Palestinos nos veem como inimigos, judeus de direita, que defendem incondicionalmente os governos israelenses conservadores, nos acusam de traição, e os nossos próprios irmãos de esquerda têm dificuldade em nos entender. Em nome do antissionismo, por vezes escorregam para o antissemitismo. E isso é o mais doloroso.
Dói ver grupos de um partido de esquerda queimarem a bandeira de Israel em nome do socialismo, um chargista comparar os palestinos aos judeus gazeados de Auschwitz, um colega jornalista escrever que não existe “solução para a crise no Oriente Médio que não inclua o fim do Estado de Israel”, a mídia progressista abrir espaço para pessoas que vomitam seu ódio aos judeus. Dói ver nossas lideranças condenando o bombardeio de Gaza por solidariedade aos familiares das vítimas palestinas, sem uma palavra sequer sobre as famílias israelenses, sobre o necessário reconhecimento de Israel e de uma paz justa, com dois Estados dentro de fronteiras seguras.
Somos judeus progressistas.
Nosso posicionamento é transparente, não hesitamos quando se trata de combater o presidente brasileiro e seus asseclas nazifascistas, de denunciar as consequências nefastas do neoliberalismo, de denunciar o extremismo de direita que se espalha pelo mundo, de defender a justiça social, a democracia e os direitos humanos. Não há discussão possível, somos límpidos e pensamos merecer ser tratados como tal. No entanto, a cada vez que o assunto é Israel, o olhar dos outros muda. De repente somos apontados, dedo acusatório em riste, por enxergarmos no conflito médio-oriental uma situação muito mais complexa do que a dicotomia fácil que coloca o carrasco, Israel, contra a vítima, palestinos, maus de um lado, bons do outro. Isto é maniqueísmo.
Não somos torcida uniformizada. Somos todos, ou quase, a favor de uma solução de dois Estados, vivendo lado a lado em paz e segurança, conforme o estabelecido pela ONU em 29 de novembro de 1947, em sessão presidida por Osvaldo Aranha. Nenhum de nós quer o extermínio do povo palestino. Ao contrário, queremos ver os seus direitos a uma terra, a uma nação, reconhecidos.
Amos Oz, o escritor pacifista israelense, descreveu este processo como sendo um divórcio contencioso, penoso porém necessário.
É verdade que hoje a solução de dois Estados parece um sonho quase impossível, tanto assim que alguns defendem a criação de um Estado binacional. Na prática talvez ainda mais impossível. Na Cisjordânia vivem cerca de 430 mil colonos israelenses em 132 assentamentos. Mesmo assim, vale citar André Malraux, para quem em política só a utopia é verdadeiramente interessante. É ela que deve guiar nossas ações.
Essas colônias são ilegais pela lei internacional. Em pelo menos sete ocasiões, desde 1979, o Conselho de Segurança da ONU reafirmou que elas são “uma violação flagrante do direito internacional”.
Não é possível continuar indefinidamente como está.
Os judeus de esquerda militam pela paz, muitos fazem ou fizeram parte do movimento Paz Agora, pela coexistência, por um lar para uns e outros. Quando uma bomba explode num ônibus escolar israelense, choram as crianças mortas, da mesma forma como choram as crianças de Gaza, vítimas dos bombardeios de Tsahal. Para qualquer mãe a morte de um filho é uma perda irreparável, seja ela israelense ou palestina. A dor no peito é a mesma.
Nos meios progressistas, frequentemente Israel é chamado de Estado genocida. O que os governos israelenses efetivamente não são. Não se pode comparar o que acontece na região com o genocídio tutsi em Ruanda, o armênio pelos turcos, o de Samudaripe, no Camboja, o massacre de Srebrenica, o extermínio dos índios, nem sequer com as vítimas da “imunidade de rebanho” arquitetada pelo governo federal.
Israel não é um Estado genocida, mas isso não impede que seja um país colonizador de terras que não lhe pertencem pelo direito internacional, um país expansionista, em nome de um pseudo destino bíblico.
