cobraremos, em algum momento, a comprovação desse processo escabroso pela omissão criminosa do STF em decidir que não havia crime de responsabilidade a embasar o  impeachment. O processo é político, mas a base que o sustenta é jurídica.

O judiciário é – ou deveria ser – o último refúgio da cidadania. Ela a ele acorre quando tudo o mais não a socorreu.

Os juízes do STF tinham nas mãos, naquele momento, o destino do Brasil. Mas lavaram-nas.

Tinham o poder, e mais, o dever, de impedir o conluio, a trama, o golpe. O crime de responsabilidade, único evento capaz de gerar o impedimento de um presidente da república, está definido na Constituição. É, portanto, uma figura jurídica, cuja existência no caso concreto depende de exame e interpretação. Ambos cabem, privativamente, ao Supremo Tribunal Federal.

Entretanto, provocado inúmeras vezes, ele nunca o fez. Jamais se pronunciou se crime houve, tal como previsto, ou não. Omitiu-se. Tinha poder de mudar a História, e não o fez. Abriu mão desse poder, em nome de interesses menores e mesquinhos.

Tiraram o corpo fora. E ali selaram nossos destinos. O ovo da serpente, ainda frágil, estava exposto a céu aberto. Quem poderia destruí-lo esquivou-se. Permitiu que fosse chocado. Como a boa e velha História não se cansa de ensinar, sempre se sabe quando e como um golpe contra o Estado de Direito começa, mas nunca quando ou como termina. Hoje, diante do caos que provocaram, tratam do assunto como se não tivessem nada com isso.

Já nem falo das lavajatos da vida, conduzidas num nível primário por notórios fraudadores, obscurantistas, fundamentalistas e retrógrados adoradores da barbárie.

Porém não poderemos, nós e a História, esquecer-nos de que também tais aberrações só puderam florescer e adquirir peso capaz de influir nos destinos da Nação, à sombra das mesmas omissões de quem deveria coibi-las.

Afinal, se a presidência da república é tão frágil que pode ser mortalmente ferida por quase nada, ao sabor de conveniências de ocasião, qual o problema de fraudar uma eleição através de lawfare, para ali colocar um “amigo” e impedir o acesso a um inimigo?

Tanto problema não há, que foi feito despreocupadamente. E com absoluto sucesso.

Mas nem mesmo a consumação do dano formidável foi capaz de sacudir a letargia. Na semana que vem completar-se-ão nada menos do que 19 meses da vinda à luz, através do site The Intercept Brasil, daquela que é possivelmente a maior e mais grave fraude judiciária da história mundial, e até agora não houve absolutamente nenhuma consequência.

Alguns Ministros do STF até se escandalizaram e deram declarações contundentes reconhecendo a falcatrua jurídica. O mais notável foi Gilmar Mendes, que, entre muitas outras coisas,  cunhou a expressão irônica “Direito Penal de Curitiba”, e invocou o Espírito Santo para que, se não pudesse fornecer aos Ministros um pouco de senso de justiça, que ao menos lhes preservasse o senso de ridículo.

Mas mesmo assim…nada. A escancarada e escandalosa parcialidade do julgador em inúmeros casos ainda não foi sequer apreciada. Nem um único dos processos viciados pelo conúbio criminoso entre juiz e procuradores foi anulado. Periga de tudo simplesmente cair no esquecimento.

Moro continua sem sofrer uma punição sequer. Ao contrário, leve e fagueiro, acaba de subir na vida. Dallagnol, idem.

E lá se vão dezenove meses. Dezenove!

Não nos enganemos, portanto. Enquanto povo, temos culpa, sim. A pequenez e o mau caráter de nossa classe política, também.

Mas não olvidemos os Ministros do Supremo Tribunal Federal. Eles, como ninguém, tiveram o destino do Brasil na mão, e o jogaram aos lobos.

A História, Excelências, esconde-se logo ali, dobrando a esquina, e está de olho em vocês. Ela sabe o que vocês fizeram no verão passado.

