por Mauro Nadvorny | 28 set, 2020 | Brasil, Comportamento, Judaísmo
Na véspera de Yom Kippur recebi em uma rede social uma prece escrita por uma pessoa querida. A prece fala do momento especial que vivemos por causa do Coronavírus. Na súplica a pessoa confessa que desta vez não pede perdão pelos seus erros, pecados, omissões, e até mesmo para ser inscrita no Livro da Vida. Pede ao Eterno apenas compaixão com a humanidade e que nos livre deste mal que entre outras coisas nos impede de ver e ouvir os cantos nas sinagogas e de abraçar e beijar pessoas queridas.
Confesso que fiquei abalado com a proposição teológica modificada. Afinal, o Yom Kippur não é uma data para pedidos de qualquer espécie. Não pelo menos nas concepções que absorvi ao longo dos recém confirmados 60 anos de vida.
Se no início da vida religiosa ou espiritual judaica prevalece a imagem de D’us como um grande legislador e juiz ao mesmo tempo, e talvez até severo demais.
Não tenho mágoas desta fase, embora me seja absolutamente claro que esta imagem não corresponde às minhas atuais expectativas de um Ser Supremo, que habita e manifesta-se desde as partículas sub-atômicas até as incognoscíveis forças expansoras do Universo, convidando-nos a cada segundo da vida à meditação e ao encontro com todas essas forças organizadoras da vida, do pensamento, dos sonhos e significados da vida.
O fato é que encontrei sim, no judaísmo onde nasci, felizmente, fonte permanente de inspiração, motivação e construção do meu ser. E um dos sensos mais fortes que o judaísmo pode despertar em alguém é o de responsabilidade. É o de saber que pensamentos podem se transformar em palavras, palavras em atitudes, atitudes em costumes, e costumes em caráter.
Esta peste do século XXI, o novo Coronavírus esteve ao alcance de ser contido desde o início de sua expansão. Outros vírus piores já vieram, ainda neste século, e foram adequadamente contidos em seu potencial de disseminação e morbimortalidade. Tanto é verdade, que pelo menos uma grande nação, a China, utilizando-se de todas as lições de surtos anteriores, fez o que nunca havia sido feito e venceu espetacularmente a epidemia em suas fronteiras.
Outros países conduzidos por líderes ignorantes, insensíveis, brutais, sendo o melhor exemplo no momento o do Brasil, jogaram a ciência no lixo, e junto com ela, por enquanto, 140.000 vidas e imensos prejuízos ao sistema de saúde, à economia, e mesmo à cultura política local.
A questão é que esses líderes, como o nosso atual, não chegaram lá pelos seus méritos, apenas. Pensamentos, palavras, ações, costumes e caráter o puseram lá. Uma complexa maquinaria que intoxicou uma sociedade – que por sua vez, voluntariou-se ao envenenamento – e golpeou sucessivamente a democracia e suas instituições. No campo da saúde pública, o resultado dessas ações, mais do que anunciado, é o que temos.
Eu confesso que minha capacidade de perdoar pessoas que participaram de tudo o que contribuiu para a ascenção desta besta ao poder é muito pequena. Em especial, aquelas que jactam-se de um judaísmo “superior”, arraigado, pois não vejo, na cultura e história judaica, um único momento, período ou local que nos conte sobre o sucesso de tal empreitada, que encontra um forte comparador na década de 30 do século XX.
Eu confesso que me recuso a pedir a D’us, neste momento, que nos livre de algo que sempre esteve ao nosso alcance e responsabilidade. Sim, lutamos contra isso. Mas talvez não tenha sido o suficiente, é o que os fatos nos mostram.
Se posso (e devo) pedir a D’us alguma coisa neste Yom Kippur, é que desperte na consciência de cada pessoa que tenha movido uma única agulha neste imenso palheiro, que tenha disseminado uma única inverdade, uma única acusação falsa, um único ato de ódio puro e injustificável, uma única renúncia à busca da verdade, uma única indolência intelectual, que tenha contribuído ainda que com uma única “flutuação quântica”, um “efeito borboleta”, que culminou na ascenção do mal aqui e em outros lugares, o devido senso de responsabilidade. Que D’us não permita que fujam de suas consciências. Que D’us não permita que faltem ao seu dever de reparação. Que D’us não permita que a ignorância e o ódio prevaleçam. Que possamos ter saúde sempre, para lutar, lutar e lutar por todo o magnífico patrimônio ético que o judaísmo construiu ao longo destes milênios, pois este patrimônio, sozinho (ainda que não único, evidentemente), poderia sim ter evitado a catástrofe, se devidamente cultivado e reverenciado.
