Antinomia, palavra grave e raramente ouvida fora dos manuais de filosofia, é o nome dado ao escândalo lógico de ver duas proposições contraditórias sustentadas por razões igualmente sólidas, e não é uma simples contradição, porque a contradição pode ser desfeita pela escolha de um lado, ao passo que a antinomia permanece insolúvel, nela tanto a tese quanto a antítese persistem como verdades legítimas, e não há raciocínio que desfaça o nó, dizia Kant quando perguntava se o universo tem um começo ou é eterno, se a matéria é divisível até o último grão ou se a divisão é infinita, e em cada resposta encontrava a força da afirmação e a mesma força na negação, como se a própria razão tivesse chegado ao limite de si mesma.
E é precisamente nesta terra que a antinomia abandona o papel e toma forma em famílias inteiras, nos corpos dos que retornaram após o extermínio, nos que nasceram sob tendas de refugiados, nos que carregam as cicatrizes das guerras, nos que herdam as memórias da expulsão. Israel existe porque o exílio e a perseguição ameaçaram extingui-lo e porque um povo precisou de chão de onde ninguém mais pudesse expulsá-lo, e essa afirmação é verdadeira; a Palestina existe porque habitou estas colinas desde tempos imemoriais, porque guarda as chaves de casas demolidas em Haifa e cultiva oliveiras plantadas por avós que não conheceram outro lugar, e essa afirmação também é verdadeira. O escândalo é que nenhuma das duas anula a outra, ambas se impõem como realidade em si, e no entanto cada uma nega a outra, e é isso que significa viver dentro de uma antinomia que não é conceito abstrato, mas destino histórico.
Eu falo deste lado da fronteira. Sou judeu, vivo em Israel, acredito no sionismo porque ele foi a resposta à ameaça de desaparecimento, às humilhações de séculos, ao extermínio que quase nos apagou e às guerras travadas aqui que nos obrigaram a defender, repetidas vezes, a nossa própria existência. Aqui está a minha vida, aqui está a minha casa, e a ideia de que este país exista é para mim questão de sobrevivência. Mas ao mesmo tempo, diante de mim, sei que há outro lado, igualmente real, igualmente vivo, igualmente marcado pela expulsão e pela perda, e não posso fingir que ele não exista. Carrego comigo o peso de reconhecer que a verdade do meu povo não apaga a verdade do povo palestino, e é justamente nessa colisão que sinto a antinomia não como conceito de livro, mas como chão de cada dia.
Aqui não se disputa apenas território ou política, aqui o que está em jogo é a impossibilidade de hierarquizar dores: como decidir se pesa mais a lápide quebrada em Varsóvia ou a chave guardada em Haifa, como medir o sangue perdido em guetos, em campos de extermínio e nas guerras de Israel diante do sangue que corre por vilas arrasadas, como atribuir maior direito a um medo de desaparecer ou a uma recusa em ser apagado. A razão, orgulhosa de suas medidas, tropeça diante de uma contabilidade impossível, e a cada tentativa de resolver o que pertence à vida com esquemas rígidos, retorna a conclusão de Kant: há limites que o pensamento não atravessa.
Antinomia, então, não é palavra para ser esquecida em tratados, é o nome desta casa rachada onde judeus e palestinos tentam, a cada manhã, acender a lâmpada, sabendo que o teto pode desabar, e ainda assim cozinham, trabalham, amam, como se fosse possível habitar um paradoxo sem perecer nele. E talvez seja justamente isso que esta terra revela ao mundo: que nem tudo se decide pelo martelo de um juiz, que nem toda disputa encontra veredicto, que há verdades que não se conciliam, mas que insistem em coexistir, que a vida, apesar de tudo, insiste em dançar sobre essa lâmina.
