Cúmplices

Algumas notícias para começar o ano:

  • A Argentina (aquele país odioso e primitivo que tem Oscar, tem Papa, tem Nobel, tem imposto sobre grandes fortunas, e teve Maradona) agora tem aborto legal. O monstro desqualificado que outros 57 milhões de desqualificados colocaram no poder, neste paraíso chamado Brasil, criticou a medida, sob o surrado argumento de ser a favor da vida. Diz apiedar-se dos embriões. Trata-se da mesma pessoa que, no ano recém findo, não apenas causou a morte, por ação e omissão, de dezenas de milhares de brasileiros, como debochou acintosamente delas (as mortes e as pessoas) e das famílias enlutadas.
  • O jornal O Estado de São Paulo, cúmplice proativo, explícito e protagonista, dos desmandos, ilegalidades e arbitrariedades que atiraram o país ao abismo em que está metido, começa seu editorial de hoje, 01/01/2021, dizendo que os brasileiros contam as horas para o final do governo Bolsonaro, tido pelo centenário periódico conservador como, de longe, o pior da história do Brasil.
  • O nosso Ministério da Saúde, liderado pelo maior especialista em logística do mundo, atravessou o ano da maior tragédia sanitária global, em um século, mais perdido do que cego em tiroteio. É o mais atrasado do planeta. Não sabe qual vacina utilizará, não se sabe quando vai possuir alguma, e, muito embora disponha da mais completa, sofisticada e experiente infraestrutura de vacinação do mundo, não tem a menor ideia de como imunizará nossa população contra o vírus. Deixou vencerem, sem utilizar, vários milhões de testes diagnósticos de COVID-19, arma sabidamente eficaz no manejo da pandemia. Fármaco e dinheiro foram pro lixo. Para não deixar cair a peteca, e fechar o ano com chave de outro, fracassou miseravelmente na tentativa de simples compra de seringas. O pregão, destinado a adquirir 330 milhões delas, não comprou sequer 10 milhões. Não dá nem pra vacinar a população da cidade de São Paulo.

Estou tentando heroica e estoicamente encontrar palavras com as quais possa construir uma reflexão minimamente coerente em relação ao contexto capaz de gerar semelhantes fatos. Deixo ao(à) eventual leitor(a) a tarefa de, se quiser, também pensar sobre o respectivo significado e os desdobramentos, tanto independentes, de cada um deles, como do conjunto interconectado.

Confesso que pra mim está muito difícil. Chegamos a um ponto em que a barbárie foi  naturalizada de tal forma que desconfio que se um brasileiro comum se deparar com um cão de duas cabeças e seis patas, na rua, não vai achar nada de mais.

Afinal, pouco se lhe importa a hipocrisia demagógica de um presidente que, ao tempo em que mata diariamente milhares de pessoas, vem a público, movido pela conveniência política mais abjeta, afirmar-se a favor da vida.

Tampouco se apercebe, nosso prezado concidadão, da manipulação canalha a que é submetido pela mídia oligárquica todo santo dia. Culpado direto, doloso e premeditado da própria existência de Bolsonaro, o Estadão agora, ao condená-lo, adota o tom de um terceiro desinteressado. No que, aliás, não é nenhuma exceção.

Igualmente, não faz cócegas intelectuais ao brasileiro comum a inépcia colossal justamente das autoridades mais importantes no dia de hoje, para o destino da sua vida e da dos seus. Lé é lé, cré é cré, e tudo bem.

Lembro-me com impressionante nitidez do terror que me tomou de assalto no momento exato em que soube da eleição de Donald Trump.

Aquilo era simplesmente inconcebível. Como podia ser? Uma caricatura de ser humano, cuja simples figura era um atentado civilizatório, iria liderar o mundo? Como poderíamos ser tão imbecis, tão irresponsáveis, tão inconsequentes? Qual destino nos aguardava?

A mesma sensação, agora multiplicada ao infinito (seja porque dizia respeito direto ao meu dia-a-dia como brasileiro, seja porque a repetição poderia indicar uma tendência), sobreveio na proclamação da vitória de Bolsonaro, este uma caricatura daquela caricatura. Uma perplexidade sem limite, sem medida, sem explicação.

Felizmente estamos prestes a nos livrar do primeiro, muito embora não tenha decepcionado no que tange aos estragos que causou, cujos efeitos custarão gerações para serem amenizados.

