O brasileiro e seu best self

Em meados do primeiro trimestre deste ano, viu-se de forma quase aturdida as ações de desprezo por parte do presidente e seus apoiadores pela vida dos brasileiros. Ao examinar jornais e fotos daquele mês, é possível detectar as ações das pessoas que participaram das passeatas no dia 15 de março. Postadas em redes sociais e em grupos de mídia de ampla abrangência, muitos desses atualmente investigados na CPI das Fake News, prestavam apoio incondicional ao seu líder. Saudosos à ditadura e a um militarismo a la república de bananas, bem como a pauta presente à época, e ainda hoje: a aclamação (in)popular pelo fechamento do Congresso e Supremo Tribunal Federal, viram suas ações desmoronar, até certo ponto.

Com o bloqueio e a extinção de vários sites que saíram de circulação, e também pelas imposições causadas pela pandemia, além da prisão de uma representante do grupo “300”, o qual raramente contou com mais de 20 pessoas, essas ações ficaram um tanto quanto adormecidas. Com isso, parece que paira uma certa latência no ar. Estariam os bolsonaristas fazendo um espécie de download existencial? Talvez. É possível que exista relação com o contundente envolvimento em corrupção pelos filhos do presidente, ou ainda, pela própria inoperância e incompetência com que o executivo tem lidado com a administração pública, ou mesmo pelo fato de que se vive a maior pandemia do século sem um ministro da saúde. As razões são infinitas.

O grande número de apoiadores surpreende. E com tudo que têm enfrentado os brasileiros, nestes 18 meses de governo, qualquer um questionaria se há algum traço que identifique tais pessoas (latentes) como anormais. No entanto, não há! Possivelmente, se fala em sujeitos que levam uma vida como a de qualquer outro ser humano que trabalha, estuda, cuida dos filhos, vai à feira, ao supermercado. Devem ser considerados cidadãos de bem. Pergunta-se, porém, o leitor, por qual razão empenham-se em uma cruzada rumo às trevas? Sem qualquer relação direta com o Estado Democrático de Direito?

Ao contrário, é observado um certo fervor em exaltar os anos de chumbo vividos neste país, bem como as múltiplas ações arbitrárias que vão de encontro à própria democracia e às liberdades individuais. Nem nos tempos da ditadura houve tantos militares em cargos políticos. Apontar que esses apoidores são contra a corrupção é uma forma rasa e simplista de tratar o assunto, visto que todos são contra a corrupção. O que gera aqui uma questão pragmática, pois ao falar em corrupção, é preciso dizer de quem, ou como, ou ainda, quando? Fala-se até em perdoar o PT, como se houvesse algo do tipo: “eu sei o que vocês fizeram no verão passado”, mas segue-se a máxima de que não há nada tão ruim que não possa piorar. No campo da educação, a exemplo das trocas com diversos ministros, bem como seus respectivos perfis “técnicos”, essa máxima é levada a níveis consideravelmente altos.

Esses mesmos cidadãos levantam a bandeira do que consideram política e o dito “politicamente correto”, no entanto, estão há anos-luz do pensamento crítico, o qual realmente leva as pessoas a pensarem de forma política, dentro de um contexto sócio-histórico e cultural. Isso, no Brasil, virou coisa de comunista. E é facilmente evidenciado quando empregam frases de efeito e sugestões de tomada do poder pela força, utilizando-se dos símbolos nacionais, para com isso, fortalecer uma ideia suprema de governo, de povo. Estão de fato não só fazendo apologia ao pensamento obscurantista, como à própria ignorância política, característica de quem vê em formas democráticas de poder, um problema a ser vencido. A esses, se lhes fosse dado o direito de escolher, não seriam brasileiros, mas Americanos, Canadenses, Alemães.

Obviamente que esses mesmos sujeitos encontram respaldo em manifestações de caráter neofascista, distorcendo informações e conhecimento, conforme suas orientações ideológicas e até religiosas. Atualmente o que se vê é uma onda negacionista, em parte alimentada por outra esfera altamente ideológica do governo, a ala evangélica. Fica nítido que a necessidade de se fazer presente, mesmo em um momento de pandemia, coloca a figura política (do presidente) e seus apoiadores, ainda com todos os riscos à saúde pública, e infringindo a própria constituição, em uma espécie de simbiose histérica.

Lembra inclusive o líder religioso Jim Jones, que motivado por questões religiosas, e uma loucura coletiva, levou 909 pessoas a cometerem suicídio. Aqui, os apoiadores agem como suicidas, mas também como assassinos indiretos. Uma pesquisa liderada pela FGV apontou que o comportamento do presidente está ligado a pelo menos 10% das mortes decorrentes de Corona Vírus no Brasil, que hoje conta com mais de 75 mil mortos, ocupando o segundo lugar em mortalidade, atrás apenas dos EUA. Isso corresponderia a mais de 7 mil mortes diretas. A pergunta que fica é: quanto ainda o Brasil caminhará para trás e pagará com vidas, por conta de um irresponsável e seus fanáticos seguidores, que têm causado um verdadeiro genocídio em nome de uma obsessão política inoperante?

 

Samba Perdido – Capítulo 03, parte 02

 Quando chegamos na escola, haviam bandeiras inglêsas e brasileiras penduradas por todo lado. Ao descer do ônibus, a primeira coisa que reparamos foi a ausência do costumeiro tapete de folhas e de frutas podres que sempre cobria o enorme pátio asfaltado. Parecia um outro lugar, até o cheiro doce do podre tinha ido embora, milagrosamente os faxineiros haviam limpado tudo.

Fomos levados direto para nossas salas onde cada turma ficaria esperando a sua vez para se dirigir ao auditório. Na confusão não consegui ver o resto da família.

Nossa professora, Mrs. Feitosa, estava nos esperando ao lado da porta. Ela era uma loura autoritária de Manchester nos seus quarenta e tantos anos, casada com um brasileiro. Sua maquiagem, seu perfume e seu vestido exagerados, embora levemente ridículos, não diminuíram sua autoridade. Quando viu que a sala estava cheia fechou a porta, bateu no quadro negro e falou alto e firme.

