Sou judeu, sou contra Bolsonaro

Ser judeu bolsonarista, ou bozojew como chamamos, é realmente uma tarefa difícil. Defender todo dia o cara que passa o tempo todo falando merda, fazendo merda, ou pensando merda, exige uma certa capacidade de dissonância mental com a realidade.

Para um brasileiro qualquer, ser bolsonarista, já está ficando complicado. Cada dia escutamos outro arrependido se lamentando nas redes sociais. Não aguento mais, dizem eles, peço desculpas, falam alguns. Tem até quem confesse que votou num jumento.

E para os judeus? Aqueles que estavam dentro da Hebraica-RJ enquanto a maioria os alertava para o erro do lado de fora, como podem continuar apoiando este imbecil?

Nenhum argumento parece fazer efeito. O cara disse que nazismo é de esquerda. O cara disse para a gente perdoar os nazistas, mas não esquecer. Ele disse que ia transferir a embaixada para Jerusalém, só não disse quando. Falou que o Covid-19 foi fabricado na China e seus eleitores afirmam que o laboratório onde isto aconteceu pertence aos judeus. Não faltam argumentos, falta bom senso e muito caráter.

Um judeu que apoia este inepto, acredita que a pandemia é um boato. Que o número de mortos é ficção e que caixões vazios estão sendo enterrados. Deve de ser um complô alienígena fomentado por aquelas espaçonaves que os americanos filmaram e só agora reveladas.

Este tipo de judeu é o escárnio comunitário. Pensam somente neles mesmos. Seu bem estar acima de tudo. São aqueles que desejam reabrir seus negócios, mas eles mesmos continuam na quarentena. Fazem carreatas a favor da abertura com bandeirinhas do Brasil.

Claro que não estão sozinhos. São parte de uma parcela da população que ainda apoia este presidente. Talvez a menor parcela de todas, mas são a parte que me toca como judeu que sou e não poderia deixar de mencioná-los quando falo desta família miliciana que está no poder.

O judaísmo tem uma tradição milenar de respeito e preservação da vida. Quem salva uma vida, salva a humanidade, diz a Torá. E estes mentecaptos adorando o cara que debocha das mortes pelo vírus. Isto é deplorável, inaceitável.

Felizmente esta parcela podre da comunidade judaica brasileira não é maioria. Existem muitos movimentos judaicos na resistência contra este governo. Lançamos em 12 de setembro de 2018 o grupo do Facebook “Judeus Contra Bolsonaro” com 8.000 membros e que hoje se chama “Resistência Democrática Judaica”. Grupos como os Judeus pela Democracia do RJ e de SP, Judias e Judeus com Lula são atuantes e protagonistas de diversas atividades na resistência. O Observatório Judaico dos Direitos Humanos no Brasil – Henry Sobel é outro belo exemplo de como nós judeus atuamos. E existem outros grupos judaicos resistindo!

Também é nossa a ideia do primeiro Festival da Canção de Protesto que já está com as inscrições abertas e acontece dia 6 de Junho. Não nos entregamos e continuamos na luta até que este governo saia do poder. Este é o compromisso dos judeus que honram sua história e não compactuam com nenhuma forma de fascismo.

Diversos judeus brasileiros estão comprometidos em diversas formas de atuação contra Bolsonaro. Fazem parte de partidos políticos, sindicatos, Centrais Sindicais, movimentos de base e outros. Cada um deles é uma voz a mais, um ombro na trincheira por um Brasil democrático.

Somos brasileiros que temos um compromisso com o país que aceitou nossos pais sobreviventes do Holocausto. Temos filhos nossos que combateram a ditadura e muitos foram torturados e mortos por ela. Isto nós não esquecemos Bolsonaro, nem perdoamos.

Neste momento difícil pelo que passa o Brasil, cerramos fileiras com todos os brasileiros e brasileiras que já não suportam mais tanta vergonha vendo um país com um presidente que se tornou um pária para o mundo.

Basta! Fora Bolsonaro!

Samba Perdido – Capítulo 05

Capítulo 05

“Tabelou, driblou dois zagueiros,
Deu um toque driblou o goleiro,
Só não entrou com bola e tudo
Porque teve humildade e gol!!!”

Fio Maravilha – Jorge Ben

 

No auge do reinado brasileiro sobre o planeta futebol, mesmo que por um instante, o esporte produziu o que todo governo totalitário deseja: unir a nação como pessoas iguais. Quando o assunto era futebol não havia classe social, cor ou opinião política; todos eram iguais, salvo, é claro, as mulheres, os gays, os maconheiros e outras minorias.

Naquela realidade suspensa, os jogadores da seleção viraram os super-heróis da garotada. A forma para um menino fazer parte da saga era jogar bola e torcer para um time. Para mim essa fórmula fácil caiu como uma luva; a febre do futebol me ajudou a encaixar num país onde de outra forma seria considerado um completo estranho. Seguindo a cartilha, jogava futebol quase todo dia e virei Botafoguense fanático, talvez por Botafogo ser o bairro onde nasci ou por gostar do emblema.

