O Universo está de sacanagem

Me chamou atenção atitudes de políticos de 3 países nesta semana. São coisas que me fazem pensar se o Aquecimento Global estaria afetando a humanidade, não apenas na questão do clima, mas na nossa maneira de pensar e de agir em relação ao próximo.

No Brasil, Bolsonaro resolveu que seu filho será o próximo embaixador do Brasil em Washington. Atitude que já faz a imprensa americana se referir ao nosso país como uma República das Bananas. Para quem é mais jovem e não sabe o que isso significa, saibam que foi utilizado nos anos 70 para se referir aos países Latino Americanos onde proliferavam ditaduras e a lei era a dos mais fortes.

Nos EUA, Trump durante um comício em Minnesota disse: “Essas congressistas, seus comentários estão ajudando a alimentar a ascensão de uma esquerda militante perigosa. Tenho uma sugestão para as extremistas cheias de ódio que constantemente tentam dividir nosso país. Elas nunca têm nada de bom para dizer… Sabe o quê? Se não o amam, digo a elas para deixá-lo.” No que foi acompanhado por um coro de apoiadores gritando que as mandem de volta sob seu olhar complacente.

Em Israel, o Ministro da Educação (provisório até as novas eleições), Rafi Peretz, disse em uma entrevista a um canal de TV que era a favor da anexação dos territórios ocupados por Israel. A entrevistadora questionou sobre cidadania e direito a voto, no que ele respondeu, sem estes direitos. Ela então pergunta se não seria um Apartheid, e ele então diz que é complicado. Na mesma entrevista ele sugere a Terapia da Cura Gay e aí o mundo veio abaixo.

Muito provavelmente coisas parecidas devem estar ocorrendo em outros países no que eu já classifico como um Show de Horrores Mundial. Aquela coisa de que se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Tá parecendo um daqueles filmes apocalípticos com um excesso de anticristos.

Para completar a semana, no dia 17, completaram 25 anos do Atentado da Amia (um centro comunitário judeu, a Associação Mutual Israelita-Argentina, que deixou 85 mortos. O ataque foi atribuído ao Irã e ao Hezbollah com a ajuda de políticos argentinos numa linha direta que chegaria à presidência, na época exercida por Carlos Menem. Um atentado hediondo contra pessoas inocentes. Os culpados seguem impunes.

Se somar a isto tudo as últimas revelações da Vaza a Jato e a decisão do Ministro Toffoli de liberar o Flávio Bolsonaro das acusações com provas do COAF, aí só mesmo com Rivotril na veia, ou de canudinho.

Não está fácil viver no Planeta Terra. Principalmente para quem é militante das causas sociais. Parece que o universo resolveu nos sacanear e pegou gosto. É uma notícia pior que a outra sem parar.

Felizmente não há mal que perdure para sempre. Esta fase vai passar, como sempre aconteceu na história da humanidade. Tivemos alguns períodos de escuridão e também de muita luz. Estamos vivendo um pesadelo, mas em breve vamos poder voltar a sonhar.

Poderia escrever diversas páginas para comprovar de que tenho razão, mas não tenho a intenção de convencer os que pensam que não existe solução. Não vale a pena esta discussão. Para vocês eu digo que o tempo é senhor da razão.

Enquanto existirem eleições podemos sair disso pela via democrática. Em Israel elas ocorrem em dois meses, nos EUA no ano que vem e no Brasil dentro de três anos. Para quem já está gritando mais 3 anos com Bolsonaro, eu digo que os americanos, apesar de tudo, estão sobrevivendo ao governo Trump que também é de 4 anos.

Claro que eu gostaria de que Bolsonaro não cumprisse o mandato. Razões para isso não faltam e quem sabe até aconteça. Mas de toda forma ele tem prazo de validade.

Sentindo na pele todos estes retrocessos humanitários, a gente precisa lembrar que a humanidade como um todo avançou muito e que mesmo diante dos piores acontecimentos da história do homem, sobrevivemos e demos a volta por cima. No final a lista de grandes seres humanos é muito maior do que a lista dos piores vilões da humanidade.

