Quando Nosso Luto Vale Mais do que o Deles

Momento do tiro

“Os homens não diferem muito sobre o que chamarão de males; diferem enormemente sobre quais males considerarão desculpáveis.” Quando C.S. Lewis escreveu essa frase, talvez não imaginasse que estava desenhando o mapa completo do colapso moral de Israel. O problema nunca foi nossa incapacidade de reconhecer o mal. Todos sabemos, com uma clareza quase instintiva, o que é crueldade, como se parece a injustiça, o que significa destruir uma vida. Essa clareza é universal, atravessa culturas, idiomas e fronteiras. E, ainda assim, desaparece como fumaça no vento no momento decisivo — quando precisamos escolher entre condenar ou perdoar. E a variável que decide nunca é a natureza do ato, nunca a intensidade do sofrimento causado, nunca qualquer medida objetiva de proporcionalidade entre crime e julgamento. A variável é sempre, incansavelmente, a mesma: quem cometeu o ato. Se é um dos nossos ou um dos deles. Se carrega nossa bandeira ou a bandeira do inimigo. Se a dor deles nos toca ou nos deixa indiferentes.

Há uma aritmética perversa nessa geometria moral. A mesma bala que atravessa uma criança muda de nome conforme a direção do cano: terrorismo quando vem de um lado, dano colateral quando vem do outro. A mesma casa reduzida a escombros é barbárie quando é a nossa, operação cirúrgica necessária quando é a deles. A mesma voz que se rompe sobre o corpo de uma criança é tragédia humanitária quando grita na nossa língua, estatística aceitável quando clama em uma língua que preferimos não entender. E nós, confortavelmente distantes do sangue e das ruínas, fazemos essas distinções com a solenidade de quem acredita exercer julgamento moral genuíno, quando na verdade estamos apenas defendendo nossa tribo, confirmando nossos vieses, escolhendo a versão da história que nos permite dormir. Nossos padrões éticos não funcionam como princípios universais — funcionam como espelhos que refletem apenas o que já queremos ver, o que já acreditamos, o que confirma nosso lugar no mundo. A justiça deixa de ser farol e se torna reflexo.

Trinta anos atrás, dois tiros nas costas de Rabin mataram mais do que um homem. Mataram uma possibilidade — a esperança frágil de que ainda poderíamos ser um país decente, moralmente íntegro, em que a paz pudesse pesar mais do que a vitória, em que a justiça pudesse transcender sangue, solo e tribo. E aqui não há abstração, não há poesia suavizando o que a história fez daquela noite: aqueles que celebraram o assassinato de um judeu por outro judeu — de um primeiro-ministro por um homem que dizia servir ao mesmo povo — não desapareceram na vergonha ou no exílio. Não se arrependeram. Esperaram. Gritaram. Marcharam. E no fim foram recompensados não com desonra, mas com poder. Algumas das mesmas vozes que um dia incitaram e santificaram o assassinato hoje ocupam o governo, moldando as leis e o espírito do país, trabalhando diligentemente para garantir que tudo aquilo que Rabin mais temia tenha se tornado nossa realidade cotidiana. Se isso não prova o quão ansiosamente relativizamos o mal quando nos convém, o quão prontamente absolvemos a violência quando a mão que aperta o gatilho é da nossa própria tribo, então nada provará.

O que veio depois não foi acidente da história, nem desvio inexplicável de algum curso natural das coisas. Foi escolha. Nossa escolha, escolha coletiva, repetida dia após dia em cada conversa em que encontramos contexto para nossa violência, mas negamos qualquer compreensão à violência alheia; em cada julgamento em que nossa dor é tragédia shakespeariana enquanto a deles é mera circunstância geopolítica; em cada momento em que nossos mortos merecem luto público e os deles merecem, no máximo, uma nota de rodapé. As pessoas me escrevem insistindo que os palestinos são os únicos culpados pelo fracasso do processo de paz, como se a culpa fosse uma moeda única a ser depositada inteira em um só bolso, como se a inocência absoluta existisse de um lado e a culpa absoluta do outro, como se a história fosse uma fábula moral e não a tragédia complexa que realmente é, na qual todos carregamos feridas e facas. A verdade é muito mais brutal: todos somos responsáveis — eu, você e eles.

Isso não é diluição conveniente da culpa até ela se dissolver no abstrato. É o reconhecimento de que a injustiça opera como um sistema ao qual cada um de nós contribui segurando um fio diferente da teia. O homem que aperta o gatilho segura um fio. Aquele que forneceu a arma segura outro. Aquele que construiu o discurso que tornou o tiro imaginável segura um terceiro. O que aplaudiu depois, o que se calou estrategicamente, o que desviou o olhar no momento crítico, o que elaborou a narrativa que transforma assassinato em necessidade, massacre em autodefesa, crueldade em pragmatismo — cada um segura um fio. E segura também quem depositou seu voto naqueles que elogiaram o assassinato, e todos aqueles que elegeram os que celebraram ou santificaram o crime, entregando deliberadamente poder às mãos de pessoas que transformaram um assassinato em missão. Juntos, todos nós tecemos a rede na qual nos aprisionamos, repetindo os mesmos gestos e justificativas numa dança que já dura décadas e promete durar séculos, até que tenhamos coragem de soltar nossas pontas da corda e deixar a estrutura desabar.

