Quando Nosso Luto Vale Mais do que o Deles

Momento do tiro

“Os homens não diferem muito sobre o que chamarão de males; diferem enormemente sobre quais males considerarão desculpáveis.” Quando C.S. Lewis escreveu essa frase, talvez não imaginasse que estava desenhando o mapa completo do colapso moral de Israel. O problema nunca foi nossa incapacidade de reconhecer o mal. Todos sabemos, com uma clareza quase instintiva, o que é crueldade, como se parece a injustiça, o que significa destruir uma vida. Essa clareza é universal, atravessa culturas, idiomas e fronteiras. E, ainda assim, desaparece como fumaça no vento no momento decisivo — quando precisamos escolher entre condenar ou perdoar. E a variável que decide nunca é a natureza do ato, nunca a intensidade do sofrimento causado, nunca qualquer medida objetiva de proporcionalidade entre crime e julgamento. A variável é sempre, incansavelmente, a mesma: quem cometeu o ato. Se é um dos nossos ou um dos deles. Se carrega nossa bandeira ou a bandeira do inimigo. Se a dor deles nos toca ou nos deixa indiferentes.

Há uma aritmética perversa nessa geometria moral. A mesma bala que atravessa uma criança muda de nome conforme a direção do cano: terrorismo quando vem de um lado, dano colateral quando vem do outro. A mesma casa reduzida a escombros é barbárie quando é a nossa, operação cirúrgica necessária quando é a deles. A mesma voz que se rompe sobre o corpo de uma criança é tragédia humanitária quando grita na nossa língua, estatística aceitável quando clama em uma língua que preferimos não entender. E nós, confortavelmente distantes do sangue e das ruínas, fazemos essas distinções com a solenidade de quem acredita exercer julgamento moral genuíno, quando na verdade estamos apenas defendendo nossa tribo, confirmando nossos vieses, escolhendo a versão da história que nos permite dormir. Nossos padrões éticos não funcionam como princípios universais — funcionam como espelhos que refletem apenas o que já queremos ver, o que já acreditamos, o que confirma nosso lugar no mundo. A justiça deixa de ser farol e se torna reflexo.

Trinta anos atrás, dois tiros nas costas de Rabin mataram mais do que um homem. Mataram uma possibilidade — a esperança frágil de que ainda poderíamos ser um país decente, moralmente íntegro, em que a paz pudesse pesar mais do que a vitória, em que a justiça pudesse transcender sangue, solo e tribo. E aqui não há abstração, não há poesia suavizando o que a história fez daquela noite: aqueles que celebraram o assassinato de um judeu por outro judeu — de um primeiro-ministro por um homem que dizia servir ao mesmo povo — não desapareceram na vergonha ou no exílio. Não se arrependeram. Esperaram. Gritaram. Marcharam. E no fim foram recompensados não com desonra, mas com poder. Algumas das mesmas vozes que um dia incitaram e santificaram o assassinato hoje ocupam o governo, moldando as leis e o espírito do país, trabalhando diligentemente para garantir que tudo aquilo que Rabin mais temia tenha se tornado nossa realidade cotidiana. Se isso não prova o quão ansiosamente relativizamos o mal quando nos convém, o quão prontamente absolvemos a violência quando a mão que aperta o gatilho é da nossa própria tribo, então nada provará.

O que veio depois não foi acidente da história, nem desvio inexplicável de algum curso natural das coisas. Foi escolha. Nossa escolha, escolha coletiva, repetida dia após dia em cada conversa em que encontramos contexto para nossa violência, mas negamos qualquer compreensão à violência alheia; em cada julgamento em que nossa dor é tragédia shakespeariana enquanto a deles é mera circunstância geopolítica; em cada momento em que nossos mortos merecem luto público e os deles merecem, no máximo, uma nota de rodapé. As pessoas me escrevem insistindo que os palestinos são os únicos culpados pelo fracasso do processo de paz, como se a culpa fosse uma moeda única a ser depositada inteira em um só bolso, como se a inocência absoluta existisse de um lado e a culpa absoluta do outro, como se a história fosse uma fábula moral e não a tragédia complexa que realmente é, na qual todos carregamos feridas e facas. A verdade é muito mais brutal: todos somos responsáveis — eu, você e eles.

