Pessach e a Paciência

 

Existem muitas lições do Pessach, a Páscoa Judaica. A maior delas, sem dúvida alguma é o ensinamento a respeito do valor da liberdade. Mais do que isso, lembrar a cada geração que fomos escravos no Egito e lutamos para sermos libertos e encontrar nosso Lar Nacional na Terra de Israel.

Eu gostaria de falar sobre outra lição, que para mim, não é menos importante, mas poucos se dão conta dela: o exercício da paciência. O que, sem dúvida, se faz muito necessário nos dias de hoje.

A luta pela saída do Egito for precedida por 10 pragas. Pacientemente tivemos de esperar cada uma delas fazer efeito na esperança de que fosse a última. Não foram poucas, e a cada praga, uma nova expectativa de que finalmente poderíamos sair de lá. Foi frustrante, mas nossa paciência foi recompensada com nossa liberdade.

Mesmo depois de libertos, em momentos de desespero por falta de comida, ou de água, tivemos que ter paciência para uma solução, e também fomos recompensados.

Mas houve um momento em que a falta de paciência mostrou que quando nos exasperamos, o que parece uma solução, é na verdade um grande erro. Procurar por atalhos de curto prazo para um problema, normalmente não é o mais indicado podendo agravar ainda mais o problema.

Moisés subiu ao Monte Sinai para receber as Tábuas da Lei. Como custava a voltar o povo moldou um Bezerro de Ouro em adoração. Ao retornar e ver aquela cena, Moisés derruba o Bezerro e quebra as Tábuas da Lei, o que vai custar ao povo caminhar por 40 anos no deserto e a proibição de toda aquela geração de ex-escravos e de Moisés de entrarem na Terra Prometida.

Sim, a falta do exercício da paciência traz suas consequências. Normalmente se mostram piores do que se aguardar por soluções práticas e corretas. De certa forma, nossa vida se move desta maneira. Quem já não foi intempestivo, ao menos uma vez na vida, querendo solucionar um problema rapidamente e depois sofreu as consequências?

O Covid-19 está aí testando nossa paciência. Um vírus, que de uma hora para outra, virou a vida do mundo de ponta cabeça. Fosse a Terra Plana e teríamos caídos no Espaço Sideral. Felizmente a Terra é redonda e a busca por soluções para o problema provaram que todos os governos que tentaram paliativos, incorreram em um erro gigantesco com o agravamento da situação e o aumento do número de infectados e mortos em seus territórios.

A luta contra o Covid-19 é uma guerra. São muitas batalhas, cada uma delas exige de todos muita paciência. Ainda não existe cura, nem mesmo um remédio contra este vírus. Os protocolos de segurança para a elaboração de uma vacina e de um remédio funcional exigem tempo. São várias etapas que precisam ser cumpridas. Isto ocorre em função de efeitos colaterais que podem ser piores que o benefício. Nenhum laboratório no mundo vai colocar no mercado um produto que faça os pacientes morrerem da cura.

Sendo assim, a melhor solução é aguardarmos pacientemente em casa. O isolamento evita o contágio. Menos infectados, menos mortes e principalmente, menos tempo de contenção. É a melhor solução e comprovadamente o que pode salvar mais vidas.

Prudência e canja de galinha não fazem mal a ninguém. Se tiver que sair de casa, use máscara e luvas. Cuidado ao retirá-las depois que voltar. Lave imediatamente as mãos com água e sabão, ou use álcool gel.

Há cerca de 3.000 anos atrás o povo judeu aprendeu o significado de se procurar soluções de curto prazo e suas consequências. Toda uma geração foi impedida de entrar em Israel, aquela que teve a paciência para aguardar por sua liberdade no Egito, mas a perdeu ao não suportar aguardar pelo retorno de Moisés com as Tábuas da Lei.

Hoje a falta de paciência pode significar a diferença entre a vida e a morte. Sua, ou de seus entes queridos.

Este vírus será derrotado com nossa paciência. Temos esta capacidade, então vamos exercê-la. Fique em casa até a situação permitir a volta a normalidade. Vivos vamos nos recuperar e todos juntos vamos poder continuar comemorando muitas Páscoas futuras.

