Da Impossibilidade de Tolerar o Intolerável

Eu, que de paciência pouco me sirvo e da esperança já fiz penhor em tempos mais ingênuos, pergunto-me, e não é uma pergunta retórica dessas que se fazem apenas para enfeitar o papel, mas uma daquelas que, quando surgem, vêm com o gosto amargo do fel e o peso de uma verdade que se arrasta atrás de si como corrente mal quebrada, pergunto-me, repito, em que momento aceitamos — aceitamos, veja bem, e não finjamos que fomos apenas arrastados pela maré — que a miséria moral deixasse de ser vergonha e passasse a ser projeto de governo, que a barbárie se sentasse à mesa e ainda fosse servida primeiro, enquanto os que deveriam levantar-se em protesto preferiram ajustar a cadeira, fingir que não era com eles, olhar para o lado como quem contempla a paisagem de um abismo sem perceber que já está com um pé lá dentro.

E digo mais, porque já que começamos a caminhar sobre este fio de navalha, vamos até o fim: o nome há de ser dito, não porque mereça, mas porque escondê-lo seria fazer-lhe o favor de preservar a decência que nunca teve, Itamar Ben-Gvir, esse é o nome que já deveria causar engulho antes mesmo de ser pronunciado, mas que, no entanto, circula com a desenvoltura de um velho conhecido nos salões onde se distribuem decretos e se legisla a desgraça como quem organiza o cardápio de um banquete fúnebre.

E não me venham, peço encarecidamente, com a história de que tudo é mais complexo, de que há nuances a considerar, porque a complexidade é o álibi dos covardes, e se há algo que este sujeito jamais foi, é complexo, porque o seu caminho é uma linha reta e suja, traçada desde a juventude quando, sem o menor pudor e com a arrogância própria dos que não têm sequer a grandeza da vergonha, arrancou o emblema do carro de Yitzhak Rabin e o ergueu como troféu diante das câmeras, numa exibição pública de um ódio que, poucos dias depois, se materializaria em tiros disparados por mãos que também penduravam na parede de casa o retrato do carniceiro de Hebron, Baruch Goldstein, retrato esse que, não por coincidência, decorava a sala do próprio Ben-Gvir, uma sala que jamais conheceu o incômodo de um pensamento decente.

E eu, que de espectador já me cansei, e que de silêncio não faço profissão, pergunto-lhe diretamente, sim, a você que me lê com esse leve desconforto que tenta disfarçar sob a desculpa de uma análise equilibrada, em que ponto exatamente você decidiu que era possível ser tolerante com o intolerável, e mais ainda, que era possível manter-se neutro enquanto o chão à sua volta arde em chamas acesas não por acaso, mas por mãos sabidas e intencionais, como aquelas que, entre um ajuste ridículo de paletó e uma cuspida de intolerância bem ensaiada, entregam ao mundo a mais repulsiva das certezas: a de que ainda há quem prefira o fogo ao esforço de construir pontes.

E porque não basta apenas apontar o dedo sem colocar o espelho, pergunto-lhe sem qualquer vontade de ser ameno, você, justamente você, que talvez tenha hesitado em condenar, que se calou em reuniões de família, que preferiu mudar de assunto nas rodas de amigos, que justificou a ascensão do monstro com aquela frase miserável de que “as coisas não são bem assim”, o que pensa agora, diante desta fogueira que já lambe as paredes da sua própria casa? Acha mesmo que se salvará do calor apenas porque, até agora, limitou-se a aquecer as mãos à distância?

Não há mais espaço, e nunca houve de fato, para essa farsa piedosa da neutralidade, porque a neutralidade, quando o intolerante já ocupa o centro do palco, é apenas a forma mais covarde de tomar partido, é sentar-se entre os bárbaros e acreditar que, por não levantar a taça no brinde à destruição, já se está absolvido da culpa.

Pois saiba, e saiba bem, que a história que vier, porque sempre vem, escreverá com a frieza dos que já perderam a paciência até para a compaixão, que entre os incendiários e os que simplesmente observaram, não há distinção moral, apenas diferença no método.

E no fim, quando as cinzas assentarem, e que ninguém duvide de que elas virão, não restará sequer a sombra para protegê-lo da pergunta que ressoará em sua cabeça como um martelo final: onde você estava enquanto o intolerante incendiava tudo? E pior ainda, por que diabos você nada fez?

