Lottenberg não me representa

Lottenberg não me representa

Se existe um conjunto de valores que o judaísmo transporta em sua história que por ele é definida e definidora, são os valores éticos. A ética não trata de letra fria de lei. A ética trata de tudo aquilo que começa com “Quero? Posso? Devo?”, questionamentos internos permanentes e indeléveis a qualquer ser minimamente equipado de intelecto que queira pertencer a uma sociedade estável, justa, igualitária, e desejosa de progresso em todas as dimensões harmonicamente entremeadas.
Mais adiante, as questões “Onde? Quando? Como? Por que? Para quê” preenchem de substância moral nossos atos do dia-a-dia.
Pessoas que galgam posições de poder, supostamente são aparelhadas por este exercício constante de reflexão e autocrítica, dado que o poder que exercem, especialmente aquele conquistado de forma meritória e democrática, afeta a vida de seus representados e deixa marcas históricas que falarão pelos representados no futuro.
Claudio Lottenberg, presidente da Confederação Israelita Brasileira (CONIB) parece mesmo ter desistido da ética, esquecido suas origens (e compromissos implícitos derivados da história), quando, sob o subterfúgio de exercer um duvidoso dever cívico e de “abrir o espaço ao diálogo respeitoso com os diferentes” comparece voluntariamente a um convescote extraoficial com o presidente da República que hoje representa o renascimento do fascismo, da violência institucional e factual, da negação da ciência, o genocídio de seu próprio povo, a irresponsabilidade, a insensibilidade, a ignorância, em uma carreira precedida por 28 anos de puro obscurantismo nos quais propôs, entre outras coisas, que seria necessário à ditadura militar ter matado pelo menos 30.000 pessoas (nos quais se incluía o então presidente Fernando Henrique Cardoso) para “consertar o Brasil”, que era um sonegador contumaz por considerar tal atitude instrumento de defesa contra o estado, que “não estupraria a Deputada Maria do Rosário por que ela era feia e não merecia”, tendo defendido o armamentismo e tendo feito parte de um movimento que criminaliza as correntes políticas à esquerda. Em síntese, não se encontra, em 28 anos de mandato como deputado federal e em pouco mais de dois anos à frente da nação um único ato que se identifique com os valores judaicos – e ao contrário, Bolsonaro cristaliza em sua existência tudo aquilo que se opõe ao judaísmo em qualquer de suas dimensões. Ressalte-se ainda, que Bolsonaro pensa que o judaísmo é uma seita cristã, e apenas por esta ignorância, diz ter alguma afinidade com Israel e os judeus.
Quando Lottenberg comparece ao jantar informal imaginando que pode ser portador apenas de seus interesses pessoais e empresariais, mostra que não é instruído ou não compreende sobre algo que se chama de liturgia do cargo, valor ético que norteia o comportamento de pessoas investidas de cargo e/ou representatividade. Se ele é presidente da CONIB, como tal deve se comportar integralmente quando deixa o seu lar, até o momento de a ele retornar, onde a sua intimidade e desejos estão protegidas pelos nossos valores constitucionais. Mostra ainda que é absolutamente impermeável às lições da história, antiga e recente, com essa pseudoingenuidade de acreditar que Bolsonaro seja alguém apto a um diálogo minimamente racional. Ele não passa de uma versão burra de Hitler.
As posições de poder exigem responsabilidade e conhecimento, pois cada lugar, tempo e função faz parte de um complexo emaranhado de relações pessoais e institucionais, que ao desavisado, incompetente ou arrogante, expõe a condições de riscos e danos de extensão às vezes incalculável, podendo funcionar como estopim ou catalisador de processos às vezes explosivos.
Talvez em nenhum momento da história recente um conjunto de fatores tenha estado presente como naquela noite, em que se relembrava os horrores do Holocausto, em que o Brasil atingia o recorde de mortes (aproximadamente 4.200) em um só dia por uma epidemia que contou com esforços pela disseminação da doença por parte do homenageado da noite, em um momento onde as categorias da saúde encontram-se em estado de guerra e sob trauma grave e intenso Pois foi este o momento que o médico, empresário, judeu e representante da CONIB Claudio Lottenberg escolheu para encontrar e homenagear o líder da maior carnificina já produzida no Brasil, o líder da antimedicina e da anticiência, da antidemocracia, da anti-institucionalidade, um verdadeiro cão raivoso.
Sr. Claudio Lottenberg, o senhor não me representa, e espero que a CONIB tenha a mínima sensibilidade, junto às suas confederadas, de removê-lo do cargo, para que assim provar que há dignidade nesta instituição que já teve sim seus momentos de glória e orgulho para todos nós judeus.

