A FIERJ – Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro homenageou o prefeito carioca, bispo Marcelo Crivella, concedendo-lhe a medalha Amigo da FIERJ. Impopular, considerado por muitos cariocas o pior prefeito da história da cidade, Crivella foi o primeiro triunfo denso do projeto político da Igreja Universal do Reino de Deus, liderada por Edir Macedo. Sua trajetória é medíocre e, no governo do Rio, agride princípios republicanos elementares. Mas, afinal de contas, quem é o bispo Crivella ?
Ainda nos anos 90, escreveu o livro Evangelizando a África, que condensa sua experiência de proselitismo no continente africano. Não esconde a desinformação e os preconceitos sobre diversas religiões. Para ele, a Igreja Católica e outros segmentos cristãos “pregam doutrinas demoníacas”. Espiritismo, hinduísmo e religiões africanas ? “Abrigam espíritos imundos”. Aliás, sobre estas últimas, ele afirma que “permitem toda sorte de comportamento imoral, até mesmo com crianças de colo”. As religiões orientais não escapam da verborragia ofensiva: “No mundo amarelo (sic), os espíritos imundos vêm disfarçados de forças e energias da natureza”. Para ele, os indianos, provavelmente por uma natureza masoquista, são proibidos de comer carne de vaca apenas para que o alimento seja farto na mesa dos ricos. Os “gurus”, continua o prefeito incensado pela Fierj, pregam o sacrifício de crianças como forma de obtenção de riqueza.
Sua gestão é marcada pelo privilégio aos frequentadores de seus templos. Entrou para o folclore a Márcia, secretária para quem os fiéis deveriam pedir favores, notadamente em atendimento médico. “Fala com a Márcia” virou sinônimo do velho pistolão, agora abençoado pelo prefeito.
Na Bienal do Livro do ano passado, tentou, de forma patética, censurar um gibi, no qual dois rapazes se beijavam na boca. A patuscada foi à breca. O obscurantismo homofóbico, de raiz religiosa, apenas atraiu a atenção para a publicação, que bateu recordes de vendagem.
Sobre as tragédias das chuvas torrenciais de verão, rotina na paisagem carioca, Crivella tem pouco a dizer. Fora cometer piadas de gosto duvidoso (como a criação do programa Balsa Família para os atingidos pelas tragédias hídricas), demonstra ser um péssimo administrador. Nos dois primeiros anos de mandato, reduziu em 71% os gastos com prevenção de enchentes. Na inundação mais recente, fugiu de suas responsabilidades pelo caminho rasteiro da leviandade. Sugeriu que os cariocas moram em áreas de risco por opção: “As pessoas gostam de morar ali perto porque gastam menos tubo para colocar cocô e xixi para ficar livre daquilo”. O troco veio rápido. Ao visitar Realengo, bairro devastado, jogaram-lhe uma bola de lama. Pena que não tinham material mais orgânico e malcheiroso à mão.
Politicamente, é um oportunista de velha cepa. Depois de servir ao governo Dilma, agora trata de curvar a espinha para as tropas bolsoneiras, tentando reeleger-se em outubro. Dançou com Jair Messias num ato evangélico, a quem elogiou pela “personalidade irradiante”. Venderá a alma ao Demo para seguir maltratando minha cidade.
Foi esta a sumidade premiada pela Fierj. Para os não iniciados, é importante saber que a federação tem baixa representatividade eleitoral. Suas eleições, em geral com chapa única, têm participação pífia da comunidade judaica. As atividades são essencialmente assistencialistas e burocráticas. Deve ter se escudado em artigos do estatuto, que falam em “defender interesses da comunidade judaica”, para polir a imagem de um político que só merece desprezo e ostracismo. Quem define os interesses comunitários ? São de conhecimento público ?
Por tudo isso, considero inaceitável a homenagem prestada ao bispo Crivella por uma entidade que se declara representante dos judeus do Estado do Rio de Janeiro.
Acuso a Fierj de comprometer a imagem dos judeus, ao celebrar “amizade” com um político desprezado pela maioria dos cariocas.
