Freud explica os bolsomínios?

Freud explica os bolsomínios?

A lógica que associa o nazismo, o psicanalista Sigmund Freud, o psiquiatra Carl Jung, o escritor R. Louis Stevenson aos bolsomínios se reduz a duas teorias psíquicas e um contexto histórico atual em frangalhos.

O renitente emprego de símbolos, os gestos, as cantarolas de hinos, e a hipnotizante cadência de voz de Hitler eram as estratégias de propaganda repetidas pelo partido nazista para arregimentar e conduzir as massas. No rol dos panfletos, os nazistas ressaltavam as características imponentes do líder, colocando-o acima do povo. Um panfleto com Hitler, num plano elevado, usando a veste de um cavaleiro da Ordem Teutônica– uma das mais poderosas e influentes ordens da Alemanha nas Cruzadas–, mostra-o empunhando sua espada e dirigindo seu olhar à população. Num plano abaixo, chamas luminosas, advindas de candeeiros erguidos pela juventude nazista, expõem a celebração do solstício. O efeito dessa composição sugere que o poder de elevar as massas está nas mãos do cavaleiro divino (que utiliza do jogo das luzes dos candeeiros para iluminar seus fiéis com sua espada) cuja missão é quase um salvamento messiânico delas.

Em 1919, em seu ensaio, Sigmund Freud cunha o termo Del unheimlich (O Inquietante) para se referir à atração da coletividade aos aspectos sombrios e ocultos que imagens, fatos, ou impressões suscitam nos indivíduos, agindo sobre eles como verdadeiros feitiços. Em O Homem e seus Símbolos (1968), Carl G. Jung dá um salto adiante para mostrar essa mesma atração pela via dos arquétipos. Manifestados como imagens ou símbolos do inconsciente, os arquétipos são forças psíquicas dissociadas da consciência, possuindo autonomia própria e atuando de forma coletiva. Essas forças podem cooptar participantes para seitas, criar novas religiões e arrastar multidões arrefecidas. Aos arquétipos, se fixam os rituais que replicam seu poder magnético, resultante de uma deficiência na humanidade. A despeito dos avanços materiais da civilização, os psíquicos ainda carecem de atenção e se revelam por intermédio de forças inconscientes coletivas. Enquanto existirem guerras, fome, miséria, e rejeição à velhice e à morte, a humanidade continuará produzindo arquétipos.

Na ficção, essa atração se evidencia nos filmes, peças de teatro, revistas em quadrinhos e videogames que reiteram o arco temporal da transformação do personagem de R. Louis Stevenson no romance O Médico e o Monstro (1886). O fascínio que esse fenômeno exerce no público reside no jogo entre os polos opostos das personalidades de Jekyll e de Hyde e numa sedução da coletividade acerca dos aspectos sinistros e camuflados do renomado e bem-sucedido médico.

Del unheimlich e os arquétipos são construtos que explicam as bizarras transformações de indivíduos normais em bolsomínios, tornando-os verdadeiros monstros trogloditas. É como se a personalidade pré e pós-bolsomínia coincidisse exatamente com a mudança ocorrida na alegoria de Stevenson há quase um século e meio em que os caracteres diametricamente opostos são absorvidos um pelo outro ao alvorecer do dia. Como no nazismo, o bolsonarismo explora a força dos arquétipos e o fascínio em se emergir seus poderes funestos e latentes (del unheimlich). Sabendo da fragilidade socioeconômica da população, da ausência de uma robusta base educativa e das deficiências políticas na sociedade, o bolsonarismo se utiliza desses calcanhares de Aquiles para criar o seu projeto político. Conta com a massificação da mídia social e com a retórica propagandista para dar cabo ao seu projeto, empregando para isto, o mote da pátria, da família e de Deus a fim de avalizar suas desumanidades. Assim como no nazismo, essa narrativa hipnotiza a população que conta com o messias para lhe dar o acolhimento psíquico bem como resolver as mazelas sociais. Seu instrumento de poder não é a espada do cavaleiro teutônico, mas, sim, uma arma de fogo para a população se proteger de uma retroalimentada violência. Com isso, Bolsonaro abona os homicídios e dá álibis para lunáticos como Roberto Jefferson e Carla Zambelli protagonizarem cenas de bang-bang, vistas nos filmes hollywoodianos, filmes estes somente passados em vídeos de motéis de beira de estrada. Suas palavras tersas e de baixo calão rebaixam as minorias e oportunizam agressões verbais e físicas. Bolsonaro (não ele propriamente dito porque é incapaz para tal) soltou a fera voraz que habita os recônditos cantos da psique e fez a metade do Brasil ser habitada por senhores Hydes.