Os maus ficaram marcados na história por seus atos, os bons por seus ideais.  E foram sempre os grandes ideais que nos fizeram avançar e chegar até aqui. Eles não podem ser destruídos porque se encontram dentro de nós e são passados de geração para geração. O mundo vai ser melhor porque somos nós que semeamos a terra com nossas ideias para um mundo melhor, mais justo e igualitário, aqueles que seguramos as mãos e não abandonamos ninguém no campo de batalha.

Continuamos de pé na luta.

 

Justiça, que justiça?

Toda vez que perdemos um companheiro de trincheira, uma enorme tristeza se abate sobre todos nós. Ninguém é perfeito e obviamente cada um de nós tem seus defeitos, para o bem e para o mal. Nesta hora isso perde relevância e nosso sentimento de perda é como de um elo da corrente que se abre e precisa ser preenchido novamente. Paulo Henrique Amorim, descanse em paz sabendo que seguimos na luta.

Desde que o terror deste governo chegou ao poder, com todas as consequências de ter na chefia do poder um mentecapto disfuncional, que a cada dia traz uma nova surpresa nos matando de vergonha, é preciso repensar como acabar com isso.

Em um estado democrático eu diria que bastaria aguardar as próximas eleições. Este é o caminho natural das coisas. Quem não deseja dar continuidade a isso que está aí, vota em outro candidato. Simples assim.

Nosso problema é que não existe um estado de direito. Assim sendo, vivemos uma meia democracia. Visto de fora, temos eleições livres onde cada cidadão representa um voto. Visto de dentro, vivemos um pesadelo eleitoral onde uma presidente é retirada do poder sem nexo causal, e um candidato a presidência é impedido de concorrer para dar a vitória para seu concorrente.

Tenho acompanhado o Glenn Greenwald em sua passagem pela Câmara e o Senado explicando o trabalho do The Intercept na divulgação das trocas de mensagens entre o ex-Juiz Sergio Moro e promotores do MP que acusam o Presidente Lula de receber propinas.

O interessante não é escutar os deputados e senadores que estão do nosso lado, é escutar os que estão a favor de Moro. É um exercício de parcimônia. São necessários paciência, contenção, medicação para pressão alta, taquicardia etc., tudo a mão.

Eles perguntam porque não entregar o material para perícia de órgãos de segurança como a PF do Brasil, ou o FBI e a CIA americanos (como se eles não tivessem mais o que fazer) e o Glenn explica que em nenhuma democracia do mundo um jornalista entrega material para qualquer órgão de segurança antes de publicar. E os caras insistem que é tudo falso.

Eles dizem que o material poderia ser falso, ou meio falsificado para atender o que desejam os inimigos de Moro. O Glenn explica que outros meios jornalísticos também periciaram o material e encontraram, por exemplo, diálogos que eles jornalistas trocaram com os promotores, palavra por palavra. Que procuradores que fizeram parte de alguns dos grupos e mantiveram as conversas em seus celulares, também encontraram os diálogos exatamente como estão sendo publicados, palavra por palavra. E os caras insistem que é tudo falso.

Alguns argumentam que Moro não poderia se lembrar de tudo e que já não possui os originais consigo. O Glenn explica que outros promotores têm consigo os originais. Que Moro até hoje não disse que o material era falsificado e que não se reconhecia neles. Tanto assim que até pediu desculpas ao MBL por tê-los chamados de tolos. Que o Moro parece ter uma estranha amnésia com relação aos fatos. E os caras insistem que tudo é falso.

Outros dizem que o conteúdo, mesmo que fosse verdadeiro não desabona o trabalho da Lava Jato. Glenn explica que em qualquer democracia do mundo, um juiz que confabulou com uma das partes de um processo seria imediatamente afastado, os casos julgados anulados e ele processado. Não se trata do trabalho da Lava Jato, mas de um caso específico contra uma pessoa específica. E os caras insistem que tudo é falso.

Em resumo, o nível de alguns parlamentares que estão neste congresso faz o Tiririca pensar como era feliz como palhaço. Tem gente ali com sérios problemas de concatenação lógica.  Tico e Teco não se falam. Sinopses neurais queimadas.

Não existem argumentos que os faça compreender o que está acontecendo, ou que os convençam de que seu herói talvez tenha cometido atos que o desabonem, condenáveis em qualquer cenário democrático no Planeta Terra.