 

Feliz Páscoa! Feliz Pessach!

Queridos amigos e amigas Cristãos e Cristãs, desejo-lhes uma Feliz Páscoa pois, afinal, nela se comemora a morte de um grande e querido Mestre Judeu – um dos primeiros anarquistas e socialistas da História, com clara opção pelos pobres, oprimidos, leprosos, putas, excluídos, sem-teto (ele também foi um sem-teto). Que isso lhes sirva de inspiração, a fim de fazer valer essa morte.

A vocês, meus queridos amigos e amigas Judeus e Judias, desejo um grande e inspirador Seder de Pessach – comemoração da liberdade contra a opressão, da redescoberta humana contra a escravização egípcia, da perspectiva de vida contra o “fascismo” faraônico. Que isso nos sirva de inspiração e, quem sabe, revigoramento e amor inegociável pela liberdade e humanidade.

Feliz Páscoa!
Hag Pessach Sameach!

(Pietro Nardella-Dellova)

Pessach na Quarentena

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos (Fernando Pessoa)

Antevéspera de Pessach. No jantar inaugural, costuma-se ler a história oficial, de veracidade no mínimo duvidosa, sobre o êxodo, a saída dos hebreus da escravidão egípcia. Há um momento em que se fazem quatro perguntas, muito apreciado pela meninada. É o Ma Nishtaná, ou Di fir cashes, como diziam, em ídish, nossos avós. Uma delas transcende, hoje, o sentido original: em que essa noite é diferente das outras ? Essa que se aproxima, assombrada por um vírus, se diferencia, sobretudo, por nos fazer distantes de quem amamos. As imagens virtuais são apenas um gato mambembe para o contato pessoal, insubstituível. Resta um punhado de memórias e o redesenho dos significados que associamos a essa história. Uma atualização permanente, aprovada pelos sábios que, ao longo dos séculos, perceberam a importância de incorporar vivências e percepções à narrativa.

O Menino navegava, maravilhado, por aromas e sabores da mesa, solene apenas no início. Em pouco tempo, farelos de matzá, restos de hrein, gotas de vinho sacramental e respingos de yuach, o caldo de galinha dourado e fumegante, enfeitavam a toalha, misturados com as canções da Agadá e os causos dos adultos. Para ele, o ovo cozido mergulhado em água salgada, simbolizando as lágrimas vertidas pelos escravos, era iguaria digna de uma estrela no guia Michelin. O clima acolhedor d’antanho era meio quebrado pela separação, afetiva e social, da família. Os da zona norte não celebravam junto com os da zona sul, o que nos fazia, os de calças curtas, exercer preferências. Cruel para as crianças, que sonham com unidade em terra de separação.

Disse que a história oficial não pode ser confirmada. É verdade, mas o Pessach é uma das argamassas que criaram uma certa unidade no povo judeu. Como explicou o historiador Jaime Pinsky: “Um povo é um grupo com a consciência de um passado comum. Não é fundamental que o passado comum tenha realmente existido, basta a consciência da existência dele: ao escolher a herança judaica, cada indivíduo passa a ser depositário de um universo de valores”. Que valores o Êxodo convoca ?

Começo com um antivalor. Para convencer o faraó a libertar os hebreus, deus providenciou dez pragas. Nenhuma delas foi exclusiva da família real egípcia e sua corte civil e militar. Todas atingiram indistintamente todo o povo egípcio, condenando-o à fome e à doença. Ao transformar as águas do Nilo em sangue, por exemplo, uma hecatombe ecológica que exterminou a vida do rio, liquidou pescadores e suas famílias, retirando uma das principais fontes da alimentação dos pobres. O assassinato dos primogênitos, última das pragas, foi de uma perversidade inominável. Atingiu do faraó ao mais miserável dos escravos não-hebreus. Punição coletiva, hoje condenada pelas leis internacionais, como demonstração de poder. A se crer na onipotência divina, tudo poderia se resolver sem sangue, sem violência. O pai amoroso do “Povo Eleito” demonstrou vaidade agressiva e sede de vingança. Mau exemplo, o lado negro do Pessach.