Torcer era um negócio sério; além da escalação completa do meu time, tinha que saber a dos outros “quatro grandes” – Flamengo, Fluminense e Vasco – de cor. Por vício e obrigaçāo ouvia todas as partidas do “Fogão” no rádio e no dia seguinte, lia a pagina de esportes inteira no jornal para ficar a par de como os jornalistas tinham avaliado o desempenho de cada um dos jogadores. O mesmo valia para os jogadores relevantes dos outros times.

A Rádio Globo era de longe a melhor no futebol. Seu espetáculo auditivo era sem igual, e era a coisa mais emocionante que podia acessar dentro das paredes de nosso apartamento. O estilo circense dos seus apresentadores era irresistível. Quando um jogador fazia um drible de efeito e os narradores, Jorge Curi e Waldir Amaral, iam à loucura. Quando um outro marcava um gol, era um orgasmo. Quando um juiz falhava o comentarista de arbitragem, Mário Vianna interrompia a narração gritando zangado “Errou!!!”. Quando a bola batia na mão de um jogador ele mandava o seu “La mano!!!, cadê o eco?? La mano ôo-ôo-ôo!!!”. Nos casos de impedimento, ele gritava o seu famoso “Banheiiiiira!!!” Para os pênaltis, sempre fazia um comentário solene antes do veredito pesaroso: “Penalidade máxima”. Quando o gol valia ele era sacramentado pelo seu “Gol legal!”.

Depois da partida, era a hora do João Saldanha com suas análises pós-jogo imperdíveis. Elas duravam bem mais de uma hora mas nunca eram chatas. Com sua genialidade, recoloria o que tinha acabado de acontecer no estádio abusando do uso de alegorias inusitadas e metáforas como girafas namorando macacos e elefantes se casando com formigas.

Esses personagens, onipresentes no futebol carioca, faziam dos radinhos de pilha uma ferramenta essencial. Mesmo no Maracanã, todo torcedor tinha um colado ao ouvido. Nas partidas principais, haviam tantos que, dado haver um momento de silêncio, a chamada da rádio ecoava alto no estádio.

*

Com o tricampeonato no México ainda fresco, os dois torneios nos quais os times cariocas participavam – o estadual no primeiro semestre e o Brasileiro no segundo – adquiriram um sabor especial. Como a equipe da rádio Globo gostava de dizer, no Maracanã se jogava o melhor futebol do mundo no maior palco do planeta, uma verdade na época.

O “Maraca” era o templo maior desse culto. Todos os garotos que conhecia já tinham – ou pelo menos diziam que já tinham – ido lâ e eu precisava desse crédito. Meu problema era meus pais. Se imaginando aristocratas ingleses, nas cabeças da Renée e do Rafael o futebol era coisa de operário e da gentalha que vivia em botequins. Ir a um estádio e se misturar com aqueles tipos mancharia de alguma forma a sua posição social, especialmente no Brasil.

Minha sorte mudou no dia em que Peter, um amigo da roda deles, se ofereceu para me levar a uma partida junto com seus dois filhos. Apesar da Renée ser contra, Rafael acabou liberando. Peter era o aventureiro da turma: tinha cruzado a América Latina num jipe, era mais jovem que o resto, tinha menos dinheiro, fumava – um tabu em casa –, possuía um corpo definido e bronzeado, falava inglês com sotaque americano e além de tudo, para a minha alegria, era frequentador assíduo do Maracanã.

Ele os filhos torciam pelo Fluminense e o jogo era contra o Flamengo, um Fla x Flu. Isso não era o ideal para um botafoguense, mas como o time deles iria enfrentar o arqui-inimigo de todos, me senti mais confortável. No estádio, talvez gritaria “Nense!!! Nense!!! Nense!!!”, ao invés de “Fogo!!! Fogo!!! Fogo!!!”, o que, dadas as circunstâncias, era aceitável.

Os três vieram me pegar no início de uma tarde de domingo. Entrei no jipe feliz da vida, preparado para a aventura. Só que assim que cumprimentei seus filhos, Rob e Tony, me lembrei que não gostava deles. Entre outras coisas, toda vez que nos visitavam davam em cima da Sarah de uma forma estúpida o que a deixava chateada. De quebra, ficavam tirando onda com a minha cara por ser mais novo. Apesar dos esforços do Peter em ser simpático, os dois me deram o gelo de sempre, ocupados com seu habitual papo chato, competindo entre si acerca de conhecimentos de eletrônica e de mecânica, coisas que achava um porre. Fiquei sentado no banco da frente com o Peter olhando pela janela e ouvindo a Rádio Globo quando dava para escutar. O entusiasmo voltou quando começei a perceber que quanto mais perto do Maracanã a gente chegava, mais claro ficava que todos os outros carros estavam indo na mesma direção. Neles, torcedores do Flamengo e do Fluminense ou tiravam sarro ou aplaudiam uns aos outros aos gritos pela janela. No banco de trás, em vez de participar da festa, o Rob e o Tony faziam comentários antipáticos a cerca deles. Relevei a esquisitice e fiquei curtindo o momento em silêncio, já ensaiando o que ia dizer para os meus amigos.

