por Mauro Nadvorny | 12 maio, 2020 | Brasil, Política
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em manifestações contra medidas de isolamento e distanciamento social, feitas para combater o novo coronavírus
Ao cobrir para a revista The New Yorker o julgamento do criminoso de guerra nazista Adolf Eichmann, em 1961/62, a filósofa judia de origem alemã, naturalizada americana, Hannah Arendt, criou um conceito que entraria para a história: a banalidade do mal.
Enquanto o processo corria em Jerusalém em torno dos muitos ismos – nazismo, antissemitismo, racismo, eugenismo – Arendt se consagrava a tentar compreender a relação entre o homem Eichmann e os seus atos. Chegou assim à conclusão que o oficial SS, apesar de ter sido um dos altos responsáveis da “solução final”, que visava exterminar os judeus da face da Terra, não era uma “bête furieuse” como ela própria imaginava e sim um funcionário medíocre do 3° Reich. E de forma mais ampla, que o “mal não reside no extraordinário e sim nas pequenos atos cotidianos que levam a cometer crimes abomináveis.”
Nessa série de artigos, depois transformada no livro Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil – Eichmann em Jerusalém Uma reportagem sobre a banalidade do mal -, Hannah Arendt defende a tese de que o nazista abandonou o poder de pensar para obedecer ordens cegamente. Em outras palavras, que ele perdeu a capacidade humana de distinguir entre o bem do mal, sem nenhum motivo, convicção pessoal nem intenção. Resumindo, Eichmann perdeu a capacidade de elaborar julgamentos morais.
Do ponto de vista filosófico, isso equivale a dizer que os crimes terríveis cometidos pelo responsável da logística da Shoá não foram cometidos porque ele era mau, e sim porque era medíocre.
Para Arendt, continuar a pensar e se questionar sobre si mesmo e seus atos, é uma condição sine qua non para não cair na banalidade do mal.
As reflexões da filósofa-jornalista me parecem importantes para tentar entender o fenômeno Bolsonaro.
Um simples exemplo: na sexta-feira, dia 8 de maio, mais um dia de recorde de mortes pelo coronavirus, o presidente ignorava voluntariamente 10 mil mortes para ironizar e anunciar um churrasco no Palácio da Alvorada no final-de-semana para 30 ou 3.000 convidados. No fundo, o número pouco importa, pois ao organizar o churrasco desobedeceria as recomendações das autoridades de saúde, do Brasil como do resto do mundo.
Questionado pelos jornalistas se promover um churrasco com aglomeração de pessoas não seria um mau exemplo, o Jim Jones brasileiro convidou os apoiadores que estavam na frente do Alvorada a participarem da festa.
O presidente foi questionado seis vezes pelos veículos de imprensa se o gesto não era um exemplo negativo para a população. Ele, no entanto, não respondeu e continuou a brincar, ameaçando, com um largo sorriso, retirar a classificação do trabalho jornalístico como atividade essencial durante a pandemia, em mais uma ameaça à liberdade de imprensa.
O churrasco não se realizou; Bolsonaro trocou a carne assada por um passeio de moto aquática, sempre desrespeitando o distanciamento social. Naquele exato momento, o Congresso hasteava a bandeira a meio-pau em sinal de luto pelos mortos da pandemia.
Os apoiadores do capitão, sempre prontos a gritar “Mito! Mito!”, poderiam me perguntar o que um churrasco fake e um passeio de jet ski têm a ver com Eichmann e a banalidade do mal. Explico:
Hannah Arendt talvez tenha se enganado ao ver em Adolf Eichmann “apenas” um funcionário medíocre e não o monstro que ele era realmente, além de um artista hors pair, capaz de mentir descaradamente durante todo o processo sem um piscar de olhos nem um pingo de arrependimento.
Jair Bolsonaro, outro mentiroso contumaz, talvez não tenha entendido o recado dos jornalistas, que o fato de organizar uma aglomeração em meio à pandemia era um mau exemplo. Ou talvez se comporte assim por incapacidade de diferenciar o bem do mal, que nos guia desde Adão, Eva, deus e a serpente.
Um estudo da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, concluiu que ao menos 10% dos casos de covid-19 no Brasil se devem aos atos e palavras do presidente. Municípios bolsonaristas têm quase 30% mais casos de infecção que os demais.
