As Provas

No episódio da saída de Moro do governo, Bolsonaro disse com todas as letras a Moro que precisa de gente de sua proximidade na PF, para quem possa telefonar a qualquer momento para obter informações sobre inquéritos e investigações, tanto no âmbito da PF como do STF. Afirmou que sim, o objetivo é interferir politicamente na PF.

Ao se dirigir nestes termos ao tido como paladino da Justiça brasileira e que desfruta de amplo apoio popular, sendo no momento a maior estrela política de seu governo, o palhaço do pantanalto fornece todas as provas de sua insanidade, de sua total incapacidade política, de seu narcisismo patológico, de seu autoritarismo pueril, de sua falta de limites, de sua inconsequência, de sua sociopatia, e de seu pensamento desorganizado e amoral, além de francamente ilegal e inconstitucional.

Nem chega a fazer o cálculo do potencial destruidor que Moro, tendo ficado 15 meses à frente da PF e da Justiça, pode ter sobre a sua imagem em um eventual embate eleitoral no futuro próximo. Bozo realmente acredita que é um salvador nacional e que nada se abaterá sobre ele. Deve pensar todas as noites no atentado fracassado de Von Stauffenberg contra Hitler, que por sua vez atribuiu sua sobrevivência à Providência, reforçando sua vocação messiânica.

Bolsonaro não surpreende a absolutamente ninguém que tenha um mínimo de experiência política, conhecimento histórico, mínimos conhecimentos de psicologia e psicopatologia, a quem tenha um pingo de sabedoria e experiência de vida em geral.

Infelizmente, 57 milhões de brasileiros, de alguma forma identificados com algum ou alguns dos aspectos horripilantes e deficientes desse monstro, sujaram suas mãos com sangue ao votar 17. O Sangue da pátria que diziam amar, que ora corre caudalosamente pela opinião pública mundial, envergonha-nos como nunca em nossa história.

A única rima pronunciável nos dias de hoje, é: Brasil rima com imbecil. Até quando será este o nosso mantra?

NN

Uma força para o Aldir

Às vezes ficamos um tempão sem nos encontrar com um amigo próximo, um poeta camarada, um músico que sempre esteve na raiz da nossa sensibilidade. Como se bastasse saber que eles existem, estarão sempre por perto, para cá do arco-íris.

Nas últimas semanas, parece que a Indesejada das Gentes resolveu sabotar o jogo gentil das presenças distantes. Levou de vez muitos passageiros desse barco tão espaçoso e que nunca cansei de ampliar. Pois se foram, de Tantinho da Mangueira a Manu Dubongo, de Ellis Marsalis a Lee Konitz, de Moraes Moreira a Rubinho Barsotti. Do Rubinho, baterista do Zimbo Trio original, lembro do programa O fino da bossa. O Zimbo acompanhava Elis Regina e Jair Rodrigues no palco da TV Record, biscoito fino que não se encontra mais, nem nas boas casas do ramo. Em 1968, lá estava Rubinho, junto com Luis Chaves e Amilton Godoi, tocando no show que reuniu, no teatro João Caetano, Elizeth Cardoso, Jacob do Bandolim e o conjunto Época de Ouro.

Insaciável, a Indesejada anda rondando Aldir Blanc, internado em estado grave para tratar de encrencas várias. Meu coração tijucano geme com ele. Aldir é cria da Grande Tijuca, se me permitem a gula imperialista de incorporar Estácio, Usina e Muda ao bairro da zona norte. Mãe generosa e opulenta, a dona Tijuca.

O Menino teve seu momento Usina. Cortado dos treinos de futebol de salão do clube Monte Sinai, foi convidado a jogar no time da fábrica Souza Cruz, na Usina. A quadra ficava no alto de uma ladeira sinuosa, cercada de mato pelos dois lados. Os treinos eram à noite, o caminho mal iluminado. Sem problema, a gente vivia tempos amenos, medo mesmo só do céu sem estrelas e das provas de álgebra. As coisas corriam bem, o Menino se adaptou à lateral esquerda e se podia considerá-lo titular. Um acidente ofídico cortou a carreira promissora. Correu à boca pequena que cobras tinham sido vistas atravessando a ladeira. Boato ou não, nunca mais apareceu por lá. Cobra, só aceitava o Dida. Eu, hem, Rosa !