Alô-ô!!! Quero todo mundo sentado e prestando bastante atenção!”

Paramos o que estávamos fazendo, obedecemos e ficamos em silêncio.

“Muito bem. Estão todos me ouvindo? Vocês sabem quem está para  visitar a escola, não é?” Ela fez uma pausa para que a ideia entrasse na nossa cabeça. “Hoje não vai ter desculpas para palhaçadas, todo mundo tem que estar no seu melhor comportamento. Fui clara?”

Mrs. Feitosa deu sua famosa olhada por trás dos óculos e torceu seus lábios finos. Como que por mágica, cada um dos alunos pensou que a ameaça era dirigida a ele. Foi um alívio quando alguém abriu a porta dizendo que era nossa vez de deixar o prédio.

“Agora, quero todos dando as mãos e vindo comigo.”

Fui com meu amigo Henry, um inglês louro alto de cara sonolenta. De volta ao pátio, consegui ver meus pais com os outros adultos, todos vestidos impecávelmente e esperando. Quando passamos à sua frente, acenaram e sorriram com orgulho. Depois, voltaram a olhar ansiosos de um lado para outro para ver se a convidada ilustre já havia chegado.

Estávamos para entrar no auditório quando ouvimos barulhos de sirenes. Mrs. Feitosa olhou para trás. Seguimos seu olhar e testemunhamos o grande momento: acompanhada por sua comitiva, Sua Majestade, Rainha Elizabeth II da Inglaterra, estava entrando na Escola Britânica do Rio de Janeiro.

Em todo o seu resplendor, a Rainha estava de pé em um Rolls Royce sem capota, acenando e sorrindo para a pequena multidão agora reunida ao longo da fila de palmeiras que se estendia desde a entrada da escola até o pátio. Como garotos, o que mais chamou a nossa atenção foram as motocicletas escoltando os carros oficiais; eram as mais incríveis que qualquer um de nós já tinha visto. Como num filme, eram enormes, com motores grandes e barulhentos, antenas de rádio gigantescas e para-brisas cintilantes. Os guardas pareciam estrelas de Hollywood, com o sol refletindo nos seus óculos escuros e nas suas jaquetas de couro exibindo o emblema da polícia militar.

Antes que pudéssemos falar alguma coisa, Mrs. Feitosa nos tirou do transe mandando a gente entrar rápido para dentro do auditório. Os organizadores estavam nervosos; tínhamos que subir no palco antes que a segurança liberasse a entrada dos adultos. Depois que nos acomodamos, os adultos começaram a entrar e a lotar as beiradas do salão. Com o local cheio, as portas fecharam e todos ficaram esperando a Rainha entrar. Tivemos sorte pois nosso era o melhor lugar para se enxergar o evento.

Finalmente Mr. Gordon, o diretor da escola entrou, andou até o centro do salão e pediu a atenção de todos. Num inglês impecável anunciou a convidada de honra. Quando ela colocou os pés dentro do salão foi como se o poder e a aura do Império Britânico estivessem entrando junto. Parecia que o prédio havia se transformado num lugar diferente que abrigava toda a pompa e circunstância do Reino. O Príncipe Phillip seguiu logo atrás e parou para conversar com, adivinhem quem? minha irmã Sarah, que estava em pé na parte reservada para ex-alunos. Ela foi incrível: confiante e polida.

Os dois alunos escolhidos para dar as boas-vindas à Rainha eram ingleses “puro-sangue”, que era como todos chamavam aquela panelinha. Vestido como aristocratas britânicos do passado, o garoto andou até a Rainha e de maneira cavalheiresca atirou ao chão sua capa de veludo com bordados dourados. A garota, em pé em frente dele, fez uma reverência. Ele se curvou e ao levantar gritou qualquer coisa que não entendi. O que quer que tenha sido, a Rainha mostrou sua aprovação e depois se virou para a nossa turma.

Mrs. Feitosa ergueu a mão e nós começamos a cantar. Estávamos bem ensaiados e para o alívio geral, cantamos bem. Depois dos aplausos, foi a vez das apresentações e dos discursos. A Rainha falou pouco mas todos prestaram a máxima atenção e aplaudiram com entusiasmo no final. A cerimônia acabou com ela se despedindo graciosamente. As festividades continuaram até bem depois da saída da comitiva real. Todos os presentes voltaram para casa com a sensação de que se houve alguma vez um dia dourado para a comunidade britânica do Rio de Janeiro, foi aquele.

*

Meus pais ainda não tinham decidido se ficariam para sempre no Brasil e a escolha da Escola Britânica tinha sido a mais lógica. Apesar do preço astronômico, o estabelecimento tinha uma longa e orgulhosa história de serviços prestados a famílias britânicas e anglo-brasileiras lutando – embora perdendo mais vezes do que vencendo- a dura batalha para blindar suas crianças do flagelo da brasilidade.

Todos, direção, professores e pais, faziam de tudo para preservar o ambiente britânico. Até a comida dos almoços era britanicamente insossa. O inglês era a única língua usada não só nas aulas mas também nas conversas com os amigos e até nas brigas. Seguindo a tradição, Mr Gordon era famoso pelas surras de vara que dava nos meninos mais velhos em frente da escola inteira. O uniforme era típico – camisa de abotoar azul e calças de tergal cinza. A escola também recomendava para que quando voltássemos para casa o português só fosse usado com as empregadas. 

A maioria dos pais dos meus colegas ou eram diplomatas ou trabalhavam para empresas britânicas. Diferentemente dos meus, nenhum deles tinha se mudado para o Brasil numa aventura existencial, também não compartilhavam sua religião nem sua idade. Meus colegas ou sabiam dessa diferença ou pelo menos sentiam que havia algo de estranho ali e me tratavam como se fosse, de alguma forma, distinto. 

