por Mauro Nadvorny | 31 jan, 2020 | Brasil, Comportamento, Política
Ontem 30 de Janeiro aconteceu o aguardado ato de entrega de uma carta de apoio ao presidente Lula. Seria mais uma, entre tantas, que ele tem recebido, não fosse o detalhe de que esta vinha de um grupo judaico que se tornou um coletivo.
O acontecimento que teve a participação de inúmeras pessoas, lotou o auditório do Sindicato dos Químicos. Companheiros da esquerda judaica, políticos, artistas, amigos e convidados prestigiaram a festa.
Tudo transcorreu em um clima familiar. Foi como assistir a um encontro fraternal de amigos de sempre, unidos na resistência a este governo fascista, que vieram prestigiar aos companheiros judeus na entrega de uma carta simples, com um conteúdo de amor ao presidente Lula, reconhecendo a perseguição e a injusta condenação sofrida por ele.
Quando Lula pegou o microfone no final, Lula foi Lula, o sindicalista, o presidente, o estadista que todos aprenderam a admirar e que a direita nunca aceitou, nunca vai aceitar. Contou suas passagens relacionadas ao Oriente Médio. Suas tentativas de fazer um acordo nuclear com o Iran e ajudar a mediar o conflito entre israelenses e palestinos. Explicou como as nações europeias e os EUA não quiseram aceitar o Brasil como igual entre as nações, como um país emergente que pudesse ter um papel preponderante nos grandes conflitos mundiais.
Também contou dos 580 dias que esteve detido. De como escutava de dentro de sua cela todos os dias o Bom Dia, Boa Tarde e Boa Noite presidente Lula. Do quanto foi gratificante para ele saber que todas aquelas pessoas estavam lá por ele.
Lula foi implacável em dizer com todas as letras que Moro e todos aqueles que o condenaram são parte de uma quadrilha que estão entregando as riquezas nacionais. Disse que a Globo é responsável pelo ódio que está disseminado pelo Brasil. Falou tudo aquilo que todos gostariam de ter escutado antes.
Eu aqui de longe, tenho orgulho de todas e todos que lá estiveram e cumprimento os organizadores na pessoa do Jean Goldenbaum que tornou possível tudo isso. Uma prova de como uma atitude de amor ao próximo, contra a injustiça e pela democracia pode ajudar a aproximar todos aqueles que mantém a resistência e a esperança.
Claro que uma atividade como essa não poderia passar sem despertar uma ira doentia nos Bozojews. Uma parcela da comunidade judaica que segue apoiando o atual presidente a despeito de todos os sinais de atitudes nazifascistas que se somam dia a dia. Parcela esta que irá para o lixo da história juntamente com todos aqueles que ainda apoiam este governo.
Entre frenesis, mimimis, xingamentos e ameaças típicas desta gente, judias e judeus progressistas mostraram que a comunidade judaica não é aquela que estava dentro da Hebraica do Rio de Janeiro, mas a que estava do lado de fora protestando.
Nesta última semana, publiquei nas redes sociais diversas postagens relacionadas a esta atividade e outras que diziam respeito ao Holocausto pela passagem do dia Internacional de Memória pelos 6 milhões de judeus que foram assassinados pelos nazistas. Sem dúvida alguma, a imensa maioria das manifestações nas postagens foram de solidariedade e apoio. Poucas foram de antissemitas de esquerda, o que mostra que estamos desmontando a ideia incutida de que os judeus elegeram Bolsonaro.
A Carta ao presidente Lula entregue em mãos foi a mostra definitiva de somos parte de uma comunidade plural, inserida na sociedade brasileira, e que sofre, todos os dias, juntamente com ela, as mesmas mazelas que são impostas ao povo por este governo.
Mais do que tudo, o ato mostrou que judias e judeus continuam na trincheira da resistência até o fim, por justiça e democracia.
por Mauro Nadvorny | 10 jan, 2020 | Comportamento, Política
Dizem que todo antissemita tem um amigo judeu de estimação, real ou imaginário. Acredito que seja uma verdade, ao menos em parte.