Isso não é diluição conveniente da culpa até ela se dissolver no abstrato. É o reconhecimento de que a injustiça opera como um sistema ao qual cada um de nós contribui segurando um fio diferente da teia. O homem que aperta o gatilho segura um fio. Aquele que forneceu a arma segura outro. Aquele que construiu o discurso que tornou o tiro imaginável segura um terceiro. O que aplaudiu depois, o que se calou estrategicamente, o que desviou o olhar no momento crítico, o que elaborou a narrativa que transforma assassinato em necessidade, massacre em autodefesa, crueldade em pragmatismo — cada um segura um fio. E segura também quem depositou seu voto naqueles que elogiaram o assassinato, e todos aqueles que elegeram os que celebraram ou santificaram o crime, entregando deliberadamente poder às mãos de pessoas que transformaram um assassinato em missão. Juntos, todos nós tecemos a rede na qual nos aprisionamos, repetindo os mesmos gestos e justificativas numa dança que já dura décadas e promete durar séculos, até que tenhamos coragem de soltar nossas pontas da corda e deixar a estrutura desabar.

Quando a linha entre condenação e perdão é traçada não pelo ato, mas pelo autor, a justiça como ideia universal simplesmente colapsa. O que resta não é ética, mas código tribal. O que persiste não é busca da verdade, mas defesa da nossa verdade. Julgamos não atos, mas identidades. Medimos não consequências, mas bandeiras. Pesamos não dor, mas proximidade com nossa mesa de jantar. E, ao fazê-lo, revelamos algo profundamente inquietante sobre nós mesmos: nossos princípios morais servem menos como bússolas apontando para algum norte ético objetivo e mais como instrumentos de confirmação de preconceitos, armas de guerra tribal disfarçadas de justiça, ferramentas não de revelação, mas de proteção contra verdades inconvenientes.

Duas tentações se erguem simetricamente diante dessa constatação. Uma é o cinismo niilista: se todos são parciais, se todo julgamento é reflexo de interesse, se não existe observador neutro, então não existe justiça verdadeira e podemos abandonar o teatro cansado da moralidade. A outra é o fanatismo: a pureza absoluta do próprio lado, a justiça inquestionável da própria causa, onde toda dúvida vira traição e toda crítica é ajuda ao inimigo. Ambas são refúgios confortáveis que nos poupam do trabalho mais difícil — olhar no espelho e admitir que o rosto refletido faz parte do problema, não é observador inocente da tragédia alheia. Mas há um terceiro caminho, estreito e sem corrimão: manter a consciência radical de nossa falibilidade moral sem abandonar a busca pela justiça. Reconhecer que julgamos através de lentes distorcidas não nos libera de julgar — nos obriga a julgar sabendo disso, a aplicar a nós mesmos o mesmo padrão implacável que aplicamos aos outros, a dizer em voz alta que aquilo que fizemos foi errado mesmo quando há contexto, mesmo quando há provocação, mesmo quando admitir dói como ferida aberta.

Isso exige algo que vai contra cada instinto tribal enterrado em nossa medula: pesar nossos mortos e os deles na mesma balança. Chorar por suas mães com a mesma visceralidade com que choramos pelas nossas. Ver suas crianças como igualmente dignas de futuro quanto as nossas. Renunciar ao conforto entorpecente da vitimização perpétua — essa narrativa na qual estamos sempre respondendo e nunca iniciando, sempre nos defendendo e nunca atacando, sempre vítimas da história e nunca seus agentes. Exige que deixemos de medir a gravidade do mal pela identidade de quem o comete e comecemos a medi-lo apenas pelo mal em si, pela vida destruída, pelo mundo que desaparece a cada respiração interrompida.