*

Por fim chegamos. Assim que parou o carro, Peter foi negociar com o “flanelinha” quanto ia pagar pela vaga – “flanelinha” esse que, evidentemente, não estaria ali quando voltássemos. Enquanto isso, saí para dar uma olhada no Maracanã. Estávamos a uns três quarteirões, mas mesmo dali parecia colossal. O clima era frenético. Em torno de nós, milhares de torcedores, pouquíssimos da Zona Sul, iam apressados para o estádio. Dava para ouvir as batucadas e a barulheira saindo lá de dentro. Aquela eletricidade parecia estar atraindo a multidão como a luminária de um açougueiro atrai moscas.

Depois de se entender com o guardador de carros, Peter, preocupado por eu estar sozinho sem os seus filhos, acendeu um cigarro e veio falar comigo com um sorriso nervoso, “O que você está achando disso, Richard?”

Sem palavras, só consegui responder: “Muito legal.”

Ele teve um tique nervoso, deu uma baforada no cigarro e perguntou: “Você está nervoso?”

“Que nada, estou doido para ver o futebol!”

Depois de nova chacoalhada estranha da cabeça, ele me olhou sério “Richard, é fácil se perder num jogo de futebol, principalmente na entrada do estádio. Fique sempre perto da gente, entendeu?”

Engoli seco com a sua firmeza e respondi: “Claro!”

Ainda me ignorando, os filhos já estavam prontos do outro lado do carro. Peter os chamou e fomos, os quatro, nos juntar à multidão rumo às bilheterias. Os guichês já estavam lotados. Pedintes e bêbados vinham importunar os torcedores esperando sua vez nas filas entre separadas por barras enferujadas. Na calçada atrás da fila, camelôs gritavam a plenos pulmões tentando vender seu estoque de bandeiras, almofadas de espuma e camisas dos dois times.

Depois de uns vinte minutos chegou a nossa vez. Com os ingressos na mão, o próximo passo era entrar no estádio, uma tarefa complicada. Havia somente dois portões para as arquibancadas, um de cada lado do estádio. A massa se aglomerava em frente deles e ia se afunilando como areia numa ampulheta até alcançar as poucas roletas de acesso. As duas torcidas estavam misturadas, o clima estava tenso e cheio de testosterona. Esse não era um lugar para mulheres, crianças ou idosos.

Peter estava mais preocupado que nunca. Sem tique dessa vez, virou-se para mim e disse: “Segura na camisa do Toni e não larga!”. Depois se voltou para o Toni e mandou ele ficar de olho.

É claro que obedeci. Em meio à massa que empurrava para todos os lados, sob o olhar atento do Peter logo atrás, grudei na camisa e fui atrás tomando todo cuidado para não me distanciar nem cair e correr o risco de ser pisoteado por centenas de pés ansiosos.

O empurra-empurra demorou uns dez minutos. Foi um alívio quando chegamos nas catracas. Elas pareciam um oásis surreal de paz separando a loucura do lado de fora do estádio da insanidade que nos esperava do lado de dentro. Protegidos por guarda-costas gigantes e mal-encarados, frágeis empregados de meia-idade inspecionavam tranquilos os bilhetes um a um. Quando pegavam aqueles com igressos falsos ou aqueles tentando entrar sorrateiramente sem bilhete algum, os metidos a malandro eram obrigados a escolher entre dar meia-volta e encarar a multidão ou serem escoltados até a delegacia do estádio.

Quando isso acontecia, os funcionários perdiam a paciência. Pegaram um em uma catraca ao lado e o homem explodiu. “Não me interessa que você não tem dinheiro! Pelo amor de Deus, meu filho! Decide logo! Não está vendo a fila?”

Quando chegou a nossa vez, o moreno de cabelos grisalhos examinou nossos ingressos através de seus óculos. Com calma rasgou ao meio os finos papéis azuis, depositou sua metade em uma caixa e liberou a roleta. Já dentro, reagrupamos e saímos correndo com a multidão pela rampa comprida que dava acesso ao anel superior. Guardas com pastores alemães paravam bêbados e torcedores carregando objetos perigosos. Ao final da rampa, a massa se dividiu de acordo com seu time de coração. Nós pegamos o corredor à esquerda e seguimos os torcedores do Fluminense. Passamos rápido na frente de portas dos banheiros e bares sentindo o cheiro forte de urina misturado com cerveja derramada.