 

 

 

 

 

 

Samba Perdido – Capítulo 25 – parte 02

Quem passava o verão em Porto Seguro  eram turistas convencionais do Brasil inteiro. A gente estava ali para se juntar à malucada de Ajuda e Trancoso, por isso dois dias depois estavamos de saida. Só que o retorno foi decepcionante. O paraíso de dois anos atrás parecia um outro lugar. Agora a principal atividade era o turismo. A temida luz elétrica já havia chegado e, com uma balsa melhor, havia carros estacionados por tudo quanto é canto. A vila estava abarrotada e tinha se tornado muito mais estruturada com bares mais elegantes, restaurantes e pousadas exclusivas. É claro que a inflação de vinte procento ao mês tinha chegado lá também e tudo estava mais caro. Cheguei a perguntar por pescadores que conhecia e descobri com tristeza que a maioria tinha deixado o vilarejo depois de vender seus barcos e suas casas a preço de banana.

Para mim, a santidade do lugar estava sendo ofendida pelo clima semi urbano e por cortes de cabelo estilo anos 1980 e a maquiagem gótica que alguns visitantes – e até mesmo alguns jovens da terra – estavam usando . Não queria ter contato com a maioria das pessoas ali e o sentimento parecia mútuo.

Para piorar as coisas, comecei a reparar que a agenda do Pedro na viagem era a de se enturmar com o pessoal mais “interessante”, leia-se mais abonado, ligado às artes, à neo-sofisticação mística-zen e em produtos alternativos. Essa turma era mais velha e com vidas estáveis. No geral estavam o mesmo circuito que a gente, só que de carro e parando em pousadas confortáveis.

Em Ajuda havia agora uma hierarquia ditando que aquele grupo era melhor que o resto. Eles alimentavam esta percepção se isolando em pousadas exclusivas e em praias afastadas, igual ao que o Gabeira tinha feito a dois verões passados. Para Pedro, seu público alvo era uma porta de entrada para um mundo de conforto financeiro e de sucesso profissional. Não que tivesse qualquer coisa contra aquelas pessoas, mas amizades por interesse não tinham nada a ver com o que estava fazendo ali.

À noite, com todos relaxados pelos dias mágicos daquelas praias, as pessoas se juntavam em rodas de violão num espírito mais comunal. Afinal de contas, esse sentimento era o motivo pelo qual todos tinham viajado de tão longe. Nessas horas, ficava claro que todos estavam atrás de uma experiência parcida com a que eu tinha tido na primeira vez, só que para mim aquela energia já tinha alçado voo.

Contudo, a magia eterna da música continuava viva e com esforço e sinceridade dava para fazê-la presente de novo. Naquele segundo verão em Ajuda, já tocava faziam cinco anos. Tinha melhorado a técnica e tinha incluído um monte de músicas e estilos novos no repertório. Também estava começando a dominar as manhas de cativar o público, algo aprendido em rodas e festinhas da escola e agora da faculdade. Quando um pequeno público se juntava a volta, era com o maior prazer que tocava noite à fora. Com alguns bares agora pagando músicos amplificados, as sessões aconteciam na praia onde a luz elétrica ainda não tinha chegado. Era comum encontrar um ou outro cara com um instrumento. A gente saía tocando e o pessoal ia se chegando. Se rolasse o clima certo, saía cantando.

Começava com músicas mais intimistas e psicodélicas como Terra, de Caetano Veloso, Caravana, de Geraldo Azevedo e Chão de Giz, de Zé Ramalho. Conforme a atenção ia aumentando, tocava algumas do Milton Nascimento, do Beto Guedes, dos Secos e Molhados, do Fagner e do Belchior. Depois de estabelecer o clima, introduzia uns clássicos da bossa nova como Wave e Garota de Ipanema. Do início suave, engrenava numa parte mais ritmada: músicas dos Novos Baianos e do Djavan, forrós de Luiz Gonzaga, algum rock nacional da Rita Lee e do Raul Seixas. Animado e cantando junto, o pessoal estava pronto para sucessos mais ritmados do Gilberto Gil e do Caetano Veloso. Com todos em ritmo de festa, mandava canções carnavalescas de Alceu Valença e de Moraes Moreira e para fechar a noite recorria ao Jorge Ben.

Havia vários músicos na area. Às vezes, não era eu no volante e quando isso ocorria fazia o mehor para adicionar lenha à fogueira música para que a magia acontecesse e que Ajuda voltasse a ser Ajuda. Era uma alegria sentir as pessoas serem maiores do que a aura negativa tomando conta do pais, voltando a ser elas mesmas e curtindo junto sob o céu estrelado.