Lottenberg não me representa

Existe algo de podre na Conib (Confederação Israelita Brasileira). Quando o seu presidente, no dia da lembrança dos mortos e heróis do holocausto, atende convite para jantar com Bolsonaro, o fedor é insuportável.

A mensagem que Claudio Lottenberg passou para a sociedade é diferente de seus pares. Enquanto cada um é mencionado como empresário dono deste, ou daquele negócio, Lottenberg foi relacionado por toda a mídia como presidente da Conib. Para bom entendedor, os judeus representados por ele, foram aclamar as presunções negacionistas do genocida com relação a pandemia e os futuros caminhos para o Brasil.

Como disse Napoleão Bonaparte, “Do sublime ao ridículo, é só um passo”. Lottenberg se achou digno de uma honra negada ao papagaio da Havan, mas para nós judeus ele foi mais um dos ridículos apoiadores de um presidente inepto que segue menosprezando a ciência e todos as recomendações da OMS para estancar a incrível média de mortes diárias no Brasil em consequência do Covid.

Os antissemitas de plantão já se alvoroçaram para apontar que os judeus não só elegeram Bolsonaro, como continuam dando a ele o apoio necessário para se manter no poder. Em suas ilações a prova de suas teorias conspiratórias fica estampada nas manchetes dos jornais com as palmas de Lottenberg ao seu anfitrião. A instituição nacional representativa dos judeus ovacionou Bolsonaro.

Somos muitos judeus contra Bolsonaro. Antes das eleições tentamos de todas as formas fazer tudo ao nosso alcance para impedir sua eleição. Com o grupo Judeus Contra Bolsonaro, estivemos presentes ao lado da sociedade que lutou contra aquele que vomitava ódio com suas mensagens racistas, homofóbicas e misóginas. Logo depois de consumada sua vitória, passamos a nos chamar Resistência Democrática Judaica e outros inúmeros grupos judaicos foram criados para resistirem ao nefasto. Não passa um dia sem que sigamos enviando nossas mensagens de repúdio a tudo que este governo fascista representa.

Os judeus não apoiaram Bolsonaro, o correto seria dizer que judeus apoiaram Bolsonaro, os Negros não apoiaram Bolsonaro, Negros apoiaram Bolsonaro, os LGBTs não apoiaram Bolsonaro, LGTBs apoiaram Bolsonaro, as Mulheres não apoiaram Bolsonaro, Mulheres apoiaram Bolsonaro.

O dia do jantar foi o mesmo dia em que nós judeus relembramos os mortos e os heróis do Holocausto. Em Israel, precisamente as 10:00 h da manhã, as sirenes que avisam ataques de mísseis tocam durante dois minutos. O país inteiro para literalmente. Nas ruas, nas casas, no comércio, nas estradas, nas rádios, nas TVs, todos permanecem de pé em silencio reverenciando este acontecimento marcante da nossa história. Nunca vamos esquecer.

Lottenberg tinha a seu dispor a desculpa pronta para não ir a este encontro. Optou por se fazer presente e junto com os demais, prestou seu apoio as sandices de um fascista. Sim, um judeu, presidente da Conib, menosprezou a memória de 6 milhões de judeus assassinados pelos nazistas, em troca de uma refeição grátis entre empresários que não ligam para os mais de 4000 brasileiros que morrem diariamente vítimas do desleixo do seu mito.

Eu como judeu, me sinto envergonhado e compelido a pedir desculpas para a sociedade brasileira pela presença do presidente da Conib neste famigerado jantar. Ele deixou de representar os judeus brasileiros quando adentrou naquela sala. Lottenberg esteve lá como líder da ala fascista da sociedade judaica, como representante de si mesmo e da falta de valores éticos e morais presentes naquele ambiente. Sua atitude não coaduna com o judaísmo, muito menos com nossa posição de resistência a tudo que este governo abjeto representa.

Imaginemos que estamos em 1939 e o país fosse a Alemanha. Fosse Lottenberg presidente da Conia (Confederação Israelita Alemã). O  Chefe de Estado tivesse chamado empresários e o presidente da Conia para um jantar. Pelo que dizem algumas lideranças judaicas ele deveria atender o convite, afinal os judeus não tinham acesso a ele.  O Chefe de Estado da Alemanha se chamava Adolf Hitler. Tem gente que nunca vai aprender com a história.