Com Ariel Sharon, Israel deu o passo que faltava para privilegiar a segurança em detrimento da paz. As negociações foram quase abandonadas e a solução de dois Estados arquivada. Foram implantadas colônias populosas na Cisjordânia, para onde seguiram milhares de fundamentalistas religiosos e extremistas de direita, tornando impossível a imprescindível continuidade territorial palestina.
Israel é responsável e culpado. Sua atitude, indefensável. As colônias têm de cessar e as negociações precisam ser retomadas. Só que aqui entra uma questão fundamental: quem seriam os interlocutores? Os palestinos estão divididos, o Fatah, que controla a Cisjordânia e a Autoridade Palestina, não dialoga com o Hamas, que tem o poder em Gaza. O Fatah reconhece o direito de Israel à existência, enquanto o Hamas, em seus estatutos, jura combater Israel até o seu desaparecimento do mapa. Do lado israelense, a população se acomodou com a situação relativamente estável, com conflitos episódicos que os sucessivos governos de direita consideram administráveis. É sintomático o fato ocorrido durante um recente confronto com o Hamas. Enquanto os aviões israelenses bombardeavam o prédio ocupado pela imprensa internacional, em Gaza, os habitantes de Tel Aviv estavam nas ruas festejando a vitória no concurso Eurovision, como se a população israelense estivesse vacinada contra a guerra.
Durante mais de dez anos, o status quo foi conveniente tanto para Ismael Haniyeh quanto para Benyamin Netanyahu e agora o é para Naftali Bennet (que tem se mostrado ainda mais à direita que seu predecessor).
Então surge alguém dizendo que se Israel é colonizador é porque seu lugar não é ali, no Oriente Médio. E assim entramos na intrigante questão do ovo e da galinha. Quem nasceu primeiro? Quem estava lá antes?
Os judeus foram expulsos daquela região? Sim, ali foi escrita parte da história de seu povo, fato que justifica amplamente o retorno e a decisão da comunidade internacional, de consciência pesada por ter fingido que não via o holocausto. Na Antiguidade Oriental (Oriente Médio), os hebreus, também chamados judeus ou israelitas, habitavam Canaã (território do atual Estado de Israel). As raízes do judaísmo estão ali, fincadas naquele solo. Isso ninguém pode negar.
No entanto, os palestinos ali estavam nos séculos XIX e XX , tendo sido expulsos de suas casas, de suas terras, famílias foram separadas, muitos tornaram-se refugiados. Originalmente, os palestinos se estabeleceram em uma área entre a Jordânia e o atual Estado de Israel. A dominação deste território, que no fim do século XIX contava com cerca de 500 mil habitantes, remete à crise do Império Otomano, que anteriormente controlava a região.
As colônias agrícolas de palestinos começaram a ser fundadas no ano de 1862.
Isso tampouco se pode negar.
Muitos judeus europeus, influenciados por pensadores do final do século XIX, começo do XX, pensaram em se assimilar, inspirados nos valores da Revolução Francesa, que pregava a igualdade de direitos para todos. Até mesmo o jovem Theodore Herzl (antes de se tornar o pai do sionismo político) chegou a defender a conversão ao cristianismo, antes de se dar conta, ao cobrir o caso do capitão Dreyfus, acusado de espionagem por ser judeu, que o antissemitismo não tinha sido abolido na “pátria” dos direitos humanos.
O jornalista israelense Ari Shavit, em Minha Terra Prometida, descreve magistralmente esse nó que está no cerne do conflito israel-palestina. Os dois povos têm razão e, assim sendo, não há solução satisfatória. Por isso, as concessões precisam ser imensas, mexendo em sentimentos profundos de injustiça. Porém, assim deve ser.
Os palestinos sofrem ainda mais por verem seus ex-amigos árabes lhes virarem as costas. Hoje, os habitantes, sobretudo de Gaza, só podem contar com os apoios do Qatar e do Irã xiita, este interessado em se impor como líder regional em contraposição à Arábia Saudita wahabita. Teerã financia o Hezbollah, no Líbano, o Hamas e a Jihad Islâmica, movimentos armados que nunca aceitaram a partilha da região nem a existência de Israel.