E que assim seja.
por Mauro Nadvorny | 28 set, 2020 | Brasil, Comportamento, Protesto
No próximo sábado, 3/10/2020 acontecerá a primeira edição do Festival da Canção de Protesto, evento do qual tenho o prazer e a honra de fazer parte desde sua gênese. Mauro Nadvorny, também criador deste blog, é o idealizador e responsável principal pelo belíssimo projeto. A seguir divido com vocês sucintamente algumas histórias e reflexões sobre o evento.
Em abril de 2020 Mauro (lá de Israel) me procurou (aqui na Alemanha) dizendo que cultivava havia certo tempo a ideia de criar este Festival. Por eu ser músico e ele não, ele me perguntou se eu considerava que tal ideia seria realizável, ainda mais em tempos de pandemia. E me explicou a ideia central do evento: dar voz a pessoas anônimas do Brasil que tenham não somente criatividade e talento musical, mas também o ímpeto de protestar contra o governo fascista que tomou o país.
Bem, Mauro abordou a pessoa certa para tal atividade, e eu disse a ele que musicalmente a ideia era sem dúvida factível e em termos de protesto, era ideal e necessária. Prontamente aceitei seu convite para ser um dos organizadores. Confesso que se fosse somente um festival de música, sem o tema do Protesto, eu teria declinado. Quem conhece meu trabalho sabe que em minha carreira musical as questões políticas e sociais são inerentes à minha obra. Para mim não há real arte se não houver por parte do artista a intencionalidade de transformar o ser humano e as sociedades para melhor. Conscientização, reflexão, autoconhecimento são alguns dos atributos potenciais que a Arte carrega em si. Mas quem quiser saber mais sobre o assunto e sobre minha concepção enquanto artista, anuncio que em breve lançarei a 2ª edição de meu livro, que traz tudo isto detalhado. Voltemos ao Festival:
Pois bem, começamos o trabalho. Logo vimos que seria necessário agregar mais pessoas para que o projeto de fato engrenasse. Tivemos a alegria de conseguir envolver diversas pessoas que, de forma inteiramente voluntária (assim como nós), se dispuseram a trabalhar para que o evento se concretizasse. Aproveitamos para agradecer a todas e todos: Alexandre Lopes, Antônio Filho, Clarisse Goldberg, Isabella Lopes, Marco Paulo Ferreira e Raíssa Ruschel.
Assumi a presidência do Júri, formado por mais quatro pessoas além de mim: Andrea Cavalheiro, Lúcia Rodrigues, Luiz Felipe Carneiro e Thiago Suman. Obrigado, companheiras e companheiros!
E começamos a divulgar. Para nossa agradável surpresa, no fim de agosto, quando o prazo de inscrição se encerrou, tínhamos cerca de 200 canções enviadas. E assim os jurados tiveram dez dias para ouvir cada uma delas e escolher as dez finalistas, que participarão do Festival no próximo sábado. Foi uma tarefa trabalhosa, mas muito agradável. Havia muitas canções realmente boas.
Dentro deste trabalho de meses que se consagrará no dia 3 de outubro, aquilo que para mim é o mais importante é saber que há realmente muitos e muitas artistas no Brasil se expressando contra o Fascismo no país. A Arte precisa ser – como historicamente sempre foi – uma arma que dispara flores contra os monstros que estão a destruir a cultura e a sociedade brasileiras. E esperamos que estas flores tragam mais união e mais força à luta da Resistência. Como diz o ditado latino, “ars longa, vita brevis”, a arte é longa e a vida é breve. Nossos dias passarão. Mas todas as 200 canções que fazem parte deste acervo de resistência ficarão registradas como o retrato da luta política neste momento ímpar e triste no Brasil.
Assistam no dia 3/10, votem em sua canção preferida, continuem a apoiar os e as artistas que vocês forem conhecer e fiquem atentos, pois enquanto houver necessidade de protesto, estaremos protestando. E as próximas edições do Festival da Canção de Protesto serão ainda maiores e ainda mais resistentes. Abraços.