Isso nunca chegou a ser uma desvantagem. Sem ter que seguir padrões convencionais, minha diferença conferia carisma. Talvez por isso acabaria me tornando o líder da bagunça tanto dentro quanto fora da sala de aula. Isso aconteceu espontâneamente, sem que precisasse me impor fisicamente. Como consequência, acabei fazendo dois inimigos. Seja por inveja ou por se verem no direito – ou mesmo no dever – de me colocar no meu lugar, a dupla fazia de tudo para cortar a minha onda e me diminuir.

Um deles, o Nicholas, tinha sido calejado por dois irmãos mais velhos. Apesar do sobrenome irlandês, parecia e de alguma forma era, italiano. O outro, Garreth, era um inglês “puro sangue”, um típico garoto bonitinho que se via em comerciais: sardento, de cabelos loiros e de olhos azuis. Apesar disso, nunca sorria e era o mais escroto dos dois. Juntos, eles infernizavam minha vida. Do nada, faziam a chamada cama de gato, onde um deles ficava agachado atrás, enquanto o outro vinha me empurrar com força pela frente. Sem provocação, apareciam toda hora para ridicularizar minhas piadas e brincadeiras. Na sala, faziam questão de competir comigo no que quer que fizesse. Eu saía vencedor nos duelos de inteligência e de criatividade, mas perdia nos embates físicos, os mais importantes para garotos. Ninguém gostava da dupla, mas quando a única opção para se manter a dignidade era brigar, meus amigos amarelavam e eu tinha que enfrentá-los sozinho sem ter o equipamento nem físico nem psicológico para tanto. Contudo, não via razão para aquilo e estava resolvido a não me curvar.

A chance de dar o troco veio em uma de minhas festinhas de aniversário quando convidei a sala inteira exceto Nicholas e Garreth. Revoltada com aquilo, uma das professoras tentou me dar uma lição. No dia da festa, ela me tirou do ônibus escolar e levou nós três de carona para casa. Para me constranger, no caminho ficou me perguntando sobre a festa. O plano não funcionou e não houve arrependimento nem convite. Nada faria com que os dois tivessem a chance de estragar meu dia.

O troco veio quando convidei um colega de sala ao Clube Paissandu. Assim que nos viram na piscina, vieram interromper o que estávamos fazendo e afastaram meu amigo. Depois tentaram me afogar. Dar caldos uns nos outros era uma brincadeira comum, mas daquela vez a coisa foi para valer. Me deixaram em baixo d’água até não conseguir mais respirar. Entre as pernas dos dois, as mãos deles segurando minha cabeça e meus ombros e sem ar, tudo ficou vermelho. Desesperado, saí distribuindo socos, cotoveladas e pontapés até conseguir sair e respirar de novo. De volta na superfície, com os pulmões cheios continuei e, para meu espanto, dei uma surra nos dois. Só que logo depois chorei, não por causa da humilhação, mas por não entender o porquê deles serem assim comigo. Talvez por causa dessa reação, não aceitaram a derrota e a situação continuou.

*

voltar

seguir

início

Precisamos preservar a vida!

Hoje me perguntei se era possível em meio a tantas tragédias com o Corona Vírus, tentar encontrar um meio de falar de coisas boas. Não é fácil, sou sincero em dizer. Os meios de comunicação nos atualizam a cada hora sobre o que está acontecendo no mundo inteiro.

A última grande pandemia foi há dez anos com a Gripe Suína. Antes dela, em 1968 tivemos a Gripe de Hong Kong. No ano em que nasci, 1957 ocorreu a Gripe Asiática. Em 1918 a Gripe Espanhola. Em comum, vírus da gripe em animais que sofreram mutações e infectaram humanos.

De alguma forma, aprendemos com cada uma delas. As vacinas para gripe são um bom exemplo. Eu mesmo tomo há muito anos. No entanto, a cada novo vírus ela precisa ser complementada. O Covid-19 é o recém chegado. Ainda não temos defesa contra ele. Uma vacina é esperada para dentro de um ano.

Do que estamos vendo hoje, a maior lição talvez seja a de que sem um sistema da saúde governamental e universal, nenhum país vai conseguir combater o Corona com eficiência. Não existe maneira de um sistema de saúde privado dar conta de um surto desta natureza. Estou de olho nos EUA para ver como vão lidar com os 22 milhões de americanos sem seguro de saúde.

Neste momento estamos sendo testemunhas da capacidade humana em superar grandes adversidades. Médicos e médicas, enfermeiros e enfermeiras, profissionais da saúde estão na linha de frente enfrentando o vírus com baixas em seu pessoal. Na Itália já são 13 médicos que perderam a vida.

Em todas as cidades, atendentes nos mercados e supermercados abertos, mantém a população abastecida correndo risco de se infectarem. Alguém precisa fazer este trabalho para que a maioria da população possa permanecer em casa.

Existem voluntários entregando gêneros de primeira necessidade para pessoas infectadas que não podem sair. Também entregam para idosos a fim de que permaneçam seguros dentro de casa.

Diante do enorme esforço necessário a contenção do vírus, somente o isolamento social resolve. Sim, ele tem um custo econômico enorme, principalmente para os mais pobres. No entanto, um problema de cada vez e o primeiro deles é preservar a vida. Se as pessoas continuarem saindo de casa, a propagação da doença será exponencial e o sistema de saúde não será capaz de atender a todos infectados. Este é o maior aprendizado com outros países.

O Brasil está começando a sentir o impacto, mas pode fazer a lição de casa com o que já foi feito em cada país onde o vírus chegou com força. Existe a vantagem de poder separar o que foi exitoso do que fracassou nestes lugares. Se não forem tomadas medidas imediatas, o resultado é conhecido.

O maior problema no caso do Brasil é a falta de governo. Temos um executivo inepto em todos os escalões. Quem está na presidência é incapaz de compreender o tamanho do desafio e o que está por vir. Não há como lidar com a magnitude deste verdadeiro Tsunami sem uma liderança dando o exemplo do que se deve fazer, informando a nação dos problemas e apontando os caminhos que devem ser seguidos.

