Aras e Bozo, irmãos siameses

Geraldo Brindeiro entrou para a história como o “engavetador geral da República”, o homem que arquivou  mil e um  supostos autos criminosos contra FHC e seus aliados, evitando assim que as falcatruas tucanas viessem à tona.

Os números são eloquentes: de 626 inquéritos criminais que recebeu como procurador-geral da República, engavetou 242 e arquivou outros 217. Total: 459. Somente 60 denúncias foram aceitas. As acusações recaíam sobre 194 deputados, 33 senadores, 11 ministros e quatro sobre o próprio presidente. Por conta disso, recebeu o jocoso apelido. Entre as denúncias que engavetou está o maior escândalo da era Fernando Henrique Cardoso, a compra de votos para aprovação da emenda constitucional que aprovou a reeleição para presidente.

O tempo de Brindeiro passou. Assumiu Rodrigo Janot, responsável pelas denúncias por corrupção de cinco presidentes e ex-presidentes, inclusive Michel Temer, em exercício, que só escapou do processo graças ao voto do Congresso impedindo a sua abertura. Janot foi acusado de ter formulado acusações sem fundamento jurídico e imposto a sua agenda, paralisando o Executivo e o Legislativo. Entrou no barco da Lava Jato e perdeu o controle, inclusive de si mesmo. Em entrevista concedida para divulgar seu livro de memórias confessou que chegou a entrar armado no Supremo Tribunal Federal para matar o ministro Gilmar Mendes.

Chegou a vez de Augusto Aras, por quem o capitão teve, como é de seu feitio, um “amor à primeira vista”. Conservador, católico praticante e ideologicamente alinhado com Bolsonaro, Aras não integrava a lista tríplice para indicação ao cargo; chegou ao topo da estrutura do Ministério Público pelas mãos da ninhada 01, 02 e 03 e do ex-deputado federal Alberto Fraga, militar como o capitão, condenado por manter armas de fogo proibidas e corrupção, que fez a aproximação entre os dois. Tomou posse em 26 de setembro de 2019.

Um ano depois, seu balanço era pra’ lá de minguado. Entre manifestações encaminhadas ao STF e medidas adotadas pela própria PGR, a Procuradoria se alinhou ao governo em mais de 30 vezes. Ficou na contramão em apenas uma oportunidade, em que Aras apresentou uma ação constitucional contra ato do presidente Jair Bolsonaro.

Isso ocorreu quando o Executivo editou a medida provisória que instituiu o contrato de trabalho Verde e Amarelo. A Procuradoria pediu a invalidação de dois trechos do texto assinado por Bolsonaro. Essa foi a única iniciativa do procurador de provocar o Supremo contra uma decisão do presidente da República.

Se Bolsonaro fosse um presidente “normal” talvez estivesse de bom tamanho, mas não é. Comete crimes, viola a Constituição quase que diariamente, diante do silêncio doloso de Augusto Aras, incentivado pela “promessa” de nomeação para o STF.

O capitão deve sua sobrevivência no cargo em grande parte ao Procurador-geral da República, a quem faltam algumas características básicas para o exercício da função: independência, honestidade, alto saber jurídico, respeito à Constituição. À essas poder-se-ia acrescentar a falta de uma qualidade que ele alardeia possuir: coragem.

Em raríssimas ocasiões Aras agiu como chefe do Ministério Público Federal:

1) promoveu uma ofensiva contra a militância bolsonarista que pedia o fechamento do Congresso e do Supremo.

2) pediu abertura de inquérito para investigar os responsáveis pelos atos;

3) defendeu o inquérito das fake news, que apura a disseminação de notícias falsas e ameaças contra integrantes da Corte Suprema;

4) solicitou a abertura de inquérito para apurar a veracidade das acusações feitas por Sergio Moro contra o chefe do Executivo ao pedir demissão do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Mas inclusive nessas ocasiões, sempre que pode, posicionou-se a favor do Executivo. Foi capaz de contorcionismos espetaculares para livrar o seu chefe e denunciar seus adversários.

