por Mauro Nadvorny | 23 fev, 2021 | Brasil, Opinião
Se a máquina do tempo tivesse saído das páginas do romance de H. G. Wells, de 1895, certamente o número de mortos pela Covid 19 no Brasil seria hoje bem menor. Estaríamos como nossos antepassados da Baixa Idade Média, lá pelos idos de 1348, confinados para limitar os efeitos da Peste Negra.
Em 2021, todos os países que praticaram seriamente o isolamento social têm menos mortes a lamentar. Foi a única medida, paralelamente às ações básicas de higiene, que funcionou até aqui na contenção da pandemia do coronavírus, como há 670 anos na Idade Média contra a Peste Negra: quarentenas, confinamentos, toques de recolher, uso de máscaras e álcool gel. Como escreveu nas redes sociais meu amigo Paulo Markun: ” Para quem acredita que há outra maneira de enfrentar a pandemia, além do que recomenda a ciência. Portugal já tem a mais baixa taxa de contaminação da Europa. Resultado do confinamento e do uso de máscaras – 92% dos portugueses usam. Inclusive o presidente, aqui, no supermercado.”
A grande diferença entre a Idade Média e o século 21 é que contamos com vacinas.
A humanidade desenvolveu em dez meses — muitíssimo menos que as previsões mais otimistas — vacinas contra a covid-19, algumas delas usando a tecnologia do RNA-mensageiro, de grande eficácia e que promete ser revolucionária no tratamento desta e de outras patologias.
Apesar do feito científico, estamos nesse momento numa encruzilhada, numa corrida contra o tempo entre as novas vacinas e as novas variantes do vírus, que por enquanto levam vantagem. Sabemos por exemplo que a vacina da Oxford/Astrazeneca tem eficácia reduzida contra a variante sul-africana e que quanto mais variantes aparecerem, maior a probabilidade delas escaparem aos imunizantes.
Ora, vale a pena notar que as novas variantes surgiram todas em países em que se deixou o vírus circular livremente: não é por acaso que se fala de variante britânica, brasileira e sul-africana, mas é impossível falar-se de variante neozelandesa, porque na Nova Zelândia e em outros países que optaram por estratégias de erradicação não há propagação do vírus suficiente para que apareçam mutações.
Daí a necessidade imperiosa e urgente de se confinar agora, com duplo objetivo: baixar a curva da pandemia e tentar evitar que uma variante mais letal e mais infecciosa – a britânica por exemplo – se torne dominante.
O tempo é curto e a necessidade de vacinar a população mundial, até chegar à imunidade de rebanho, premente.
Cada morte por covid-19 agora é uma morte que poderia ser evitada daqui a alguns meses, e isso nos deveria levar a ser mais exigentes com relação ao confinamento, inclusive por razões econômicas.
Durante a primeira onda não se sabia se seria possível atingir a imunidade de grupo, a questão então era se valeria a pena tentar chegar lá por via natural, deixando correr o ritmo das infeções, sacrificando milhões de vidas em nome da economia, ou salvar o máximo de vidas deixando as preocupações com a economia para depois. A conquista das vacinas num prazo tão rápido mudou completamente o quadro. O que importa é preparar a retomada da economia para depois da imunidade de rebanho e salvar o máximo de vidas agora. A palavra de ordem é investir na aceleração da vacinação para que possamos ver o fim do túnel.
O problema é que os populistas, como o capitão, insistem em apostar no pior, fascinados que são pela morte. A tal ponto que o procurador-geral da República, o bolsominion Augusto Aras, apresentou ao Supremo nove investigações sobre condutas supostamente criminosas de Jair Bolsonaro na administração da pandemia: no colapso dos hospitais nos estados do Amazonas e Pará, no incentivo para apoiadores invadirem hospitais públicos, no desrespeito das medidas de combate ao coronavírus ditadas pela OMS, na presença sem máscara em uma manifestação em Brasília, na conversa que teve, também sem máscara, com jornalistas, após ter contraído a Covid-19, ou ainda ao se tornar garoto propaganda de um medicamento – a cloroquina – que além de não ter nenhum efeito positivo no combate à Covid 19, pode causar efeitos secundários gravíssimos e até levar à morte.