Aldir é mais conhecido pelas letras primorosas das músicas com vários parceiros. É, no entanto, um senhor cronista. Quando soube disso, devorei todos os seus livros, impregnados pelo bairrismo que alegremente compartilho. Morar na Tijuca ou adjacências sempre foi sua opção de vida. Mesmo o bairro que foi se degradando, como aliás boa parte da cidade. Os bares com serragem no chão, os bebuns folclóricos, as referências visuais e afetivas, a fábrica da Brahma, tudo engolido e transplantado para as memórias. Dormiram ruínas, acordaram literatura.

Mesmo à distância, torço para que ele se recupere logo. Não vejo melhor forma de agitar minha bandeira torcedora na arquibancada – rubro-negra, para horror do vascaíno Aldir – do que dividir com vocês uma crônica extraída do livro Direto do balcão. Trata-se de Cura no ventilador. Para quem não sabe, Aldir é formado em medicina, com especialização em psiquiatria. Mas doutor mesmo ele é com as palavras. Volte logo, ô cara.

CURA NO VENTILADOR

Há perguntas das quais você não consegue se libertar. Costumo dizer que ninguém faz medicina impunemente. Problema meu. Agora, responder, nos últimos 20 anos, como a medicina influenciou as letras de música, puxa, é doloroso. Uma variante dessa pergunta é o “conta um caso engraçado que te aconteceu no tempo de médico”. Vejam vocês: eu passei por maternidades miseráveis, hospitais de subúrbio, prontos-socorros sem recursos, enfermarias psiquiátricas de fazer Dostoiévski dar um chilique … O que poderia acontecer de engraçado nesses lugares ?

Para que não me acusem de má vontade, escarafunchei na memória um tropeço que é a cara do sujeito, qualquer um, partindo para uma atividade nova.

Tive, depois de formado, um pequeno consultório (entre outros), na Praça da Bandeira, que poderia fazer parte do programa Sai de baixo, por causa do meu vizinho de sala. Era um ginecologista escrupuloso, obcecado por seu trabalho. Sabia dos riscos da profissão e era um puro, desses ginecos nelson-rodrigueanos, “como um São Francisco de Assis, com luva de borracha e um passarinho em cada ombro”. Invadia meu consultório sem bater, sentava-se num sofazinho preto e suspirava:

– Acabei de ver um mioma do tamanho de um abacate …

Isso não teria nada de errado se eu estivesse sozinho na sala. Mas geralmente eu me encontrava no meio de uma consulta. Vocês podem imaginar o efeito que uma frase explícita sobre ginecologia provocava em algumas pessoas sensíveis. E foi assim até o último dia de minha atividade naquela maldita sala quando fechei tudo e dei o fora, graças a Deus, para sempre.

Mas vamos contar, de preferência pela primeira e última vez, o “fato engraçado”. O consultório era modestíssimo, para não dizer pobre. Mesa, duas cadeiras, uma pia do tempo do onça. O sofá já descrito. Num verão de induzir pinguim a cortar os pulsos, coloquei um ventilador verde no chão, perto da porta, onde ficava a tomada. A paciente seguinte, uma primeira vez, moça delicadíssima, não pôde deixar de sorrir com a precariedade daquele artefato zumbindo no chão, sem sequer uma pequena mesa ou banco. Mas o ventinho, mesmo artificial, compensava. Trocamos um sorriso cúmplice. Ela me explicou que se considerava a mais desajeitada das pessoas. Tudo lhe caía das mãos e quebrava. Uma simples troca de objetos poderia provocar catástrofes tremendas.