Quando a linha entre condenação e perdão é traçada não pelo ato, mas pelo autor, a justiça como ideia universal simplesmente colapsa. O que resta não é ética, mas código tribal. O que persiste não é busca da verdade, mas defesa da nossa verdade. Julgamos não atos, mas identidades. Medimos não consequências, mas bandeiras. Pesamos não dor, mas proximidade com nossa mesa de jantar. E, ao fazê-lo, revelamos algo profundamente inquietante sobre nós mesmos: nossos princípios morais servem menos como bússolas apontando para algum norte ético objetivo e mais como instrumentos de confirmação de preconceitos, armas de guerra tribal disfarçadas de justiça, ferramentas não de revelação, mas de proteção contra verdades inconvenientes.

Duas tentações se erguem simetricamente diante dessa constatação. Uma é o cinismo niilista: se todos são parciais, se todo julgamento é reflexo de interesse, se não existe observador neutro, então não existe justiça verdadeira e podemos abandonar o teatro cansado da moralidade. A outra é o fanatismo: a pureza absoluta do próprio lado, a justiça inquestionável da própria causa, onde toda dúvida vira traição e toda crítica é ajuda ao inimigo. Ambas são refúgios confortáveis que nos poupam do trabalho mais difícil — olhar no espelho e admitir que o rosto refletido faz parte do problema, não é observador inocente da tragédia alheia. Mas há um terceiro caminho, estreito e sem corrimão: manter a consciência radical de nossa falibilidade moral sem abandonar a busca pela justiça. Reconhecer que julgamos através de lentes distorcidas não nos libera de julgar — nos obriga a julgar sabendo disso, a aplicar a nós mesmos o mesmo padrão implacável que aplicamos aos outros, a dizer em voz alta que aquilo que fizemos foi errado mesmo quando há contexto, mesmo quando há provocação, mesmo quando admitir dói como ferida aberta.

Isso exige algo que vai contra cada instinto tribal enterrado em nossa medula: pesar nossos mortos e os deles na mesma balança. Chorar por suas mães com a mesma visceralidade com que choramos pelas nossas. Ver suas crianças como igualmente dignas de futuro quanto as nossas. Renunciar ao conforto entorpecente da vitimização perpétua — essa narrativa na qual estamos sempre respondendo e nunca iniciando, sempre nos defendendo e nunca atacando, sempre vítimas da história e nunca seus agentes. Exige que deixemos de medir a gravidade do mal pela identidade de quem o comete e comecemos a medi-lo apenas pelo mal em si, pela vida destruída, pelo mundo que desaparece a cada respiração interrompida.

Os dois tiros de trinta anos atrás ecoam não porque foram dois projéteis entrando em um corpo numa noite específica. Ecoam porque foram o ápice de mil escolhas anteriores e o anúncio de todas as escolhas que faríamos depois — a decisão de dividir o mundo entre nós e eles, entre os que merecem contexto e os que merecem somente julgamento, entre os que têm direito ao luto e os que têm direito apenas à análise estratégica. E continuam ecoando porque seguimos fazendo essas mesmas escolhas todos os dias, a cada manhã em que acordamos, cada vez que nossa indignação tem CEP específico, cada vez que o nome do crime muda quando muda o nome do criminoso, cada vez que produzimos justificativas elaboradas para nossa crueldade que jamais aceitaríamos da crueldade alheia.

A possibilidade que morreu com Rabin não morreu apenas por duas balas. Morreu pela nossa decisão coletiva, consciente ou não, de acreditar que algumas balas são mais desculpáveis que outras. Que alguns corpos pesam mais. Que nosso luto merece ritual e o deles merece contexto. E essa decisão, multiplicada por milhões de pessoas, em milhões de conversas e julgamentos cotidianos, é o que de fato mata a decência. Os extremistas que apertam gatilhos são apenas os dedos mais visíveis de uma mão que todos formamos. Fornecemos as premissas, assentamos os tijolos do clima moral no qual matar se torna pensável desde que seja sempre o outro a morrer. Amarramos nossos próprios fios na rede que aperta ao redor de todos nós.

Se a linha entre condenação e perdão é traçada pela identidade do autor e não pelo ato, a justiça não é apenas frágil — ela é fictícia. Nosso código ético vira mecanismo de autoengano coletivo, espelho polido para nos devolver apenas a imagem que preferimos. E se isso é verdade — e os trinta anos desde aqueles dois tiros sugerem que é — então a pergunta deixa de ser filosófica e se torna urgente, dolorosa e pessoal: teremos coragem de quebrar esses espelhos? De parar de buscar neles confirmação e começar a buscar verdade? De admitir que enquanto medirmos o mal pelo autor e não pelo dano, nunca teremos justiça, apenas sua ilusão — e essa ilusão é o mal mais perigoso de todos, porque se justifica infinitamente, se multiplica eternamente e mata sem jamais precisar confrontar o próprio rosto?