Entre as violações flagrantes à lei máxima, que poderiam – ou melhor, deveriam – ter sido levadas ao STF por Aras estão: censura, apoio a manifestações antidemocráticas, homofobia, ataques à população indígena, ameaça a procuradores, manifestação contra decisões do Supremo, interferência na Polícia Federal, defesa da ditadura, exoneração fiscal do Ibama, crimes contra a saúde pública.

Com relação à atitude de Augusto Aras, cego, surdo e mudo face à condução da crise sanitária pelo Executivo, o procurador  porta uma imensa responsabilidade. Seus atos mais recentes mostram cumplicidade com o genocida (termo utilizado em ao menos duas denúncias contra Bolsonaro no Tribunal Penal Internacional) no poder.

Sua recente nota atribuindo ao Congresso o papel de analisar “eventuais ilícitos que importem em responsabilidade de agentes políticos da cúpula dos Poderes da República” durante o enfrentamento à pandemia de covid-19 é jurídica e politicamente inaceitável.

Ministros do STF qualificaram a nota de “desastrosa”, mas ninguém manifestou surpresa, afinal ficou evidente que o objetivo de Aras é, como sempre foi, preservar o presidente Jair Bolsonaro e no caso presente o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello.

Cabe ao procurador-geral da República conduzir qualquer investigação criminal sobre presidentes e ministros. E está evidente que o capitão e o sargento Garcia cometeram crimes previstos nos artigos 268, 269, 283,  285, 258, 131 do Código Penal.

Só que desta vez Augusto Aras foi além. Ao defender seu protegido, fez como ele: atacou a democracia, o Estado de Direito. O procurador agiu exatamente como o seu patrão ao declarar que as Forças Armadas, e não a Constituição Federal, decidem se o país viverá uma democracia ou retornará à ditadura.

A ardilosa nota divulgada por Aras, em 19 de janeiro, apontou risco de o atual estado de calamidade progredir para o estado de defesa, que previsto na Constituição pode ser decretado por presidentes a fim de preservar ou restabelecer “a ordem pública ou a paz social ameaçadas por grave e iminente instabilidade institucional ou atingidas por calamidades de grandes proporções na natureza”.

O recurso ao estado de defesa está sujeito à aprovação do Congresso em dez dias e permite ao presidente restringir direitos da população: direito de reunião, de ir e vir, de trocar ideias e criticar, sigilo de correspondência, sigilo de comunicação telegráfica e telefônica.

Claro portanto que tais medidas não têm nenhuma relação com o combate à pandemia. O objetivo de Aras é advertir para o risco de ruptura democrática. Ele não apenas não é contra como aponta o caminho das pedras.

Seria um caso único nos países democráticos face à pandemia. Outros governantes populistas de extrema-direita, como Viktor Orbán, na Hungria, tentaram amordaçar a população, mas foram obrigados a voltar atrás.

Sete dos dez subprocuradores-gerais da República não hesitaram em destacar a atitude do chefe: “Referida nota parece não considerar a atribuição para a persecução penal de crimes comuns e de responsabilidade da competência do Supremo Tribunal Federal (…), tratando-se, portanto, de função constitucionalmente conferida ao Procurador-Geral da República, cujo cargo é dotado de independência funcional”.

O ministro do STF Marco Aurélio de Mello e o ex-ministro Celso Velloso também já disseram que a medida não caberia no atual contexto do país.

Está claro que, no tratamento da pandemia, o capitão e seu sargento  cometeram crimes, tanto de responsabilidade como de direito comum.  E que, como assinalou o Conselho Superior do Ministério Público,  “o Procurador-Geral da República, precisa cumprir o seu papel de defesa da ordem jurídica, do regime democrático e de titular da persecução penal, devendo adotar as necessárias medidas investigativas a seu cargo – independentemente de “inquérito epidemiológico e sanitário” na esfera do próprio Órgão cuja eficácia ora está publicamente posta em xeque -, e sem excluir previamente, antes de qualquer apuração, as autoridades que respondem perante o Supremo Tribunal Federal, por eventuais crimes comuns ou de responsabilidade”.