Recentemente o tema do antissemitismo vem aparecendo na mídia mais do que devia. Não é para menos, episódios deste cunho vem assombrando uma das cidades mais cosmopolitas que conhecemos, Nova York, com episódios quase diários. O mesmo em Londres e Paris.
No entanto não precisamos ir tão longe. Em recente episódio em que fui envolvido, comentários de cunho antissemitas foram postados em profusão sem qualquer arbítrio. Alguns exemplos:
“Nadvorny, além de Ashkenhazy, caucasiano, é também SIONISTA. SIONISMO é um movimento FASCISTA DE JUDEUS ASHKENHAZY…”
“Ele é apenas um CRIMINOSO COMUM, MENTIROSO, QUE POSA DE VÍTIMA QUANDO NA REALIDADE É UM CARRASCO SANGUINÁRIO E CRUEL, como a maioria dos seus correligionários israelenses!!”
“Comportamento do Governo Judeu de Israel com o Povo Palestino é similar às barbáries
cometidas por Hitler durante a Segunda Guerra Mundial!”
Eu sempre soube separar a crítica ao governo de Israel que alguns se referem como antissionismo, do antissemitismo. Mesmo assim, é bastante claro a existência de uma linha tênue entre eles. Muita gente que se declara antissionista ataca o Estado Judeu como sendo um país que deve desaparecer, ou
nunca ter sido criado. São os antissemitas clássicos que tentam permanecer numa zona cinza.
A questão do Brasil é muito interessante. Seus habitantes nativos foram as tribos indígenas que habitavam o território. Os europeus dizem que “descobriram a América”, quando o correto seria dizer a verdade, eles invadiram a América. Portanto, todos os habitantes da América descendem destes invasores, ou aqui chegaram para completar o trabalho iniciado por eles. Como resultado disso,
centenas de milhares de indígenas foram mortos, outros escravizados. Os verdadeiros donos desta terra foram dizimados e os que restaram são tratados com desdém.
Os invasores, quando perceberam que os índios preferiam a morte, que a escravidão, precisando de mão de obra, foram buscar na África. A população negra brasileira não invadiu o território de ninguém. Foi trazida em acorrentada para trabalhos forçados. O Brasil foi o último país das Américas a abolir a
escravidão que durou praticamente 300 anos. Lula foi o primeiro e único presidente do Brasil a pedir desculpas pela escravidão dos negros africanos.
Quando vejo brasileiros defendendo a causa palestina, me solidarizo com eles. Eu também defendo a criação de um Estado Palestino. Mais do que isso, acredito que os Tibetanos tem direito a recuperarem sua independência e os Kurdos o direito ao Kurdistão, só para ficar nos povos mais conhecidos e com tragédias similares.
No entanto, não posso deixar de chamar atenção para o fato de que nunca neste país se fez um pedido de desculpas para os índios, os que tiveram suas terras invadidas por nossos ancestrais. Pior, continuamos invadindo o pouco de terras que restam para eles, com o pomposo nome de Reservas Indígenas,
e que este governo fascista deseja acabar. O correto teria sido o contrário, nós vivermos em Reservas de Descendentes de Europeus.
Portanto, seria interessante que a história do Brasil, as tragédias que foram causadas por nossa invasão para que tivéssemos um lugar para chamar de lar, saíssem da sombra onde se encontram e assumirmos nossa responsabilidade. Sim, vamos defender os direitos de outros povos, mas não podemos esquecer os direitos daqueles que vivem ao nosso lado.
O povo judeu tem uma história milenar. O que hoje constitui o Estado de Israel já foi parte do Reino de Israel no passado. Não é que tenhamos retornado para um território qualquer, retornamos para o mesmo lugar de onde saímos. A tragédia causada com este retorno é um problema que discutimos mesmo antes do dia da nossa independência. Este retorno foi construído por um ideal Sionista, que desejava recriar o Lar Nacional Judaico, voltar a Sião.
O objetivo foi alcançado, mas trouxe consequências. Uma delas é a questão palestina. Um povo que habitava o território e com o qual não houve acordo para dividir o território. A criação de Israel trouxe uma guerra e as consequências são conhecidas. O povo judeu teve seu país reconstruído e os palestinos viraram refugiados.
