por Mauro Nadvorny | 17 out, 2020 | Comportamento, Mundo, Opinião
As Fake News já se tornaram uma indústria. Podem ser encomendadas de acordo com a necessidade do cliente. Em breve vamos ter aplicativos que por um valor mensal, o cliente ganha o direito de utilizá-lo criando suas próprias notícias. Provavelmente até templates vão estar disponíveis, o que numa situação curiosa, será possível receber a mesma notícia falsa de campos ideológicos diferentes e em vários idiomas.
Esta semana, o presidente americano retuitou uma mensagem onde informava que o Bin Laden, morto em maio de 2011, era um dublê e que naquela ação, Obama e Biden teriam escondido a morte de 6 Seals, uma tropa de elite da marinha estadunidense que de fato matou o verdadeiro Bin Laden sem nenhuma baixa.
A notícia é tão bizarra, que até mesmo os canais de mídia favoráveis a Trump se arrepiaram. O presidente, confrontado, disse que apenas retuitou e que cabe as pessoas decidirem se acreditam, ou não.
O papel aceita qualquer coisa, quem nunca escutou isto? Todo dia milhares de currículos são manipulados para terem mais peso. Quem faz isso cria uma informação falsa para maquiar sua vida pregressa. O fazem desde o mais simples dos cidadãos, passando por profissionais renomados chegando a nomeados para assumirem uma cadeira no STF. Seria o caso de as pessoas decidirem se acreditam ou não?
As teorias conspiratórias sempre existiram, não são nenhuma novidade, a Internet deu a elas a visibilidade que antes era restrita a poucos idiotas. Agora todos tem acesso a todo tipo de conspiração secreta, e quanto mais secreta, ou seja, não ser divulgada pela mídia tradicional, mais verdadeira ela se torna. Assim, o homem nunca pisou na Lua, a Terra é Plana, os Judeus dominam o mundo, Soros é dono do Partido Democrata Americano, os Maçons estão por trás de grandes eventos, os Templários existem até hoje e por aí vai.
Eu sou da época em que os primeiros computadores eram do tamanho de um elefante. Lembro da IBM, um símbolo da indústria de computadores que não acreditavam em computadores caseiros. Ken Olson que presidia a Digital Equipment Corp em 1977 dizia então “Não há nenhuma razão para alguém querer um computador em casa”. Ainda bem que alguns jovens usando a garagem de suas casas pensaram diferente.
Com a chegada dos computadores alguém teve a ideia de interligá-los e nascia a Internet. Agora era possível interagir com outras pessoas e receber de graça o que antes era pago: a informação. Quem desejava se manter informado precisava ler os jornais, agora não mais, a informação chegava em tempo real. O que antes era somente possível pela TV ou pelo rádio, agora se tornava livre.
Junto com os computadores, chegaram os vírus de computador. É impressionante, mas a popularização da computação trouxe consigo uma nova maneira de prejudicar as pessoas. Os vírus de então simplesmente se multiplicavam ocupando todo o HD, acabando por travar a máquina. Era preciso chamar um técnico para “desinfetar” e ter de volta o espaço perdido. As pragas de então se proliferavam através de disquetes infectados que passavam de máquina para máquina. Logo surgiram os antivírus profissionais para ajudar a combater este mal, que se antes eram apenas uma diversão de alguns nerds, se tornou hoje uma indústria de extorsão. As Fake News de hoje são a nova praga da vez.
Tudo vem com preço. A informação, mais do que nunca, se tornou manipulável de acordo com os interesses de quem as divulga. E não se trata de perspectiva, quando um mesmo fato pode ser explicado de maneiras diferentes de acordo com a perspectiva de cada um. Se trata de intencionalmente distorcer, ou mesmo criar do zero, informações que vão se tornar notícias e viralizarem nas redes sociais. Usando inicialmente robôs, logo a seguir os idiotas de sempre, vão se propagando.