Havia entradas a cada trinta metros e Peter tinha que decidir rápido qual iríamos tomar. De repente ele nos empurrou por um corredor estreito onde silhuetas ocultavam a luz no fim do túnel. Subimos sentindo a imensa energia que emanava lá de dentro. Quando finalmente entramos na arena, percebi em extase o quanto o estádio era gigantesco – dava para entender claramente como cabiam 160 mil espectadores ali. As torcidas que já enchiam algumas partes, principalmente atras dos gols. Na parte central das arquibancadas havia a famosa tribuna de honra – a seção cercada onde ricos e convidados especiais ficavam. No resto do estádio, as grades nos parapeitos em frente às torcidas já estavam cobertas por faixas e bandeiras das torcidas organizadas. Embaixo, cercado por aquela construção colosal estava o gramado, o palco que captava os sonhos de toda uma nação.

Enquanto Peter decidia onde iríamos sentar, fiquei olhando para aquilo embasbacado. Dava para ver que o lugar mais animado era no meio das torcidas organizadas, todas começando a engossar dos dois lados. Esse era o lugar de onde vinham as batucadas e de onde emanava toda a vibração. Quando alguém da torcida começava a gritar um refrão, logo depois – como numa reação química – dezenas de milhares de pessoas passavam a gritar a mesma coisa. O problema era que também era ali que a maioria das brigas aconteciam. Não era o lugar certo para um adulto responsável levar três crianças. Por isso, acabamos indo mais para perto da zona neutra, entre as duas torcidas, do lado oposto à tribuna de honra. A pedidos do Rob e do Toni, acabamos num lugar ainda na torcida do Fluminense.

Pedindo licença, se equilibrando entre os torcedores e os degraus das arquibancadas, chegamos numa abertura para quatro pessoas. Sentamos, relaxamos e ficamos assistindo ao jogo preliminar entre as equipes juvenis dos dois clubes. Apesar das torcidas só estarem preocupadas a atração principal, comemoravam os gols dos novatos e ficavam em silêncio quando havia uma cobraça de pênalti.

Assim que a partida secundária terminou, o Maracanã acordou. Já não havia partes vazias no estádio. Os torcedores começaram a agitar suas bandeiras enormes e a soltar foguetes. Os refrãos esquentaram dos dois lados. Em campo, fotógrafos com câmeras e lentes penduradas no pescoço disputavam posições atrás dos gols com repórteres portando microfones e fones de ouvido. Os gandulas uniformizados entraram e foram se sentando ao redor do campo enquanto policiais de óculos escuros segurando pastores alemães patrulhavam as bordas do gramado. Agora, só faltavam os jogadores.

Nas arquibancadas, era como estar no meio de uma festa de meninos levados. Os torcedores entoavam as mesmas musiquinhas provocadoras que nós ensinávamos uns aos outros na escola e jogavam copos descartáveis amassados nas cabeças de quem estava abaixo. Os carecas sofriam. A pior coisa que me lembro de ter visto foram uns caras mijando nos torcedores que ficavam na área inferior ao lado do gramado, a “geral”. Essa parte do estádio tinha os ingressos mais baratos. Lá embaixo, não havia lugar para sentar e o campo de visão era na altura dos pés dos jogadores. Os espectadores eram obrigados a assistir os jogos em pé em meio às brigas frequentes.

Um amigo me contou a história de um repórter que estava em uma das cabines de imprensa que ficava bem em cima da “geral”. Para fazer graça com os colegas, o repórter começou a xingar e a gozar o pessoal em baixo. Junto com os palavrões veio a dentadura. Mesmo com suas súplicas, os caras não pensaram duas vezes e pisotearam sem pena seus dentes falsos assim que aterrissaram.

*

Uma voz surpreendentemente formal e monótona saiu pelos alto-falantes anunciando a partida e o nome dos jogadores. Os torcedores fizeram silêncio, mas cada vez que mencionava um dos seus craques iam a loucura. Quando a apresentação terminou, o painel eletrônico acendeu e começou a mostrar o placar do jogo: “Flamengo 0 Fluminense 0”.

Sendo tradicionalmente o time da elite social branca, o símbolo do Fluminense era o pó de arroz. Em preparação para a chegada do seu time, membros da torcida tricolor circulavam com baldes cheio de saquinhos da coisa, os distribuindo como se fossem fazendeiros dando ração aos animais. Assim que o Fluminense entrasse em campo, todos rasgariam os sacos e atiraram o pó no ar criando uma espessa nuvem branca. Quando o ar clareasse, pareceria que tinham acabado de sair de uma tempestade no deserto.

Com o estádio completamente lotado, dava para ver que a torcida do Flamengo era bem maior, tomando quase dois terços do estádio. Por causa de suas cores: vermelho e preto, o símbolo do clube era um urubu. Em cada jogo, torcedores levavam um urubu de verdade. A tradição era amarrar uma bandeira do clube no pé do bicho e soltá-lo quando os jogadores entravam em campo. Se a mascote conseguisse voar para fora do estádio, aquilo era considerado como um bom presságio. Naquela situação, a ave desnorteada correria o risco de mudar de cor por causa da nuvem de pó de arroz e de ser confundida com uma águia branca quando retornasse ao ninho.