Talvez Jair Bolsonaro sofra de alexitimia, uma espécie de analfabetismo emocional. Ou de esquizofrenia, por ter tido uma aprendizagem deficiente da expressão dos sentimentos na infância e adolescência, no seio familiar. Ou seja, um psicopata perverso. Pouco importa o diagnóstico, para o Brasil e os brasileiros só interessa o resultado … catastrófico.
Do ponto de vista filosófico, a banalidade do mal, tal como descreveu Arendt, deve-se assim a uma “ausência de pensamento crítico”. O que parece ser o caso do presidente e de seus seguidores. No período nazista, poucos foram aqueles que pensaram por si mesmos e souberam distinguir o bem do mal, agindo de acordo com estes conceitos.
Mas a maioria preferiu ignorar o imperativo categórico kantiano dos princípios morais que devem ser observados incondicionalmente.
Para a filósofa-jornalista, o fato de “não pensar” não constitui uma fatalidade imposta por uma força externa insuperável. É antes o resultado de uma escolha pessoal.
“Pensar”, escreveu, “é uma faculdade humana, seu exercício é responsabilidade de cada um” – tanto no caso de Adolf Eichmann, como no de Jair Messias Bolsonaro.
Ambos parecem incapazes de formular julgamentos morais.
Assim também, os apoiadores e próximos de Hitler optaram por desistir do pensamento crítico para seguir irrefletidamente seu líder, da mesma maneira que os fanáticos de Bolsonaro.
Na “Banalidade do Mal”, Hannah Arendt conclui que o fato de abandonar voluntariamente a capacidade de pensar não faz de alguém um inocente, ao contrário, é um fator agravante: os crimes de Eichmann são portanto imperdoáveis. Ao que eu acrescento: os de Bolsonaro também.
por Mauro Nadvorny | 11 maio, 2020 | Brasil, Comportamento, Opinião
A Secom é a Secretaria Especial de Comunicação Social é o órgão da Presidência do Brasil responsável pela liberação de verbas e gerenciamento de contratos publicitários firmados pelo Governo Federal que tem a frente o ministro Fábio Wajngarten, judeu, segundo ele.
Como forma de mostrar supostas ações do governo federal contra o Corona vírus, a Secom divulgou nas redes sociais que “Parte da imprensa insiste em virar as costas aos fatos, ao Brasil e aos brasileiros. Mas o governo, por determinação de seu chefe, seguirá trabalhando para salvar vidas e preservar o emprego e a dignidade dos brasileiros. O trabalho, a união e a verdade libertarão o Brasil”.
Foi o bastante para que se visse uma associação com a famosa frase do Campo de Concentração de Auschwitz “O Trabalho Liberta”. Logo se pronunciou a IBI, (Instituto Brasil-Israel) que em nota afirmou que “Não é mais necessário insistir no fato de que o Governo Federal utiliza referências do nazismo. Quem tinha dúvidas, já não as têm. Se segue no barco, compactua, pelo menos em parte, com esse ideário. A história cobrará o preço”.
A resposta de Wajngarten veio em seguida: “É impressionante: toda medida do governo é deformada para se encaixar em narrativas. Na campanha, faziam suásticas fakes; agora, se utilizam de analfabetismo funcional para interpretar errado um texto e associar o governo ao nazismo, sendo que eu, chefe da Secom, sou judeu!”
Nem 8, nem 80. É fato de que o presidente cometeu inúmeras gafes em relação ao nazismo e aos judeus, inclusive uma ofensa grave em sua visita ao Museu do Holocausto “Yad Vashem” em Israel, onde afirmou que o nazismo era de esquerda.
Roberto Alvin, o precursor de Regina Duarte, na Secretaria Especial da Cultura, fez uma peça publicitária imitando em tudo um filme de Goebbels, o ministro da propaganda de Hitler. Foi demitido.
Grupos nazistas apoiam abertamente Bolsonaro, mas nunca se viu o presidente negar este apoio, nem mesmo uma palavra contra suas ações.
Existe, portanto, inegáveis ações e manifestações nazistas que se associam a este governo. Algumas delas podem ser atribuídas a pura ignorância e desconhecimento da história, como talvez seja o caso. No entanto, a repetição deles ascende luzes de imensa preocupação, seja por seu número cada vez maior, seja pela negativa em aceitar as evidências.