Acuso a Fierj de insensibilidade, por destacar “conquistas para a comunidade judaica” e ignorar a tragédia administrativa, política e social que é a gestão do bispo Crivella. A imagem que passa é a de que um gueto de privilégios vale mais do que o sofrimento da maior parte do povo do Rio. Pior: passa a impressão, de resto completamente falsa, de que a totalidade dos judeus apoia suas atitudes. A comunidade judaica é heterogênea, e parte dela já se manifestou publicamente contra a entrega da medalha.
Acuso a Fierj de exaltar uma personalidade que ofende a República, ao tornar indiferenciados os campos de atuação do Estado e da religião.
Não, Claro que não é. Da mesma forma que Islamismo não é terror nem sexo é promiscuidade nem dinheiro é necessariamente o produto da exploração do homem pelo homem.
O que sim é verdade é que existem sionistas racistas, e muçulmanos terroristas, e não poucos degenerados sexuais, e não menos capitalistas sem entranhas.
No saber e querer diferenciar a uns dos outros, os doentes de ódio dos sãos de espírito, os inimigos mortais dos amigos leais, é onde reside a principal qualidade que nos faz diferentes dos irracionais. Hitler e Torquemada, Mussolini e o Mufti al-Husseini, não o souberam nem o quiseram, e por isso nos legaram como herança a ignomínia das suas idéias, a sem-vergonhice dos seus atos, e bastantes páginas negras da nossa História escritas com o sangue inocente das suas vítimas.
Hoje e agora, as minorias fundamentalistas islâmicas, judias e cristãs, tropeçando de novo na mesma pedra, transitam por igual caminho em direção ao mesmo precipício.
O fundamentalismo islâmico, com os seus ataques suicidas, que além de matar judeus inocentes da forma mais covarde concebida pela mente humana, salpicam com esse sangue a honra e a imagem da sua própria religião, já que o nome de Alá fica irremediavelmente associado a essa barbárie cometida em seu nome.
O fundamentalismo judeu, organizado em seitas religiosas e gangues laicas, ao tentar impor suas loucas idéias de um deus vingativo e exclusivo, e de um Grande Israel Bíblico do ponto de vista territorial, ao qual o povo judeu renunciou expressamente ao assinar a partição da Palestina, usando para tal fim não apenas o discurso ou a propaganda, mas as armas e o assassinato dos líderes do Estado de Israel (começaram com Rabin e agora até Sharon – seu aliado natural até uns meses atrás – está na mira deles).
O fundamentalismo cristão, incitando ao ódio às outras religiões e apoiando e aplaudindo a tortura dos inimigos de seu deus todo-poderoso, transformando o conflito numa guerra santa contra o Islã, e o exército dos Estados Unidos em Soldados do Cristianismo (por analogia, os novos cruzados).
Compete a todos os que não nos deixamos arrastar por slogans pré-fabricados ou por medos manipulados pelos porta-vozes do além, enfrentar-nos a esse tudo ou nada que eles propõem, construindo uma estrada transitável que conduza à concórdia e não ao cemitério; a bom porto e não ao naufrágio da esperança.
Visto isso, só resta então formular a pergunta do milhão: afinal, o que é sionismo?…
A minha modesta resposta a esse enorme interrogante começa no início do túnel do tempo, quando o povo judeu abandonou a terra prometida por razões alheias à sua vontade (ou sumir ou sucumbir).
Durante milênios então, o sionismo hibernou no útero de uma frase simples, representando apenas a verbalização de um desejo irreprimível, um sonho condensado em poucas e premonitórias palavras: no ano que vem em Jerusalém (be shaná haba’á birushaláim, em hebraico).
E assim o sionismo, que nem mesmo sabia que esse era o seu verdadeiro nome, vivia e sobrevivia em estado latente dentro dessa simples frase que foi passando de geração em geração, de boca em boca, de coração a coração, até um dia qualquer do um ano qualquer do século XIX, em que alguns judeus decodificaram a vontade de grande parte da diáspora de voltar para casa, considerando que havia chegado a hora de traduzir a mensagem genética contida na pequena frase herdada, à linguagem dos fatos, propondo táticas e estratégias que permitissem transformar o exílio imposto em retorno; a prece milenar em pátria.
E foi assim que esse sionismo ganhou nome próprio, sobrenome comum e um projeto de viabilização, começando então a construção de uma ponte que unisse o sonho herdado à realidade possível.