Todos os países que não aplicarem uma política sanitária séria e estrita neste momento chave da pandemia estarão condenados a pagar um preço exorbitante num futuro muito próximo. A começar pelo Brasil, pois como escreveu o editorialista do Washington Post, “Entre líderes globais que minimizam o coronavírus, Bolsonaro é o pior”.
Amanhã, se a situação não mudar radicalmente, o país acordará com algumas centenas de milhares de vítimas da Covid a mais e um ditador no Palácio do Planalto.
por Mauro Nadvorny | 13 fev, 2021 | Comportamento, Israel, Mundo, Opinião
Em Israel 41% da população já recebeu pelo menos uma dose da vacina, sendo que alguns ainda estão por a segunda 21 dias depois. Para cada um dos que tomaram a primeira dose, a segunda fica automaticamente guardada de maneira a não faltar. Se continuar neste ritmo até o final de Março toda a população poderia estar vacinada.
No entanto, aqui, como em muitos outros lugares do mundo, existem aqueles que se negam a tomar a vacina. Alguns religiosos ortodoxos por orientação de seus rabinos, alguns da comunidade árabe por desconfiarem de tudo que é dado pelo governo, e muitos negacionistas.
Semana que vem o governo quer estudar uma maneira de aplicar o Passaporte Verde. Seria um documento que permitiria aos vacinados entrada em Shoppings, restaurantes, cinemas, casas de espetáculo, academias etc. Ainda por decidirem, se instaurou uma discussão ética. Pessoas que não querem se vacinar, cidadãos do país com todos os direitos e deveres podem ser discriminados?
Uma pessoa que não se vacina para o Covid-19, não coloca apenas a sua vida em risco. Ele também pode levar o vírus para outros que ainda aguardam o chamado para se vacinarem, e para aqueles que por razões médicas não podem fazê-lo. Cada pessoa que tem os sintomas graves da doença ocupa um leito de UTI que poderia estar sendo utilizado para salvar a vida de cidadãos acometidos de outras enfermidades. Pior, pode morrer.
O negacionista, geralmente está dando razão a uma mensagem do WhatsApp que recebeu onde constava algum estudo sinistro de médicos sem nomes, de uma instituição não mencionada, afirmando que tomar a vacina causa algum dano irreparável. Ele não só acredita cegamente na informação, como a divulga. Somados, os que não querem tomar vacina hoje representam 1,5 milhão de israelenses. É muita gente.
Em números proporcionais é o que está acontecendo no mundo todo. As Fake News estão se transformando em crime contra a humanidade. Se antes tinham propósitos políticos para detratar um político ou um partido, hoje municiam uma onde de pessoas que dão razão a todo tipo de informação sem base científica alguma como a Terra Plana. No entanto, sua determinação pode levar o vírus a permanecer por mais tempo entre nós, levando a novas mutações que podem causar a morte de milhares de pessoas.
Daí a importância de se criminalizar as Fake News. Espalhar notícias falsas precisa ter uma pena de multa e detenção do propagador. Sem medidas sérias o custo para a sociedade será muito maior. A impunidade é o principal combustível delas.
Muitos sugerem a criação de barreiras que impeçam os negacionistas de conviverem em sociedade, ou torne a vida deles insuportável. Fazer exame a cada 48 horas para poder se apresentar no trabalho, ou ter sua entrada liberada em locais públicos com o custo pago por eles, é uma delas.
Alguns sugerem medidas mais radicais, como a proibição de entrarem em locais públicos sem apresentarem o Passaporte Verde. A única permissão seria para locais que vendem comidas e remédios.
Outros propõe multas pesadas em dinheiro por dia, semana ou mês que a pessoa permanecer sem se vacinar depois de haver recebido lugar na fila.
Infelizmente o Covid-19 não ataca somente negacionistas, ele atinge a todos nós. Uma vez infectados,2% podem ir a óbito.Fora seletivo e matasse somente os que fazem pouco caso, o mundo agradeceria.
Aí está um belo tema para se discutir: numa pandemia até onde vão os direitos individuais sobre os direitos da coletividade?
por Mauro Nadvorny | 8 fev, 2021 | Brasil, Comportamento, Opinião, Política
Na última sexta-feira tive a triste visão do Prof. Gonzalo Vecina Neto, eminente e reconhecido médico sanitarista, fazendo uma defesa desesperada da ANVISA, na qualidade de fundador da agência, em uma entrevista na GloboNews que basicamente versava sobre a súbita mudança da agência na política de licenciamento para uso emergencial de vacinas e sobre a pressão do Congresso para que a mesma estabeleça um prazo de 5 dias para a avaliação de pedidos de registro emergencial de qualquer vacina doravante.