E esta, lamento informar-lhe, será a pergunta sem resposta. E que esse silêncio, ao menos, lhe sirva de penitência.

O Silêncio Estilhaçado

Empatia é palavra suave para um ato árduo: sentir a dor alheia como se fosse sua. Não é fácil abrir o coração à tristeza do próximo; requer uma generosidade de alma que só floresce nas horas mais sombrias. Em Israel, no Dia do Memorial – o Yom Hazikaron – essa empatia se torna um rito coletivo. Cada israelense carrega a memória de alguém que a guerra levou. Quando a sirene toca, o país inteiro se imobiliza em dois minutos de silêncio. E não há ali desconhecidos: todos choram juntos. Confesso que essa cena, a cada ano, ainda me emociona e quase devolve minha fé na união pelo sofrimento partilhado.

Mas a realidade faz questão de testar essa fé. Na noite do Yom Hazikaron de 2025, em Ra’anana, nem mesmo a solenidade daquela data escapou à barbárie. Uma cerimônia em memória de israelenses e palestinos mortos – realizada em uma sinagoga reformista – foi atacada por um grupo de extremistas. Pedras e insultos voaram pelas janelas, estilhaçando vidraças e calando preces. Famílias inteiras tiveram de sair sob escolta da polícia, com o medo nos olhos. Houve feridos, houve pânico, houve sacrilégio naquele recinto dedicado à lembrança dos caídos. Por instantes terríveis, judeus fugiram de judeus dentro de uma sinagoga — algo impensável até que se tornou realidade.

Sim, existem pessoas más. Gente que age com intenção, método e frieza. Os agressores se julgam patriotas, mas não passam de profanadores do luto alheio. Gritaram “traidores” aos que rezavam, sem enxergar que a verdadeira traição à pátria é semear o terror entre os próprios irmãos. Não há simetria possível aqui: quem atira pedras contra compatriotas em pranto não defende valor algum — apenas conspurca a memória que a nação deveria honrar. Justificar tamanha agressão seria corromper ainda mais o sentido de decência. Nenhum pretexto, desculpa ou contexto atenua o que se viu.

Fico a pensar no significado desse abismo moral. Se nem mesmo nossos mortos conseguem mais unir os vivos, que futuro espera este país?

Pensem comigo…

Pensem comigo…

A recente decisão do Tribunal Internacional de Justiça em Haia, em resposta às acusações da África do Sul de genocídio cometido por Israel em Gaza, toca profundamente em questões que são vitais para todos nós que acompanhamos os desenvolvimentos políticos e éticos no cenário global. Como alguém que fez aliyah para Israel, observo de perto e com preocupação as ações do governo israelense, especialmente sob a liderança de Benjamin Netanyahu e sua coalizão de extrema-direita.

Netanyahu, um líder hábil, mas frequentemente polarizador, guia nossa nação por águas complexas de diplomacia internacional e direitos humanos. Suas políticas, principalmente em relação a Gaza e aos Territórios Ocupados, são frequentemente criticadas por agravar as tensões e alimentar ciclos de violência. O Tribunal Internacional de Justiça, ao se abster de acusar Israel de genocídio, não exime nosso Estado, mas emite uma advertência séria. Para mim, isso destaca a necessidade urgente de uma abordagem mais equilibrada e humana, reconhecendo a complexidade do conflito e enfatizando a importância dos direitos humanos e da lei internacional.

A questão central aqui não é se Israel cometeu genocídio, mas como as ações do nosso governo sob a liderança de Netanyahu são percebidas e impactam o cenário internacional. As políticas agressivas de Netanyahu, especialmente em Gaza e nos Territórios Ocupados, e as declarações inflamatórias de alguns membros do governo exacerbam as tensões e mancham a imagem de Israel no mundo. A decisão do tribunal reflete um crescente descontentamento internacional com a abordagem de Netanyahu, vista por muitos como desproporcional e insensível às complexidades e ao sofrimento humano inerente ao conflito israelense-palestino.