Wajngarten até pode estar certo em afirmar que não havia nenhuma intenção em usar uma frase sarcástica nazista em sua publicidade, mas erra ao não reconhecer que foi exatamente o que produziu. Neste caso, não se trata de deformar a realidade, trata-se de compreender o efeito causado, que ele, como judeu que diz ser, deveria mais que ninguém, ter percebido.
O que estamos assistindo, com números de infectados e mortes subindo dia a dia, e uma ação abertamente contrária a todas as recomendações da OMS e do que fazem todos os países do mundo, pedindo ao povo que saia para trabalhar, é sim uma ação nazista. ~E como dizer que os brasileiros são uma raça superior, imune ao vírus.
Talvez pelo que a história nos ensinou, nós judeus, somos os primeiros a notar os mínimos sinais da existência de ideários nazifascistas. Nossa sensibilidade em relação a este tema vive a flor da pele. Uma vez, pode ser um equívoco, duas pode ser um deslize, mas depois disso é a confirmação do óbvio, o governo Bolsonaro é um governo fascista em número, gênero e grau.
Enviar as pessoas para trabalhar é o mesmo que as enviar para uma roleta-russa. Todos sabem que em algum momento a bala será disparada, só não se sabe quem irá morrer. As mortes vão se somando e cada uma delas leva a assinatura de Bolsonaro que enquanto ssi passeia de Jet Ski.
Um triste cenário que a propaganda oficial tenta acobertar. Com, ou sem, a famigerada frase, toda publicidade governamental é uma ficção. Felizmente não conseguem acobertar a realidade com todo o horror que está acontecendo, graças a mídia e a nossa resistência.
por Mauro Nadvorny | 10 maio, 2020 | Brasil, Comportamento, Opinião, Política
A democracia tem seu custo. Não é um sistema capaz de causar no indivíduo a sensação de plenitude ou perfeição. Até por que, não se destina a agradar indivíduos. Ela existe para que o grupo por ela regido sinta-se seguro e em paz, ou em condições de mantê-la. Assim, pobre daquele que depositar suas esperanças de plena realização pessoal dentro desse sistema. As chances são mínimas. Pode sim, ser feliz. Mas não na plenitude. Sempre algo estará incompleto. A parcela da diferença, da dissidência, a parcela do desejo conflitante com o diferente ou divergente que foi sacrificada em nome do pacto coletivo, da negociação.
A democracia é construída sobre vários pilares que são os sistemas de valores e de conhecimento. Entre eles, os sistemas autorizativos de ensino que delimitam as profissões. Você tem o diploma de engenheiro que te habilita a construir um edifício por que esta autorização foi regulada por lei e vinculada a um sistema de ensino no qual você deverá continuamente provar sua capacidade de entendimento, aprendizado e expertise nas múltiplas facetas do conhecimento que permitem que um edifício seja construído, que atenda as necessidades para as quais se destina e que, acima de tudo, fique em pé.
Um edifício – físico ou simbólico – só fica em pé quando seus sustentáculos e alicerces existam e funcionem exatamente como os termos os definem: sustentáculos e alicerces. No simbólico, essas estruturas representam todo o conhecimento adquirido, testado e universalizado de forma que jamais tenham falhado, seja fisicamente ou no plano teórico.
A democracia moderna parte de um pressuposto não explícito de que a ciência é a fonte do conhecimento aceitável para a maioria dos que vivem sob suas luzes. Assim, embora seja saudável e construtivo que o conhecimento seja desafiado permanentemente como forma até de torná-lo mais sólido, mas os desafios ao conhecimento científico só são válidos se conseguirem apresentar resultados experimentais e práticos diferentes a partir dos mesmos pressupostos e métodos ou a partir de matrizes teóricas de raiz comum. Não é possível, por exemplo, contestar a Relatividade de Einstein sem contestar junto o Eletromagnetismo de Maxwell. E como até hoje tudo funcionou exatamente como previram as duas teorias, para demolir este edifício haverá de voltar ainda mais atrás, destruindo os sistemas de Galileu, Newton e Copérnico.
Neste cenário, aparece Osmar Terra, que publicamente e sem qualquer pudor apresenta seu sistema próprio de “conhecimento” sobre epidemias e pandemias, exatamente como aquele insatisfeito que descrevi parágrafos acima, para o qual o conhecimento que não satisfaz as necessidades e desejos pessoais pode e deve ser contestado tendo como base apenas a concepção do indivíduo, que da forma mais deselegantemente sofismática constrói sua teoria sobre fragmentos do estabelecido, e com esses fragmentos tenta montar uma imagem como um quebra-cabeças impressionista, que visto à distância pode parecer um Van Gogh, mas na proximidade não passa de rabiscos desconexos e sem significado próprio.