Que Lottenberg tenha a mínima decência de renunciar ao cargo de Presidente da Conib e pedir desculpas pela atitude ultrajante que cometeu.

Liberdade em tempos de Covid

Finalmente, depois de mais de um ano sob o Covid, vamos ter nossa primeira festa em família sendo comemorada aqui em Israel. Hoje começa o Pessach, a Páscoa Judaica. Como resultado da vacinação, as coisas começam a ter ares de normalidade por aqui, e poder sentar em família é uma delas.

O Pessach é uma festa especial, ela dura uma semana onde não se deve comer pão e nada que contenha fermento. Os mais religiosos chegam a ter jogos de louças, talheres e panelas especialmente para os dias da festa. Os menos religiosos como eu, compram pão para uma semana e guardam no freezer, já que poucas padarias permanecem abertas.

A festa em si é uma recordação da saída do Egito. Moisés depois de muita insistência e 10 pragas contra o Faraó, finalmente consegue com que ele liberte os judeus da escravidão. Na saída apressada, com receio dele voltar atrás, esqueceram de levar fermento e o pão virou uma espécie de bolacha, chamada de Matzá. Ela é consumida durante toda a semana. Na idade média, judeus eram acusados de utilizar o sangue de crianças cristãs para fazerem o Matzá, o que resultou em perseguições e mortes, mas isto é outra história.

Moisés leva o povo em direção a Israel e no caminho recebe de Deus as Tábuas da Lei, também conhecida como os 10 mandamentos. São as primeiras leis de comportamento ético que se tem notícia. Enquanto aguardavam por Moisés retornar de seu encontro com Deus, os judeus tiveram uma recaída e construíram um Bezerro de Ouro para adoração. Quando Moisés chega com as tábuas e percebe o que aconteceu, as quebra em um momento de ira e o povo se arrepende.

Deus não teria ficado nada contente com o que aconteceu. Resolveu que aquela geração contaminada com adorações a outros Deuses, não entraria na Terra Prometida e incluiu Moisés por ter quebrado as tábuas no mesmo castigo. Assim foi que o povo judeu teria permanecido por 40 anos no deserto até que sucumbisse o último dos escravos no Egito.

Voltando lá para o início da história, faltou contar que Moisés, nascido judeu, foi criado pela família do Faraó depois de encontrado por sua filha em um cesto no Rio Nilo ainda bebe de poucos dias. Criado como Egípcio, somente na juventude veio a saber de sua origem. Sua existência, assim como o que se passou com os judeus no Egito, ainda não tem comprovação científica. Não existe nenhum achado arqueológico que comprove esta história. Líder revolucionário, ou figura mítica, o fato é que os judeus comemoram o Pessach com muita comida a mesa, e os cristãos se empanturram de chocolate na Páscoa.

Mesmo que a nada disso tenha acontecido de fato, ficam as lições que são passadas de geração para geração a milhares de anos. Todo judeu deve se sentir como se tivesse sido libertado da escravidão no Egito. Uma lição de humildade e da importância da liberdade.

Retirando-se o aspecto religioso da comemoração, ficam presentes conceitos de grande importância para a humanidade. Os mandamentos das Tábuas da Lei, como não matarás, não cometerás adultério, não cobiçarás a mulher do próximo, nem seus pertences, tudo isto são normas de comportamento ético para tornar o mundo de então, um mundo melhor.

Não menos importante, a lição de que toda tirania chega ao fim. Nenhum déspota é eterno e devemos lutar por nossa liberdade e pela democracia. Todos nascemos livres e iguais, assim deve ser.

Durante a leitura da Hagadá de Pessach, que é o relato dos acontecimentos, são levantados 4 copos de vinho em brindes. Normalmente o primeiro é em memória aos caídos no Gueto de Varsóvia, uma vez que o Gueto sucumbiu diante dos Nazistas, durante o Pessach. Os demais, geralmente também lembram a memória dos que morreram em defesa do povo judeu e nas guerras de Israel.

Eu pessoalmente, mudo de tempos em tempos o último brinde. Neste ano o farei em memória das vítimas do Covid-19 em todo o mundo, e que toda a humanidade possa estar vacinada em breve.