A tragédia palestina também é político-religiosa, na medida em que o Hamas tentou impor a sharia, a lei islâmica estrita, em que meninas e meninos não podem frequentar as mesmas escolas, as mulheres não têm seus direitos nem sua segurança reconhecido, são vítimas da violência doméstica, o desemprego entre as mulheres chega a 71 %, muitas meninas são obrigadas a se casar ao chegar à puberdade, homossexuais são presos.
Os moradores de Gaza são miseráveis, têm eletricidade duas horas por dia, o desemprego atinge metade da população, só 10 % têm acesso à água potável e, para piorar ainda mais, o Hamas acusa a Autoridade Palestina de se aliar à Israel e Egito no bloqueio à Faixa.
Muitas doações da União Europeia para obras de infraestrutura são desviadas para outros fins.
Israel é responsável pela situação em Gaza? Claro que é, mesmo se os seus soldados saíram de lá em 2005. Mas não é o único. Uma análise objetiva (na medida que isso é possível) deve responsabilizar todos os integrantes do puzzle, inclusive lideranças palestinas, algumas das quais acumularam fortunas de origem nem sempre transparente.
Israel é um país segregacionista? Sim, os árabes não têm os mesmos direitos dos judeus, mesmo se um partido árabe israelense, muçulmano, hoje faça parte da coalisão governamental. Há de se reconhecer que existe uma espécie de apartheid em Israel. Prova, como se necessário fosse, que Israel não é para amadores e não deva ser visto com olhos apaixonados da arquibancada de um Fla X Flu.
Somos judeus de esquerda. Talvez seja difícil para quem não o é entender por que Israel é fundamental para nós, e ainda por cima somos majoritariamente pouco religiosos, ateus ou agnósticos, cem por cento laicos (conceito diverso de ateu, e que significa dizer: somos a favor do Direito, e não da Religião, organizando a política e a estrutura do Estado, aliás, do Direito dando a todos, religiosos e irreligiosos, a faculdade de viver em pluralismo e diversidade), muitos casados com não judeus.
Israel é criticável e criticado. Porém, que o seja “só” por seus erros, que não são poucos.
Israel é o nosso seguro de vida. Estamos intimamente convencidos de que se Israel desaparecer, como querem os antissionistas, nós também desapareceremos, mais cedo ou mais tarde. Por quê? Porque sempre foi assim; a história nos ensina. Todos conhecem a Shoá e seus 6 milhões de judeus assassinados. O que alguns talvez não saibam – ou finjam não saber, é que a perseguição aos judeus é muito, muito anterior a Hitler. Historicamente, o judeu é o «outro», o bode expiatório, que deve ser discriminado, varrido do mapa.
Os judeus fazem questão de ter seu próprio país porque passaram milênios ameaçados de extermínio.
Israel não nasceu da necessidade de celebrar ser judeu, mas do direito de existir sem perseguição.
Nunca os judeus foram tão assimilados quanto no primeiro terço do século XX, na Alemanha; deu no que deu.
Somos ao todo 14 milhões de judeus, representando 0,2% da população mundial. O mínimo que se pode dizer é que o barulho é desproporcional ao que representamos. E isso tem nome: antissemitismo. Com certeza, cada um de nós tem histórias a contar sobre atos de discriminação sofridos durante a vida, relembrando que somos todos, sem exceção, filhos, netos, bisnetos de refugiados, de perseguidos, de expulsos.
Muitos migraram da Europa central e do leste para o Brasil, após a Primeira Guerra, vítimas dos pogroms na Europa.
“Meus avós”, conta o Blay, “migraram da Polônia e Bessarabia para o Brasil, após a Primeira Guerra, vítimas dos pogroms na Europa. Paula, minha avó, quase moribunda, num gesto de derradeira vontade fez questão de se naturalizar brasileira, pois não queria ir embora polonesa, como filha de um país antissemita. Uma de suas irmãs, que queria muito estudar, negou-se a partir de Cracóvia, obteve no mercado negro uma carteira de identidade como prostituta e assim pode prosseguir os estudos, o que lhe era negado como judia. Acabou morrendo em Auschwitz, a poucos quilômetros da escola, antes da existência de Israel.”
Casos como este pontuam a nossa história.