E elas são disseminadas até mesmo por presidentes de países como o Brasil e os EUA. Se um presidente está divulgando, deve ser verdade, afinal de contas um presidente é uma pessoa de conduta exemplar. E eles fazem isso quase que de maneira articulada. Desta maneira podemos a mesma notícia falsa de que a “oposição de esquerda” é composta de pedófilos, aqui, nos EUA, em Israel, na Hungria, na Polônia etc. É a universalização criminosa das Fake News vinda do mais alto escalão de cada país.
O custo desta nova indústria é coberto por figuras ligadas a extrema direita. Eles possuem bilhões de dólares a sua disposição e fazem uso deste capital com propósitos muito claros. Difamar, demonizar a esquerda e abrir caminho para os neoliberais se acomodarem, tomarem de assalto as grandes empresas nacionais pagando muito menos do que valem. Assim eles vão se “adonando” do petróleo, da energia, das aposentadorias, da saúde, da educação e da água. O que antes era patrimônio do povo, agora é patrimônio de poucos.
A verdade é que o Covid-19 é uma criação deliberada dos neoliberais para estancarem as economias mundiais reduzindo o valor das empresas governamentais. Com a economia arrasada elas vão sendo adquiridas por valores irrisórios. Eles pagaram milhões de dólares para um laboratório chinês criar o vírus. De quebra, vão ganhar bilhões com a venda das vacinas.
Atenção: este parágrafo acima é uma Notícia Falsa! Mas é assim que eles as criam. Uma boa notícia falsa é composta de um fato verdadeiro, de uma meia verdade e da mensagem mentirosa que se deseja passar.
O Covid-19 está tirando vidas, mas os neoliberais com suas Fake News estão matando o futuro. A vacina é o voto na esquerda!
por Mauro Nadvorny | 12 out, 2020 | Comportamento, Mundo, Opinião, Política
O que poderia salvar Donald Trump do desastre eleitoral anunciado? Os analistas dos grandes jornais do mundo e universitários “experts” em política norte-americana tentam, nesta reta final, identificar um acontecimento extraordinário capaz de inclinar a balança a favor do presidente. Em vão. A diferença apontada nas mais recentes pesquisas, 12%, é tal que só mesmo algo inimaginável poderia tirar a vitória de Joe Biden no próximo dia 3.
A situação seria diferente de 4 anos atrás, já que Trump é dado como perdedor no cômputo geral, mas também nos decisivos swing states. Numa eleição “normal”, diríamos que a sorte está lançada e que os democratas voltarão ao poder após os anos mais estranhos da história recente dos Estados Unidos, em que a democracia foi colocada em cheque como nunca e só não soçobrou graças à força das instituições e dos contra-poderes representados pela sociedade civil. Acontece que esta não é uma eleição “normal”.
Estamos diante de um fenômeno com uma carga passional quase patológica. Por isso, um pouco de prudência não faria mal a ninguém. Há 4 anos, sempre é bom lembrar, os analistas diziam que Hillary estava eleita. De qualquer forma, repito, esta não é uma eleição normal.
Como escreve Thomas B. Esdall no New York Times, “Em ambos os campos, muitos encaram estas eleições em termos apocalípticos: elas decidirão do sucesso ou do fracasso dos Estados Unidos. Para a extrema-esquerda, uma vitória de Trump abriria caminho a uma ascensão do fascismo. Para extrema-direita, a vitória de Biden e Kamala Harris significaria a “ascensão do comunismo e a anarquia.”
Na visão do historiador português José Pacheco Pereira, a fratura eleitoral mais aguda nos EUA nessas eleições de 2020 é a que separa os eleitores brancos sem escolaridade de todos os outros. Para os “deploráveis”, há aqui duas perdas: ser branco e já não ter os privilégios de o ser, face aos negros, aos latinos e a todos os “não americanos”; e ser trabalhador manual, não ter um diploma e por isso ser marginal na sociedade, estar fora da elite.
Eles, os brancos sem diploma e raiva de todos os demais, que formam o fiel eleitorado de Trump, são capazes de segui-lo cegamente na pior das aventuras.