Os dois tiros de trinta anos atrás ecoam não porque foram dois projéteis entrando em um corpo numa noite específica. Ecoam porque foram o ápice de mil escolhas anteriores e o anúncio de todas as escolhas que faríamos depois — a decisão de dividir o mundo entre nós e eles, entre os que merecem contexto e os que merecem somente julgamento, entre os que têm direito ao luto e os que têm direito apenas à análise estratégica. E continuam ecoando porque seguimos fazendo essas mesmas escolhas todos os dias, a cada manhã em que acordamos, cada vez que nossa indignação tem CEP específico, cada vez que o nome do crime muda quando muda o nome do criminoso, cada vez que produzimos justificativas elaboradas para nossa crueldade que jamais aceitaríamos da crueldade alheia.

A possibilidade que morreu com Rabin não morreu apenas por duas balas. Morreu pela nossa decisão coletiva, consciente ou não, de acreditar que algumas balas são mais desculpáveis que outras. Que alguns corpos pesam mais. Que nosso luto merece ritual e o deles merece contexto. E essa decisão, multiplicada por milhões de pessoas, em milhões de conversas e julgamentos cotidianos, é o que de fato mata a decência. Os extremistas que apertam gatilhos são apenas os dedos mais visíveis de uma mão que todos formamos. Fornecemos as premissas, assentamos os tijolos do clima moral no qual matar se torna pensável desde que seja sempre o outro a morrer. Amarramos nossos próprios fios na rede que aperta ao redor de todos nós.

Se a linha entre condenação e perdão é traçada pela identidade do autor e não pelo ato, a justiça não é apenas frágil — ela é fictícia. Nosso código ético vira mecanismo de autoengano coletivo, espelho polido para nos devolver apenas a imagem que preferimos. E se isso é verdade — e os trinta anos desde aqueles dois tiros sugerem que é — então a pergunta deixa de ser filosófica e se torna urgente, dolorosa e pessoal: teremos coragem de quebrar esses espelhos? De parar de buscar neles confirmação e começar a buscar verdade? De admitir que enquanto medirmos o mal pelo autor e não pelo dano, nunca teremos justiça, apenas sua ilusão — e essa ilusão é o mal mais perigoso de todos, porque se justifica infinitamente, se multiplica eternamente e mata sem jamais precisar confrontar o próprio rosto?

Somos todos responsáveis — eu, você e eles. E até que consigamos repetir isso olhando diretamente para o espelho, sem suavizar o olhar, sem buscar absolvição conveniente no reflexo, os dois tiros continuarão ecoando através das gerações, matando repetidamente a mesma possibilidade frágil de sermos, enfim, um povo decente e moralmente íntegro. A justiça continuará sendo espelho que devolve apenas o que queremos ver, nunca o farol que guia através da escuridão que nós mesmos, escolha após escolha, dia após dia, continuamos criando.