O fascismo judaico existe e nós lutamos contra ele

Pelo visto, para parte da comunidade judaica no Brasil as eleições para prefeitos e vereadores no Brasil, virou um caso diplomático. Uma parte da comunidade acha que os problemas de suas cidades não são nada se comparados ao que acontece com relação a Israel. A questão não é saúde, educação e segurança, isso tudo fica em segundo plano. O que interessa a eles é o que pensam os candidato com relação a Israel. E não apenas eles, seus partidos, os membros dos seus partidos e todos que um dia passaram por ele.

Umberto Eco, intelectual italiano, romancista e filósofo, autor de “O pêndulo de Foucault” e “O Nome da Rosa”, morreu em 19 de fevereiro, aos 84 anos, mas nos deixou uma fabulosa contribuição para identificar o fascismo e seus apoiadores no texto “Ur-Fascismo”, produzido originalmente para uma conferência proferida na Universidade Columbia, em abril de 1995, numa celebração da liberação da Europa. São 14 características que em parte, ou na sua totalidade, nos permitem compreender que ele está batendo a porta, ou já entrou.

Eco os convencionou “Ur-Fascismo”, fascismo eterno. Eu adaptei estas características para as convencionar de  “J-Fascismo”. Veja a seguir estes pontos que identificam parte da comunidade judaica como fascista, aquela que apoia o governo Bolsonaro. São eles:

1.   A primeira característica de um “J-Fascismo” é o culto da tradição. Os fascistas judeus são apegados  a uma Israel que um dia no passado distante reinou nas duas margens do Rio Jordão. Um reino há muito desaparecido que permanece vivo no seu imaginário. Nesta Israel, não existe lugar para o Povo Palestino e a própria existência da Jordânia é contestada.

2. O tradicionalismo implica a recusa da modernidade. Esta parte da comunidade, vive do passado e do que foi um dia Israel e da sombra permanente do Holocausto. Não se importam com nada além da fantasia de que o mundo é antissemita, e quem for a favor de um estado Palestino, é contra a existência do Estado de Israel.

3. O irracionalismo depende também do culto da ação pela ação. Estes judeus chamam os demais judeus de traidores, de comunistas e até de antissemitas.  Nas palavras de Eco fazem uso  frequente de expressões como “Porcos intelectuais”, “Cabeças ocas”, “Esnobes radicais”, “As universidades são um ninho de comunistas”. Por isso, agem de maneira atabalhoada, intempestiva e açodada.

4. Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar críticas. Ninguém pode criticar o Estado de Israel, nem mesmo a ONU. Eles são incapazes de aceitar a crítica, mesmo que construtiva ou vinda daqueles que se dizem amigos de Israel. Toda crítica é uma forma de traição e todo inimigo deve ser tratado como tal.

5. O desacordo é, além disso, um sinal de diversidade.  São solenemente contra a diversidade, preconceituosos convictos. A comunidade precisa ser uníssona e rezar a sua cartilha. As vozes discordantes são consideradas de desgarrados da comunidade e sua identidade judaica é colocada em dúvida.

6. O “J-Fascismo” provém da frustração individual ou social. Os fascistas judeus em boa parte são excluídos sociais da sociedade, seja por sua fé incompreendida, por sua cor, por sua etnia e em muitos casos por sua condição econômica nos dois extremos, muito pobres, ou muito ricos. Seu mundo é a sua comunidade e só ela importa. Em algum momento de suas vidas foram chamados de judeus de maneira ofensiva e isto os marcou para sempre.

7. Privação de qualquer identidade social. Se dizem brasileiros patriotas, mas se identificam com Israel e com tudo que esteja relacionado a este país. Assim sendo, qualquer pessoa, incluindo especialmente candidatos a cargos eletivos, precisa declarar explicitamente seu apoio incondicional a Israel. Uma xenofobia exacerbada  que torna seu inimigo quem não o fizer.

8. Os adeptos devem sentir-se humilhados pela riqueza ostensiva e pela força do inimigo. O fascismo judaico é doentio na sua contradição sociológica. O fato de existirem judeus integrados na sociedade onde vivem, de se importarem com suas comunidades e se identificarem com ela, faz deles traidores de seu povo original, algo inaceitável, principalmente quando se dizem não sionistas, ou pior, antissionistas.