Somos todos responsáveis — eu, você e eles. E até que consigamos repetir isso olhando diretamente para o espelho, sem suavizar o olhar, sem buscar absolvição conveniente no reflexo, os dois tiros continuarão ecoando através das gerações, matando repetidamente a mesma possibilidade frágil de sermos, enfim, um povo decente e moralmente íntegro. A justiça continuará sendo espelho que devolve apenas o que queremos ver, nunca o farol que guia através da escuridão que nós mesmos, escolha após escolha, dia após dia, continuamos criando.

Quando a Fé Busca Refúgio na Má-Fé


Deixa eu te perguntar uma coisa: quando você escolhe ignorar algo para conseguir focar em outra coisa, isso é sabedoria ou fuga? A resposta não é simples, e é exatamente aí que mora o problema dos ultraortodoxos que protestaram hoje em Jerusalém.
Sydney Smith disse uma vez que precisamos ter coragem de ignorar muitas coisas para não terminarmos ignorantes de tudo. Faz sentido, não? Vivemos em um mundo com infinitamente mais informação do que qualquer cérebro humano consegue processar. Então você precisa escolher. O físico ignora teoria literária, o poeta ignora mecânica quântica, e tudo bem. Ninguém consegue saber tudo.
Mas aqui está a diferença crucial: uma coisa é mapear o território do conhecimento humano, reconhecer seus próprios limites e, então, fazer escolhas estratégicas sobre onde investir sua atenção. Algo completamente diferente é se recusar a olhar o mapa inteiro, construir paredes altíssimas ao redor de um único livro e chamar isso de profundidade.
Os haredim fazem isso. Eles não escolheram profundidade ao invés de amplitude depois de conhecer ambas. Eles escolheram nunca conhecer amplitude nenhuma. E existe uma hipocrisia brutal aí.
Veja: eles afirmam que estudar Torá e Talmud dia e noite é mais importante do que defender Israel militarmente. Dizem que suas orações protegem o país mais do que soldados com fuzis. Certo, vamos aceitar esse argumento por um instante. Se fosse verdade — se eles realmente acreditassem nisso — seriam como monges budistas ou eremitas cristãos do deserto. Autossuficientes. Isolados. Sem pedir nada a ninguém.
Mas não é assim. Eles vivem dentro do Estado moderno de Israel. Usam estradas construídas por engenheiros seculares. Vão a hospitais dirigidos por médicos que estudaram biologia evolutiva. Recebem subsídios do governo financiados por impostos pagos por pessoas que trabalham, e não por quem passa o dia estudando textos religiosos. E quando alguém sugere que talvez — só talvez — eles devessem contribuir defendendo o Estado que os protege e os sustenta, tomam as ruas gritando perseguição.
Percebe a contradição? Querem viver numa bolha pré-moderna, mas sustentada pela modernidade que desprezam. Querem os benefícios da cidadania sem suas obrigações. E não por pacifismo universal — quakers e menonitas também recusam armas, mas como princípio aplicado a todos. Os haredim recusam por excepcionalidade: nós somos especiais, não precisamos, mas vocês sim, e aliás continuem nos financiando enquanto estudamos.
Agora vamos ao argumento filosófico, porque essa hipocrisia política é apenas um sintoma de algo maior.
Heidegger criticou a modernidade por transformar tudo em recurso disponível, peças intercambiáveis dentro de um sistema técnico. A universidade moderna, com suas especializações infinitas, produz expertise sem sabedoria, técnica sem propósito. O físico nuclear não conversa com o filósofo, que não conversa com o poeta. Todos sabem muito sobre quase nada e quase nada sobre o todo. Existe uma nostalgia legítima pela paideia clássica, pela formação que produzia pessoas capazes de pensar sobre tudo.
Os haredim parecem responder a isso. Parecem dizer: vocês se fragmentaram, nós nos concentramos. Vocês sabem um pouco de tudo e nada profundamente; nós sabemos tudo sobre uma coisa. Vocês estão perdidos no caos do conhecimento moderno; nós temos um centro.
Mas essa resposta é falsa. Não é concentração — é clausura. Não é profundidade — é tautologia. Eles não estudam o Talmud para entender o mundo através dele — estudam o Talmud para estudar o Talmud. Hermenêutica circular. O texto explica o texto que explica o texto. Nenhuma realidade externa pode tocar esse circuito fechado.
Pense assim: Wittgenstein disse que os limites da sua linguagem são os limites do seu mundo. Os haredim literalmente limitam a linguagem dos seus filhos. Nada de matemática avançada, nada de ciências naturais, nada de história crítica, nada de filosofia secular. E quando você faz isso, não está escolhendo um mundo menor, porém mais rico — está escolhendo apenas um mundo menor.
E sabe o que mais me incomoda? Isso não é tradição judaica autêntica. A grande tradição rabínica nunca teve medo de perguntas difíceis. Maimônides dialogava com Aristóteles. O Talmud é exercício de argumentação dialética, onde nada é aceito sem questionamento feroz. Os sábios debatiam tudo. A yeshivá original era arena intelectual, não bunker.
Os haredim de hoje pegaram essa tradição viva, dialética, arriscada — e mataram. Mumificaram. Transformaram perguntas em respostas prontas, busca em posse, abertura em fechamento. E chamam isso de fidelidade. Mas mumificar não é preservar — é matar e fingir que está vivo.
O protesto de hoje revela o que está acontecendo: pânico. Medo profundo de que, se esses jovens forem expostos ao mundo real — pelo serviço militar, pelo contato com o mundo secular, pela responsabilidade cívica — todo o edifício de certezas desabe. E provavelmente vai.
E sabe de uma coisa? Deve desabar. Porque uma fé que só sobrevive em condições laboratoriais, isolada da realidade, não é fé profunda — é dogma frágil. Uma tradição que precisa de censura total, isolamento absoluto e ameaça de ostracismo para se perpetuar não é sabedoria milenar — é coerção vestida de santidade.
Voltando à pergunta inicial: existe coragem em ignorar algumas coisas para focar em outras? Sim. Mas isso pressupõe que você poderia ter escolhido diferente. Que conheceu as alternativas e decidiu conscientemente onde investir sua atenção limitada.
Quando você se recusa a aprender algo porque isso ameaçaria suas certezas, isso não é curadoria intelectual — é covardia. E quando constrói instituições inteiras para evitar que seus filhos sejam expostos a ideias incômodas, você não está transmitindo sabedoria — está fabricando fragilidade institucionalizada.
Os haredim não demonstram coragem de ignorar — demonstram medo de saber. E há uma diferença enorme aí.
Então, quando você vê centenas de milhares nas ruas defendendo o direito de não servir, não se deixe enganar pela retórica de profundidade espiritual. Você está vendo uma comunidade dedicando recursos enormes para manter ignorância planejada. Gente que estreitou a atenção não para enxergar melhor, mas para não enxergar nada. E que ainda exige que você pague por esse privilégio.
Isso não é religião — é má-fé. E a má-fé, como Sartre sabia muito bem, é a mentira que você conta para si mesmo — a mais perigosa de todas, porque mentiroso e enganado são a mesma pessoa.