Em bom português, pela enésima vez Augusto Aras não cumpre sua função e pior, penetra em uma zona cinzenta – a antevisão do “estado de defesa” –  que além de não se justificar pode ser considerada incitação ao golpe. O procurador-geral atuou contra a defesa do estado democrático de direito. Agora vem aí, tal Poncio Pilatos, lavando as mãos, argumentando que, se crimes houveram, foram de responsabilidade, de competência exclusiva do Legislativo.

Augusto Aras mente de forma descarada porque é servil, só obedece os interesses próprios, e por ideologia. É um adepto da “democracia relativa” tão cara aos militares da ditadura.

Em dezembro de 2018, declarou à Tribuna da Bahia: “Podemos ter no governo Bolsonaro uma democracia militar”… “o fato de termos um governo em que, pelo menos, metade do ministério tem militares na chefia revela uma dificuldade para o fisiologismo”.

Desta maneira, Augusto Aras ganhou o cargo e pode até vir a ser premiado com o STF, mas sua ação e inação minimizam os desfeitos (graves) de Brindeiro e Janot nesse circo de horrores, representam um retrocesso institucional, violam a Constituição e contribuem para a morte de dezenas de milhares de brasileiros, vítimas da ausência de política sanitária de um sádico que, por culpa sua (do PGR), não responde pelos crimes que comete.

Aras e Bolsonaro se valem. São irmãos siameses unidos pelo ódio ao Estado Democrático de Direito.

Aqui está enterrado o Futuro

Não há como não ficar horrorizado diante do que acontece em Manaus. Da mesma forma, sejamos honestos, diante de um país sem governo, fatos como este não são mais uma surpresa. O que sim surpreende a mim e ao mundo é como o brasileiro ainda se permite um presidente como este.

Está mais do que claro a regressão econômica, trabalhista, ética e moral do país. Voltamos ao mapa da fome! Indústrias estão abandonando o país depois de todos os benefícios que usufruíram por anos sem pestanejar. Brasileiros são motivo de piada mundo afora.

Qualquer cidadão sabe quando está acabando seus mantimentos, ou qualquer outro item de primeira necessidade que precisa ser reposto antes que termine de vez. Da mesma maneira, qualquer estoquista sabe quando estão finalizando itens importantes para manter a fábrica em funcionamento. Programas de computador avisam com antecedência os hospitais da necessidade de adquirir suprimentos que vão findar com muita antecedência.

O oxigênio que falta em Manaus é a consequência nefasta de um sistema que não se importa com a vida. De um país sem gerenciamento de crise, que contrariando o mundo inteiro distribui vermífugos como tratamento preventivo ao Covid-19. Seria motivo de riso, não fosse responsável por milhares de mortes de cidadãos convencidos de que haviam se tornado imunes ao vírus.

Um avião da Azul foi preparado para buscar dois milhões de doses de vacinas na Índia. Esqueceram de combinar com o governo indiano a disponibilidade delas. Como é que um país que está começando a hercúlea tarefa de vacinar 1,4 bilhão de pessoas vai se permitir enviar para fora as vacinas que necessita para salvar a sua população?

Resta aos brasileiros as vacinas que estão sendo produzidas pelo Butantan. Será uma briga de foice para quem irá receber primeiro. O governo federal sem outra solução já exige que sejam suas, enquanto o governo de São Paulo diz que são eles quem tem direito. Obvio que o caso vai parar na justiça, como é óbvio a falta total de planejamento que deixou o Brasil sem suprimento de vacinas.

O país se tornou terra arrasada. Primeiro negaram o vírus, agora negam a vacina. Enquanto mais de mil mortes ocorrem ao dia, vermicidas inundam as redes sociais com suas teorias conspiratórias. Uma presidente foi derrubada com a desculpa de pedaladas fiscais que se provaram inexistentes. Um genocida permanece na presidência com toda sua inépcia e verborreia exposta diariamente nas mídias.