Face ao cenário atual, o ocupante da Casa Branca se nega a descartar a opção do péssimo, a tentação de lançar o país no caos. Não é impossível que na madrugada do dia 4 tenhamos dois candidatos anunciando a vitória. Até agora Donald Trump agiu como um piromaníaco, recusando-se, ao contrário do seu adversário, a dizer se acatará o resultado das urnas e denunciando uma tentativa democrata de preparar uma enorme fraude eleitoral, através do voto por correspondência. Se perder, não garante uma transição pacífica.
Nesse tempo de pandemia, grande número de americanos prefere votar por correspondência, evitando assim a ida aos colégios eleitorais. A maioria destes, atualmente em quarentena, vota Biden. Por isso, ele imputa ao voto por correspondência a tentativa de fraude.
Uma abstenção recorde seria a derradeira esperança de Trump.
Não se deve descartar uma derradeira jogada de Trump, pois dele pode se esperar tudo, a começar pelo menos recomendável. Em caso de vitória democrata por pequena margem, ele poderá se autoproclamar vencedor, desacreditando a legitimidade da vitória de Biden, do processo eleitoral e da própria democracia americana.
“Se o vencedor não for imediatamente claro, o país mergulhará em semanas ou meses de incerteza”, prevê a revista Time, ao advertir: “Devemos estar preparados para um cenário de caos”.
O jornalista Barton Gellman escreveu um ensaio, publicado no jornal The Atlantic, em que faz previsões apocalípticas: “The election that could break América” – A eleição que pode fraturar a América, em tradução livre.
Donald Trump sabia que para recuperar terreno precisaria evitar que o final da campanha ficasse centrado na pandemia; assim, ficaria de mãos livres para atacar seu adversário no terreno escorregadio das fake news. Mas foi o inverso que aconteceu. Após 215 mil mortos, ficou difícil negar sua responsabilidade na condução da guerra contra o coronavírus. Trump, é claro, não a reconheceu e, assim como seu grande amigo Bolsonaro, tentou jogar o fardo dos mortos sobre os ombros dos governadores. Mas a maioria dos americanos não engoliu a insistente minimização do risco.
Infectado, o candidato à reeleição não pode escapar do assunto e, como quase sempre quando pressionado, cometeu várias gafes monumentais ao encorajar a população: “Não tenham medo da covid.”
Como se o vírus pudesse ser combatido e derrotado pela simples determinação do doente, pela força da vontade. Quis vender a imagem de um herói invencível, passou a impressão de um sujeito desesperado e risível. Ficou refém da pandemia.
A imagem que deixou foi tragicômica. Falando para a sua “base”, Trump subiu à varanda da Casa Branca, num ato político retirou a máscara diante dos apoiadores e imitou a pose de Benito Mussolini com cara de imperador romano e ar de mau. Insensato, prometeu fornecer de graça aos velhos seu remédio milagroso. E para concluir, recusou-se a participar de um segundo debate online: “Não sou contagioso”; disse o charlatão, dando-se ares de especialista em corona.
Foi patético.
por Mauro Nadvorny | 4 out, 2020 | Comportamento, Direitos Humanos, Mundo
Insatisfeitos com o tamanho dos estragos feitos nos Estados Unidos e Brasil, os movimentos evangélicos pentecostais querem mais, exportar seu projeto de poder para o outro lado do Atlântico. Atacam-se à política portuguesa, apoiam e até financiam o partido de extrema-direita Chega, liderado pelo ex-comentarista esportivo André Ventura, que embora não se chame Messias como Bolsonaro considera-se o salvador da pátria lusa. Seu ego é desmedido. Já confessou que não ficaria descontente em ser chamado de mito.
Ficou claro, desde a fundação do partido, em 9 de abril de 2019, que várias igrejas militavam a favor de Ventura, tendo inclusive participado ativamente da campanha eleitoral que o levou ao Parlamento. O que se desconhecia até agora era a imbricação entre o seu projeto político e o financiamento do Chega pelas seitas evangélicas pentecostais, revelado pelo jornalista Miguel Carvalho, na revista Visão.