Nosso papel, como progressistas, é tentar restabelecer a verdade e a justiça. Sem concessões, reconhecer os direitos, deveres e sofrimentos de todos – judeus e muçulmanos, palestinos e israelenses. Sem exceção. Em nome de nossa integridade, temos o direito de ser reconhecidos dessa maneira, antes de mais nada pelos companheiros com quem dividimos valores e para quem a fístula do antissemitismo ainda é – infelizmente – um abcesso a ser extraído.
Alguém me perguntou se para ser Judeu era necessário conhecer a Torá. Respondi: “é muito bom conhecer a Torá, mas não, não é preciso conhecer a Torá para ser Judeu; é preciso, contudo, não fazer ao outro o que você não quer que façam com você.”
E continuei: “para ser Judeu é preciso ter educação, e saber a diferença entre a sua casa e a casa do outro, ainda que seja uma casa virtual e, assim, na casa alheia fale pouco, não se movimente além do necessário e não dê palpites infelizes.”
E concluí: “os Patriarcas não conheciam a Torá, porque não havia Torá em sua época, mas tinham, e muito, educação, por isso transitavam entre os povos com respeito mútuo.”
Um perfil em quaisquer das redes sociais, é como uma casa (diferente de um grupo de perfis). E, assim, há critérios de etiqueta e educação para se manifestar na casa alheia. Não vá à casa alheia falar besteiras, pois isso demonstra que, além de não ter educação, você deixa, expressa e publicamente claro (e registrado), que é um sem educação!
Nunca debata qualquer assunto com alguém que sabe, sobre o assunto, mais do que você. Limite-se a perguntar e ficar no plano humilde da pergunta, pois o debate pressupõe tanto o conhecimento temático quanto o retórico: sem conhecimento, você se torna um latão barulhento; sem retórica, um ruído ininteligível.
Se, contudo, você se achar na arrogância de debater um assunto que você não domina com um Mestre (e, pior, com um Doutor) deixará publicado ao mundo que você é um asno, um asno arrogante, mas asno, e todo o seu debate parecerá ruído de cascos. Em outras palavras, as redes sociais realmente estão abertas, mas saber quando e com quem debater é sinal de sobrevivência.
Peça licença para entrar, e espere que ela seja dada. Diga “muito obrigado” ao sair, e não cuspa no prato no qual comeu. Lembre-se: você pode ser um asno, mas o mundo não precisa saber disso (guarde esse segredinho só para você...).
Se você tiver dúvida sobre o motor do seu carro, procure um mecânico; sobre construção, um engenheiro; sobre seus direitos, um Advogado; sobre saúde, um médico; sobre vacinas, um imunologista, farmacologista, infectologista (nunca os asnos da internet); sobre livros na biblioteca, uma bibliotecária; sobre sistema elétrico, um eletricista; sobre passaporte, o Consulado; sobre a Ciência do Direito, um Professor de Direito (nunca um Advogado, Promotor, Juiz ou Estagiário, pois estes são operadores do Direito, não Professores); sobre seus demônios internos, um Psicólogo; sobre como plantar, um agricultor; sobre cadáveres, um médico legista; sobre Educação, um Educador; sobre Economia, um economista e; sobre educação, seus pais; sobre Teologia, um teólogo; sobre Ciência da Religião, um cientista da Religião; sobre Israel e Palestina, procure israelenses e palestinos (que tiverem algum grau de conhecimento jurídico, político, geográfico e histórico);
NOTA FINAL
Se você entender tudo isso será bastante para viver bem, entrar em espaços alheios bem, manter-se em espaços alheios bem, sair e deixar aquela impressão de que você pode voltar. Ah, sim, se você entender tudo isso, já será um sinal de que não é um asno arrogante!
Eu escrevo artigos há muitos anos. Já fui censurado, sofri inúmeras tentativas de me impedirem de escrever, mas resisti a tudo e a todos. Continuarei escrevendo enquanto sentir prazer em fazê-lo. No dia que perder esta vontade incontida de colocar as palavras no papel e publicá-las, paro e vida que segue. Mas será uma decisão minha, não uma imposta por alguém.