O segundo, porém, ainda está aí. E tampouco decepciona. Ao contrário. Não apenas concretiza todo o horror que previmos (nós, os milhões que não o elegemos), como se esmera todos os minutos de todas as horas de todos os dias em piorá-lo ao limite do intolerável.

Nós, os milhões que não elegemos esse monstro, sabíamos que ele o era. O que, diga-se, não constitui nenhum mérito, porque ele jamais teve a menor preocupação em esconder ou mesmo disfarçar a sua monstruosidade. Ao contrário, ostentou-a sempre com o orgulho de um sociopata ordinário.

É preciso admitir, porém, que nem o mais realista, ou o mais pessimista, poderia imaginar que chegaríamos tão fundo, sob o nariz apalermado de um povo incapaz de qualquer reação.

E assim aporto à única reflexão que me é possível.

O Brasil carece de pessoas de caráter em posições decisórias.

A serpente que hoje o devora não é fruto de geração espontânea ou de maldição divina. Ela nasceu de um ovo que foi posto, gestado e chocado à vista de todos.

E que poderia ter sido aniquilado em todas as suas etapas evolutivas, antes de dar o mal puro à luz.

À História caberá, com o necessário distanciamento temporal, compreender e explicar as razões pelas quais não o foi.

Arrisco, entretanto, algumas hipóteses.

O povo brasileiro, manipulado, enganado, cegado e manietado pelas elites e seus fantoches midiáticos, foi reduzido a uma patética impotência, ou tangido à destruição de moinhos de vento.

Os políticos de todo o espectro ideológico jamais foram capazes de dar uma resposta minimamente digna porque jamais tiveram a decência de olhar um centímetro além de seus próprios umbigos.

Restavam os juízes. Alguns analistas, escorados nos precedentes históricos, nunca apostaram neles um níquel furado; outros eram menos céticos.

A meu ver, a História, essa dama implacável, dará razão aos primeiros.

Todos os olhos conscientes deste país viram quando a elite, pela enésima vez, colocou as mangas de fora para abortar um incipiente e insignificante processo de equalização da cidadania brasileira.

Impune, sentiu-se encorajada para levá-lo adiante, nas barbas passivas dos que podiam evitar.

Nem nós nem a História esqueceremos que os Ministros do STF ficaram desgostosos quando Dilma lhes negou indecente aumento salarial.

Tampouco esqueceremos que, mesmo instados a agir, pelos meios próprios, eles ficaram inertes diante do boicote liderado por Eduardo Cunha nas pautas-bomba do Congresso.

O Brasil jamais deixará de sentir o impacto que sofreu quando os representantes da mais putrefata dessa elite escancararam a cumplicidade dos ministros da Suprema Corte no acordo espúrio “com Supremo com tudo” para atirar as instituições – e com elas, a democracia – no esgoto.

Nós cobraremos, em algum momento, a comprovação desse processo escabroso pela omissão criminosa do STF em decidir que não havia crime de responsabilidade a embasar o  impeachment. O processo é político, mas a base que o sustenta é jurídica.

O judiciário é – ou deveria ser – o último refúgio da cidadania. Ela a ele acorre quando tudo o mais não a socorreu.

Os juízes do STF tinham nas mãos, naquele momento, o destino do Brasil. Mas lavaram-nas.

Tinham o poder, e mais, o dever, de impedir o conluio, a trama, o golpe. O crime de responsabilidade, único evento capaz de gerar o impedimento de um presidente da república, está definido na Constituição. É, portanto, uma figura jurídica, cuja existência no caso concreto depende de exame e interpretação. Ambos cabem, privativamente, ao Supremo Tribunal Federal.

Entretanto, provocado inúmeras vezes, ele nunca o fez. Jamais se pronunciou se crime houve, tal como previsto, ou não. Omitiu-se. Tinha poder de mudar a História, e não o fez. Abriu mão desse poder, em nome de interesses menores e mesquinhos.

Tiraram o corpo fora. E ali selaram nossos destinos. O ovo da serpente, ainda frágil, estava exposto a céu aberto. Quem poderia destruí-lo esquivou-se. Permitiu que fosse chocado. Como a boa e velha História não se cansa de ensinar, sempre se sabe quando e como um golpe contra o Estado de Direito começa, mas nunca quando ou como termina. Hoje, diante do caos que provocaram, tratam do assunto como se não tivessem nada com isso.