Nem todos apreciavam a este experiência. Ficar ouvindo um violeiro acústico era considerado ultrapassado por muitos, principalmente pelos mochileiros heavy metal acampados no mesmo terreno baldio onde outrora tinha dividido a cabana com as brasilienses. Durante o dia, o clima era horrível: a praia vivia lotada e barulhenta. Gente das cidades vizinhas chegava de carro e, para se mostrar, ligavam o som nas alturas colocando música para lá de brega. Na vila, havia muita gente agressiva, ninguém se conhecia direito e o pessoal da terra estava antipático e dinheirista. O Arraial d’Ajuda estava estragado e queria ir embora. Trocar Ipanema por aquilo não fazia sentido.

Não era possível que Trancoso fosse dar tanta decepção. A eletricidade ainda não tinha chegado lá e o acesso continuava difícil. Mesmo se esbaldando em encostar no monte de gente “interessante” passando o verão em Ajuda – que eram as pessoas que mais gostavam do que eu tocava – Pedro também estava de saco cheio de ser tratado como um turista. Foi fácil convencê-lo de que se trocassemos de vila, a experiência seria mais autêntica, mais em conta e haveria um número igual ou talvez maior de pessoas “interessantes” para conhecer.

*

Dessa vez não foi necessário cruzar rios profundos no meio do nada e no escuro, afinal tínhamos uma barraca que montamos num canto do quadrado assim que chegamos. Contudo, as coisas haviam mudado em Trancoso também. Não encontrei ninguém conhecido e até o dono do bar havia mudado: Seu Manuel tinha sido substituído por um sujeito sizudo e antipático de Eunápolis.

Em nossa primeira noite tivemos uma introdução à nova realidade. Estava dormindo e o Pedro me cutucou: “Aê, Rique, tu ouviu isso? ”

Confuso e meio puto por ter sido acordado perguntei: “O que?”

Ele sussurrou: “Tem alguém mexendo com as nossas paradas lá fora.” Fiquei alerta na hora. “Shhh, abre a barraca quietinho e vamos pegar esse merda agora.”

Segurei no zíper da barraca e abri o mais rápido e mais silencioso possível, só que o cara ouviu, tomou um susto e saiu correndo. Quando conseguimos sair da barraca já era tarde demais. O louro falso de cabelos encaracolados e de shorts já estava longe, correndo protegido pela luz da lua.

O Pedro ainda gritou: “Volta aqui, ladrão filho da puta!”

A gente tinha dormido com nossas carteiras dentro da barraca por precaução. De qualquer forma, fomos checar as mochilas e foi um alívio ver que ainda estava tudo lá. No dia seguinte, vimos o ladrãozinho na praia todo enturmado jogando vôlei com a moçada.  Como não podíamos provar nada, a única coisa ao nosso alcance foi ficar encarando ele com a cara fechada, o que ele fingiu ignorar.

Tomar cuidado para não roubarem minhas coisas não foi a única coisa que aprendi naquela noite. Quando começou a clarear me dei conta que os mosquitos de Trancoso usavam as barracas dos campistas como centros de convenções. A claridade revelou um tapete deles cobrindo as paredes de nylon. Da outra vez, não tinha sido assim no barraco no meio do mato, devia ser o abafado quente que os atraía. Depois de ver aquilo não dava mais para dormir ali dentro. A única maneira de conseguir algum alívio foi sair com o saco de dormir, se deitar na sombra de uma casa e deixar que o vento os levasse.

*

Ao contrário de mim, um vara pau desengonçado em quem se podia contar as costelas e com cara de viajandão, Pedro tinha o corpo de um jogador de polo aquático. Com olhos pequenos e maliciosos, voz grave, pele cor de caramelo e cabelos encaracolados meio louros, ele fazia sucesso com o sexo oposto. Com um talento natural para aquilo, era supertranquilo, ia direto ao ponto e sabia as palavras certas e a hora certa de dizê-las.

Depois de uma semana e pouco no Sul da Bahia, os insetos e os ladrões não eram as únicas coisas me incomodando: minha falta de sucesso com as mulheres comparada com os triunfos dele estava difícil de digerir.

À noite, enquanto ele se dava bem, quando não estava tocando e todos estavam se divertindo perto de fogueiras, ocasionalmente a seriedade da minha situação fora dali tomava conta de meus pensamentos. Como seria o futuro naquela faculdade que não era para mim? O que aconteceria com a crise econômica cada vez pior e com a idade do meu pai avançando? Onde estava a namorada que se importava comigo e que gostava das mesmas coisas que eu? O quanto as coisas teriam que piorar até que elas começassem a melhorar?