Mas é claro que dançar sobre lâminas cobra o preço do sangue, e é por isso que o solo desta terra está sempre manchado, ora visível nas manchetes que contam os mortos, ora invisível nos silêncios acumulados de uma geração à outra. Cada criança que nasce aqui é de imediato convocada a carregar não apenas o peso do próprio corpo, mas também a herança de um conflito que não escolheu, e a infância se torna campo de treinamento da memória: de um lado, os nomes dos guetos, as marchas forçadas, as valas comuns, as guerras que marcaram a sobrevivência de Israel; do outro, as casas demolidas, os registros de terra negados, os campos de refugiados onde crianças crescem olhando para além das cercas. O leite materno já carrega uma narrativa, e a escola apenas confirma que o destino não é folha em branco.
A antinomia não pode ser negociada em Oslo nem dissolvida em Camp David, não desaparecerá em discursos nas Nações Unidas, porque não está apenas no papel assinado ou rasgado, está no íntimo, no sangue herdado, no modo como cada um aprende a pronunciar a palavra nós e a palavra eles. E é por isso que, quando o mundo exige soluções rápidas, como se bastasse traçar linhas num mapa, a realidade responde com fracasso, porque não se trata de linhas, trata-se de identidades inteiras que se recusam a ser trocadas como peças de um tabuleiro.
E no entanto, ainda assim, a vida insiste: mercados abrem, trabalhadores atravessam postos de controle, médicos cuidam dos feridos sem perguntar sua origem, amantes se encontram em segredo como se pudessem inventar uma geografia oculta, uma pátria feita de dois corpos que se tocam. A antinomia, insolúvel, não impede que surjam pequenas interrupções de humanidade, quase clandestinas, mas reais, e talvez nelas resida a única forma de não sucumbir ao cansaço dos séculos.
Kant, diante de suas antinomias, aceitava o limite da razão como prova de que o pensamento humano não alcança o absoluto; aqui, o limite não é apenas da razão, é da política, da justiça, da fé numa reconciliação definitiva. O que se pode alcançar não é uma solução, mas a convivência com o insolúvel, e isso exige coragem maior do que a de vencer guerras, porque não há bandeira da vitória, há apenas a consciência de que ambos sobrevivem não porque se reconciliaram, mas porque nenhum conseguiu apagar o outro.
Talvez um dia a humanidade aprenda que a verdade pode ter mais de um rosto e que viver não é escolher entre eles, mas aceitar que todos permaneçam à mesa. Até lá, esta terra seguirá como o mais cruel laboratório da filosofia, lembrando-nos de que existem contradições que se resolvem e existem antinomias que apenas se suportam. E a pergunta que resta, a única que nos cabe repetir, é se seremos capazes de suportar essa ferida sem nos acostumarmos a ela, se poderemos permanecer humanos dentro daquilo que, por definição, não tem solução.
No século XXI, a guerra nunca acontece apenas no campo de batalha. Ela se apresenta em dois palcos simultâneos.
O primeiro é o território físico envolvido por drones, bombas, foguetes, artilharia, tanques etc. O segundo é o espaço simbólico: vídeos, fotos nas redes sociais, Reels no Instagram, manifestações e números que disparam em manchetes antes mesmo de o pó baixar.
No caso da guerra na Faixa de Gaza, o Hamas aprendeu a jogar nos dois campos. Mas, se no campo militar tem sofrido derrotas avassaladoras, é no campo midiático que ele tem dado um show de organização e eficácia.
A cada ataque israelense, a máquina de comunicação do grupo terrorista entrega à imprensa um pacote pronto com números exatos de mortos e feridos (só civis, e separados por crianças, mulheres e idosos); imagens fortes, algumas reais, outras reaproveitadas de conflitos passados, e até mesmo produzidas com ajuda de inteligência artificial; e, ainda, declarações emocionais de civis, mães, prontas para virar lead jornalístico.
O efeito é imediato: a notícia corre antes mesmo da verificação. Os editores precisam alimentar o ciclo ininterrupto de uma imprensa que não se restringe mais ao papel jornal entregue na porta ao dia seguinte.
Quem disponibiliza o conteúdo rapidamente e de forma dramático conquista espaço, sai na frente. Jornalismo e jornalistas também têm seus algoritmos analógicos, não apenas as redes sociais.