Pensando bem, essa nuvem aterrorizante ainda flutua por aí. Pois não é que uma praga invisível resolveu separar pessoas, desenterrar velhos desesperos, exilar projetos de vida ? Junto com ela, tentações totalitárias emergem como gafanhotos egípcios.

A travessia do deserto por 40 anos, clímax do processo de libertação, levou a uma terra diferente. Terra do leite, para saciar a fome, e do mel, para adoçar as vidas. No entanto, levou a novos valores, como era, supostamente, a vontade de Moisés ? Ninguém pode saber, mas a gente pode especular sobre o que gostaríamos que fosse o novo, o renovador, que enriquece a liberdade. O que, por exemplo, acontecerá quando terminarmos de atravessar a epidemia que enfrentamos ? De Paraisópolis à Rocinha, do Complexo do Alemão à Vila Nova da Cachoeirinha, da Maré às palafitas do bairro do Pina, do Vidigal às famílias de Magé que moram em residências condenadas, uma multidão de novos escravos, sem direitos, vivem empilhados em casas minúsculas, sem ventilação, esgoto, água. Dez por cento da população brasileira vive hoje em “aglomerados subnormais”. Quase 14 milhões estão na miséria extrema. Todos invisíveis nas nossas rotinas. Continuarão assim ? Continuaremos a vê-los apenas na televisão, como realidade distante, intergaláctica ? Quando, onde, como, começará seu processo de libertação ?

Em 1943, na primeira noite do Pessach, a Organização Combatente Judaica iniciou o levante do gueto de Varsóvia. Armados precariamente, os últimos sobreviventes do gueto enfrentaram o exército nazista, dispostos a deixar um exemplo de dignidade e respeito à vida. Sabiam que não poderiam sobreviver, mas deram o grito de liberdade nas condições mais extremas. A escolha da primeira noite do Pessach não foi acidental. Coincidiu com a herança libertária que uma passagem da Agadá, a narrativa oficial, bem sintetiza: Sentirás o Êxodo como se você mesmo tivesse saído da escravidão do Egito. O grito dos perseguidos, dos humilhados e ofendidos, não pode ficar confinado nas muralhas do gueto. Sua dor deve ser a nossa. Um valor que, em grande parte, ainda é apenas um desejo distante.

David Bogomoletz, de saudosa memória, criou um pequeno roteiro de Pessach há quase vinte anos. Termina do mesmo jeito como quero terminar: Maldita seja a escravidão/seja de quem for,/exista onde existir,/em todos os tempos e todos os lugares,/para todo o sempre,/amém !

Assim, apesar dos pesares e com esperança viva, embora em quarentena, Chag Pessach Sameach para todos.

Abraço

Jacques

Resistir para reconstruir

Nunca aquela máxima de “só a morte não tem solução”, foi tão importante de ser mencionada e repetida à exaustão.

Claro que o isolamento vai trazer impacto financeiro na vida das pessoas. Se antes o salário não chegava ao final do mês, o que dizer agora de se estar sem salário. Tudo se complica ainda mais.

Temos de preservar a vida a qualquer custo. Nenhuma morte se justifica pela necessidade de continuar trabalhando. São preciso soluções para os problemas que chegam junto com o Corona e o isolamento social que ele impõe.

Talvez as dividas devam ser pagas sem juros. Talvez parte delas deva ser repassada ao governo, não sei. O importante é que dívida tem solução, sempre teve. Não é de agora que as pessoas estão endividadas.

O mesmo acontece com a comida. O governo precisa encontrar maneiras de distribuir cestas básicas para todos os desempregados. Nisso a sociedade civil pode contribuir com ações de solidariedade. Ninguém pode passar fome em isolamento.

O que não pode acontecer é desistir da vida. Ela é o nosso bem mais precioso. Não existe vacina para o vírus, e antes do ano que vem, as chances de que surja uma no mercado são mínimas, para não dizer impossíveis. São muitos protocolos de segurança que devem ser seguidos.

Eu recebi de inúmeras pessoas esclarecimentos sobre uma suposta vacina que Israel estaria colocando no mercado por estes dias. Isto é falso. Gravei um vídeo sobre isso (veja aqui).