(mais…)

O oprimido que se tornou opressor

Escrevo este texto enquanto observo, em choque,  meu país Israel se destruir moralmente. Sou sionista e humanista, alguém que passou a vida estudando história, mergulhando nos padrões que se repetem através dos séculos, nas revoluções que prometem liberdade e nas estruturas de poder que emergem de suas cinzas.

E é dessa imersão na história humana que carrego comigo uma verdade fundamental: quando, no curso do desenvolvimento humano, as instituições existentes se provam inadequadas às necessidades do ser humano, quando servem apenas para escravizar, roubar e oprimir a humanidade, o povo tem o direito inalienável de se rebelar contra essas instituições e derrubá-las.

Isso não é um princípio abstrato para mim. Não é apenas teoria política ou filosofia distante. É uma verdade visceral, forjada tanto nos livros de história que devorei quanto na história do meu próprio povo. Vi esse padrão se repetir da Revolução Francesa à descolonização africana, das revoltas de escravos na Antiguidade aos movimentos de direitos civis do século XX. E vivi isso como judeu, como descendente de um povo que precisou invocar exatamente esse direito para sobreviver.

Nós, judeus, conhecemos intimamente o que significa viver sob instituições que nos escravizaram, roubaram e oprimiram. Conhecemos os guetos, as leis que nos tratavam como menos que humanos, os pogroms, a Shoah. Conhecemos o sabor amargo da dignidade negada, da humanidade questionada, da existência ameaçada simplesmente por existir.

E nos rebelamos. Claro que nos rebelamos.

Lutamos por nossa dignidade, por nosso direito de existir, por um lugar onde pudéssemos ser humanos completos, não tolerados, não subjugados, mas livres. E conquistamos isso. Israel existe porque nos recusamos a aceitar que as instituições do mundo nos condenassem à extinção. O sionismo foi nossa rebelião contra séculos de opressão, nossa afirmação de que merecíamos autodeterminação, segurança, um futuro.

Isso foi um ato moral. Profundamente moral.

Mas aqui está a pergunta que me assombra, a pergunta que meu estudo da história torna impossível ignorar: quando derrubamos as instituições que nos oprimiam, quando construímos as nossas próprias, conseguimos permanecer fiéis àquele impulso moral original? Ou, sem perceber, sem querer, reproduzimos as mesmas estruturas de dominação que buscamos destruir?

A história me ensinou algo devastador: quase toda revolução, quase todo movimento de libertação corre esse risco. Os jacobinos que derrubaram a monarquia francesa criaram o Terror. Os bolcheviques que libertaram os servos russos criaram o Gulag. Os revolucionários que expulsaram colonizadores frequentemente se tornaram os novos opressores de minorias dentro de suas próprias fronteiras.