Já nem falo das lavajatos da vida, conduzidas num nível primário por notórios fraudadores, obscurantistas, fundamentalistas e retrógrados adoradores da barbárie.

Porém não poderemos, nós e a História, esquecer-nos de que também tais aberrações só puderam florescer e adquirir peso capaz de influir nos destinos da Nação, à sombra das mesmas omissões de quem deveria coibi-las.

Afinal, se a presidência da república é tão frágil que pode ser mortalmente ferida por quase nada, ao sabor de conveniências de ocasião, qual o problema de fraudar uma eleição através de lawfare, para ali colocar um “amigo” e impedir o acesso a um inimigo?

Tanto problema não há, que foi feito despreocupadamente. E com absoluto sucesso.

Mas nem mesmo a consumação do dano formidável foi capaz de sacudir a letargia. Na semana que vem completar-se-ão nada menos do que 19 meses da vinda à luz, através do site The Intercept Brasil, daquela que é possivelmente a maior e mais grave fraude judiciária da história mundial, e até agora não houve absolutamente nenhuma consequência.

Alguns Ministros do STF até se escandalizaram e deram declarações contundentes reconhecendo a falcatrua jurídica. O mais notável foi Gilmar Mendes, que, entre muitas outras coisas,  cunhou a expressão irônica “Direito Penal de Curitiba”, e invocou o Espírito Santo para que, se não pudesse fornecer aos Ministros um pouco de senso de justiça, que ao menos lhes preservasse o senso de ridículo.

Mas mesmo assim…nada. A escancarada e escandalosa parcialidade do julgador em inúmeros casos ainda não foi sequer apreciada. Nem um único dos processos viciados pelo conúbio criminoso entre juiz e procuradores foi anulado. Periga de tudo simplesmente cair no esquecimento.

Moro continua sem sofrer uma punição sequer. Ao contrário, leve e fagueiro, acaba de subir na vida. Dallagnol, idem.

E lá se vão dezenove meses. Dezenove!

Não nos enganemos, portanto. Enquanto povo, temos culpa, sim. A pequenez e o mau caráter de nossa classe política, também.

Mas não olvidemos os Ministros do Supremo Tribunal Federal. Eles, como ninguém, tiveram o destino do Brasil na mão, e o jogaram aos lobos.

A História, Excelências, esconde-se logo ali, dobrando a esquina, e está de olho em vocês. Ela sabe o que vocês fizeram no verão passado.

 

 

 

 

 

 

Homem-Aranha procura

Espaço. Grande espera. Ninguém vem. Esta sombra. (Alejandra Pizarnik, poeta argentina)

As portas haviam fechado fazia horas. Ele se recusava a ir embora. Tantos chopes, tantas rodas de samba, tanto olho no olho, tudo agora é passado. Jazia estropiado. A fantasia de Homem-Aranha que vestia piscava para uma vassoura velha, as piaçavas gastas faziam dueto com seu olhar distante. O Vaca Atolada, boteco das antigas, se foi. Como é que deixaram acontecer? O super-herói vai ter que baixar em outra freguesia. Os caminhos da confraternização, do encontro, da paquera, do álcool sem culpa, dos tremoços, do ovo cor-de-rosa, do pastel de vento, da humanização do concreto, estão cada vez mais estreitos neste triste país.

Em meio a um impasse civilizatório, este ano flerta com o Inferno. O poeta João Cabral de Melo Neto estudou no Colégio Marista, em Recife. Sentia tédio nas aulas de religião, dizia não acreditar nem no céu, nem no purgatório. “Mas acredito no Inferno”, desconsolova-se. A espezinhar o pós-vida, a imagem de seres maliciosos, com tridentes, potes ferventes e tudo o mais, invadiu seus maiores temores e sentou acampamento pelo resto da vida. Com toda a carga de culpa em que as religiões são especialistas. Na avaliação do poeta latino Lucrécio, a coisa é um pouco diferente: “Aqueles suplícios que dizem existir no profundo Inferno estão todos aqui, nas nossas vidas.” O fechamento do Vaca Atolada e de milhares de pontos de encontro tradicionais é testemunha da perda de referências, que traz frustração, desencanto, solidão, tristeza. Quem precisa morrer para entender isso?