9. Para o “J-Fascismo” não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”. Pacifismo é coisa de maricas. Eles acreditam que a batalha pela vida é uma luta diária contra o antissemitismo que assola o mundo e está a espreita em cada esquina pronto para atacar. Todo candidato de esquerda em uma eleição é um inimigo a ser combatido juntamente com seus apoiadores, especialmente se forem judeus.

10. O elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária, enquanto fundamentalmente aristocrática. Para os “J-Fascistas”, aqueles judeus que não se identificam com a sua causa, são a escória da comunidade. Eles sequer tem o direito de se intitularem como judeus, não sendo dignos de pertencerem a elite.

11. Nesta perspectiva, cada um é educado para tornar-se um herói. Para o “J-Fascismo”, Israel é motivo de idolatria permanente. Todo israelense é um herói que luta pela sobrevivência do país para que os judeus tenham um lar nacional e um porto seguro onde chegar quando o antissemitismo vingar. Sendo assim, defender Israel é uma razão para viver e para morrer.

12. Como tanto a guerra permanente como o heroísmo são jogos difíceis de jogar, o “J-Fascista” transfere sua vontade de poder para questões sexuais. Como os “Ur-Fascistas”, eles também são misóginos e sentem prazer em atacar as judias de esquerda. Machistas, não aceitam as mulheres da comunidade que lutam por igualdade social e direitos humanos.

13. O “J-Fascismo” baseia-se em um “populismo qualitativo”. A comunidade judaica precisa ter um formato monolítico onde o pensamento é único, o deles. Não podem existir diferenças e a imagem que deve ser passada é aquela de uma comunidade que comunga dos mesmos ideais. Com o advento da Internet e das mídias sociais, isto tornou-se impossível, portanto os grupos dissonantes precisam ser combatidos.

Por fim, transcrevo na íntegra a última característica, apenas substituindo o “Ur-Fascismo”, por “J-Fascismo”.

14. O “J-Fascismo” fala a “novilíngua”. A “novilíngua” foi inventada por Orwell em 1984, como língua oficial do Ingsoc, o Socialismo Inglês, mas certos elementos de “J-Fascismo” são comuns a diversas formas de ditadura. Todos os textos escolares nazistas ou fascistas baseavam-se em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico. Devemos, porém estar prontos a identificar outras formas de novilíngua, mesmo quando tomam a forma inocente de um talk-show popular.

Como podemos observar o fascismo judaico, por mais absurdo e contraditório que seja, existe e está presente na comunidade judaica brasileira. Onde nas manchetes da semana escreveram sobre os rachas de grupos judaicos em favor e contra o voto em Boulos, leia-se, os esclarecimentos a sociedade brasileira sobre a existência de fascistas judeus que em nada se diferenciam de seus congêneres não judeus.

A esquerda judaica brasileira está presente nestas eleições apoiando os candidatos progressistas. Estamos engajados em eleger Boulos em SP e Manu em Porto Alegre. Aos fascistas, judeus e não judeus a mesma mensagem: Não Passarão!

Somo a voz dissonante, aquela com um raciocínio complexo e crítico. Somos a luz do judaísmo humanista, orgulho de nossos profetas. Aqueles que lutam por um mundo melhor, por uma sociedade mais justa e combate o fascismo onde ele estiver.

A única saída

Na véspera de Yom Kippur recebi em uma rede social uma prece escrita por uma pessoa querida. A prece fala do momento especial que vivemos por causa do Coronavírus. Na súplica a pessoa confessa que desta vez não pede perdão pelos seus erros, pecados, omissões, e até mesmo para ser inscrita no Livro da Vida. Pede ao Eterno apenas compaixão com a humanidade e que nos livre deste mal que entre outras coisas nos impede de ver e ouvir os cantos nas sinagogas e de abraçar e beijar pessoas queridas.

Confesso que fiquei abalado com a proposição teológica modificada. Afinal, o Yom Kippur não é uma data para pedidos de qualquer espécie. Não pelo menos nas concepções que absorvi ao longo dos recém confirmados 60 anos de vida.

Se no início da vida religiosa ou espiritual judaica prevalece a imagem de D’us como um grande legislador e juiz ao mesmo tempo, e talvez até severo demais.

Não tenho mágoas desta fase, embora me seja absolutamente claro que esta imagem não corresponde às minhas atuais expectativas de um Ser Supremo, que habita e manifesta-se desde as partículas sub-atômicas até as incognoscíveis forças expansoras do Universo, convidando-nos a cada segundo da vida à meditação e ao encontro com todas essas forças organizadoras da vida, do pensamento, dos sonhos e significados da vida.