Quando a Fé Busca Refúgio na Má-Fé


Deixa eu te perguntar uma coisa: quando você escolhe ignorar algo para conseguir focar em outra coisa, isso é sabedoria ou fuga? A resposta não é simples, e é exatamente aí que mora o problema dos ultraortodoxos que protestaram hoje em Jerusalém.
Sydney Smith disse uma vez que precisamos ter coragem de ignorar muitas coisas para não terminarmos ignorantes de tudo. Faz sentido, não? Vivemos em um mundo com infinitamente mais informação do que qualquer cérebro humano consegue processar. Então você precisa escolher. O físico ignora teoria literária, o poeta ignora mecânica quântica, e tudo bem. Ninguém consegue saber tudo.
Mas aqui está a diferença crucial: uma coisa é mapear o território do conhecimento humano, reconhecer seus próprios limites e, então, fazer escolhas estratégicas sobre onde investir sua atenção. Algo completamente diferente é se recusar a olhar o mapa inteiro, construir paredes altíssimas ao redor de um único livro e chamar isso de profundidade.
Os haredim fazem isso. Eles não escolheram profundidade ao invés de amplitude depois de conhecer ambas. Eles escolheram nunca conhecer amplitude nenhuma. E existe uma hipocrisia brutal aí.
Veja: eles afirmam que estudar Torá e Talmud dia e noite é mais importante do que defender Israel militarmente. Dizem que suas orações protegem o país mais do que soldados com fuzis. Certo, vamos aceitar esse argumento por um instante. Se fosse verdade — se eles realmente acreditassem nisso — seriam como monges budistas ou eremitas cristãos do deserto. Autossuficientes. Isolados. Sem pedir nada a ninguém.
Mas não é assim. Eles vivem dentro do Estado moderno de Israel. Usam estradas construídas por engenheiros seculares. Vão a hospitais dirigidos por médicos que estudaram biologia evolutiva. Recebem subsídios do governo financiados por impostos pagos por pessoas que trabalham, e não por quem passa o dia estudando textos religiosos. E quando alguém sugere que talvez — só talvez — eles devessem contribuir defendendo o Estado que os protege e os sustenta, tomam as ruas gritando perseguição.
Percebe a contradição? Querem viver numa bolha pré-moderna, mas sustentada pela modernidade que desprezam. Querem os benefícios da cidadania sem suas obrigações. E não por pacifismo universal — quakers e menonitas também recusam armas, mas como princípio aplicado a todos. Os haredim recusam por excepcionalidade: nós somos especiais, não precisamos, mas vocês sim, e aliás continuem nos financiando enquanto estudamos.
Agora vamos ao argumento filosófico, porque essa hipocrisia política é apenas um sintoma de algo maior.
Heidegger criticou a modernidade por transformar tudo em recurso disponível, peças intercambiáveis dentro de um sistema técnico. A universidade moderna, com suas especializações infinitas, produz expertise sem sabedoria, técnica sem propósito. O físico nuclear não conversa com o filósofo, que não conversa com o poeta. Todos sabem muito sobre quase nada e quase nada sobre o todo. Existe uma nostalgia legítima pela paideia clássica, pela formação que produzia pessoas capazes de pensar sobre tudo.
Os haredim parecem responder a isso. Parecem dizer: vocês se fragmentaram, nós nos concentramos. Vocês sabem um pouco de tudo e nada profundamente; nós sabemos tudo sobre uma coisa. Vocês estão perdidos no caos do conhecimento moderno; nós temos um centro.
Mas essa resposta é falsa. Não é concentração — é clausura. Não é profundidade — é tautologia. Eles não estudam o Talmud para entender o mundo através dele — estudam o Talmud para estudar o Talmud. Hermenêutica circular. O texto explica o texto que explica o texto. Nenhuma realidade externa pode tocar esse circuito fechado.
Pense assim: Wittgenstein disse que os limites da sua linguagem são os limites do seu mundo. Os haredim literalmente limitam a linguagem dos seus filhos. Nada de matemática avançada, nada de ciências naturais, nada de história crítica, nada de filosofia secular. E quando você faz isso, não está escolhendo um mundo menor, porém mais rico — está escolhendo apenas um mundo menor.
E sabe o que mais me incomoda? Isso não é tradição judaica autêntica. A grande tradição rabínica nunca teve medo de perguntas difíceis. Maimônides dialogava com Aristóteles. O Talmud é exercício de argumentação dialética, onde nada é aceito sem questionamento feroz. Os sábios debatiam tudo. A yeshivá original era arena intelectual, não bunker.
Os haredim de hoje pegaram essa tradição viva, dialética, arriscada — e mataram. Mumificaram. Transformaram perguntas em respostas prontas, busca em posse, abertura em fechamento. E chamam isso de fidelidade. Mas mumificar não é preservar — é matar e fingir que está vivo.
O protesto de hoje revela o que está acontecendo: pânico. Medo profundo de que, se esses jovens forem expostos ao mundo real — pelo serviço militar, pelo contato com o mundo secular, pela responsabilidade cívica — todo o edifício de certezas desabe. E provavelmente vai.
E sabe de uma coisa? Deve desabar. Porque uma fé que só sobrevive em condições laboratoriais, isolada da realidade, não é fé profunda — é dogma frágil. Uma tradição que precisa de censura total, isolamento absoluto e ameaça de ostracismo para se perpetuar não é sabedoria milenar — é coerção vestida de santidade.
Voltando à pergunta inicial: existe coragem em ignorar algumas coisas para focar em outras? Sim. Mas isso pressupõe que você poderia ter escolhido diferente. Que conheceu as alternativas e decidiu conscientemente onde investir sua atenção limitada.
Quando você se recusa a aprender algo porque isso ameaçaria suas certezas, isso não é curadoria intelectual — é covardia. E quando constrói instituições inteiras para evitar que seus filhos sejam expostos a ideias incômodas, você não está transmitindo sabedoria — está fabricando fragilidade institucionalizada.
Os haredim não demonstram coragem de ignorar — demonstram medo de saber. E há uma diferença enorme aí.
Então, quando você vê centenas de milhares nas ruas defendendo o direito de não servir, não se deixe enganar pela retórica de profundidade espiritual. Você está vendo uma comunidade dedicando recursos enormes para manter ignorância planejada. Gente que estreitou a atenção não para enxergar melhor, mas para não enxergar nada. E que ainda exige que você pague por esse privilégio.
Isso não é religião — é má-fé. E a má-fé, como Sartre sabia muito bem, é a mentira que você conta para si mesmo — a mais perigosa de todas, porque mentiroso e enganado são a mesma pessoa.