Não vale a pena fazer uma lista de todas as sombras que tornaram 2020 um ano amargo. Fico em duas, que estenderão seus tentáculos por muito tempo. As queimadas na Amazônia e no Pantanal mostraram Tânatos em toda a sua exuberância. Não satisfeita em dizimar o tecido social, vitaminando o ódio, a quadrilha macabra do Planalto ajudou a devastar os biomas mais ricos do planeta. Ao lado da destruição física, consolida-se o atraso mental, igualmente nefasto.

A ocupação de espaços por denominações evangélicas ultrarreacionárias faz a engrenagem civilizatória emperrar. Conquistas sociais importantes estão sob ataque. A pastora Elizete Malafaia, esposa do Silas, deitou falação na Folha de S. Paulo. Ela lidera cultos para mulheres, nos quais repercute preconceitos desautorizados pela OMS (como a tentativa de enquadrar o homossexualismo como “distúrbio”) e defende a “mansidão” das mulheres (traduzindo: as mulheres devem abrir mão do protagonismo na vida conjugal, submetendo-se aos caprichos e desejos do homem). Quando li a matéria, me lembrei dos judeus ultraortodoxos que vi em Jerusalém. A hierarquia era visual. Na frente da família, que se dirigia à sinagoga, vinha, destacado, o homem. Em seguida, os meninos e, no final da fila indiana, as mulheres e as meninas. Não se trata apenas de repudiar a intromissão da religião no espaço público, a promiscuidade religião-Estado. É uma luta necessária no dia-a-dia, contra a superstição, o fanatismo e o atraso adornado por belas palavras.

Para não ficar muito azedo, tenho que saudar uma enorme vitória do engenho e da criatividade do Homem. Uma cápsula espacial japonesa perambulou por seis anos pelo Sistema Solar e trouxe de volta amostras do asteroide Ryugu. O corpo celeste, com 4,5 bilhões de anos bem vividos, poderá revelar, entre outras belezinhas, a origem da vida na Terra. Foram apenas 100 ml de material recolhido, que ajudarão a saciar uma curiosidade milenar. Todo o projeto é a antítese do vento medieval que surrou o planeta neste ano.

Dizem que entramos na era de Aquário. Um longo período de amabilidade, luminosidade, bondade, serenidade e outras rimas. Data venia, discrepo. Nada há no horizonte que permita otimismo. Para estimular a soldadesca, a burguesia jurou que a 1ª Guerra Mundial era a “guerra para acabar com todas as guerras”. Duas décadas depois de seu término, novo conflito resultou em dezenas de milhões de mortos. Desde então, não se passou um único dia sem que, em alguma parte do mundo, acontecesse um conflito. Em maior ou menor escala. Os tacapes estão sempre agitados, apesar das polianas. Que elas argumentem com os generais que Júpiter está alinhado com Marte e a paz reinará entre os povos.

De resto, em 2021 e depois, nos resta viver. Que é, cada vez menos, assunto para amadores.

Abraço. E coragem.

Quem foi morta, uma juíza ou uma mulher?

Senhores e Senhoras, não foi assassinada uma Juíza (isso é equívoco, é mentira!), mas uma mulher que atuava como Juíza. Uma mulher foi morta por ser mulher, não por ser Juíza. No Brasil, a Constituição clama pela igualdade entre homens e mulheres, e há legislação sobre misoginia, porque o Brasil não é apenas machista, mas, sobretudo, misógino.

Do Judiciário, uma mulher foi morta e, dele, também, um Juiz (é preciso dizer seu nome: Rodrigo de Azevedo Costa), falando como homem, deixou claro seu desprezo pela Lei Maria da Penha. Ele, esse estúpido Juiz (cargo do qual é indigno), compõe o cenário de machistas ou de imbecis que preparam a antessala da misoginia.