É realmente incrível que praticamente toda a comitiva brasileira que viajou para os EUA esteja infectada, menos o presidente que compartilhou horas e horas com eles. Como é possível que ele ainda não tenha mostrado os resultados de seus exames? Como acreditar nele afirmando que os resultados foram negativos sem a prova?

Se mesmo nos países mais ricos do mundo, onde existem governos fortes e atuantes, o Corona está deixando um rastro de mortos e um enorme impacto econômico o que esperar do Brasil onde o presidente afirma diariamente de que se trata de histeria sobre uma gripezinha?

Minha recomendação, desde Israel, onde já estamos em meio ao crescimento de infectados, é só sair de casa nas próximas duas semanas, se for extremamente necessário. Mesmo assim, use máscara e luvas descartáveis. Não há como saber quem está infectado ainda assintomático.

Trabalhe de casa, se for possível. Mantenha seus filhos em casa também. Leia, joguem cartas, assistam TV, conversem bastante. O Corona vai passar e vocês precisam estar vivos para ajudar na recuperação do planeta.

O Mundo Traumatizado

As crianças falam do vírus sobre o qual aprendem na escolinha e passam gel com álcool nas mãos. No meio de um whats o amigo me pergunta: “E o vírus?”, e alguns até já sonham com o vírus. Em mais de cem países o coronavirus se faz presente e aumentam os infectados, os doentes e até mortos.Campeonatos esportivos são suspensos, escolas e universidades são fechadas, a crise sócio-econômica cresce. Há muitos anos o mundo não vivia um trauma dessas proporções, já falam até do “maldito ano de 2020”.

Trauma é um choque violento, um acontecimento tão intenso que as pessoas traumatizadas não conseguem responder de forma adequada. Trauma é um afluxo de excitações que supera a capacidade de absorção psíquica, gerando efeitos de intenso sofrimento. O aparelho psíquico – alma na poesia – sofre traumas de fenômenos da natureza, das separações, das doenças de amor e do ódio, entre outros. Do nascimento à morte, há marcas mnêmicas dos traumas. Agora, quando o mundo é atacado por um vírus, há um trauma mundial que também se conecta à vida de cada um.

Cada pessoa reage com maior ou menor medo ao bombardeio de notícias pelas mídias. Temporariamente a humanidade está enlouquecida, pois ao dormir e acordar só pensa em doença, lê, vê, escuta, avidamente sobre a nova gripe. O vírus invadiu a realidade psíquica, a paranoia está à solta, pois já não se pode nem dar as mãos, não se pode beijar, não se pode nem conversar em grupos nas ruas (orientação na Itália).

A angústia automática tem origem num desamparo acentuado. É uma sensação de perigo eminente, um sentimento de estar ameaçado, desorientado, perdido. Aliás, a palavra desamparo é uma palavra-chave para se entender o ser humano. Toda pessoa está submetida à situação de desamparo e a história humana é a história de como foram sendo enfrentados os diferentes desamparos. Desamparos gerados desde o nascimento, a dependência absoluta do bebe. E tem os fenômenos da natureza, as doenças e mortes além das tensas relações humanas. Esse desamparo psicológico, uma ausência de apoio, expressa a falta de garantias diante das incertezas. Somos vulneráveis. Esse clima de desorientação e de ameaças mortifica a vida, aumenta o sofrimento masoquista. E assim as pessoas podem chegar ao pânico como o vivido hoje.

O mundo está submetido às notícias do famoso vírus, o mundo gira em torno da nova ameaça. Médicos infectologistas alertam para o trabalho da mídia e dos governos no excesso de alarme.
Ainda bem que muitos conseguem atravessar a ponte do desamparo, aceitando as dificuldades sem terror, sem exaltar a dor. São os que melhor suportam as frustrações. Uma amiga me disse que agora a gente deve se cumprimentar com o piscar de olhos e me piscou sorridente. Um brasileiro já afirmou: “quem suporta o ódio do B4(pai do B1,B2,B3) tira de letra o C19”.

Outros vírus passaram e esse vai passar. Vencer o vírus é um desafio, seja o A, B, ou C, todos eles têm um tempo de crescimento, e depois irão decrescer. A luta da humanidade, os conhecimentos adquiridos diante de bactérias, vírus, ódios e doenças vão sendo enfrentados pela nossa humanidade. Um dia, apesar do cansaço, voltaremos a nos abraçar e beijar. Sim, um dia o amor ao próximo voltará para diminuir a crueldade. Um dia ainda vamos recuperar o sorriso do entusiasmo. Talvez já se possa treinar aqui no virtual, pois a arte, a cultura parecem frágeis, mas elas são balsâmicas.

O escritor e médico Fernando Neubarth se referiu aqui no face às palavras balsâmicas. Bálsamo são resinas extraídas das plantas que geram efeitos antinflamatórios, combatem as gastrites e outros males. Fiquei sonhando com as palavras que ajudam no combate ao pânico. Indispensável a união de compartir aqui nas redes fortalecidas que amparam. Não faltam leitores balsâmicos para os que precisam escrever. É preciso pensar no conceito africano “ubuntu”, algo como fraternidade. O provérbio zulu é: “Umuntu ngumuntu ngabantu”- “Uma pessoa é uma pessoa por meio de outras pessoas”

Samba Perdido – Capítulo 02, parte1

Capítulo 02

   "Rio seu mar, suas praias sem fim

Rio você foi feito para mim."

Samba do Avião -Tom Jobim

 

A vida carioca havia começado em clima de segunda lua de mel num quarto de frente para o mar de Copacabana no hotel Miramar. Os dias de semanas eram dedicados a nadadas e passeios nas praia semi deserta em frente. Nos fins de semana, para evitar a multidão, se deleitavam em caminhadas pela floresta da Tijuca, descobertas nos arredores da cidade e em aventuras culinárias. Os dois passaram aquelas semanas apaixonados um pelo outro e por tudo o que aquela cidade tinha a oferecer.