Lucia Ribas/PhD em Literatura e Cultura Americana-Universidade de Haifa, Israel

 

O capitólio brasileiro

O capitólio brasileiro

Uma miríade de teses caberia para avaliar o capitólio brasileiro e outras tantas para evitá-lo. Uma delas se pauta na anatomia e na estruturação do nazi-fascismo que se repete no Brasil, se reproduziu na gestão Trump, e vem se camuflando como regime autoritário na Turquia, Hungria e Polônia. Ondas e ecos antidemocráticos na candidata Marie Le Penn nas últimas eleições na França e no flerte (aí, sim, flerte) no atual comando da Itália e das Filipinas e numa espécie de ressurreição do nazismo na Alemanha (coibido recentemente com vigor) refletem as tendências de posições extremistas no século XXI. Com muita segurança, afirmo, baseada nos estudos de (Adorno, Arendt, Baumann, Hilberg, Hirsch, Silveman, Knittel, etc.) que o nazismo foi um projeto minuciosamente arquitetado e consolidado em etapas, tendo suas repercussões desacreditadas e minimizadas por parte da elite alemã e pelo próprio povo, deixando, o que o alemão Theodor W. Adorno assegurou em Dialética Negativa, uma profunda cicatriz na humanidade sendo que muitas catarses sociais seriam necessárias para sua depuração. (Minha especialização é tecer um paralelo entre as obras de ficção pós-apocalípticas no imaginário dessa depuração assim como revelar sua evolução no cenário norte-americano, incluindo o surgimento da extrema nova direita na era Trump).

Do “The Beer Hall Putsch”–o golpe para destituir o Weimar que colocou o algoz Hitler na prisão–à “Solução Final” foram aproximadamente 18 anos. Enquanto isso, um verdadeiro trabalho calculado de eugenia era executado pelo alto comando nazista, contando com a colaboração dos policiais da SS, Gestapo, e infelizmente do povo alemão cujo dedo apontava para dedurar os marginalizados pelo regime. Sendo Bauman, Adorno e Arendt marxistas, seus olhares enfocaram os fatores sociais para tal regime se materializar. Bauman trouxe à baila o conceito definido por Marx de lupemproletariado—a camada social inconsciente da sua exploração, e, por conseguinte, iludida por forças reacionárias e contrarrevolucionárias. Ele o revelou em face à conjectura da liquidez das instituições, ameaçadas pelo outro projeto nefasto do Neoliberalismo, iniciado na década de 1980. Suas metáforas caem como preciosas luvas para se costurar o fio condutor entre o fantástico e a realidade, visto que Baumann constrói a alegoria do zumbi para ressignificar a condição do lupemproletariado na contemporaneidade. Condição esta deslindada por uma desumanidade (estado zumbi) e entremeada pela cegueira (da sua condição morto-vivo) da qual a sociedade sofre. Adorno atribuiu aos atos de Treblinka e Auschwitz uma ruptura com qualquer possibilidade de uma reformulação ontológica. Morrendo em 1969, deixou como um de seus legados ponderações em Aspectos do Extremismo da Nova Direita, o título dado a palestra que proferiu dois anos antes de sua morte na Universidade de Viena, recentemente reeditada com um posfácio por Volker Weiss em 2020. Tal visão era de Adorno que mostrou uma projeção de sua diversificada análise na Alemanha quase 50 anos após o nazismo e mais outros 50 pela frente que coincidiram com os fatos atuais. Arendt joga o holofote no julgamento do arquiteto da solução final, Adolpho Eichmann, preso pela inteligência israelense e sabatinado por um ano pelas autoridades competentes. No julgamento, Eichmann mostrou ser um tenente-coronel capacho, chocho sem a mínima noção da gravidade de seus atos. O engenheiro da máquina da morte se revelou pau-mandado, dessensibilizado das 6 milhões de vidas perdidas. Eichmann acabou por inspirar Arendt a cunhar a frase “a banalidade do mal” cujo significado se enseja na estupidez e na banalização da crueldade. Para se combater o nazi-fascismo é necessário preparo. É necessário ir a fundo na história e descortinar seus mecanismos de ação e seus modos operandi. É acreditar que se pode chegar a uma situação limítrofe em que milhares de vidas serão perdidas. É acreditar que nenhuma outra alternativa existe, por enquanto, para a produção dos estados-zumbi, ratificados pelo isolamento social, pelo narcisismo exacerbado e pelas lideranças lunáticas de mídia social que esquizofrenicamente inventam um sem-número de realidades paralelas para os enxotados da periferia, os marginalizados. Depois do Holocausto, não dá mais para minimizar a desumanização, não dá para mais para se consentir capitólios.