E isto o Hamas faz com excelência. Do outro lado, temos uma Israel que quase sempre começa seu comunicado sempre com um frio e desinteressante “estamos investigando”.
É como no exemplo de Erving Goffman em A Representação do Eu na Vida Cotidiana: o juiz que demora a apitar a falta perde autoridade. Não há var, ao menos instantâneo, nos campos de batalha.
O público pode até ouvir depois que o lance foi limpo, mas a imagem já foi criada. Na guerra, como no teatro, o tempo de entrada no palco é tão importante quanto o texto da fala.
Segundo o Ministério da Saúde de Gaza que é o Hamas, mais de 60 mil palestinos, todos civis, nenhum combatente, teriam morrido desde outubro de 2023. Destes, crianças e mulheres somariam aproximadamente 70% das vítimas. Esses dados, mesmo questionados e demonstrados como inverídicos, viraram padrão em veículos como BBC, Al Jazeera e até relatórios da ONU.
Israel diz ter eliminado cerca de 20 mil combatentes do Hamas e que a proporção é de 1,4 civis mortos para cada terrorista. Fez isto de forma tímida nas redes sociais, com frieza técnica e de forma genérica. E não insiste, não reitera, não detalha. Israel raramente apresenta listas nominais, fotos ou contexto individual que confirmem essa conta. E quando o faz, faz dias ou semanas depois.
Essa distância entre números não é apenas disputa de estatística. É um conflito sobre a própria definição de verdade, algo que Jean Baudrillard já explorava ao dizer que a Guerra do Golfo de 1991 “não aconteceu” porque foi mediada por imagens e discursos que se sobrepuseram à realidade física.
O público internacional não vê cadáveres identificados como combatentes; vê imagens de crianças ensanguentadas.
A guerra de dados é desigual porque o Hamas oferece imagens que despertam empatia imediata, enquanto Israel oferece gráficos e investigações futuras.
Em Gaza, Israel domina militarmente, mas não midiaticamente. É o oposto de Mosul, onde a força dominante controlou também a narrativa. E a percepção da opinião pública, tal como apresentada pela mídia em geral, se molda mais pela velocidade e emoção do que pela verificação e precisão.
Para Pierre Bourdieu, quem tem o domínio da linguagem impõe o discurso. Teríamos assim, como categorias de percepção em Gaza, a “criança vítima” versus o “terrorista abatido”.
E o Hamas, ao classificar rapidamente, está impondo a sua versão antes que a outra parte consiga reagir.
Parafraseando um provérbio, “não basta estar certo, é preciso parecer estar certo”. E no momento certo.
A credibilidade, como no árbitro de futebol, depende da performance imediata. O Hamas entende que a primeira imagem e o primeiro número, verdadeiros ou não, são os que colam na mente.
Israel parece atuar como se isto não fosse importante, como se houvesse tempo para “corrigir o placar”. Isto, no teatro midiático, não acontece.
Ainda com Goffman, o uniforme do médico, o jaleco branco, a batina do padre — todos elementos que antecipam confiança.
O Hamas, para o público internacional, veste o jaleco da vítima: suas mensagens vêm revestidas de emoção, de tragédia, de um absoluto desamparo.
Israel veste o terno do advogado: racional, técnico, frio. Mas no tribunal da opinião pública, quem conta a história com lágrimas quase sempre vence.
E não adianta lamentar, colocar a culpa nos outros.
A responsabilidade por essa derrota no palco midiático não é da ONU, nem da BBC, nem de um suposto viés antissionista ou antissemita.
A responsabilidade é única e exclusiva de Israel, que, tendo todos os meios técnicos para disputar a narrativa, pela verdade dos fatos, e parece ter optado por não disputar.
A história da guerra se apresenta como um filme para a audiência, na guerra das imagens quem chegar primeiro leva.
E, neste filme, Israel tem permitido que o papel principal fique com seu inimigo.
