por Mauro Nadvorny | 17 abr, 2021 | Artigo, Brasil, Justiça, Opinião
“Teu dever é lutar pelo Direito, mas se um dia encontrar o Direito em conflito com a Justiça, lute pela Justiça”, Eduardo Juan Couture
Eduardo Juan Couture Etcheverry foi um consagrado jurista uruguaio, mundialmente reconhecido, contribuidor de uma teoria sobre o direito de ação, tema do Direito Processual Civil.
A justiça não deveria cometer erros, mas como tudo que é feito pelo homem, está sujeita, logo ela, a cometer seus equívocos. Temos de acreditar que tais erros nunca foram fruto do desejo dela de impor sua vontade. Precisamos crer na justiça como marco civilizatório que nos permite conviver em sociedade.
No entanto, os erros judiciais acontecem. Inocentes são condenados a cumprir penas por crimes que não cometeram. Culpados por um crime são inocentados para voltar ao convívio da sociedade. Isto acontece em todo lugar em todos os tempos, nem sempre reparados.
Os juízes precisam ser protegidos. Suas decisões precisam ser cumpridas. Não for assim, todo o estado de direito deixa de existir e a lei do mais forte passa a prevalecer. Os mais fracos serão submetidos a vontade de seus opressores e a verdade calada para sempre.
Em uma democracia, ninguém está acima da lei, perante ela somos todos iguais. No Brasil é o que acontece, porém existem os mais iguais e os menos iguais. Para uns o benefício da dúvida, para outros o rigor da palavra da lei.
A justiça prevê que um condenado em uma instância possa recorrer desta decisão de acordo com certos critérios. De uma certa maneira, é uma forma de tentar reparar erros que possam ter sido cometidos na instância anterior.
O Caso Lula ainda será matéria de estudo obrigatório em toda Faculdade de Direito. Tudo que envolveu este processo e culminou na prisão dele foi pautado sob uma enorme farsa. Pior, ela foi confirmada em várias instâncias.
Na justiça os crimes são julgados de acordo com a lei prevista e escrita, ou ao menos assim deveria ser. Para que um cidadão seja condenado por um crime que lhe é acusado, é preciso provar. A prova tem de ser cabal. Para um sujeito acusado de furto tem que ser comprovado que ele se apossou do objeto em questão pertencente a vítima sem o seu conhecimento e sem sua aprovação. Isto ocorrido, condena-se.
O que se viu no Caso Lula foi uma quadrilha paga pelo estado para condenar o ex-presidente e o afastar da vida pública. Uma vez condenado, passaram a criar o processo e a buscar as razões, legais ou não, para cumprir a condenação.
Transgressões processuais foram sendo cometidas até o ponto de se tornarem rotina, todas em conluio com o juiz do caso, que atuava como uma extensão do MP. O conluio era tanto que todos os atos eram previamente combinados e confirmados entre eles. Em uma situação como esta ao réu não resta outra coisa senão a conformidade.
Condenado em uma primeira instância sem provas, sem base legal, mas baseado em convicções, esperava-se que na instância seguinte tudo fosse revertido. O que se viu foi uma sequência de arbitrariedades. A quadrilha tinha seus tentáculos expandidos e a condenação veio em tempo recorde com a pena ampliada a fim de permitir a prisão do réu.
Então uma surpresa. Um hacker copia todas as trocas de mensagens daquele grupo de procuradores que se intitulavam os combatentes da corrupção, membros do último baluarte para levar os corruptos a cadeia, os membros da Lava Jato. E o que se viu em milhares de mensagens foi de fazer corar a justiça e envergonhar todo o processo legal.
O castelo de cartas desmoronou. Na troca de mensagens, o que foi sendo publicado mostrava o que a defesa do presidente vinha alardeando desde o início, a Lawfare, o uso da lei como perseguição política. Escancarou-se a Caixa de Pandora e o que saiu dela estarreceu até mesmo os mais céticos. Agora, depois do réu cumprir prisão, descobre-se que o caso sequer poderia ter sido julgado por seus algozes. Nem importam as atrocidades jurídicas cometidas por eles.
Graças a estes criminosos o Brasil perdeu milhões de empregos, levou a falência empresas, deixou de arrecadar bilhões em impostos e o pior de tudo, permitiu a eleição deste genocida que aí está como presidente.