Descansados e aclimatados, embarcaram na sua primeira missão: escolher um lugar para morar. Sua busca os levou a conhecer como os cariocas viviam e a recantos menos turísticos porém igualmente atraentes; ruas residenciais na descolada Ipanema e no seu vizinho Leblon, bairros menos badalados beirando a Baía de Guanabara e mais para perto do Centro, como Botafogo, Laranjeiras, Catete e Flamengo. Viram imóveis ao redor da floresta, na verde Gávea e no Jardim Botânico, vizinho do parque lindíssimo com o mesmo nome. Os corretores também os levaram a áreas mais afastadas como o Cosme Velho, localizado num vale no meio da floresta tropical, à Urca, à sombra do Pão de Açúcar, e à Santa Teresa, em cima dos morros beirando o centro da cidade.

Todas essas alternativas, em geral apartamentos espaçosos e recentes, eram como um sonho para um casal vindo da fria e cinzenta Londres castigada por bombardeios. No entanto, apesar de adorarem tudo o que viram, escolheram permanecer em Copacabana. Lá, além da proximidade da praia e de Paulo, havia algo que as outras partes do Rio não tinham: o glamour com que estrelas como Fred Astaire, Ginger Rogers e Carmen Miranda haviam apresentado a cidade ao mundo. Havia carisma. O bairro às vezes lembrava as charmosas cidades costeiras da Côte d´Azur francesa, com suas ruas calmas e limpas e com seu cotidiano praieiro, noutras vezes lembrava Manhattan, com sua floresta de edifícios modernos e elegantes. Neste aspecto, o ar cosmopolita, porém ainda verde, da “Princesinha do Mar” não tinha páreo no Brasil.

As avenidas do bairro eram repletas de lojas oferecendo novidades importadas, boutiques exclusivas, cinemas e casas noturnas sofisticadas. Por ser um recanto recente e abastado, esses estabelecimentos ou eram os melhores da cidade ou pertenciam às melhores redes do país. Circulando em suas ruas movimentadas ou estacionados em suas calçadas, carros do último modelo, nacionais e importados, realçavam o seu ar internacional.

A praia em si era maravilhosa: havia quatro quilômetros de oceano aberto cercados por uma exuberante cadeia de morros que separava aquele paraíso do resto da cidade. À frente, um pequeno grupo de ilhas cobertas por vegetação selvagem quebrava a monotonia do horizonte. Seu passeio público, a elegante Avenida Atlântica, era o cenário onde de dia a elite carioca exibia seus corpos torneados e bronzeados e nos fins de tarde desfilava com suas melhores roupas nas suas caminhadas.

*

Depois de decidirem onde iriam morar, a escolha de um apartamento foi fácil. Com uma conta bancária recheada de valorizadas libras esterlinas provenientes da venda da casa em Londres podiam voar alto. Em breve estavam de mudança para uma espaçosa cobertura onde uma ampla varanda dava uma deslumbrante vista da praia. Como todos os outros prédios ao redor, a entrada parecia com a de um hotel de luxo. Painéis de mármore e enormes espelhos emoldurados revestiam suas paredes imitando palácios na Europa e cenários hollywoodianos.

A mobília do casal, comprada a preço de banana em casas de leilão na Londres do pós-guerra, era classuda e combinava bem com a elegância do endereço. Ela incluía antiguidades como uma autêntica mesa de cabeceira Chippendale, um piano de calda, talheres de prata, porcelana chinesa legítima da mais alta qualidade e pinturas clássicas, falsas porém convincentes.

Tudo havia sido enviado de antemão por navio. Agora, três meses depois, estava à espera na alfândega do porto. Enquanto Rafael saiu em busca dos contatos comerciais que seus amigos haviam fornecido, Renée ficou responsável por liberar seus tesouros.

Armada com o português básico aprendido com um professor improvisado indicado pelo consulado brasileiro em Londres, ela foi lidar com a burocracia local. Aos olhos do encarregado, a senhora inglesa era a própria figura da gringa rica e ingênua. Mesmo avisada, Renée se recusou a aceitar que um homem tão charmoso, numa posição de tanta responsabilidade, pudesse estar atrás de propina, apesar de que todos seus novos vizinhos e amigos haviam assegurado que qualquer pessoa nesse tipo de trabalho iria querer algum tipo de “incentivo” para agilizar as coisas. Numa tarde decisiva, seu medo de ofender foi tanto que não teve coragem de entregar um envelope gordo, recheado de dinheiro. Essa hesitação lhe custou mais quatro mêses de espera.

*

Depois de instalados em Copacabana, o casal foi se integrando na vida da Zona Sul. Nessa mesma época e no mesmo lugar, artistas como Vinícius de Moraes, João Gilberto e Tom Jobim estavam misturando samba, letras inspiradas e jazz dando origem à bossa nova. As casas de show espalhadas por de Copacabana. As mais exclusivas ficavam de frente para a praia na Avenida Atlântica. As mais na moda ficavam nas vielas logo atrás. Uma delas era o Beco das Garrafas onde o trio e outras futuras lendas da bossa nova se apresentavam regularmente. Esse seria o berço de clássicos do gênero como a Garota de Ipanema, que Frank Sinatra gravaria no auge de sua carreira e que venderia fora do Brasil tanto quanto as músicas que os Beatles ou os Rolling Stones estavam gravando.

A bossa era a expressão musical do otimismo pelo qual o país passava. Esse era um Brasil inteligente, urbano, sofisticado mas ainda assim apaixonado pelas suas raízes. Rafael tinha acertado quanto às possibilidades do país. Com um processo de industrialização acelerado e com um mercado consumidor em crescimento, as oportunidades eram ilimitadas. O slogan do presidente Juscelino Kubitschek era fazer “cinquenta anos em cinco”. Com isso em mente, o seu governo investiu pesadamente em infraestrutura e abriu o país para o capital externo. Ele também se dedicou a construir uma nova capital, a futurística Brasília, no longínquo Planalto Central.