O fato é que encontrei sim, no judaísmo onde nasci, felizmente, fonte permanente de inspiração, motivação e construção do meu ser. E um dos sensos mais fortes que o judaísmo pode despertar em alguém é o de responsabilidade. É o de saber que pensamentos podem se transformar em palavras, palavras em atitudes, atitudes em costumes, e costumes em caráter.

Esta peste do século XXI, o novo Coronavírus esteve ao alcance de ser contido desde o início de sua expansão. Outros vírus piores já vieram, ainda neste século, e foram adequadamente contidos em seu potencial de disseminação e morbimortalidade. Tanto é verdade, que pelo menos uma grande nação, a China, utilizando-se de todas as lições de surtos anteriores, fez o que nunca havia sido feito e venceu espetacularmente a epidemia em suas fronteiras.

Outros países conduzidos por líderes ignorantes, insensíveis, brutais, sendo o melhor exemplo no momento o do Brasil, jogaram a ciência no lixo, e junto com ela, por enquanto, 140.000 vidas e imensos prejuízos ao sistema de saúde, à economia, e mesmo à cultura política local.

A questão é que esses líderes, como o nosso atual, não chegaram lá pelos seus méritos, apenas. Pensamentos, palavras, ações, costumes e caráter o puseram lá. Uma complexa maquinaria que intoxicou uma sociedade – que por sua vez, voluntariou-se ao envenenamento – e golpeou sucessivamente a democracia e suas instituições. No campo da saúde pública, o resultado dessas ações, mais do que anunciado, é o que temos.

Eu confesso que minha capacidade de perdoar pessoas que participaram de tudo o que contribuiu para a ascenção desta besta ao poder é muito pequena. Em especial, aquelas que jactam-se de um judaísmo “superior”, arraigado, pois não vejo, na cultura e história judaica, um único momento, período ou local que nos conte sobre o sucesso de tal empreitada, que encontra um forte comparador na década de 30 do século XX.

Eu confesso que me recuso a pedir a D’us, neste momento, que nos livre de algo que sempre esteve ao nosso alcance e responsabilidade. Sim, lutamos contra isso. Mas talvez não tenha sido o suficiente, é o que os fatos nos mostram.

Se posso (e devo) pedir a D’us alguma coisa neste Yom Kippur, é que desperte na consciência de cada pessoa que tenha movido uma única agulha neste imenso palheiro, que tenha disseminado uma única inverdade, uma única acusação falsa, um único ato de ódio puro e injustificável, uma única renúncia à busca da verdade, uma única indolência intelectual, que tenha contribuído ainda que com uma única “flutuação quântica”, um “efeito borboleta”, que culminou na ascenção do mal aqui e em outros lugares, o devido senso de responsabilidade. Que D’us não permita que fujam de suas consciências. Que D’us não permita que faltem ao seu dever de reparação. Que D’us não permita que a ignorância e o ódio prevaleçam. Que possamos ter saúde sempre, para lutar, lutar e lutar por todo o magnífico patrimônio ético que o judaísmo construiu ao longo destes milênios, pois este patrimônio, sozinho (ainda que não único, evidentemente), poderia sim ter evitado a catástrofe, se devidamente cultivado e reverenciado.

E que assim seja.

 

O PSOL, o Sionismo e as Veredas do Amor

O PSOL, o Sionismo e as Veredas do Amor

Há alguns anos, já bem entrado nos 60, encontrei a mulher que me fez eu.

Dona de uma inteligência fulgurante e de uma carreira acadêmica esplêndida sob todos os aspectos, confesso que, a princípio, ela me intimidou significativamente.

Ocorre que além desses dois atributos, Tânia Maria Baibich possui também níveis anormais de lucidez, generosidade e maturidade que, combinados, produzem efeitos espantosos.

Foi com eles que, ao longo de um tempo nada pequeno, ela, laboriosa, cuidadosa e delicadamente, foi me mostrando que titulações e reconhecimentos acadêmicos não passam de acessórios cujo valor está atrelado inapelavelmente ao caráter da pessoa que os detém. E que essas coisas, em si, nada significam, dada a enorme quantidade de pessoas medíocres que, mesmo assim, as alcançam.

Paralelamente dedicou-se a outra tarefa não menos árdua, que foi a de convencer-me de que, Inteligência por Inteligência, eu não lhe ficava atrás.