A segurança de Israel é constantemente ameaçada por países que até os dias de hoje não aceitam sua criação e pregam diariamente sua destruição. Como democracia parlamentarista, o país vem sendo governado por coalizões de partidos de direita nos últimos 20 anos. Pode-se discordar de sua política, como eu discordo, mas não se pode concordar com o fim que querem dar seus inimigos.
Os antissionistas existem tanto na direita como na esquerda brasileira. Se existe alguma coisa que una os dois extremos, é o antissionismo radical. Este tipo de antissionismo que serve como disfarce para o antissemitismo. Este que me ataca como judeu, como sionista e como socialista. Boa parte deles é formada por gente que desconhece sua própria história e que até hoje, absolutamente, nada fez para recompensar o mal causado no lugar onde vivem.
O ódio aos judeus é um preconceito que existe há milhares de anos. É tão conhecido que até em países onde a presença judaica não existe, ou é mínima, ele se faz presente. Talvez por nossa presença desde os primórdios da humanidade, seja este o precursor de todos os preconceitos humanos. Não faltam
explicações que vão desde assassinos de Cristo até, pasmem, dependendo do lado, de sermos capitalistas ou comunistas, etc.
Para conhecimento, somos um povo igual aos outros. Nem melhor, nem pior, apenas humanos como todo mundo. Como humanos também somos imperfeitos. Em nosso seio existe gente de toda espécie, como em qualquer outro povo.
E como dizem por aí, se o judeu não existisse, o antissemita inventaria um.
por Mauro Nadvorny | 7 jan, 2020 | Brasil, Comportamento
Vocês os arrependidos
Para cada nova tragédia anunciada, mais um grupinho de arrependidos surge nas redes sociais. Mais um dos grandes da mídia faz um editorial tentando limpar a sua imagem. Lamento, mas é tarde demais.
Esta gente deve estar se perguntando onde foi que errou. A desculpa mais comum era de que não queriam o PT, porque não queriam o Haddad, porque não queriam o Lula, porque não queriam a corrupção.
De trás para frente eu posso dizer que ninguém quer a corrupção em lugar algum, mas vocês são os mais corruptos desde sempre. Vocês são os sonegadores de impostos que preferem um desconto a uma nota fiscal. Preferem enganar o Imposto de Renda, sonegam o INSS e aplaudem quando um amigo conta de que maneira enganou o seguro.
Lula já havia sido condenado sem provas e vocês foram os que aplaudiram e transformaram o Moro em um super-herói da infância. Fecharam os olhos para todos os absurdos que ele cometeu e pregaram aos quatro ventos que os fins justificam os meios. Ajudaram a quebrar as maiores empreiteiras nacionais causando o desemprego de milhares de trabalhadores.
Haddad foi achincalhado com um tsunami de Fake News que vocês ajudaram a espalhar. Absurdos que vocês sabiam serem falsos e mesmo assim despejaram nas redes sociais. Notícias que sabidamente ajudaram a minar a candidatura dele.
Não querer o PT é legítimo, é do jogo democrático, afinal vivemos em uma democracia. Haviam muitos candidatos e qualquer um deles poderia ter recebido o voto de vocês, mas a escolha recaiu no mais inepto, no menos preparado, naquele que dizia com todas as letras para que vinha e mesmo assim vocês votaram nele.
Vocês me causam náuseas. Vocês são o que o ser humano tem de pior. Não faltaram avisos, todos os sinais estavam presentes, e mesmo assim vocês o elegeram. Ele falou contra os negros e teve o voto de vocês. Falou contra as mulheres e teve o voto vocês. Falou contra os LGBTs e teve o voto de vocês. Falou contra os ambientalistas e teve o voto de vocês. Nunca escondeu nada, foi tudo as claras, ninguém de vocês foi enganado.
Seu arrependimento não vai salvar o Brasil da vergonha diária internacional a que todos estamos sendo submetidos. Quando a gente acha que vai ter um dia de sossego ele nos lembra que ainda está lá colocado pelo voto de vocês. E quando não é ele, um membro da sua equipe assume o papel do mico.