Mantidas todas as proporções históricas, temporais e geográficas, vemos certa similaridade entre a ¨banalidade do mal¨ descrita por Hannah Arendt, ao se referir a Adolph Eichmann, e o personagem Anderson Torres, ex-ministro da justiça de Bolsonaro, agora preso, que se presta acriticamente ao papel de protagonista central no planejamento/execução de tentativas de golpe de estado engendradas pelas Forças Armadas e seu preposto político Bolsonaro. Assim como em Eichmann, percebemos em Torres a subserviência aos desígnios dos mandantes, sem avaliação dos aspectos morais, éticos e históricos da missão recebida, agindo como um verdadeiro pau-mandado, sem noção das consequências de seus atos, tanto para a sociedade como para sua própria vida pessoal e profissional. Torres poderia facilmente ser visto como um personagem de um conto de ficção especulativa pós-apocalíptico, um zumbi acéfalo, capturado pela realidade paralela criada pelas fake news produzidas pela ultradireita internacional. (Lucia Ribas)

Um manifesto em defesa da democracia e do governo Lula! A palavra de ordem meus amigos (as) é: a Mobilização Popular!!!

Um manifesto em defesa da democracia e do governo Lula! A palavra de ordem meus amigos (as) é: a Mobilização Popular!!!

A invasão dos prédios, a onde estão sediados, os palácios dos três poderes, mostra mais uma vez que as instituições da burguesia e seu “monopólio legítimo do uso da força” estão a serviço desta mesma classe social!

Tornou-se patente a omissão das forças de segurança do DF, incluso da guarnição federal que deveria defender o Palácio do Planalto! O que evidencia a necessidade de uma disputa ideológica dos quartéis, controlados pela extrema-direita. Além dos recursos financeiros para os militares, é imperativo que a esquerda tenha uma política autenticamente nacionalista para disputar a hegemonia política que prevalece nos quarteis!

A abolição da escravatura foi apoiada pelos quartéis, a proclamação da república veio dos quartéis, o tenentismo braço militar da revolução de 30, foi outro movimento político dos quarteis. Portanto, reforço aqui minha tese, é necessário disputar a ideologia que hoje predomina nos quarteis!

A prisão de Lula e a deposição de Dilma deveriam servir de ensinamento que não se deve confiar nas instituições da burguesia. Para garantir a defesa do governo Lula e da Democracia apenas a mobilização dos trabalhadores e estudantes nas ruas!

Portanto, não podemos nos iludir com um Parlamento que foi capturado pela extrema-direita, com o STF controlado pela grande burguesia, além de uma grande mídia, porta-voz dos interesses do capital financeiro e do mercado que impulsionou a difamação política de Dilma, Lula e PT. Nem se enganar com o aparato repressivo totalmente condescendente com os golpistas.

A CUT (Central Única dos Trabalhadores), o MST (Movimento dos Trabalhadores Sem-terra), Partido dos Trabalhadores e as demais organizações populares e de esquerda precisam convocar os trabalhadores a se mobilizar para que a luta em defesa de Lula e da Democracia, também paute a revogação de todas medidas neoliberais e de austeridade fiscal impostas pela direita após o golpe de 2016 que depos a então Presidente Dilma.

Amigos! Trabalhadores! Todos às ruas em defesa da Democracia! Todos às praças! Nos braços do povo Lula voltou! Pelos braços do povo ele governará!