Me sentia como se tivesse alcançado o topo de uma montanha em meio a uma linda paisagem para descobrir que do outro lado havia um depósito de lixo. Aqueles problemas eram como a parede de mosquitos na barraca: podia espantá-los temporariamente, mas eles voltariam não importa o que eu fizesse.

Muitas pessoas estavam na mesma situação: essa era uma geração de classe média órfa da prosperidade e da ideologia libertária e igualitária dos anos 70.Agora estava desprotegida da crise econômica e despreparada para lidar com ela. Alguns nos viam como um nicho de mercado. Um dos exploradores era Rajneesh, atualmente Osho, um guru indiano radicado nos Estados Unidos. Em Trancoso, só se falava dele. Baseando-se na psicologia ocidental e em filosofias orientais, ele pregava que o caminho para a iluminação espiritual era através da aniquilação do ego por meio da exaustão da libido. Criador de uma seita mundial em torno dessas teorias, suas terapias tinham forte conotação sexual, algo que duvidava ser autêntico na sociedade tradicional hindú. Naquele verão havia inclusive vários iniciados e iniciadas usando camisa/uniformes laranjas e carregando um colar de contas com a sua foto. Cheguei a ler alguns do seus livros; eram tão bem escritos que cheguei a ficar tentado a participar – muitas gostosas estavam fazendo isso – mas o preço exorbitante dos encontros e estadias nos  seus Ashrams me convenceu a ficar de fora.

Havia paralelos entre a filosofia do mestre indiano com o discurso do Gabeira. Os dois pregavam mudanças pelo uso do corpo. A diferença era que o ex-exilado estava interessado em se promover como autor e como político enquanto a seita era voltada para tirar dinheiro dos seguidores. Encontramos pessoas que tinham chegado a conhecer Rajneesh, ou o Bagwan, pessoalmente no seu centro gigantesco no estado do Oregon, nos Estados Unidos, um caro privilégio. Elas falavam em cair aos prantos ao ver seu olhar “penetrante e amoroso” que havia “libertado suas almas”.

*

As praias de Trancoso continuavam maravilhosas, bem mais tranquilas do que as de Ajuda. Igual ao que tinha acontecido na minha ida anterior, todos frequentavam de dia. Ficávamos sentados – a maioria brancos de centros urbanos – conversando, olhando para o horizonte azul claro e curtindo a brisa suave nos refrescando enquanto balançava as árvores e o verde logo atrás. Num flagrante contraste com minha primeira visita, ao invés de falar das maravilhas do aqui e agora, o assunto principal eram os livros daquele guru estrangeiro, velho e barbudo e as suas terapias tântricas para alcançar a iluminação espiritual. Nas cabeças daquelas pessoas ele era o único que, por uma quantia fixa, podia deixá-los em um estado de paz semelhante ao que tinha sentido apenas por estar sentado ali há dois verões atrás. Para começar um quebra-pau ou se tornar impopular com a galera, era só lembrar que ele estava desfrutando o seu sucesso em outro país, sendo conduzido de Rolls Royce no seu Ashram dando tchauzinho para seus seguidores que pagavam uma pequena fortuna para estar ali.

Eu ficava na minha, pensando que esse era “o” produto que todos queriam: se desligar da realidade num orgasmo infinito. Isso não era novidade. Vender uma ficção reconfortante como um refugio de uma realidade hostil já era – e ainda é – feito pelas grandes religiões há séculos. Já tinha problemas suficientes com a minha para brigar com os outros por causa disso.

Era compreensível que em um lugar com Trancoso, ninguém quisesse falar sobre suas angústias naqueles tempos sombrios, mas para que ficar falando o tempo todo sobre o Rajneesh? Meu instinto me dizia que as infelicidades, como as daquele momento, estavam além do nosso controle, da mesma forma que as bênçãos que havíamos recebidos nos bons tempos. Tínhamos o poder de decidir como reagir aos contratempos, mas nenhum guru ou pílula mágica poderia abrandar o que o destino tinha guardado para nós. Podíamos tentar transformar a realidade. Deixar a realidade nos transformar? Para mim, nunca!

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2021 o ano para se derrotar a Barbárie

E chegamos ao final de 2020, um ano para ficar na história da humanidade. O ano que todos querem esquecer que existiu. Como nos elevadores de certos prédios americanos que pulam do 12º para o 14º, talvez alguns calendários no futuro também pulem este ano.