Quando o país se aproxima de 400 mil mortos pelo Covid, lembrem-se de que estas mortes também estão nas mãos de Moro, Dallagnol e seus asseclas. Se a justiça não tivesse sido estuprada por eles, não teria nascido o filho desta relação incestuosa e o Brasil de hoje não estaria assistindo um presidente dançando sobre as covas abertas para receberem tantos brasileiros.
por Mauro Nadvorny | 10 abr, 2021 | Artigo, Brasil, Judaísmo, Opinião
Existe algo de podre na Conib (Confederação Israelita Brasileira). Quando o seu presidente, no dia da lembrança dos mortos e heróis do holocausto, atende convite para jantar com Bolsonaro, o fedor é insuportável.
A mensagem que Claudio Lottenberg passou para a sociedade é diferente de seus pares. Enquanto cada um é mencionado como empresário dono deste, ou daquele negócio, Lottenberg foi relacionado por toda a mídia como presidente da Conib. Para bom entendedor, os judeus representados por ele, foram aclamar as presunções negacionistas do genocida com relação a pandemia e os futuros caminhos para o Brasil.
Como disse Napoleão Bonaparte, “Do sublime ao ridículo, é só um passo”. Lottenberg se achou digno de uma honra negada ao papagaio da Havan, mas para nós judeus ele foi mais um dos ridículos apoiadores de um presidente inepto que segue menosprezando a ciência e todos as recomendações da OMS para estancar a incrível média de mortes diárias no Brasil em consequência do Covid.
Os antissemitas de plantão já se alvoroçaram para apontar que os judeus não só elegeram Bolsonaro, como continuam dando a ele o apoio necessário para se manter no poder. Em suas ilações a prova de suas teorias conspiratórias fica estampada nas manchetes dos jornais com as palmas de Lottenberg ao seu anfitrião. A instituição nacional representativa dos judeus ovacionou Bolsonaro.
Somos muitos judeus contra Bolsonaro. Antes das eleições tentamos de todas as formas fazer tudo ao nosso alcance para impedir sua eleição. Com o grupo Judeus Contra Bolsonaro, estivemos presentes ao lado da sociedade que lutou contra aquele que vomitava ódio com suas mensagens racistas, homofóbicas e misóginas. Logo depois de consumada sua vitória, passamos a nos chamar Resistência Democrática Judaica e outros inúmeros grupos judaicos foram criados para resistirem ao nefasto. Não passa um dia sem que sigamos enviando nossas mensagens de repúdio a tudo que este governo fascista representa.
Os judeus não apoiaram Bolsonaro, o correto seria dizer que judeus apoiaram Bolsonaro, os Negros não apoiaram Bolsonaro, Negros apoiaram Bolsonaro, os LGBTs não apoiaram Bolsonaro, LGTBs apoiaram Bolsonaro, as Mulheres não apoiaram Bolsonaro, Mulheres apoiaram Bolsonaro.
O dia do jantar foi o mesmo dia em que nós judeus relembramos os mortos e os heróis do Holocausto. Em Israel, precisamente as 10:00 h da manhã, as sirenes que avisam ataques de mísseis tocam durante dois minutos. O país inteiro para literalmente. Nas ruas, nas casas, no comércio, nas estradas, nas rádios, nas TVs, todos permanecem de pé em silencio reverenciando este acontecimento marcante da nossa história. Nunca vamos esquecer.
Lottenberg tinha a seu dispor a desculpa pronta para não ir a este encontro. Optou por se fazer presente e junto com os demais, prestou seu apoio as sandices de um fascista. Sim, um judeu, presidente da Conib, menosprezou a memória de 6 milhões de judeus assassinados pelos nazistas, em troca de uma refeição grátis entre empresários que não ligam para os mais de 4000 brasileiros que morrem diariamente vítimas do desleixo do seu mito.
Eu como judeu, me sinto envergonhado e compelido a pedir desculpas para a sociedade brasileira pela presença do presidente da Conib neste famigerado jantar. Ele deixou de representar os judeus brasileiros quando adentrou naquela sala. Lottenberg esteve lá como líder da ala fascista da sociedade judaica, como representante de si mesmo e da falta de valores éticos e morais presentes naquele ambiente. Sua atitude não coaduna com o judaísmo, muito menos com nossa posição de resistência a tudo que este governo abjeto representa.