O resultado de tudo isso foi a mais completa demonstração de feminismo que eu jamais pude presenciar: a mulher não quer ser melhor que o homem, mas igual.

É preciso ser muito “macha” (antes que me acusem de machismo, a palavra é dela própria) para, partindo de uma posição de tão nítida superioridade, renunciar a ela batalhando pela igualdade. E é preciso ter muita sabedoria, e uma capacidade totalmente incomum de leitura abrangente da realidade, para perceber que, a longo prazo, este era o caminho para um relacionamento feliz e de alto nível. Se a balança pende para um lado, seja qual for, o risco é bem maior.

Pois deu certo. Hoje, vencidos meu complexo de inferioridade e minhas crises de baixa auto-estima, encontro-me envolvido em um turbilhão amoroso encantador, emoldurado e enfeitado pelo desafio diuturno, permanente e estimulante, de uma vida cultural e intelectual riquíssima, na qual o intercâmbio de ideias, experiências, posições, saberes e olhares renova e reproduz o encantamento, todos os dias.

Bem. Mas este não é um texto de amor. A introdução que fiz se destina a contextualizar o fato de que nossa experiência comporta também muitíssimas divergências, cuja lida é igualmente  desafiadora.

Ideologicamente, somos ambos de esquerda. Eu, porém, mais radical. Judeus que somos, abrangemos naturalmente nesse debate o Brasil, no qual vivemos, e Israel. E, nas duas situações, de vez em quando a coisa esquenta. Na última, mais. Para ela, avó de três israelenses, sou sionista de menos.

Pois bem. Tânia nasceu e viveu em Porto Alegre até a idade adulta, quando mudou com a família para Curitiba. Conserva até hoje enorme quantidade de amigos na terra natal.

Dia desses pedi a ela que fizesse propaganda entre eles de uma candidata a vereadora na capital gaúcha, do campo progressista, sobre a qual recebi indicação positiva, de fonte muito confiável. Nos tempos infelizes que vivemos, sob um retrocesso gigantesco e a ameaça fascista sobre nossos pescoços, considero que cada milímetro de espaço que se possa conquistar, em qualquer lugar do Brasil, é valioso para acumular forças para a guerra que travamos.

Ela pergunta o partido. Eu respondo: PSOL. Ela nega me atender, sob a justificativa de que o programa do PSOL não reconhece o direito de Israel a existir. Sabe que divirjo dessa posição, mas a respeito. Portanto, aceitei tranquilamente a negativa.

Contudo, não sou exatamente fácil de jogar a toalha. Há uma linha tênue entre antissionismo e antissemitismo. Tão tênue que às vezes parece imperceptível. Contudo, ela inegavelmente existe. Os termos não são sinônimos, mas muita gente, principalmente na comunidade judaica, tende a afirmar o contrário.

Pois bem. Minha opinião é a de que toda generalização é equivocada. Tenho certeza absoluta de que a ilegitimidade da existência do Estado de Israel não consta no programa do PSOL. O que há é um número importante de militantes extremistas, naquele partido que, por conta das inegáveis atrocidades cometidas pela extrema direita israelense que nas últimas décadas empalma o poder ali, confundem povo com Governo e, ao criticar este com exagero desmedido, declara-se meramente antissionista mas flerta abertamente com o antissemitismo.

Do meu ponto de vista, isso não deslegitima todo o partido, de forma que é possível detectar, ali, possibilidades variadas de fazer andar a recuperação democrática do Brasil. Quando se trata de ilustrar essa contradição, o mais veemente exemplo é exatamente do mais proeminente psolista até hoje, Jean Willis, cuja posição sobre Israel, após verificação pessoal in loco, é amplamente elogiada por sionistas dos mais variados matizes.

Vai daí que, sem contestar minha musa, mergulhei na pesquisa. E, até onde pude verificar no Dr. Google, realmente a questão não aparece no programa do PSOL. O que ali se vê é uma ardente defesa da autonomia palestina e do respeito aos direitos deste povo. Coisa tão diferente de atacar o direito de Israel existir, que é posição comum a uma enorme quantidade de sionistas espalhados pelo mundo – inclusive Israel.

E isso nos traz – finalmente – à minha conclusão.

Antes, porém, quero conceituar sionismo, segundo minha concepção. Trata-se de movimento político criado com a finalidade única de garantir um espaço territorial a ser habitado pelo povo judeu. Só. Todo o resto (e haja resto!!!) é interpretação de cada um.