Ninguém previu a pandemia. Não tivemos adivinhas com suas previsões mirabolantes que sequer tivessem mencionado  o que estava por vir. O que passamos neste ano pegou a todos de surpresa, surpreendeu até mesmo os pessimistas de plantão.

Diferentemente de todos os anos a retrospectiva desde que passou será basicamente de perdas. Entre conhecidos e desconhecidos, o mundo já perdeu 1.750.000 seres humanos. Não fosse o avanço da medicina e a chegada da vacina, este número continuaria subindo.

Graças a ciência, o mundo pode receber em tempo recorde a injeção da esperança. A vacina vai salvar vidas e nos devolver parte da vida que tivemos antes. Parte, porque nada será como antes.

Na minha retrospectiva deste ano que vai passar, recordo os tradicionais desejos de saúde e dinheiro no bolso que escutamos na virada de ano. Nunca antes estes desejos foram tão importantes. Saúde foi a maior das bênçãos e dinheiro no bolso, a maior dádiva. Que os digam os que tiveram a doença e os que tudo perderam por causa dela.

Está chegando ao fim, 2021 já bate a nossa porta e desta vez os desejos de um ano bom, são os mais sinceros possíveis. Um ano com saúde, muita saúde e que vacinados possamos recomeçar outra vez.

Passado o pesadelo, vamos lembrar dos que apostaram na vida e dos que apostaram na mentira de uma gripezinha. De todos os males, a falta de atitude de Bolsonaro na prevenção e contenção da doença não vão ser esquecidos. Sua inépcia foi diretamente responsável pela morte de milhares de brasileiros. O Brasil nunca teve um gabinete de notáveis para conduzir o enfrentamento a pandemia.

Bolsonaro jogou o Brasil de volta ao mapa da fome e a economia do país vai levar anos para se recuperar. O abismo que separa ricos e pobres se tornou intransponível. Quem está lá embaixo não tem como subir e não existe planejamento para que isto aconteça. A ideia é de manter a Casa Grande bem suprida  e quem estiver do lado de fora no seu lugar.

O ano que vai chegar será um ano de enfrentamentos. Agora o Brasil terá de derrotar a barbárie, não existe outra alternativa. A civilização precisa ressurgir e se impor, ou pior do que a pandemia, a miséria vai tomar conta do país como nunca antes visto. Os primeiros sinais estão aí com grandes empresas abandonando o Brasil. O capital tem um bom faro para apostas e o Brasil não é mais desejável.

O mundo inteiro foi atingido por uma doença, ninguém escolheu receber o vírus em seu território. Ele foi chegando e se impôs. Antes do Covid-19 o Brasil elegeu um verme para presidir a nação. Foi uma escolha democrática, uma decisão que só tornou o pior, muito pior. De uma forma sórdida, com o uso de mecanismos obscuros, com uma tática alienadora, a barbárie impôs seu candidato, de todos o mais impróprio.

A civilização não estava preparada para o que aconteceu. Não soube como enfrentar a guerra de difamações, da mesma forma que a ciência não tinha meios para enfrentar a pandemia. A democracia foi de uma ingenuidade angelical. A ciência achou que podia tratar o mal com aspirina.

Agora temos o conhecimento necessário para solucionar os dois problemas. A ciência já está fazendo o seu papel para derrotar a pandemia, resta os brasileiros despertarem para um 2021 de recuperação da sua dignidade e derrotar a barbárie.

Que 2021 seja o ano da Ciência e da Civilização. Feliz Ano Novo!

 

 

Sou Jacaré

Reações alérgicas (hipersensibilidade) como asma, reações leves a moderadas que potencialmente afetam a pele, o trato respiratório, o trato gastrintestinal e o sistema cardiovascular, com sintomas tais como erupções na pele (rash cutâneo), urticária, inchaço (edema), coceira (prurido), rinite, congestão nasal, alterações cardiorrespiratórias e, muito raramente, reações graves, como choque anafilático;

Eu não sei quem de vocês, toma remédio prescrito, ou não, por médicos. Não precisa ser nada de muito especial, nem com tarja preta, pode ser um simples remédio para dor de cabeça. Vamos pegar uma Aspirina, algo que todos estão acostumados.