Imaginemos que estamos em 1939 e o país fosse a Alemanha. Fosse Lottenberg presidente da Conia (Confederação Israelita Alemã). O Chefe de Estado tivesse chamado empresários e o presidente da Conia para um jantar. Pelo que dizem algumas lideranças judaicas ele deveria atender o convite, afinal os judeus não tinham acesso a ele. O Chefe de Estado da Alemanha se chamava Adolf Hitler. Tem gente que nunca vai aprender com a história.
Que Lottenberg tenha a mínima decência de renunciar ao cargo de Presidente da Conib e pedir desculpas pela atitude ultrajante que cometeu.
por Mauro Nadvorny | 3 abr, 2021 | Artigo, Israel, Opinião
O imbróglio das eleições israelenses é uma situação que se repete há dois anos com 4 rodadas. O país parece que vai ter uma quinta em breve. O povo está dividido e os políticos não se entendem.
O sistema israelense é parlamentarista. Os partidos necessitam chagar a 61 cadeiras no parlamento de 120 se quiserem governar. Dada a dificuldade de um único partido alcançar esta marca, eles precisam formar uma coalizão com outros e aí começam os problemas.
O Likud, o partido do primeiro-ministro, continua sendo o mais votado, obteve 30 cadeiras na última eleição. Somados aos dois partidos religiosos que ideologicamente se veem como de direita, chegam a 46 cadeiras. Ele também recebeu o apoio do partido de extrema direita HaTsionut HaDatit (Sionistas Religiosos) que com suas 6 cadeiras dão ao bloco da direita um total de 52 cadeiras.
O segundo partido mais votado, o Yesh Atid (Existe futuro), obteve 17 cadeiras. Somados os partidos que já declaram apoio, o Meretz (Esquerda) e o Avodá (Trabalhista), chegam a 30. Todos são oposição ao Likud.
Esta eleição teve como mote quem era a favor de Bibi (o primeiro ministro e líder do Likud), e quem é a favor da mudança, ou seja, contra ele. Neste bloco além daqueles já mencionados, estão o Kachol Lavan (Azul e Branco) com suas 8 cadeiras, o Israel Beiteino (Israel Nossa Casa) com suas 7 cadeiras, e o Tikvá Chadashá (Nova Esperança), recém formado por dissidentes do Likud, com suas 6 cadeiras. Todos os líderes destes três partidos disseram que não sentariam em um governo liderado por Bibi e juntos chegam a 21 cadeiras.
Se somarmos as cadeiras de todos que se dizem contra o primeiro ministro, eles somam 51 cadeiras, mas não é tão simples assim. Alguns destes partidos são historicamente ligados a direita. Todos já estiveram em governos do Likud e têm uma certa dificuldade em se sentarem com o Meretz e até mesmo com o Avodá de centro esquerda.
Temos ainda três partidos que não foram mencionados e que juntos somam 18 cadeiras, o Iemina (Direita) com 7, o RAAM (sigla da Lista Árabe Islamita) com 5, e a Reshimá HaMeshutefet (Lista Unida) com 6. Como pode-se ver, o apoio deles para qualquer um dos lados permitiria a formação de um governo. Infelizmente as coisas não são assim tão simples.
Em Israel, tradicionalmente os governos sempre foram formados entre partidos sionistas, o que significa sem a participação dos partidos árabes. Dos três mencionados, somente o Iemina se enquadra como sionista. Acontece que não importa para que lado ele penda, nenhum lado consegue formar governo, ninguém chega a 61.
Diante desta situação, a joia mais cobiçada é o RAAM, um partido árabe religioso que ideologicamente, assim como os partidos religiosos judaicos, tem mais afinidade com a direita e portanto com Bibi. Se ele somar seus votos a este bloco, eles chegam a 58 cadeiras e com o Iemina, a confortáveis 65. O problema é o partido Sionista Religioso que já anunciou que prefere se sentar com o Diabo em pessoa a fazer parte de um governo com um partido árabe que, segundo eles, seria formado por radicais apoiadores do Hamas. Sem a extrema direita, o bloco fica com 59 cadeiras e não forma governo.
Do outro lado o Iemina e o RAAM também são cobiçados. Com eles, o bloco chega a 62 cadeiras e pode formar governo. Mas aqui também temos problemas. Os partidos de direita não aceitam sentar com os partidos de esquerda e com o RAAM, que por sua vez não está confortável em sentar com o Meretz, um partido que não aceita a religião na política.