Apontar este governo como fascista, nazista, ou ambos é pouco. Eles sequer têm a capacidade de compreenderem o que estas ideologias significam. Dizer que são conservadores, neoliberais é atribuir a eles uma inteligência que não possuem. Considerá-los milicianos é admitir que possuam alguma forma de organização, que sabemos, não existe. Este governo é o nada, é um buraco negro. É morte e destruição.

A Manaus de hoje é o retrato do Brasil de amanhã. Junto com cada amazonense estão sendo enterrados os valores de um Brasil que não existe mais. Em cada cova jaz agora a solidariedade, o pleno emprego, a plena educação, a segurança, a alegria do povo e a fartura. Na porta do cemitério uma placa com a frase: “Aqui está enterrado o Futuro”.

Bons tempos em o maior crime que se poderia atribuir a um político era se locupletar roubando os cofres públicos. Quando eles apenas tiravam o dinheiro destinado de obras e ações sociais para si mesmos. Hoje eles roubam o dinheiro destinado a salvar vidas. Se não fosse suficiente, dão sustentação ao genocida que retribui com cargos para que continuem desfrutando das benesses dos amigos do poder. Uma mão lavando a outra e o tão sonhado Impeachment se tornando a cada dia mais distante de acontecer.

Se o povo não se rebelar, não levantar sua voz, não exigir a mudança, as coisas vão continuar piorando cada vez mais. Faltando dois anos para as próximas eleições, o que vai restar do país? Eu mesmo respondo, nada. Nada do que fomos um dia. O Brasil daqui a dois anos pode ser qualquer coisa, menos o Brasil onde nasci.

Indigne-se, direcione sua indignação para organizar formas de pressionar o Congresso pelo Impeachment. Exija dos congressistas que ainda possuem um pingo de patriotismo, que comecem o processo imediatamente, não percam mais tempo. Não permita que na próxima vala seja enterrada também a esperança.

 

O estrategista do mal

Entre momentos de insônia e pesadelos, eu e mais alguns bilhões de pessoas pelo mundo vivemos horas de extrema tensão na noite de quarta, 6, para quinta-feira, 7 de janeiro de 2021. No meu devaneio, em primeiro plano, as imagens do Capitólio, em Washington, desfilavam a uma velocidade estonteante, sobrepondo-se umas às outras, para desembocar nos porões da ditadura civil-militar brasileira, onde as cenas de tortura deixaram Vlado e tantos outros sem vida.

Pela manhã, sonado, soube da morte de quatro pessoas na invasão do Congresso americano. Dois dias depois, somadas à de um policial. Que insanidade!

Por que milhares, senão milhões de pessoas, seguem cegamente um maluco capaz de por fogo no circo, sem perceber que este nunca olhou para além de seu próprio umbigo?

Trump, o homem dos cabelos platinados, não enterrou a democracia americana, mas ao apagar as luzes de seu mandato mostrou quão frágil ela é. Aquela democracia liberal, que muitos acreditavam capaz de superar todos os obstáculos graças à força de suas instituições, mostrou ser um gigante de pés de barro.

A invasão do seu símbolo máximo, o Congresso, se deu aos olhos do planeta, estarrecido, deixando gravada a imagem de um policial correndo pelas escadarias para fugir dos extremistas alucinados, sob ordens do fascista mor, que talvez acreditasse estar ali revertendo uma fraude que nunca existiu.

O mundo reagiu, se indignou, se deu conta de que, como disse George Walker Bush (aquele que inventou armas de destruição em massa para justificar o capítulo 2 da guerra do Iraque), os Estados Unidos tinham se transformado numa república de bananas.

Os chefes de Estado e de Governo se manifestaram contra aqueles atos de suicídio político. Todos denunciaram, salvo um, o amigo capitão, que revelou sua fidelidade ao amor descoberto tardiamente. Lembram-se do I love you?

Em se tratando do presidente brasileiro, nunca se sabe se agiu “só” porque é louco, ignorante, fascista, ou se foi também por estratégia política. Com ele, tudo se mistura. Não há dúvida de que foi tudo ao mesmo tempo.