Com certeza, 99% dos que estão lendo este artigo nunca leram a bula da Aspirina. Bem, o primeiro parágrafo aí em cima, apesar de muitos acharem que fosse sobre as vacinas contra o Covid-19, se refere exatamente as reações adversas que uma simples  Aspirina pode causar. Eis outra: Comprometimento dos rins e alteração da função dos rins (insuficiência renal aguda)“.

A verdade é que a bula de qualquer remédio vai conter advertências que fariam qualquer um desistir imediatamente dele. No entanto, são eles que salvam vidas e os responsáveis por fazer com que a nossa expectativa de vida chegasse nos dias de hoje aos 100 anos.

As advertências se referem a casos que podem ser definidos como raríssimos, mas precisam constar. Os casos adversos normalmente possuem tratamento, mas as consequências de não se medicar, provavelmente não.

O mesmo se pode dizer sobre as vacinas. Foram elas que acabaram com as mais graves doenças que vitimavam milhares de seres humanos ao longo da nossa história. Muitas levando ao óbito e outras deixando sequelas por toda a existência.

Escutar nos dias de hoje, diante de uma epidemia que já vitimou cerca de 3 milhões de pessoas, que está destruindo economias, arruinando negócios e causando uma onda de pesar internacional, da boca de um presidente da nação de que não vai tomar a vacina porque ela pode “transformar” a pessoa em um Jacaré, é de virar do avesso a Terra Plana.

Tive de assistir ao vídeo mais de uma vez para me certificar de que não se tratava de uma Fake News. Na primeira vez tive certeza de que era um daqueles vídeos alterados para parecer que o presidente estava dizendo algo que não era real. Assisti mais uma vez e procurei confirmar nos portais de notícias mais conhecidos, e pqp, ele realmente disse isso com estas palavras: “Se tomar vacina e virar jacaré não tenho nada a ver com isso“.

Por alguns instantes fiquei atônico e incrédulo com tamanha bizarrice. A seguir percebi um certo sarcasmo que estava fluindo em minha mente. Talvez a fala dele cause uma seleção natural no Brasil. Dentro em breve o Covid-19 só vai poder infectar os que não se vacinarem, os que seguem esta coisa que está presidindo o país, sem nenhum questionamento. Vai ficar fácil saber quem é bolsonarista, basta o cara se infectar.

Logo me veio a lembrança de que alguns cientistas diziam de que em uma hecatombe nuclear só sobreviveriam as baratas, e eu logo imaginei que no nosso caso, vão sobreviver somente os Jacarés.

Claro que não desejo a morte de ninguém por tamanha estupidez. Nem o gado merece tal destino. Estamos diante da luz no fim do túnel. As vacinas são o nosso passaporte para retomar nossas vidas, uma chance de um novo recomeço.

Em todo lugar estamos vendo os presidentes e primeiros países dos países que estão iniciando a vacinação sendo os primeiros da fila para darem o exemplo. Algo importante que transmite confiança e que deveria ser a norma, menos no Brasil, onde  o presidente se nega a tomar a vacina e faz questão de colocar dúvidas a eficácia delas.

Sua postura vai condenar milhares de brasileiros a se infectarem com muitos deles indo a óbito. É de uma ignorância desprezível. Não fosse a certeza de que é exatamente isso que vai acontecer, ficaria sendo mais uma de tantas bobagens saídas de sua boca. No entanto e para espanto geral, vai ficar por isso mesmo.

Só me resta apelar aos meus amigos: na história do Brasil recente sejam lembrados como Jacarés.

 

 