O artigo mostrou que o pastor reformado de Loures, Constantino Ferreira, encaminhou para o Chega os dados de mais de 4 mil contatos recebidos no seu site religioso, para engrossar as fileiras do partido neofascista. Constantino confessou, sem pudor, que se calcou no trabalho feito pelas igrejas do outro lado do Atlântico, onde os apoios de evangélicos a Bolsonaro foram fundamentais para conquistar a presidência do Brasil.
A reportagem cita Damares Silva, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do governo de Jair Bolsonaro e pastora evangélica: “É o momento da igreja ocupar a nação”.
As igrejas, algumas das quais consideradas seitas em Portugal, seguem também o exemplo dos EUA, onde foi lançado, no início de janeiro, o movimento “Evangélicos por Trump”, uma reafirmação do apoio de grupos evangélicos radicais ao atual presidente. A agenda extremista de Trump, similar à de Bolsonaro na resposta à pandemia, é aplaudida entusiasticamente por André Ventura. Vários analistas reconhecem que esse projeto de poder seria impossível sem o apoio dos grupos evangélicos extremados.
O sonho de conquista de poder em Portugal pelos evangélicos neopentecostais existe há muito. A primeira tentativa data de 1995, com o defunto Partido da Gente, criação da Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo. Seu símbolo, além da letra “G” em fundo azul, tinha uma sugestiva vassoura vermelha. Essa experiência fracassou com um resultado eleitoral minguado, apenas 0,14% dos votos, mas as intenções não desapareceram, apenas esperaram melhor oportunidade. Esse momento parece ter surgido com a entrada em cena de André Ventura.
Os evangélicos eram 0,3% da população portuguesa (10 milhões de habitantes) em 2012, 4% em 2017, ano da publicação do último estudo do gênero pelo Pew Researsh Center. Fala-se que em 2020 pode estar beirando os 10%.
Dentre os pastores, muitos vêm do Brasil. No início deste ano, as autoridades migratórias de Portugal prenderam três pastores evangélicos brasileiros por tráfico humano e auxílio à imigração ilegal.
O trio, dois homens e uma mulher, usava a estrutura da igreja para convencer brasileiros a se mudarem para Portugal com promessas de trabalho e de auxílio à regularização, que acabava não acontecendo.
Uma vez em território português, os imigrantes passavam a morar —mediante pagamento de aluguel de 300 euros (cerca de R$ 1.800) – em um alojamento anexo ao templo, localizado na região de Amadora, na Grande Lisboa, em condições precaríssimas. Além de pagarem para viver no espaço exíguo, caindo aos pedaços, amontoados uns sobre os outros, os brasileiros (incluindo crianças) também eram obrigados a contribuir com o dízimo.
De acordo com o Observatório de Tráfico de Seres Humanos, Portugal teve sinalizadas 168 vítimas deste crime em 2018, incluindo 29 menores de idade.
O professor de Sociologia da Religião da Universidade da Beira Interior, Donizete Rodrigues, relatou a Miguel Carvalho o resultado das suas pesquisas e as conclusões só surpreenderam quem não conhece o modus operandi dos evangélicos no Brasil e Estados Unidos: “É público que líderes e membros das igrejas [neopentecostais] financiam atividades partidárias” e, “como era de se esperar, o Chega faz parte desse esquema”. O mesmo pesquisador concluiu ainda que “muitos líderes e pastores evangélicos dirigem, nos cultos, grandes elogios ao partido fascista e ao seu líder. Na verdade, fazem campanha política aberta, o que ficou evidente na última eleição.”
Comenta-se que uma parte do dinheiro arrecadado nas missas das igrejas pentecostais engorda o caixa 2 do Chega.
Às vésperas da eleição presidencial do início de 2021, com André Ventura em 3° lugar nas pesquisas, próximo dos 10% das intenções de voto, os jornais questionam se é realmente possível que o Chega seja financiado pelo movimento evangélico neopentecostal. Se isso acontece, lê-se no indignado Público, de Lisboa, o fato é gravíssimo, além de ilegal, pois a Constituição portuguesa impõe a separação entre a Igreja e o Estado e estabelece que Portugal é um país laico. André Ventura lava as mãos como Pilatos quando confrontado com essa possibilidade. “Pelas minhas mãos ou que eu conheça, não entrou dinheiro nas contas bancárias do Chega de forma abusiva”, diz o deputado, mas a palavra de Ventura vale tanto quanto a de Jair Bolsonaro ou Donald Trump. Ele havia prometido cumprir o mandato legislativo em exclusividade e acumula vários cargos no setor privado, garantia ser contra as subvenções vitalícias e depois trouxe Sousa Lara para o seu lado, o mesmo político que nunca abdicou do direito à subvenção vitalícia estatal.