Mulheres, que são putas, negras, brancas, religiosas, irreligiosas, profissionais, não profissionais, mães, filhas, Advogadas, Promotoras, Delegadas, Juízas, Médicas, Trabalhadoras Domésticas, Taxistas, Freiras, Judias, Católicas, Evangélicas, Muçulmanas, Candomblecistas, Umbandistas, Kardecistas, Atéias, Garçonetes, Recepcionistas, Psicólogas, Atrizes, Cantoras, Musicistas, Professoras, Estudantes, Comunistas, Capitalistas, Socialistas, Liberais, Anarquistas, ou em qualquer outra situação, são mortas. São mortas porque são mulheres. Em alguns casos, são assassinadas duas vezes: porque são mulheres e negras, porque são mulheres e comunistas…

No Brasil, os homens não apenas odeiam e matam mulheres, mas são capazes de eleger um machista, misógino, racista, preconceituoso e genocida como Presidente da República!

2021 o ano para se derrotar a Barbárie

E chegamos ao final de 2020, um ano para ficar na história da humanidade. O ano que todos querem esquecer que existiu. Como nos elevadores de certos prédios americanos que pulam do 12º para o 14º, talvez alguns calendários no futuro também pulem este ano.

Ninguém previu a pandemia. Não tivemos adivinhas com suas previsões mirabolantes que sequer tivessem mencionado  o que estava por vir. O que passamos neste ano pegou a todos de surpresa, surpreendeu até mesmo os pessimistas de plantão.

Diferentemente de todos os anos a retrospectiva desde que passou será basicamente de perdas. Entre conhecidos e desconhecidos, o mundo já perdeu 1.750.000 seres humanos. Não fosse o avanço da medicina e a chegada da vacina, este número continuaria subindo.

Graças a ciência, o mundo pode receber em tempo recorde a injeção da esperança. A vacina vai salvar vidas e nos devolver parte da vida que tivemos antes. Parte, porque nada será como antes.

Na minha retrospectiva deste ano que vai passar, recordo os tradicionais desejos de saúde e dinheiro no bolso que escutamos na virada de ano. Nunca antes estes desejos foram tão importantes. Saúde foi a maior das bênçãos e dinheiro no bolso, a maior dádiva. Que os digam os que tiveram a doença e os que tudo perderam por causa dela.

Está chegando ao fim, 2021 já bate a nossa porta e desta vez os desejos de um ano bom, são os mais sinceros possíveis. Um ano com saúde, muita saúde e que vacinados possamos recomeçar outra vez.

Passado o pesadelo, vamos lembrar dos que apostaram na vida e dos que apostaram na mentira de uma gripezinha. De todos os males, a falta de atitude de Bolsonaro na prevenção e contenção da doença não vão ser esquecidos. Sua inépcia foi diretamente responsável pela morte de milhares de brasileiros. O Brasil nunca teve um gabinete de notáveis para conduzir o enfrentamento a pandemia.

Bolsonaro jogou o Brasil de volta ao mapa da fome e a economia do país vai levar anos para se recuperar. O abismo que separa ricos e pobres se tornou intransponível. Quem está lá embaixo não tem como subir e não existe planejamento para que isto aconteça. A ideia é de manter a Casa Grande bem suprida  e quem estiver do lado de fora no seu lugar.

O ano que vai chegar será um ano de enfrentamentos. Agora o Brasil terá de derrotar a barbárie, não existe outra alternativa. A civilização precisa ressurgir e se impor, ou pior do que a pandemia, a miséria vai tomar conta do país como nunca antes visto. Os primeiros sinais estão aí com grandes empresas abandonando o Brasil. O capital tem um bom faro para apostas e o Brasil não é mais desejável.

O mundo inteiro foi atingido por uma doença, ninguém escolheu receber o vírus em seu território. Ele foi chegando e se impôs. Antes do Covid-19 o Brasil elegeu um verme para presidir a nação. Foi uma escolha democrática, uma decisão que só tornou o pior, muito pior. De uma forma sórdida, com o uso de mecanismos obscuros, com uma tática alienadora, a barbárie impôs seu candidato, de todos o mais impróprio.

A civilização não estava preparada para o que aconteceu. Não soube como enfrentar a guerra de difamações, da mesma forma que a ciência não tinha meios para enfrentar a pandemia. A democracia foi de uma ingenuidade angelical. A ciência achou que podia tratar o mal com aspirina.

Agora temos o conhecimento necessário para solucionar os dois problemas. A ciência já está fazendo o seu papel para derrotar a pandemia, resta os brasileiros despertarem para um 2021 de recuperação da sua dignidade e derrotar a barbárie.