Antes de tudo, e que fique muito claro para quem começa a leitura com as certezas já afiadas como lâminas de vaidade, este texto não pretende absolver ninguém, nem condenar com a tranquilidade dos juízes bem pagos, o que se fará aqui é apenas o gesto antigo e perigoso de ligar pontos, porque os pontos existem e foram traçados não por mim, que apenas os sigo, mas pela própria história, que às vezes parece empenhada em repetir-se com variações de cenário e sangue, e se há algo que me move nesta escrita é a teimosa convicção de que o passado não passou, ele apenas aguarda uma brecha para entrar outra vez pela porta que nunca foi trancada.
O primeiro ponto se encontra na Noruega, fevereiro de 1943, sete homens deslizam montanha abaixo como sombras armadas não de glória, mas de urgência, e o nome do lugar é Vemork, fábrica de água pesada, elemento essencial para a bomba atômica que o regime nazista, assassino e delirante, sonhava construir, e que não construiu, ao menos não a tempo, porque aqueles sete decidiram que às vezes basta destruir um detalhe para salvar o mundo inteiro, não houve discursos, só o estrondo, e depois o silêncio da neve cobrindo o que restou da estrutura, e o que se ganhou com isso foi tempo, o suficiente para que a guerra seguisse seu curso sem cair de vez no abismo atômico, embora, sabemos, não demorou para que outros o inaugurassem em Hiroshima.
O segundo ponto está mais perto, mais quente, mais meu, outubro de 2023, Israel, o país que é meu e não sei mais como habitá-lo sem interrogações, foi rasgado por um ataque vindo da faixa de Gaza, sim, foram eles que dispararam, mas os que vivem aqui e não apenas visitam as manchetes sabem que aquilo não começou naquele dia, começou muito antes, nos escombros deixados onde um lar já foi, nos postos de controle que se multiplicam como fungos sobre feridas, nas décadas em que um povo foi tratado como hóspede indesejado em sua própria casa, e se o leitor espera aqui uma justificativa, engana-se de rumo, não se justifica o horror com o horror, apenas se tenta compreender o que o causou, e compreender é, muitas vezes, o verbo mais maldito que se pode conjugar em tempos de guerra.
O terceiro ponto surge em 2025, drones lançados da própria Rússia contra alvos russos, sim, leu bem, a Operação Teia de Aranha, nome que quase faz rir não fosse o que deixou debaixo dos escombros, aeronaves que transportariam, talvez, a mais grave das ameaças, destruídas por engenhocas pequenas e silenciosas, lançadas de caminhões que estavam ali havia meses, à espera, e não houve alarme, nem radar, nem satélite que visse, porque quem oprime esquece de olhar para dentro, e os ucranianos, com suas mãos calejadas e sua esperança ferida, souberam tecer a emboscada como quem aprendeu que, quando não se tem exército, resta a astúcia, e quando não se tem o direito, resta a urgência.
E é quando se olha esses três momentos, tão diferentes e tão iguais, que se entende que há um padrão, uma simetria de dor e resposta, de arrogância e ruptura, e que nenhum muro, nenhuma cúpula de ferro, nenhum tratado de defesa ou tecnologia de vigilância impede aquilo que fermenta em silêncio por décadas até encontrar sua hora, e se o leitor ainda crê em segurança absoluta, que continue acreditando, mas que o faça com um olho sempre aberto, porque o outro, mais cedo ou mais tarde, será fechado pela realidade.
E agora, ao fim desta linha que não é reta mas curva, como são todas as coisas humanas, deixo o ensinamento que me veio de casa, meu pai que nunca foi homem de grandes frases, mas que dizia, sempre que ouvia falar de justiça ou vingança, que é melhor um mau acordo do que uma boa demanda, e talvez seja só isso que ainda possa salvar-nos de repetir, com nova tinta e novo sangue, as mesmas histórias que fingimos não ver.