Vejo a decisão do Tribunal Internacional de Justiça não apenas como uma questão legal, mas como um reflexo do isolamento crescente de Israel sob a liderança de Netanyahu. As ações e políticas do nosso governo, especialmente em Gaza e nos Territórios Ocupados, parecem contraproducentes, na minha opinião, minando os esforços para uma solução pacífica e justa do conflito. A ironia é que, ao tentar fortalecer a posição de Israel, Netanyahu pode estar inadvertidamente enfraquecendo-a.

Chego à conclusão de que a decisão é um momento crucial e um chamado à reflexão e reconsideração das políticas de Israel sob Netanyahu. É uma oportunidade para nosso governo reavaliar sua abordagem e buscar um caminho que proteja os interesses de segurança, mas também esteja alinhado com os princípios de direitos humanos e justiça. O desafio para Netanyahu e sua coalizão é encontrar esse equilíbrio, entre a segurança nacional e as obrigações éticas e legais.

Pessoalmente, questiono se é realista esperar empatia de um grupo que consistentemente demonstra posturas extremas e insensíveis. Acreditar na capacidade de um governo de extrema-direita de abraçar a empatia e a compreensão humanitária parece ingênuo e potencialmente perigoso, arriscando o futuro de nossa nação e seu povo.

Essa reflexão me leva à conclusão inescapável da necessidade de eleições. Eleições que permitam ao povo de Israel expressar sua voz, reavaliar o caminho que nossa nação está seguindo e, talvez, redirecionar o curso da nossa história. As eleições emergem não só como um mecanismo democrático de mudança, mas como um imperativo ético, uma resposta à urgência de um momento crítico.

Enfrentando a realidade de um governo que tem mostrado uma tendência para posturas extremas e insensíveis, vejo a esperança e o futuro nas mãos do povo de Israel, na sua capacidade de escolher um novo caminho através do voto. Acredito que, por meio desse processo democrático, nossa nação pode aspirar a um futuro onde a empatia, a justiça e a paz sejam não apenas ideais distantes, mas realidades tangíveis no palco mundial.

Arquivo pessoal Foto de Abigail Fidler

Gilboa Israel

O real é o aparente do aparente. – Sartre

O real é o aparente do aparente. – Sartre

Numa terra marcada por narrativas tão profundas quanto suas raízes milenares, os nomes carregam ecos de uma história que desafia o tempo. Majd, Mohammad Khaled e Abu Hassan, palestinos de Wadi as-Seeq, trazem à tona uma verdade que se estende para além do que se vê — uma verdade que Israel deve encarar com olhos abertos e coração disposto.

A imagem dos três homens, algemados e vendados, é uma representação crua de um conflito que não pode ser simplificado ou ignorado. É aqui que o conceito do aparente do aparente se revela; uma ideia explorada por filósofos como Sartre, que nos convida a olhar além das aparências imediatas para descobrir as estruturas subjacentes que moldam a realidade.

Neste quadro, o aparente é a imagem capturada — a violência, a subjugação, a opressão. Mas o aparente do aparente é a história por trás da imagem, as forças políticas, sociais e históricas que levaram a essa realidade. É a narrativa não contada, a dinâmica do poder, o legado de uma terra disputada e o custo humano de um conflito prolongado.

Israel, ao se confrontar com esta imagem, não pode se limitar a interpretá-la como um episódio isolado. Deve reconhecer que cada ação tomada em seu nome carrega o peso de um passado que não pode ser desenredado do presente. Os atos de violência perpetrados em nome da segurança nacional ecoam a complexidade de uma luta que é ao mesmo tempo atual e ancestral.

Essa luta, contudo, não deve ser um pretexto para a desumanização. O aparente do aparente nos ensina que a verdadeira luta é contra a indiferença, contra a normalização da injustiça e contra a resignação à violência como status quo.

A sociedade israelense, portanto, é chamada a uma responsabilidade que vai além do reconhecimento superficial dos eventos. É um chamado para desvendar as camadas de significado e agir com base em uma compreensão mais profunda da realidade compartilhada.

Cada israelense deve agora olhar para dentro e fora, enfrentar a multiplicidade de narrativas e escolher a que defende a vida e a dignidade acima de tudo. A história de Majd, Mohammad Khaled e Abu Hassan é um ponto de inflexão, uma oportunidade para rejeitar a indiferença e abraçar a empatia.

Os eventos de Wadi as-Seeq não são meros pontos de dados na cronologia de um conflito; são reflexos da alma de uma nação. Eles questionam a integridade de uma sociedade e seu compromisso com os valores que professa.