Os dois times entraram em campo juntos. Quem abriu o caminho foi o árbitro e seus auxiliares seguidos pelos jogadores em fila indiana, uns se aquecendo e outros subindo o túnel dando a mão aos mascotes dos times. Esses meninos ficariam livres para correr pelo campo depois que posassem junto com os atletas nas as fotos para a imprensa. Na manhã seguinte, aquelas imagens seriam estampadas nas últimas páginas de todos os jornais da cidade. Quem quer que tivesse ido ao jogo sentiria como se houvesse participado de um grande evento. Depois da foto, os jogadores se espalharam pelo campo e ficaram tocando a bola entre si, dando piques no gramado e chutando a gol para aquecer o goleiro. Enquanto isso, repórteres corriam atrás dos craques tentando fazer com que tecessem comentários sobre o jogo. Pegando carona nos rádios dos vizinhos, quando os astros do futebol falavam com um radialista, podíamos dar um rosto, mesmo que distante, às vozes que vínhamos acompanhando desde que saímos de casa.

O juiz mandou a polícia liberar o campo. Quando só ficaram ele e os jogadores, o árbitro chamou os dois capitães para o centro do gramado para decidir quem sairia com a bola e em que lado cada um dos times ia começar jogando. Com um barulho ensurdecedor nas arquibancadas, os jogadores tomaram suas posições, o homem de uniforme preto olhou para o seu relógio e deu o apito inicial. Uma estrela da seleção campeã, Gérson, se não me engano, passou a bola para trás dando início à partida. O estádio inteiro conseguia reconhecê-lo pela careca como também os demais jogadores por causa dos cortes de cabelo, dos números nas camisas e pelo seu estilo de jogar. Quando faziam algo de errado, as pessoas os criticavam em altos brados como se os conhecessem pessoalmente. Na hora que os atacantes estavam prestes a marcar um gol, todo mundo se levantava e quando o adversário oferecia algum risco, ficavam em silêncio enquanto a torcida rival festejava. No segundo tempo, o Fluminense marcou abrindo o placar. Ainda que não torcesse pelo time, não pude me conter e fui à loucura como se fosse tricolor de nascença.

*

Naquele tempo, a televisão ainda estava dando seus primeiros passos e raríssimos jogos eram transmitidos ao vivo. Nossos heróis da bola ainda não tinham empresários planejando suas carreiras milionárias nos campeonatos europeus. Ao contrário, seus horizontes começavam e terminavam dentro dos campeonatos estaduais e nacionais. Para a nata, havia a convocação para a seleção nacional e a fama internacional mas raríssimos iam jogar no estrangeiro. Por isso, jogavam para a torcida e faziam o que podiam todas as tardes de domingo para reafirmar sua condição de craques. O ali e o agora eram cruciais, o que tornava a qualidade daquelas partidas, sem dúvidas, a melhor do mundo. O Maracanã daqueles tempos traz memórias aos torcedores do Rio parecidas às que Woodstock traz para os amantes do rock. Houve momentos de pura magia, gols inesquecíveis, dribles, jogadas e delírios coletivos de outro planeta. Como deve ter sido no Coliseu em Roma, o clima daquelas partidas foi um fenômeno único e irrepetivel.

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Antipetismo, Sergiomorismo e Bolsonarosmo ou, as doenças coletivas verde-amarelas entrelaçadas

O Antipetismo é a doença coletiva agravada pela idiotização do Sergiomorismo. Ambos criaram e fortaleceram o Bolsonarismo.

Nos três casos os sintomas são os mesmos: perda das capacidades de visão socioeconômica, e de análise crítica socio-política; alienação jurídica; analfabetismo hermenêutico; relativização de Direitos Fundamentais e Palavreado chulo.

O antipetista, sergiomorista e bolsonarista não têm capacidade de discernimento entre conceitos simples, mas diferentes, tais como: Economia e Especulação Financeira; Cristianismo e Neopentecostalismo; Comunismo e Petismo; Capitalismo e Neoliberalismo; Liberalismo e Neoliberalismo; Comunismo e Chavismo/Madurismo/Bolivarianismo; Comunismo e Stalinismo; Nação e Estado; Sociedade Plural e Ajuntamento; Ética e Moralismo; Justiça e Vingança; Pessoas de bem e Pessoas do bem; Combate à corrupção e Poder; Democracia e Ditadura; Respeito por Israel e Israelianismo; Judaísmo e Estado de Israel; Islamismo e Terrorismo; Repressão Sexual e Educação Sexual; Mentira e Verdade; Mito e Realidade; Ódio e Crítica; etc.

Todo antipetista é, ou já foi, um sergiomorista. Todo sergiomorista é, em alto e profundo, um bolsonarista! A estupidez só muda o ícone e a camiseta.

Suas Excelências: o lixo!

O sr. Moro é um péssimo exemplo de pessoa (do e para o bem). Foi um péssimo, inconstitucional e antijurídico juiz, um miserável de dignidade e um vazio de ética (vide The Intercept), e está falando, agora, em seu “público, político e inadequado” pedido de demissão, contra o sr. Bolsonaro, outro péssimo exemplo de pessoa, lixo de (quase já ex) Presidente, desprovido de dignidade e absolutamente antiético.