Apesar de não frequentarem a noite e de esnobar a nova moda musical, os dois acabariam por se encaixar bem em Copacabana. A vizinhança era de uma classe média recente, ansiosa​ em se familiarizar com sua recém adquirida posição social. Isso incluía viver de acordo com o que viam e liam em filmes e revistas estrangeiras. Pessoas de fora personificavam as suas aspirações e proximidade com elas não só dava status, mas também dava asas à imaginação.

Após uma breve fase de se sentir alienada, Renée foi rápida em perceber a oportunidade social de assumir o papel de embaixatriz do mundo “desenvolvido”. Espelhando a jovem e recém empossada Rainha Elizabeth II, ela aceitou o cargo com convicção e prazer. Vinda de uma família de imigrantes alpinistas sociais, o Brasil​ neste aspecto lhe pareceu um El Dourado. Isolada da sua família e da sua cultura, vivendo num país estrangeiro como uma dona de casa milionária, mimada pelo marido, temida pelas empregadas, tratada como alguém especial nas ruas e sem ter ninguém que a questionasse, ela se reinventou e criou um personagem surrealista.

Trinta centímetros mais alta que a média das brasileiras, com um forte sotaque inglês e com um guarda-roupas repleto de peças elegantes feitas em Londres, para os brasileiros Renée passava a imagem de uma mulher poderosa e à frente de seu tempo. Isso era fácil num lugar onde donas de casa de respeito nunca eram vistas na noite, sequer em restaurantes com seus maridos. Seus biquínis – em voga na Europa do pós-guerra – mostravam o umbigo. Na praia, esse show de nudez chocava, e mais de uma vez os salva-vidas tiveram que lhe pedir que voltasse para casa para trocar de trajes.

Renée foi também uma das primeiras mulheres a dirigir no Rio, o que atraía muitos comentários, alguns grosseiros e outros de admiração. Nenhuma das duas reações a perturbava, já que na opinião dela os brasileiros se transformavam em caubóis selvagens quando ao volante. No país que viria a fornecer ao mundo da Fórmula Um campeões como Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna, ela resolveu tomar para si a missão de ensinar aos motoristas, via exemplo, como respeitar os limites de velocidade. O carro dela sempre acabava atravancando o trânsito na faixa da esquerda. Isso fazia com que recebesse um sem-número de gritos e de palavrões dos motoristas obrigados a fazer a ultrapassagem pela direita. Anos mais tarde, ela também tentaria deixar claro aos surfistas de Ipanema que o mar era de todos, nadando com a sua toquinha florida entre os cabeludos sarados e suas pranchas.

Porém, apesar da satisfação em vender como jóias colares de contas aos nativos, nem sempre a história colava​. Sem contar que havia gente que de fato pertencia àquele mundo no Rio de Janeiro, para início de conversa, a Inglaterra que provocava suspiros em admiradores incautos era agora um lugar em transformação. Após duas pesadas guerras mundiais, as tradicionais divisões de classe estavam virando uma coisa do passado. Conforme o país foi se reconstruindo, os privilégios antes reservados para a aristocracia – agora falida – foram ficando acessíveis à uma classe média emergente. A nova dinâmica criou dois campos: os que queriam enterrar o passado e construir um Reino Unido onde todos tivessem oportunidades iguais e os que queriam tomar o lugar da aristocracia declinante e desfrutar os privilégios que seus pais nunca tiveram. Renée pertencia ao segundo grupo. A rainha Elizabeth foi mais sutil e resolveu popularizar a monarquia como estratégia de sobrevivência.

As duas maiores barrerias que encontrou para sua forçação de barra eram dois: a substituição do Reino Unido pelos Estados Unidos no topo do mundo ocidental e o aparecimento da cultura jovem nesses dois países. Para manter seu sonho vivo, ela rejeitava toda e qualquer novidade que contradizesse sua narrativa de rainha modernizadora dos trópicos. Que nem a madrasta da Branca de Neve, sua vaidade parecia perguntar ao espelho “Espelho, espelho meu, existe alguém ou algo mais avançado do que eu?” Se tivesse, bloqueava na hora. Isso atingia as raias da incomprensibilidade. Sob sua guarda não havia televisão, pouquíssimo cinema e nada de música popular, fosse ela brasileira ou internacional, incluindo o jazz, a bossa nova e o rock’n’roll. A única expressão cultural válida era o teatro – o de Londres é claro – e a música clássica. Para ela, a arte contemporânea era um lixo; a pintura tinha morrido com o expressionismo e em literatura, mesmo o hiper-religioso Tolkien, autor do Senhor dos Anéis, era visto com suspeição.

Sua fobia à novidades era tanta que, por alguma razão, ela também barrou de sua vida tudo o que não lhe tinha sido familiar na Inglaterra: doçes, refrigerantes, hambúrgers, milk-shakes e pastéis. Em contrário de todos à sua volta, ela insistia em uma dieta saudável e insossa, parte de uma noção, de fato à frente do seu tempo, de que a alimentação era fundamental para a saúde.

*

Nascido em 1900 num vilarejo na província austro-húngara da Galiza, na Polônia, Rafael, seu comparsa – e agora provedor – nas aventuras de validação social, não podia ser mais diferente. Os austro-húngaros, vistos como os senhores daquele mundo, menosprezavam os poloneses, que por sua vez desprezavam, a ponto de odiar, os judeus. Por sua vez, os judeus mais assimilados e vivendo em capitais Europeias viam os do leste europeu, como a família dele, como atrasados e presos a superstições religiosas das quais tinha se livrado ao sair dos ghettos. Para piorar as coisas, os mesmos judeus do leste europeu consideravam os galitzers como camponeses que não tinham saído da idade média. Assim sendo, embora a Galiza fosse a região da Polônia mais tolerante em relação aos seus estrangeiros: muçulmanos balcânicos, judeus, turcos e russos, ele cresceu como um caipira entre os caipiras. A ida para a Alemanha tinha sido a maneira que encontrou para escapar daquele determinismo sufocante.