#ForaBolsonaro #ArteContraOFascismo #EleNunca
por Mauro Nadvorny | 28 set, 2020 | Crônica
Pega na mentira, pega na mentira/Corta o rabo dela, pisa em cima/Bate nela, pega na mentira (Erasmo Carlos)
Alguém aí há de lembrar que mentira tinha perna curta, podia ser castigada com água e sabão na boca. Se a lorota fosse cabeluda, pimenta malagueta no lugar de água e sabão, e um chinelo voador, xerife implacável, aterrissava em pobres glúteos. Tudo ficou démodé.
O discurso de Bolsonaro na ONU, manual completo de conversa fiada, já foi suficientemente mastigado por gente gabaritada. Depois de lê-lo, fiquei com uma dúvida existencial, para a qual não tenho resposta categórica e na qual se encadeiam outras. Por que alguém mente, mesmo sabendo que pode ser facilmente desmascarado ? Por que, especialmente na era da informação instantânea, tanta gente acredita em mentiras ? E não apenas acredita, mas divulga e exalta. A mesma gente que, por exemplo, reclamaria do açougueiro que trapaceia no peso da alcatra, aceita e propaga lorotas como mamadeira de piroca, cloroquina e kit gay. Indignação seletiva, sem dúvida, mas por quê ?
Passo apenas algumas impressões, sem a menor intenção de esgotar essas questões, que considero essenciais para compreender a vala negra em que estamos metidos. Acho, antes de mais nada, que há uma espécie de identidade grupal que fecha questão para confirmar um conjunto de valores. Quando Damares Alves, cuja máscara facial me assusta cada vez mais, afirma que os holandeses pregam a masturbação em meninos a partir dos sete meses de idade e manipulação das vaginas desde cedo nas meninas para que tenham prazer na fase adulta, ela tem duas intenções. Reafirmar, com teatralidade histérica, o consenso reacionário da sua base sobre temas delicados (sexualidade, educação dentro da família) e desqualificar/criminalizar todos os grupos que pensam e fazem diferente. A mentira, nesse contexto, é argamassa que assegura a unidade nos espaços individual (psicológico) e coletivo (político). No caso de Damares, e não apenas dela, adornada por doses industriais de dissimulação e terrorismo religioso.
A falsificação da realidade se torna mais fácil com a multiplicação dos emissores de notícias e opiniões. Não faz muito, o grande formador de opinião no país era o Jornal Nacional, TV aberta. A imprensa escrita não dava nem para a saída. Essa fronteira já caducou, atropelada pelas redes sociais. Dois em cada três brasileiros têm acesso à internet. As redes sociais são as novas agências noticiosas, cada participante replicando ou produzindo conteúdos sem compromisso com a honestidade. É novamente a identidade grupal que julga o que é falso. Não à toa, informações científicas, de assimilação complexa, são ignoradas em benefício de interesses primitivos/levianos. As campanhas contra vacinas, boçalidade perigosa, ganham musculatura em redes sociais. Para os que acham que vacinas causam autismo ou alteram o DNA dos vacinados, não adianta argumentar com dados concretos. Vale mesmo é a posição do líder, seja ele profeta, guru, síndico ou presidente. Todos querendo assegurar seu espaço de poder incontestado. Tarefa facilitada pela cruzada obscurantista na área da educação. Mito e minto são faces da mesma moeda.
Todos já mentimos. Quem é que não deu uma desculpa esfarrapada para faltar a um compromisso aborrecido ? Ou praticou uma mentira piedosa, sonegando de um doente grave a informação sobre seu estado ? O problema é quando a mentira sai da clandestinidade e disputa espaço político, social, comportamental. Grosso modo, o enfrentamento da encrenca se resume a responder: quando os tempos já não são mais de Iskra (A Centelha, pequeno jornal, circulação modesta, produzido por exilados russos no início do século XX, vital na propagação de ideias revolucionárias) mas de deepfake (inteligência artificial usada para “produzir” realidades), o que temos para oferecer à massa que se informa pelas redes sociais ? Não adianta, e é no mínimo contraproducente, apenas xingar, mandar para os quintos, indignar-se. Especialmente se os berros ecoam apenas para os já convertidos. De resto, o que se espera dos mentirosos patológicos ? Que mintam, ora essa.
