De Vestido de Noiva a Emicida: Digressões    

Nelson Rodrigues entrou na minha vida de forma pra lá de sorrateira. Primeiro assistindo um teleteatro que passava na TVE.Não faço idéia de quantos anos eu tinha, é uma daquelas memórias tão incrustadas na minha alma, que arrisco dizer que foi antes da alfabetização. Minha estranheza e interesse veio do cenário ter dois andares. Ou seja, foi um fascínio mais pela forma do que pelo conteúdo, do qual não devo ter entendido absolutamente nada. Só mais tarde fui saber que a peça era Vestido de Noiva e a marcação era pra distinguir num plano o que era alucinação, no outro realidade. Não se espantem, meus pais não eram adeptos a filtros. Talvez por conta da idade permitida pela censura, aquele documento onipresente que antecedia toda a programação, se sentiam subversivos. Mais tarde, meu avô assinava uma revista (salvo engano a Manchete) e eu, maiorzinha, uns oito anos talvez, pegava a publicação com a desculpa de olhar as fotografias. Minha real intenção era ler a coluna do Nelson, nos moldes da Vida Como Ela é. Uma das suas histórias me impressionou mais do que todas. A narrativa se iniciava com duas meninas jogando amarelinha numa vila suburbana e passava por elas um vizinho homem feito, arrumado e perfumado. Uma das garotas sussurrou para outra: ”Ele deve ter amantes”. O tempo passou, a menina que ouviu o comentário cresceu e caiu nas garras do sedutor. O desfecho: A esposa do D. Juan de Aldeia Campista descobria o caso e jogava ácido na cara da moça, deixando-a desfigurada. O final me pegou de surpresa. Mas surpresa maior tiveram os adultos, quando na mesa de jantar perguntei do nada: ”O que é amante?” Foi assim que descobriram meu real interesse na revista e cortaram definitivamente meu acesso a ela.

Nelson foi e sempre será polêmico. Apesar de todo seu reacionarismo, temos que admitir que metia o dedo na ferida como ninguém. Saltam em seus textos tudo aquilo que sabemos do Brasil, mas temos pudores de falar. A hipocrisia, principalmente. Escancarada. Em O Óbvio Ululante, coletânea de crônicas selecionadas por Ruy Castro, no Jornal O Globo, em 1968, há uma em especial que diz muito sobre o Brasil de hoje. Ou, talvez, do Brasil de sempre. Essa crônica narra a visita de Sartre ao Brasil e uma reunião num apartamento chique a qual ele , Nelson, foi convidado. Sartre discorria sobre o marxismo, comendo jabuticabas que a dona da casa providenciara numa tigela, da forma mais blasé possível. Eis que ele olhou o público presente e perguntou:

 ““E os negros? Onde estão os negros?””.

“O gênio não vira, nas suas conferências, um mísero crioulo. Só louro,

só olho azul e, na melhor das hipóteses, moreno de praia. Eis Sartre posto

diante do óbvio. Repetia, depois de cuspir o caroço da jabuticaba: — ““Onde

estão os negros?””. Na janela um brasileiro cochichou para outro brasileiro:

— “Estão por aí assaltando algum chauffeur”.

“Onde estão os negros?” — eis a pergunta que os brasileiros deviam

se fazer uns aos outros, sem lhe achar a resposta. Não há como responder ao

francês. Em verdade, não sabemos onde estão os negros. E há qualquer coisa

de sinistro no descaro com que estamos sempre dispostos a proclamar: —

“Somos uma democracia racial”. Desde garoto, porém, eu sentia a solidão

negra.”

