Sionismo socialista para leigos, uma história do movimento socialista judaico. – primeira parte.

Recentemente, ao responder a um artigo de um jornalista e membro do PSOL do RS sobre o sionismo socialista, percebi o enorme desconhecimento daqueles que, mesmo convivendo na mesma trincheira conosco, insistem em nos menosprezar, duvidando da nossa existência.  A partir daí, resolvi escrever um artigo divido em 2 partes para contar de onde viemos, o que somos e o que representamos. Esta é a primeira parte.

Ao contrário do que muita gente imagina, o sionismo não surgiu com Theodor Hertzl, o sionismo teve inicio em 1881, com o inicio do movimento chamado de Primeira Aliá (aliá significa subir e é como os judeus denominam aqueles que imigram para Israel).

O que levou estes primeiros jovens judeus de origem russa e iemenita a partirem para a Palestina Otomana, um lugar até então apenas conhecido por eles pela ligação judaica histórica com Israel? A resposta não é outra senão o forte antissemitismo do século XIX.

É sabido que, desde a destruição do Segundo templo de Jerusalém pelos Romanos em 70 DEC, teve início a Diáspora (dispersão) com a maioria dos judeus passando a viver fora de Israel, conhecida também como Palestina, embora continuasse havendo ali uma constante presença de judeus também.

Saltando para o século XIX, em 1850, a Palestina tinha cerca de 350.000 habitantes. Aproximadamente 85% eram muçulmanos, 11% eram cristãos e 4% apenas eram judeus.

Em 1854, Judah Touro, um negociante e filantropista judeu deixou, após a sua morte,uma quantia em dinheiro para financiar assentamentos residenciais para judeus na Palestina. Sir Moses Montefiore (um banqueiro italiano naturalizado britânico, que foi considerado um dos mais famosos judeus do século XIX) foi nomeado executor de sua vontade e usou os fundos para uma variedade de projetos, incluindo a construção do primeiro assentamento residencial judaico e um asilo fora das muralhas da cidade de Jerusalém em 1860, que é hoje conhecida como Mishkenot Sha’ananim.

No Império Russo, as ondas de pogroms (palavra russa que significa “causar estragos, destruir violentamente”, mas que historicamente refere-se aos violentos ataques físicos da população em geral contra os judeus, tanto no império russo como em outros países) de 1881-1884 (alguns supostamente patrocinados pelo Estado), bem como as Leis de Maio antissemitas de 1882, introduzidas pelo czar Alexandre III da Rússia, tiveram um efeito devastador nas comunidades judaicas russas. Mais de 2 milhões de judeus fugiram da Rússia entre 1880 e 1920. A grande maioria deles foi para  os Estados Unidos, mas alguns decidiram realizar aliá.

E foi assim que em 1882, um grupo de Hovevei Tsion (Amantes de Sion)  fundaram Rishon Le Tsion (Primeiro Tsion), o primeiro assentamento sionista na então Palestina, apesar dos obstáculos colocados pelo governo turco, que impediam a compra de terras.

Um outro grupo do Movimento Bilu formado por quatorze estudantes universitários de Kharkov na Rússia, liderados por Israel Belkind, que mais tarde se tornaria um proeminente escritor e historiador, também chegaram a Palestina Otomana. Depois de uma curta estadia na escola de agricultura judaica em Mikveh Israel, eles se juntaram aos membros de Hovevei Tsion na criação de Rishon LeTsion (Primeiro Sion), uma cooperativa agrícola em terras compradas da aldeia árabe de Ayun Kara.

Atormentados por escassez de água, doenças e dívidas financeira, o grupo abandonou o local em poucos meses. Eles então buscaram ajuda do Barão Edmond James de Rothschild e Maurice de Hirsch, que forneceram os fundos necessários para o estabelecimento da primeira indústria vinícola local. Em 1886, começou a construção de uma vinícola em Rishon LeTsion, que se tornaria uma empresa de sucesso exportadora de vinho.

No inverno de 1884, um outro grupo de pioneiros Bilu fundou Gedera que foi estabelecida num terreno comprado da aldeia árabe de Qatra por Yehiel Michel Pines, do Hovevei Tsion, sob os auspícios do cônsul francês em Iafo.

Desta forma a primeira aliá que teve início em 1881 e durou até 1903, levou algo entre 25.000 e 35.000 judeus para a Palestina.