De fato, concordo com o Dr. Vecina no que tange à (necessária) respeitabilidade da agência e de seu potencial técnico, além de grandes feitos em prol da saúde e segurança sanitária de nossa população. Mas nem só de glórias e flores vive a nossa ANVISA. Na última edição do meu boletim semanal “Coronavírus e Política, uma infecção cruzada” (gravada no canal Coletivo Estrela, no Youtube) fiz uma longa introdução trazendo uma pequena lista de eventos históricos onde a ANVISA deixou marcas antipáticas de um complexo burocrático desconectado da vida real dos profissionais de saúde e de seus pacientes, e portanto, não me estenderei aqui sobre o passado. Ainda assim, não custa nada manter vivos na memória os eventos onde a ANVISA interferiu de forma excesivamente voluntariosa na vida das pessoas sob pretextos “puramente técnicos”, sendo o mais clássico (e semelhante ao momento atual) o caso dos anorexígenos anfetamínicos e não anfetamínicos, por ela banidos do mercado contrariando todos os pareceres das sociedades de endocrinologia e mesmo a conduta de outras importantes agências estrangeiras. O resultado desta política foi a inclusão de uma medicação usada para o tratamento do TDAH no rol de prescrições até de serviços universitários, o que aumentou tremendamente o custo do tratamento de um grande número de pacientes e também para o estado. O fim da ópera deu-se quando o Congresso decidiu legislar sobre o caso e restabeleceu a “legalidade” dos anfetamínicos, atropelando a agência, em semelhança ao que agora ocorre em relação às vacinas.
É certo que a ANIVSA é um órgão de fundamento técnico e que assim deve proceder. Entretanto, ela é executora de uma política, que é a política de regulação sanitária. Com este status, ela deve ser como a mulher de César, a quem não basta ser honesta, deve parecer honesta. E perdeu boa parte de sua credibilidade ao ser desavergonhadamente aparelhada pelo indigno presidente da República, que plantou na presidência da agência um amigo pessoal de alta patente (o Contra-Almirante Antônio Barra Torres) sem nenhum passado técnico que o capacitasse ao cargo e fortemente alinhado ideologicamente ao chefe do executivo.
No atual contexto de uma pandemia grave como a de COVID-19, é óbvio que medidas urgentes se impõem, entre elas o projeto, testagem e aplicação das vacinas, e desde o trimestre inicial de 2020 apontava-se que em algum momento ainda deste ano haveria a demanda regulatória para o uso emergencial. No final do último trimestre de 2020 surgiu a demanda do registro emergencial das vacinas. Qual foi a resposta da ANVISA? Simplesmente nenhuma. Não havia protocolo de aprovação emergencial na agência, o que teve que ser formulado às pressas e que causou atraso na liberação da Coronavac e da Oxford-AstraZêneca. Em outras palavras, a agência parece ter dormido de março a novembro e não foi capaz de antecipar-se à mais que óbvia demanda escandalosamente visível no horizonte.
Para piorar tudo no que tange à sua imagem enquanto protetora da saúde e da segurança sanitária da população, a agência quedou-se silente em relação ao ilegal exercício da profissão médica por parte do presidente da República, que literalmente prescreveu tratamentos inexistentes para COVID-19 a todos os brasileiros. Ora, aquela agência que me obriga como médico a ter cinco tipos de formulários para prescrever medicamentos aceitos pela ciência e referendados em todo o mundo, que notabilizou-se por uma série de interdições corretas, nada faz para coibir o uso incorreto e arriscado de medicações sob protocolo do Ministério da Saúde formulados goela abaixo pelo chefe do executivo. Esta omissão certamente será registrada como o mais trágico evento da história da ANVISA. E foi criminosa.
Se fosse apenas pelos dois eventos acima, a agência já estaria em uma grande enrascada.