Sim, a solidão negra. Nos colégios tradicionais que estudei, os alunos negros eram contados nos dedos das mãos. Na universidade frequentada pela elite da Zona Sul do Rio de Janeiro, no fim dos anos oitenta, a mesma situação. Isso no plano social. Quanto ao educacional, ao menos na época que eu frequentava os bancos escolares, muito se falava sobre o pesar e o sofrimento a que os negros eram submetidos. No entanto os movimentos de resistência, que percorrem toda a história brasileira, desde o início da colonização, eram explanados de forma pra lá de superficial. Os negros fizeram muito mais do que sofrer. Arquitetaram alianças, armaram combates, utilizaram táticas de guerrilha, inspiraram-se em suas nações para instaurar modelos governamentais. Zumbi, Ganga Zumba, Ajahi, Zacimba Gaba, entre muitos outros. Essa última merece uma menção especial. Vinda de Cabinda, em 1690, dona de um espírito indomável, foi mandada para uma fazenda no Espírito Santo. Lá foi castigada, violentada pelo senhor, mas curiosamente este a manteve dentro da Casa Grande. Ela então planejou o envenenamento do seu “proprietário com o chamado “pó de amansa sinhô”. Esse veneno era dado aos poucos, para não atrair suspeitas. Envenenamento a longo prazo, feito de “pó de preguiça”, extraído da jararaca. E assim ele matava lentamente. Quando o senhor finalmente partiu dessa para melhor, Zacinda liderou uma fuga em grupo, formando um quilombo às margens do Riacho Doce. Seu trabalho incansável foi construir canoas e organizar ataques a aldeia de São Mateus, libertando os negros recém-chegados, tantos quanto fosse possível.

A história do Brasil sempre foi contada sob o ponto de vista institucional. Independência, República, Abolição, vieram de cima. Ainda que haja algum esforço no sentido de dar voz aos que foram apagados, nos falta uma história de fazeres coletivos, que revele aos brasileiros o seu papel diante dos acontecimentos. Antes que me acusem de estar metendo o bedelho numa história que teoricamente não pertence ao meu lugar de fala, digo que essas digressões nasceram do impacto provocado em mim pelo documentário AmarElo, do Emicida. Diante da arapuca em que fomos metidos em todos os sentidos no finado (espero) 2020, fomos confrontados com uma face nada bonita dessa Pindorama. Bolsonaro foi eleito pelo voto democrático, 57 milhões se sentiram representados por ele. Um país conservador, punitivista, e que o ódio ao diferente se mostra em todo seu terrível esplendor. E por favor, não se digam surpresos. Lembrem que somos o quinto país do mundo que mais mata mulheres, o primeiro em assassinato de lgbts no planeta, a cada três pessoas assassinadas, não por acaso, duas são negras. E isso porque não chegamos nos povos originários, é preciso um texto só para dar a ideia da dimensão da tragédia.

E no meio desse festival de barbárie, concretizado por uma pilha de duzentos mil mortos, surge esse rapaz , nascido nas quebradas da maior cidade da América Latina, não escamoteando a realidade, mas nos lembrando de uma face que já havíamos esquecido. Um Brasil inteligente, criativo, original, antropofágico, tropicalista, trazendo para o presente todas as contribuições dos negros na formação da sociedade brasileira, no campo da música, da intelectualidade, sem perder de vista a crítica e, sobretudo, a RESISTÊNCIA.

Tudo fica mais rico quando se tem conhecimento que os versos de Belchior da música Sujeito de Sorte, que Emicida sampleia em AmarElo: ”Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro/Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro” é uma paráfrase de um repente de Zé Limeira, um negro, analfabeto, nascido em Tauá, sertão do Ceará, no fim do século XIX. Era conhecido como o “Poeta do Absurdo”, uma história riquíssima para ser contada em poucas linhas.

E foi assim, navegando nas histórias da intelectualidade negra e da Resistência, que me detive em Oswaldo de Camargo, um dos maiores intelectuais negros vivo, escritor, poeta e ativista de peso. Nascido no interior de São Paulo, filho de lavradores, foi para um seminário onde adquiriu vasta cultura, além de formação musical (toca piano). Numa das entrevistas ele fala sobre o sentimento que permeia sua obra: A solidão. Sentimento definitivamente marcado por ser o único negro na adolescência em meio a 35 alunos. Voltamos a Nelson Rodrigues.