A maioria dos que chegaram pertenciam aos movimentos Hovevei Tsion e Bilu. Esses imigrantes criaram muitas comunidades agrícolas, assentamentos, e cidades como Petach Tikva, Rishon Letsion , Rosh Pina e Zihron Yaakov. Nenhuma delas em terras invadidas ou expropriadas.

Enquanto chegavam os primeiros imigrantes na Palestina em 1881, nascia na Ucrânia, Ber Borochov. Sua mãe e pai eram ambos professores. Quando adulto, ingressou no Partido Trabalhista Social-Democrata da Rússia, mas foi expulso quando formou uma União Sionista de Trabalhadores Socialistas em Yekaterinoslav. Depois de ser preso pelas autoridades russas, ele partiu para os Estados Unidos. Posteriormente, ajudou a formar o partido Poalei Tsion e dedicou sua vida à promoção do partido na Rússia, Europa e América. Quando O Partido Operário Social Democrata russo chegou ao poder, Borochov retornou à Rússia em março de 1917 para liderar o Poalei Tsion. Ele ficou doente e morreu em Kiev de pneumonia em dezembro de 1917.

Borochov tornou-se altamente influente no movimento sionista porque explicou o nacionalismo em geral e o nacionalismo judaico em particular sob a ótica da luta de classes marxista e do materialismo dialético. Ele via a si mesmo como um marxista, e expôs sua filosofia em sua primeira grande obra publicada em 1905, “A Questão Nacional e a Luta de Classes”. Borochov previu que as forças nacionalistas seriam mais importantes na determinação de eventos do que considerações econômicas e de classe, especialmente no que se referia aos judeus. Ele argumentou que a estrutura de classe dos judeus europeus se assemelhava a uma pirâmide de classes invertida onde poucos judeus ocupavam as camadas produtivas da sociedade como trabalhadores. Para ele, os judeus que até então migravam de país para país quando eram forçados a sair de suas profissões escolhidas por um “processo estético” acabariam sendo forçados a imigrarem para a Palestina, onde formariam uma base proletária para levar adiante a luta de classes marxista.Em novembro de 1905 ele se juntou e logo se tornou um líder do movimento Poalei Tsion (Trabalhadores de Sion). Ele se tornou um ávido defensor de um sionismo baseado na Palestina após o VI Congresso Sionista, durante o qual foi debatida a questão de Uganda como um possível refúgio temporário para os judeus.

Uma parte fundamental da ideologia de Borochov era que as classes trabalhadoras árabes e judias tinham um interesse proletário comum e participariam juntas da luta de classes quando os judeus retornassem à Palestina. Em seu último discurso gravado, ele disse:

“Muitos apontam os obstáculos que encontramos em nosso trabalho de colonização. Alguns dizem que a lei turca dificulta nosso trabalho, outros argumentam que a Palestina é insignificantemente pequena, e ainda outros nos acusam do odioso crime de desejar oprimir e expulsar os árabes da Palestina .

Quando as terras devastadas são preparadas para a colonização, quando a técnica moderna é introduzida e quando os outros obstáculos são removidos, haverá terra suficiente para acomodar tanto os judeus quanto os árabes. As relações normais entre os judeus e os árabes prevalecerão e deverão prevalecer”.

Após a morte de Borochov o movimento russo Poalei Zion dividiu-se em duas facções sobre que atitudes tomar em relação à Revolução Bolchevique de outubro de 1917. O Poalei Sion Esquerda formou a “Brigada Borochov” que se uniu ao Exército Vermelho durante a Guerra Civil Russa e, por fim, se separou do partido principal Poalei Sion para se tornar o Partido Comunista Judeu em 1919 e se unindo à seção judaica (Yevsektsiya) do Partido Comunista da União Soviética, enquanto a chamada direita social-democrata do Polalei Sion foi proscrita.

Outro expoente do sionismo socialista foi Nachman Sirkyn, nascido em 11 de Fevereiro de 1868 e morto em 6 de Setembro de  1924 na cidade de Mogilev, Império Russo (atual Belarussia). Ele foi influenciado na sua juventude pelo Movimento Hovevei Zion e pelo socialismo e se dedicou a sintetizar os dois conceitos. Nesta tarefa ele foi acompanhado por Ber Borochov, embora, ao contrário de Borochov, Syrkin não fosse um marxista ortodoxo. Ele foi um dos líderes da facção sionista socialista no Primeiro Congresso Sionista em 1897 e foi um dos primeiros proponentes do Fundo Nacional Judaico. Ele também foi a primeira pessoa a propor que os emigrantes para a Palestina formassem assentamentos coletivos. Estes assentamentos foram a origem dos Kibutzim (fazendas coletivas), cuja ideologia propunha que cada membro trabalhasse de acordo com as suas possibilidades e recebesse de acordo com as suas necessidades.