Abraço. E coragem.
por Mauro Nadvorny | 26 set, 2020 | Opinião, Política
Invejo minhas duas gatas, Ruby e Getty. Elas não sabem, nem precisam saber, o que é aquecimento global ou hecatombe ecológica, quem são o Trump e o Bolsonaro, não fazem parte de redes sociais, sempre viveram em isolamento e vão continuar a ter a sua comidinha não importa o que aconteça.
Infelizmente pertenço à raça humana e faço parte de uma mega estrutura de produção e de consumo da qual não consigo escapar. Preciso pagar contas, preciso comprar comida, preciso trabalhar e não tenho o luxo que elas têm.
Junto com todos os que carregam esse fardo, sei que estamos vivendo momentos extremamente inquietantes. Não dá para fugir. Não importa qual a corrente de pensamento, qual a religião, cor, nacionalidade ou mesmo classe social, estamos todos envolvidos. A desigualdade econômica explodiu e continua aumentando, os ecossistemas estão à beira do colapso, existe uma crise econômica seríssima, as novas tecnologias vão precisar cada vez menos da presença humana, uma pandemia nos pegou de surpresa e outras podem vir na sequência.
O mais perigoso nisso tudo é que nossas lideranças, tanto regionais quanto mundiais, não estão à altura desses desafios cruciais. Muito pelo contrário, salvo raríssimas exceções, são negacionistas ou minimizadoras. Muitos tentam vender uma falsa promessa de conforto através de ficções baseadas em preconceitos, chavões e obscurantismos que visam manter um status quo insustentável. Mesmo lideranças nas oposições – novamente, salvo raras exceções – têm como prioridade vencer disputas eleitorais, algo natural em situações menos emergenciais mas que estão longe de resolver o gravíssimo quadro atual. Quando lideranças mais conscientes aparecem, os que se veem ameaçados, conseguem mantê-las longe da atenção do público para que o circo continue.
Tudo isso faz com que não haja nem estrutura, nem instituições, nem encorajamento, nem respostas, nem priorização para resolver os graves problemas postos na nossa frente. Para piorar as coisas, no geral, há pouquíssimo conhecimento da seriedade da situação. Há muita recusa em encarar a realidade. O que mais vemos são ansiedades em substituí-la por fantasias, sejam elas religiosas, ideológicas, étnicas ou nacionalistas.
Os paralelos com o que aconteceu na época do nazi fascismo são inevitáveis. Quando sistemas econômicos e políticos aos quais somos umbilicalmente ligados colapsam, as grandes ideias e os líderes messiânicos entram em cena. Nosso reflexo de rebanho, aprendido em escolas, religiões, quartéis, culturas tradicionais e até em nossos lares nos impele a procurar alguém ou algo acima de nós que nos salve, seja como indivíduos ou seja como coletividade.
Essa é uma hora muito perigosa, pois nos colocamos a mercê de indivíduos, de idéias, de projetos ou de organizações que se apresentam como resposta. A fachada visível e a realidade do seu funcionamento raramente coincidem. É nessa hora que nossa individualidade, nossa liberdade, nossa unicidade, nosso bom senso e o nosso futuro correm o maior perigo. É nessa hora que grandes erros são cometidos pois atribuímos poderes imaginários a seres humanos falíveis e muitas vezes predatórios. Esses erros, quando tomam vida própria, têm consequências imprevisíveis e frequentemente nefastas.
O propósito dessas palavras não é apresentar soluções milagrosas nem se colocar a favor ou contra personalidades em destaque. O propósito é dizer que indivíduos supra humanos e soluções milagrosas simplesmente não existem. O propósito aqui é dizer que precisamos de instituições fortes, baseadas na racionalidade e voltadas para o bem comum. Precisamos muito mais de políticas do que de políticos.
Políticos são, ou pelo menos deveriam ser, nossos representantes quando decisões importantes têm de ser tomadas. As instituições onde operam são, ou deveriam ser, as que nós os oferecemos para que trabalhem para a gente. Precisamos, por isso, de comunidades e indivíduos fortes que lutem para que seus interesses sejam atendidos e que escolham bem seus representantes.
Não é à toa que o maior alvo do neo-fascismo seja a democracia.