Naquela época a “formação psiquiátrica” era a seguinte: você ficava de manhã apartando briga em enfermarias superlotadas sem remédios, fazia um “curso” obrigatório de noite na Escola Militar de Medicina, no Moncorvo Filho (a CIA havia tachado psiquiatria, no Cone Sul, de “assunto de segurança nacional”) e tentava abrir um consultório para exercer a papoterapia e ganhar algum. Era isso.

Voltando: a moça contava suas dificuldades quando a porta se abriu com violência e o ginecologista, aos gritos de “nunca vi nada pareci …”, tropeçou no fio do ventilador, voou feito o homem bala por cima da minha mesa e me atirou no chão de pernas pro ar.

A moça nunca mais voltou. Segundo seus familiares, ficou completamente curada.

Democracia?

Hoje pela manhã reli em algum lugar a famosa frase de Winston Churchill: “A democracia é o pior regime que há, à exceção de todos os outros.”

Também li no blog do Reinaldo Azevedo que o assim dito “presidente” do Brasil comete todos os dias inúmeros crimes, e que nada disso provoca o menor incômodo no Procurador Geral da República, Augusto Aras, único cidadão no mundo com atribuição legal para iniciar um processo judicial por tais atos.

Lembrei-me de uma preocupação que me acometeu há uns 17 anos atrás, quando era Chefe de Gabinete recém-nomeado, da Secretaria de Segurança do Paraná.

Surgiu uma denúncia de que o Delegado Geral da Polícia Civil do Estado apresentava à instituição notas fiscais frias, para ser “reembolsado” de despesas que não fizera. Foi encaminhada ao Corregedor Geral, que detinha competência exclusiva para abrir sindicância em face daquela autoridade.

Novato na área, descobri que o Corregedor era cargo de confiança do próprio chefe da polícia, o denunciado. Escolhido e nomeado por ele, e por ele demissível ad nutum (sumariamente, sem necessidade de qualquer justificativa).

Nunca fiquei sabendo se o cara era culpado ou inocente. Nem eu nem ninguém. O Corregedor, que não era bobo, obviamente engavetou o caso.

Volto ao início. Concordo que a democracia é o que há de melhor. Só tem um problema, meio esquecido. O que é, exatamente, essa tal de democracia?

Comecemos pelo próprio Churchill, seu arauto, um defensor empedernido da mais cruel e abjeta opressão imperial exercida por seu país sobre inúmeros povos ao redor do mundo. Democracia? Pra quem, cara-pálida?

Mas não para por aí. Debrucemo-nos sobre aquela que é chamada de a maior e mais sólida democracia do mundo, a dos Estados Unidos da América do Norte. Sério? Ela é governada no dia de hoje – nada menos do que no dia de hoje!! – por um cidadão que recebeu, nas urnas, menos votos do que sua concorrente! Irrelevante? Não acho. Chamar de democrático um regime em que a maioria não governa, pra mim, é uma contradição absoluta. Mas ok, vá lá.

Podemos concordar que um dos elementos que faz parte da essência da democracia é a diversidade? E que, do ponto de vista do exercício político dela, cada ramo tem uma visão de mundo e de País? E que a melhor maneira de implementar tal visão é chegando ao poder, e que o melhor caminho para isso é um partido político?

Bem. Nos Estados Unidos da América do Norte só existem dois partidos políticos reais. Todos os demais, somados, são de tal forma insignificantes, que ninguém deles sequer ouve falar. Ora, é possível acreditar que a esmagadora maioria dos zilhões de pessoas que habitam um país daquelas dimensões e complexidade tenha apenas dois pontos de vista sobre o mundo e o seu país? Tem quem ache que sim. Eu, não. Pra mim, o que determina isso responde pelo nome de dinheiro. Poder econômico. Em uma palavra, manda quem pode, obedece quem tem juízo. A antítese da democracia.