Longe de mim querer criticar a defesa apaixonada do Prof. Vecina, e longe de mim querer a derrocada da agência. A questão é que os fatos mostram que a agência, enquanto resultante da soma de suas partes, seu corpo técnico e funcional, não consegue transmitir uma imagem de coerência à população geral e muito menos aos que tentam heroicamente nos tempos de hoje praticar uma medicina ética e científica. Como clínico que sou, só posso observar que o conjunto de sinais e sintomas apresentados pela nossa “paciente” são compatíveis com um quadro clínico de descolamento da realidade. Sim, o corpo técnico da ANVISA deve ter responsabilidade política além de técnica. Se como médico tenho o dever ético de zelar pelo bom exercício da profissão e também pela boa imagem da medicina e da classe médica, por analogia, e com ainda mais intensidade pelo grau de autoridade que a agência tem, seu corpo funcional deve capacitar-se continuamente ao diálogo com a sociedade e manter em construção permanente um conjunto de ações e princípios que despertem na sociedade o sentimento de segurança sanitária, além da segurança em si mesma.
Ainda no campo do diagnóstico, a guerra entre Ricardo Barros, líder do governo na Câmara e Antonio Barra Torres, mostra a fratura nas hordas bolsonaristas, algo previsível quando temos no governo um bando de loucos, bem adequadamente nominados pelo ex-presidente Lula.
É digna de compaixão mesmo a situação de muitas pessoas que já dedicaram boa parte de suas vidas à agência, e com grandes realizações. Mas o episódio deixa claro que o tecnicismo e o academicismo não dão conta sozinhos de um país com as nossas características. A autonomia de uma agência como a ANVISA só pode ser garantida por um corpo funcional fortemente articulado com a sociedade e que tenha preparo e formação política para que esteja sempre em estado de alerta e consciência sobre as forças do jogo do poder. É ingenuidade imaginar que a ANVISA sobreviva tão somente de tecnicidade. O que aliás, cabe a qualquer instituição. As más consequências desse erro estão no palco.
por Richard Klein | 7 fev, 2021 | Brasil, Conto, Opinião
Se os primos da Francesca suspeitavam que éramos gay, assim que o tio do Pedro botou o olho na gente, ele teve certeza. Depois que sua esposa nos mostrou o quarto com cama de casal de cara fechada, a hostilidade ficou clara quando nosso anfitrião jogou a comida no meu prato ao invés de me servir. Que eu lembre, nunca desmunhequei nem usei roupas de hippie fresco mas aos seus olhos eu era uma bicha comunista e maconheira levando o filho jovem e saudável do seu finado irmão para um caminho de subversão, drogas e perversão homossexual. Já imaginou o que ele faria se soubesse que além daquilo tudo ainda era judeu?
Naquele tempo, naquela parte do mundo, os mesmos caras que gastavam seu dinheiro com amantes, prostitutas e álcool e que batiam em suas esposas, consideravam a juventude do sul degenerada. Não podia deixar de pensar na sua reação se visse o Luiz de Vitória, saindo do quarto com a “Maysa” pendurada em seu pescoço e dizendo que havia perdido a virgindade. De qualquer forma, de um ponto de vista antropológico, a situação trouxe o entendimento de como as coisas eram para gerações anteriores em outras partes do mundo.
Aquele mundo claustrofobico, corrupto e canalha havia sido construído em torno da sua classe dominante ancestral. Além de controlar tudo e todos à sua volta desde o seu início, ela odiava qualquer novidade que ameaçasse seu domínio. Para qualquer pessoa com um cérebro funcional que proporcionasse visão crítica, a vida ali era opressiva. Se não pertencessem aos círculos tradicionais, pior ainda.
Apesar do clima pesado em casa, gostamos Fortaleza. Era uma das capitais mais ricas do Nordeste e tinha uma vibração cosmopolita. O clima quente e seco, as praias imensas, o vento e as largas avenidas faziam com que a cidade parecesse a capital de um país moderno no Oriente Médio, tal como Tel Aviv ou Beirute. Talvez a postura do tio de Pedro fosse uma exceção, já que os cearenses tinham a fama de serem espertos e engraçados, dando ao Brasil alguns de seus maiores humoristas, como Chico Anysio, Tom Cavalcanti e Renato Aragão.