A diferença entre esses dois seres inferiores é que um praticou atos típicos e antijurídicos no meio da “milícia política” do MPF curitibano, enquanto o outro, no meio (e em função) da milícia carioca.

O que iguala esses seres inferiores brasil(eiros) é que o seguidor e defensor anencéfalo e estúpido de um, é seguidor e defensor anencéfalo e estúpido do outro. O sr. Moro e o sr. Bolsonaro são o mesmo tipo, com a diferença de que aquele antecede e cria este. Moro destruiu o sistema constitucional brasil(eiro) e alimentou o doentio ódio antipetista, criando condições propícias para Bolsonaro chegar ao poder e, em recompensa, carregar ele, Moro, ao governo.

Moro, o perverso ex-rei de Curitiba, morre politicamente aqui – e agora! Bolsonaro, que está apodrecendo a vida do país, seguirá, entretanto, um pouco mais, talvez até o final de seu (falso) Mandato. Havia uma esperança de conseguirmos o seu “Impeachment”, mas, com a saída e gosma verbal de Moro contra ele, provavelmente será mantido. O Congresso não vai arrancar Bolsonaro para lançar holofotes sobre Moro. Esse é o relatório!

NOTA IMPORTANTÍSSIMA

Acabei de assistir, e ouvir, não apenas um ataque contra Bolsonaro, e um pedido (inadequado) de demissão de Moro, mas a sua “CONFISSÃO” de crime. No seu pronunciamento, ele confessa ter cometido vários crimes enquanto Ministro e, pior, quando era Juiz da 13a Vara de Curitiba. Na sua confissão, ele revela que pediu, e aceitou, ainda como Juiz, promessa de vantagem financeira indevida de Bolsonaro. Isso é grave, isso é confissão de crime no exercício de função pública. Repito: ele confessa que pediu, e aceitou, promessa de vantagem PECUNIÁRIA indevida de Jair Bolsonaro! ISSO É GRAVE!

Qual a saída a esquerda?

Que dia foi este de 24 de abril de 2020 que vai ficar marcado muito mais pelo que se disse, do que pelo que se fez efetivamente. Não tenho recordação de um presidente reunindo seu staff superior para explicar em Rede Nacional a demissão de um ministro, um deles de meias e máscara facial, como deveriam estar os demais, ou mantendo um distanciamento de 2 metros, um do outro.

Bolsonaro já sangra. Está ferido e até mesmo suas explicações mais incisivas começam a diminuir o ímpeto. Talvez não estivesse acreditando até o final de que Moro se demitiria. Afinal de contas, ambos têm em comum um certo apego pelo poder de decidir as coisas. No entanto, egos que não se entendiam.

Dos dois, Moro foi o mais esperto, e é o mais perigoso. Moro soube chegar onde queria e até o momento acha que saiu por cima pavimentando seu caminho para disputar a presidência quando acontecerem novas eleições. Sequer se deu conta de que confessou crimes, mas conhecendo nosso histórico com Bolsonaro, quem se importa com estas questões pequenas?

Bolsonaro está cavando sua própria sepultura, acho que todos concordam com isso. Ele perde apoiadores dia a dia, sua reserva está terminando. Logo vai ficar sozinho como Collor nos seus últimos dias. Ou vai descer a rampa do Palácio por si mesmo, ou será obrigado a fazê-lo. Se até o dia de ontem ainda compunha com o Centrão para evitar o Impeachment, hoje ficou mais complicado.

Moro acaba de ficar desempregado momentaneamente. Perde também os privilégios que tinha como Ministro da Justiça e não pode voltar a ser juiz. Provavelmente vai receber uma oferta para lecionar em alguma Faculdade de Direito (pobre de seus alunos). Vai perder espaço na mídia. Um Impeachment precisa passar por todo o processo de acordo com a Lei, ou seja, meio ano, no mínimo. Aí entra o Mourão e carrega a faixa até 2022. Moro ainda será lembrado até lá?

A direita é como uma barragem cheia de furos vazando cada vez mais água. Ninguém mais para colocar os dedos e tampar os furos. O desmoronamento já é previsível. Mas o que acontece com a esquerda?

Hoje já ficou claro de que Bolsonaro foi eleito, muito mais por ser o maior anti-PT do mercado, do que por suas qualidades como parlamentar, ou suas propostas como candidato. Mesmo com todas as defecções que vem acontecendo, o motivo da sua eleição ainda está presente. Não se trata de ex-bolsonaristas se declarando petistas e abrindo voto para Lula (se ele for candidato). Trata-se de arrependidos que, por hora, vão buscar outro candidato com a mesma afinidade “anticomunista”.

Com tudo o que está ocorrendo ainda não existe uma Frente Ampla de esquerda. Não conseguimos uma unidade de linguagem e de propostas para voltar ao poder. Precisamos apontar o caminho, discutir propostas e nos unirmos em torno de uma mesma bandeira. É uma ilusão imaginar que os neoliberais não aprenderam com seus erros. Eles continuam vivos e fortes.