Logo após o episódio do Capitólio, o ocupante do Alvorada veio à público ameaçar a idoneidade das presidenciais de 2022. Disse que se o voto eletrônico for mantido, o Brasil viverá cenas ainda piores que as vistas em Washington. Em termos de sofisma foi um golpe de mestre. Bolsonaro sempre criticou o sistema eleitoral, alegando a possibilidade de fraude, muito embora todos os especialistas o considerem muito mais seguro que as cédulas. Se ele não for reeleito, como esperam todos os democratas, alegará manipulação de hackers a serviço dos comunistas. Se vingar o voto em papel, a fraude será maciça (do seu próprio campo) e ele terá razões de sobra para reclamar a nulidade do voto.

Portanto, sairá vencedor dessa batalha.

O x da questão é que o Brasil não é os Estados Unidos, nossas instituições são muito mais frágeis que as norte-americanas, sem falar das forças armadas, que servem a Constituição.

Vale aqui citar a atitude do chefe do Estado Maior das Forças Armadas dos Estados Unidos, Mark Milley, que pediu desculpas públicas por ter participado de uma encenação polêmica do presidente Donald Trump, ocorrida no dia 1º de junho de 2020. “Eu não devia estar lá; disse o general.  Minha presença naquele momento e por todo o ambiente criado deram uma percepção de que os militares estavam envolvidos em política doméstica.”

Milley, pediu desculpas por participar de uma caminhada, ao lado do presidente Donald Trump, da Casa Branca até a Praça Lafayette, onde o republicano tirou uma foto com a Bíblia em frente a uma igreja que tinha sido danificada por manifestantes durante atos antirracismo pela morte de George Floyd, asfixiado por um policial branco, em Minneapolis.

Essa atitude mostrou que as forças armadas americanas pouco têm a ver com as brasileiras.

Atualmente, mais de 3 mil militares ocupam cargos no primeiro, segundo e terceiro escalões do governo, em lugar de pessoas muito mais qualificadas para as funções. Na verdade o Brasil é governado por uma comunidade civil-militar, exatamente como durante os anos negros da ditadura.

A liderança das nossas forças armadas, quando questionada, afirma que os militares respeitam e respeitarão a Constituição.  Resposta vista como a garantia de que não teremos um golpe militar. No entanto, em nenhum momento, foi dito que as forças armadas intervirão para evitar um eventual putsch. O militares se negam a falar sobre o assunto.

Além disso é útil lembrar que o capitão tem em mãos o controle de fato da Polícia Militar em vários Estados, da Polícia Federal, das forças armadas, dependentes do Ministério da Defesa, dos militares de pijama e da ativa membros do governo (que não vão querer perder a mamata), dos Serviços de Informação e dos milicianos próximos do 01, 02 e 03.

Isso para dizer que Bolsonaro, caso perca a eleição, apelará para as acusações de fraude e chamará para as ruas os seus torcedores fanatizados, que por muito menos já quiseram invadir o Congresso. Ao contrário de Trump no entanto, estará em situação de força para tentar o golpe. Não tenho dúvidas de que fará o impossível para permanecer na presidência. A roupa de ditador lhe cai como uma luva. Caso não consiga, irá negociar a anistia para todos os crimes que ele, sua família e acólitos cometeram.

A estratégia está montada ou, melhor dizendo, já está em andamento. Definitivamente, Jair Messias Bolsonaro não é apenas um louco, um ignorante, um fascista. É  também um estrategista do mal.

 

 

 

Uma democracia em cheque

Quem tivesse ligado a TV e visto as cenas da invasão do Congresso Americano, desavisado pensaria se tratar de um filme ou uma série. Como acreditar se tratar de cenas reais em um país onde as agencias de segurança costumam funcionar.

Não somente eram cenas reais, como foram comandadas pelo presidente do país. O lunático instigou seus seguidores a tomarem o Congresso para impedir que o vencedor das eleições presidenciais fosse declarado presidente.