Era o começo do fim do desarraigamento para todos aqueles que assim o quisessem, ainda que as resistências não fossem poucas nem banais, já que a maioria do Establishment religioso se opunha (e ainda o faz depois de 57 anos de independência) esgrimindo argumentos paridos na diáspora, sem qualquer relação com os livros sagrados, segundo os quais o retorno só será permitido com a chegada do Messias.
Essa foi a razão pela qual o Sionismo pioneiro foi fundamentalmente laico, e ainda o é, apesar de ter deixado de ser um projeto virtual para transformar-se no Estado de Israel real. Não o Israel maximalista dos fundamentalistas, mas sim o Israel possível dos realistas.
Indivíduos primeiro e grupos depois, foram pouco a pouco desembarcando do navio do tempo nos portos da velha pátria, e iniciaram a empreitada, plantando famílias no deserto e nas cidades; secando pântanos e sobre eles implantando produtivas fazendas coletivas; erigindo escolas para todos os alunos, hospitais para todos os doentes e prisões para todos os criminosos.
Isso é sionismo: o puro e simples direito de reconstruir a casa nacional sobre parte do território primitivo e nela acolher a todos os que desejarem fazer a viagem de volta (as fronteiras – não o esqueçamos – foram democraticamente aceitas pelos representantes do povo de Israel, renunciando a qualquer reivindicação de territórios fora dos limites aprovados).
Hoje, entretanto, constatamos com pesar e temor, que no corpo do Estado de Israel crescem e se multiplicam pequenos tumores malignos cujas metástases comprometem seriamente a saúde do país. É o tal do hiper-sionismo ou mega-sionismo, inspirado no fundamentalismo religioso radical, aliado a uma visão fundamentalista laica de extrema-direita, de ignorar todo o trabalho feito para a construção do Estado de Israel, das suas leis, das suas fronteiras, das assinaturas nos acordos internacionais, do respeito aos direitos humanos de todos os humanos, com a malsã intenção de implantar a pátria bíblica dos contos de fadas, tanto no que respeita à sua dimensão territorial (expulsando a milhões de palestinos de suas terras e anexando-as) quanto à imposição de um Estado clerical ao estilo das repúblicas islâmicas mais retrógradas. E isso – que não caiba nenhuma dúvida ao respeito – não é sionismo. Isso é pura e simplesmente anti-sionismo, e deve ser combatido por todos aqueles que vêm no Estado de Israel (e não na terra de Israel) a tradução fidedigna do sonho gerado e gestado pelo povo judeu ao longo dos séculos no seu caminhar diaspórico.
O sionismo é um direito e não um dever, e o Estado de Israel é o fecho de ouro dessa travessia de ida e volta do povo judeu.
Nos conta a Biblia de que Moisés havia subido no Monte Sinai para falar com Deus. O povo cansado de esperar por seu retorno a achando que ter saído do Egito poderia ter sido uma má ideia, forçam Arão a criar um ídolo e assim forjam um Bezerro de Ouro para adoração.
Moisés retorna com os Dez Mandamentos e revoltado com o povo quebra a pedra com os 10 Mandamentos, dá um esporro geral, detona o Bezerro e coloca ordem na casa.
Eu sempre achei esta história interessante por diversos aspectos e gostaria de compartilhar com quem me lê.
A figura de Moisés é singular. Adotado pela rainha ele foi criado como um egípcio e até descobrir sua verdadeira origem, agiu como tal. Mas aconteceu e um belo ele descobre que é judeu.
Os judeus viviam inicialmente livres no Egito mas acabaram sendo transformados em escravos, mão de obra para construções. Como nada que está ruim não possa piorar, um decreto do Faraó mandou matar todos os bebês nascidos do sexo masculino. Incapaz de cometer tal ato sua mãe o entrega a Miriam, sua irmã mais velha que o coloca em uma cesta no Rio Nilo. Ele é achado pela rainha que passa a criá-lo.
Ao se descobrir judeu, Moisés percebe que a vida para ele e seu povo não vai melhorar nada. Um dia falando com Deus ele é convocado a tirar os judeus do Egito e levá-los para Israel, um terra que lhes é prometida. Depois de muita briga e 10 pragas, finalmente o Faraó resolve libertar o povo judeu e eles para não dar chance ao azar, partem rapidamente esquecendo de levar farinha para fazerem pão, mas isso é outra história.