Ainda existe muito material para ser divulgado. A cada vazamento as coisas ficam mais claras e mostram desnudando o que de fato aconteceu. Um conluio sinistro, fora da lei, com objetivos claros de interferência política de acordo com as convicções dos envolvidos.

O que mais se faz necessário para mudar alguma coisa? Realmente a Vaza Jato será capaz de fazer mudanças? Até que ponto se deseja fazer justiça, quando a única opção é a de anular os julgamentos do Presidente Lula?

Todo sistema judiciário está sendo colocado a prova. É um dos seus, desta casta de deuses superprivilegiados que está mostrando que o cumprimento da lei pode ser relativizado de acordo com interesses políticos.

Esqueçam da lei, esqueçam da justiça e não criem falsas esperanças. Este STF fez parte do golpe e dele não se pode esperar nada. E como nada está tão ruim que não possa piorar um pouco mais, vem aí o Ministro Terrivelmente Evangélico.

Otto, o Comunista

A boa da semana foi a homenagem do Exército Brasileiro ao oficial do exército alemão de nome pomposo, Eduard Ernest Thilo Otto Maximilian von Westernhagen, mais conhecido como Otto Maximilian, provavelmente por serem os únicos nomes pronunciáveis em português.

O militar, que havia lutado na II Guerra Mundial pelo Exército Nazista, estava no Brasil fazendo uma espécie de intercâmbio em 1968, quando foi pego e justiçado pela Colina (Comando de Libertação Nacional). Até aí um efeito colateral do combate à ditadura militar.

Não podemos afirmar com certeza absoluta de que pelo fato dele lutar com os nazistas, ter sido ferido em combate com os nazistas e recebido uma medalha de Hitler, o Fuhrer Nazista, que ele fosse nazista. Mas algumas coisas podem ser ditas.

Muitos soldados alemães, que não eram nazistas, desertaram, ou se entregaram as forças aliadas. Não foi o caso dele.

Muitos soldados alemães, que não compactuavam com os nazistas e também foram feridos em batalha, não quiseram ser condecorados, ou jogaram a medalha no lixo. Não foi o caso dele.

Ainda assim, a contragosto, talvez o Otto não fosse um nazista, admito esta possibilidade. No entanto ele lutou por um regime que o Exército Brasileiro combateu e contra o qual 443 pracinhas perderam a vida.

Para quem não percebeu, a homenagem se deu única e exclusivamente pelo fato de que um grupo de esquerda que lutava contra a ditadura militar, matou o soldado alemão. Se o diabo em pessoa tivesse sido morto por um grupo de esquerda naquela época, o Exército brasileiro estaria hoje homenageando o Inferno, simples assim.

Convenhamos que depois do Chefe das Forças Armadas ter batido continência para a bandeira americana, homenagear um suposto nazista que foi inimigo de guerra do Brasil, se torna plausível.

A fruta não cai longe da árvore. Este mentecapto que assumiu a presidência do país foi um militar. Tão ruim que o desligaram por transgressão grave ao Regulamento Disciplinar do Exército. Ainda assim sempre se comportou como aqueles seguranças de festa de aniversário que nunca passaram no concurso para policial. Idolatrava torturadores militares, exaltava a ditadura esse achava o maior milico da tropa.

Mesmo sabedores da vida militar pregressa desta anta, generais aceitaram fazer parte do governo dele se subordinando a um capitão. Quando se olha para isso, compreende-se a homenagem ao Otto. São iguais.

Quem perde com esta sandice são os combatentes brasileiros que tem sua honra manchada, sua importância diminuída, sua memória maculada e sua história achincalhada.  Para o Exército Brasileiro fica a imagem de que um soldado inimigo tem mais valor do que os nossos caídos que lutaram contra ele.

Claro que a comunidade judaica também não recebeu esta notícia com muito gosto. Sem entrar no mérito da maior ou menor convicção nazista do Otto, ainda assim ele havia combatido na guerra pela Alemanha Nazista, a mesma que assassinou seis milhões de judeus. Os grupos progressistas pularam da cadeira, e a CONIB (Confederação Israelita do Brasil) emitiu uma nota.