Quando escrevo, sinto que compartilho meu pensamento. Não tenho nenhum objetivo além de dar a quem me lê uma oportunidade de saber o que me passa na mente naquele momento. Diferentemente de muitos outros companheiros das letras, eu escrevo de supetão. Todo sábado pela manhã, reservo um tempinho para isso. Escolho um tema e as palavras vão sendo tecladas no computador. Concluído, eu o publico. Sei de outros que o fazem com muito mais tempo e dedicação, maturando a ideia, escrevendo, apagando e reescrevendo até que estejam felizes com o resultado para publicação. Não é o meu caso.
Eu não diria que meu “estilo” seja melhor ou pior que os demais. Apenas conto a vocês que me leem. Acho que merecem saber como crio meus artigos e que toda crítica é bem-vinda, ou quase todas. Escrevo sobre muitos temas. Em uma semana posso falar de política brasileira, em outra de política israelense. Posso tratar de um assunto específico ou ser genérico. O que existe em comum, é que meu campo é o de esquerda, minha ideologia é de esquerda, minha visão de mundo é de esquerda.
Nos anos 80 eu tive a experiência de viver em uma fazenda coletiva de Israel, um Kibutz. Vivi o socialismo na prática, uma vida onde o bem maior é o coletivo, onde todos trabalhavam, na medida do possível onde desejavam, mas recebiam o mesmo salário e tinham os mesmos direitos. Nas assembleias gerais tudo era votado e decidido de acordo com a vontade da maioria.
Eu participei de todas as campanhas a presidência de Lula. Ajudei a eleger o primeiro vereador do PT de Porto Alegre, Antônio Hohlfeldt. Trabalhei voluntariamente nas campanhas de Flávio Koutzi para deputado, entre outros. Sempre votei em candidatos do PT em todas eleições para todos os cargos eletivos.
Falo tudo isto para esclarecer que se somarem 1 + 1 será possível compreender que sou judeu, sou sionista e sou socialista. Isto é o que me define como ser humano. E claro que esta definição atrai a ira de muita gente. Por ironia do destino, tanto da direita como da esquerda. Uma espécie de Geni, como na canção de Chico Buarque.
Muita gente lê minhas publicações no Brasil 247 onde sou colunista. Tenho inclusive leitores fanáticos que aguardam ansiosamente pelos sábados. São assíduos comentaristas de tudo o que escrevo, mas seus comentários tem um teor agressivo e antissemita. Eu nunca respondo e, no entanto, toda semana eles estão lá.
Um deles, não importa o tema, sempre escreve que Israel não tem o direito de existir porque somente judeus recebem a cidadania. Ele repete isto como um mantra toda a semana mesmo que eu tenha falado sobre o sexo dos anjos. O interessante é que trabalho com um israelense muçulmano. Meu genro que é católico, acaba de chegar em Israel e deve receber a cidadania em cinco anos, que o tempo que leva todo o processo para aqueles que não são judeus e desejam a cidadania israelense. Nada diferente de outros países com relação aos estrangeiros que buscam se naturalizar em outros países. Israel aceita a dupla cidadania, ao contrário de outros países como o Japão, por exemplo.
As vezes também recebo comentários assim: “O anti semitismo vem desde os tempos dos faraós.
Quem dava golpes, que tipo de cabeça da comunidade dava golpes nos faraós, nos sacerdotes, nos comerciantes e outras classes ricas daqueles tempos?
O que resultou no primeiro Holocausto e na expulsão de toda a comunidade do país dos faraós, praticamente TODOS inocentes das canalhices perpetradas pelos cabeças gananciosos e doentios.
Que tipo de cabeça deu o golpe da Bolsa de 1929/30, jogando na miséria mais de 60% do povo americano e demais países capitalistas?”
Também existem os que escrevem: “Judeu de merda, me dá teu endereço, que eu covardemente vou te visitar com 5 amigos armados, cada um com duas pistolas carregadas, quando botar duas pt na tua cara, e meus comparsas na cara dos teus filhos pequenos e esposa, aí tu vai entender o que um palestino sente contra um inimigo armado e covarde.”
São comentários pontuais que não representam o conjunto dos leitores. Eu os trago neste artigo para ilustrar o que existe dentro da esquerda. Uma amostra do sectarismo na nossa trincheira. Eles se dizem de esquerda, há quem concorde. Felizmente uma minoria que extrapola toda a nossa humanidade como esquerdistas que lutam por um mundo melhor.