É o padrão mais trágico e mais comum da experiência humana: o oprimido que se torna opressor.

E, quando olho para meu país hoje, quando vejo Israel pelas lentes dessa história que tanto estudei, vejo algo que me parte o coração.

Vejo um povo que conhece intimamente a dor da opressão agora controlando outro povo. Vejo muros que lembram guetos, embora digamos que são diferentes. Vejo postos de controle que regulam o movimento, que transformam a simples ação de ir ao trabalho ou visitar a família em uma humilhação diária. Vejo crianças que crescem sob ocupação, assim como nossos avós cresceram sob ocupação, embora insistamos que não é a mesma coisa.

E talvez não seja exatamente a mesma coisa. Mas é perto o suficiente para me fazer perguntar: como chegamos aqui?

Como um povo que gritou “nunca mais” se encontra criando as condições em que outro povo grita a mesma coisa? Como justificamos para nós mesmos que nossa segurança exige a indignidade deles? Como nos convencemos de que os muros que construímos são defensivos, enquanto os muros construídos contra nós eram opressivos?

A resposta, e isso é doloroso admitir, é que toda revolução corre o risco de reproduzir o que destruiu, não por maldade necessariamente, não por hipocrisia consciente, mas porque o poder corrói com uma sutileza insidiosa. Começamos dizendo que precisamos de poder para nos proteger. E isso é verdade. Realmente precisávamos. Realmente precisamos.

Mas o poder não para aí. O poder se expande. O poder se justifica. O poder encontra sempre mais razões para ser exercido, sempre mais ameaças que devem ser neutralizadas, sempre mais controles que devem ser implementados para garantir a segurança.

E, antes que percebamos, não estamos mais apenas nos defendendo. Estamos dominando.

E, quando alguém aponta isso, quando alguém diz que estamos reproduzindo estruturas de opressão, nos indignamos. Como ousam comparar? Como ousam equiparar nossa luta legítima pela sobrevivência com a opressão que sofremos? Não entendem que somos diferentes? Não entendem que nossas circunstâncias são únicas?

Talvez sejam. Talvez cada situação seja única. Mas isso não muda a verdade fundamental: um povo ocupado, controlado, humilhado diariamente, privado de autodeterminação, é um povo cuja dignidade está sendo negada. E eu, como judeu, como alguém cujo povo conhece essa dor intimamente, não posso fingir que não a vejo.

O paradoxo é ainda mais profundo: se reconheço isso, se admito que Israel, em sua forma atual, reproduz estruturas de dominação, o que faço? Apoio a derrubada dessas estruturas? Apoio aqueles que se rebelam contra elas?

E então me deparo com outra verdade inconveniente: aqueles que se rebelam contra a dominação israelense não são todos santos morais. Alguns querem genuinamente libertação e dignidade. Outros querem simplesmente inverter a dominação, nos colocar de volta sob seu controle, talvez até nos eliminar completamente.

Como, então, separo a rebelião legítima pela dignidade da violência que busca apenas inverter a opressão? Como apoio o direito de um povo de se rebelar contra instituições que o oprimem quando sei que alguns dos que se rebelam me destruiriam se pudessem?

Esta é a complexidade moral em que vivo. Não tenho respostas fáceis. Não tenho slogans simples. Não posso simplesmente dizer que Israel está certo ou que Israel está errado. Não posso simplesmente rotular a resistência palestina como inteiramente legítima ou inteiramente terrorismo. A realidade é mais nuançada, mais dolorosa, mais resistente a certezas confortáveis.

O que posso dizer é isto: toda revolução corre o risco de reproduzir o que destruiu. Isso não é uma possibilidade remota, é quase uma inevitabilidade. O oprimido que se torna opressor é um dos padrões mais trágicos e mais comuns da história humana.

Mas reconhecer esse risco não significa aceitá-lo como fatalidade. Significa permanecer vigilante. Significa questionar constantemente se nossas ações, justificadas como defesa, não se tornaram dominação. Significa ouvir quando os outros nos dizem que estamos reproduzindo o que sofremos, mesmo quando dói ouvir, mesmo quando nossa primeira reação é negar.

Significa lembrar que o direito de se rebelar contra instituições opressivas não pertence apenas a nós, pertence a todos os povos, inclusive àqueles que agora vivem sob nosso controle.

E aqui está a verdade mais difícil: se realmente acreditamos que as pessoas têm o direito eterno de se rebelar contra instituições que as escravizam, roubam e oprimem, então precisamos admitir que os palestinos têm esse direito também, não o direito de nos destruir, nem o direito de nos negar a existência, mas o direito de resistir à ocupação, de lutar por sua dignidade, de derrubar as estruturas que os controlam.

Reconhecer esse direito não nega nosso direito de existir, de nos defender, de ter um lugar seguro no mundo. Mas exige que façamos uma distinção crucial entre defender nossa existência e dominar a deles.