As argumentações de Osmar Terra sobre o “fracasso” do isolamento social não resistem à primeira camada de análise lógica, física e matemática. Não obstante, ele as apresenta com toda a empáfia e fleugma própria de uma grande academia de ciência britânica. Chega a ser chocante e revoltante o fato de uma rede como a Globo dar voz a este senhor, ainda que em contraponto com o ex-ministro Mandetta e o ex-ministro Humberto Costa, claramente harmonizados com o sistema democrático de conhecimento.
O perigo é a percepção, por parte da audiência, de que o debate posto é um debate legítimo, e que “temos que ouvir todas as opiniões” em uma democracia. Aí, o grande sofisma. A ciência só admite opiniões sobre o que ainda não foi testado ou conhecido. Não se opina sobre a virologia, sobre fisiologia, sobre farmacologia ou anatomia. O que pode-se fazer é apresentar resultados obtidos sob rigor metodológico e técnico.
O brasileiro comum costuma valorizar pessoas “de opinião”, parece ser um valor em si mesmo para certos segmentos de nossa sociedade. E aí jaz o perigo. O diferente, o minoritário, ainda mais aquele se se acusa vítima do “marxismo cultural” e de uma abstrata “ameaça comunista” que seja lá o que for só é percebida como ameaça real, motivando então uma credibilidade quase imediata.
Da mesma forma que Osmar Terra quer “enterrar” o sistema de conhecimento da democracia sob o pretexto da liberdade de pensamento e expressão, Olavo de Carvalho e toda a turba de seguidores embarca na aventura de demolição da nossa sociedade, onde cada um de seus agentes cuida de destruir algum setor do conhecimento, seja na história, na sociologia, na filosofia, e mesmo na física, matemática, medicina, direito, entre outros.
E aqui, entramos no nebuloso terreno dos limites a serem estabelecidos ao que chamamos de liberdade de pensamento e expressão. Certamente, a experimentação vem mostrando que nossa democracia não resistiu ao terraplanismo. Até a presente quadra, o preço da democracia está se tornando demasiado elevado.
Ou a democracia se reforma no sentido de fortalecer suas bases, ou será destruída quando a maioria das pessoas se convencer de que não quer pagar este preço. Fica para os historiadores e os cientistas políticos a fundação de uma nova ciência para a democracia: a imunologia democrática. Como criar anticorpos e vacinas para criaturas como Osmar Terra e Olavo de Carvalho.
NN
por Richard Klein | 9 maio, 2020 | Brasil, Israel, Livro, Oriente Médio
Capítulo 06
“…HaShem disse a Moisés: Dize aos filhos de Israel:
És um povo de dura cerviz (pescoço duro).”
Torá.
Estava orgulhoso por ter sido escolhido para patrulha que ia capturar a bandeira inimiga. Depois de separar os outros grupos e de explicar o que cada um deles iria fazer, nosso madrich, ou instrutor, Mauro Lieberman – que todos chamavam de – dispensou os outros mas chamou a gente para o quarto dele. Cheios de moral e sob os olhares interessados de algumas das meninas, saímos do refeitório e atrás dele. Chegando lá, fomos entrando e sentando no chão. Com todo mundo dentro, nosso chefe fechou a porta, se sentou conosco e abriu um caderno numa página com um esboço do sítio.
“Pessoal, a bandeira deles vai estar aqui, no meio do campo de futebol. Vai ter um círculo grande de cal em torno dela, não vai ter como perder. O grupo que vai lá são o Richard, o Davi, o Marcos e o Hélio.”
Ele olhou em volta para ver se todos estavam acompanhando. “Vocês vão usar essa trilha aqui no meio do mato. O grupo do Murilo, Samuel, Sérgio e Marcelo vai descer para o campo também, mas vai pela estrada principal, essa daqui. A ideia é usar o grupo do Murilo para atrair atenção dos caras enquanto o outro grupo pega eles de surpresa.”
Estavamos estranhando a seriedade do Maurão, um cara meio largado com ar de hippie. “Por isso você, Murilo, e você, Samuel, vão ter que dar uma canseira neles.”