Catástrofe no STF

Na semana passada, o presidente do STF, Min. Luiz Fux, protagonizou, em harmonia com todas as formas de degradação moral, ética, filosófica, política e mental que o país empreende neste período indizível de nossa história, duas cenas horripilantes. Certamente os fatos não tiveram a devida repercussão nas grandes mídias, ressalva feita ao jornalista Reinaldo Azevedo, que em sua magistral aparição no programa “O é da coisa” edição de 27/11 verdadeiramente pontificou sobre a tragédia moral daquele ínclito cidadão ora comandando o maior tribunal da América do Sul.
Da mesma forma que Bolsonaro, Luiz Fux nunca escondeu quem é e o que é. A mais que famosa e emblemática entrevista que voluntariamente concedeu a Mônica Bérgamo na Folha de S.Paulo há alguns anos revela candidamente o tipo de sangue que corre naquelas veias de um ser rastejante e pobre de espírito, ainda que o seu cinismo possa denunciar alguma característica filogenética superior compatível com certos mamíferos de quatro patas.
Em evento do meio jurídico, Fux fez alusão ao “silêncio de muitos” que permitiu os horrores do Holocausto, colocando isto no mesmo nível que o “silêncio de muitos outros” que permite que a corrupção campeie nas planícies da República. Sim, o deplorável ministro colocou no mesmo nível o melhor exemplo de mal absoluto que a humanidade já perpetrou com a gatunagem vulgar mais que arraigada em todos os governos de todas as repúblicas. Comparou assim, propina com genocídio em massa orientado. Faltam palavras para descrever tamanho descalabro, tamanho sofisma, tamanha afronta à dignidade humana, aos milhões de mortos pelo nazismo. E o pior de tudo: Fux é judeu, e como tal, tem o dever moral, ético e intelectual de saber distinguir entre as categorias de corrupção que não são dirigidas a nenhum grupo e que não são específicas de qualquer categoria ou nação, que sempre estão ao alcance da lei – desde que o poder judiciário assim queira, de forma imparcial e democrática – e as categorias de corrupção fundadas na ação de estado e dirigidas e acumpliciadas pelo seu respectivo poder judiciário e que condena povos à morte da forma mais brutal que se possa imaginar.
Se não bastasse isso, Fux prega que “não vai tolerar ataques à Lava-a-Jato”, como se esta “grife” sórdida que se vende como combate à corrupção já não houvesse confessado de forma suficiente seus desvios e pecados que levaram a soberania do Brasil à banca rota. Agindo desta forma, Fux atinge diretamente colegas seus de tribunal que sabidamente posicionam-se há muito tempo contra os abusos de Sergio Moro, Dallagnol e outros, sobre quem a cada dia pairam seríssimos questionamentos sobre sua conduta ética, legal, e sobre a constitucionalidade de seus atos. É sabido que muitas vezes o STF dividiu-se em 6 a 5 sobre questões envolvendo direta e indiretamente os feitos da Lava-a-Jato. Com todo esse voluntarismo, Fux joga gasolina na fogueira que ainda está longe de esgotar seu combustível natural. Este comportamento de “juiz de condenação”, como bem descreveu Reinaldo Azevedo apenas consolida a visão da Lava-a-Jato como uma das mais distorcidas iniciativas jurídicas de nossa história. Novamente, recorrendo à sua origem judaica que com ele compartilho, para a minha vergonha no caso específico, comporta-se Fux de forma alheia à tradição ética talmúdica que serve a tantos grandes juristas como fonte de formação, informação e debate, mas acima de tudo, como fonte de parâmetros éticos para que os julgamentos sejam corretos, isentos, e baseados em princípios humanísticos.
Em certa medida, o Fux revelado na famosa entrevista não decepciona quase nunca, construindo assim pelo menos uma certa “segurança” que dá previsibilidade ao seu comportamento. Mas, infelizmente, seus comportamentos concernentes ao STF desde antes de sua indicação só fazem aumentar a percepção clara da tragédia que se constrói no STF desde a sua posse, e que só fará aumentar ao longo do tempo, até que alguma outra tragédia tire o “brilho” desta que é Fux, já que tudo indica que apenas um fim trágico pode interromper a trajetória deste ser tão detestável e envergonhante.

Maradona para quem merece Maradona e Pelé para quem merece Pelé

por Jean Goldenbaum

Nós, quando moleques, fanáticos por futebol, crescemos com aquela interminável questão: quem é o melhor de todos os tempos? Pelé ou Maradona? Ah, para nós brasileiros era fácil: Pelé era incomparável. E já dizia algum “filósofo do futebol”, que ele era o número um e Maradona e era o número cinco, afinal números dois, três e quatro simplesmente não havia. Que orgulho era para nós assistir aos vídeos do Rei do Futebol, do Atleta do Século. Era um deleite para os olhos observar os gols que fez e também os que não fez, na Copa de 70. Até mesmo sua parceria musical com Jair Rodrigues nos soava tão bem aos ouvidos… É, o homem tinha três corações mesmo e nós tínhamos ele em nossos.

Em minha visão ingênua e pequena de menino era simples: Pelé era um ícone, um herói, e Maradona era um vilão, um cocainômano, alcoólatra e envolvido com a máfia napolitana. E ainda por cima havia trapaceado no gol de mão de 1986!