Oswaldo conheceu vários integrantes da Imprensa Negra dos anos 20 e 30 e é um dos estudiosos desse momento. Eram jornais escritos por negros, para negros, reivindicando um melhor posicionamento na sociedade. Entre esses jornais está o Getulino, o Paladino dos Homens Pretos, de 1923, que era publicado em Campinas, interior de São Paulo.

Como eu sempre digo, a vida é uma novela. Para quem não sabe, esse homem que enfrenta o racismo há décadas sem nunca se calar ou baixar a cabeça vem a ser o pai do Sergio Camargo, sim, o da Fundação Palmares. Aquele que diz que não existe racismo no Brasil e que o movimento negro é vitimista. O que vocês não contavam é com essa informação, que foi o fio condutor para que eu soubesse da história da imprensa negra do interior de São Paulo:  vocês se lembram do bisavô alemão do Bozo, que ele insiste em falar que lutou ao lado do Hitler, mesmo com as datas não batendo? Eis a verdade dos fatos. O Sr. Carl Hintze, natural de Hamburgo, estabelecido em Campinas, era vendedor de anúncios e assinaturas, possivelmente simpatizante da causa da luta contra o racismo, pelo que pude apurar, do Jornal O Getulino. Taí a prova de que nem sempre o fruto cai perto da árvore. E de que D’us é um roteirista que capricha no plot twist.

O estrategista do mal

Entre momentos de insônia e pesadelos, eu e mais alguns bilhões de pessoas pelo mundo vivemos horas de extrema tensão na noite de quarta, 6, para quinta-feira, 7 de janeiro de 2021. No meu devaneio, em primeiro plano, as imagens do Capitólio, em Washington, desfilavam a uma velocidade estonteante, sobrepondo-se umas às outras, para desembocar nos porões da ditadura civil-militar brasileira, onde as cenas de tortura deixaram Vlado e tantos outros sem vida.

Pela manhã, sonado, soube da morte de quatro pessoas na invasão do Congresso americano. Dois dias depois, somadas à de um policial. Que insanidade!

Por que milhares, senão milhões de pessoas, seguem cegamente um maluco capaz de por fogo no circo, sem perceber que este nunca olhou para além de seu próprio umbigo?

Trump, o homem dos cabelos platinados, não enterrou a democracia americana, mas ao apagar as luzes de seu mandato mostrou quão frágil ela é. Aquela democracia liberal, que muitos acreditavam capaz de superar todos os obstáculos graças à força de suas instituições, mostrou ser um gigante de pés de barro.

A invasão do seu símbolo máximo, o Congresso, se deu aos olhos do planeta, estarrecido, deixando gravada a imagem de um policial correndo pelas escadarias para fugir dos extremistas alucinados, sob ordens do fascista mor, que talvez acreditasse estar ali revertendo uma fraude que nunca existiu.

O mundo reagiu, se indignou, se deu conta de que, como disse George Walker Bush (aquele que inventou armas de destruição em massa para justificar o capítulo 2 da guerra do Iraque), os Estados Unidos tinham se transformado numa república de bananas.

Os chefes de Estado e de Governo se manifestaram contra aqueles atos de suicídio político. Todos denunciaram, salvo um, o amigo capitão, que revelou sua fidelidade ao amor descoberto tardiamente. Lembram-se do I love you?

Em se tratando do presidente brasileiro, nunca se sabe se agiu “só” porque é louco, ignorante, fascista, ou se foi também por estratégia política. Com ele, tudo se mistura. Não há dúvida de que foi tudo ao mesmo tempo.

Logo após o episódio do Capitólio, o ocupante do Alvorada veio à público ameaçar a idoneidade das presidenciais de 2022. Disse que se o voto eletrônico for mantido, o Brasil viverá cenas ainda piores que as vistas em Washington. Em termos de sofisma foi um golpe de mestre. Bolsonaro sempre criticou o sistema eleitoral, alegando a possibilidade de fraude, muito embora todos os especialistas o considerem muito mais seguro que as cédulas. Se ele não for reeleito, como esperam todos os democratas, alegará manipulação de hackers a serviço dos comunistas. Se vingar o voto em papel, a fraude será maciça (do seu próprio campo) e ele terá razões de sobra para reclamar a nulidade do voto.