*
Fortaleza foi o ponto mais ao norte da nossa excursão. Além da inexistente amenidade de ficar hospedado na casa de um parente do meu companheiro de viagem, o motivo para irmos tão longe era uma aldeia de pescadores chamada Canoa Quebrada, parada obrigatória no circuito neo-hippie. Depois de cinco dias, partimos para lá. Fomos de carona até Aracati e de lá pegamos uma Kombi até o pé de uma duna gigantesca. Subir aquela parede de areia fofa foi uma surpresa difícil, mas quando chegamos ao topo ficamos encantados. Já estava escuro mas à distância vimos um grupo de cabanas mal iluminadas que lembrava um lugar perdido entre o deserto e o mar.
Logo que recuperamos o fôlego, armamos a barraca fora do vilarejo e fomos conhecer Canoa Quebrada. Ela tinha um charme primitivo e a autenticidade que só lugares remotos conseguem ter. Os espaços entre os casebres rústicos castigados pelo vento e pelo sol criavam trilhas de areia que, em sua maioria, terminavam abruptamente numa falésia gigantesca. A praia lá em baixo era a mais larga de todas que visitamos.
Na areia dura havia jangadas por todo lado; estes barcos artesanais planos feitos de troncos de árvores secos, atados com cordas e um mastro seguramdo uma enorme vela triangular eram icônicos. Ao raiar do dia, os pescadores rolavam essas embarcações sobre troncos secos de coqueiro até a água. No mar, flutuavam leve e eram fáceis de manobrar. Sua elegância simples com suas velas desfraldadas pareciam parte integrante da paisagem.
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Os locais sabiam como lidar com o calor e com o sol escaldante. O povo só se expunha de manhã bem cedo ou no final da tarde. Quando o sol estava a pino, os homens ficavam na sombra remendando suas redes, vendendo o que tinham pescado, comprando provisões ou simplesmente descansando. Enquanto isso, as mulheres ficavam em casa fazendo rendas. Sua técnica artesanal e seus produtos eram famosos em todo o Brasil.
Por outro lado, o mini exército de mochileiros que se aglomerava naquela aldeia no verão, ía para a praia na hora mais quente do dia, por volta das onze da manhã. Quando o calor ficava insuportável, nos abigavamos na sombra nos quiosques à beira da falésia para beber cerveja e ficar ouvindo os relatos das viagens uns dos outros. Nas conversas trocavamos dicas sobre lugares na rota costeira em meio a discussões político-existenciais. As garotas não participavam dessas conversas, mas ficavam sentadas em seu canto batendo seus papos e retribuindo nossos olhares.
*
No dia seguinte, alugamos por quase nada um quarto na cabana de um pescador. A família dormia em redes penduradas pela casa enquanto ficamos no único quarto separado ali dentro. As camas eram tapetes de praia de vime estendidos sobre o chão de areia. Uma lamparina de querosene iluminava a casa, a água vinha de um poço no quintal e a família cozinhava num fogão à lenha feito de tijolos. As paredes de pau a pique eram cheias de buracos que permitiam que o ar de fora refrescasse o ambiente. Esses e os buracos no telhado não eram problema algum, uma vez que raramente chovia. Apesar da acomodação ser para lá de modesta, caiu bem depois de ter que aturar a homofobia sem base do tio do Pedro.
Do lado de fora, os cachorros vadios, galinhas e patos que circulavam por todo canto, faziam com que toda hora pegássemos bicho de pé. No final da estadia já estava craque em tirá-los com uma agulha.
Seu Chico, o dono da casa, era o patriarca das três gerações que viviam sob aquele teto de palha. Apesar do cabelo grisalho, seu corpo ainda era forte graças aos anos passados no mar. Tranquilo e de poucas palavras, impunha respeito. Sua sabedoria não vinha de livros, mas dos seus sentidos aguçados por uma vida passada interagindo diariamente com a natureza. Gostei dele de cara e nas conversas que consegui puxar passei a apreciar sua visão de mundo que era, de várias formas, mais profunda do que a de muitos de meus professores na faculdade. Conforme os papos com o velho homem do mar foram acontecendo, fui aprendendo os hábitos de todos os peixes e dos bichos daquela região. Também aprendi como apanhá-los.
A curiosidade era mútua e suas perguntas sobre nosso estilo de vida eram interessantes.
“Mas se ocês faiz faculdade, porque ocês anda vestido que nem mendigo?”
“Não sei, seu Chico. Deve ser porque no fundo a gente não quer aquilo”, falei entre garfadas no meu feijão com arroz amalgamado por farinha que sua sua mulher tinha preparado. “Lá tem muito mais dinheiro que aqui, mas parece que falta alguma coisa.”