A gente teve que rir. Murilo Berkovitz e Samuel Goldfarb eram dois trogloditas da Tijuca. Todos sabiam que eram inteirados – de verdade – na malandragem do bairro. Era impossível não ter medo deles. Já dava para ver a cara do pessoal do time azul tremendo na base.
Maurão olhou para o meu grupo continuou. “Quando chegarem na metade da trilha, vocês vão ter que entrar pelo mato para sair aqui na beira do campo.”
Ele apontou para o lugar no mapa. “Aqui vocês ficam na espera. Na primeira bobeira que eles derem, vocês saem correndo. Daí vocês já sabem; é pegar a bandeira e partir para o abraço.”
Já gostando da possibilidade de sairmos como heróis daquela mini guerra, respondemos que ía ser mole vencer aquele bando de otários.
Maurão encerrou a reunião levantando e dizendo “Vamos lá pessoal, vamos vencer essa parada!”
Saímos do quarto nos sentindo a própria tropa de elite saindo de uma reunião secreta no quartel general.
*
Dois dias depois, o jogo começou num clima agitado com a participação de todas as cinquenta e poucas pessoas que estavam ali. Seguindo o plano, as meninas e os caras mais quietos foram para o alto do morro defender a nossa bandeira. Enquanto isso, o Murilo e a sua turma pegaram a estrada principal e a gente se embrenhou pelo meio das árvores. Passado um tempo, começamos a ouvir os gritos do inimigo correndo atrás do grupo deles e chegando perto das nossas defesas.
Avançamos mais lentamente que o esperado porque o inimigo tinha colocado sentinelas ao longo da trilha. Para nos livrar deles nos espalhamos pelo mato antes do ponto que o Maurão tinha falado. Lá, quer por falta de empenho quer por falta de cuidado, um a um, meus camaradas foram sendo eliminados juntos com o pessoal do Murilo. As “mortes” aconteciam quando um adversário lia em voz alta o número nas nossas braçadeiras. Terminei como o único sobrevivente no ataque. Agora sozinho, fui seguindo em frente até conseguir me esconder no meio de uns arbustos a poucos metros do campo onde fiquei deitado, esperando pela hora certa.
A defesa do inimigo estava preocupada. “Ainda tem um escondido no mato”, gritou um deles. “Ele está ali! Ouviram este barulho?! ”
Ledo engano, para despistá-los, estava atirando pedras do mesmo jeito que os comandos americanos faziam na minha série de guerra favorita, Combate! Teve uma hora em que os pés de um deles passaram a poucos centímetros do meu nariz, mas continuei ali, incomodado pelos insetos, a apenas uma breve corrida da bandeira inimiga.
De repente teve um reboliço, um do time deles, Bruno Feldstein, um cara sardento, gorducho e metido a inteligente, voltou apressado da nossa base dizendo a todos que o ataque deles estava indo bem. A comemoração antecipada foi minha oportunidade e fui à luta. Saí correndo e quando perceberam o que estava acontecendo houve uma gritaria e um bando deles veio para me pegar. Me alcançaram a poucos centímetros do círculo de cal. Uma tempestade de braços me agarrou e tentou tirar minha mão direita da identificação no braço para me “matar”. Só faltava um passo e, usando toda minha força, consegui levar todo mundo comigo. Dentro do círculo ninguém podia mais me tocar. Como um último sobrevivente cercado por zumbis, levantei a bandeira do time azul e dei fim àquele jogo de guerra.
Aquele exercício marcou o encerramento de duas semanas de meio colônia de férias, meio seminário, ou machané, num hotel-fazenda com o nome ídiche Kinderland. Ela tinha sido organizada pelo Ichud Habonim, a organização sionista à qual eu pertencia. Para falar a verdade, o objetivo desse e de vários outros “movimentos” – que era como a comunidade se referia a eles – era o de nos convencer de que quando chegássemos à idade adulta nos mudássemos para Israel e servissemos seu exército. Para tanto, tentavam incutir uma forte dose de nacionalismo judaico por meio de preleções sobre como nossa povo – como qualquer outro – tinha o direito de viver na sua própria terra sem temer pogroms, inquisições, expulsões ou holocaustos.