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Criador: Tânia Rego/Agência Brasil Crédito: Fotógrafo/Agência Brasil
Direitos autorais: Agência Brasil/EBC
Governo israelense de extrema-direita irrita até os Estados Unidos

Governo israelense de extrema-direita irrita até os Estados Unidos

Em seu primeiro ato como ministro israelense da Segurança nacional, Itamar Ben Gvir confirmou todo o mal que dele se podia pensar. Dia 3 de janeiro de 2023, por volta das 7:30, foi à esplanada das Mesquitas, terceiro lugar santo do islã, no coração de Jerusalém, numa atitude provocadora e sabidamente desestabilizadora. Figura da extrema-direita, Ben Gvir, líder do Partido Sionista Religioso, próximo do movimento terrorista do rabino ultra-nacionalista Meir Kahane (assassinado em Manhattan, Nova Iorque, em 5 de novembro de 1990), tornou-se ministro encarregado da polícia do sexto governo de Benyamin Netanyahu, empossado no final de dezembro naquela que é a coalizão mais à direita da história de Israel.
Vinte e dois anos após a visita à esplanada, do então chefe da oposição direitista, Ariel Sharon, dando início à 2° Intifada, a presença do ministro é uma novo incentivo à discórdia, considerado ainda pior que o anterior pelos palestinos. Pela voz do movimento Hamas, em Gaza, como da Autoridade Palestina, na Cisjordânia, qualificaram o episódio de inaceitável. A segunda intifada durou 5 anos, além de uma guerra de 11 dias entre o Hamas e Israel. A visita de Ben Gvir poderá, até mesmo aos olhos de Washington, provocar uma crise ainda maior e desestabilizar o status quo.
Até agora nada de grave aconteceu e há quem pense que foi “apenas” um teste para o governo israelense ver até onde pode chegar.
Israel, através do ministro da Segurança nacional, afirma que não recuará de um milímetro. Enquanto os palestinos, inclusive da Cisjordânia, não hesitam em agitar a bandeira da escalada militar.
“O Monte do Templo, onde se situa a esplanada, a mesquita Al Aqsa e o Domo, é o lugar mais importante para o povo de Israel, nós manteremos a liberdade de movimento dos muçulmanos e cristãos, mas os judeus também terão acesso livre e seremos intratáveis com aqueles que nos ameaçarem. Nosso governo não recuará.”
Em virtude do status quo, até agora os não muçulmanos podiam ir à Esplanada em certas horas do dia, mas não rezar no local. Mesmo se, nos últimos anos, um número cada vez maior de judeus hiper-nacionalistas têm quebrado a regra, num gesto considerado uma provocação criminosa pelos palestinos. O próprio Ben Gvir, quando era deputado, foi várias vezes àquela área.
Para ele, a Esplanada das Mesquitas faz parte de Israel. O ministro vai muito além da direita e dos demais partidos ortodoxos, cujo objetivo é a construção do Grande Israel. Trata-se agora de esmagar tanto os palestinos como os árabes israelenses e os judeus de esquerda sob suas botas, conforme afirma o filósofo Assaf Sharon.
Os extremistas, especialmente os kahanistas, consideram os árabes, todos os árabes, “inimigos” e se propõem a expulsar de Israel os cidadãos palestinos que não forem “leais” ao Estado hebreu.
Segundo o analista Nauhm Barnea, do YnetNews, a ascensão da extrema-direita religiosa significa, antes de mais nada, a liberdade de terroristas judeus operarem nos territórios ocupados.
Teocrática, a ala ultra-nacionalista ortodoxa do novo governo israelense não reconhece o Estado laico e afirma a superioridade da lei religiosa, como acontece em certos países muçulmanos onde reina a charia.
Face a esta nova agressão fascista, a esquerda israelense protestou, a embaixatriz israelense na França se demitiu e a comunidade internacional reagiu. Até mesmo a administração norte-americana condenou a ida do ministro ao lugar santo do Islã, numa suspensão do status quo vigente há duas décadas.
Numa mudança de posicionamento em relação ao governo anterior, rompendo com a orientação de Jair Bolsonaro para o Oriente Médio e recuperando uma postura tradicional brasileira na região, o Itamarati indicou grande preocupação com a incursão de Gvir na Esplanada das Mesquitas, Hiram-El-Sherif.
Diz a nota:
“À luz do direito internacional e tendo presente o status quo histórico de Jerusalém, o governo brasileiro considera fundamental o respeito aos arranjos estabelecidos pela Custodia Hachemita da Terra Santa, responsável pela administração dos lugares sagrados muçulmanos em Jerusalém, tal como previsto nos acordos de paz entre Israel e a Jordânia, em 1994. Ações que, por sua própria natureza, incitam à alteração do status de lugares sagrados em Jerusalém constituem violação do dever de zelar pelo entendimento mútuo, pela tolerância e pela paz”. O Brasil reitera o seu compromisso com a solução de dois Estados, com Palestina e Israel convivendo em paz, em segurança e dentro de fronteiras mutuamente acordadas e internacionalmente reconhecidas. Com esse propósito, o governo brasileiro exorta ambas as partes a se absterem de ações que afetem a confiança mútua necessária à retomada urgente do diálogo com vistas a uma solução negociada do conflito”.
Lula tem uma posição muito clara a respeito, a favor da solução de dois Estados: Israel e Palestina, convivendo em paz e segurança.
Ao tomar posse, o chanceler Mauro Vieira indicou que o Brasil retornaria a uma postura mais “equilibrada e tradicional” na questão envolvendo Israel e a Palestina.
Se depender de Lula, o Brasil terá uma política ativa na região. Ele, com a participação de Celso Amorim, foi o único presidente brasileiro a ter se engajado numa intermediação em busca da paz entre Israel e a Palestina. EM NOME DAS JUDIAS E JUDEUS SIONISTAS DE ESQUERDA:

Jean Goldenbaum
Mauro Nadvorny
Milton Blay
Nelson Nisenbaum
Pietro Nardella-Dellova
Tânia Baibich

Do inferno ao purgatório

Do inferno ao purgatório

“Vamos fazer o Brasil para as maiorias. A minoria tem que se curvar à maioria.”
Há 4 anos, jogando assim a Constituição cidadã no lixo, essas palavras davam início aos 1.461 dias mais tenebrosos do Brasil democrático. A primeira medida da era JMB, altamente simbólica, abolia o horário do verão; seguia-se a publicação, nas redes sociais do ocupante do Palácio, de uma cena carnavalesca de chuva dourada, com um homem “mijando” em cima de outro. Mais uma medida “superlativamente” simbólica.
Abriam-se então as portas do inferno, com os brasileiros a descer as escadarias que levavam ao calvário da Divina Comédia de Dante, abandonando toda e qualquer esperança: “Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate !”;
Foram quatro anos de um sofrimento diário, dominados oras pela a, oras pela i-moralidade, pela mentira, pela adoração da morte, pelo palavreado mais abjeto, pela violência, pelo desprezo às leis e ao bom senso, pela discriminação, pelo nazifascismo. Foram tempos que jogaram no luto 700 mil famílias e muitas mais na depressão, na miséria, na fome, enterrando aquela imagem do Brasil do sorriso e da simpatia, transformando-o no país do desamor.
E eis que chegou o primeiro dia de 2023…Todos os votos de um feliz ano novo, que chegaram e continuam a chegar, somam as palavras alegria, amor, esperança. Esperançar virou até verbo para ser conjugado ao longo dos próximos quatro anos. E o melhor é que as primeiras horas não apenas confirmaram a esperança como a suplantaram. Em muito. Será preciso criar uma nova palavra para qualificar o que vimos e ouvimos no despertar do ano. Por mágica, o pesadelo sumiu e acordamos como se a Brasília sinistra tivesse desaparecido, engolida pela terra, transformada numa cidade nova, verdadeiramente verde-amarela e feliz.
Claro que haverá decepções, incertezas, muitas dúvidas e desafios, mas ontem foi tudo emoção. Só mesmo os jornalões, falando em nome dos interesses dos seus patrões, esquecendo o Brasil, encontraram espaço para navegar entre o pessimismo, o neoliberalismo e a extrema-direita.
Lula mostrou uma vez mais quem é: um ser humano de primeira grandeza. Enquanto Janja, a coordenadora da posse, pqp, que mulher! Alckmin deixou definitivamente de ser picolé de xuxu, nunca esteve tão à vontade, enquanto Lu, sua esposa, cantarolou “olê, olê, olê, olá…” como se tivesse nascido petista.
Neste 1° de janeiro, não houve palavras de submissão das minorias. Ao contrário, a faixa presidencial foi entregue pela negra Aline Sousa, catadora, após ter passado pelas mãos do cacique Raoni Metuktire, 92 anos, do jovem Francisco, de 10, que sonha em se tornar presidente da República, do metalúrgico Weslley Rodrigues, do professor Murilo de Quadros Jesus, da cozinheira Jucimara Fausto dos Santos, do militante Flávio Pereira, de Ivan Baron, ativista pela causa das pessoas com deficiência e, não podemos esquecer, da cadela Resistência.
Desta forma, pela primeira vez em sua vida, o provável futuro presidiário prestou um serviço à Nação, ao viajar para os Estados Unidos e se refugiar na casa de um lutador de MMA, no Estado mais conservador e brega da América. À sua imagem. Ao se negar a obedecer o rito da transmissão da faixa presidencial, permitiu que ela fosse parar no peito de Lula pelas mãos do povo brasileiro.