A extrema-direita no mundo tem mostrado que não distingue a política dos negócios, não seria de estranhar portanto que seria diferente com André Ventura e o Chega. Os financiamentos de partidos “amigos” ou de movimentos internacionais da alt-right são recorrentes. Há meses eclodiu o escândalo dos pagamentos da Rússia e dos seus oligarcas para a extrema-direita francesa, austríaca e italiana.
Aliás, para André Ventura, a própria política é um negócio, como explica um dos dirigentes do Chega, ao reconhecer que muitas assinaturas para a legalização do partido foram colhidas por estudantes, que receberam um euro por cada uma, em dinheiro vivo.
por Mauro Nadvorny | 3 out, 2020 | Comportamento, Israel, Mundo
Então a gente acorda com a notícia de que Trump e Melania estão com Corona. Logo vem o pensamento de bem feito babaca, te f*d*. Aquela satisfação de que o universo finalmente está fazendo justiça.
Uma grande ironia é que o nome da assessora que passou o vírus para eles é Hope Hicks. Hope em Inglês significa esperança. Neste caso, a nossa.
Explico que pouco antes assisti aos melhores momentos do debate entre ele e Biden. Acho que deveriam usar nas escolar para ensinar sobre bullyng, bons modos, respeito, ética etc. Ali estava o cara que faz do nosso mundo um lugar pior de se viver, que ocupa o cargo de presidente dos Estados Unidos, no que se poderia afirmar, sem errar e concordando com o Biden, de que é o pior presidente da história deles.
Sim, os americanos pensam sempre em si mesmos e como explorar o mundo em seu benefício próprio, esta é a regra geral. Acho que nenhum presidente americano foi perfeito, e não importa se democrata ou republicano. No entanto, alguns deles fizeram coisas das quais podem se orgulhar. Algumas em benefício dos americanos, outras em benefício da humanidade. Todos se comportaram como exige a dignidade do cargo, e os que desafiaram esta premissa foram removidos dele.
Este imbecil e seu filhotinho Bolsonaro (copiei o Biden que chamou o Trump de filhotinho do Putin), estiveram sempre sendo condescendentes com o Covid-19. Descumprem as regras básicas de proteção de si mesmos e dos que estão a sua volta de maneira corriqueira. Pior, desdenham o uso da máscara como sendo algo de gente fraca, de pessoas medrosas. Trump, em especial, está fazendo campanha para presidente chamando seus apoiadores para participarem de seus comícios sem exigir o uso de máscaras e distanciamento.
Num país que já passou dos 210 mil mortos pelo Covid-19, era uma questão de tempo e sorte ele ainda não ter se infectado. Mas o dia chegou e agora, por via das dúvidas, já está hospitalizado e segundo notícias da CNN, estaria com dificuldades para respirar. Independentemente desta informação vir a ser confirmada, eu espero que ele passe pelo quadro completo da “gripezinha”. Boris Johnson bem que avisou.
O ano está chegando ao fim. Nos aproximamos da chegada das primeiras vacinas e todos esperamos por dias melhores em 2021. Queremos deixar este pesadelo para trás e torcer para que ele nunca mais se repita.
Vão ser muitas lições deste período quando a humanidade como um todo enfrentou uma pandemia nos tempos modernos. Quem foram os solidários, quem foram os egoístas? Quem foram os que se contaminaram, quem não se contaminou? Quem foram os mortos, quem foram os sobreviventes? O que fizemos corretamente e onde erramos para termos ultrapassado o um milhão de mortos, podendo dobrar este número em breve?