O Faraó de fato se arrepende e sai em perseguição aos judeus para trazê-los de volta. Na fuga Moisés consegue abrir uma passagem pelo mar, os judeus chegam do outro lado, mas o exército egípcio que os perseguia acaba sendo engolido pelas águas.
Os judeus começam a sua saga em direção a Terra Prometida, o que não foi fácil. Então acontece o episódio do Bezerro de Ouro e como castigo, são condenados a vagar por 40 anos no deserto para que uma nova geração de libertos nasça e seja ela a entrar na Terra Prometida.
Independentemente de se tratar de uma história verídica, ou não, afinal não existe nenhuma prova destes acontecimentos, a figura de Moisés é o centro de tudo.
Moisés ao conhecer sua orígem, imediatamente passou a defender o povo judeu e seu direito de ser um povo livre. Esta luta pela liberdade e a conquista de um lugar que pudessem chamar de sua nação é épica e nós a repetimos todos os anos na nossa páscoa para que todo judeu saiba que um dia fomos escravos e lutamos por nossa liberdade como um exemplo para todos os povos.
Ele foi o responsável pelas primeiras leis escritas e normas de civilidade com os 10 Mandamentos. Pela primeira vez um povo passa a ter um dia de descanso. Não matar e não roubar passam a ser preceitos básicos, coisa que não acontecia até então. Estas leis passam a dar um sentido de civilidade a humanidade.
Muita coisa aconteceu desde então, mas como seres humanos, nos custou muito colocar em prática coisas tão simples como estas.
No Brasil de hoje o povo recebeu um novo Bezerro de Ouro para adoração. Uma elite ultrajada com a perda de sua supremacia racial, inconformada com as conquistas das castas inferiores e sobretudo incomodada com a concorrência e convivência nas universidades, aeroportos e supermercados, deu ao populacho um símbolo para idolatrarem.
Assim como o Bezerro de Ouro, este novo ídolo veio incubido de dar ao povo um sentido de participação nos destinos da nação, seja lá qual destino cada um entendeu para si. O fato é que a maioria das pessoas foi levada a crer que ele vai trazer felicidade e desenvolvimento e que na próxima Copa do Mundo vamos fazer 8 X 0 na Alemanha.
Mais provável que o futuro resultado deste hipotético jogo, é a tragédia que está desabando sobre o país. Estamos com um ministério de uma República das Bananas, me desculpem as bananas. Ministros de uma mediocridade nunca vista, com uma verborragia vergonhosa que se supera a cada dia.
Este Bezerro ungido presidente é de longe, incomparável ao que de pior o Brasil já teve a frente de um governo. Ele é tão ruim que a mídia golpista já se pergunta como chegamos neste ponto e como vamos sair disso. Isso tudo com menos de 100 dias.
Na minha opinião, somente as ruas mudam este quadro. Enquando a esquerda continuar apontando dedos, não repensar seu erros, entre eles ter nomeado os piores juízes que este STF já teve antes do Alexandre de Moraes que é “Hors Concours” e não ter aparelhado devidamente o estado como faz muito bem a direita, ter sido complacente com a bandalheira entre tantas outras burrices, o Brasil não vai tomar jeito.
As ruas agora são dos blocos de carnaval, depois disso precisam ser ocupadas para derrubar este Bezerro. Sem o clamor das ruas nada vai acontecer de bom e nada salva o país de retrocessos históricos e da perda de árduas conquistas sociais populares.
Este é um Bezerro de Ouro feito com Ouro dos Tolos.
Charges preconceituosas em geral, e antissemitas em particular sempre me causaram indignação. São uma forma muito simples e bastante eficaz de disseminar o ódio.
Existe muito material deste tipo que foi utilizado na Alemanha nazista e outros países europeus destacando sempre um judeu com nariz grande, barba, chapéu preto e roupa preta. Era sempre colocado em meio a dinheiro e situações que o mostrava como um ser vil e contra a pátria.
Como se sabe, o Holocausto foi um evento único. Os nazistas criaram uma máquina de aniquilação humana e nela sucumbiram 6 milhões de judeus, entre eles alguns parentes que não pude conhecer. Graças a esta ameaça, nasci no Brasil depois que meus avós maternos fugiram da Polônia dando ouvidos as ameaças que vinham do país vizinho.