O governo já não fala, emite sons, palavras cortadas ao meio, promessas reduzidas a siglas, ordens que saem dos gabinetes como tosses secas, sem garganta nem destino, e ainda assim encontram ouvidos, encontram braços, encontram gente disposta a executar sem perguntar, a obedecer sem saber, a repetir sem entender, e um país assim não precisa de ideologia, basta-lhe um manual de conduta e o medo bem distribuído como pão racionado, e há tanto medo que já se confundiu com prudência, com civilidade, com responsabilidade nacional, dizem coisas como é melhor não mexer nisso agora, melhor esperar mais um pouco, melhor não confrontar por enquanto, sendo que o agora nunca é o momento certo, e o depois nunca chega, e é nessa hesitação continuamente adiada que se constrói o regime mais eficaz que já tivemos, aquele onde quase ninguém manda e quase todos se calam.
Há quem se levante todo dia com a firmeza mecânica de quem já não espera mais nada, vai trabalhar, ou ao menos tenta, come o que der para comprar com o que restou do salário, escuta o noticiário como quem observa o trânsito, não para entender, mas para confirmar que tudo continua exatamente onde estava, e se alguma mudança chega, chega para pior, e mesmo assim segue-se adiante, porque parar exige mais coragem do que continuar, e coragem é coisa que a gente já gastou como sola de sapato, dizem que o povo está cansado, talvez esteja, mas cansaço, quando vira desculpa, deixa de ser sintoma e passa a ser método, e método, disso sabemos bem, é coisa que este país sempre teve, mesmo que nunca tenhamos ousado dar-lhe esse nome.
O homem que comanda, se é que isso ainda pode ser chamado de comando, esse ofício de agarrar-se ao poder pendurado em cada nova rachadura como quem transforma o desmoronamento em escada, esse homem, portanto, não governa, administra a erosão com a habilidade de quem sabe que a terra cede devagar, e se o buraco se abre com elegância, ninguém grita, e os que andam com ele, ministros de coisa nenhuma, homens de vocabulário inchado e espinha flexível, distribuem palavras como se fossem destinadas apenas ao uso externo, porque por dentro já aprenderam a calar o que pensam, se é que pensam, e se pensam, é apenas no que perderiam caso deixassem de cumprir seu papel na engrenagem.
E o povo, esse mesmo que é chamado de soberano quando se precisa do seu voto e de submisso quando se anunciam cortes, observa tudo com os olhos treinados da normalização, esse hábito lento de aceitar o intolerável desde que ele venha parcelado e sem fazer muito barulho, ninguém quer escândalo, já basta o ruído do cotidiano, os preços, os turnos, os sustos, as sirenes que não dizem se vêm de fora ou de dentro, as estatísticas lidas em voz neutra por apresentadores que ainda acreditam que neutralidade é uma forma de virtude e não de omissão.
Nas escolas se aprende muito pouco e se desaprende muito depressa, e isso parece ser conveniente para todos os envolvidos, os professores que já não ousam, os pais que já não perguntam, os alunos que já nascem treinados para o pragmatismo, aqui não se educa para pensar, educa-se para obedecer, e obedecer é mais fácil quando não se conhece alternativa, por isso se conta a história aos pedaços, as datas importantes são as que servem para desfiles e cerimônias, os nomes que não têm estátua nunca existiram, e a geografia é mais mapa do que chão, um contorno cheio de linhas e zonas e ameaças, mas sem cheiro, sem poeira, sem gente, e assim se cresce num país onde o conhecimento é concessão e a dúvida, perigo, e cresce-se torto, que é o único jeito de caber dentro da estrutura.
O que se vê é um pacto, não dito, não assinado, mas firmado com cada gesto de conformidade, uma cidade cercada por câmeras, uma aldeia que desaparece antes do amanhecer e ninguém menciona no café da manhã, um velho empurrado no mercado e ninguém viu, uma criança sem escola que já aprendeu a calar, e a palavra segurança, dita com tanto fervor, tornou-se a cortina que cobre tudo o que não se quer discutir, há quem aponte o dedo para fora, porque sempre é mais confortável ter um inimigo externo do que encarar a podridão interna, e enquanto isso o país afunda sobre si mesmo, em silêncio, como uma casa construída sobre memória mal resolvida.