Nesses tempos de crise precisamos apenas e sobre tudo que os problemas imensos que enfrentamos sejam resolvidos da melhor maneira possível e no interesse de todos. Não serão salvadores da pátria paternalistas que farão isto por nós. Ao contrário, temos que nos empoderar e nos engajar, onde e como pudermos, para reverter uma situação que está saindo fora de controle. Somos nós que temos que estar a altura dos desafios impostos. Não podemos deixar as coisas nas mãos de outros, sejam eles companhias, líderes religiosos ou políticos e esperar que eles tragam uma solução.
Devemos escolher gente que nos represente em instituições que controlamos. Porém, dar carta branca a forças hierárquicas que nos veem como peões na esperança que elas resolvam por nós, jamais. Quem tem que ter poder sobre nossas vidas somos nós.
Voltando às minhas gatas que não entendem nada de política ou de economia e que resolvem suas questões com miados; elas têm mais ciência e controle do mundo em que vivem do que eu do meu. Para elas sou um ser que navega alienado pelo mundo. Que inveja!
por Mauro Nadvorny | 26 set, 2020 | Antissemitismo, Brasil, Justiça, Opinião, Política
Fazem muitos anos que quando eu digo que sou israelense, o céu desaba sobre a minha cabeça. Invariavelmente as pessoas me acusam de racista, imperialista, de oprimir o povo palestino, assassino, nazista etc. É o preço a ser pago por quem vive sob um regime de extrema direita.
Isto já está acontecendo agora também com quem é brasileiro. Ao sermos identificados como tal, nos chamam de fascistas, de destruidores das florestas, de assassinos dos povos indígenas, de preconceituosos, misóginos etc. É o preço a ser pago por quem vive sob o regime de Bolsonaro.
Eu tento argumentar que nem todo israelense é de direita. Que a maioria de nós é a favor da solução de dois estados para dois povos. Que eu, pessoalmente apoio esta solução há mais de 50 anos. Que milito nos movimentos pacifistas e sou contra o atual governo israelense.
Se isto me acontecia como israelense, agora já me acontece também como brasileiro e vai acontecer com vocês. Preparem-se para enfrentar o fogo amigo e terem de explicar que nem todo brasileiro votou em Bolsonaro. Que você é de esquerda e condena as queimadas, a destruição das florestas, o genocídio dos povos indígenas, que apoia as minorias e luta contra preconceitos, e que é contra o atual governo brasileiro.
O ser humano tende a ser generalista. Se Trump é um fascista, todo americano é fascista, seja ele um Chomsky ou um Beni Sanders. Temos uma tendência a simplificar as coisas e assim acabamos cometendo, de uma certa forma, o mesmo tipo de preconceito que tanto combatemos.
Assim como nem todo alemão foi um nazista, nem todo israelense ou brasileiro é um fascista. É bom que se diga que tanto em Israel, como no Brasil, os fascistas não representam a maioria do povo.
Mesmo que possamos pensar racionalmente e compreender o óbvio, não é isto o que acontece muitas vezes dentro das nossas próprias fileiras. Eu combato o antissemitismo na esquerda desde os meus 15 anos. Um antissemitismo muitas vezes disfarçado de antissionismo, mas que no fundo tem as mesmas raízes do antissemitismo da direita. Ambos acusam os judeus de quererem dominar o mundo e trazem como prova o apócrifo Protocolos dos Sábios do Sião.
Claro que acusar o atual governo de Israel de fascista é legítimo, assim como o atual governo brasileiro. Condenar as políticas de Bibi em relação aos palestinos, e de Bolsonaro em relação ao meio ambiente, é uma obrigação de quem é progressista. O deve ficar claro, é que estamos na mesma trincheira, do mesmo lado da história. Eu sou antifascista sempre.
Se algo de bom puder ser dito do governo Bolsonaro no futuro, é de que graças a ele a esquerda possa ter aprendido algumas lições. Uma elas é a de saber separar o joio do trigo em cada país. Mesmo naqueles governados por regimes de extrema direita, existem companheiros combatendo com todas as suas forças contra o regime. Estes merecem nosso apoio e nossa solidariedade, somos irmãos da mesma luta por um mundo melhor.
Basta de fogo amigo, chegou o momento de compartilharmos experiências de cada país. De aprender com nossos erros e nossos sucessos. A luta é a mesma, as batalhas são por um mesmo objetivo, derrubar o fascismo onde ele estiver.