A situação em Israel é tão ruim, como em todos os países onde o Corona chegou. Enquanto escrevo estas linhas já passamos de 7.500 casos de infectados, com 42 óbitos. Estes números continuam subindo todos os dias e ainda não conseguimos achatar a curva. Uma cidade inteira foi isolada.

A cidade de Bnei Brak é uma cidade de judeus ortodoxos. Eles escutam mais aos seus rabinos do que as autoridades. Achavam que poderiam continuar rezando em suas sinagogas e estudando a Torá. As famílias tem muitos filhos, geralmente mais de 8 e até 15 crianças é considerado normal. O número de infectados lá só perde para Jerusalém onde a população religiosa pensava da mesma maneira. É esta cidade que agora vive um isolamento total do resto do país.

Vivemos dias tensos e jamais imaginados. Nenhum país tinha planos de contingenciamento para uma situação destas. Muitos líderes, especialmente de direita, menosprezaram o que estava acontecendo. Não possuem a capacidade empática e intelectual de compreender o que estava por acontecer em seus países. O resultado são os mais de um milhão de infectados no mundo e 60.000 mortos, números que aumentam a cada hora.

O único remédio é o isolamento social. Impedir a propagação do contágio. Aguardar que os infectados desenvolvam a doença e se curem. Só assim vamos vencer esta guerra. Não existe milagre, somente ciência. No ano que vem vamos ter uma vacina para o Covid-19, mas não estamos livres do surgimento do Covid-20.

Tudo o que parece hoje uma visão sombria do futuro, não é verdade. O mundo já passou por outras catástrofes ainda estamos aqui. Vamos encontrar maneiras de reativar as economias, de salvar os negócios e voltar a normalidade. Mas para isso é imprescindível que estejamos vivos. Fiquem em casa!

E sim, o Bozo sabe que sua hora chegou, é só uma questão de tempo quando tudo isto tiver ficado para trás. Precisamos permanecer resistindo para a reconstrução.

“A Esquerda tem que radicalizar o discurso” – um interessante bate-papo com Eugênio Aragão, ex-Ministro da Justiça do Governo Dilma

por Jean Goldenbaum

Carxs amigxs, gostaria de relatar a vocês o interessante contato que tive a oportunidade de travar na última quarta-feira (01.03) com Eugênio Aragão, jurista e advogado, brevemente Ministro da Justiça de Dilma em 2016 e membro do Ministério Público Federal de 1987 a 2017. Este encontro se deu através de uma live realizada pelo coletivo ‘Deutsche Initiative Lula Livre’ (Iniciativa Alemã Lula Livre), do qual sou membro.

Em um papo descontraído e muito interessante, Aragão discorreu inicialmente sobre as possibilidades de afastamento do catastrófico atual presidente da república. Defendeu sob uma ótima jurídica o argumento de que o impeachment não seria o melhor caminho, nos explicando que pelo fato de o processo ser lento e duradouro, o atual presidente se utilizaria de todas as táticas sujas possíveis para boicotar o processo e manter-se no poder, como corrupção relativa a posicionamentos, subornos, chantagens etc. Ele não se portaria de maneira republicana e educada, como o fez Dilma. Concordo plenamente com Aragão.

Uma opção mais rápida e simples seria a renúncia. Esta, por sua vez, só se daria caso os militares “colocassem a faca na garganta” do cidadão e o obrigassem a renunciar, garantindo-lhe uma porção de vantagens pós-renúncia. Neste caso, muito provavelmente, uma ditadura militar estaria de fato instalada no Brasil. Todavia, Aragão acredita que isto não acontecerá, pois do jeito que o país se encontra em termos políticos, econômicos e sociais, nem mesmo o Exército deseja assumi-lo.