Israel pode existir sem ocupação. Israel pode ser seguro sem transformar outro povo em súditos. Israel pode honrar sua própria história de opressão sem reproduzi-la contra outros.

Mas isso exige algo extraordinariamente difícil. Exige que abramos mão do poder. Exige que confiemos, ao menos em parte, em um futuro em que a segurança venha não do controle total, mas do acordo mútuo. Exige que arrisquemos.

E talvez isso seja pedir demais. Talvez, depois de tudo que sofremos, seja irrealista esperar que abramos mão de qualquer vantagem, de qualquer controle, de qualquer poder que nos mantenha seguros.

Mas, se não fizermos isso, se nos apegarmos ao poder como única garantia de segurança, então já perdemos algo fundamental. Perdemos a pureza moral daquela rebelião original. Perdemos o direito de afirmar que nossa revolução foi diferente, que, quando derrubamos as instituições que nos oprimiam, não criamos novas para oprimir outros.

Então eu te pergunto, não como provocação, mas como alguém genuinamente dividido: como permanecemos fiéis ao impulso moral da rebelião enquanto exercemos o poder que conquistamos? Como garantimos que as instituições que construímos para nos proteger não se tornem instrumentos de dominação? Como quebramos o ciclo em que o oprimido se torna opressor?

Não tenho resposta completa. Mas sei onde começa: começa em reconhecer que o perigo existe. Começa em admitir que nós, como qualquer povo que conquistou poder, corremos o risco de reproduzir o que destruímos. Começa em ouvir quando outros nos dizem que sua dignidade está sendo negada, mesmo quando isso dói, mesmo quando desafia nossa narrativa de vítimas que se defendem.

A menos que escolhamos resistir a essa reprodução conscientemente e dia após dia, a revolução inevitavelmente se desgastará e reproduzirá os velhos instrumentos de dominação.

Porque não votei nas eleições para a Organização Sionista Mundial (OSM)

Sou sionista pela definição mínima e não militante do termo: sou a favor da existência do Estado de Israel, ponto. Não obstante, não me inscrevi para votar na eleição recente. Explico porquê.

Para votar, é necessário estar de acordo com o Programa de Jerusalém, uma carta de princípios do movimento sionista. A Federação Sionista Brasileira disponibilizou em seu site os pontos do Programa (1), que já havia lido há muito tempo. Chamou a atenção o último ponto, que desconhecia ou não me lembrava.

“Encorajar o recrutamento e o serviço nas Forças de Defesa de Israel (IDF) e nas forças de segurança, e fortalecê-las como a força protetora do povo judeu vivendo em Tzión, assim como encorajar o Serviço Nacional completo para qualquer pessoa isenta por lei de servir nas IDF.”

Pesquisei e descobri que este ponto foi incluído em fevereiro de 2024, quatro meses após o horrendo massacre terrorista do Hamas. Um massacre que o governo israelense sabia de seu planejamento com detalhes no mínimo 18 dias antes (2) e nada fez para detê-lo (3). Um massacre que atendia à sobrevivência política de Netanyahu e ao racismo institucionalizado de ministros como Itamar Ben Gvir e Bezalel Smotrich, e seu desejo explícito de limpeza étnica e colonização de Gaza e Cisjordânia, custe o que custar a palestinos e israelenses, sequestrados inclusive. Para tanto, entregaram as comunidades do sul nas mãos dos terroristas.

Que estes traidores necessitem de soldados em fluxo contínuo para sua guerra de destruição e ocupação, não espanta. Em número crescente, soldados regulares e da reserva se recusam a continuar combatendo (4) em uma guerra ideológica e sem mais sentido defensivo, mesmo tendo que passar um mês na cadeia. Em número crescente, soldados se suicidam (5). Mas se a OSM se mancomuna à extrema-direita israelense e emula um posto de recrutamento de um exército em sua fase mais destrutiva e que não mais se limita à defesa de Israel, não poderia me engajar nestas eleições. O apelo do bilhão de dólares que serão disponibilizados anualmente por cinco anos para dividir entre as representações no Congresso Sionista Mundial não supera o que considero uma degradação moral do oficialato sionista, cada vez mais distante de parte de suas bases.

À parte disso, fiquei contente com a vitória da chapa do Meretz (6) – alinhada à esquerda sionista israelense- no Brasil. Algo a ser melhor compreendido para além do “efeito Gaza”, em uma comunidade em que seu oficialato escolheu se aliar a governadores bolsonaristas (7) e aos evangélicos dos dólares na Bíblia (8) e seus delírios messiânicos sobre um Israel mítico. Talvez sinalize uma diferença da rua judaica em relação àqueles que pretensamente os representam.