Nós judeus não gostamos quando utilizam a palavra Holocausto para definir massacres e genocídios cometidos nos anos seguintes. O que aconteceu conosco é incomparável a qualquer outro evento. Ele se diferencia porque foi um ato institucional, uma política de governo, uma tentativa de exterminar homens, mulheres e crianças de todas as nacionalidades até a terceira geração anterior. O que se pretendeu foi acabar com a existência do povo judeu na Terra.
Então, quando alguém se utiliza do termo para atacar Israel com sua política contra os palestinos, ou os Turcos com sua política contra os Curdos, ou mesmo o que aconteceu em Ruanda no ano de 1994 contra os Tutsis e outros mais recentes na África, nós costumamos dizer que é um erro. Chamem de tudo, menos de Holocausto.
Há poucas semanas tivemos a visita do primeiro ministro de Israel, Benjamin Nethanyau, Bibi, como ele gosta de ser chamado na posse de Bolsonaro. Não foram poucas as reações contra ela, até mesmo no seio da comunidade judaica que viu o ato como um abraço entre fascistas.
Bibi liderou um governo de extrema-direita e vai tentar seu quinto mandato consecutivo nas próximas eleições em Israel marcadas para o dia nove de abril. Ele está em meio vários processos contra ele por conta de troca de favores entre amigos, alguns com o recebimento de “presentes”.
Em uma charge recente, o desenhista Renato Aroeira mostra Bolsonaro e Nethanyau representando uma suástica, o símbolo mais conhecido do Nazismo. Apesar do Fascismo e do Nazismo terem convivido juntos e terem muito em comum, são duas ideologias diferentes. Isto causa uma certa confusão e como o Fascismo não possui um símbolo internacionalmente conhecido, a suástica acaba sendo utilizada para dizer que alguém é de extrema direita, um fascista.
A charge causou um furor entre muitos judeus, especialmente os que se alinham com os dois nela representados, e gerou processo na justiça contra o autor. Na esquerda judaica, ela ficou no patamar do mal gosto, mas em geral ninguém viu nela nada de antissemita.
A discussão que se abriu, é recorrente. Pregar contra Israel ou seu primeiro ministro é antissemitismo? Ser antissionista é ser antissemita?
A resposta para estas perguntas costuma definir entre nós judeus, quem é de esquerda e quem é de direita. Os judeus progressistas dirão que não existe antissemitismo, os de direita o contrário.
A explicação não é fácil. O governo Israelense possui um afiado sistema de propaganda conhecido como Hasbará (Relações Públicas). Existe muito antes de Bibi subir ao poder, e hoje é utilizado magistralmente por ele e seus seguidores.
A Hasbará mostrava, por exemplo, o mapa do Oriente Médio em uma proporção onde Israel aparecia como um ponto cercado por dezenas de países árabes superiores em habitantes e terras. Era um pedido de simpatia para a única democracia do Oriente Médio que era atacada militarmente por seus vizinhos que queriam destruir o estado judaico.
A Hasbará dos nossos dias, insiste em mostrar o antissionismo como uma atividade antissemita. Uma forma inteligente de dizer em outras palavras, que na realidade todo aquele que ataca Israel está na verdade atacando os judeus. Todo aquele que critica a política israelense, na verdade está atacando o povo judeu. Todo aquele que se alinha com os palestinos e prega a necessidade da criação de um Estado Palestino, na verdade deseja a destruição do Estado de Israel e como consequência o desaparecimento dos judeus.
A charge do Aroeira cai como uma luva para eles. Primeiro, ela mostra um judeu sendo chamado de Nazista, uma ofensa grave. Segundo, ela mostra um ataque a Israel expressa na figura de seu primeiro ministro, o que seria na verdade um ataque aos judeus em geral. Portanto, na compreensão deles e do que prega a Hasbará, um ato antissemita que deve ser punido de acordo com a lei.
Eu fui um dos que levaram o Ministério Público do RS a processar Siegfried Ellwanger, o dono da Editora Revisão que publicou no final dos anos 80 toda a coleção de literatura antissemita conhecida. Começou com um livro de sua autoria intitulado Holocausto, judeu ou alemão? Seguido dos Protocolos dos Sábios de Sião e todos os livros de Gustavo Barroso, Henry Ford etc. Toda literatura antissemita foi promovida por ele e sua editora.