Portanto, sairá vencedor dessa batalha.

O x da questão é que o Brasil não é os Estados Unidos, nossas instituições são muito mais frágeis que as norte-americanas, sem falar das forças armadas, que servem a Constituição.

Vale aqui citar a atitude do chefe do Estado Maior das Forças Armadas dos Estados Unidos, Mark Milley, que pediu desculpas públicas por ter participado de uma encenação polêmica do presidente Donald Trump, ocorrida no dia 1º de junho de 2020. “Eu não devia estar lá; disse o general.  Minha presença naquele momento e por todo o ambiente criado deram uma percepção de que os militares estavam envolvidos em política doméstica.”

Milley, pediu desculpas por participar de uma caminhada, ao lado do presidente Donald Trump, da Casa Branca até a Praça Lafayette, onde o republicano tirou uma foto com a Bíblia em frente a uma igreja que tinha sido danificada por manifestantes durante atos antirracismo pela morte de George Floyd, asfixiado por um policial branco, em Minneapolis.

Essa atitude mostrou que as forças armadas americanas pouco têm a ver com as brasileiras.

Atualmente, mais de 3 mil militares ocupam cargos no primeiro, segundo e terceiro escalões do governo, em lugar de pessoas muito mais qualificadas para as funções. Na verdade o Brasil é governado por uma comunidade civil-militar, exatamente como durante os anos negros da ditadura.

A liderança das nossas forças armadas, quando questionada, afirma que os militares respeitam e respeitarão a Constituição.  Resposta vista como a garantia de que não teremos um golpe militar. No entanto, em nenhum momento, foi dito que as forças armadas intervirão para evitar um eventual putsch. O militares se negam a falar sobre o assunto.

Além disso é útil lembrar que o capitão tem em mãos o controle de fato da Polícia Militar em vários Estados, da Polícia Federal, das forças armadas, dependentes do Ministério da Defesa, dos militares de pijama e da ativa membros do governo (que não vão querer perder a mamata), dos Serviços de Informação e dos milicianos próximos do 01, 02 e 03.

Isso para dizer que Bolsonaro, caso perca a eleição, apelará para as acusações de fraude e chamará para as ruas os seus torcedores fanatizados, que por muito menos já quiseram invadir o Congresso. Ao contrário de Trump no entanto, estará em situação de força para tentar o golpe. Não tenho dúvidas de que fará o impossível para permanecer na presidência. A roupa de ditador lhe cai como uma luva. Caso não consiga, irá negociar a anistia para todos os crimes que ele, sua família e acólitos cometeram.

A estratégia está montada ou, melhor dizendo, já está em andamento. Definitivamente, Jair Messias Bolsonaro não é apenas um louco, um ignorante, um fascista. É  também um estrategista do mal.

 

 

 

Uma democracia em cheque

Quem tivesse ligado a TV e visto as cenas da invasão do Congresso Americano, desavisado pensaria se tratar de um filme ou uma série. Como acreditar se tratar de cenas reais em um país onde as agencias de segurança costumam funcionar.

Não somente eram cenas reais, como foram comandadas pelo presidente do país. O lunático instigou seus seguidores a tomarem o Congresso para impedir que o vencedor das eleições presidenciais fosse declarado presidente.

Entre os invasores, grupos de judeus e nazistas cuja idolatria a Trump é capaz de  superar suas diferenças. Supremacistas com a bandeira confederada receberam juras de amor do presidente dos EUA. Racistas transitaram pelos corredores atacando os poucos policiais que tentaram resistir. Sem dúvida alguma, foi um caos promovido por diferentes facções da direita radical americana irmanadas em defesa de seu mestre.

Vale ressaltar que uma manifestação de “Vidas Negras Importam” que passou próxima ao Congresso há pouco tempo, assistiu a um Congresso protegido por centenas de agentes de polícia. Claro que neste caso não eram brancos comportados e civilizados que se manifestavam, uma invasão podia acontecer e foi preciso uma ação preventiva. Bem diferente de quando o presidente do país faz uma manifestação de desagravo ao resultado da eleição. (usei de sarcasmo para quem não entendeu).