Vocês nos colocaram nas mãos de um bando de infantilóides. Gente que falsificou currículos e se tornaram ministros de estado. Pessoas totalmente desqualificadas que dão ouvidos a um lunático que se intitula filósofo e que não consegue falar uma frase sequer que não contenha a palavra ânus com duas letras.
Nosso país, por causa de vocês, virou motivo de chacota e preocupação. Nossa imagem no exterior é de incredulidade. Estamos fazendo o grotesco Rodrigo Duterte, presidente das Filipinas, parecer um estadista se comparado a Bolsonaro.
Um avião presidencial com cocaína! Façam-me o favor de ficarem quietos e nos deixarem falar disso como se deve. Um presidente precisa estar protegido durante seus deslocamentos, qualquer presidente. Existe um grupo de homens treinados especialmente para isso, aqueles caras que protegem a instituição e que, em tese, dão as suas vidas para proteger o mandatário do país.
Um elemento da equipe de suporte as viagens consegue embarcar com 39 Kg de cocaína. E se fosse um Kg de material explosivo? Isso exige cooperação interna. Não é trabalho solo. Tem muito mais gente envolvida e não duvidem se forem próximos deste debilóide que vocês elegeram, ou dos filhos que vieram a reboque.
Falem sério, arrependidos? Acham que alguma penitência vai salvar vocês do purgatório? O cara que quer liberar fuzis para o cidadão de bem, que libera agrotóxicos proibidos no mundo civilizado, que quer acabar com os radares nas estradas, dobrar o número de pontos para perda de carteira de motorista, terminar com a necessidade de cadeira de proteção para crianças. Deste cara que vocês estão falando agora que se arrependeram de votar?
Ou será do sujeito que vai salvar nossa economia com o fim da tomada de três pontos, padrão internacional para salvar vidas. Ou este cara que está lá no Japão comprando briga com a França e a Alemanha mostrando que entende muito de diplomacia e mais ainda do clima.
O tamanho do mal que vocês causaram ao Brasil só será mensurado daqui há alguns anos. Os prejuízos econômicos e sociais são enormes e todos já estão sofrendo as consequências. A culpa é de vocês.
Dia 30 está chegando e gostaria de saber quantos de vocês ainda vão participar das manifestações a favor disso tudo. Pergunta chata, decisão difícil. Sair pra rua de amarelo batendo panela ao lado dos que pregam intervenção militar deve ser constrangedor, mas vocês se merecem. Existe outra opção, sempre se pode atravessar a rua e ficar ao lado dos monarquistas.
por Mauro Nadvorny | 5 jan, 2020 | Comportamento, Política
Leonardo Attuch recorre ao velho truque para encerrar a discussão: basta qualificar seu oponente como fascista.
Me causou surpresa o texto de Attuch sobre minha resposta ao que ele publicou. O título já é uma inverdade. Eu nunca disse que ele era antissemita, como vou mostrar mais adiante.
Mauro Nadvorny recorre ao velho truque para encerrar a discussão: basta
qualificar seu oponente como antissemita.
O colunista Mauro Nadvorny acaba de constatar que, ao contrário do que ele pregou para seus seguidores no Facebook, o Brasil 247 é um veículo de comunicação democrático. Aqui, em nossas páginas, ele acaba de publicar um artigo em que diz ter sido censurado por mim. Se não fôssemos visceralmente democráticos, evidentemente, não teríamos aberto espaço a esse artigo em que ele, inclusive, me rotula como antissemita. Ou, no mínimo, afirma que usei um argumento antissemita para criticá-lo.
Um grande mal dos nossos dias é o de que as pessoas não leem o que está escrito, e quando o fazem, distorcem completamente os fatos. Nossa discussão teve inicio com um artigo para a minha coluna ter sido censurado. Attuch acha que a não publicação não foi uma censura. Cada um de nós tem uma opinião diferente, o que seria legítimo. Eu não acho que o fato de Brasil 247 ter publicado minha
resposta ao que ele escreveu, seja um atestado de democracia visceral. Mostra apenas que me foi dado o direito de resposta.