Ok. Ainda bem que este tempo em minha existência já passou. Diferentemente de Drummond que tinha saudades dos seus oito anos e da aurora de sua vida, e de Chico que cantava a saudade ingrata dos seus 12 anos, eu fico feliz por ter crescido. Não tenho saudades alguma daquelas épocas, mas isto é outra história. O que importa aqui é dizer que hoje me sinto feliz em ser consciente e sabedor de coisas. E também sabedor de que não sei muitíssimas coisas ainda. Ah, também cabe dizer que parei de assistir futebol há muito tempo, afinal a máquina capitalista simplesmente destroçou o antes saudável esporte, transformando-o em mero “entretenimento-pop-enlatado-multibilionário”.

Mas voltemos ao propósito deste breve artigo: Maradona, que hoje sei, é o verdadeiro ícone e herói, faleceu ontem e este texto é dedicado à sua memória. É dedicado à sua incontestável posição política socialista, à sua convicção ideológica e ao seu desejo de sempre externar tudo isto. É dedicado à sua camiseta de Che, à sua tatuagem de Fidel, à sua camisa da Seleção com o nome de Lula. E é também – por que não – uma celebração ao seu “gol roubado”, que gerou a melhor resposta da história dos esportes, quando o argentino foi perguntado se assumia que o tento foi feito com a mão. Sim, hermano de Lanús, foi mesmo com la mano de Dios.

Já Pelé, fui compreender depois, era a pessoa que aceitou com “imensa satisfação a honrosa missão de representar o ilustre governo” ditatorial brasileiro em 1970. Tais palavras estão contidas em uma carta do atleta ao militar Emílio Médici, ao qual ele se dirige como “muito digno Presidente” (história publicada em 2014 pelo jornalista Lúcio Castro no portal da ESPN Brasil).

Pelé era também a pessoa que não reconheceu sua falecida filha legítima, a vereadora Sandra Regina Machado. Como se justifica algo assim?…

Compreendi também que aquela fala aos prantos após seu milésimo gol no Maracanã, “Vamos proteger as criancinhas necessitadas”, era só demagogia mesmo. O tempo provou. Este sempre foi o caminho de Pelé: pensar somente nele mesmo e se alinhar àqueles que detêm o poder. Desde 1970, quando a famosa a foto erguendo a Jules Rimet ao lado de Médici foi tirada, só poderíamos esperar dele isso que vemos em 2020: o cidadão sujando a camisa do Santos Futebol Clube com o mais nefasto nome da história da política brasileira. Simplesmente asqueroso e vergonhoso, da mesma forma que provou ser o patético Neymar e tantos outros neymares que existem por aí.

Maradona, ao contrário, ao invés de falar à imprensa mainstream sobre “as criancinhas”, decidiu falar diretamente ao Papa João Paulo II, lembram-se? E que “enquadrada”, hein? Ele próprio depois explicou a discussão:

“Discuti com ele porque estava no Vaticano e vi todos aqueles tetos dourados e depois ouvi o Papa dizer que a Igreja estava preocupada com o bem-estar das crianças pobres. Venda seu teto, amigo, faça alguma coisa!”

Por fim, cabe ainda lembrar que Maradona se pronunciava sobre a causa do povo palestino, sobre o conflito das Malvinas e era muito consciente sobre as questões políticas em seu próprio país e na América Latina como um todo.

Infelizmente Maradona sofreu sempre com problemas de drogas e de alcoolismo e certamente isso contribuiu para que partisse muito antes da hora certa. Termino este breve tributo ao maior personagem da história do futebol com as palavras de quem dispensa apresentações, Presidente Lula:

“O Maradona, além de ser um grande futebolista, era um grande político. Falava de política, de soberania, de América Latina, em defesa dos pobres, em defesa da vida. O Maradona tinha palpite para quase todas as coisas que aconteciam no mundo que prejudicavam o povo trabalhador e o povo humilde. E quero dizer ao povo argentino: poucas vezes vi um jogador de bola parar de jogar e não parar. Porque Maradona parou, mas continuou jogando. Continuou jogando em pensamento, em suas opiniões políticas, em suas críticas, e continuou jogando para o povo pobre do mundo inteiro.”

Valeu, Pibe de Oro! Realmente você e Pelé são mesmo incomparáveis. Saudações da Resistência daqui da Terra aí ao Céu.