Existe nisso tudo uma enorme ironia. Este governo já chegou a dizer que o nazismo era de esquerda, algo repetido pelo inepto ao visitar o Museu do Holocausto deixando a direção do museu na obrigação de fazer um esclarecimento negando este absurdo. Bem, se o nazismo era de esquerda, logicamente o Otto combateu por um exército de esquerda. Sendo assim, o Exército Brasileiro homenageou um combatente comunista que foi morto por comunistas. Podem rir, é cômico. O mundo Bolsominion é assim mesmo.

Falando sério, o país não tem governo. O que existe é uma caricatura mal desenhada. Ele precisa ser afastado por sua total incapacidade de exercer a presidência. Seus primeiros seis meses são uma tragédia nacional e uma vergonha internacional. Não existe plano para nada, objetivos a serem alcançados, metas a serem atingidas, nada de coisa nenhuma.

Enquanto isso, o Presidente Lula, preso político, de dentro da cadeia, tem mais soluções planos para tirar o país da crise sem prejudicar os trabalhadores, do que todo o ministério governamental.

Pensando bem o único brasileiro feliz nestes dias é o ministro astronauta que vive no Mundo da Lua. Acho que ele está lá escondendo o Queirós.

O Caso Moro

O que assistimos pela TV durante o depoimento de Sergio Moro, não foi nada mais do que a tentativa de relativizar transgressões graves cometidas por ele quando juiz da Lava Jato.

De acordo com a Wikipédia, o relativismo é o conceito de que os pontos de vista não têm uma verdade absoluta ou validade intrínsecas, mas eles têm apenas um valor relativo, subjetivo, de acordo com diferenças na percepção e consideração.

Devo esclarecer de que este é o comportamento de uma pessoa culpada, aquela que tem plena consciência de que cometeu uma ilicitude. O inocente sabe que não fez nada de errado, de que não cometeu um crime. Ele normalmente vai negar e argumentar com provas. Pode aceitar as razões que o levam a ser um suspeito, mas consegue explicar as razões que o eliminam da suspeição. Não foi o que vimos.

Vamos deixar de lado a questão de como foram obtidas as conversas e o que mais ainda está por vir. Tratemos do que realmente importa.

Moro procurou atacar as provas, segundo ele, obtidas de forma ilegal em dissonância com o interesse público, e que foi uma prática criminosa contra ele e as instituições brasileiras. Depois disse que não poderia se lembrar de conversas acontecidas há dois anos. Também afirmou que tudo poderia estar sendo editado. Explicou se tratar de uma tentativa de desestabilizar a Lava Jato, e que o resultado seria a libertação dos condenados e a devolução do dinheiro recuperado.

Questionado sobre o que de fato estava sendo mostrado, ou seja, o conluio entre ele e o MP, as cobranças sobre a investigação, o desdém com a defesa etc, nada disso tem importância diante do que foi obtido pela sua atuação na Lava Jato. Tudo é sensacionalismo de fatos corriqueiros de quem conhece os meandros da justiça. Em outras palavras, tudo é relativo.

O que ele tentou nos dizer é o seguinte: quem conhece a política sabe que o caixa 2 sempre existiu, era praticado por todos os partidos e por todos os postulantes a cargos eletivos. Então não seria uma prática ilegal, mesmo que a lei dissesse o contrário.

Quem conhece a justiça sabe que juízes conversam com as partes fora do processo. Nem todos, é verdade, mas acontece mais do que deveria. Neste caso, esta prática também não seria ilegal, mesmo que lei diga o contrário.

Acontece que não foram apenas meras conversas, foram diretrizes de comportamento e de atuação. Até quem deveria estar presente durante um depoimento foi tratado. Foi uma parceria para atender um desejo em comum, a condenação do réu a qualquer preço. O que aconteceu escancarou uma verdadeira quadrilha “judicial” com todos os seus elementos devidamente qualificados que agiram de comum acordo para cometer um crime.

Moro pode tentar relativizar seus atos, mas isso não muda os fatos. O que aconteceu provavelmente não encontra precedentes na nossa história. Não foi um descuido, não foi o uso de um meio mais moderno para tratar de assunto corriqueiro. Foram combinações, instruções, comentários jocosos sobre a outra parte. Nada disso encontra previsão legal. E nem poderia, pois não existe sistema jurídico no mundo que aceite este comportamento de parte de um juiz.