Entre os invasores, grupos de judeus e nazistas cuja idolatria a Trump é capaz de  superar suas diferenças. Supremacistas com a bandeira confederada receberam juras de amor do presidente dos EUA. Racistas transitaram pelos corredores atacando os poucos policiais que tentaram resistir. Sem dúvida alguma, foi um caos promovido por diferentes facções da direita radical americana irmanadas em defesa de seu mestre.

Vale ressaltar que uma manifestação de “Vidas Negras Importam” que passou próxima ao Congresso há pouco tempo, assistiu a um Congresso protegido por centenas de agentes de polícia. Claro que neste caso não eram brancos comportados e civilizados que se manifestavam, uma invasão podia acontecer e foi preciso uma ação preventiva. Bem diferente de quando o presidente do país faz uma manifestação de desagravo ao resultado da eleição. (usei de sarcasmo para quem não entendeu).

A chamada democracia americana é uma ilusão. Enquanto no mundo inteiro o vencedor de uma eleição é aquele que recebe mais votos, lá o presidente é eleito por delegados de estados. Na verdade o eleitor está participando de uma pseudodemocracia, o seu voto se somado a maioria nem sempre elege o presidente. Trump se elegeu assim. Hillary teve mais votos, mas menos delegados.

Trump não é o político tradicional, nunca foi. É um homem de negócios, um empreendedor, empresário que sempre usou do poder do dinheiro para prevalecer. Péssimo pagador, deve milhões ao fisco americano e corre sério risco de parar na cadeia quando deixar a Casa Branca.

Na política usou das mesmas táticas para impor seus desejos. Chantageou meio mundo árabe para aceitarem relações diplomáticas com Israel em troca de armas. Retirou os EUA do Acordo do Clima, impôs sanções econômicas ao Irã depois de se retirar unilateralmente do acordo atômico que o país cumpria.

Com a China teve seus momentos de amor e ódio. Ultimamente, que se diga, muito mais ódio. Tentou dobrar o país de todas as maneiras. Rompeu acordos comerciais, impôs sanções, aumentou impostos de importação de seus produtos, obrigou empresas americanas a suspenderem suas atividades na China, tentou retirar as companhias chinesas do 5G da telefonia celular etc.

Teve seus momentos na TV. Participou do Reality The Apprentice (O Aprendiz). Nele um grupo de pessoas precisando desesperadamente de um emprego, precisam agradar Trump, o chefe, para permanecerem no programa. A cada semana, o chefe vai eliminando participantes até que resta um, aquele que recebe o emprego. Para chegar lá, precisou cumprir diversas tarefas, mas acima de tudo, teve que passar por cima dos demais competidores. Nem sempre venceu o mais capaz, mas sempre o que mais agradou o chefe.

Esta figura sinistra, filho da meritocracia, um capitalista sagaz, tomou o Partido republicano e se elegeu presidente. Soube jogar de acordo com as regras e montou uma estratégia para ter mais delegados no colégio eleitoral, não para ter mais votos. Deu certo e o mundo teve de conviver por quatro anos com ele.

De temperamento difícil, mimado como uma criança, não conheceu adversários no seu partido. Mesmo entre seus apoiadores semeou discórdias e sempre que contrariado não hesitou em despedi-los. A lista é longa. Trump conseguiu ter seu nome marcado para sempre. Para seus apoiadores um Deus na Terra, para seus opositores, um demônio.

Os EUA tremeram nesta semana. Boa parte das lideranças políticas temem pelas instituições, acham que Trump continua sendo um perigo para a democracia faltando poucos dias para o término de seu mandato. Uns sugerem o inédito segundo Impeachment, outros o uso da Emenda 25 que permitiria seu afastamento com o vice assumindo a presidência. Todos parecem compreender o perigo que ele continua representando.

Trump foi um ídolo para outros países também. Bolsonaro, por exemplo, está convencido de que as eleições americanas foram fraudadas em favor dos democratas. Que o Covid-19 foi criado em um laboratório chinês para que pudessem vender uma vacina com nanorobôs que nos transformaria em comunistas.

A queda desta figura nefasta é um alívio para todo o mundo. As lições sobre como ele chegou ao poder precisam ser aprendidas para que nunca mais volte a acontecer. Se a democracia americana não mudar, o fascismo vai voltar com mais força e desta vez para ficar. Eles com certeza aprenderam a lição de que eleições não são um bom negócio.