Tem mais. É democrático ser o país mais rico de todos os tempos, e tolerar a existência, em seu território, de milhões de miseráveis destituídos dos mais elementares direitos de cidadania? Ou privar uma pessoa de assistência médica porque não tem meios de pagar (e são também milhões, mesmo além dos miseráveis)? Tem quem ache. Eu, não.

Não chega? Tá bom. É democrático um país que, por séculos afora, intervém militarmente em qualquer lugar do mundo onde um povo ou um governo não seja de seu agrado, matando, no processo, outros tantos milhões de pessoas, sem distinção de sexo ou idade? Respeito quem acha que sim. Mas eu, não.

Pra mim, o nome disso é hipocrisia. Simplesmente hipocrisia. Olhar, ver e fingir que não viu. Ou, pior, admitir que viu mas não achar importante.

E o Brasil? Nem vou me estender muito pra falar de um país que em 520 anos de história conta, somados, com menos de 50 nos quais conviveu com alguns (poucos) elementos democráticos. Quero apenas, e para ficar em um fato atual e marcante, chamar a atenção para o que disse Reinaldo Azevedo. Como chamar democrático um sistema no qual a única pessoa que pode levar o chefe de estado às barras da justiça é nomeada por ele? Considere-se a quantidade de arranjos e conchavos necessários para se alcançar tal nomeação.

Alguém já disse – e com razão! – que, enquanto projeto, o ser humano é o maior e mais espetacular fracasso da história.

Como espécie, somos monstruosos em uma escala espantosa. Não é possível ignorar isso minimamente, se se olha qualquer aspecto de nossa aventura terrena, mesmo que com um mísero fiapo de boa-fé.

Como seríamos, então, capazes de criar um sistema político cujos pressupostos são escancaradamente o oposto absoluto daquilo que nos constitui biológica, mental e culturalmente?

Democracia implicaria, entre tantas outras coisas impossíveis para o homem, em respeito à diversidade, liberdade para todos, honestidade, solidariedade, espírito público e generosidade. Alguém pode citar uma única sociedade e/ou um único momento na história humana em que – digamos – ao menos três entre esses elementos conviveram por um tempo razoável?

Cartas para a redação.

Eu não posso. E olha que – embora amador – sou um estudioso insaciável de história.

Então, deixemos de hipocrisia. Democracia não há, e nem nunca houve, em lugar algum. Ela é uma contradição intransponível com a própria natureza humana.

Essa é uma verdade, para mim, clara e insofismável.

Resolvi escrever sobre isso hoje porque a leitura da frase do Winston Churchill, mais cedo, foi a gota que transbordou o copo da minha paciência.

Vivemos sob a ditadura das “narrativas”. Ao mundo global hiperconectado pouco importam os fatos ou sua análise. O que vale é a imagem que se consegue instalar deles na mente do maior número possível de pessoas.

Há miríades de exemplos contundentes. Mas o propósito deste texto é focar em um deles, a meu ver dos mais graves.

O que pretendem aqueles poucos que exercem o verdadeiro poder global, e que não por acaso são os grandes capitalistas é, utilizando-se dos infinitos meios de comunicação de massa hoje disponíveis, fazer com que a humanidade aceite a mentira de que democracia é sinônimo de capitalismo. Ou seja, que sob qualquer outro tipo de organização econômica, nenhuma sociedade será verdadeiramente livre.

Trata-se de um embuste de proporções gigantescas. A existência ou não de democracia independe do sistema econômico sob o qual funciona a respectiva sociedade.

Nenhuma delas, capitalista, socialista, ou qualquer outra, é genuinamente democrática. Nem mesmo a anarquista, pretensamente a mais libertária de todas.

Essa constatação, a meu juízo, desloca o eixo do debate para outra direção, mais realista em relação às limitações humanas.

Considerando que absolutamente todos os regimes do mundo são, em alguma medida, e inevitavelmente, autoritários, qual o critério comparativo que se deve adotar entre eles para um melhor julgamento de suas virtudes ou defeitos?

Simples: a justiça.