A terceira – e única realmente viável – possibilidade de nos livrarmos do presidente fascista, seria a concretização da denúncia-crime encaminhada pelo ministro do STF Marco Aurélio Mello (que, diga-se de passagem, está longe de ser um dos nossos). O “líder” do país seria então afastado por 180 dias e isso nos daria tempo e condições para arquitetar alguma maneira de impedir que ele retornasse. (É claro que também nessa situação Mourão assumiria, e teríamos de lidar com o militar… Mas, um coisa de cada vez.) Para a notícia-crime ser aprovada o caminho não é longo, mas encontra alguns obstáculos: cabe ao Procurador-Geral da República Augusto Aras dar seguimento ao processo. Mas este cidadão foi nomeado pelo próprio presidente, ou seja, eles são “amigos”. Nossa esperança é uma traição ou algo do tipo.

Após este, perguntei a Aragão, a respeito da necessidade de uma frente ampla por parte da Esquerda, indagando o quão essencial é a união e a unidade da Oposição no combate ao Fascismo que tomou o país. Transcrevo abaixo alguns trechos de sua ampla resposta, que achei bastante rica.

Sobre as propostas da Esquerda:

Veja bem, a Esquerda está atuando. Eu mesmo ontem participei de uma videoconferência aqui com todas as bancadas do Senado e da Câmara do PT, juntamente com o Lula e outros, para justamente a gente começar a colocar as coisas nos trilhos. E temos várias propostas. O PT está cheio de propostas. De renda mínima, de fortalecimento da agricultura familiar, e essas coisas todas que vão aparecer.

E então sobre o problema que, pessoalmente muito me incomoda: o roubo do crédito de benfeitorias, por parte dos Fascistas. Aragão confirma o problema, vejam:

O problema hoje é que a esquerda sofre ainda um claro boicote. Pode ser que as bandeiras da esquerda sejam por oportunismo aproveitadas pelos conservadores, o que já está ocorrendo, e a Esquerda acabar ficando sem as suas bandeiras porque elas vão sendo absorvidas pelos conservadores.

Ele segue, a respeito do boicote da mídia sobre a Esquerda:

Fora isso, temos um boicote sistemático da mídia em relação às propostas da Esquerda. A mídia não fala nada. Tem muita coisa acontecendo entre os partidos de Esquerda, mas não há uma linha a respeito disso. É um silêncio combinado. Contra o PT principalmente, mas contra todas as forças de Esquerda. Ou seja, fizeram um “cala a boca”. Eles querem nesse momento que o Centrão seja o grande protagonista: Maia, Alcolumbre… “A Esquerda não tem nada a oferecer” – é essa a visão da grande mídia brasileira. Então há um problema de falta de espaço, de dificuldade de comunicar as suas ideias. A Esquerda acaba se fechando na sua própria bolha, entre os próprios esquerdistas e trocando mensagens entre eles, impedindo que a Esquerda vá para fora. E isso é algo, me parece, sistemático.

E finalmente sobre a questão de uma frente ampla, um trabalho em conjunto com os outros partidos de Esquerda:

Então não é uma questão de que a Esquerda esteja parada. Essa não é uma percepção real. A Esquerda está se mobilizando. E aliás tivemos nessa semana, na segunda-feira (30.03), um fato muito alvissareiro, que foi aquela declaração que saiu em conjunto, juntamente com Ciro Gomes, Haddad, Boulos, e com outras figuras proeminentes, mostrando uma tendência a voltar a conversar. E o Lula mesmo já deixou isso muito claro. Esquece as eleições de 2018. Vamos trabalhar daqui para frente. E o Lula é o primeiro a estar pregando isso. Precisamos da união das Esquerdas. Tanto é que, anteontem (30.03), nós tivemos também uma videoconferência com os presidentes de todos os partidos políticos de Esquerda – inclusive da Rede. Está todo mundo junto e foi esse movimento que permitiu a gente redigir aquela notícia-crime que foi subscrita por todos os partidos de Esquerda. Então há já essa tendência das forças de Esquerda a voltarem a conversar entre si. Não tem outra saída. Ou a Esquerda se organiza em bloco para enfrentar os conservadores – que vão fatalmente por oportunismo tomar as suas bandeiras –, ou a Esquerda desaparece do cenário político.