Em termos financeiros eles não tem limites de gastos para uma corrida presidencial. Sua capacidade de reunir fundos para todo tipo de campanha, seja ela legal, ou ilegal, é infinita. Sabem jogar sujo e vão continuar jogando assim. Não será fácil combater tanto poder econômico.

A pandemia vai deixar um rastro de mortos e economia arrasada. Quem será capaz de lidar com isso e de que forma, esta é a questão central do debate político que se avizinha. O neoliberalismo já está mostrando sua força. Demissões e diminuição de salários, para eles, é a melhor fórmula para salvar as empresas e consequentemente a economia.

A esquerda não está sabendo passar sua mensagem. Não adianta somente falar o óbvio, é preciso sair da posição cômoda de oposição que aponta os dedos, para um papel de maior relevância. Temos de apontar saídas factíveis numa linguagem clara e objetiva. Assim, ou vamos assistir um “Moro” da vida se elegendo o próximo presidente do Brasil.

Samba Perdido – Capítulo 04, parte 2

O próximo jogo era contra a Inglaterra. Torcendo em segredo pelo seu time mas sem entender nada do assunto, Renée e Rafael de repente se viram inundados por perguntas e comentários.

“Vocês vão torcer pelo inimigo!!??” A pergunta vinha amistosa, mas deixava claro que eram adversários. “Voces acham que vão vencer?! É?! De quanto? ”

“O que vocês acham dos jogadores ingleses? Dá para comparar Pelé com Bob Charlton?”

Embora nenhum dos dois soubesse responder a essas perguntas e fossem desinteressados por futebol, haviam motivos suficientes para que assistissem à partida. Fora o meu estado exaltado, queriam manter sua discreta pose de atuais campeões mundiais. Além disso, por coincidência, o árbitro seria o israelense Avraham Klein: o nosso sobrenome!

*

O jogo caiu numa tarde ensolarada de domingo. Os fogos de artifício que começaram a pipocar nas primeiras horas da manhã pareciam sinos de igrejas lembrando a todos que esse era um dia da maior importância. A Rádio Globo, minha fonte indispensável de notícias futebolísticas, estava fervilhando. Os apresentadores não falavam sobre outra coisa. A todo momento interrompiam o que estivessem falando para dar lugar às transmissões ao vivo de repórteres que haviam conseguido qualquer informação nova vinda do México.

Como de costume, a família saiu para o Clube Paissandu por volta das dez da manhã. Fanático, vestindo minha camisa canarinho, assim que o carro saiu da garagem, abri a janela e coloquei para fora minha bandeira verde e amarela que tinha amarrado num cabo de vassoura. Quando cruzávamos com alguém com a mesma camisa, sacudia meus punhos de fora do carro e gritava, “Brasil!!!”. As respostas ecoavam de volta com a mesma euforia.

A Sarah não veio. Sortuda e acometida de vergonha alheia pelo meu entusiasmo, ela tinha sido convidada para ver o jogo na casa de uma vizinha amiga e ia passar o dia lá.

No clube, fomos direto para a piscina onde fiquei chocado ao deparar com o que era, talvez, a única bandeira inglesa flamulando no céu do Rio de Janeiro. Ela estava dependurada entre dois coqueiros sobre um grupo de homens pálidos de meia idade bebendo whisky e olhando a todos com ar de gozação. Do outro lado, no bar coberto, os outros garotos, o pessoal do serviço e eu, em cochichos, ficamos questionando a masculinidade daqueles indivíduos, bem como as virtudes de suas mães.

Havia uma roda amontoada em torno do rádio do salva-vidas. Alguns de nós saíamos para dar um mergulho, mas voltávamos logo para aquele grupo que mais parecia um enxame de abelhas nervosas. Ávidos por informações e tentando ouvir o radinho melhor, faziamos silêncio quando um repórter conseguia entrevistar um de nossos craques.

Por volta da hora do almoço, o aumento no número de rojões avisou a todos que a hora do pontapé inicial estava chegando. A televisão começou a transmitir ao vivo de Guadalajara e as ruas se esvaziaram.

Para poder pegar o início do jogo, tinhamos comido mais cedo no restaurante do clube. A caminho do apartamento do Paulo, passamos por aglomerações em frente às lojas de eletrodomésticos se preparando para assistir o jogo nos televisores que tinham deixado ligados para a ocasião. Quase todos os torcedores na rua seguravam um radinho de pilha no ouvido, da mesma maneira que as pessoas hoje se agarram a seus telefones celulares. No carro, consegui convencer minha mãe a ligar o rádio na Rádio Globo. Tinha que ouvir o que João Saldanha, agora um comentarista, estava falando sobre o iminente jogo. Quando começou com sua voz lenta e grave, me esqueci da bandeira e me concentrei em cada palavra que dizia.