 

A premissa de Millôr Fernandes

No Jornal da Cultura de ontem (1/1/2021) o jornalista Leonardo Sakamoto, ao tentar desenvolver o tema do descontentamento de setores da sociedade com a imprensa na medida em que esta faz “oposição” (aspas propositais) aos diferentes governos, incomodando assim os partidários de governos a, b ou c. Para tentar clarificar, usou a máxima de Millôr Fernandes, cuja postura em relação ao papel da imprensa era de absoluta intolerância com a imprensa que não se dispusesse a priori ao papel de oposição. “Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”, dizia o respeitável mestre, que nesta equação estabelece um ponto no qual não me resta opção senão a da oposição que ele tanto pede, no caso, completamente distópica, pois não sou jornalista nem imprensa.

Não. Não concordo que é papel primário da imprensa o de se opor ao que quer que seja. Tenho o claro entendimento que a função de análise crítica é completamente diferente da crítica sem análise, e mais diferente ainda daquela postura que muda a sua escala de valores de acordo com a oportunidade. Se consigo imaginar – nos meus ideais – uma função social da imprensa, esta que jamais foi definida com limites precisos por qualquer código, até por que a limitação precisa desta função já criaria por si paradoxos insuperáveis, vejo nela uma atividade social que pretende trazer ao seu consumidor informação e condições de formação de opinião através do confronto entre os inúmeros elementos factuais de uma dada narrativa com um conjunto de valores minimamente estáveis, ainda que sempre insuficientes para que se vislumbre isenção plena, mas cuja uniformidade permita que pelo menos se vislumbre uma vontade de isenção.

Assim, como tentou fazer Sakamoto sobre o ombro de Millôr, comparar o tipo de oposição que a imprensa fez aos governos populares de 2003-2016 com o tipo de oposição que faz ao governo atual, corremos o sério risco de validar toda a formulação que estruturou o golpe contra a democracia que culminou no estado de coisas atual. Se sequer imaginarmos que o conjunto de valores utilizado contra os governos populares é o mesmo do qual se utiliza agora para combater um governo ignorante, obscurantista, violento e autoritário, estaremos incorrendo em sérios sofismas.

Para tanto, vamos examinar um caso, o do historiador (e tido como jornalista) Marco Antônio Villa, que talvez condense na sua atuação de forma bem didática os elementos que quero trazer ao debate. Villa exerceu crítica cáustica aos governos populares fazendo acusações gravíssimas e sem provas, especialmente ao Presidente Lula, a quem se dirigia como “o bandido de São Bernardo”, “chefe da maior quadrilha que já houve no Brasil”, usando e abusando de sua titulação acadêmica para arrebanhar seguidores como provocador corajoso e polêmico, o que certamente encorajou tantos outros ao mesmo comportamento ou pior. O problema é que Bolsonaro “nasceu” muito antes de Lula, e toda a sua atuação na vida pública (juntamente aos seus filhos) pautou-se, até o quanto se sabe no momento, por atitudes, vontades e atividades que rebaixariam o seu alvo predileto à condição de amador desorientado. Status hierárquico que jamais foi reavaliado pelo respectivo autor.

Engrossando o caldo de Villa com as grandes corporações como Estadão, Globo, Veja, Folha, Jovem Pan, Isto É, entre outros, vemos hoje todas essas mídias cumprindo as metas de Millôr Fernandes não mais baseados nos valores pretendidos por Millôr (que aqui contesto) mas sim em um ato de desespero pela preservação de uma democracia que eles em conjunto contribuíram para destruir.

Bingo. Se analisarmos friamente os fatos, não é difícil concluir que sob o pretexto de se praticar uma oposição a priori a grande imprensa e seus atores causaram um imenso prejuízo à sociedade. E não poderia ser diferente. Se como imprensa eu assumo um papel primário de oposição, certamente só poderei fazer isso com um imenso poder de censura sobre os dados da realidade, condensando no meus discursos os pontos negativos de um determinado governo e omitindo sistematicamente tudo – ou quase tudo – o que poderia ser usado ao seu favor. É este o papel da imprensa? Penso que não, pois no meu entendimento isto não tem como dar certo pelas simples razões aqui apresentadas.