A condenação só foi possível depois da Lei 7716/89 que definiu especificamente o crime de apologia ao Nazismo. O que eu quero ressaltar é que a lei proíbe o uso da suástica quando utilizada em apologia ao regime. Ela também abrange os “crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”, com pena de reclusão de 1 a 3 anos, e multa.
A charge com a suástica não foi feita com o intuito de promover o nazismo. A questão é se ela é discriminatória ou preconceituosa contra os judeus. De acordo com a Hasbará, sim. Uma vez atacando Bibi, ele está atacando os judeus. Este é o argumento de acusação que provavelmente está no processo.
É bastante óbvio que a intenção da charge, como outras similares criadas por diversos artistas no mundo inteiro, foi mostrar que o Brasil está se alinhando com os representantes da extrema-direita conhecidos mundialmente. Apesar do uso da suástica nesta, e em diversas outras charges, ninguém de bom senso pode ver outra coisa, senão a intenção de mostra uma guinada para a aliança com regimes fascistas.
Em um Estado de Direito, ele não teria a menor chance de vingar e provavelmente seria descartado em primeira instância. No Brasil de hoje, Aroeira corre risco, uma vez que a justiça está a serviço do poder Executivo e a segunda figura na charge é ninguém menos que o atual Presidente da República.
Um caso destes tem outras consequências. A questão econômica é uma delas. Aroeira vai precisar pagar um advogado em sua defesa e ela pode passar da primeira instância e começar a se tornar cara.
A outra, obviamente, é a intimidação. Aqui se deseja acabar com o direito da livre expressão e da crítica jornalística. O intuito é de causar pavor a outros jornalistas e chargistas para que não usem de nenhuma forma de linguagem contra o atual poder de estado.
Este é o resultado de uma situação criada depois da eleição do governo mais medíocre que o Brasil já teve. Uma mistura de milicos inexpressivos com evangélicos goiabeiros acobertados pela justiça, o que torna este caso o prenúncio do que aguarda a liberdade de expressão enquanto eles estiverem no poder.
Estamos assistindo dentro da comunidade judaica do Rio de Janeiro o descalabro de mais uma instituição que ao contrário da Hebraica que é apenas um clube social, desta vez tem a autoridade representativa da comunidade carioca, a FIERJ (Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro).
No Brasil, a entidade máxima da comunidade é a CONIB (Confederação Israelita do Brasil), e a ela estão filiadas as federações israelitas dos estados, que por sua vez representam as comunidades locais.
A CONIB achou por bem encaminhar um documento aos dois concorrentes à presidência da república, onde em resumo, fazia a defesa do respeito à democracia. Em nenhum momento, como era de se esperar, a CONIB expressou qualquer agravo, ou desagravo a nenhuma das candidaturas.
Eis que, o Sr. Ary Bergher, presidente da FIERJ, encarregado de fazer a entrega da manifestação ao representante do PSL, faz disso um ato de apoio da comunidade judaica ao candidato do partido.
Esta atitude combina um ato de falsidade ideológica com apropriação indébita. Ele não recebeu mandato da CONIB para apoiar um candidato e tampouco era o dono do manifesto. O que assistimos foi o mensageiro se assumindo o responsável pela mensagem.
Como nada está tão ruim que não possa piorar este mesmo senhor em meio a um evento na já famigerada Hebraica-RJ, agride uma senhora de 88 anos por banalidades e ofende outros tantos membros da comunidade que lá estavam.
De certa forma já estamos assistindo no Brasil atos de violência inomináveis, inclusive com mortes e todos relacionados com a campanha política do PSL.
O que ainda não havia acontecido, e talvez seja esta a grande novidade, é que eis que nas nossas próprias instituições, a violência já bate a porta vinda justamente daquele que foi eleito para representar toda uma comunidade.
O Sr. Ary Bergher é apenas o primeiro a colocar as mangas de fora, mas certamente não será o último, principalmente se a comunidade carioca não tomar as providências cabíveis dentro do que está previsto no estatuto da federação.
Também é preciso que a CONIB não se omita e se manifeste em favor do respeito à democracia, objeto de seu manifesto, e da dignidade que dirigentes comunitários precisam ter respeitando a todos.
A história do Sionismo Socialista não estaria completa sem mencionar a figura de Moses Hess , um filósofo franco-judeu e um dos fundadores do Sionismo Trabalhista. Nascido em 1812 e morto em 1875, influenciou dois dos maiores personagens da história do comunismo e com eles conviveu, Marx e Friedrich Engels com quem acabou entrando em conflito.