A chamada democracia americana é uma ilusão. Enquanto no mundo inteiro o vencedor de uma eleição é aquele que recebe mais votos, lá o presidente é eleito por delegados de estados. Na verdade o eleitor está participando de uma pseudodemocracia, o seu voto se somado a maioria nem sempre elege o presidente. Trump se elegeu assim. Hillary teve mais votos, mas menos delegados.

Trump não é o político tradicional, nunca foi. É um homem de negócios, um empreendedor, empresário que sempre usou do poder do dinheiro para prevalecer. Péssimo pagador, deve milhões ao fisco americano e corre sério risco de parar na cadeia quando deixar a Casa Branca.

Na política usou das mesmas táticas para impor seus desejos. Chantageou meio mundo árabe para aceitarem relações diplomáticas com Israel em troca de armas. Retirou os EUA do Acordo do Clima, impôs sanções econômicas ao Irã depois de se retirar unilateralmente do acordo atômico que o país cumpria.

Com a China teve seus momentos de amor e ódio. Ultimamente, que se diga, muito mais ódio. Tentou dobrar o país de todas as maneiras. Rompeu acordos comerciais, impôs sanções, aumentou impostos de importação de seus produtos, obrigou empresas americanas a suspenderem suas atividades na China, tentou retirar as companhias chinesas do 5G da telefonia celular etc.

Teve seus momentos na TV. Participou do Reality The Apprentice (O Aprendiz). Nele um grupo de pessoas precisando desesperadamente de um emprego, precisam agradar Trump, o chefe, para permanecerem no programa. A cada semana, o chefe vai eliminando participantes até que resta um, aquele que recebe o emprego. Para chegar lá, precisou cumprir diversas tarefas, mas acima de tudo, teve que passar por cima dos demais competidores. Nem sempre venceu o mais capaz, mas sempre o que mais agradou o chefe.

Esta figura sinistra, filho da meritocracia, um capitalista sagaz, tomou o Partido republicano e se elegeu presidente. Soube jogar de acordo com as regras e montou uma estratégia para ter mais delegados no colégio eleitoral, não para ter mais votos. Deu certo e o mundo teve de conviver por quatro anos com ele.

De temperamento difícil, mimado como uma criança, não conheceu adversários no seu partido. Mesmo entre seus apoiadores semeou discórdias e sempre que contrariado não hesitou em despedi-los. A lista é longa. Trump conseguiu ter seu nome marcado para sempre. Para seus apoiadores um Deus na Terra, para seus opositores, um demônio.

Os EUA tremeram nesta semana. Boa parte das lideranças políticas temem pelas instituições, acham que Trump continua sendo um perigo para a democracia faltando poucos dias para o término de seu mandato. Uns sugerem o inédito segundo Impeachment, outros o uso da Emenda 25 que permitiria seu afastamento com o vice assumindo a presidência. Todos parecem compreender o perigo que ele continua representando.

Trump foi um ídolo para outros países também. Bolsonaro, por exemplo, está convencido de que as eleições americanas foram fraudadas em favor dos democratas. Que o Covid-19 foi criado em um laboratório chinês para que pudessem vender uma vacina com nanorobôs que nos transformaria em comunistas.

A queda desta figura nefasta é um alívio para todo o mundo. As lições sobre como ele chegou ao poder precisam ser aprendidas para que nunca mais volte a acontecer. Se a democracia americana não mudar, o fascismo vai voltar com mais força e desta vez para ficar. Eles com certeza aprenderam a lição de que eleições não são um bom negócio.