A segurança, um direito inalienável, quando construída sobre o sofrimento dos outros, torna-se uma fortaleza de areia, destinada a desmoronar sob o peso da justiça. O aparente do aparente nos mostra que a segurança verdadeira é inseparável da justiça e da equidade.

É o momento para a sociedade israelense de se tornar a autora de uma nova narrativa, uma que honre tanto a segurança quanto a humanidade. Uma narrativa que reconheça que as ações tomadas hoje escrevem o roteiro do amanhã.

A responsabilidade de mudar o curso da história é grande, mas começa com o reconhecimento de que o aparente do aparente é um reflexo da nossa própria condição. É um desafio para olhar além das imagens e perceber as vidas que são afetadas, as histórias que são interrompidas e os sonhos que são adiados.

Cada ato de violência contra um palestino é uma cicatriz na consciência coletiva de Israel, uma lembrança de que a guerra e a ocupação têm rostos humanos, têm consequências que se estendem muito além dos campos de batalha.

A foto de Majd, Mohammad Khaled e Abu Hassan, com seus olhos cobertos, não deve ser vista apenas como o retrato de um momento de subjugação, mas como um convite a refletir sobre o que não é visto — sobre as histórias, as esperanças e as dores que permanecem ocultas.

A socIedade israelense tem a oportunidade de responder a esse convite com ação, de mostrar que é capaz de transcender o ciclo de violência e retribuição, de construir uma realidade baseada no respeito mútuo e na compreensão.

O aparente do aparente é um lembrete de que a verdadeira paz não é uma trégua temporária, mas uma transformação profunda que começa no coração de cada indivíduo e se estende pela sociedade inteira.

Israel deve, portanto, escolher o caminho da empatia e da coragem, o caminho que reconhece a humanidade em cada pessoa, independentemente das linhas traçadas no mapa ou das narrativas construídas ao redor de antigos conflitos.

Neste ponto da história, a sociedade israelense deve escrever um novo capítulo, um onde o aparente do aparente se torne um guia para ações que honrem a vida e a liberdade, que criem pontes em vez de muros, que curam em vez de ferir.

A escolha é clara e o momento é agora. Majd, Mohammad Khaled e Abu Hassan não são apenas nomes; são um chamado à consciência, um apelo à ação, um teste da nossa vontade de sermos verdadeiramente humanos.

Certamente, muitos apontarão para os ataques perpetrados pelo Hamas como uma justificativa para as ações de Israel; a realidade de uma guerra não pode ser negada. A dor e o sofrimento causados pelos ataques no Sul de Israel  são reais e geram uma resposta visceral e imediata. A guerra, com sua cruel lógica de ação e reação, de ataque e defesa, é uma realidade que Israel enfrenta com coragem e determinação.

Mas a questão que permanece é a seguinte: qual a verdadeira conexão entre os três palestinos amordaçados em Wadi as-Seeq e os combates em Gaza? Não é uma questão de simples identificação de inimigo, mas de entender as complexas dinâmicas que governam as interações humanas em tempos de conflito. O tratamento dispensado a Majd, Mohammad Khaled e Abu Hassan, afastado dos campos de batalha em Gaza, levanta questões profundas sobre a natureza da justiça e da humanidade.

O vínculo entre as ações no front de Gaza e as experiências desses três homens em territórios ocupados é tênue e, para muitos, inexistente. Os que lutam em Gaza enfrentam o inimigo em combate direto, enquanto a situação em Wadi as-Seeq fala de um conflito diferente, um conflito de direitos, identidades e a busca por dignidade.

Reconhecer essa distinção é vital. É um reconhecimento de que, enquanto Israel tem o direito de se defender, também tem a responsabilidade de garantir que a justiça e a humanidade prevaleçam em todas as suas ações. Os que conhecem a diferença e escolhem fechar os olhos tornam-se coniventes com atos que não refletem os valores sobre os quais uma sociedade justa deve ser construída.

Portanto, enquanto a guerra contra o Hamas em Gaza é uma realidade amarga, não pode ser usada para desviar a atenção das violações dos direitos humanos que ocorrem fora daquele contexto imediato de combate. Israel, como sociedade, deve manter-se firme não apenas contra os ataques externos, mas também contra as injustiças internas que ameaçam seu tecido moral.