A parte mais interessante da fala de Aragão foi a final. Concordo plenamente com ele e espero que sua voz seja parte de muitas vozes do mundo da política que também pensem desta maneira:

Acho que ela (a Esquerda) tem que radicalizar o discurso. Tem que radicalizar porque ela não pode ficar dando tapinha nas costas de Rodrigo Maia, assim “o que nós queremos você também quer, então estamos agora no mesmo barco”. Não, nós não estamos no mesmo barco. Nós queremos uma renda mínima para as famílias, e 600 a 1200 é muito pouco. Nós queremos que as grandes fortunas sejam confiscadas pelo menos em 10% cada uma para vencer essa crise. (…) Nós queremos que o governo habilite novamente a agricultura familiar, como a do MST mesmo, que produz e produz muito. Que ela seja novamente capacitada a distribuir para a população necessitada alimentos. Nós precisamos distribuir alimentos.

Então me parece que é isso que a Esquerda tem que fazer hoje. Ela vai ter que radicalizar seu discurso. Ela não pode ficar no mesmo barco do Centro, que vai tentar usar as bandeiras mais “moderadas” da Esquerda por oportunismo.

Perfeito. É hora de radicalizar e não de se irmanar aos “menos inimigos”. Maia não mesmo. E mais: ouvir um ex-Ministro da Justiça afirmar que as grandes fortunas devem ser confiscadas em pelo menos 10% é música para os meus ouvidos. Até quando aceitaremos os bilionários e multimilionários rindo ao assistir a população morrer de fome e doenças (seja em época de Corona ou não)? Precisamos já de confisco e impostos altíssimos sobre o topo da pirâmide que possui juntamente um valor que ultrapassa o trilhão de reais.

Por fim, Aragão tocou no assunto das longínquas eleições de 2022:

Então este é o cenário que estamos vivendo, mas estou achando até que essa crise está nos permitindo uma reaproximação, o que é bom, pois no pós-crise o cenário político vai ser outro. E o PT hoje tem plena consciência que em 2022 não necessariamente será o cabeça de chapa das eleições presidenciais. É tudo uma questão de se conversar. Por exemplo, o Dino, governador do Maranhão, é um excelente nome para candidato a presidente da república. Ninguém tem nada a opor. Mas a gente discute até o Ciro Gomes, se for o caso. Nesta altura o que você tem que fazer é viabilizar um discurso que saia deste ramerrame conservador fascista. É voltar fazer as forças políticas conversarem entre si. Nós não precisamos ter um presidente da república progressista, no sentido como nós entendemos. Porque ter um presidente da república progressista no próximo mandato, provavelmentee é a prorrogação dessa crise. Nós precisamos de um presidente da república que coloque novamente a política nos eixos. E pode ser até um “conservador progressista”, um centro-esquerda, pode ser. Não precisa ser um de nós. Provavelmente será mais efetivo em criar uma concertação do que nós. Então a gente tem que pensar, acho que todas as propostas estão abertas, mas a Esquerda está se conscientizando de que ela precisa se reorganizar.

Concordo com ele em alguns de seus pontos, como a questão de o PT não necessariamente ser cabeça de chapa. Mas discordo do argumento relativo à ideia de um presidente progressista. Acho que um presidente progressista seria perfeito a qualquer momento. Agora, em meio à luta contra o Neonazifascismo, mais ainda. Outra coisa: Dino, sim. Ciro… complicado. É provavelmente o cara menos confiável de todo este cenário. Com ele nunca sabemos onde de fato estamos pisando. Por isso sou contra tê-lo como candidato de Esquerda (se é que ele é de Esquerda…).

Além disso, não penso que devamos vislumbrar as eleições de 2022. Podemos mantê-las em mente, sim, mas estou convicto de que a prioridade agora é arrancarmos o alucinado presidente do poder. Em 15 meses de governo seu estrago já foi imenso. Quatro anos talvez seja inconsertavelmente destrutivo ao Brasil.

Enfim, quis trazer a vocês este bate-papo e algumas reflexões pessoais, afinal é sempre positivo conversarmos com os homens e as mulheres que estão diretamente envolvidxs com as pessoas que podem mudar o rumo do país. E nós, ativistas, militantes, civis, cidadãos, devemos nos aproximar o máximo possível deles e delas, perguntar, indagar, se envolver, afinal a história das mudanças das sociedades sempre passou por nós. E no século XXI nossa ação parece mais necessária do que nunca.