Contudo, apesar da sua popularidade e dos pacotes que organizavam para irmos passar o verão em kibbutzim em Israel, o índice de sucesso no recrutamento de soldados da classe média carioca era baixíssimo. A maioria dos pais encarava essas organizações apenas como uma maneira de perpetuar a identidade ancestral da família e de tirar uma folga das crianças nas tardes de sábado e durante as férias. Quanto a questão do serviço militar, morriam de medo que os abandonássemos para acabar envolvidos numa guerra. Com notórias exceções, para nós esses encontros eram apenas uma maneira de nos divertir. A parte didática era um saco. De qualquer forma, vale ressaltar que apesar de nenhum madrich abordar questões fundamentais acerca da legitimidade de um estado exclusivamente judaico naquele lugar em específico ou sobre o destino dos palestinos, o ódio e o racismo não faziam parte da pauta.
*
Ainda não é claro se ser judeu significa pertencer a uma nação, fazer parte de uma religião ou seguir uma tradição. Qualquer que seja a resposta, a introdução foi dolorosa. Quando tinha apenas dez dias de vida, um cara de barba longa vestido de preto se aproximou com uma lâmina afiada, entoou uma canção estranha e daí cortou meu prepúcio sem dó nem anestesia. Depois de colocar um algodão para estancar o sangue e de limpar sua lâmina, o rabino abençoou aquele corte que seria o meu passaporte para uma família estendida que, de acordo com a crença, teria começado há quatro mil anos com um sujeito chamado Abraão.
Além da dor inenarrável que não me lembro, esse rito me jogaria num mundo de contradições, mitos e preconceitos ligados ao que talvez seja o povo mais esquisito do planeta. Ele também faria que meu pênis tivesse uma aparência diferente da dos de meus amigos de futebol e, numa perspectiva mais ampla, determinaria com quem deveria me casar, quem deveria ser meu amigo e qual estilo de vida deveria seguir. Por um terceiro ângulo, ele também ditaria quem iria querer se casar comigo e quem iria querer ser meu amigo.
Em casa, meus pais achavam tudo isso positivo; sua família e seus amigos também – afinal, fazia parte do que éramos. No mundo mais amplo, nem todos pareciam concordar. Quando tinha uns cinco anos abri, por acaso, um livro grosso sobre o Holocausto. Não sabia ler, mas dava para compreender as fotos de judeus religiosos chorando momentos antes de serem executados, de soldados ameaçando crianças com metralhadoras, de pessoas esqueléticas em pijamas listrados atrás de cercas de arame farpado com rostos sem expressão e de pilhas de corpos em valas comuns. Seu único crime tinha sido o de terem nascidos tão judeus quanto eu.
Nos anos 1960, essa experiência ainda era uma cicatriz fresca, profunda e mal disfarçada na comunidade. Todos os adultos tinham as suas histórias mas raramente falavam delas, só sabíamos o que ouvíamos por terceiros. A mãe de uma amiga que passou a guerra adotada por freiras, o conhecido de meu pai que tinha ido a pé da Romênia até a Palestina depois de ter visto sua família ser fuzilada, a mulher do Peter que tinha sido colocada num trem de crianças refugiadas na Bélgica e que nunca mais viu seus pais depois daquilo. Esse peso se manifestava em medos, neuroses e na desconfiança para com os não judeus. Para os que vieram depois, restou a questão complicada de como lidar com esse legado.
Por outro lado, em um país latino americano governado por uma ditadura tradicionalista, o catolicismo apostólico romano era uma presença forte no dia a dia – os evangelicos só apareceriam uma ou duas décadas mais tarde. Mesmo no futebol, agora tão importante para a mim, os heróis de meu time e da seleção faziam sinais da cruz sempre que marcavam gols e os comentaristas de futebol viviam usando bordões religiosos. Na vida cotidiana era igual – Ave Maria, cruz credo, minha Nossa Senhora, ai Jesus e por aí a fora – surgiam na maioria das conversas.
Na Escola Britânica as coisas eram um pouco diferentes. Meus colegas de sala eram em sua maioria protestantes. Isto fazia deles, pelo menos teoricamente, mais tolerantes. Como o único garoto judeu da turma – tanto na escola quanto no clube – era poupado dos estereótipos ligados à minha gente. Por me considerar um deles, se sentiam à vontade para me contar coisas estranhas que tinham aprendido em casa sobre nós com as quais não podia concordar. De acordo com minha experiência pessoal, sabia que éramos nem mais nem menos pão-duros do que pessoas de outros povos, sabia também que não éramos conspiradores perversos empenhados em dominar o mundo. Além disso, nunca tinha ouvido falar de ninguém beber o sangue de crianças cristãs durante a páscoa judaica, muito menos em qualquer outra época do ano. Ao contrário, para mim, a comunidade mais parecia um monte de gente desengonçada e neurótica.