São muitas as perguntas e ainda poucas respostas. Ninguém tem a receita perfeita, mas todos concordam que por mais doloroso que seja para a economia, ficar preferencialmente em casa, quando precisar sair usar máscara, manter distanciamento social e higiene, são o melhor remédio preventivo. O resto é perfumaria.
Eu estou vivendo o que seria o segundo Lockdown em Israel. Seria, porque muita gente está desrespeitando as normas sem se importar com os demais e com as multas, que devem dobrar de valor na semana que vem. Com uma média de 8 mil novos infectados ao dia, e com uma taxa de positivos em torno dos 13% dos testados, somos hoje o país na pior situação no mundo.
A população perdeu a credibilidade nos políticos em geral e no atual governo em especial. Por conta disso, estamos assistindo incrédulos aquela situação do cada um por si. As ruas estão cheias de gente com, e sem máscaras, e as estradas com congestionamentos, tudo em pleno Lockdown. Pessoas com teste positivo, assintomáticas, estão transitando de automóvel. A polícia não dá conta e uma tentativa de usar tropas do exército para ajudar não foi bem recebida.
Se não forem tomadas medidas draconianas, vamos ter 10, 12 mil infectados ao dia em breve. Os hospitais já estão abrindo novas alas para tratamento de doentes nos seus estacionamentos. O governo garantiu mais 1500 UTIs, mas o preocupante é que não vamos ter equipes médicas suficientes para atender estes doentes e os pacientes tradicionais.
Para qualquer lado que se olhe, o mundo de hoje não está fácil. Tratemos de sobreviver, de máscara!
por Mauro Nadvorny | 13 ago, 2020 | Comportamento, Mundo, Opinião
O impacto do discurso de Putin feito ao mundo anunciando o registro da vacina produzida em seu país contra o COVID-19 em grupos intelectuais da esquerda foi impressionante. Sempre tive em relação a Putin uma relação de respeito e temor. Respeito pois considero-o há pelo menos duas décadas o maior estrategista vivo neste recanto do Sistema Solar. Temor pois seu poder, inteligência e capacidade política têm efeitos hipnóticos sobre muitos de seus observadores, seguidores e admiradores.
Putin é um sujeito ambicioso que surfa na onda pós-soviética com uma prancha cheia dos charmes e da carga cultural do exército vermelho, da derrubada dos nazistas, da contraposição ao ocidente. Mas a Rússia de hoje é capitalista, tem um sistema de poder que cultiva um amor platônico com o fascismo, tem na sua estrutura política máfias que reduziriam Sérgio Moro ao nível molecular antes que conquistasse um mero rodapé de um jornaleco de bairro, e acima de tudo isso, a alma russa, apreciável em grande estilo na antológica cena de “Chernobyl” onde os operários da mina de carvão dão simpáticos tapinhas nos ombros do então ministro das minas soviético transformando seu vistoso terno de linho claro em uma bandeira de carbono. E para completar, no campo dos costumes, o governo Putin é uma vergonha.
Dito isto, quero deixar claro que tenho profunda admiração pela ciência russa, soviética e pós-soviética. Certamente há uma subvalorização das conquistas científicas daquele povo. Por exemplo, a tecnologia de invisibilidade de aviões americanos aos radares deriva de um físico russo. O foguete Próton-Soyuz que lançou Gagárin ao espaço está em operação até hoje e por décadas foi o método mais barato de se levar homens e equipamentos à órbita da Terra. Muito da cosmologia moderna deriva de contribuições russas à Relatividade Geral de Einstein. Na biotecnologia não é diferente. Dominam todas as tecnologias. São uma potência científica e cultural de primeira grandeza.