Na minha profissão trabalho com a mentira há muitos anos. Já vi muita coisa e ainda não vi tudo. O Caso Moro, como provavelmente virá a ser conhecido, é um marco histórico, isso não tenho dúvidas. Será matéria de estudo em todos os cursos de direito do país, e talvez de muitos outros países. Será uma lição dos limites de atuação de um magistrado.

Aprendi muita coisa e deixo aqui uma lição que costumo passar para meus alunos. Qualquer semelhança com a vida real, não é mera coincidência.

Os 10 mandamentos para se contar uma mentira convincente:

  1. Planeje sua mentira. Faça com que seja plausível demonstrando fluência e conhecimento de sua audiência. Tenha uma segunda mentira pronta.
  2. Mantenha a mentira de tamanho pequeno e simples. Nunca inclua outras pessoas na mentira, a menos que seja estritamente necessário – elas sempre vão estragar tudo. Afinal de contas a mentira é sua e não delas.
  3. Baseie a mentira em fatos remotos, fatos que nunca possam ser checados, como ações realizadas por pessoas imaginárias. Mas complete a mentira com fatos reais em detalhes, especialmente se a audiência souber que eles são verdadeiros ou puder checá-los.
  4. Minta de forma vigorosa e confidente, acredite em si mesmo. Acima de tudo, olhe para eles diretamente nos olhos quando estiver mentindo.
  5. Diga apenas a quantidade de mentira que você necessita. Não se deixe levar pela emoção.
  6. Repita a mentira. Se a audiência for suspeita, mas permitir que você prossiga, volte a mentira no futuro. Lembre-se que você nunca sabe quando irá precisar mentir para a mesma audiência novamente.
  7. Jogue o ônus da prova para eles. Faça com que eles provem que você está mentindo: não permita com que eles façam você provar que está dizendo a verdade.
  8. Apele para o mal-entendido. Explique que eles não compreenderam bem suas palavras, sentimentos, intenções ou maneira de falar. Lembre-se de que a menos que exista um gravador no recinto, ninguém pode provar o que você disse há 5 minutos atrás.
  9. Chute o balde. Se eles estão determinados a provar que você é um mentiroso, faça com que paguem caro por isso. Muitas pessoas irão preferir aceitar quietos uma mentira a enfrentarem o constrangimento social necessário para demonstrar a mentira. Se eles o jogarem para fora da curva, siga o mandamento seis.
  10. Se tudo der errado, admita você tentou mentir, peça desculpas, elogie a audiência por sua percepção – então conte a segunda mentira!

 

Moro, tua hora chegou

Sergio Moro é o resumo de um Brasil que a gente teima em dizer que não existe, mas que se faz presente no nosso dia a dia. É o país que se imaginava no passado, aquele da Casa Grande e Senzala. Mera ilusão, Moro está aí para provar que são os medíocres do andar de cima quem realmente mandam.

Eu conheço muitas pessoas que deixaram de advogar. A principal razão deles é a decepção com o sistema jurídico. Receberam seu diploma, passaram no exame da Ordem e pensaram que estariam ajudando a sociedade a fazer justiça. No seu imaginário os maus pagavam por seus crimes e os inocentes eram absolvidos. Idealistas, eles ainda tinham em conta o Código de Ética dos Advogados, e por ele pautavam suas ações. Infelizmente a realidade logo se fez presente e com ela a desilusão com a profissão. Uma lástima que sejam eles a pularem fora abrindo mais espaço para os maus advogados.

Moro não perdeu a pose ainda. Para ele tudo pode ser relativizado. Como juiz ele nunca errou, quando muito pode ter cometido um pequeno descuido, um mero deslize, nada que possa comprometer sua ilibada conduta. Os que o acusam de conluio com o MPF exageram e deveriam estar procurando o verdadeiro criminoso, aquele que obteve suas conversas e as vazou. Matem o mensageiro.