Sob qual sistema econômico são melhor e mais igualitariamente garantidos os direitos humanos elementares dos cidadãos em geral?

A resposta não é nada fácil. Eu tenho cá uma opinião e muitas dúvidas. Acho que para a grande maioria é difícil definir qual é tal sistema. Mas, de minha parte, tenho certeza absoluta de qual não é. Justamente o capitalismo. Basta olhar.

 

 

 

Nunca esquecer! Nunca perdoar!

Estamos entrando no dia da Lembrança do Holocausto, uma das maiores tragédias humanas conhecidas. Um genocídio que recebeu um nome específico para determinar um acontecimento inimaginável. Os nazistas criaram uma indústria de morte cuja organização e determinação, ceifou a vida de 6 milhões de judeus.

Nunca esquecer, e nunca perdoar. Estes dois mantras são repetidos por todos os que sobreviveram e por seus descendentes. Para se ter uma dimensão do que ocorreu, somente no ano passado o número de judeus no mundo se igualou ao número existente antes da Segunda Grande Guerra.

A tragédia humana do Holocausto é motivo de estudos antropológicos, sociológicos e existem milhares de livros sobre o assunto. Filmes, séries e tudo o mais que sirva para mostrar as novas gerações o que verdadeiramente aconteceu para que nunca mais voltasse a acontecer.

Infelizmente parece que os humanos não aprendem com seus erros. As guerras estão aí para mostrar do que somos capazes em termos de destruição e morte de civis. Não existe maneira de acabar com os conflitos e eles continuam pipocando mundo afora fazendo novas vítimas e aumentando o número de refugiados.

Se alguém quiser saber como foi possível que 6 milhões de pessoas fossem exterminadas por terem nascido judias, e achar que nenhum povo aceitaria uma coisa destas, saiba que aconteceu no país mais culto da Europa, na Alemanha. Hitler era um mané, um Zé ninguém. Sua pessoa em termos de importância social ou política, era zero. Os democratas achavam que ninguém com o mínimo de bom senso, aceitaria escutar o cara por mais de cinco minutos. Deu no que deu.

Bolsonaro não é diferente. Sua insignificância política é notória. Sua importância na sociedade era a mesma de uma ameba. O sujeito era uma caricatura de carne e osso. Usava de impropérios e disparates para se promover e dizia com todas as letras o que achava dos políticos, da democracia, das mulheres, dos gays, dos negros etc. Sua adoração a ditadura e a tortura são notórias. Deu no que deu.

O Brasil está nas mãos de um lunático inconsequente e os democratas se fazendo de sonsos achando que controlam o energúmeno. Sua maneira de lidar com a pandemia mundial do Covid-19 e motivo de apreensão no mundo civilizado, principalmente onde o vírus chegou com força e deixou milhares de mortos. Tirar este estrupício do poder é urgente e premente.

Todos estamos preocupados com a economia e o pleno emprego, mas mais preocupados ainda em salvar vidas. Não há dinheiro que pague uma vida humana. O vírus vai ser enfrentado pelos vivos e a economia será reconstruída pelos vivos. Precisamos preservar a vida a qualquer custo.

Ninguém esperava por um acontecimento desta magnitude. Ninguém estava preparado para isso. Não existem fórmulas prontas. Praticamente estamos enfrentando o Covid-19 na base do erro e do acerto. Medidas erradas são corrigidas e os acertos mantidos. Nem tudo que deu certo em um país, necessariamente dará certo em outros, no entanto é isso o que se deve fazer e uma das medidas que comprovadamente salvam vidas é o confinamento social.

No fim das contas este evento será um grande aprendizado para o que ainda está por vir. O Covid-20, 21 e assim por diante. Muitas lições serão tiradas do que estamos vivendo. Muita gente terá de explicar os erros cometidos e a falta de transparência. Temos sim vilões que vão enfrentar a justiça. Bolsonaro será um deles.