Assim, fica difícil acreditar que a atitude de Putin em anunciar algo que ainda não existe possa causar tanta comoção e comemoração por parte de pessoas que cultivam sentimentos anti-imperialistas, anticapitalistas, antiamericanas, quando o que ele faz e exatamente reproduzir o comportamento de alguém que está em uma mera competição por poder político e hegemonia científica. Por quê “não existe”? Porque uma vacina só existe quando foi minimamente testada em algumas milhares de pessoas, e para isso não basta dizer que “produziu imunidade persistente” porque anticorpos medidos 60 dias após o teste não permite dizer que a imunidade é persistente. E mais que isso, seu desempenho deve ser aprovado por autoridades de abrangência internacional. “Registrar” sua vacina na autoridade sanitária russa, que certamente sofre pressões políticas neste cenário, e anunciar isto ao mundo como conquista científica não passa de bazófia. Alguns argumentam que isto é preconceito contra “qualquer coisa que saia do establishment ocidental”. Não é. Pois nenhuma nação ou laboratório até o momento, mesmo os que estão em fases mais avançadas de testagem de vacinas de diferentes tipos, anunciaram ter o produto “vacina”. Não vemos Xi JinPing posando de herói da vacina, mas sim declarando que a vacina produzida lá será um bem público.
Uma das maiores críticas que a esquerda faz ao bolsonarismo é sobre a aversão à ciência desta corrente de “pensamento”. Da mesma forma, a esquerda demoniza a indústria farmacêutica acusando-a de desvios éticos de todas as naturezas, de projetos hegemônicos, de ocultação de dados, e outras indecências. Então, por quê estas mesmas pessoas rendem-se à idolatria em relação à Rússia e seu líder que anuncia a “primeira” vacina para a COVID-19, sendo que absolutamente nada de científico (em termos de números de testes, metodologias, etc) acompanhou este anúncio? Por quê esta súbita renúncia à argumentação racional que vem mostrando-se homogênea em relação a todos os potenciais produtores de uma vacina? Por quê esta confiança cega? Será só pelo fato de Putin catalisar em si mesmo a grande oposição ao ocidente e “equilíbrio de forças”, trazendo para si a carga moral das “forças do bem”, na avaliação de seus idólatras?
Torço pelo sucesso da vacina russa, da inglesa, da chinesa, da norteamericana, torço por todas. Mas não me sinto motivado a qualquer admiração especial por Putin ou a qualquer esperança adicional à sua vacina. Se ele quer o lugar de “pioneiro”, que apresente ao mundo um produto falando a linguagem do mundo, ou seja, com dados científicos. Alguém poderia questionar (e com certeza irá!) se os dados de outros fabricantes produzem dados confiáveis. Eu até poderia dizer que não há santos habitando a Terra. Mas a linguagem científica é um método sistemático de dificultação de fraudes e personalismos. E é para isso que a ciência existe, para impedir o monopólio do conhecimento e o dogma. Anunciar um feito sem dados é fraude, ainda que o anunciado venha a se confirmar à frente. Uma coisa é o fato, outra coisa é querer transformar em fato aquilo que ainda não é fato. Por isso, quando tomo algumas condutas com certos pacientes, explico: “o que estou fazendo resulta da minha experiência positiva nesta situação e não há estudo científico sobre esta situação, mas não estou fazendo nada que, diante do conhecimento prévio, represente risco.”
Seria mais honesto por parte de Putin dizer: “temos uma vacina muito promissora diante dos testes fase 1 já realizados em 76 pessoas, e vamos registrá-la em nossa autoridade sanitária e diante da emergência, vamos assumir riscos”. Se assim o fizesse, certamente seria também alvo de desconfianças. Mas seu ato foi meramente político, e parte de nossa esquerda abraçou o anúncio como uma vitória do anti-imperialismo ou como derrota de Trump, Bolsonaro e outros atores, políticos ou não.
Em outros termos, gente da esquerda não está percebendo o quanto estão sendo “bolsonarescos” ao comprar Putin do jeito que estão fazendo. Daí o meu temor em relação a Putin. Este grande jogador conseguiu bolsonarizar antibolsonaristas.
E como conclusão, e de modo reverencial, digo: a ciência russa não merecia isto.
por Mauro Nadvorny | 25 jul, 2020 | Mundo, Opinião
Ao que tudo indica, até termos uma vacina, nossas vidas vão continuar sendo o inferno do Covid-19. Um vírus que já tem seu nome inscrito na história humana. Um acontecimento que vai determinar muitas referências históricas, como antes de 2020, e depois de 2020.