Neste ano teremos finalmente a chance de trazer Lula de volta a presidência e eu, mesmo de longe vou estar fazendo mais uma vez campanha para ele e candidatos do PT. E vocês?
Quando qualquer país investe para valer em Educação, sobretudo, básica, fundamental e média e superior (e aqui incluo a Pesquisa) precisa esperar mais 50 anos para sentir a mudança intelectual e os resultados em suas ciências.
Qualquer país que tenha um passado jesuítico, extrativista, escravista, patriarcal, golpista, café com leite, fascista, ditatorial, escapista e, atualmente, bolsonarista, e não tenha investido (nem queira investir) para valer em Educação básica, fundamental, média e superior (e, insisto, Pesquisa), poderá até ser rico, vender muito, arrecadar muito, desenvolver um grande comércio internacional e será, assim mesmo, um rico burro, estúpido e fadado a morrer na praia (ou nos milhares quilômetros de praia) ou, ao menos, não conseguir preencher vagas de seu Judiciário por absoluta ignorância e deformação educacional.
Um país que vende diplomas universitários pelas mãos das Privadas (ressalvo os projetos particulares que são estupendos e comprometidos), enganando-se a si mesmo, enganando os números oficiais, enganando o mundo, não terá, nunca, asas para voar, nem fôlego para mergulhar em quaisquer ciências, tecnologias e humanidades: será, portanto, o quintal do mundo e o eterno fornecedor de commodities!
Então, se a “glória” de um país realmente depende apenas de suas commodities, ou de uma ideia vaga de futebol ou,ainda, do “tolerado” turismo sexual (e estelionato neopentecostal) as glórias terminarão no gramado, digo, na grama,onde ficarão marcas de ferraduras!
Educação não se inventa, ao contrário, realiza-se no vagar do tempo de, pelo menos, duas gerações (para ser otimista!). Um país educado não discursa, faz!
Pietro Nardella-Dellova, 2012
photo: Biblioteca della Facoltà di Giurisprudenza dell’Università di Zürich, Svizzera
Torto Arado é uma obra gigante que doravante ninguém que queira ser qualificado como brasileira ou brasileiro poderá ser completo sem a sua leitura. Mas antes de descrever a obra em si, como gosto de fazer com quase tudo na vida, vou do geral para o particular.
Minha vida e minha mente foram (e são) fortemente influenciadas pela exploração de nossas noções de realidade, e nesta aventura, o mundo da física nos dá mensagens muito ricas. O começo do século XX foi marcado por grandes rupturas na ciência (e na filosofia) na medida em que se descobriu que a realidade do muito grande (física relativística), mesmo sendo fruto da soma de todas as realidades do muito pequeno (física quântica) tem com esta uma difícil relação, pelo menos à nossa apreciação enquanto humanos ansiosos por explicações fáceis para a nossa realidade que fica no meio do caminho entre esses mundos, o que nos deixa perplexos quando estamos diante da microrrealidade onde nada é determinável ou exato, nem mesmo a existência em si mesma de alguma coisa.
Viver no Brasil e imaginar que a realidade visível e palpável tem algo a nos dizer diretamente é certamente algo pior do que uma alucinação. Nada pode ser mais incompleto, delirante e confuso, e certamente o que vivemos neste momento de nossa história é a perfeita representação deste “pathos”.
Água Negra é um átomo da nossa história, algo como um átomo de carbono, este que integra toda e qualquer matéria viva tal qual a conhecemos por enquanto, e assim, estrutura nossa existência na sua imensa complexidade. As “partículas sub-atômicas” desse micromundo são os imensos personagens que exploram as possibilidades em um ambiente que fica entre a escravidão e algo que ainda não veio a ser, pelo menos aos descendentes dos ecravos do Brasil, e sua situação no contexto atual é bem retratada pela protagonista que tragicamente perde sua capacidade de falar já na infância, em um simbolismo sobre o qual não tenho certeza sobre o quão intencional foi por parte do autor, mas que identifiquei durante a leitura.