Não há dúvidas de que a conduta de Moro não é a exceção. Como ele, juízes e desembargadores agem da mesma forma. Alguns em benefício da acusação, outros em benefício da defesa. A venda de sentenças é pratica incomum, mas existente no sistema judiciário. Toda esta sujeira sempre foi varrida para baixo do tapete. Eis que surge o The Intercept, levanta o tapete e sacode a poeira.

Agora a conduta pouco republicana de Moro precisa ser contida o mais rapidamente possível sob o perigo de se alastrar para outros membros do judiciário. Moro precisa ser sacrificado em nome do sistema e isso é o que vai acontecer. Uma vez esclarecida a má conduta dele, Lula poderá sair livre pela porta da frente. Isto vai provar que o sistema funciona e que a sujeira pode, discretamente, voltar para baixo do tapete.

Afastar Moro não muda em nada como a justiça brasileira se comporta. Os mesmos anódinos que hoje sentam no STF e no STJ, lá vão permanecer. As mesmas decisões esdrúxulas vão continuar acontecendo e isto é apenas o reflexo do que acontece na base. Cidadãos da Senzala são condenados e penas de prisão por roubarem um chocolate e assaltantes do dinheiro público, membros da Casa Grande, saem livres desfilando suas tornozeleiras eletrônicas.

Foi dado a Moro um crédito que representa bem o poder que a elite do país dispõe. Cansados de perder eleições, desta vez eles entraram para ganhar. Para isso não fizeram economias e não conferiram diplomas nem pediram atestado de bons antecedentes para ninguém. Jogaram sujo, muito sujo. Contudo, venceram.

Quando a Lava a Jato teve início em 2009, ela teve a repercussão normal de um caso de polícia. Um doleiro era preso por lavagem de dinheiro. Mas em 2013, fica-se sabendo que o dinheiro lavado vinha de propinas da Petrobrás. Em 2014 o número de envolvidos e os valores manejados já eram um assombro. Dilma cumpria seu segundo ano do primeiro mandato com as leis anticorrupção já vigentes.

Enquanto se tratou de uma investigação puramente criminal, a Lava a Jato levou a prisão inúmeros malfeitores. Mas quando em 2015, ela se politizou definitivamente, a Casa Grande viu a sua oportunidade de voltar ao poder. Tinham tudo para vencer a eleição e colocar Aécio Neves na presidência, um filho da elite, um digno representante dos interesses dos Neoliberais, aquele que acabaria com a festa da ralé. Finalmente aeroportos deixariam de ser rodoviárias aéreas, fim das filas em restaurantes e o trabalhador voltaria para o lugar de onde nunca deveria ter saído.

Foi por muito pouco, mas Dilma venceu e o sonho virou pesadelo, e o pesadelo se transformou em uma obsessão. O PT precisava ser esmagado e Dilma tinha que de ser deposta. Um plano B foi armado. Um Impeachment destituiu a presidente eleita e o vice-presidente assumiu a nação. Temer era um deles, uma raposa política que sabia tratar de política como um balcão de mordomias. Agora era a hora de terminar de vez com qualquer pretensão de entregar o poder para um trabalhador novamente.

Não foi preciso procurar muito. Ele já estava lá. Só foi preciso convencer delatores a dizerem o que queriam escutar. Se delatassem conforme o script, poderiam deixar aquelas celas e voltar para suas mansões. Até parte do dinheiro roubado poderiam ficar com eles. E assim foi. Uma denúncia de pouca relevância em 2014 contra Lula começou a ser requentada. Leo Pinheiro, preso, passa a delatar qualquer coisa que os procuradores desejassem escutar. Aceita inclusive mudar seus depoimentos de maneira a ficarem coadunados com a necessidade de envolver Lula com o triplex.

Moro ia bem no projeto de poder da elite brasileira, mas já produzia disparates que logo eram saudados e encobertos pela mídia. Assim sendo, levar Lula para depoimento de coercitivo sem nenhuma razão legal e vazar o fato para a imprensa, foi visto como um pequeno exagero sem maiores consequências, uma vez que a população acompanhava tudo pela TV em êxtase.

Tivesse naquele momento o judiciário tomado uma atitude não contemplativa, mas menos tolerantes, talvez não tivessem ajudado a alimentar o monstro. Não o fazendo, foi fácil desprezar o vazamento dos grampos envolvendo não apenas conversas familiares de Lula, mas até mesmo aquelas envolvendo a Presidenta Dilma. Eles seguiam fazendo ouvidos moucos as denúncias contra Moro.