Como fazem os garotos, queria fazer parte da turma. Por isso, embora negasse esses absurdos, fazia pouco caso do seu teor ofensivo. No fundo, porém, sabia que existia algo de fundamentalmente errado em ser forçado a ser um judeu enrustido. Vivendo entre os goyim – o nome dado aos não-judeus – simpatizava com a história de Moisés crescendo na corte do Faraó e às vezes me perguntava onde isso ia parar.
A única coisa certa, era que pertencer ao “povo escolhido” por Deus era estranho. A própria palavra “judeu” fazia com que pessoas virassem as costas ou produzissem sorrisos sem qualquer motivo lógico, dependendo de quem a escutava ou de quem dizia.
Esses absurdos se juntavam a um monte de outras perguntas. Por que gente que nem nos conhecia pessoalmente nos odiava a ponto de contemplar um extermínio em massa? Era culpa deles ou, de alguma forma, nossa? Quanto ao aspecto religioso havia questionamentos igualmente fundamentais: onde estava Deus quando pessoas inocentes imploravam nas câmaras de gás? se havia um único Deus e todos – cristãos, judeus e muçulmanos – acreditavam nele, por que não chegar a um acordo? Não seria isso que o criador iria querer das suas criaturas? Será que iríamos todos para paraísos diferentes quando morrêssemos? Ninguém jamais conseguiu me responder qualquer dessas perguntas de maneira convincente.
*
Início
Voltar
Seguir
por Mauro Nadvorny | 9 maio, 2020 | Brasil, Comportamento, Política
Revendo o que se poderia chamar de início dos fins dos tempos no Brasil, me deparei com aquelas primeiras manifestações verde-amarelas contra a Presidenta Dilma Rousseff. Nelas, crianças nos ombros de seus pais reclamando da alta do dólar e de sua vontade de poder ir a Disney. Lá estão também aqueles que reclamavam da alta da gasolina com histeria nos postos.
Pode-se compreender que cada um sabe onde mais lhe dói. O povo brasileiro tem gente que não junta uma moeda que caia no chão, e aqueles que fazem de tudo para receber uma moeda em um semáforo. Interessante que o abismo social no país aumentou proporcionalmente ao desarranjo político que se seguiu ao Impeachment de Dilma, o governo Temer, a prisão de Lula e a chegada ao poder de Bolsonaro.
Ninguém sabia que um vírus surgiria na China e causaria um dos maiores desastres econômicos mundiais ceifando vidas por todo o planeta com uma velocidade impressionante. O Covid-19 cobrou e segue cobrando um alto preço em todos os lugares onde a liderança política menosprezou sua força. O Brasil é a prova disso.
Sim, outros países cometeram este erro e isso fez com que a lição fosse aprendida pelos próximos países onde o vírus desembarcou. Dada a velocidade da contaminação e o número de óbitos, lidar com este vírus é como colocar uma pessoa em um carro em movimento e pedir que aprenda a dirigir. Ninguém tem certeza de nada porque ainda não houve tempo para se tirar todas as conclusões necessárias para apontar um caminho de como lidar corretamente com a pandemia, muito menos para se obter uma vacina.
Um fato é reconhecido por todo o mundo, o trabalho incansável do corpo médico para salvar pacientes, com a perda de suas próprias vidas. Em todos os países o agradecimento a estes profissionais em forma de aplausos nas janelas, de mensagens em cartazes nas redes sociais, nas redes de televisão é comovente.
Mas existe uma exceção no mundo, e ela acontece no Brasil. O corpo médico é atacado por aquelas mesmas pessoas que reclamavam da alta do dólar e da gasolina. De verde e amarelo eles agridem os profissionais que lutam desesperadamente para salvar vidas em um sistema que entra em colapso e vai obriga-los em breve a escolher quem tratar, e quem deixar morrer.
Estes brasileiros acompanham somente as redes de informação bolsonaristas. Nelas o importante é a volta ao trabalho, a abertura do comércio e o livre ir e vir. Tudo repetido exaustivamente pelo seu líder ao lado das notícias que mostram, diariamente, o aumento do número de infectados e de mortos. Já são 150.000 e 10.000, respectivamente.