 

Nos palcos do centro

Fique frio – para cada sonho que não se concretiza há um pesadelo que também não (Millôr Fernandes)

Houve tempo de um pesadelo recorrente. Eu aparecia encurralado, de costas para um muro elevado. No horizonte, começava a se formar uma imensa onda e, dentro dela, apareciam tubarões famintos. Como em qualquer pesadelo, meus movimentos estavam em câmera lenta. Impossível tentar uma saída, os tubarões se aproximavam rapidamente, como se tivessem asas. Acordei assustado várias vezes. A cena toda parece produção barata do canal SYFY, que explora o pânico que estes peixes provocam no imaginário, especialmente depois do clássico Tubarão, dos anos 70. Naquele canal, eles povoam ciclones, nuvens, têm duas ou mais cabeças e outros delírios divertidos.

O teatro do inconsciente tem aprontado novos cenários e roteiros nesta pandemia. O mais frequente me joga em alguma rua do centro do Rio, que se modifica em cada sonho. Comum a todos, o final. Acabo num beco escuro, no meio de famílias andrajosas, que me ameaçam. A muito custo, consigo fugir. Poderia imaginar o óbvio. A Covid-19 é semeadora fértil de medos. No entanto, seria uma explicação fácil demais.

A região central do Rio tem muitos significados para mim. Foi lá que meu avô materno conseguiu seu primeiro emprego, nos anos 1930. Vindo da Polônia, com escala em Buenos Aires, exerceu o ofício de alfaiate. Lembro-me do giz com que riscava tecidos e da imensa tesoura que os cortava. Imagino que não trabalhava como Samuel, pai dos Irmãos Marx. Também alfaiate, bastava olhar as confecções para identificar as obras do seu Samuel. O freguês levava camisas com mangas de comprimentos diferentes. As calças não fugiam deste destino assimétrico. Oi vei!

Da modesta alfaiataria na rua da Alfândega, Abrão migrou para a Baixada Fluminense. Comprou uma pequena loja, a Confecções Líder, em Duque de Caxias. Lembro-me das calorosas discussões familiares para escolher o nome do estabelecimento. Vingou o sonho de uma vaga liderança, mais fetiche do que realidade. Anos depois, já aposentado, voltou ao centro. Antes de parar de vez, trabalhou numa loja de aviamentos para alfaiates, ramo hoje engolido por grandes centros de distribuição de linhas, botões e outras miudezas.

A rua da Alfândega, com outras adjacentes, concentrou grande número de comerciantes judeus e árabes. Conviviam em harmonia e as discussões entre brimos acabavam em esfiha, no restaurante Cedro do Líbano ou na Padaria Bassil. Pouco sobrou daquela era. Os Abrão e Salim disseram adeus e foram embora. Se fossem uma música de carnaval, seriam o pierrô-tradição chorando pela colombina-modernidade padronizada. Como diria Noel Rosa: A colombina entrou num butiquim/bebeu,bebeu, saiu assim, assim/dizendo: pierrô cacete/vai tomar sorvete com o arlequim.

A pandemia acelerou o processo de decadência do centro do Rio, iniciado há décadas por administrações desastrosas. Talvez as ruas dos meus pesadelos sejam as de hoje, habitadas pela miséria, pelo abandono e por comércios fechados. Um dos últimos a fechar as portas existia no mesmo endereço desde 1940. Foi a Casa Alberto, chapelaria com clientela de responsa. Despediu-se junto com as leiterias, sebos, bares e restaurantes tradicionais.

Por falar em leiterias, não se trata de chorar o leite derramado. Não defendo, como um célebre personagem de novela interpretado pelo Mario Lago, o ressurgimento de lojas para mordomos. A gente está condenado a administrar o tempo. Quem fica preso no passado, corre o risco de cair na depressão. Pode não parecer, mas o passado é maleável. Ganha a forma das nossas idealizações. Ai, meus tempos, diziam nossas avós, segurando a lombar estropiada.

Só vejo uma saída. Meio irreal, mas sonhar nem sempre dá em pesadelo. Que venham prefeitos apaixonados pela cidade, capazes de mobilizar os cariocas para reconstruí-la. Quanto ao centro, tendo a concordar com o Álvaro Costa e Silva, cronista veterano, dos melhores. É preciso habitá-lo e não demoli-lo. Talvez estejamos precisando de mais bermudas e menos ternos. Nos sentidos literal e poético.