Temos ainda a Reshimá Ha Meshutefet, a lista árabe que reúne os partidos de centro e esquerda árabes com suas 6 cadeiras. Claro que eles não sentariam em um governo do Likud, mas são uma opção ao RAAM no bloco contra Bibi, desde de que os colegas de direita engolissem este sapo em nome do bem maior, formar um governo sem Bibi.
Todas as cartas estão sobre a mesa. Na política israelense a palavra dada antes das eleições, não é a mesma empregada depois do resultado final. Alianças podem ser desfeitas, inimigos históricos podem se abraçar e velhos companheiros se apunhalarem. Nada é definitivo e vale tudo em nome do poder.
por Mauro Nadvorny | 20 mar, 2021 | Artigo, Brasil, Opinião
Lockdown é a palavra inglesa para determinar confinamento, muito utilizada nos dias de hoje com o Covid-19. Normalmente é uma medida governamental que obriga os cidadãos a permanecerem em suas casas por um determinado período de tempo. Cada um faz as suas regras, mas na maioria dos casos é permitido sair próximo da residência para a compra de comida e remédios.
Esta medida drástica continua sendo utilizada nos países onde o pandemia continua com um alto número de novos infectados por dia. No mundo inteiro se mede o fator “R”, que nada mais é do que o número de pessoas que são infectadas a partir de um único doente. Todos buscam estar abaixo de 1, o que significa que um doente infecta menos de uma pessoa, ou em outras palavras, que a propagação está controlada e decrescente. Nos países onde o fator “R” permanece acima de 1, o número de casos continua subindo dia a dia. Quanto maior, mais o vírus se espalha.
Quando as pessoas ficam confinadas, a probabilidade de novos infectados é cortada drasticamente. Nas primeiras duas semanas os números ainda parecem altos, mas são resultados das infecções passadas. Na terceira semana os números caem e a partir daí, também o fator “R”. Então começa a pressão pela reabertura e aí está o problema. É preciso abrir, mas como?
A necessidade do uso da máscara não desaparece, e o distanciamento social continua sendo obrigatório, assim como lavar as mãos com sabão ou álcool gel. Inicialmente começam a abrir os lugares que não recebem público. Depois os locais onde a entrada de público pode ser controlada. O transporte público funciona permitido para apenas 50% de ocupação. E assim gradativamente, monitorando os resultados semanalmente, mais e mais negócios vão reabrindo e consequentemente a economia volta a girar.
O que vira o jogo completamente é a vacina. Vacinados não transmitem o vírus e portanto podem ir a qualquer lugar. Quanto mais habitantes vacinados, menor vai ficando o fator “R”, menos doentes graves, menos mortes e consequentemente mais abertura.
Neste momento, enquanto em Israel a vida começa a ter ares de normalidade, onde 55% da população já recebeu a primeira dose e 48% a segunda, os índices são animadores. O número de novos contaminados dia vai caindo, da mesma forma o número de casos graves, e consequentemente a mortalidade. O fator “R” está em 0,72 e diminuindo a cada semana. Parece que a situação está controlada e a batalha sendo vencida.
Na Europa a situação volta a se agravar com a terceira onda chegando forte. Vários países estão decretando Lockdown, a medida inicial mais importante e a única maneira de impedir a deterioração do sistema de saúde. Sem isso, é o inferno como o que estamos vendo agora no Brasil.
A situação brasileira é caótica desde o inicio com a falta de um Gabinete de Gerenciamento de Crise. Todos os países criaram os seus e as medidas de combate ao Covid-19 levam em conta as recomendações feitas pelo gabinete formado normalmente por membros do ministério da saúde, epidemiologistas, economistas e cientistas ligados a saúde.
Quando o presidente do país é um negacionista, como no caso brasileiro, o combate a pandemia fica extremamente complicado. Aqui, são os governadores e prefeitos que precisam tomar as medidas necessárias. Elas são tomadas individualmente e acabam, em muitos casos, sendo inócuas. A população perde a credibilidade nos seus governantes e a situação vai se deteriorando. Toda a cadeia de medidas de combate a pandemia ficam comprometidas sem que exista uma coordenação nacional. Não há como vencer esta guerra desta maneira. O confinamento não quebra a economia, a falta de um gestor, sim.