Quanto a eu o ter rotulado de antissemita, não foi o que eu disse: “Falas que eu escrevo com uma visão de mundo etnocêntrica e que eu considero os judeus mais importantes que os demais. Lamento, companheiro, mas esta é uma afirmção antissemita com todas as letras. Jamais me coloquei acima de quem quer que seja, assim como em mais de um ano de publicações semanais fui chamado de etnocêntrico.” Ou seja, eu estou afirmando que o argumento dele foi antissemita, não que ele o seja. No entanto, ele faz uso disso na chamada, o que é uma baixaria.
É evidente que a acusação não faz sentido algum. Afinal, nosso motivo para vetar o artigo que ele diz ter sido censurado foi a defesa da vida como um valor absoluto. E me parece óbvio e ululante, como diria Nelson Rodrigues, que a defesa da vida, princípio basilar do que se convencionou chamar de Humanismo, jamais poderá ser classificada como uma postura antissemita. Muito pelo contrário.
Como já expliquei no meu artigo anterior, o texto de Mauro Nadvorny, em que ele celebra o assassinato do general Qasem Soleimani por Donald Trump, foi despublicado porque, já na primeira frase, ele argumenta que o mundo se tornou um lugar melhor para se viver após este assassinato. Mauro também disse que Soleimami ameaçava a sua existência e, em razão disso, celebrou a sua execução. Na minha crítica ao seu artigo, disse que ele reproduziu a lógica do discurso fascista – “bandido bom é bandido morto” – que os progressistas tanto combatem.
Eu também defendo a vida, não é este o ponto. O texto se refere ao que já havia acontecido. Meu artigo original censurado começa assim: “Sei que vou atrair a ira de parte da esquerda, mas vou dizer de qualquer maneira que hoje acordamos em um mundo um pouco melhor para se viver. Por razões que não vou entrar no mérito, os EUA mataram o Gen. Qassem Soleimani, chefe máximo da Força Quds, mais conhecida como a tropa paramilitar do clero iraniano, os Guardiões da Revolução.”
Depois disso explico quem é o cara e o país que ele servia e concluo: “Então, se um cara como Soleimani, um servidor de um regime como este que trabalhava para o replicar em outros países foi se encontrar com o Diabo no Inferno, não quero saber quem o despachou, o mundo foi dormir com um ser abominável a menos.”
Foi nestes dois parágrafos que Attuch enxergou comemoração e um discurso fascista. Eu acho que ele está forçando muito a barra para ter esta interpretação. Acho que o motivo é outro.
Mauro me chama de antissemita porque classifiquei seu argumento como etnocêntrico, ou seja, como
de alguém cuja visão de mundo considera seu grupo étnico, nação ou nacionalidade socialmente mais importante do que os demais. Mas foi exatamente isso o que ele expressou ao dizer que Soleimani mereceu ser assassinado porque poderia “nos” assassinar. Por essa lógica, Trump, que assassina
iranianos e iraquianos, na prática seria um herói justamente porque seus salvos são “eles” – e não “nós”, da “tradição judaico-cristã”. Por essa lógica, Trump salvou o mundo de um potencial genocida, que ele compara a Hitler em seu artigo.
Em nenhum parágrafo do meu artigo original censurado está escrito que: “Soleimani mereceu ser
assassinado porque poderia “nos” assassinar.” Me mostre onde.
Da mesma forma, em nenhum parágrafo do meu artigo original está escrito que: “Por essa lógica, Trump salvou o mundo de um potencial genocida, que ele compara a Hitler em seu artigo.” Me mostre onde.
Experimentemos agora trocar os nossos óculos e nossas lentes. Coloquemo-nos no lugar de iraquianos,
palestinos e iranianos. Esses povos, naturalmente, também se sentem ameaçados pelas ações de Donald Trump, de vários de seus antecessores, e de Benjamin Netanyahu. Basta dizer que mais de 200 mil civis iraquianos já foram assassinados desde que teve início a pretensa “guerra ao terror”, que visava evidentemente assegurar o controle geopolítico do Oriente Médio e de todas as suas riquezas naturais. Em razão desta ameaça, é legítimo defender que Trump e Netanyahu sejam assassinados? Mauro Nadvorny escreveria isto num de seus artigos? Tenho certeza de que não. E se escrevesse, pode estar
certo de que não seria publicado em nossas páginas.