Eu não passo um dia sequer sem desejar “meus sentimentos” a amigos nas redes sociais que perderam um parente próximo para o vírus. Junte-se a eles os que são anunciados pelas mídias e temos um quadro do tamanho da catástrofe que se abate sobre nós.
O Brasil vai passar a marca dos 100.000 mortos em breve. A falta de gerenciamento da crise pelo governo federal nos aproxima cada vez mais deste número. Infelizmente vamos ultrapassá-lo em muito. Sem diretrizes mínimas nacionais, o vírus vai tomando vidas. Já são quase 750.000 mortos no mundo.
Para os que ficam, as perspectivas de vida também não são nada promissoras. Salvo os ricos que vão ficando mais ricos, a maioria da população sofre os efeitos na economia. Negócios foram a falência, empregos foram perdidos. A economia sucumbe diante dos efeitos das quarentenas e do medo da população em sair de casa, mesmo de máscara.
Setores como o do turismo e da cultura enfrentam a maior crise de sua história. Com as fronteiras fechadas, o turismo se restringe a população interna, onde é permitido. Com as casas de espetáculos e cinemas fechados artistas e toda a estrutura ao seu redor mínguam.
Restaurantes e bares sofrem com as restrições e ordens de fechamento. Mesmo fechados precisam seguir pagando alugueis e impostos. Difícil resistir até poderem reabrir e ter de volta seus cliente. Boa parte estão encerrando suas atividades definitivamente.
Com as engrenagens da economia travadas, o dinheiro não circula. Desta maneira, profissionais liberais também são prejudicados. A população sem salário, vivendo de economias, algumas necessidades precisam ser adiadas. As reservas são finitas e nem todas as despesas podem ser cortadas. A inadimplência bate a porta de muitos lares.
As escolas e universidades particulares vão ter uma enorme evasão de alunos. Parte deles vão para as públicas e outra parte vai abandonar os estudos. O país vai sentir este efeito na próxima geração.
Prestadores de serviço, como as TVs a cabo, por exemplo já veem o número de clientes despencar em milhares. Uma despesa que já não se encaixa quando se entra no modo sobrevivência. Planos de saúde passam pelo mesmo problema. O SUS vai ser a boia salva-vidas.
O número de suicídios é outra consequência de toda esta situação. Um tabu do qual ninguém gosta de falar, e com códigos de ética respeitados pelas mídias, são números alarmantes que ficam a margem da toda esta tragédia.
As vacinas vão chegar em alguns meses. Não vão ser baratas. As grandes farmacêuticas estão investindo bilhões para chegarem antes ao mercado e vão querer obter lucros. A produção será incapaz de inocular todo mundo. Vai levar anos para se chegar neste patamar.
Quando estiverem disponíveis, quem vai bancar os custos? Os governos vão adquirir e vacinar a população? Quem terá direito? Quem serão os primeiros? Vai se poder comprar para furar a fila? Vamos ter mercado negro de vacinas? Afinal de contas, quanto vai custar uma dose e por quanto tempo ela será válida?
Alguns laboratórios já tem um bom caminho andado e já testam suas vacinas em seres humanos. Provavelmente até o final do ano, o mais tardar no início de 2021, as primeiras vacinas funcionais vão estar disponíveis. A pergunta final é: disponível para quem?
As vacinas vão nos permitir retomar nossas vidas. Mas será preciso destravar a economia, fazer as engrenagens rodarem novamente. Complicado de se fazer algum prognóstico neste sentido. Cada país se encontra em uma situação diferente e o Brasil já estava em uma crise econômica antes da pandemia.
O mundo já passou por problemas maiores do que este e sobrevivemos. As grande guerras são um exemplo disso. Temos capacidade de superação e será preciso muita paciência e perseverança para seguirmos em frente. Não tenho dúvida da nossa capacidade para isso.
Uma grande lição que fica é que nos países onde impera o neoliberalismo, onde se encontram os mais odiados representantes deste sistema perverso, a crise é muito maior. Tomara posam os povos, nestes países, incluindo o Brasil, se libertarem deles junto com o Covid-19.