Abraço. E coragem.

A premissa de Millôr Fernandes

No Jornal da Cultura de ontem (1/1/2021) o jornalista Leonardo Sakamoto, ao tentar desenvolver o tema do descontentamento de setores da sociedade com a imprensa na medida em que esta faz “oposição” (aspas propositais) aos diferentes governos, incomodando assim os partidários de governos a, b ou c. Para tentar clarificar, usou a máxima de Millôr Fernandes, cuja postura em relação ao papel da imprensa era de absoluta intolerância com a imprensa que não se dispusesse a priori ao papel de oposição. “Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”, dizia o respeitável mestre, que nesta equação estabelece um ponto no qual não me resta opção senão a da oposição que ele tanto pede, no caso, completamente distópica, pois não sou jornalista nem imprensa.

Não. Não concordo que é papel primário da imprensa o de se opor ao que quer que seja. Tenho o claro entendimento que a função de análise crítica é completamente diferente da crítica sem análise, e mais diferente ainda daquela postura que muda a sua escala de valores de acordo com a oportunidade. Se consigo imaginar – nos meus ideais – uma função social da imprensa, esta que jamais foi definida com limites precisos por qualquer código, até por que a limitação precisa desta função já criaria por si paradoxos insuperáveis, vejo nela uma atividade social que pretende trazer ao seu consumidor informação e condições de formação de opinião através do confronto entre os inúmeros elementos factuais de uma dada narrativa com um conjunto de valores minimamente estáveis, ainda que sempre insuficientes para que se vislumbre isenção plena, mas cuja uniformidade permita que pelo menos se vislumbre uma vontade de isenção.

Assim, como tentou fazer Sakamoto sobre o ombro de Millôr, comparar o tipo de oposição que a imprensa fez aos governos populares de 2003-2016 com o tipo de oposição que faz ao governo atual, corremos o sério risco de validar toda a formulação que estruturou o golpe contra a democracia que culminou no estado de coisas atual. Se sequer imaginarmos que o conjunto de valores utilizado contra os governos populares é o mesmo do qual se utiliza agora para combater um governo ignorante, obscurantista, violento e autoritário, estaremos incorrendo em sérios sofismas.

Para tanto, vamos examinar um caso, o do historiador (e tido como jornalista) Marco Antônio Villa, que talvez condense na sua atuação de forma bem didática os elementos que quero trazer ao debate. Villa exerceu crítica cáustica aos governos populares fazendo acusações gravíssimas e sem provas, especialmente ao Presidente Lula, a quem se dirigia como “o bandido de São Bernardo”, “chefe da maior quadrilha que já houve no Brasil”, usando e abusando de sua titulação acadêmica para arrebanhar seguidores como provocador corajoso e polêmico, o que certamente encorajou tantos outros ao mesmo comportamento ou pior. O problema é que Bolsonaro “nasceu” muito antes de Lula, e toda a sua atuação na vida pública (juntamente aos seus filhos) pautou-se, até o quanto se sabe no momento, por atitudes, vontades e atividades que rebaixariam o seu alvo predileto à condição de amador desorientado. Status hierárquico que jamais foi reavaliado pelo respectivo autor.

Engrossando o caldo de Villa com as grandes corporações como Estadão, Globo, Veja, Folha, Jovem Pan, Isto É, entre outros, vemos hoje todas essas mídias cumprindo as metas de Millôr Fernandes não mais baseados nos valores pretendidos por Millôr (que aqui contesto) mas sim em um ato de desespero pela preservação de uma democracia que eles em conjunto contribuíram para destruir.

Bingo. Se analisarmos friamente os fatos, não é difícil concluir que sob o pretexto de se praticar uma oposição a priori a grande imprensa e seus atores causaram um imenso prejuízo à sociedade. E não poderia ser diferente. Se como imprensa eu assumo um papel primário de oposição, certamente só poderei fazer isso com um imenso poder de censura sobre os dados da realidade, condensando no meus discursos os pontos negativos de um determinado governo e omitindo sistematicamente tudo – ou quase tudo – o que poderia ser usado ao seu favor. É este o papel da imprensa? Penso que não, pois no meu entendimento isto não tem como dar certo pelas simples razões aqui apresentadas.