Que 2021 seja o ano da Ciência e da Civilização. Feliz Ano Novo!

 

 

Construção de sentido

A construção de sentido é contrária ao vazio de sentido, que expressa o tédio, melancolia. O vazio é um estado passivo, tristonho, já a construção de sentido é o oposto, é a coragem, o entusiasmo de viver. Toda construção requer bons alicerces, e são dois os alicerces essenciais: as relações amorosas e o trabalho. A criança quando nasce é um antigo futuro sujeito, antigo porque cada um de seus pais tem já histórias que envolvem também os antepassados. Já o futuro da criança está por ser vivido, construído, a partir do nome próprio, no qual estão presentes os desejos inconscientes dos progenitores. Portanto, o bebê já nasce dividido, pois seu nome é posto por outros que não ele. Sua vida é totalmente dependente, não há assim o indivíduo – o não dividido –, mas sim um sujeito marcado pela divisão, pois convive o bebê entre a alienação e a separação. O amor, seja qual for, é sempre ambivalente, portanto convive com o ódio, as relações amorosas são conflitivas. Importante é que uma criança tenha uma base nas quais possa se apoiar, relação suficientemente boa, que ampare diante do desamparo.
A criança cresce e um dia enfrenta o desafio do trabalho. Uma vida independente envolve a construção de uma profissão, que permita sua autonomia. Essa decisão requer muito esforço, não é fácil para ninguém, e a confiança de um caminho é uma longa história, mas os pais, e outros, influenciam através dos seus desejos. Tem sido frequente tentar uma, duas ou três possibilidades de trabalho até o jovem se encontrar e sentir alegria e gratidão. Um exemplo é o que disse Winnicott sobre ser psicanalista: “Agradeço aos pacientes que pagam para me ensinar”. Viver é aprender, a gente está sempre aprendendo, e pobres são os que pensam saber tudo.
A construção de sentido são aventuras, odisseias que acompanham a cada um do nascimento à morte. Quantas vitórias e derrotas, ilusões e desilusões, sucessos e fracassos. São os labirintos surpreendentes, onde se entra num, se sai e já se está em outro. Ocorrem tristezas, até depressões, um vazio de sentido é vivido, tudo perde a cor, o sabor, e a dor toma conta do ser. Uma desconstrução, um pânico de não ser nada ou quase nada, uma perda de norte, de rumo, a gente se assusta.
Uma forma de ter um sentido de ser é se alienar em líderes religiosos ou não e seguir o que eles mandam. Vivem tensões, conflitos, mas buscam seguir os trilhos já abertos pelos familiares ou os mais variados pastores que regem seus rebanhos. São os que perdem a liberdade pela segurança prometida. Construir o sentido é um caminho de incertezas, e conta o quanto cada um foi amado, valorizado, nos primeiros anos de vida. Um dos obstáculos na construção é a compulsão à repetição, a necessidade de castigo através do masoquismo moral.
A construção do sentido de vida depende das parcerias como afirma um ditado zulu: “Uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas”. Quem recorda, quem pode ser grato, é capaz de aprender e construir seus próprios trilhos. No meio do desânimo pela pandemia, ou pelo desgoverno que escreveu na bandeira desordem e retrocesso, três dicas: o documentário “Os olhos abertos”, de Charlotte Dafol, sobre a comunidade do jornal “Boca de Rua” e “Terapia em Vertigem”, do grupo Porta dos Fundos. Finalmente para ver e rever Emicida: “AmarElo – É tudo pra ontem”. Não recebem a primeira página dos jornais mas fazem a história do que não estava no retrato. Construir é compartilhar partilhar, par, parcerias que entusiasmam e, assim diminuem o peso de ser. A leveza permite voar, abraçar e ser abraçado na beleza da imaginação
P.S.: Nos meses de janeiro e fevereiro darei uma folga para nós, mais que justa, e volto na primeira sexta-feira de março. Resistiremos.

Sobre otários e previsões

Hora de liberar o Marquês de Sade que cochila dentro de mim. Vou pisar nas estrelas, ou melhor, nos pilantras que divulgam previsões baseadas em astros. Sei que o charlatanismo tem mercado. Como disse P. T. Barnum, salafrário das antigas: “A cada minuto nasce um otário.” Nos Estados Unidos, Meca de todo tipo de quinquilharia e modismo, 30% da população acreditam em astrologia. A mistificação movimentou, ano passado, US$ 2,2 bilhões.