Ainda existem os que se dizem bons, e talvez sejam, ao menos aos sábados, ou quando publicam nas redes sociais que o mundo precisa de mais amor, e quando se veem diante da injustiça dizem que é complicado, que não é tão simples, que há dois lados, que é preciso considerar o contexto, e com essas palavras constroem muros mais eficientes que o concreto, porque impedem o pensamento de andar, a compaixão de atravessar, a dúvida de pousar, e onde não se permite dúvida, não há ética, só obediência com verniz de civilidade.
E há beleza, isso não se pode negar, uma beleza que engana, que distrai, que embriaga, as pedras brilhando ao sol, os campos tremendo com o vento, os nomes antigos ainda sussurrados nas ruas velhas, mas tudo isso é superfície, e por baixo a terra treme, não por causa de terremoto, mas por uma tensão que ninguém quer nomear, e que por isso mesmo se torna mais forte, mais funda, mais permanente, como uma rachadura atravessando o centro da consciência.
Escrever, então, não é vaidade, é urgência, porque há coisas que precisam ser ditas antes que se tornem invisíveis, porque quando tudo for normal, até o absurdo será norma, e haverá formulários para a crueldade, filas para a vergonha, carimbos para o silêncio, e se ninguém falar, só restarão os arquivos, e sabemos bem que há arquivos que nunca se abrem, e outros que, quando abertos, já não servem para nada, porque não há mais ninguém vivo que se lembre do que eles significavam.
E se um dia, talvez não hoje, talvez não amanhã, alguém perguntar onde estavam os que sabiam, os que viam, os que podiam ter feito alguma coisa, talvez descubram que estavam exatamente aqui, onde estamos agora, sentados, imóveis, com os olhos abertos mas sem piscar, esperando que alguém, qualquer um, fizesse por nós aquilo que sempre soubemos que nunca faríamos por ninguém.
Se me perguntassem hoje como nasce o ódio, eu não saberia responder com precisão, mas arriscaria dizer que talvez ele nem nasça, talvez sempre estivesse ali, esperando apenas que alguém o despertasse com uma palavra fora do lugar, uma lembrança incômoda ou, mais comumente, com aquele silêncio que diz tudo quando não se diz nada, porque nesta terra, onde cada pedra parece guardar uma memória e cada sombra carrega um nome perdido, aprendemos a armazenar o rancor como se fosse um bem valioso, protegido com zelo antigo, transmitido de geração em geração com o mesmo cuidado de quem entrega uma herança sagrada, embora feita não de posses, mas de feridas — e dessas, temos muitas — tão profundas e tão antigas que já nem sabemos se são realmente nossas ou se apenas continuamos a sangrá-las por fidelidade à dor de quem veio antes, e talvez seja por isso que odiamos com tanto empenho, porque há nisso uma estranha forma de pertencimento, como se, ao odiar, confirmássemos que ainda estamos vivos, ainda somos daqui, ainda sabemos o que é sofrer com convicção.
E, no entanto, se alguém nos arrancasse esse ódio, se nos deixassem apenas com a carne viva da dor que fingimos não sentir, talvez fôssemos forçados a encarar aquilo que evitamos há tanto tempo: os restos emocionais de uma guerra que nunca termina, as perdas que nos recusamos a chorar, os erros que colocamos nos ombros dos outros para não admitir o peso da nossa própria mão no gesto que machucou, e é aí, justamente aí, que tudo se complica, porque odiar é mais fácil do que lembrar com amor, mais fácil do que perdoar sem esquecer, mais fácil do que reconhecer, com vergonha e espanto, que atrás de cada rosto que chamamos de inimigo pode existir apenas outro alguém igualmente assustado, igualmente ferido, igualmente apegado ao rancor como escudo contra um mundo que insiste em não fazer sentido — e, se me permitem a heresia, talvez o ódio nos una mais do que qualquer promessa de paz, não porque seja justo ou bom, mas porque é compreensível, é simples, e sobretudo é eficaz, funciona como armadura contra a vulnerabilidade — e quem, aqui, nunca desejou ser invulnerável, nem que fosse por um instante?