Verdade, eu não escreveria a mesma coisa.
Apenas lamento que, em vez de debater argumentos, ele recorra ao velho truque para encerrar uma
discussão: rotule seu opositor como antissemita e declare vitória. O que é isso, companheiro?
Attuch, tenha certeza de que eu não hesitaria em te rotular como antissemita, se fosse este o caso. Não foi o que eu disse, como tu mesmo reconhecestes: “Ou, no mínimo, afirma que usei um argumento antissemita para criticá-lo.”
O papel de vitimização não te cai bem.
Eu já te propus encerrar esta discussão com um artigo em comum onde concordamos em discordar. A
proposta continua valendo.
OBS: ele não concordou.
por Mauro Nadvorny | 7 out, 2019 | Comportamento
Eu me perdoo
Nesta terça-feira, dia 8 de outubro, começa o Dia do Perdão, a data mais importante do calendário judaico. Dez dias depois da entrada no ano de 5780 e de acordo com a tradição, um jejum de 24 horas deve ser observado. Na quarta-feira, um jantar em família encerra a festividade e o ano novo de fato tem início.
Para a maioria dos judeus, este é um dia especial, um dia de expiação de preces e arrependimento. Pede-se perdão pelos malfeitos do ano para que sejamos perdoados por Deus e inscritos no Livro da Vida. Fácil de entender porque o pai da psicanálise, Sigmund Schlomo Freud, foi um judeu.
Como um judeu laico, tenho uma visão diferente. Nunca concordei com a ideia de que para uma pessoa se arrepender de alguma coisa, ela deva deixar de comer pelo tempo que for. Nenhuma religião deveria impor penitências, mas cada uma das religiões monoteístas encontrou uma forma de nos auto infligir algum tipo de desconforto como forma de obtermos o perdão de Deus.
Eu vejo o Dia do Perdão como o dia de perdoarmos a nós mesmos sem a necessidade de castigos. Como humanos que somos, por mais que tentemos fazer o bem a todos, é possível que mesmo não intencional, tenhamos causado mal a um amigo ou conhecido e até a alguém que desconhecemos. Se este for o caso, podemos pensar em uma maneira de corrigir o mal feito, e o mais importante, não o repetir.
Precisamos nos perdoar também por nossa limitação. Por mais que tenha sido o nosso desejo, não foi possível alcançar todos os nossos objetivos. Temos de considerar nossas boas intenções, nossa vontade de lutar por um mundo melhor, nossa sede por justiça. Tarefas que tentamos cumprir.
No Dia do Perdão revigoro os motivos da minha existência neste mundo. Já tenho um passado do qual me orgulhar. Se me fosse dado a oportunidade de voltar ao início da vida, pouca coisa seria alterada nas minhas escolhas. O que este ano trouxe de novidade é que provavelmente teria escolhido melhor algumas de minhas antigas amizades e, com certeza, convivido menos com alguns parentes.
O ano que passou foi muito difícil. Foi de escolhas complexas. Tive de abandonar inúmeras amizades de uma vida, de parentes próximos. Foi um processo justificado, mas que deixou cicatrizes. Ninguém passa por algo assim incólume. Algumas feridas permanecem abertas.
No entanto, em meio as perdas tive a agradável surpresa de conhecer muita gente boa que compartilha meus ideais, minha visão de mundo e de justiça. Novos amigos que não fora o momento que passei em meio à turbulência política do Brasil, talvez não tivesse tido a felicidade de cruzar com eles.
Como este dia se repete a cada ano, ele nos proporciona um olhar para o ano que passou. Esta limitação é importante pois nos permite contextualizar um espaço de tempo limitado. Um ano é muito tempo para uma criança de dois anos de idade que dobrou sua existência. Já não representa tanto para quem, como eu, está chegando aos 62. Ainda assim, é tempo suficiente para nos levar a uma retrospectiva e pensar o que poderia ter feito diferente. Se aquela escolha decidida naquele dia específico, foi a correta, ou se poderia ter sido outra para melhor.