Cada um que lide com suas inseguranças e ansiedades como quiser. Há, no entanto, um limite para isso. Quando se compara a herança de Omar Cardoso com ciência, pulo nas tamancas. Acreditar que os movimentos no cosmos determinam cotidianos e destinos, desenham personalidades e impulsos, faz tanto sentido quanto apostar no terraplanismo, na existência de homenzinhos verdes em Marte e nas previsões do Paulo Guedes. Acham que exagero?

Entre os famosos que morreram em 2020, estão Paulinho (cantor do Roupa Nova), Aldir Blanc, Sean Connery, Flávio Migliaccio, Kobe Bryant e Vanuza. Deviam ter traços comuns, mas um deles era o de serem do signo de Virgem. Em 31 de dezembro de 2019, o que previu para eles, e todos os virginianos (é assim que a parolagem funciona), Adriana Kastrup, celebridade no departamento de adivinhações para trouxas? “Saia de casa, saçarique à vontade, veja os amigos, porque sua senha é: divirta-se! O Sol voltou a brilhar para você. A leveza vai dar as caras e as coisas irão fluir sem tanto esforço.” Leveza, diversão, saçarico. Sei.

Astros, borra de café, búzios, bola de cristal, cartas, tripas de galinha. Não importa a ferramenta. Nenhum dos sábios do ramo conseguiu antecipar, mesmo que por mensagens cifradas, o que ia nos acontecer em 2020. Qual deles sugeriu que um vírus devastador paralisaria o planeta? Quantos dos que morreram infectados pelo coronavírus tinham previsão de leveza, diversão e saçarico? Talvez o universo tenha conspirado para desacreditar os que tentam desvendar-lhe os mistérios. Uma das características das previsões, e me baseio nos textos de madame Kastrup, é o otimismo subliminar. Pachequismo existencial. Sempre, caro passageiro e o tipo faceiro que está ao seu lado, vocês estarão bem. Ou muito próximos de estar.

No caso do Brasil, o ilusionismo barato não antecipou o agravamento da demência nos altos escalões da República. Onde estavam os astros que não nos avisaram que o sociopata assassino desdenharia dos milhares de mortos por Covid? Que o ministro da Saúde não entenderia como a população pode estar ansiosa e angustiada? Que a ministra dos Direitos Humanos não se envergonharia de divulgar documento fraudulento? Que o chanceler se orientaria pelas esquisitices de um vidente esquizofrênico? Que o facínora-mor tentaria isentar armas do imposto de importação, mantendo a taxa, por exemplo, para livros e alimentos da cesta básica?

Para não dizer que é tudo ouro de tolo, houve previsões que certamente se confirmaram. O autor da façanha foi Rabelais, no século XVI. O documento completo, muito bem-humorado e que divulgarei em breve, é “Prognóstico Pantagruelino, certo, verdadeiro e infalível, para o ano de 1533.” Para saciar a curiosidade dos leitores, eis alguns excertos:

“Neste ano, os cegos verão muito pouco, os surdos ouvirão mal, os mudos não dirão nada, os ricos passarão um pouco melhor dos que os pobres, e os sãos, melhor do que os doentes. Vários carneiros, bois, porcos, passarinhos, frangos e patos morrerão, e não será tão cruel a mortalidade dos macacos e dos dromedários. Os que tiverem diarreia irão muitas vezes à privada, as doenças dos olhos farão muito mal à vista.”

“Neste ano haverá tantos eclipses do Sol e da Lua que temo (não sem razão) que nossos bolsos sofrerão de inanição, e nossos sentidos, de perturbação. Saturno será retrógrado, Vênus direta, Mercúrio inconstante. E vários outros planetas não obedecerão ao nosso comando.”

Encerro convocando Ambrose Bierce. Jornalista, publicou, em 1906, O vocabulário do cínico. Dicionário com verbetes sarcásticos, ganhou, cinco anos mais tarde, a versão acabada, então com o nome de Dicionário do Diabo. Dele, extraio a palavra adivinhação (divination): “A arte de farejar o oculto. Há tantos tipos de adivinhação quanto há variedades frutíferas do palerma vicejante e do néscio precoce.”

Abraço. E coragem.