Paulo morava na Rua Barata Ribeiro, num apartamento modesto em frente ao nosso açougueiro que ficava do lado de um ponto de ônibus. Chegamos dez minutos antes do início​ da partida. A televisão já estava ligada e enquanto os adultos se cumprimentavam, fui logo me acomodando e consegui ver os jogadores entrarem em campo, se perfilarem e cantarem seus hinos nacionais. Pouco depois, com todos em seus lugares, o juiz apitou dando início ao jogo. Os nomes dos jogadores que logo entrariam para o panteão do futebol mundial, ressoavam da televisão: “Jair pra Pelé, Pelé com a bola, para Tostão… Gérson… para Rivelino”.

Copacabana inteira estava em silêncio torcendo pela seleção nacional. As ruas estavam desertas: lojas, delegacias, hospitais, corpo de bombeiros – tudo estava fechado. Caso você tivesse um ataque cardíaco, se seu apartamento pegasse fogo ou se você estivesse prestes a dar à luz, o azar seria seu.

O início foi nervoso e defensivo. O estilo chato tinha uma razão; a tática de Zagallo era segurar seu time atrás no primeiro tempo. Confiando na melhor forma física e no talento natural dos seus jogadores, ele esperava seus adversários cansar para depois líquida-los no final da partida. No entanto, nada estava garantido. Todos estavam tensos e o adversário era difícil. No segundo tempo, os ingleses começaram a sofrer com o calor e a exaustão tomou conta. O Brasil passou a dominar e o goleiro inglês, Gordon Banks, estava fazendo milagres para manter a partida no zero a zero. Dava para sentir que a seleção estava prestes a marcar – não era uma questão de se, mas de quando – ainda assim a espera era angustiante. Naquela altura, até Rafael e Paulo estavam totalmente concentrados na partida. Quando o ataque brasileiro finalmente conseguiu superar a defesa da Inglaterra e Jairzinho marcou, brasileiro nenhum conseguiu conter sua emoção e todas as casas explodiram em gritos selvagens.

Não podia deixar de ir à loucura e fazer com que os adultos – todos na sala menos eu – achassem graça da minha espontâneidade. O apartamento de Paulo destoava furor do lado de fora. Para já, minha mãe, decepcionada com o  placar, apesar de estar quase na faixa dos cinquenta, era a mais jovem do grupo. Quando o jogo terminou e a transmissão retornou para os estúdios no Rio de Janeiro, não houve cerveja ou nem mesmo uma taça de vinho para comemorar. Enquanto os adultos se voltaram para assuntos mais sérios, sobretudo Israel, peguei uma tigela de bolachas, uma Coca-Cola na geladeira e mudei para o canal onde passava Tarzan. Fiquei horas curtindo a liberdade de ter uma TV à minha disposição. Enquanto isso, meus pais ficaram esperando que o Carnaval fervoroso dos “selvagens” acalmasse na rua antes de ir para casa.

Conforme o Brasil foi progredindo, as comemorações foram durando mais e o samba foi ficando mais intenso. Entre um jogo e outro, a combinação da exposição exagerada da seleção com o verdadeiro show de bola que seus craques estavam dando no México, fez com que um estado de espírito especial tomasse conta do quotidiano. Artificial ou não, dava para sentir a tal “corrente pra frente” a toda hora e em todos os lugares.

Depois da vitória contra a Inglaterra, até a Sarah acabou imersa na febre do futebol. Ela passou a vestir uma camisa canarinho nos dias de jogo e a torcer pelo Brasil na casa da vizinha. Por ser cinco anos mais velha e por ter a escolta dos irmãos mais velhos da sua amiga, meus pais permitiram que fosse à rua para participar das comemorações. Isto me fez questionar a justiça divina pela primeira vez na vida.

*

Na final, o Brasil derrotou a Itália por quatro a um em um dos mais famosos jogos da história do futebol. A campanha terminou com Pelé passando a bola para Carlos Alberto Torres que deu um chute cinematográfico de fora da grande área estufando a rede italiana. O triunfo deu início à uma catarse nacional e proporcionou ao país uma autoconfiança que duraria anos. Por ser seu terceiro campeonato mundial, a taça Jules Rimet veio para o Brasil de vez, selando a glória. A vitória também significou um sucesso para a máquina de relações públicas do governo militar. Agora os generais se sentiriam ainda mais legitimados para expandir seu domínio político-policial.

Ninguém chegou a perceber que essa foi a maneira grandiosa que a época de ouro de Copacabana havia encontrado para se despedir. Dentro de poucos anos, o charme desse bairro à beira-mar começaria a desbotar. Pessoas de círculos sociais alheios começariam a substituir a elite carioca em seus prédios hollywoodianos. A classe alta migraria para as áreas requintadas de Ipanema e do Leblon, e para bairros mais afastados como São Conrado e Barra da Tijuca. Enquanto isso, à noite, o calçadão da Avenida Atlântica acabaria se transformando no maior bordel a céu aberto do mundo.

Quanto a mim, aquela Copa do Mundo selou minha identidade como Brasileiro. A partir dali, a Inglaterra passou a ser o país de onde meus pais vieram, só isso.

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