Diante dessas imagens, transmitidas pelas televisões do mundo inteiro, o gosto salgado das lágrimas me chegaram à boca, como certamente aconteceu com dezenas de milhões de pessoas, numa catarse coletiva. Por ironia do destino, as imagens vindas do Brasil tomaram conta das telas.
Na semana passada, só se falava do adeus de Pelé, no dia 1° só do renascimento do fênix Lula. De um lado, o deus da bola que partiu, de outro, o retirante que voltou para salvar a democracia brasileira e, quem sabe, mostrar ao mundo que é possível lutar e vencer o perigo da extrema-direita.
Ao contrário do primeiro dia do mandato do fascista, os discursos de Lula não se resumiram em adiantar ou atrasar os relógios em uma hora. Lula disse de imediato ao que veio:
No seu primeiro dia de governo, o presidente restabeleceu o Fundo Amazônia, abriu espaço para reestruturar o Conselho Nacional do Meio Ambiente, revogou a flexibilização do garimpo ilegal, suspendeu o registro de arma de fogo de uso restrito para caçadores, atiradores, colecionadores e particulares, limitou a quantidade de armas e munições de uso permitido, suspendeu novos registros de clubes de tiro, deu ordem para que todas as armas sejam recadastradas no prazo de 60 dias na Polícia Federal, suspendeu a desestatização da Petrobras e a privatização dos Correios, jurou o pronto restabelecimento da transparência, deu prazo de 30 dias para decidir o que fazer com o sigilo de cem anos, garantiu comida no prato dos mais pobres e punir os criminosos e genocidas do antigo governo, pois não haverá impunidade nem anistia.
Lula aboliu o slogan Ditadura, Nunca Mais, para afiançar a Democracia para Sempre.
Neste 1° de janeiro de 2023, Lula mandou aos habitantes do planeta uma mensagem forte: A TERRA DEIXOU DE SER PLANA E VOLTOU A GIRAR EM TORNO DO SOL.
Se os deuses quiserem, assim o será até o último dia.
Ainda estamos longe do paraíso, mas pelo menos saímos do inferno e entramos no Purgatório. A ascensão será dura, longa, haverá muitos obstáculos, no entanto a partir de agora podemos sonhar e esperançar.

A batalha de Aras pela anistia

A batalha de Aras pela anistia

Em um enésimo artigo brilhante, o filósofo Vladimir Safatle, membro fundador da Comissão Arns, assina “Anistia, Nunca Mais”, um apelo em forma de advertência para que o Brasil possa, enfim, superar os anos sombrios da ditadura e os quatro anos do fascismo bolsonarista.

“No final da ditadura militar”, escreve Safatle, “setores da sociedade e do governo impuseram o silêncio duradouro sobre crimes contra a humanidade perpetrados durante os vinte anos de governo autoritário. Vendia-se a ilusão de que se tratava de astúcia política. Um país “que tem pressa”, diziam, não poderia desperdiçar tempo acertando contas com o passado, elaborando a memória de seus crimes, procurando responsáveis pelo uso do aparato do Estado para prática de tortura, assassinato, estupro e sequestro. Impôs-se a narrativa de que o dever de memória seria mero exercício de “revanchismo”.”

Na época, a palavra de ordem era deixar de olhar pelo retrovisor para assim esquecer o passado e construir um futuro radiante e harmônico. Sem levar em conta que um país que não pune os seus criminosos está condenado a cometer novamente os mesmos crimes. Assim aconteceu com o Brasil, submetido nos últimos quatro anos a um governo que transformou torturadores em heróis e as polícias em máquinas de extermínio de pobres, de preferência negros.