1- disponível em 27/7/25 em https://www.sionista.org.br/quem-somos/programa-de-jerusal%C3%A9m

2- disponível em 27/7/25 em https://www.timesofisrael.com/weeks-before-oct-7-idf-said-to-have-been-warned-of-hamas-plan-to-take-250-hostages/

3- disponível em 27/7/25 em https://www.timesofisrael.com/lapid-netanyahu-was-briefed-on-dangers-ahead-of-oct-7-ignored-all-red-flags-must-go/?fbclid=IwY2xjawFUKrhleHRuA2FlbQIxMQABHe8vlFZBM3ppdchQ-8FIHSOjZekWSNsS5k1-twzdJutqd8fp1amnolCOBw_aem_vdKnrxkDDCRLFWw5rFzzAA

4- disponível em 27/7/25 em https://www.haaretz.com/israel-news/2025-07-09/ty-article-magazine/.premium/meet-the-israelis-who-refuse-to-fight-in-gaza-this-war-had-crossed-every-moral-boundary/00000197-ee9a-d0a0-a1df-eeff013c0000

5- disponível em 27/7 25 em https://www.timesofisrael.com/reservist-who-identified-bodies-after-oct-7-found-dead-in-suspected-suicide/

6- disponível em 27/7/25 em https://www.sionista.org.br/resultado-elei%C3%A7%C3%A3o-sionista-2025

7- disponível em 27/7/25 em https://www.conib.org.br/noticias/todas-as-noticias/39265-governadores-politicos-e-liderancas-religiosas-e-comunitarias-prestigiam-55-convencao-da-conib.html

8- disponível em 27/7/25 em https://www.conib.org.br/noticias/todas-as-noticias/37610-primeiro-forum-judaico-evangelico-reune-liderancas-da-america-latina-em-sao-paulo.html

Tempos de guerra e tempos de paz

Tempos de guerra e tempos de paz

Foram duas semanas de guerra. Entradas e saídas do quarto seguro dia e noite. Todos se sentindo como zumbis, devendo horas de sono. E não é apenas poder dormir, é poder ter um descanso. Finalmente acabou.

A volta ao dia a dia não é tão simples. Nem todo mundo acredita  que o Irã vai respeitar o cessar-fogo. Nem todo mundo consegue sair de casa depois do sufoco que passaram. Nem todo mundo tem casa para voltar. Existem milhares de desabrigados espalhados pelas cidades atingidas vivendo em hotéis disponibilizados pelas prefeituras. Alguns sem lenço e sem documento, somente com a roupa do corpo. Tudo foi perdido na explosão do míssil balístico, mas as vidas foram preservadas.
Alguns dos prédios atingidos vão poder ser reformados, outros estão condenados e terão de ser demolidos. Até que sejam reconstruídos, a vida será em um quarto de hotel ou em casas alugadas.
Com esta guerra concluída, nos voltamos para a guerra remanescente em Gaza que se aproxima de dois anos. Se nos minutos finais antes do cessar-fogo, um míssil matou 4 pessoas, ontem à noite, uma bomba plantada pelo Hamas matou 7 soldados.
É preciso terminar com a operação em Gaza que não se justifica mais. Claro que mediante um acordo que traga de volta nossos reféns e não permita ao Hamas voltar a governar o território. Este é o único fim possível e que deve ser implementado o quanto antes. Precisamos voltar a viver em paz.
Nós brasileiros não temos este tipo de violência (guerras)no Brasil, temos outra que na minha opinião, é bem pior. Enquanto aqui com 530 mísseis balísticos disparados morreram cerca de 30 pessoas, no Brasil morrem por dia 106 (dados de 2024) pessoas vítimas da violência. Durante os 12 dias da guerra aqui em Israel  morreram no Brasil cerca de 1270 pessoas.
Foi um período estressante, mas as coisas funcionaram. Sempre fomos avisados de que mísseis estavam a caminho com antecedência. Permanecemos no quarto seguro até chegar o aviso de liberação, tudo pelo celular. Nos locais atingidos a ajuda chegou em menos de 5 minutos. Vidas puderam serem salvas por conta deste pronto atendimento coordenado de ambulâncias, bombeiros, resgatistas e polícia.
Durante todos estes dias, locais de venda de comida e farmácias permaneceram abertos. A maioria das famílias permaneceram próximos de casa e saindo nos intervalos entre uma e outra onda de mísseis.
Nada disso foi agradável, e eu procurei escrever algumas mensagens na minha página do Facebook para dar uma noção aos amigos de como as coisas estavam acontecendo.
Moro entre Tel Aviv e Haifa, quase que na metade do caminho e aqui na minha cidade não fomos atingidos. Próximo de nós sim.
É preciso ressaltar que o Irã jogou seus mísseis nas nossas cidades para matar civis, não contra objetivos militares, ou alvos que podem ser assim considerados.
Neste 12 dias, nossa Força Aérea trabalhou dia e noite a uma distância entre 1500 e 2000 km de casa, 24 horas por dia. Nenhum avião foi abatido, todos os pilotos voltaram para casa. Esta é mais uma façanha israelense.
Tiramos de nossos ombros uma ameaça vital. O Irã prometia acabar conosco há muitos anos. Espalharam seus tentáculos por todo Oriente Médio com proxis que lhes são leais. O que faltou, mas espero que a semente tenha sido plantada, foi derrubar o regime teocrático dos Aiatolás. Tomara o povo iraniano se levante e derrube esta ditadura.