O que se sabe de uma doença contagiosa, qualquer que seja ela, é de que somente o isolamento do doente impede o contágio de outros. Assim, para se combater o Covid-19, em todos os lugares, começando pela China, a população foi colocada em lockdown. Todos permanecendo em casa, os doentes são mais facilmente identificados, hospitalizados e tratados. Reduz-se assim o número de novos doentes e em pouco tempo a vida pode começar a voltar ao normal. Onde não se obedeceu a esta recomendação, o resultado foi desastroso em termos de vidas ceifadas e crise na economia. São 4.000.000 milhões de pessoas infectadas e 275.000 mil mortes no mundo.
Agora o momento de voltar aqueles de verde-amarelo. Aqueles que puderam viajar e trouxeram o vírus para o Brasil. Estes que saem as ruas em carreatas para exigir a volta a normalidade em meio ao desastre causado por eles próprios. Que atacam o corpo médico e ameaçam fechar o Congresso e o STF. Os que colocam o emprego doméstico como serviço essencial, afinal a Casa Grande não pode ficar sem limpeza diária.
Esta escória nacional que continua flertando com um presidente que não tem nenhuma preocupação com o povo brasileiro, além daqueles que o bajulam. O tipo de gente que continua se negando a ficar em casa e saem as ruas sem máscaras. Idiotas que se aglomeram para aplaudir seu ídolo que os recebe de braços abertos e cara limpa.
Todos os países do mundo vão passar por uma crise econômica e social, de maior, ou menor intensidade. Não existem exceções e o tempo necessário para superar a crise vai depender da capacidade de cada país em voltar a normalidade, mas principalmente na capacidade do mundo voltar ao normal. As economias hoje são globais e países dependem de importações e exportações.
No Brasil a crise será ainda pior por conta da instabilidade política e a falta de um presidente no cargo, uma vez que este que lá está, não trabalha. Se o país já estava à deriva antes da chegada do Covid-19, agora está fazendo água por todos os lados, graças a esta turba fascistóide que sustenta esta família miliciana no poder.
Mas se nada está tão ruim, que não possa piorar, o Centrão, aqueles parlamentares de partidos nanicos, de siglas de aluguel, conhecidos como do baixo-clero, que pendem para o lado que mais oferece algo em troca de seus votos, agora estão sendo agraciados com cargos e afagos para darem seu apoio a Bolsonaro. Sem eles, não existe a menor possibilidade de um Impeachment.
Restaria o STF. Mais precisamente um processo por crime de responsabilidade. Crimes estes que se numerados, faltaria papel. Também lá, depois que seu atual presidente, Dias Toffoli, recebe Bolsonaro e sua comitiva de empresários para escutar suas lamúrias pelo isolamento social, nada se pode esperar.
Ao que tudo indica serão tempos muito difíceis para o Brasil. Em algum momento o Corona-19 vai passar, mas em seu rastro, não serão apenas as vidas perdidas para se lamentar. O maior lamento será como foi possível que deixamos isto acontecer, quanto tempo será necessário para recuperar o país enquanto esta gangue de criminosos continuar no poder, e o que virá depois dela.
por Mauro Nadvorny | 3 maio, 2020 | Brasil, Opinião
Pessoal, a Bandeira de Israel levantada em atos pró-Bolsonaro, NÃO É LEVANTADA por Judeus ou Judias, mas por neopentecostais! Alguns neopentecostais se AUTOINTITULAM “judeus messiânicos” e alguns se AUTO-INTITULAM “Rabinos”. A maioria roubou símbolos judaicos (Menorá, Kippá, Bandeira de Israel etc) e usam-nos em seus cultos e igrejas. A Bandeira de Israel nesse tipo de manifestação é identificação neopentecostal com uma Israel profética, messiânica e evangélica, não com o Judaísmo ou com o Estado de Israel REAL.
O que me surpreende não é isso, mas que muitos Judeus publicam esse lixo e essa baboseira e, SEM CRITÉRIO, aceitam ataques contra Judeus, inclusive alguns chamando Judeus de nazistas e pró-Hitler! Não sei, AINDA, quem é mais estúpido: o neopentecostal babaca de kippá e bandeira Israelense ou o Judeu que não enxerga isso!
Fica pior quando esse tipo de Judeu cego é de Esquerda, pois à Esquerda não se permite ESTUPIDEZ! A ignorância destes e daqueles me faz SCHIFO!