A grande mídia, abraçou a causa. A elite agora estava com a faca e o queijo na mão, com supremo, com tudo. Lula estava preso e encarcerado. Moro o herói nacional era um juiz medíocre útil e aquela rapaziada do MPF, perfeitos para o que estava por vir.

O processo eleitoral começou e logo se viu que o povo não aceitava Alckmin, o preferido deles. Almoedo, nem com camiseta do Itaú emplacava. Só restava uma chance e ela se chamava Bolsonaro. Não seria tarefa fácil emplacar um racista, homofóbico e misógino para presidente do Brasil. Só havia uma maneira: produção de notícias falsas, fake News como ficaram conhecidas. Empresas especializadas foram contratadas a peso de ouro e logo surtiram efeito. Os ataques ao PT fizeram Bolsonaro disparar nas pesquisas e deram a ele a vitória.

Com a ajuda das Fake News de um lado, e o afastamento de Lula da corrida presidencial, graças a Moro, o caminho da presidência foi conquistado com uma diferença de 10 milhões de votos no segundo turno. Agora era hora de cumprir promessa de campanha e Moro assume o Ministério da Justiça.

Mesmo ministro, ele não deixou de ser o que sempre foi. Sua medida anticrime não emplacou no Congresso. Fez vistas grossas para o decreto sobre armas, das medidas de alteração das regras de trânsito e para completar, gostaria de baixar o imposto sobre o cigarro.

Moro e Bolsonaro se merecem. Um vai cair logo, o outro é uma questão de tempo. Ambos são produto da nossa elite. O que esta elite fez para o Brasil não pode ser esquecido, tampouco perdoado.

A esperança sorriu

Que semana foi esta? O The Intercept na voz de seu cofundador, Glenn Greenwald, conseguiram trazer a luz tudo aquilo que já se sabia, mas ainda não se tinha provas. Ao contrário do Triplex, que havia muita convicção e prova nenhuma, agora se tem os diálogos que mostram de maneira inequívoca o conluio entre Moro e os procuradores da Lava a Jato para condenarem Lula.

Até domingo passado, o que já foi mostrado já serviu para mostrar o que nos aguarda. Se este tira-gosto fez tremer a República, imaginem o que ainda está por vir. Eu imagino e me delicio com isso. Nós que estamos na resistência desde o golpe, e que antes dele sofremos pela injustiça cometida contra Lula, pela primeira vez em muito tempo, podemos sorrir. É aquele sorriso de vitória, de deboche mesmo, de escárnio contra estes golpistas que venderam o país. A hora de vocês está chegando.

O senso de impunidade é o que derruba os corruptos. Chega um momento em que eles se acham tão poderosos, que a lei é para os outros. Vivem em mundo próprio, em uma realidade paralela. Nela são heróis dos simples mortais. Não aquele herói contra a injustiça, mas aquele que se diverte com a capacidade de ingenuidade do povo brasileiro. Aquele que depois de perceber da capacidade intelectual de uma massa que acredita que Lula era dono de um Triplex, compreende que qualquer coisa pode ser aceita como verdadeira, inclusive uma Mamadeira de Piroca.

Vou recordar que o golpe branco no Brasil foi orquestrado dentro do país e recebeu apoio logístico de fora. Dilma não era uma líder simpática, mas a crise não foi culpa dela. A crise começou no dia em que ela foi reeleita e Aécio Neves não aceitou a derrota. Este foi o momento em que entramos no caminho que nos levou até aqui.

Moro foi um achado neste caminho. Um juiz de primeira instância que chegou a Ministro da Justiça e tinha até domingo passado, cadeira garantida no STF. Não se enganem, o cara tem mérito. É incrível como um juiz medíocre como ele, foi aclamado por milhões de brasileiros sob a bandeira da luta contra a corrupção. Percebam que tudo já estava errado. Quem supostamente estava lutando contra a corrupção era o MPF. São eles que supostamente estavam levando a cabo as investigações juntamente com Polícia Federal. Eram eles que supostamente encontraram as provas que levaram corruptos para serem julgados por Moro, que por sua vez, diante delas os condenou. O que faria qualquer juiz que tivesse em mãos provas cabais de culpabilidade.