Ao contrário de muitos outros pensadores socialistas da época, Syrkin estava bastante à vontade com sua herança judaica e, embora ele não o diga explicitamente em seu ensaio “O Problema Judaico e o Estado Socialista Judaico” (1898), alguns pensadores acham ele tinha em mente a ênfase bíblica na justiça social estrita, independentemente de riqueza, poder ou privilégio. No entanto, ele viu o sionismo como um substituto para o judaísmo tradicional:

“O novo judaísmo sionista está em total contraste com o judaísmo do exílio … O sionismo arranca o judaísmo religioso de uma forma mais forte que a reforma ou assimilação, criando novos padrões de “judaísmo” que constituirão uma nova ideologia que pode ser elevada ao status de uma religião”.

Syrkin trabalhou para estabelecer grupos sionistas socialistas em toda a Europa Central. Depois de estudar e trabalhar na Alemanha e na França e depois de ser banido da Alemanha em 1904, retornou à Rússia após a Revolução Russa de 1905. Ele participou do Sétimo Congresso Sionista de Basileia em 1905 como delegado do novo Partido Sionista dos Trabalhadores Socialistas. Em 1907 ele se mudou para os Estados Unidos, onde se tornou um dos líderes do partido Poalei Sion na América.

Em 1919, Syrkin foi membro da delegação judaica americana na Conferência de Paz de Versalhes. Ele também foi uma figura importante na conferência Mundial do Poalei Sion naquele ano e recebeu a tarefa de visitar a Palestina para desenvolver um plano para o assentamento de kibutzim. Ele pretendia se mudar para a Palestina, mas morreu de um ataque cardíaco em 1924 na cidade de Nova York.

Em 1951, seus restos mortais foram enterrados no Kibbutz Kinneret, ao lado dos outros fundadores do Sionismo Trabalhista. Kfar Sirkin (fundado em 1933) perto de Petach Tikva tem o nome de Nachman Syrkin.

A experiência das fazendas coletivas em Israel, talvez tenha sido o mais próximo do socialismo utópico que a humanidade já conheceu. Estes assentamentos, além do acolhimento de novos imigrantes revolucionaram a forma como os judeus eram vistos desde muitos séculos. Esta imagem estava associada a usura, religião e todas as formas de trabalho mais elitista. Com o Kibutz, um judeu proletário e ligado a terra tomou forma.

Todas as decisões nestas fazendas eram tomadas em assembleias gerais das quais tinham direito a palavra e ao voto qualquer um dos seus membros, homens e mulheres. Desde a aprovação de novos membros até a compra de bens para serem distribuídos, tudo era discutido nas assembleias.

O Partido Poalei Sion em Israel se dividiu em duas correntes, o Mapan que era marxista e o Mapai que era socialista não marxista. O mesmo aconteceu com o movimento kibutziano que se dividiu para cada lado. Alguns Kibutzin se dividiram ao meio, indo cada parte para um lado.

Esta experiência nunca foi copiada pelos árabes de Israel, nem por qualquer outro país árabe da região.

Antissemitismo, quando os extremos convergem

O antissemitismo não é nenhuma novidade no Brasil, mas ele tem sido mais contundente a partir de grupos e partidos que supostamente deveriam combatê-lo com mais vigor. Estou falando da esquerda brasileira.

Um recente artigo publicado e logo retirado no site Vermelho, do PC do B, com um pedido de desculpas, de autoria de Thomas de Toledo, é o fato mais recente que reascendeu o questionamento de parte dos judeus de esquerda, e causou a ira dos judeus de direita.

O texto em questão muito lembra o conhecido Protocolos dos Sábios de Sião, um livro apócrifo que atribui a dominação do mundo pelos judeus. Os protocolos serviram de inspiração para gerações de antissemitas, tanto de direita como de esquerda.