Com hospitais sem mais lugares para internar novos doentes, os brasileiros começam a morrer em casa por falta de UTIs. Agora, mesmo os que tiverem a sorte de conseguir uma internação, vão morrer pela falta de medicamentos para intubar, sufocados pela falta de ar. O Brasil se transformou em uma Manaus.
A propagação não para de subir e o número de mortos por dia hoje no país vai batendo novos recordes. Uma coisa que todos sabem é que não existe milagre para acabar com este vírus, pelo contrário, novas mutações vão acontecendo e sempre existe a chance de uma delas se tornar imune as vacinas. Se isto acontecer, o mundo vai fechar as portas e janelas para o Brasil.
Se fosse uma ferrovia, o trem descarrilou. Agora é preciso arrumar os trilhos e recolocar a locomotiva de volta no lugar. O problema é que não existe um responsável para o que deve ser feito, faltam peças sobressalentes, meios para chegar ao local, engenheiros e trabalhadores para realizarem o serviço. Todos sabiam que iria acontecer, mas ninguém assumiu a responsabilidade para evitar.
Não quero ser o arauto das más notícias, mas a situação ainda vai piorar muito antes de melhorar um pouco. E com este presidente aí, chamá-lo de genocida, em breve será um eufemismo.
por Mauro Nadvorny | 5 mar, 2021 | Brasil, Opinião, Política
“A Divina Comédia” integra as obras que descrevem o mundo, como a Bíblia, a Odisseia, Dom Quixote. Dante escreveu que estava perdido no meio da selva escura, e nós hoje estamos no meio da cidade escura, no meio de um país escuro que busca um norte, diante do inferno de mortes. Na primeira parte de “A Divina Comédia”, no sétimo círculo do Inferno, estão os violentos contra o próximo, os homicidas e tiranos. São os que não se arrependem de seus atos e por isso permanecem para sempre no reino de Lúcifer. Um exemplo histórico dos que são violentos com o próximo, e que não é ensinado nas escolas, foram os senhores da Casa Grande. Nossos antepassados foram responsáveis pela morte de escravos negros e índios. Chicotadas e castigos terríveis eram comuns nos 350 anos de escravidão no Brasil. Esse passado é uma sombra pesada sobre o hoje e o amanhã. Por isso, cada vez que ocorrem políticas populares com justiça social, irrompem os moralistas golpistas, expressão da podridão que une a corrupção com o ódio aos direitos do povo. Essa é a nossa sociedade patológica, talvez nossa maior tragédia que piorou na pandemia.
O País agora chega aos 260 mil mortos nessa primeira semana de março de 2021. É imperioso conhecer os que têm ajudado o vírus a se propagar, ao desprezarem o vírus, promovem aglomerações, não usam máscaras e desprezam as vacinas. O vírus mata e mata e não para de matar, cada vez mais, há 365 dias. Os que trabalham em saúde pública deviam comandar essa guerra contra o vírus, são os que falam e escrevem há um ano que se precisa de máximos cuidados. Os opositores das ciências, os negacionistas, facilitaram a propagação do vírus gerando um inferno.
Os cruéis paranoicos se imaginam perfeitos, projetam todo o mal nos demais, e eles se colocam acima do bem e do mal. Por isso, no mundo de Dante, eles são condenados ao Inferno. Ele conhecia bem o os violentos tiranos, pois foi obrigado a se exilar para não morrer e no exílio escreveu a “Divina Comédia”. A escrita foi sua forma de luta, sua capacidade criativa superou a crueldade e até hoje é lembrada.
A resistência à crueldade é difícil, é um desafio a todos, a cada um, pois não devemos ser cúmplices da política da morte, da necropolítica. Temos o dever, por dignidade, de ser a favor da vida, a favor da vacina já, a favor da máscara, a favor da higiene das mãos e do distanciamento. Em todos os países civilizados os governos têm obrigação de seguir os infectologistas e os profissionais da saúde pública com experiência e conhecimento. Entretanto, aqui tem sido diferente, um general da ativa foi designado ministro da Saúde e está perdido por não conhecer virologia, as vacinas e a saúde. Estamos sem rumo, com hospitais sobrecarregados, caminhamos na escuridão.