Tudo estava errado desde o início. O Impeachment da Dilma, todos sabiam que era uma injustiça. Até mesmo os que a derrubaram que de tão constrangidos, ao contrário de Collor, permitiram que ela mantivesse os seus direitos políticos. Mas não bastava calar Dilma, era preciso acabar com o PT e para acabar com o Partido dos Trabalhadores, somente se provando que Lula era corrupto.

Para tentar acabar com o PT, empurraram o país para uma crise econômica sem precedentes. Empresas Multinacionais Brasileiras que faziam concorrência com empresas estrangeiras foram acusadas de corrupção. Não seus donos, as empresas. Eles fizeram a festa das concorrentes levando as empresas brasileiras a bancarrota. O desemprego foi aumentando exponencialmente, chegando hoje a 13 milhões.

Diante do culpado pela crise, o PT, agora era hora de acabar com seu maior nome, o Presidente Lula. Primeiro foi tomada a convicta decisão de que ele era “ladrão”. Sua vida pregressa e corrente, assim como de seus familiares e muitos amigos, foi revirada de cima a baixo. Nada foi encontrado, ou quase nada. Um apartamento que virou um Triplex foi a única coisa que acharam que podia colar. Uma cota de compra de um apartamento com uma cooperativa que quebrou, levando uma construtora, mais tarde envolvida com corrupção, a assumir a obra. Dona Marisa visitou o imóvel, conheceu o que seria um Triplex, e com isso se abriu uma fresta.

A coisa era tão absurda que os próprios desembargadores acharam meio forçado. A ideia era dizer que o tal Triplex era do Lula como pagamento por contratos obtidos por aquela nova construtora junto a Petrobrás.

Sem qualquer prova de que o Triplex era de propriedade de Lula e tendo escrito no processo que não havia relação com os contratos da Petrobrás, ainda assim o condenaram. O tal Triplex era do Lula, Lula era “ladrão” e vai para a cadeia.

Então surge um problema, Lula vai participar das eleições e vai ganhar. Faltava o julgamento de segunda instância no TRF-4. O que seria impossível para o cidadão comum que aguarda anos pela justiça, o tribunal não só adiantou o julgamento para impedir que ele participasse da eleição, como aumentou a pena na medida exata que levaria um cidadão com mais de 70 anos a cumprir sua pena em regime fechado. Somente a leitura do processo demandaria mais tempo para um julgamento real, mas a realidade era outra.

Tenho muita esperança que a troca de favores envolvendo o TRF-4 apareça nas reportagens do The Intercept num futuro próximo. O que eles fizeram não pode ficar impune.

Eu sei que o judiciário foi cúmplice do golpe. Não vou entrar no mérito do que os levou a compactuarem com isso. Jucá já disse com todas as letras, “com Supremo, com tudo”. Acontece que esta casta vive de aparências. Quando vestem aquela toga, se outorgam poderes divinos. Uma mesma lei serve para absolver um amigo, e condenar um inimigo. Tudo é relativo.

Acontece que Moro desnudou a justiça ao fazer justiça com as próprias mãos apertadas com as de Dellagnol. Ele trouxe a luz, o que já se sabia, acontecia nas sombras. E ao fazê-lo ofendeu a todos os juízes do Brasil. Aquela auréola de imparcialidade, de escutar as partes no processo, de fazer justiça de acordo com a lei, tinha de ser preservada. Ela é a base do sistema jurídico, pelo menos no papel. Agora a porca torceu o rabo.

Eu analisei profissionalmente o esclarecimento de Deltan Dallgnol e o resultado pode ser lido clicando aqui. O resultado fala por si mesmo.

A informação comprovada de que um juiz e um promotor se acomunaram para condenar uma pessoa sem provas, foi ironicamente, a melhor notícia que a resistência democrática poderia receber. Antes a gente dizia que havia um Brasil antes do golpe, e outro depois. Hoje podemos dizer que havia um Brasil antes das denúncias e outro que vai surgir depois delas. Finalmente a esperança acordou e sorriu para nós. Obrigado The Intercept.