Thomas de Toledo possui belas credenciais: historiador formado pela USP, com mestrado em desenvolvimento econômico pela Unicamp, secretário geral do Cebrapaz e membro do PC do B.

Não é nenhuma novidade a associação ente Judeus/Israel/Sionismo, como se fossem tudo a mesma coisa quando se deseja atacar o Estado de Israel, e a associação Judeus/Religião/Brasileiros, quando se pretende justificar o não antissemitismo.

Quando afirma que Israel passou a controlar três ministérios chaves do governo golpista de Temer, nominando os ministros com sobrenomes supostamente judeus, Toledo está flertando com os Sábios de Sião. Ele não se distingue daqueles que afirmavam que na Páscoa os judeus faziam a Matzá (pão ázimo) com o sangue de crianças cristãs e os consequentes pogroms e mortes de judeus.

O Estado de Israel não somente foi criado por sionistas-socialistas, como sobreviveu inicialmente graças a ajuda da União Soviética. A representação de esquerda em Israel e os movimentos pacifistas pela criação de um Estado Palestino são formados em sua maioria por pessoas de esquerda. Este mesmo quadro praticamente não existe nos demais países do Oriente Médio. No entanto os movimentos e partidos de esquerda no Brasil são, em sua maioria, favoráveis a destruição do Estado de Israel. Não se contentam posicionar-se contra o atual regime político, claramente fascista e combatido pela esquerda israelense. Muito menos serem solidários com esta esquerda duramente combatida, não apenas pelo regime, como por inúmeros movimentos de extrema direita que os tratam como traidores da pátria.

O conceito de uma conspiração judaica para dominação mundial, como já disse antes, não é novo, tampouco no Brasil. Nos anos 80 e 90 até mesmo uma editora de livros antissemitas se estabeleceu no RS. Chamava-se Editora Revisão (sic) e tinha como proprietário Siegfried Elwanger, um notório revisionista que dizia possuir inúmeros amigos judeus.

O posicionamento contrário a Israel por parte da esquerda também não é novidade no Brasil. O que sim vem surgindo como uma novidade é o famigerado antissemitismo disfarçado de uma política anti-Israel.

Quando um Partido Político de esquerda dá guarida a um texto inequivocadamente  antissemita, ele fere de morte todo o preceito básico da ideologia socialista. Ele se contradiz em si mesmo e se assemelha ao fascismo e todas as suas matizes.

Ironicamente os judeus sempre estiveram ligados a esquerda em nosso país mantendo intensa atividade política com movimentos e partidos de esquerda.

A participação nos anos 20 e 30 foram significativas em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador e Belo Horizonte. No Rio de Janeiro a esquerda judaica se reunia em torno da Biblioteca Scholem Aleichem (que mais tarde se transformaria na ASA), na Brazkcor, Sociedade Brasileira Pró-Colonização Judaica na União Soviética, e no Centro Operário Morris Vinchevsky. Em São Paulo eram conhecidos os grupos Cultura e Progresso e, já em 1954, o Instituto Cultural israelita Brasileiro (Icib), a Casa do Povo, de tendência comunista, junto ao Teatro de Arte Israelita Brasileiro (Taib). Por curiosidade, a língua e a cultura idiche foram um aglutinador importante destes movimentos.

Na era Vargas os judeus participaram intensamente dos movimentos sindicais, universitários, organizações populares e centros culturais comunitários. Haviam judeus membros da Aliança Nacional Libertadora e no Partido Comunista Brasileiro. Um nome não pode deixar de ser mencionado: Olga Benário.

Nos dias de hoje existem judeus em todo o espectro partidário de esquerda.  Portanto em nada se justificaria no Brasil a intrínseca associação entre esquerda e antissemitismo, no entanto ela existe.

Eu concluo que independentemente de ideologias, a esquerda tem em seus quadros pessoas preconceituosas que diferentemente do que se poderia esperar, afrontam os preceitos ideológicos de sua formação. Não creio que a esquerda brasileira seja antissemita, mas acredito que em seu seio existem militantes que em dada diferem dos membros de organizações fascistas quando o tema é o judeu.

O antissemitismo, muito mais do que ideológico, é um estado doentio de natureza humana e de ordem privada.

OBS: Alguns dados foram obtidos em A História dos Judeus no Brasil – CONIB e no Livro de Maria Luiza Tucci Carneiro, O anti-semitismo nas Américas: memória e história.