No dia da Lembrança do Holocausto, confesso que meu coração se enche de tristeza com tudo o que está acontecendo. Imagino que que para os sobreviventes, esta prova não era necessária e eles não precisavam passar por isso no estágio da vida em que chegaram. Lamentavelmente todos se encontram no grupo de maior risco pela idade avançada.

Minha mensagem neste dia é de que não se deixem enganar por soluções mirabolantes, por remédios e vacinas inexistentes. Não existe cura, não existe medicação e nem vacina ainda. Tudo isto vai chegar provavelmente no ano que vem.

Neste dia de memória as vítimas do Holocausto, vamos ascender mais uma vela pelas vítimas do Covid-19.

Samba Perdido – Capítulo 04, parte 1

Capítulo 04

 "Todos juntos vamos, 
Pra frente Brasil, 
Brasil! Salve a seleção” 

Hino da seleção - 1970

Em 1962, enquanto o mundo despertava para a década mais colorida do século vinte, Renée voltou do hospital com um filho, os Rolling Stones e os Beatles gravaram seus primeiros singles, o mundo quase começou uma Terceira Guerra Mundial, desta vez nuclear, por causa de mísseis soviéticos em Cuba, Adolf Eichman, o engenheiro do Holocausto, foi executado em Israel, João Gilberto e Tom Jobim fizeram a sua estreia americana no Carnegie Hall em Nova York e Marilyn Monroe morreu de overdose em Los Angeles.

No entanto, para a grande maioria dos Brasileiros, o que mais marcou aquele ano foi o segundo campeonato mundial da sua seleção de futebol. Se alcançar a glória no esporte mais popular do planeta eletrizava países “desenvolvidos” como a Itália, a Alemanha e a França, é difícil imaginar a explosão de orgulho nacional e de pura alegria que tomou conta do país. Aquele time mulato, vindo das ruas, se impondo no cenário internacional pela segunda vez foi uma injeção insubstituível de autoestima e de otimismo.

Depois do apito final que selou a vitória brasileira de três a um na final contra a Checoslováquia, no Chile, as comemorações tomaram conta das ruas e só pararam nas primeiras horas da manhã do dia seguinte. Como seria de se esperar, as batucadas de rua foram a alma do Carnaval fora de estação. Sambistas desceram dos morros lembrando ao “asfalto” que suas proezas instrumentais eram irmãs das proezas futebolísticas dos craques que estavam trazendo o título para casa. As comitivas de batuqueiros contavam com mulatas espetaculares se requebrando ao ritmo irresistível dos tambores. Bem antes dos biquínis fio-dental aparecerem nas praias cariocas, seus trajes já deixavam quase tudo à mostra, realçando seus movimentos ousados e deixando a moçada com água na boca. Acompanhando o samba, torcedores de todas as raças, idades e classes sociais extravasavam sua alegria. Inebriados pela vitória e regados pela cerveja, recordavam os gols dos heróis daquela campanha – Garrincha, Didi, Vavá entre muitos outros. Pelé havia se contundido e tinha ficado de fora.

*

Oito anos depois, em 1970, depois de uma decepcionante campanha em 1966 na Inglaterra, onde o país de Renée tinha se sagrado campeão, o Brasil estava a caminho do México para tentar o seu terceiro título mundial. Dessa vez, além de um time repleto de craques, entre eles um Pelé superpreparado e consciente de que esta seria sua última Copa, havia uma novidade: as transmissões televisivas. Graças a elas, a nação inteira poderia ver seus craques jogando ao vivo no estrangeiro.

Aproveitando o casamento de um evento tão popular com a nova tecnologia, o regime militar, instaurado já há seis anos, resolveu investir pesado na seleção. Com problemas de popularidade devido à crescente polarização econômica e ao endurecimento da repressão política, os militares queriam assegurar uma aposta vital de que o país se sagraria campeão.

A ideia era unir a nação em torno do futebol e, por via de maquinações midiáticas, associar as conquistas dos atletas a uma imagem positiva do regime. Foi assim que o país se viu mergulhado  numa febre de patriotismo, a chamada “corrente pra frente”.