Antissemitismo até quando?

Antissemitismo até quando?

Assim como o racismo contra os negros não tem fim, o mesmo parece ocorrer com o antissemitismo com uma história de dois mil anos. Quando fiquei sabendo dos livros do Mauro Nadav sobre o ódio aos judeus tanto na esquerda como na direita, fiquei curioso com os novos estudos sobre um velho tema. Ao ser convidado para fazer uma resenha, fiquei contente, pois assim saberia que iria mesmo ler e aprender. Estudar mais sobre o antissemitismo não é agradável, mas é preciso pois o desagradável é importante, ou muito importante. O livro “O socialismo dos tolos: antissemitismo e a corrosão dos valores de esquerda” começa pela origem da expressão “socialismo de tolos”, sobre a qual muito li mas desconhecia sua origem. O importante líder de esquerda da Alemanha, August Bebel, foi quem disse, no final do século XIX: “Na verdade, o antissemitismo é o socialismo dos tolos”. É uma declaração sobre a ideia de que a “riqueza” e o “poder” judaicos são a fonte de toda injustiça social. Bebel concluiu: “Nossa luta é contra sistemas de opressão, não contra grupos étnicos ou religiosos. O momento em que aceitarmos dividir a classe trabalhadora com base em religião ou etnia, teremos traído tudo pelo que lutamos”. Bebel, ao morrer em 1913, foi saudado por Lenine e outros líderes mundiais, pois dedicou sua vida pela luta socialista. A leitura é muito agradável porque há detalhes do clima, dos espaços no qual ocorrem os diálogos, num estilo que desperta o interesse do leitor.

Gostaria de transcrever todo o sumário para que se tenha uma ideia do quanto o autor estudou nos mínimos detalhes a incrível história de como se formou o antissemitismo na esquerda. O primeiro capítulo é: “O Socialismo dos Tolos – Das Origens à Contemporaneidade”.

Já o segundo é “As três características fundamentais do antissemitismo de esquerda”. Já o capítulo quatorze é sobre o novo antissemitismo na Europa, e seguem mais doze capítulos. Ao terminar a leitura, me dei conta de quanto foram feitas novas investigações sobre o velho tema. Há muito para se aprender sobre um tema que nunca será agradável, mas hoje é mais necessário do que nunca. O antissemitismo num sentido é democrático, pois, mesmo estando mais à direita (fascismo e nazismo mantêm uma fraternidade), ele integra certa esquerda sim, a começar por Stalin, que perseguiu e mandou matar judeus como o escritor Isaac Babel e médicos judeus.

Na leitura do livro lembrei de uma história que nunca escrevi, mas um dia em Israel minha irmã Gladis comentou. Era o final do mês de maio de 1967, quando já se anunciava a guerra entre o Egito e Israel, quando foi organizada na Faculdade de Direito da UFRGS uma conferência com debate que estaria a cargo de um importante líder de esquerda que era judeu. Alguém me avisou que eu deveria ir, pois alguém precisava debater, em tempos que se debatia mais que hoje. Fui, é claro, e havia um bom público com alguns intelectuais como Marco Aurélio Garcia, que viria a ser um assessor importante do presidente Lula. Israel era definido na época como sendo a ponta de lança do Imperialismo Americano. O conferencista falou por quase uma hora, quando destacou a importância de Gamal Abdel Nasser, líder egípcio, importante no chamado Terceiro Mundo. O clima todo era contra Israel e a favor do Egito, como se fosse uma partida de futebol. Curioso que o Marco Aurélio levou um radinho de pilha, pois escutava a partida de futebol de São Paulo X Internacional, e, quando saiu o gol de Lambari batendo uma falta, ele comentou baixinho. Terminou a conferência e ocorreu um silêncio na plateia. Fiquei quieto aguardando que alguém falasse, mas o tema não era fácil, afinal, o Oriente Médio na época era muito distante.

Levantei a mão depois de um bom tempo, e logo me passaram a palavra. Disse algo mais ou menos assim (afinal, faz quase sessenta anos): “Nasser está sendo muito exaltado, mas desejo recordar o que ocorreu em 1964 quando o líder soviético Nikita Kruschev veio inaugurar a barragem de Assuã. Poucos dias antes de sua visita que durou dezesseis dias, Nasser ordenou a libertação de centenas de presos comunistas e de esquerda. Portanto, se estivéssemos lá talvez poderíamos estar entre os presos”. Logo se estabeleceu um debate, um belo debate que minha irmã Gladis nunca esqueceu. Em 1967, Mauro Nadav talvez não tivesse nascido ou era um menino, e parte da esquerda já não gostava de Israel. O livro se recomenda por si. Leiam o sumário, uma página ou pouco mais, e logo verão que é um estudo indispensável.

Kol Hakavod – com todo o respeito – Mauro Nadav, missão cumprida!