O pai de Hess era um rabino, mas nunca exerceu a profissão. Recebeu uma educação religiosa de seu avô e foi estudar filosofia na Universidade de Bonn, não concluindo o curso.
Ele se casou com uma pobre costureira católica, Sibylle Pesch, “para corrigir a injustiça perpetrada pela sociedade”. Apesar de permanecerem felizes no casamento até a morte de Hess , ela teria tido um suposto caso com Friedrich Engels quando ele a contrabandeou da Bélgica para a França para se reunir com o marido. O incidente pode ter sido uma das razões para Hess se separar do movimento comunista .
Hess foi um dos primeiros proponentes do socialismo e precursor do que mais tarde seria chamado sionismo. Como correspondente do Rheinische Zeitung, um jornal radical fundado por empresários liberais renanos (Renania), morou em Paris. Como amigo e colaborador de Karl Marx (que também trabalhou no Rheinische Zeitung) e Friedrich Engels. Foi Hess quem introduziu Engels, no comunismo no início da década de 1840.
Mas Marx e Engels se tornariam bem conhecidos por sua abordagem inconstante e combativa de colegas socialistas que demonstraram insuficiente concordância com sua própria forma de socialismo. No final da década de 1840, eles haviam rompido com Hess. Eles zombaram dele, primeiro pelas costas e depois abertamente. O trabalho de Hess também foi criticado em parte pela The German Ideology por Marx e Engels.
Este rompimento teve como origem o fato de Hess relutar em basear toda a história nas causas econômicas e na luta de classes (como fizeram Marx e Engels), e ele passar a ver a luta das raças, ou nacionalidades, como o fator primordial da história. Hess seguiu contemporizando com Marx em várias questões.
Entre 1861 a 1863, ele viveu na Alemanha, onde se familiarizou com a crescente onda de antissemitismo alemão. Foi então que ele voltou ao seu nome judaico Moses (Moisés), depois de aparentemente ter adotado o nome de Moritz Hess em protesto contra a assimilação judaica. Ele publicou Roma e Jerusalém em 1862, onde interpreta a história como um círculo de raça e lutas nacionais. Ele contemplou a ascensão do nacionalismo italiano e a reação alemã a ele, e a partir disso chegou à ideia do renascimento nacional judaico e ao seu entendimento precavido de que os alemães não seriam tolerantes com as aspirações nacionais de outros e seriam particularmente intolerantes com os judeus. Seu livro pede o estabelecimento de uma comunidade judaica socialista na Palestina, alinhada com os movimentos nacionais emergentes na Europa como única maneira de responder ao antissemitismo e afirmar a identidade judaica no mundo moderno.
Apesar de previsão de Hess, a imensa maioria dos judeus alemães estava empenhada na assimilação cultural e não atendeu aos seus avisos. Seu trabalho não estimulou atividade política ou discussão.
Quando Theodor Herzl leu Roma e Jerusalém pela primeira vez, escreveu que “desde Espinosa que os judeus não tinham um pensador maior do que aquele esquecido Moses Hess”. Ele disse que talvez não tivesse escrito Der Judenstaat (O Estado Judeu) se tivesse conhecido Roma e Jerusalém de antemão.
Causa espécie o fato da esquerda desconhecer Hess. Até mesmo o recente filme “O Jovem Marx” não o menciona.
Depois de ter escrito sobre o inicio do Sionismo Socialista e alguns de seus precursores, como Ber Borochov, Nachman Sirkyn e Moses Hess, é preciso contar um pouco da vida e da obra de Berl Katznelson, um dos fundadores intelectuais do Sionismo Socialista, que instrumentou o estabelecimento do moderno Estado de Israel.
Nasceu em 25 de janeiro de 1887 em Babruysk, Império Russo (atualmente Belarussia) e faleceu em 12 de agosto de 1944 em Israel vítima de aneurisma. Filho de um membro de Hovevei Sion (Amantes de Sion), ele sonhava em se estabelecer na pátria judaica desde cedo. Na Rússia, ele era bibliotecário em uma biblioteca hebraico-iídiche e ensinava literatura hebraica e história judaica. Acabou fazendo aliá (termo hebraico que significa subida) para a Palestina Otomana em 1909, onde trabalhou na agricultura e assumiu um papel ativo na organização de federações operárias baseadas na idéia de “trabalho comum, vida e aspirações”.