Repetindo Safatle, “não existe “superação” onde acordos são extorquidos e silenciamentos são impostos.” Com anistia, nada se constrói.

“O Brasil sempre anistiou o que não se anistia e pagou caro por isso. Manifestações com saudação nazista, membros da polícia ajudando golpistas, deputada armada ameaçando a população: a cadeia os espera; isso não quisermos cometer o mesmo erro duas vezes.”

O filósofo defensor dos Direitos Humanos, da nossa democracia tão combalida, espera do futuro governo duas atitudes: 1) que coloque na reserva o alto comando das Forças Armadas que chantageou a República; e 2) que responsabilize os policiais que atentaram contra eleitores brasileiros, modificando a estrutura arcaica e militar da força policial.

A Frente Ampla terá de agir. Estas duas condições serão necessárias para que o Brasil retome o caminho da democratização, mas não serão suficientes. A superação da destruição bolsonarista tem outras exigências. Será preciso, antes de mais nada, mobilizar a sociedade civil para a exigência de memória, e portanto de Justiça. Como fez e continua a fazer a Alemanha pós 2° Guerra. Ou como começa a fazer a França, potência colonizadora, com relação à Argélia.

Muito embora a situação exija urgência, estamos longe de tomar consciência do dever de memória. O novo governo terá pouquíssimo tempo, talvez dois, três meses, para iniciar o dificílimo trabalho de combate à indulgência. A sociedade brasileira não está acostumada a exigir os seus direitos.

Outra condição sine qua non para se evitar a tentação da anistia será criar as condições judiciais para que os responsáveis por crimes hediondos como os cometidos durante a pandemia sejam condenados e devidamente punidos.

Será preciso eliminar um dos principais fatores que até hoje bloquearam a Justiça de avançar. E um deles tem nome e sobrenome; Augusto Aras, pseudo-procurador-geral da República. Pseudo ou poste, como é comumente conhecido e enxovalhado em praça pública. Aras, e sua fiel escudeira bolsonarista Lindôra Araújo, que ganhou a vice procuradoria depois de ter pedido o arquivamento das investigações do capitão sob o argumento de que não havia provas científicas de que as máscaras protegiam contra o coronavírus, tiveram até hoje um só e único objetivo: evitar que a PGR cumprisse o seu dever de representar a sociedade. Ambos foram meros advogados, além de tudo medíocres, da família Bolsonaro e seus asseclas. Agiram como se estivessem a mando do Palácio. Assim atuaram nos últimos quatro anos, assim continuam a atuar a um mês do fim do mandato presidencial.

Em carta assinada por 184 integrantes do MPF, Aras foi cobrado a apurar envolvimento e omissão de autoridades do governo nos atos golpistas registrados no país. Para os procuradores, a investigação da relação de autoridades com os movimentos responsáveis por esses atos é fundamental, bem como o pedido de instauração de inquérito policial para apurar a ação criminosa dessas autoridades que gozam de foro privilegiado.

Aras respondeu, convocando uma reunião de procuradores de seis Estados para discutir a questão. Conversou com o ministro da Justiça e concluiu: Os governadores que encontrarem dificuldades para acabar com os atos golpistas poderão pedir a presença da Força Nacional, ou seja das forças armadas.

O Ministério Público mostrou assim de que lado está: ao invés de cumprir o seu papel optou por colocar lenha na fogueira.

Conclusão: até setembro de 2023, quando termina o mandato de Augusto Aras, o próximo ministro da Justiça terá muito trabalho para por o Ministério Público no lugar de onde nunca deveria ter saído, ou seja, no Poder Judiciário, como a voz do povo na defesa das leis, da Constituição, no patrulhamento das autoridades. Isto porque, desde o primeiro dia do governo Bolsonaro, o PGR tem agido como um instrumento do governo, agindo sempre na defesa do Executivo. Evidentemente, se Augusto Aras não tiver a hombridade de renunciar. É o mínimo que se deve esperar de alguém que amanhã será tratado como cúmplice, entre outras coisas, de 400 mil vítimas do Coronavírus. Mas Aras não é homem de renunciar, prefere prevaricar.

Tenham certeza, o carrancudo poste lutará pela anistia até o último suspiro.