Tudo isso não exime o dever de uma imprensa responsável de fazer sim oposição uma vez que identifique ações de governos que atentem contra uma escala de valores compartilhada entre o conjunto da sociedade, explícitos (como por exemplo no texto constitucional), e os elementos éticos da boa prática jornalística, igualmente explícitos ou não.

Se em algum momento nossa grande imprensa, sob uma suposta defesa de Sakamoto, fez o que fez em tributo a Millôr Fernandes, não fez mais do que contribuir para a sua degradação, reforçada ainda por uma exigência de “autocrítica” por parte do PT, esta que nas questões mais fundamentais não é exigida sob os mesmos pesos e medidas de quem se arroga a este direito.

Por fim, ressalto que minha visão aqui é a de consumidor e cidadão, visão esta pessoal, não se tratando, de forma alguma de intromissão em seara alheia e que de forma nenhuma tem a pretensão de ser impositiva, deixando as questões aqui tratadas abertas ao debate, mas deixando explícita minha frustração pessoal com a visão de Sakamoto exposta em seu comentário no Jornal da Cultura.

Um pouco de alento

E começamos 2021 para tentar esquecer o ano que passou. Infelizmente, em muitos países, ele será a repetição da mesma tragédia. Países que não tiveram o cuidado de garantirem vacinas para sua população, vão continuar sofrendo as consequências.

Mas nem tudo são tragédias.

Vamos ter um novo presidente nos EUA. Ao menos, o pior presidente americano de todos os tempos está deixando o cargo. Dele, os americanos se vacinaram, assim espero. Não quero dizer com isso que Biden seja muito melhor, mas convenhamos, Trump precisava sair.

O mundo como conhecemos vai ser reconstruído. A Inglaterra deixou a Europa e voltou a ser a ilha que sempre foi. Os ingleses não fazem ideia das consequências para eles, e por enquanto, aguardam o destino que lhes está reservado. Imaginam que. Independentes, sejam capazes de melhorarem de vida sem o Mercado Europeu como sócios.

A Argentina deu um exemplo de civilidade para a América Latina e o mundo ao aprovar a Lei do Aborto. Milhares de mulheres serão salvas da morte em consequência de terem assegurado este direito e não precisarem mais recorrerem a abortos em clínicas clandestinas.

Conhecemos novas formas de solidariedade. O uso da máscara e o distanciamento social ajudaram a salvar vidas. Muita gente vai continuar usando máscara nos invernos para se prevenir de gripes e resfriados.

A ciência vai utilizar a mesma técnica das novas vacinas contra o Covid-19 para prevenir outras doenças e nos preparar para o surgimento de novos vírus no futuro. Um grande passo da ciência que vai beneficiar toda a humanidade.

É preciso poupar. Talvez esta seja a maior das lições. A sociedade precisa aprender a ter reservas econômicas para situações inesperadas. Os governos precisam garantir formas de poupança que garantam aos cidadãos que lhes sejam supridas as necessidades mínimas diante de situações de quarentenas.

As relações de trabalho também serão diferentes. Aprendemos que para muita gente é possível trabalhar de casa sem a necessidade de deslocamento diário para as sedes das empresas. Menos tráfego, menos poluição e combustível mais barato para lazer.

Encontros virtuais vão continuar acontecendo. Sem prejuízo da visita presencial, muitas apresentações de produtos e negócios vão continuar acontecendo pelos programas de conferência virtual. Mas não são só negócios, amigos e familiares podem se ver com mais frequência pela Internet.

O ano virou, foram muitas perdas. Agora precisamos levantar a cabeça, deixar os lamentos para trás e seguir em frente. Temos muito que fazer. Resistimos até aqui e vamos continuar resistindo até que surja um novo Brasil sem isto que está na presidência.