No final das contas, a história julgará as ações de hoje não apenas pelas batalhas ganhas ou perdidas, mas pelo compromisso inabalável com a justiça e a humanidade. Este é o desafio que Israel enfrenta — ser um bastião de força e segurança, ao mesmo tempo em que mantém a integridade e a compaixão que formam o núcleo de sua identidade.

“Estamos condenados a ser livres” de Jean-Paul Sartre

Em cada amanhecer, há um ritual silencioso de resignação. Nosso despertar não é ditado pelo canto dos pássaros ou pelo acariciar do sol, mas pelo grito estridente de um relógio que marca não o tempo, mas nossa servidão. Nos vestimos não para nós, mas para o mundo, um mundo que nos avalia mais pelo que fazemos do que pelo que somos. A roupa de trabalho, como uma armadura, nos protege e ao mesmo tempo nos aprisiona na expectativa alheia.
As ruas, cheias de rostos anônimos, são veias por onde corre o sangue frio do capitalismo. Cada pessoa, uma célula pulsante de desejo e necessidade, movendo-se não por vontade, mas por necessidade. O trabalho, essa entidade onipresente, nos define. Somos o que fazemos, dizem eles. Mas o que resta de nós quando o fazer é apenas um meio para sobreviver? Esta realidade segue-nos até os cubículos de trabalho.
Sentamos, olhando para telas que piscam com promessas de eficiência e sucesso. Mas em cada clique, uma parte de nossa alma se perde, dissipada na infinita rede de obrigações e expectativas. Esta perda contínua da essência de quem somos nos impulsiona a um ritmo de vida onde tudo é acelerado.
Comemos rápido, vivemos rápido, amamos rápido. O tempo, essa moeda preciosa, é gasto não em nossos sonhos, mas em metas e objetivos que nos foram impostos. Nestes momentos fugazes, percebemos a finitude da vida.
Retornamos aos nossos lares ao final do dia, cansados, desgastados, consumidos. Nosso amor, nossos filhos, nossos sonhos – todos esperando por um momento que nunca chega.
E então, em um breve instante de silêncio, nos perguntamos: para quem vivemos? Para nós ou para o sistema que nos consome?
O dinheiro, esse deus moderno, rege nossas vidas com mão de ferro. Ele compra nosso tempo, nossa energia, nossa paixão – e nos deixa vazios, famintos por algo mais.
Nos vendemos em pedaços, hora após hora, dia após dia. E o que recebemos em troca? O suficiente para continuar existindo, mas nunca o suficiente para realmente viver.
Continuamos, presos em um ciclo de consumo e trabalho, onde o único vencedor é o sistema que nos domina.
Nossos momentos de felicidade são breves, fugazes, como estrelas cadentes em uma noite nublada. Vemos, desejamos, mas antes que possamos alcançar, desaparecem.
Em nosso íntimo, sabemos que há algo errado, algo profundamente injusto nesse mundo que construímos. Mas o medo da mudança, do desconhecido, nos mantém em nossas cadeias.
E então, enquanto a lua se ergue e as estrelas brilham com indiferença, sussurramos para nós mesmos uma promessa de rebelião, de busca por um caminho diferente – um caminho que nos levará não apenas à sobrevivência, mas à vida.
Chega um momento em nossa jornada, quando a verdade se revela em sua forma mais crua: somos passageiros temporários nesta terra. A descoberta de que nossa vida é uma chama fugaz no vasto universo acende uma sede urgente de viver, uma fome de experiências que sabemos ser maior do que o tempo que nos resta.
Confrontamos uma realidade solene: somos apenas um sopro no vento da história, uma onda que se quebra na imensidão do oceano do tempo. O mundo, com sua indiferença imemorial, seguirá seu curso, inalterado pela nossa ausência. Essa percepção de nossa insignificância é um despertar, um chamado para buscar significado e propósito nos dias que nos são concedidos, não para deixar uma marca no mundo, mas para encontrar paz e realização em nossa própria existência.
Isso a midia não mostra

Isso a midia não mostra

No meio do tumulto, onde o horizonte é embaçado pela fumaça do conflito, desenrola-se uma história—silenciosamente, mas com inegável força. Não é um conto do campo de batalha, mas do tribunal, onde o eco do martelo esculpe um legado nos anais da democracia. Este é o testamento de Israel, uma saga de justiça que desafia o tumulto da guerra.