Espelho, espelho meu

Em um país distante vivia um homem cuja ambição era ser rei. Tinha esse sonho de ter muito poder, de mandar e não ser contrariado. Contam que tinha um espelho mágico diferente da história infantil Branca de Neve e os sete anões. O espelho clássico dizia a verdade para a rainha, já esse outro espelho sempre dizia que ele era o mais forte e, mesmo ele sabendo pouco, o espelho dizia que ele sabia tudo. Um dia esse homem se candidatou a rei, e ninguém acreditava nele, mas sua campanha feita com ódio, mentiras, e um ataque mal explicado foi vitoriosa.

Todos os dias o novo rei vociferava contra os que discordavam dele. Sabia mais medicina que os médicos, mais jornalismo que os jornalistas, mais educação que os educadores. Quase todos lhe tinham medo, pois era festejado por policiais, milicianos, profissionais liberais, ricos e até pobres. Instalou-se nesse país a mentira, mas o rei afirmava que só ele dizia a verdade e os demais mentiam, e ficava o dito pelo não dito. Um dia chegou aqui, vindo de outros países, um vírus, um vírus coroado e desafiou os conhecimentos do rei. Este desprezou o vírus, disse que homem não tem medo de um ser invisível, só os moleques tem medo. Os pequenos reinos que obedeciam ao grande rei começaram uma revolta, seguindo os médicos. Eles desobedeceram, pois temiam mais a coroa do vírus que a coroa do rei. Um dia este chegou ao espelho, como fazia todos os dias, e perguntou:

“Espelho, espelho meu, tem alguém mais poderoso que eu?”
E então o espelho mudou, ninguém sabe como, e disse:
“Tem, meu rei, é o coroa vírus”.
O rei ficou revoltado e disse:
“O coroa vírus é fraquinho, não pode com minhas forças, proponho um combate”.
E o espelho disse: “A coroa do vírus é invisível e a luta para matá-lo não pode ser com metralhadora, é uma guerra que não conheces”.
O rei arrogante, prepotente e narcisista ficou meio louco, seus olhos brilhavam de certezas.
“Ou eu mando ou o coroa vírus, todos estão contra mim, ainda bem que tenho uma manada obediente. Tu, espelho, mentes e vou te jogar fora, traidor. Odeio os medrosos, odeio os mentirosos, pois eu sou o rei e eu mando.”
O espelho: “Cuidado tempera teu ódio, ele está fazendo mal a muita gente e tua brabeza cria mais insegurança”.
O rei: “Cartucho, Cartucho, meu filho, quero outro espelho, cortem a cabeça desse espelho, ele é cruel, malvado, é um traíra no meu reino”.
Cartucho pediu a seus amigos armados e amados que comprassem o melhor espelho do mundo. No outro dia o rei acordou e viu o novo espelho e logo perguntou:
“Espelho, espelho meu, tem alguém mais poderoso que eu?”. E o espelho silenciou.
“Cartucho, Cartucho, não traga mais os espelhos, eles agora foram comprados por eles. Ah, meu Deus, por que me abandonaste, onde estão os pastores Malvado e Malvadeza?”
O rei reage às críticas, fica abatido, mas logo recupera sua fúria. Fez uma lei em que determina ser verdade só o que ele diz e mentem todos os demais. Cita a Organização Mundial da Saúde como se ela estivesse a seu favor e seguindo suas invenções mortíferas. É desmentido a nível mundial não se importando com a imagem do reino.

Para o rei todos os dias são primeiro de abril, dia dos mentirosos, dia dos bobos.
Felizmente, sopram ventos que trazem certa esperança, uma esperança silenciosa. São tempos de reclusão, de tensão, mas de luta para manter o norte. São tempos de exercitar a imaginação, na lenta vida cotidiana. Muito está por acontecer na valorização da República (Res pública- coisa pública). Viver bem não é acumular dinheiro e poder, os que pensam assim, com respeito, são os pobres de espírito. Uns dependem dos outros, cada vez mais, logo é hora de aprender, aliás, viver é aprender.