Ele apontou para o mar por trás do quintal olhou para o céu azul de fim de tarde. “Para eles falta isto daqui.”
Um grupo de aves estava cruzando o céu em formação. Quando desapareceram ele emendou: “Tudo é uma coisa só, quem entende isso num precisa de mais nada.”
Caso algum urbanóide desdenhasse dele por não saber ler ou escrever, seu Chico poderia retrucar fácil – e corretamente – que o sujeito não tinha nenhum conhecimento sobre o meio ambiente onde vivia, isso se ainda tivesse restado algum. Para os seguidores de Moloch, o elo homem-natureza estava perdido. Fora o dinheiro, nada era sagrado. Nós, gente da cidade, tínhamos a cabeça entupida de coisas inúteis mas éramos ignorantes sobre o mais importante; a natureza tanto fora quanto dentro da gente. Não era ele que precisava pagar psicólogos ou gurus de meia-tigela nos Estados Unidos para resolver os seus problemas existenciais, nem era ele que precisava viajar tão longe porque não gostava do mundo em que vivia.
*
No pôr do sol, a moçada se agrupava à margem da duna. No Rio – bem como em todos os estados em que havíamos passado– o sol se punha no lado direito da praia. Contudo, como o Ceará fica depois da curva que a costa do Nordeste faz, lá o sol se punha em terra. De cima daquela montanha de areia fina, que lembrava uma paisagem extra terrestre, ficávamos assistindo o espetáculo do sol se pondo por trás da mata de uma planície sem fim. Sons de pássaros se preparando para a noite ecoavam da natureza. Quando o sol estava quase desaparecendo, sua imensa bola brilhava na areia e nos rostos, criando um tom alaranjado inacreditável que contrastava com o céu azul escuro acima e atrás de nós. O vento era forte e por a região ser tão seca, mesmo no auge do verão ficava frio. Com tudo escurecendo e sem nenhuma luz elétrica nas redondezas, parecia que a terra tinha absorvido a claridade e o calor do dia, e estava oferecendo em troca um visual lunar junto com uma paz indescritível.
A harmonia daqueles crepúsculos era como a de Trancoso de dois anos atrás. Numa noite especial, o pessoal em volta me pediu para tocar violão. O clima estava tão bom que todos se levantaram e fomos juntos para um campo logo atrás da duna. Lá, o pessoal abriu um círculo ao meu redor e saí tocando. Aquela roda de umas trinta pessoas cantando e dançando em torno de mim sob o luar e as estrelas foi mágica, um momento de redenção e de promessa para as ansiedades que assolavam a todos.
*
Conforme fui relaxando e deixando aquela energia positiva tomar conta, minha sorte com o sexo oposto começou a mudar. Houve um momento maravilhoso, daqueles com que um cara comum como eu podia apenas sonhar. Estava em um bar com um amigo de São Paulo, quando percebi uma loura linda de olhos verdes e pele bronzeada olhando para mim.
Tomei coragem e me aproximei. “Oi gata, que olhos lindos.”
Ela deu uma risada linda e provocante. “Obrigada, me deixaste sem graça agora, nem sei o que dizer.”
“Se você não tem nada a dizer, vamos comigo até a praia dar uma olhada no visual?”
Ela aceitou o convite a queima roupa e fomos de mãos dadas pela trilha que descia a falésia. Nos deitamos com as ondas tocando nossos pés. Não precisei falar muito. Quando a encarei, ela me deu o olhar mais lindo e a partir dali ficamos nos beijando por um tempão, nos aconchegando um ao outro sob a luz da lua.
Tinha gente passeando por ali e sussurrei: “Quer vir comigo para um lugar mais tranquilo?” Ela não falou nada, mas me deu a mão e levantamos.