Mas então vem a pergunta, e com ela a dúvida que me roubou o sono por tantas noites: se retirarmos o ódio, com o que ficamos? Com a dor pura, com a ausência de uma culpa alheia onde antes encontrávamos consolo, com a solidão de uma responsabilidade que não se divide, com o desconforto de saber que já não há um culpado claro e, por isso mesmo, não há redenção garantida — apenas o risco de despencar num abismo silencioso onde nem mesmo a autocompaixão consegue nos salvar — e isso, meus caros, pode ser mais cruel do que qualquer inimigo armado, porque é uma violência interna, sem nome, e ainda assim, talvez, necessária, porque só por ela talvez pudéssemos um dia encontrar algo parecido com a verdade — não uma verdade absoluta, essa pertence aos fanáticos e aos deuses — mas uma verdade pessoal, imperfeita, feita de contradições e hesitações, e que talvez por isso mesmo seja mais digna de confiança do que todas as certezas que usamos como espadas morais.
Não afirmo, vejam bem, que esse caminho seja redentor, tampouco acredito que a dor nos torne melhores, como gostam de repetir aqueles que nunca a sentiram de verdade, eu só digo que a dor, quando despida do ódio, revela o que há de mais insuportável em nós: a fragilidade essencial, a carência de sentido, o medo de não sabermos o que fazer com a liberdade de já não odiar, e talvez seja por isso que continuamos a cultivar o rancor com tanto esmero — não por vingança, mas por medo de não saber quem somos sem ele, medo de que, ao baixar o punho, descubramos a mão vazia e, o que é mais triste, incapaz de acolher.
E agora, enquanto escrevo esta última linha, hesito se devo encerrá-la com um ponto ou com uma interrogação, porque não sei se a pergunta que me faço é também aquela que vai ficar com você, leitor: será que, livres do ódio, seríamos fortes o bastante para suportar aquilo que sobra de nós?
Dizer que o nome dele era José seria, talvez, cumprir uma formalidade cartorial daquelas que só servem pra manchar papéis e preencher lacunas em biografias que ninguém pediu, com a mesma indiferença com que se anota a direção do vento numa segunda-feira sem história, mas o que importa mesmo, e nisso nem vale discussão, não é o nome com que se nasce, mas o nome com que se segue vivo, ou melhor ainda, o nome com que te chamam quando já não precisam mais te distinguir dos demais, mas apenas te reconhecer, e foi assim que José virou Pepe, não por vontade própria, nem por truque de marqueteiro querendo fabricar afeto onde só há cálculo, mas porque o povo — esse bicho estranho, difuso, que não tem rosto definido mas às vezes tem razão — decidiu que aquele homem magro, de costas curvadas e fala mansa, era um dos seus, e por isso podia ser tratado como se trata um irmão velho, um amigo que já errou o bastante pra não errar mais, alguém que viveu grande demais pra caber nas pequenas biografias, e por isso mesmo merecia um apelido, porque o apelido, ao contrário do nome, não se impõe, se ganha, e quando se ganha, revela.
E foi assim que Pepe, o ex-José, virou não só um homem com nome curto, mas um homem com história longa, história que não se escreve com verbinho educado nem advérbio que pede desculpa, mas com substantivos secos, ásperos, diretos: prisão, assalto, sequestro. Porque foi isso mesmo que ele fez. E não se deve esconder, nem enfeitar, nem empacotar com eufemismo, roubou banco, sim, sequestrou embaixador, sim, enfrentou o Estado com arma na mão, sim, e por isso foi preso, e por isso foi torturado, e por isso ficou catorze anos trancado entre grades que não serviam só pra separar do mundo, mas pra tentar apagar o homem por dentro. E durante três desses anos não viu sol, não viu gente, viu só formiga — sim, formiga — essas sim fiéis, essas sim constantes, essas sim capazes de escutar sem julgar. E não enlouqueceu porque aprendeu a conversar com o que ainda estava vivo em volta, e talvez por isso, quando finalmente abriu a porta da cela e pôs os pés de novo sob o céu, já não tinha sede, já não tinha pressa, já não tinha nenhuma gana de vencer, só a firme intenção de não trair.