Apesar de ter recebido uma rica educação rabínica, Rafael nunca frequentou uma escola secular quanto menos uma universidade. Contudo era inteligentíssimo e compensava essa lacuna trabalhando duro com diligência e criatividade. Com esses atributos alcançou cedo sucesso no mundo dos negócios, tanto na Alemanha pré-nazista quanto mais tarde na Holanda. No entanto, foi em Londres, em meados da sua quarta década, que seu destino deu uma guinada inimaginável. O casamento com uma beldade de uma abastada família de Golders Green e o brinde de um imóvel pago pelo sogro numa área respeitável de uma metrópole mundial foi o equivalente a ganhar na loteria.

Esse legado fez com que na vida doméstica, tal como Sancho Panza, ele obedecesse a todas as regras que a esposa impunha, mesmo se não fizessem sentido algum. Maduro e conhecedor dos recantos mais sombrios da vida, ciente das diferenças gritantes entre os dois, Rafael soube fazer com que ela se sentisse idolatrada e que seu personagem permanecesse vivo. Com isso, conseguiu manter sólido um relacionamento improvável num lugar mais improvável ainda.

A vida confortável no Brasil virou uma tentativa de se reinventar. Em um lugar tão diferente quem sabe ele pudesse encontrar uma recalibragem interna ou a fonte da eterna juventude. Contudo, a melancolia nunca o deixou. Apesar de se sentir bem com a relativa inocência e alegria a sua volta, o contraste com sua dissimulada solidão e com o fim brutal de seu mundo era doloroso demais. O último elo que manteve com algo que se pudesse chamar de lar, foram seus negócios com a Alemanha Oriental, uma república satélite dos soviéticos nascida do país que havia lhe trazido tanto sofrimento.

Na intimidade, seus pensamentos, suas atitudes e seu compasso emocional viviam perdidos numa dimensão diferente que às vezes deixava escapar em histórias da sua infância como a de quando, na escola rabínica, colou a barba do seu professor na mesa enquanto este dormia. Também se orgulhava de ter conseguido enganar um policial polonês a procura de bebidas ilegais na casa do seu avô quando criança, despistando uma porta escondida no celeiro. Esse avô, rico e assimilado com quem todos na aldeia vinham se aconselhar, foi mais marcante do que seu próprio pai de quem nunca falava. Rafael era o repositório de uma coleção de piadas, palavras, ditados populares e ensinamentos religiosos de um mundo que agora somente existia em suas memórias, na sua língua nativa, o iídiche, e em raras fotografias.

voltar

seguir

Samba Perdido Capítulo 1-2

Eram 5:30 da manhã em meados de Novembro de 1955, trinta e cinco horas depois de decolar de Londres, parar por três horas em Lisboa, fazer o mesmo por quatro horas em Dakar, Senegal, atravessar o oceano Atlântico e ficar mais três horas no Recife, o voo da BOAC, BA0249, estava finalmente se aproximando do Rio de Janeiro.

O sol ameaçava se insinuar no céu estrelado quando um sinal aveludado nos alto-falantes acordou os passageiros. Em seguida, uma voz feminina, primeiro em inglês e depois em português, desejou a todos um bom dia e anunciou que estavam a uma hora da destinação.

As aeromoças acenderam as luzes e passaram a servir um generoso café da manhã. Para os ingleses, ovos estrelados com bacon, torrada, marmelada e chá, para os brasileiros, ovos mexidos, pão francês, queijo fresco, goiabada e café forte. Junto com a comida distribuiram formulários de imigração e da alfândega para quem precisasse.

Terminada a última refeição a bordo, loucos para descansar numa cama de verdade, os passageiros passaram a organizar a sua chegada. Do lado de fora, a claridade já revelava o mar no horizonte. Embaixo, as primeiras luzes estavam se acendendo na descida da serra para a Baixada Fluminense. Enquanto os primeiros carros e caminhões se aventuranvam na madrugada vazia a tripulação percorria o corredor recolhendo as bandejas.

Rafael e Renée estavam preenchendo os formulários. O casal chamava atenção por sua discreta bizarrice. Ele era baixo, olhos azuis espertos e frios, cinquenta e poucos anos, um tanto antipático e com um pesado sotaque do leste europeu. Em contraste, ela era uma londrina com sotaque chique, alta e exuberante, de cabelos curtos e castanhos e muito mais jovem que o marido.

Não demorou muito para a voz feminina retornar aos alto-falantes pedindo a todos que apagassem seus cigarros e apertassem os cintos de segurança. Do lado de fora a vista se tornou magnífica. O dia estava raiando sobre o Rio de Janeiro. O sol dourava o Cristo Redentor junto com a vegetação e as pedras gigantescas da Floresta da Tijuca em torno dele. As águas da Baia de Guanabara e as ilhas no mar aberto ja se misturavam da maresia. Aquele espetáculo foi bem-vindo após praticamente dois dias chacoalhando numa aeronave apertada ouvindo o ronco incessante das hélices. Rafael deu uma olhada no relógio, 6:15 da manhã, 45 minutos mais cedo do que o esperado.

O avião deu sua sacudida final quando tocou o solo em alta velocidade. Assim que se tornou controlável, os passageiros aplaudiram o piloto que passou a guiar a aeronave lentamente rumo ao terminal. Quando parou, a tripulação apagou os sinais de apertar os cintos e de parar de fumar e abriu a porta deixando ar fresco da madrugada entrar para ventilar a cabine claustrofóbica.

Com seus pertences prontos, Renée e Rafael se puseram na fila de saída. Na porta, depois de trocarem sorrisos cansados com a aeromoças, uma brisa tropical acariciou suas peles lhes dando boas-vindas. Com sua nova cidade à frente, desceram a precária escada e se dirigiram ao terminal com os outros passageiros.

A bruma espessa e seu calor húmido tiveram o efeito de evaporar o torpor da viagem na Renée. Eufórica com o início de sua aventura carioca, estava parecendo uma criança numa loja de doces tentando puxar conversas com o marido exausto e monosilabico.