Tendo esse conceito em mente, eu sou sionista. Defendo, sim, o direito do indivíduo judeu deixar de ser – quando quiser, claro – parte de um segmento incrustrado em nações de outra formação, como ocorreu durante dois milênios, e poder ter um território, a fim de, como qualquer outro, constituir uma Nação.

Contudo, sempre fui um homem de princípios e posições. A fim de ser honesto comigo mesmo, isso significa situar-se à esquerda do processo político, local, regional e mundial. Nessas condições, mesmo defendendo a existência de Israel, condeno com veemência doutrinária, estrutural, todas as atitudes tomad               as pela direita troglodita que manda naquele país em prejuízo dos mais elementares princípios civilizatórios. Posições que, aliás, Tânia compartilha comigo totalmente.

Somos pela soberania do povo palestino. Se nós temos direito a um Estado, também o têm eles. Se nós temos direito à dignidade, também o têm eles. Defendemos, desde sempre, o fim total da ocupação do território palestino e a solução de dois Estados para dois povos, nas fronteiras territoriais de 1967.

De minha parte, condeno a violência sob qualquer formato e método, mas me repugna com vigor a indignação seletiva que faz muitos setores sionistas distorcerem a realidade, descaracterizando a resistência palestina a uma inegável agressão, para classificá-la como terrorismo puro e simples. Não é demais lembrar que muitos desses indignados justificam sem remorso algum a resistência judaica contra o mandato britânico, frequentemente exercida exatamente através dos mesmos métodos.

E isso não significa que aprovo a guerrilha intransigente que nega o direito legítimo à existência de Israel. Ao contrário. Repudio-a igualmente.

Toda essa explicação se destina a informar ao distinto público que me considero, assim como à Tânia e a milhares de outros mundo afora, convictamente, um sionista de esquerda.

Ora, e o que diabos tem tudo isso a ver com o PSOL e minha divergência com a Tânia?

Simples. Na pesquisa que fiz, confirmei meu ponto de vista. Dentro desse partido, além do que já enunciei existe uma pluralidade de posições acerca de Israel. Contudo, é dominante aquela que, ainda que por outro caminho, dá razão à minha esposa.

O presidente do partido, o historiador Juliano Medeiros declarou de público, anteontem (26/09/2020 – link abaixo), que eu não existo! Respondendo à pergunta “E o  PSOL acredita que é possível um sionismo de esquerda?”, disse textualmente: “O PSOL não tem uma resolução aprovada sobre esse tema em particular; havia até recentemente filiados do nosso partido que consideravam que sim,  que seria possível. Há muitos de nós, no entanto, que acham uma contradição. Existem as duas posições: certamente, há pessoas que acham que sim que é possível e há pessoas que acham que é uma contradição,  como é o meu caso.”

Ora, senhoras e senhores, se o cara preside o partido, ele certamente é quem o representa. Até porque outra coisa não é do que o porta-voz de sua corrente majoritária.

Então, de certa forma, tenho que jogar a toalha. Fui a campo para mostrar à minha companheira que o programa do PSOL não diz o que ela diz que ele diz, e, com isso, voltar à carga no pedido de recomendação da candidatura gaúcha.

E assim é. O programa não diz tal coisa.

Todavia o PSOL, por seu representante máximo, declara com todas as letras que quem defende a existência do estado judeu é obrigatoriamente uma pessoa de direita. O que, na prática, significa exatamente a mesma coisa. Um Estado e seu povo são, obrigatoriamente, sinônimos de seu governo.

Na prática, Juliano está dizendo que ele mesmo, e eu, somos bolsonaristas.

E isso é mentira.

Continuo achando que é possível isolar membros deste ou daquele agrupamento político do pensamento equivocado de sua maioria. Portanto posso pedir voto para alguém do PSOL.

Mas, do ponto de vista conceitual, quem tem razão não sou eu, mas Tânia. É totalmente coerente e correta sua decisão de não pedir tal voto.

Fui estudar para voltar à carga, e descobri que devo, ao contrário, recolher os betes.

Desse tipo de respeito é feita a nossa vida.

Foi a este ponto de integridade intelectual que minha esposa me conduziu.

Link para a entrevista do presidente do Psol:

https://www.monitordooriente.com/20200926-unidade-contra-a-direita-nao-significa-alianca-eleitora/