E assim viveu, sem trair — o que já é mais do que se pode dizer de quase todos os que sentam em trono — e governou, sim, foi deputado, foi senador, foi ministro, foi presidente, e em nenhum desses cargos trocou de casa, de roupa, de mulher, de rotina, ficou no sítio, ficou com o mesmo carro velho, ficou com Lucía, que nunca foi primeira-dama porque nunca precisou ser, que nunca fez pose porque já era grandiosa, e ali, entre cachorros e hortas, entre silêncios e reuniões, entre o absurdo do poder e o milagre da vida comum, ele mostrou que não era necessário escolher entre ser gente e ser governo, que era possível ser os dois, e ao mesmo tempo, e com coerência, e com humildade, e com humor, e com desapego.
E quando a doença chegou — e doença assim não chega como quem bate na porta pedindo licença, chega como chegam as sentenças que já se sabem definitivas — Pepe não quis prolongamento, não quis tratamento que adia sem curar, não quis sobrevida, quis só o que ainda fosse vida, e o que já não fosse, que morresse logo, e foi assim que morreu, como morre quem não tem mais conta pra pagar nem palavra por dizer, e isso, sejamos francos, é raro, raríssimo, quase pecado nos tempos de agora, e ele se foi sem grito, sem câmera, sem cortejo, deixando só o silêncio como prova de que, sim, foi possível, ainda que só uma vez, ainda que só com ele.
E o problema, o verdadeiro problema, é que quase ninguém em Israel sabe disso, ninguém ouviu, ninguém leu, ninguém ensinou, e se perguntarmos nas escolas, nas universidades, nas redações, nas filas do supermercado ou nas cadeiras do Knesset, poucos saberão quem foi Pepe Mujica, e isso não é acaso, é projeto, porque se soubessem, talvez não aceitassem que o apelido mais repetido por aqui seja outro: Bibi — nome curto também, nome fácil também, nome dito com a falsa intimidade de quem acredita que conhece, mas só consome, porque Bibi não é apelido dado pelo povo, é apelido herdado da infância e transformado em marca de campanha, é apelido que se impôs como logotipo, como escudo, como perfume caro sobre carne podre, e todo mundo repete, Bibi pra lá, Bibi pra cá, como se isso bastasse pra torná-lo próximo, humano, acessível, quando ele nunca foi nada disso, nunca andou a pé, nunca abriu mão de nada, nunca ouviu o que não quis, nunca pagou pelo que fez.
E é aqui que a comparação se torna insuportável, porque de um lado temos Pepe — o homem que roubou e pagou, que matou e pensou, que lutou e depois se calou, que caiu e voltou sem rancor — e do outro temos Bibi — o homem que sempre teve tudo e ainda quer mais, que não se contenta em ter, precisa manter, precisa impedir que os outros tenham, que os outros sonhem, que os outros respirem. E o povo, esse mesmo povo que deu a Pepe um apelido com afeto, se deixou enganar por um apelido herdado, como se o som curto bastasse pra esconder o abismo longo, e ainda o chamam assim, Bibi, como se ele ainda fosse menino, como se ainda merecesse o colo que já traiu mil vezes, como se ainda fosse dos nossos, quando nunca foi, e nunca será.
E eu, que pertenço aos dois mundos, o daqui e o de lá, o das sirenes e o dos silêncios, digo com a dor de quem perdeu em dobro, que Israel nunca teve um Pepe, mas teve e tem um Bibi, e isso diz mais sobre o que somos do que qualquer guerra, qualquer lei, qualquer eleição, e por isso peço, não que o odeiem, nem que o derrubem, nem que o esqueçam, só que o chamem pelo nome que merece, Benjamin, porque Bibi não é mais dele, não tem direito, não tem afeto, não tem povo, não tem verdade, e se um dia teve, já perdeu.