Fomos para a casa em construção onde adivinhem quem estava acampando? Os gaúchos da Praia do Francês. Quando chegamos, fui me certificar se havia alguém lá. Estava com sorte, os caras deviam ter saído para a farra e a construção estava vazia. Achamos um quarto desocupado, coberto, mas com a janela ainda por fazer e sem porta. Assim que nós nos acomodamos, fiquei sem falar nada, viajando em sua absoluta beleza e em seu cheiro delicioso. Depois da pausa, começamos a sentir a pele um do outro e se pegar apaixonadamente. Um furacão de prazer tomou conta e amor veio furioso. Quando acabamos, ficamos deitados abraçados absorvendo o que tinha acontecido e apreciando aquela noite sem nuvens. O vento sobre a vegetação seca do lado de fora, o barulho dos grãos de areia levantando voo e batendo nas paredes da casa e a luz da lua entrando pela janela eram como um sonho. De repente, senti algo que quase não lembrava que existia: a sensação de estar em paz com o mundo.
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por Mauro Nadvorny | 6 fev, 2021 | Comportamento, Israel, Opinião, Oriente Médio
É realmente incrível a importância que tanta gente dá a Israel, um país menor do que Sergipe, com 9 milhões de habitantes, que fica longe do Brasil. Nem mesmo a irrisória comunidade judaica brasileira explica isso.
O fato é que Israel não sai das manchetes. São notícias hora boas, hora ruins dependendo também de que lado da história se encontra a mídia, ou seus leitores. São tantas informações, que as pessoas nem se dão ao cuidado de verificarem a fonte e sua veracidade.
No início da pandemia, por exemplo, se dizia que Israel tinha descoberto a cura, que teria vacinas em poucos dias e todo tipo de exaltação a medicina israelense. Nada disso era verdade. O importante era promover falsas esperanças dando crédito a Israel e as relações de Bolsonaro com Netanyahu.
Hoje com mais de 5.000 mortes, no terceiro Lockdown com cerca de 8.000 novos casos diários, ainda assim somos elevados ao primeiro lugar em termos percentuais de vacinação da população. Provavelmente até o mês de Abril, todos que quiseram, somados aos que tinham permissão, vão estar vacinados. Como todos, estamos pagando o preço.
E sim, esta semana, dois hospitais de ponta aqui de Israel tiveram resultados de cura com o uso de fármacos desenvolvidos por eles em pacientes graves da Covid-19. Estes medicamentos estão sendo testados e ainda vão demorar a chegar ao mercado. No entanto, se confirmado o que está sendo visto até aqui, a equação se fecha com o uso preventivo da vacina e da medicação no caso de infecção.
Muito se falou também nos últimos dias com relação a vacinação dos palestinos, de que seria uma obrigação de Israel que estaria sendo descumprida. Antes de tudo, a Autoridade Palestina nunca pediu oficialmente que Israel fornecesse vacinas. Todas as aquisições feitas por eles, ou recebidas como doação foram recebidas. Antes disso Israel já havia doado material médico e máscaras.
Esta semana Israel doou 5.000 vacinas. Até agora elas vem sendo utilizadas para vacinar o corpo médico e os serviços de segurança. Sim, antes de vacinar os mais necessitados depois do corpo médico, eles estão vacinando a polícia. E a bem da verdade, a pandemia não está tão grave nos territórios e nem em Gaza.
Alguns funcionários brasileiros da Organização de direita americana “Stand With Us”, com estreitas relações com o governo Israelense, pagos para defender Israel de qualquer ataque, ou mesmo suposição de estar fazendo alguma coisa moralmente duvidosa se apressaram em mostrar que de acordo com os acordos de Oslo, que Israel descumpre diariamente, a saúde nos territórios está a cargo da Autoridade Palestina. Uma piada de mau gosto.
Neste momento, a situação nos territórios é melhor do que em Israel, e com certeza do que no Brasil. Portanto, não há razão para maiores preocupações.
A Covid-19 continua se espalhando através das diversas mutações que ocorrem. Isto é totalmente previsível e por enquanto não existe nenhuma razão para se duvidar da eficácia das vacinas com relação a elas. O problema das novas mutações é que elas se espalham mais rapidamente do que a capacidade de se vacinar as populações.
Se o ano que passou foi de incredulidade com o que aconteceu, este ano é de esperança. A maioria dos países vão poder começar a voltar a ter uma vida muito próxima do que existia antes. Uma questão de tempo, mas a solução para ele já existe.
por Mauro Nadvorny | 30 jan, 2021 | Brasil, Comportamento, Imprensa, Opinião, Política
“O Leite Condensado é para enfiar no rabo da imprensa. Vão pra PQP”. Assim falou o presidente do Brasil num rompante miliciano. Qual foi a consequência desta falta de respeito com o cargo que ocupa? Quem disse nenhuma ganhou uma caixa de chicletes.