E há os que ainda não entendem por que nós brasileiros estamos com uma baixa autoestima. Estamos desanimados com os Poderes, em especial o Poder Executivo. Tentam criar um clima maníaco de alegria, os governantes não visitam os hospitais, fazem festas e nas fotos sorriem. A gratidão e os aplausos devem ser aos trabalhadores dos hospitais que são corajosos, e merecem o reconhecimento da sociedade. Recordo, mais uma vez, que Dante pôs no Inferno, entre outros, os violentos, os homicidas e os tiranos. Dante é divino/maravilhoso nos setecentos anos de sua morte (21/9/1321). No meio dos medos da escuridão, louvemos as luzes das artes, das ciências, e da medicina no amor a vida.
por Mauro Nadvorny | 27 fev, 2021 | Brasil, Opinião, Política
Quais os limites da liberdade de expressão? Uma pergunta simples que com certeza gera uma discussão apaixonada. Nossa liberdade de dizer o que bem entendermos é ilimitada, mas somos responsáveis pelo que dizemos. A lei define o que são ofensas e não raro, alguém é condenado por proferir ofensas. Este é um dos limites.
Um músico, um humorista, um jornalista, um político ou um escritor, podem se expressar livremente sem observar limites? Eu mesmo participei do processo que condenou Siegfried Elwanger, o neonazista que mantinha a Editora Revisão dedicada exclusivamente a livros antissemitas. Sua defesa tentou utilizar a Liberdade de Expressão em sua defesa.
No Canadá um caso interessante. Um humorista fez mais de 200 apresentações onde fazia humor com um menino prodígio na música portador de uma doença rara. O humor era puro bullying o que levou o jovem a processar o humorista. Condenado a indenizar o jovem, depois de perder em todas as instâncias o caso chega agora a suprema corte. Em sua defesa o direito da Liberdade de Expressão.
No Brasil um deputado proferiu ataques e ofensas graves contra ministros da suprema corte e a democracia. Está preso. Em sua defesa argumentou sua imunidade parlamentar e a Liberdade de Expressão.
Quando a constituição fala em Liberdade de Expressão, ela é clara em seu artigo 5º:
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
I – homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição;
IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
V – é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem;
IX – é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;
Não resta dúvida de que não deve haver censura em relação as atividades artísticas e outras, mas também fica claro que isto não significa a não imposição de limites, e neste caso, especialmente importante, quando se referem ao direito a vida, a liberdade e a igualdade. Em outras palavras a dignidade humana.
Não existe bem maior do que a vida. Nada nem ninguém podem atacar o direito a ela. Todos devem ter o direito de expressar sua opinião, desde que ela não ameace a vida de outros. A história está cheia de exemplos onde a força da palavra causou a morte de inocentes. Um exemplo rápido, a acusação de bruxaria contra mulheres.
A vida em sociedade implica em direitos e deveres. Temos as mais variadas leis para nos dizer o que está e o que não está permitido. Todas levam em conta a cidadania, nossos direitos individuais e nossa convivência em comunidade. Tudo para preservar a vida.
Quando em meio a uma pandemia que já ceifou mais de 2,5 milhões de vidas no mundo, permitir que charlatões continuem a duvidar da gravidade da situação propagando informações falsas para que as pessoas deixem de usar máscaras e não se vacinem, a sociedade precisa proteger-se. Estas pessoas estão cometendo um crime contra a humanidade. Sua alegação: liberdade de pensamento.
No Brasil, o principal propagador da indiferença que já tirou a vida de mais de 250 mil brasileiros é o presidente da república. Um inepto em todos os sentidos no cargo máximo da nação é o responsável direto por boa parte destas mortes. Pior, não toma nenhuma atitude na busca por vacinas que são,hoje, a única forma de salvar vidas.
Bolsonaro deveria estar sendo processado pela violação do direito a vida como está na constituição. Seu incentivo a kits preventivos, cientificamente comprovados como ineficazes, seu comportamento com o desprezo pelas regras mínimas universalmente aceitas, o uso de máscara, distanciamento social e higiene, são um acinte a memória dos que pereceram e um desprezo pela ciência.
As novas variantes do Covid-19, mais agressivas e mais fatais estão se espalhando pelo Brasil e vão colapsar os hospitais. A variante inglesa ataca também crianças levando a óbito ou deixando sequelas para toda a vida. O país está diante de uma tragédia anunciada, uma catástrofe inevitável para a qual não existe solução de curto prazo. Vão faltar UTIs e vai faltar oxigênio se nenhuma providência for tomada.
Se alguém pensou que o pior já havia passado, prepare-se, o pior ainda está por acontecer.