Nos recantos mais remotos do país, milhares de vilarejos receberam seus primeiros televisores para que o povo pudesse fazer parte dos “noventa milhões em ação”, como dizia a canção oficial da seleção. Durante a Copa, seus moradores se amontoariam em torno desses únicos aparelhos, muitas vezes em praças de terra no meio do mato, para assistir o “escrete canarinho” em ação.

Pelo país inteiro, praticamente todo carro tinha uma fita verde e amarela amarrada à antena e todo estabelecimento ostentava pelo menos uma bandeira ou um cartaz da seleção, fosse de um jogador ou do time completo. Nossa rua, a Siqueira Campos, se juntou à comoção. Quase todo apartamento tinha uma bandeira pendurada da janela. Os moradores mais entusiasmados se deram ao trabalho de colocar milhares de bandeirolas coladas em fios que cruzavam de um lado a outro da rua, começando na praia e indo até seu final no morro da Saudade. O bairro todo fez igual e Copacabana se fantasiou para a Copa.

Ao mesmo tempo, em qualquer oportunidade, as estações de rádio e de televisão estimulavam o fervor futebolístico e o misturavam com mensagens pró-regime. Haviam adesivos colados por todos os lados com slogans como “Brasil: ame-o ou deixe-o” e “Deus é brasileiro”.

O que poucas pessoas sabiam é que o técnico do time, João Saldanha, apesar de um apaixonado pelo seu país e pelo talento dos seus jogadores, era um comunista dedicado que organizava reuniões do partido ilegal em sua casa. Porém, depois de Saldanha ter se negado a convocar Dario – o Dadá Maravilha –, um dos favoritos do presidente Médici, e de dar declarações políticas inconvenientes enquanto fazia a inspeção de um dos estádios onde o time ia jogar no México, os generais interviram. Eles ordenaram que Zagallo, um ex-jogador branco e de classe média que havia participado das campanhas vitoriosas de 1958 e 1962, o substituísse.

*

Graças às teorias conservadoras da minha mãe, eramos uma das poucas famílias no bairro sem um televisor. Para mim, com oito anos de idade e imerso até o pescoço na febre assolando todos os meninos brasileiros, aquela aversão à tecnologia era deseperadora. Já tinha perdido a oportunidade de ver o primeiro homem pisar na lua na casa de uns vizinhos porque era tarde demais. Porém me barrar de ver a Copa do Mundo seria cruel demais.

Rafael aliviou minha barra anunciando que iríamos assistir os jogos no apartamento do Paulo. Ainda que fosse um esquerdista convicto, seu amigo pertencia ao século vinte e possuía uma televisão, apesar da propaganda fascista, que na sua opinião, ela vomitava sem parar.

O primeiro jogo da Copa foi entre União Soviética e México. Todos consideravam esses dois times potentados menores do futebol mas, por alguma razão, assistir a cerimônia de abertura era uma obrigação para qualquer um que quisesse merecer o título de torcedor brasileiro.

No dia do jogo, para minha alegria e alívio, fomos lá. Depois da abertura espetacular, presenciamos o Paulo torcer para o time que levava estampada na frente da camisa a inscrição “CCCP” – a URSS, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Recusando-se a pronunciar a palavra “soviético” muito menos “socialista”, o locutor se atinha a chamar o time de “Rússia” e mesmo assim mencionava o nome o menos possível provocando alguns resmungos da parte de nosso amigável anfitrião. Depois que o jogo terminou, voltei para casa empolgado.  A aguardada copa tinha começado e como o resto da nação não podia esperar pelas batalhas que estavam por vir.