Eu não uso o Dia do Perdão para pedir perdão aos outros. Neste dia peço perdão a mim mesmo por não ter sido melhor, ajudado mais ao próximo, mais compreensivo com a dor dos outros, mas eficiente na luta por uma sociedade mais justa, mais amoroso com a família e amigos, mais acolhedor com as angústias de tantos e não ter sido capaz de perceber meus próprios enganos.
Neste dia também reservamos um momento para lembrar os que partiram. Eu acredito que uma pessoa em especial precisa continuar sendo lembrada, Marielle. Este ano também a menina Agatha em nome de todas as crianças mortas por balas perdidas. Enquanto não for feito justiça com a prisão e a condenação de todos os envolvidos nestas mortes, eu preciso recordar.
Não poderia passar por um dia destes sem fazer menção ao Presidente Lula. Nenhum ser humano pode ter sua liberdade tolhida por aqueles que deveriam ser a garantia do estado de direito. Lula representa todos aqueles com quem a justiça falhou e sua obstinação pela verdade é uma inspiração. Gostaria de ter podido fazer mais em prol de sua liberdade.
Dizem que somos moldados por nossas escolhas. Eu acredito nisso. Acho também que o nosso livre arbítrio nos permite voltar atrás quando a escolha foi malfeita e reparar o erro. Também é o que nos mantem altivos com relação as boas opções. Eu escolhi estar de um lado da história e vivo por esta escolha. Longe de um ser perfeito, compreendo meus erros, faço o possível para reparar os equívocos.
Não acredito em perdoar os que fizeram mal a mim, aos próximos ou a sociedade em geral. Em alguns casos posso relevar. Não perdoo aqueles que transformaram o Brasil no que estamos vivendo. Um país nas mãos de uma milícia apoiada por uma ordem neopentecostal. Um poder que envergonha os brasileiros pelo mundo, que destrói a sociedade, que explora os trabalhadores e nos faz retroceder a Idade Média.
Quero sim prometer, que neste ano de 5780 do calendário judaico, vou permanecer junto a todos que continuam na trincheira da resistência democrática lutando por um outro Brasil.
Por fim, é meu desejo que todos nós do campo progressista de esquerda sejamos inscritos no Livro da Vida preenchendo todas as suas páginas!
por Mauro Nadvorny | 7 set, 2019 | Brasil, Comportamento, Política
Ser Judeu é Preciso
Não lembro em minha existência de um protagonismo político judaico no Brasil como nestes tempos recentes. Sem dúvida, estas eleições mexeram muito com a comunidade judaica brasileira e parece que o Brasil também ficou sabendo que existem judeus brasileiros.
Nossa existência nestas terras remontam a colonização do Brasil após a sua descoberta. Já chegamos a ser uma comunidade com cerca de 150.000 pessoas, nos acomodamos bem entre as demais comunidades de emigrantes e nos integramos na vida diária.
A comunidade judaica sempre foi muito organizada. No mundo inteiro sempre foi assim e aqui não poderia ser diferente. Sinagogas, escolas, clubes sociais e esportivos, clubes de cultura, associações femininas, e movimentos juvenis são exemplos da vida comunitária presente no Brasil.
O Mito de que judeus só casavam com judeus não se sustentou, a comunidade diminui ano a ano, principalmente devido aos casamentos mistos e abandono da tradição judaica. O mesmo com relação as posições políticas. Os judeus sempre estiveram presentes na esquerda e na direita se afiliando aos diversos partidos políticos que o país já teve.
A comunidade judaica nunca foi monolítica. Com representações a nível estadual e uma representação nacional, os judeus brasileiros são bastante distintos entre si. Não é apenas a origem ocidental (Ashkenazi), ou oriental (Sefaradi), temos visões políticas bastante diversificadas.
O judaísmo é essencialmente humanista. Nossos profetas apontaram para uma existência de respeito ao próximo e de convivência pacífica entre os povos. Se retirarmos a questão divina da equação ficamos com o que mais tarde ficou conhecido como os Direitos Humanos.
Nossa saga histórica é de inúmeras provações, a maior delas e a mais conhecida foi o Holocausto. Um regime político de extrema direita tomou o poder na Alemanha, conduziu o país para a Segunda Guerra Mundial e determinou a aniquilação do povo judeu. Foi uma indústria da morte onde 6 milhões perderam a vida assassinados, entre eles 1,5 milhão de crianças.