Temos um logo caminho comum a ser percorrido. A pandemia, por exemplo, não escolhe lado, mas as políticas de como ser combatida, sim é uma questão política. Priorizar o ser humano, a vida é imperativo. Proteger os menos favorecidos, os mais atingidos pelo vírus é uma opção ideológica. Isto nos une a todos que estamos do mesmo lado e não soltamos a mão de ninguém.
por Mauro Nadvorny | 25 set, 2020 | Crônica
Todas as crianças vivem o espanto, são curiosas, buscam seguir uma fila de formiguinhas para saber aonde vão. O mundo infantil se espanta diante da realidade, as crianças constroem teorias sexuais, são ávidas por histórias. Um menino ao ver o mar pela primeira vez ficou pasma com a imensidão e disse ao seu pai: “Quero que me ajudes a ver o mar”. A menina, diante de seu desconhecimento, pediu ajuda, assim é uma criança, pede ajuda aos pais, pergunta, questiona. Entretanto, boa parte dos adultos perdem, com o tempo, a capacidade do espanto, aprendem a ter certezas. Triste quando a gente imagina que sabe e a partir daí vive com explicações para tudo. Assim vão se fechando às maravilhas das novidades, das artes, da beleza e até o amor à natureza.
O espanto gerou a filosofia na velha Grécia, pois o espanto é reconhecer a ignorância e ir em busca do saber. Os poetas também se referem ao espanto na origem da poesia, bem como os cientistas em suas descobertas. O espanto – “to thaumazein” em grego – é a surpresa, é o desconhecimento que obriga a ir à busca do saber. Espanta como o Brasil passou em poucos anos de um país admirado no mundo todo ao elevar o nível de vida do povo, a um lugar desprezível que ocupa hoje. Luis Fernando Verissimo, perguntado sobre o atual presidente, disse numa conversa com amigos: “Não temos um presidente, o capitão é um cataclisma”. Cataclisma é uma catástrofe ambiental, um desastre de grandes proporções, uma tragédia. Lembrei então de outro cataclisma em que livros foram queimados.
No distante dia 10 de maio de 1933, uma multidão se reuniu na Praça Bebelplatz em Berlim para festejar uma imensa fogueira de livros. Livros de Freud, Marx, Thomas Mann, entre outros. Queimar livros na Praça em frente à Universidade ficou marcado na História como um um ódio à cultura. Poucos protestaram e o mundo ficou indiferente. Lembro-me desse dia com espanto, pois na Alemanha nasceram Kant, Goethe, Beethoven, e como uma cultura requintada pôde vibrar com a queima de livros?
Hoje o Brasil põe fogo no Pantanal como vem pondo na Amazônia. O Pantanal tem milhares de focos de incêndios, milhões de árvores queimadas, morte de animais, escassez de água e a destruição de assentamentos de tribos indígenas. Os livros queimados em 1933 foram reeditados, mas as árvores e os animais morrem. Aliás, o poeta alemão Goethe escreveu que a natureza é o único livro que oferece um conteúdo valioso em todas as suas folhas. Talvez os que perderam a capacidade do espanto não precisam mais ler, imaginam que sabem.
Os poderosos do agro estão matando o Pantanal, assim como já fazem com a Amazônia com apoio do governo. “Vamos passar a boiada”, disse um ministro do meio ambiente, ou ministro contra o meio ambiente. Tudo anunciado nas eleições e posto em prática com o apoio das Forças Desalmadas, que se beneficiam desta crueldade com a natureza e a humanidade. Os filmes no Youtube, as fotos, os depoimentos revelam a realidade das queimadas negadas por mentirosos profissionais. O |Agro queima florestas, mata árvores, animais, criam o inferno no paraíso só para obter mais lucros. Não é possível ficar indiferente, não se pode perder a capacidade do espanto.
Espanto também é admiração, e admiro os que hoje defendem o Pantanal como podem e os índios e as ONGs que resistem na Amazônia.
Entretanto, chegou a primavera e já começam as chuvas no Pantanal. Lembro, para nossa alegria, que dia 26 de setembro o Verissimo está de aniversário. Obrigado amigo por tudo que escreves há mais de meio século, tuas palavras são graças diante das desgraças.