Juntamente com seu primo, Yitzhak Tabenkin, Katznelson foi um dos fundadores do sindicato dos trabalhadores israelenses, a Histadrut. Nesta função, juntamente com Meir Rothberg do Kibutz Kinneret, fundou em 1916 a cooperativa de consumidores conhecida como Hamashbir (que anos mais tarde viria a se tornar uma rede de lojas do movimento kibutziano) com o objetivo de suprir as comunidades judaicas da Palestina com alimentos a preços acessíveis durante os terríveis anos de escassez no mercado durante a Primeira Guerra Mundial. Ele ajudou a estabelecer o Serviço de Saúde Klalit que provia as necessidades médicas para a população (algo similar ao INSS no Brasil) que se tornou um importante dispositivo na rede de medicina socializada de Israel. Em 1925, juntamente com Moshe Beilinson, Katznelson estabeleceu o jornal diário Davar, e tornou-se seu primeiro editor, cargo que ocupou até a sua morte, além de se tornar o fundador e primeiro editor-chefe da editora Am Oved.
Katznelson era bem conhecido por seu desejo de coexistência pacífica entre árabes e judeus em Israel. Ele era um opositor declarado do plano de partição da Comissão Peel para a Palestina. Disse ele:
“Eu não desejo ver a realização do sionismo na forma do novo estado polonês com os árabes na posição dos judeus e dos judeus na posição dos poloneses, o povo governante. Para mim, isso seria a completa perversão do ideal sionista … Nossa geração tem sido testemunha do fato de que nações aspirantes à liberdade que se livraram do jugo da subjugação apressaram-se em colocar este jugo sobre os ombros dos outros. Ao longo das gerações em que fomos perseguidos, exilados e massacrados, aprendemos não apenas a dor do exílio e do domínio pela força, mas também o desprezo pela tirania. Isso era apenas um caso de uvas azedas? Estamos agora alimentando o sonho de escravos que desejam reinar?”
Katznelson também falou de auto-ódio judaico, dizendo:
“Existe outro povo na Terra tão emocionalmente distorcido que eles consideram tudo o que sua nação faz desprezível e odioso, enquanto todos os assassinatos, estupros, roubos cometidos por seus inimigos enchem seus corações com admiração e reverência?”
Muito do que foi realizado por Katznelson moldou a sociedade israelense até 1977 quando a direita assumiu o poder e ali permanece até os dias de hoje.
Quando a esquerda sionista fala de Israel, fala com conhecimento e direito a manifestação. Como aqueles no passado, defendemos a coexistência com os palestinos e lutamos pelo estabelecimento de seu estado nas linhas de fronteira de 1967.
Somo favoráveis a um acordo de paz que traga justiça e convivência pacífica entre nossos povos e apoiamos os companheiros palestinos que têm a mesma visão.
A esquerda sionista desafia a esquerda tradicional nos países em que vivemos a se libertar do ranço antissionista e nos ajudar a combater o antissemitismo em todo espectro político, compreendendo finalmente que somos uma força política considerável.
Nossa luta é travada no dia a dia contra todos aqueles que desrespeitam a existência de Israel e confundem, seja por ignorância, seja por convicção a política de estado atual com a existência política do estado que está fazendo 70 anos.
Conclamamos todas as forças de esquerda a se unirem sem discriminação na luta contra o golpe, pelo exercício pleno da democracia e o fim da politização no judiciário que atropela a constituição e exerce um quarto poder.
Nós estamos na luta independentemente dos grupos sectários e radicais que tanto mal causam a esquerda.
Ao falar dos precursores do movimento sionista socialista tive em mente esclarecer os fatos históricos e demonstrar de uma vez por todas que nem todo sionismo corresponde à doutrina religiosa ou de direita. Que o sionismo como movimento nacional judaico, sempre teve suas diversas correntes de pensamento, como todo movimento nacionalista.
Nós não somos nem melhores, nem superiores aos nossos pares da esquerda, somos iguais e como iguais exigimos sermos tratados.
Nós somos sionistas! Nós somos socialistas! Eleição sem Lula é Fraude!