O romance é delicadamente e ricamente floreado de forma envolvente e verdadeiramente saborosa, a ponto de fazer que nos sintamos parte daquela terra, das chuvas, secas, das crenças, dos encantados, e do contraste permanente entre o amor pelo lugar e sua trágica história com o das dores dessa história, o que de tal forma impregna a vida de alguns personagens que os paralisa os sentidos de eventual revolta e transgressão, algo que fica reservado aos mais jovens e expresso em diálogos que algumas vezes lembram o folclórico Tevie (Um Violinista no Telhado) e seus choques com os jovens proto-socialistas de Anatevka, o vilarejo russo onde se passa aquela narrativa. Esta semelhança eventual é realmente notável, e se presumo que o autor dificilmente conheça aquela obra, ele terá confirmado a universalidade dos dramas humanos que conhecemos.
Neste micromundo de partículas infinitesimais da nossa realidade vai sendo destilada a substância da vida, que sempre mais forte que tudo, insiste em provar que o impossível é algo a ser permanentemente desafiado e os personagens, embora fictícios, seguem as trajetórias que certamente foram percorridas por milhões de pretas e pretos que no século XX e XXI ainda não sabem o que são direitos fundamentais, não por que não os queiram, evidentemente, mas por que a vida bruta de uma terra da qual tiram tudo e com a qual têm uma relação mais que carnal simplesmente não lhes é permitida como própria, em um processo massacrante e alienante que é vivido pelos mais velhos como natural e como única forma de preservar suas próprias tradições, crenças e saberes, em um paradoxo que verdadeiramente nos angustia.
A condição feminina é alvo também preferencial do autor, revelando matrizes das tantas disfuncionalidades estruturantes de tragédias que nos são bem conhecidas, mas que no caso particular derivam da catástrofe criada pelo sequestro de um povo de suas terras e nações, cruelmente submetidos a uma realidade brutal e perversa que extraiu boa parte das suas essências culturais e antropológicas, antes harmônicas, sem nada oferecer em troca senão a condição sub-humana institucionalizada.
Torto Arado é o Brasil profundo, sincero, sem concessões, mas descrito com poesia suficiente para nos angustiar sobre um imenso vir-a-ser que não se realizou no país, mas que pelo menos foi vivida nos corações dos heróis retradados nesta magnífica obra.
No mês em que se celebra o orgulho, deparo-me com manifestações de pseudorreligiosos em retaliação a uma marca de fast food, que nos brinda com uma campanha de marketing com a abordagem LGBTQIA+, com o foco na pureza das crianças, sim porque as crianças são puras, e não enxergam maldade no amor. Respeitar todas as formas de amar deveria ser uma bandeira do cristianismo, porém, os neopentecostais se comportam de forma avessa ao que prega a sua própria religião, são apenas fundamentalistas que desejam impor seus pensamentos e comportamentos a toda sociedade.
Há muito tempo sinto-me sufocada pelo rumo que o Brasil tomou, enchendo-se de um conservadorismo pré-histórico, trazendo toda sorte de mazelas para um povo. Essa gente que hoje vai às redes sociais gritar contra essa empresa de fast food é a mesma que colocou no cargo de mandatário da nação brasileira, um genocida, negacionista, incapaz de sentir empatia pelo sofrimento de um povo, que ele deveria cuidar, o Brasil tornou-se palco internacional de espetáculos diários de intolerância, arbitrariedades, homofobia, destruição de direitos. E tudo isso tendo como pano de fundo pilhas e pilhas de mortos, seres humanos asfixiados pelo fundamentalismo de muitos, pelo nazi fascismo de outros.
Esses cidadãos de “bem”, sabem criticar outros fundamentalistas que matam os missionários cristãos em seus países, mas não se enxergam como responsáveis pelos assassinatos diários de homossexuais no Brasil, pois desde que Bolsonaro foi eleito presidente, os homofóbicos sentiram-se a vontade pera exacerbar toda sorte de comportamentos desprezíveis.
Respeitar as diferenças é obrigação de todos, independente de seguimento religioso, e falo como religiosa que sou. Não somos iguais nem nas digitais, por que teríamos que seguir padrões de comportamento impostos por uma parcela da sociedade?
Viva as liberdades de orientação sexual, de culto religioso, ou de ausência de religião!