O solo do Vale do Jordão, rico e fértil, tornou-se o pergaminho em que uma narrativa de retidão é inscrita. Por décadas, esta terra sussurrou sobre deslocamento, seus verdadeiros herdeiros postos de lado. No entanto, em uma exibição de fortaleza legal, o Tribunal Superior lançou luz sobre este capítulo sombreado, reconhecendo o agravo dos despossuídos.

Mesmo no estrondo clamoroso de um mundo dividido, o judiciário de Israel se mantém como um baluarte dos ideais democráticos. Mantém a lei com uma mão que não é abalada pelo medo ou inclinada pela conveniência. Esta é a essência da governança, a própria força vital de uma sociedade que valoriza a justiça acima de tudo.

Mesmo enquanto a nação lamenta a perda de vidas inocentes nas mãos do extremismo, ela não vacila em sua bússola moral. A decisão do tribunal é um lembrete pungente de que, em Israel, a humanidade não é uma vítima do conflito. É, em vez disso, o próprio emblema de seu ethos.

A decisão fala em tons suaves, mas carrega a força de uma tempestade. É uma reivindicação para aqueles que observaram de longe, ansiando pela terra que outrora foi deles. O tribunal, em sua sabedoria, não apenas julgou a terra—ele restaurou a dignidade.

Os colonos, que trabalharam na terra por anos, agora enfrentam os ventos da mudança. Seu trabalho, entrelaçado com a história da terra, torna-se uma nota de rodapé complexa nesta odisséia legal. O tribunal reconhece seu labor, mas reafirma uma verdade que se mantém resoluta contra a passagem do tempo: a justiça não conhece compromisso.

Ao dar voz aos proprietários palestinos, o Tribunal Superior gravou uma linha de justiça na pedra da jurisprudência. A decisão, um mosaico de perspicácia legal e clareza moral, reflete o espírito inabalável de uma nação que, mesmo em sua juventude, mostra a maturidade dos tempos.

O julgamento do tribunal transcende o mero ato de julgar. É uma declaração de que, mesmo em meio às tempestades furiosas de inimizade, a democracia de Israel permanece inabalável. Este é o triunfo silencioso, aquele que pode não encontrar seu eco no anfiteatro global, mas ressoa profundamente no coração da justiça.

Por sete anos, os colonos se prepararão para a partida, um período que fala de consideração e humanidade mesmo no ato de retificação. É um período de graça, uma ponte entre o presente e um futuro onde os direitos são restaurados e os erros passados são reconhecidos.

Esta decisão pode não criar ondas nas esferas das mídias sociais ou capturar o olhar volúvel da imprensa mundial, mas seu significado é monumental. É um testemunho da força das instituições de Israel, de sua capacidade de se elevar acima da disputa e defender a causa dos justos.

Neste julgamento, as palavras da juíza Dafna Barak-Erez ressoam com a sabedoria dos sábios. Sua crítica à supervisão do estado é tanto uma reprimenda quanto um grito de guerra—um chamado para a responsabilidade e integridade dentro dos mecanismos de governança.

A narrativa do Vale do Jordão agora é entrelaçada com um novo sentido de esperança. Para os proprietários palestinos, a decisão do tribunal é um farol que os guia de volta aos seus campos ancestrais, prometendo um futuro onde a justiça floresce como as tâmaras outrora cultivadas neste solo.

Enquanto Israel lida com o espectro do terrorismo, ele não renuncia ao seu compromisso com a equidade. A decisão do tribunal é um lembrete ao mundo de que aqui, nesta terra de contrastes e resiliência, a justiça não é uma vítima, mas uma pedra angular.

A crônica deste julgamento será escrita nos anais da história não com estardalhaço, mas com a mão firme da integridade. É um testemunho de uma democracia que, mesmo nos tempos mais difíceis, se destaca como um paradigma de justiça e dignidade humana.

E assim, a história do julgamento do Tribunal Superior de Israel é uma de determinação silenciosa e espírito indomável. É uma narrativa que pode não capturar manchetes, mas captura algo muito maior— a essência da incansável busca de uma nação por justiça e democracia.