O Brasil jogou sua primeira partida, contra a Checoslováquia, alguns dias depois. O jogo era à noite e em um dia de semana, muito tarde e um tanto incômodo para assistir na casa do Paulo. O jeito foi ouvir no rádio. Ignorando os protestos de minha irmã, meus pais permitiram que trouxesse meu radinho de pilhas para a mesa de jantar. Quando o jogo começou, liguei o aparelho coloquei o volume alto o suficiente para que pudesse ouvir e baixo o suficiente para que a Sarah aceitasse. Depois de uns dez minutos, para o desespero da nação verde e amarela, o adversário marcou o primeiro gol. As palavras secas do narrador cortaram o peito do Brasil como uma navalha. Lá fora o silêncio era tanto que parecia que o fim do mundo tinha chegado. A Sarah olhou para minha cara entristecida e debochou.

“Ha, ha, ha! Tomaram um gol, bem feito!”

Aquela provocação foi um erro. Xinguei ela de vaca e joguei minha coxa de frango na cara dela. Na hora meu pai me mandou para o quarto. Fui com o rádio feliz da vida, pelo menos lá, poderia ouvir o resto do jogo sem a interferência de uma menina. Logo depois, para alívio geral, o Brasil marcou seu primeiro gol, virou a partida e terminou ganhando por um convincente quatro a um.

*

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Onde vamos viver?

No meio de todo o transtorno que vivemos por força da pandemia de COVID-19, uma estranha linha de pensamento se avoluma nos meios sociais. Tal linha advoga que o debate sobre o COVID-19 está “politizado”, “partidarizado” ou “polarizado”. A questão é que há claramente um vício de entendimento do cenário, que leva a esta percepção (falsa) de polarização. Mais precisamente, uma ilusão, própria dos que tem um repertório restrito do entendimento da realidade e suas complexidades.

Vivemos em um mundo pós-iluminismo, construído sobre alicerces racionalistas, cartesianos, reforçados pelas colunas do estado moderno que desde a sua concepção luta para crescer e viver afastando-se progressivamente do despotismo, do autoritarismo e para aproximar-se de um cenário onde haja equilíbrio e liberdade para um debate permanente e continuamente autoaprimorado.

Assim, quando a defesa da ciência e seu ferramental, que foram desenvolvidos neste espírito há pouco descrito e que justamente existe e prepondera sobre o atávico desejo imperialista de apropriação da verdade e conhecimento, é encarada como posição partidária ou ideológica, temos um problema. Um grande problema.

Quem é capaz de tal formulação, é simetricamente incapaz de se aperceber do mundo onde vive, de seus sustentáculos filosóficos, éticos, políticos e sociais. Vivemos (ainda) sob a égide dos grandes contratos sociais expressos em constituições, legislação ordinária e eventuais discricionarismos autorizados pela representação democrática, todos eles construídos sobre a lógica e o racionalismo, que são plenamente incorporados à nossa linguagem (ao arrepio de Nietzsche) mas que literalmente galvanizam nossas relações sociais e políticas em todos os níveis.

Certamente o universo dos conhecimentos não alcançáveis pela metodologia científica é muito maior do que aquele das coisas que podemos dividir por partes examinando-as individualmente ou em pequenos arranjos. O conhecimento sobre o cérebro talvez seja o exemplo mais marcante à mão, no imediato. Mas moramos em edifícios concretos e abstratos construídos com essas substâncias igualmente concretas e abstratas.

Pretender classificar, portanto, a defesa do universo da ciência como divergência política ou partidária é esta sim, escancaradamente uma posição política “per se”, que só pode ser fruto de um autoritarismo vulgar e rasteiro, ou de profunda ignorância (real ou dissimulada), de um transtorno mental delirante, ou da combinação de tudo isso em ordens e proporções as mais variadas, e certamente associada a propósitos não alcançáveis no campo da legalidade, da ética e da civilização tal qual a conhecemos.

Se prosseguirmos na aceitação do argumento “partidário” aplicado a quem defende a ciência e todos os valores sobre os quais nossa civilização (ou o pedaço dela) estaremos sob o risco de perder nossa bússola. E sem ela, seremos em tempo próximo incapazes de saber onde viveremos. Ou, se viveremos. A ameaça às instituições nunca foi tão grave.