Tudo isso não exime o dever de uma imprensa responsável de fazer sim oposição uma vez que identifique ações de governos que atentem contra uma escala de valores compartilhada entre o conjunto da sociedade, explícitos (como por exemplo no texto constitucional), e os elementos éticos da boa prática jornalística, igualmente explícitos ou não.

Se em algum momento nossa grande imprensa, sob uma suposta defesa de Sakamoto, fez o que fez em tributo a Millôr Fernandes, não fez mais do que contribuir para a sua degradação, reforçada ainda por uma exigência de “autocrítica” por parte do PT, esta que nas questões mais fundamentais não é exigida sob os mesmos pesos e medidas de quem se arroga a este direito.

Por fim, ressalto que minha visão aqui é a de consumidor e cidadão, visão esta pessoal, não se tratando, de forma alguma de intromissão em seara alheia e que de forma nenhuma tem a pretensão de ser impositiva, deixando as questões aqui tratadas abertas ao debate, mas deixando explícita minha frustração pessoal com a visão de Sakamoto exposta em seu comentário no Jornal da Cultura.

Um pouco de alento

E começamos 2021 para tentar esquecer o ano que passou. Infelizmente, em muitos países, ele será a repetição da mesma tragédia. Países que não tiveram o cuidado de garantirem vacinas para sua população, vão continuar sofrendo as consequências.

Mas nem tudo são tragédias.

Vamos ter um novo presidente nos EUA. Ao menos, o pior presidente americano de todos os tempos está deixando o cargo. Dele, os americanos se vacinaram, assim espero. Não quero dizer com isso que Biden seja muito melhor, mas convenhamos, Trump precisava sair.

O mundo como conhecemos vai ser reconstruído. A Inglaterra deixou a Europa e voltou a ser a ilha que sempre foi. Os ingleses não fazem ideia das consequências para eles, e por enquanto, aguardam o destino que lhes está reservado. Imaginam que. Independentes, sejam capazes de melhorarem de vida sem o Mercado Europeu como sócios.

A Argentina deu um exemplo de civilidade para a América Latina e o mundo ao aprovar a Lei do Aborto. Milhares de mulheres serão salvas da morte em consequência de terem assegurado este direito e não precisarem mais recorrerem a abortos em clínicas clandestinas.

Conhecemos novas formas de solidariedade. O uso da máscara e o distanciamento social ajudaram a salvar vidas. Muita gente vai continuar usando máscara nos invernos para se prevenir de gripes e resfriados.

A ciência vai utilizar a mesma técnica das novas vacinas contra o Covid-19 para prevenir outras doenças e nos preparar para o surgimento de novos vírus no futuro. Um grande passo da ciência que vai beneficiar toda a humanidade.

É preciso poupar. Talvez esta seja a maior das lições. A sociedade precisa aprender a ter reservas econômicas para situações inesperadas. Os governos precisam garantir formas de poupança que garantam aos cidadãos que lhes sejam supridas as necessidades mínimas diante de situações de quarentenas.

As relações de trabalho também serão diferentes. Aprendemos que para muita gente é possível trabalhar de casa sem a necessidade de deslocamento diário para as sedes das empresas. Menos tráfego, menos poluição e combustível mais barato para lazer.

Encontros virtuais vão continuar acontecendo. Sem prejuízo da visita presencial, muitas apresentações de produtos e negócios vão continuar acontecendo pelos programas de conferência virtual. Mas não são só negócios, amigos e familiares podem se ver com mais frequência pela Internet.

O ano virou, foram muitas perdas. Agora precisamos levantar a cabeça, deixar os lamentos para trás e seguir em frente. Temos muito que fazer. Resistimos até aqui e vamos continuar resistindo até que surja um novo Brasil sem isto que está na presidência.