Muitos judeus se destacaram na história em todos os ramos do conhecimento. Muito do desenvolvimento humano que alcançamos até os dias de hoje se deve a contribuições judaicas. Não fossem estas contribuições, este artigo, por exemplo, ainda estaria sendo lido em jornais de papel.
O grande divisor de águas na nossa história recente foi a criação do Estado de Israel e suas consequências para nós como judeus, o povo árabe-palestino e o mundo em geral. Ao contrário do que se pensa, a busca por um lar judaico é muito anterior a segunda guerra e o Holocausto foi mais uma razão para esta determinação histórica de retornar para a terra de onde fomos dispersados pelo mundo.
Israel foi construída com base em uma sociedade socialista. As fazendas coletivas chamadas de Kibutz, foram um exemplo de socialismo prático e nenhum outro país conseguiu criar algo parecido. Os sindicatos, a medicina universal e a vida nas cidades foram conceitualmente e na prática visões socialistas. Israel nasceu e se desenvolveu em seus primeiros anos de vida como um estado socialista.
As coisas mudaram a partir de 1977 com a subida ao poder do bloco de direita e continuam assim deste então. O alinhamento com regimes de direita, e especialmente com os Estados Unidos numa simbiose extremamente prejudicial se mantém inalterado até os dias de hoje. É com este governo de Israel que Bolsonaro tenta se aliar.
O mundo evangélico pentecostal vê em Israel e nos símbolos judaicos o que os católicos veem no Vaticano e no Papa. Para eles, Jesus Cristo só voltará a Terra quando todos os judeus tiverem retornado para Israel e o aceito como Messias. Com esta pregação, eles arregimentam milhões de fieis dispostos a seguirem os mandamentos de seus líderes e se dispõe a ajudarem nesta missão. Assim se apropriam de nossa indumentária religiosa e nacional conduzindo a bandeira de Israel em todas as suas cerimônias e manifestações, sejam religiosas ou políticas.
Claro que esta apropriação não é bem recebida, principalmente pelos judeus progressistas. Durante o período das últimas eleições, um grupo denominado de “Judeus Contra Bolsonaro” foi formado no Facebook e em poucos dias chegou a quase 8.000 membros. Nele estavam presentes judeus de todo o espectro político que tinham em comum o fato de não desejarem Bolsonaro como presidente. Estivemos presentes na luta pelo “Ele Não” no dia a dia de todo processo eleitoral.
Passadas as eleições o grupo mudou de nome e hoje se chama ‘Resistência Democrática Judaica’ com pouco mais de 6.000 membros. Nasceram a seguir outros grupos em outras mídias como os “Judeus pela Democracia” em São Paulo e no Rio de Janeiro. Mais recentemente foi formado o “Observatório Judaico dos Direitos Humanos no Brasil”. Nunca antes na história judaica brasileira surgiram em tão pouco tempo grupos judaicos de oposição política a um governo recém-eleito.
A mensagem destes grupos tem em comum principalmente a luta por um Brasil democrático e o respeito pela dignidade humana. São grupos de judeus progressistas que concentram aquilo que de mais precioso existe no judaísmo, nosso sentimento de humanidade e solidariedade com o próximo. Nossas causas passam, entre outras, pela condenação do golpe que destituiu uma presidente eleita, pela prisão política de um ex-presidente que permitiu a eleição de Bolsonaro, pelos retrocessos dos direitos históricos dos trabalhadores, pelo respeito a diversidade humana, pelo clima, contra a censura etc.
No momento em que Bolsonaro se comporta de maneira tão inapropriada no cargo de Presidente do Brasil, nos envergonha sobremaneira ver nossos símbolos associados a esta vergonha internacional. Não somos seus judeus de estimação e nos aliamos a todos os movimentos que lutam pelo fim de seu regime e acabe com o termo da sua passagem pela presidência.
Nesta hora em que o país dá a cada dia mais indicações de que basta desta milícia familiar no poder, nós judeus progressistas estamos na linha de frente irmanados com todos os brasileiros. Porque ser judeu é preciso.