“Deveríamos achar um apartamento perto da praia, não acha? A revista disse que perto da floresta há risco de malária.”

Entraram na fila fila da imigração e ela não parava. “Eu quero ir para praia ainda hoje. Copacabana deve estar explendida!”

Quando chegou sua vez, o policial acenou. Depois de mostrarem seus passaportes e de entregarem os formulários, receberam os carimbos requeridos. Dali em diante, estavam liberados para viver no Brasil.

Ao sair para o saguão de desembarque, talvez por estarem vindo para ficar desta vez, sentiram o desconforto de serem completos estrangeiros. Com exceção dos outros passageiros europeus, ninguém ali falava inglês ou qualquer outra língua que lhes fosse familiar. Além de have mais “não-brancos” do que estavam acostumados, a emoção e os abraços com que os locais recebiam seus familiares e amigos, realçava sensação de alienação. No fundo de suas mentes uma pergunta gritava em silênico: “Será que tomamos a decisão certa?”

*

No saguão do aeroporto carregadores uniformizados e educados apareceram se oferecendo para levar suas malas até a fila de táxis do lado de fora. Depois de se certificar que as bagagens estavam devidamente organizadas no porta-malas e de dispensar o seu primeiro dinheiro local na gorjeta, entraram no carro.

“Por favor”, disse Rafael antes de ler o papel com o endereço do hotel e ponunciá-lo em um português quebrado que duvidou que o motorista fosse entender. Ele finalizou o desconforto com um desajeitado  “Obrigado”.

O motorista disse OK, mas pediu através de sinais para ver o pedaço de papel. Depois de dar uma lida, abriu um sorriso amigo e disse, “Hotel Miramar, Copacabana, yes mishterr!”

Assim que partiram, a estranheza que sentiram no aeroporto sumiu. O sol já estava a pino e fazia calor. Animados, colocaram seus óculos escuros e passaram a apreciar o cenário. Logo pegaram a Avenida Brasil, que estava apinhada de carros de fabricação americana, caminhões e ônibus de qualidade duvidosa, todos indo rumo ao centro da cidade. De repente, sentiram o mau cheiro vindo da favela beirando a estrada​. O fedor forte passou quando chegaram na zona portuária. Apesar de mais primitiva que a de Londres, era charmosa com sua série interminável de armazéns coloridos com chaminés e mastros de navios aparecendo logo atrás.

Do porto, o motorista, agora concentrado num programa no rádio, seguiu para o Centro. Lá atravessaram sua mistura contrastante de igrejas coloniais, prédios públicos de estilo modernista e construções vistosas da Belle Époque. Ao fim da avenida elegante e arborizada, chegaram na Baía de Guanabara onde deram de cara com o Pão de Açúcar. Dali o motorista, ousado demais para seus gostos, continuou a viagem apressada beirando a baía. Lá passaram pelos bairros do Flamengo e de Botafogo antes de finalmente atravessar dois túneis e chegar em Copacabana. Fizeram aquela curta viajem com as​ janelas abertas​, sentindo o vento no rosto, absortos pela beleza da cidade e relevando o programa de rádio incompreensivel e as barbeiragens do motorista.

*

A primeira coisa que fizeram depois que a bagagem chegou no quarto e que fecharam a porta, foi ligar para o Paulo. Ele havia dado a desculpa de que naquele dia tinha assuntos importantes a resolver e por isso não tinha dao para ir de madrugada recebê-los no aeroporto. Após uma conversa animada e piadas sobre o voo interminável marcaram de se encontrar no dia seguinte.

Paulo era um sujeito curioso. Além da sua personalidade fácil e de seu endereço exótico, possuía outra peculiaridade: era comunista. Esse tinha motivo original do seu exílio da Alemanha já nos meados dos trinta. Havia perigo de morte. Nunca soube dos detalhes dessa ameaça nem se continuou sua militância no Brasil, mas se tivesse, isso não teria sido pouca coisa no auge da ditadura de Vargas quando chegou.

Nos trópicos, a amizade entre os dois veteranos da loucura europeia floresceu. Apesar de antifascista, Rafael estava longe de ser de esquerda. De qualquer forma, os longos papos em iídiche trouxeram de volta as discussões políticas, tema central na vida judaica no leste europeu.

Durante uma dessas conversas, Paulo gabou-se de seu relógio produzido na comunista Alemanha Oriental ou RDA. “Está vendo este relógio aqui? Ele foi produzido livre da exploração capitalista. Pode ver! Ele funciona tão bem quanto qualquer relógio feito na América!”

Embora o relógio não fosse lá essas coisas, ao analisá-lo meu pai teve um “momento eureca”. Ele percebeu que tinha em mãos uma excelente oportunidade de negócios. Na cabeça dos brasileiros, alemão era sinônimo de confiável e, fabricados em um país comunista, seus preços seriam muito competitivos. A recém-criada classe média baixa brasileira iria, certamente, consumi-los como água.

Anos antes do golpe de 1964, com a ajuda dos contatos partidários do Paulo, Rafael atravessou o muro de Berlim, e foi se encontrar com o comissariado encarregado da fábrica de relógios. Com eles conseguiu um contrato para ser o representante exclusivo para o Brasil.

À primeira vista poderia parecer estranho que alguém com o seu passado fosse ganhar a vida vendendo produtos alemães e, pior ainda, comunistas. Seja como for, o rigor e a praticidade teutônica lhes eram reconfortantes. Adotando essa mesma objetividade fria, foi em frente sem deixar que sentimentalismos e ideologias interferissem nas suas decisões. Nisso, ele era igual à maioria de seus amigos judeus. Apesar de tudo o que eles e seus entes próximos haviam enfrentado durante a guerra, ainda guardavam respeito pelo pragmatismo e pela eficiência germânica. A subserviência ainda estava viva e, como a maioria dos sobreviventes europeus orientais, continuavam a ver a Alemanha como a liderança nata e incorruptível do seu mundo.


voltar 

seguir