O Brasil perdeu o respeito consigo mesmo. Sua honra, sua dignidade, sua história não significam mais nada. O país é um morador de rua entre as nações. Não se importa mais com a sua imagem, como é visto pelos seus pares. Passou com honra o fundo do poço.
Impressionante o desdém da mídia tradicional para os fatos. De um lado a compra de mantimentos de fornecedores suspeitos, para dizer o mínimo. Na sequência uma manifestação destemperada, chula de parte do mandatário brasileiro, e o assunto é logo esquecido.
As explicações para as compras são de um mundo paralelo. Nele os soldados bebem leite consensado para receberem mais calorias. Este leite é mais fácil de se guardar. Mas se feitas as contas, é como se cada membro das Forças Armadas tivesse recebido 1,5 lata de leite condensado por ano, considerando o preço real que é na média de R$ 28,00. Visto desta forma, é razoável o que foi adquirido.
No entanto as licitações de itens um pouco estranhos foram vencidas por fornecedores um tanto esquisitos. Os preços pagos são outra história. Isto sim justifica uma investigação rigorosa. São inúmeras suspeições de cartas marcadas.
Em uma nação qualquer, com o mínimo de civilidade, o governo teria vindo a público com uma explicação séria. Exporia os números reais, o destino da mercadoria e como ela é empregada. Tudo claro e transparente. E se fosse o caso, abriria imediatamente uma investigação para punir os responsáveis por qualquer questão ilegal.
Nada disso ocorreu. Primeiro a imprensa deu a entender que a compra tinha sido realizada pelo presidente para seu consumo. Depois voltou atrás, mas aí teve de escutar os palavrões do dignatário mor. Então mudaram de assunto.
O que precisa ficar claro é que nada justifica o destempero do presidente. O cargo que ele ocupa é maior do que ele. Para ocupá-lo é necessário vencer eleições democráticas. “De acordo com o texto de 1988, cabe ao vendedor as tarefas de chefe de Estado e de governo e de comandante das Forças Armadas. Na prática, isso significa que o presidente é o representante público mais elevado do País e o principal articulador das vontades da população”.
Para permanecer no cargo é necessário manter o decoro que o cargo exige. Um presidente não pode proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo. Isto é crime contra a probidade na administração, passível de processo de Impeachment.
Nunca um presidente do Brasil teve tantos pedidos de Impeachment. A maioria deles embasados em crimes tipificados na lei. Nada disso parece abalar quem deveria dar provimento aos pedidos de pelo menos um deles. Infelizmente ele tem o poder para isso e vai deixar o cargo sem tirar nenhum dos 62 pedidos da gaveta.
Qualquer presidente está sujeito a receber um pedido de Impeachment, isto aconteceu com todos. No entanto vale recordar que os dois efetivamente cassados, Collor e Dilma, receberam 24 e 37 respectivamente.
O que estamos presenciando atualmente é inédito. Eduardo Cunha vai lançar um livro onde entre outras histórias, conta como foi planejado o golpe contra Dilma que se utilizou de um dos pedidos de Impeachment para se concretizar. Dando nomes aos bois vai escancarar o que todo mundo sabe. Dilma foi deposta em um golpe branco, constitucional e indecoroso.
Uma das figuras envolvidas no golpe é justamente aquela pessoa que tem hoje o poder de abrir um processo contra Bolsonaro. Rodrigo Maia que tem péssimas relações com o presidente e ainda assim se nega a tomar uma atitude, nem mesmo se dá o trabalho de examinar os pedidos. Foi um tigre contra Dilma, mas é uma barata contra Bolsonaro se escondendo nas sombras.
A política é a arte de engolir sapos, e assim o PT vai ter de votar em outro partícipe do golpe para evitar que o candidato do Planalto assuma a Câmara. São as voltas que o mundo dá. Neste caso, uma ironia do destino, quase uma Escolha de Sofia.
O que se espera é que Baleia Rossi, se eleito, não aguarde muito tempo mais para dar início ao Impeachment daquele que seguramente é o pior presidente do Brasil de todos os tempos. Desta vez, não um processo baseado em ilações, mas em crimes cometidos contra o povo Brasileiro.
Tomara 2021 termine sem o vírus e sem o verme.