(mais…)

O oprimido que se tornou opressor

Escrevo este texto enquanto observo, em choque,  meu país Israel se destruir moralmente. Sou sionista e humanista, alguém que passou a vida estudando história, mergulhando nos padrões que se repetem através dos séculos, nas revoluções que prometem liberdade e nas estruturas de poder que emergem de suas cinzas.

E é dessa imersão na história humana que carrego comigo uma verdade fundamental: quando, no curso do desenvolvimento humano, as instituições existentes se provam inadequadas às necessidades do ser humano, quando servem apenas para escravizar, roubar e oprimir a humanidade, o povo tem o direito inalienável de se rebelar contra essas instituições e derrubá-las.

Isso não é um princípio abstrato para mim. Não é apenas teoria política ou filosofia distante. É uma verdade visceral, forjada tanto nos livros de história que devorei quanto na história do meu próprio povo. Vi esse padrão se repetir da Revolução Francesa à descolonização africana, das revoltas de escravos na Antiguidade aos movimentos de direitos civis do século XX. E vivi isso como judeu, como descendente de um povo que precisou invocar exatamente esse direito para sobreviver.

Nós, judeus, conhecemos intimamente o que significa viver sob instituições que nos escravizaram, roubaram e oprimiram. Conhecemos os guetos, as leis que nos tratavam como menos que humanos, os pogroms, a Shoah. Conhecemos o sabor amargo da dignidade negada, da humanidade questionada, da existência ameaçada simplesmente por existir.

E nos rebelamos. Claro que nos rebelamos.

Lutamos por nossa dignidade, por nosso direito de existir, por um lugar onde pudéssemos ser humanos completos, não tolerados, não subjugados, mas livres. E conquistamos isso. Israel existe porque nos recusamos a aceitar que as instituições do mundo nos condenassem à extinção. O sionismo foi nossa rebelião contra séculos de opressão, nossa afirmação de que merecíamos autodeterminação, segurança, um futuro.

Isso foi um ato moral. Profundamente moral.

Mas aqui está a pergunta que me assombra, a pergunta que meu estudo da história torna impossível ignorar: quando derrubamos as instituições que nos oprimiam, quando construímos as nossas próprias, conseguimos permanecer fiéis àquele impulso moral original? Ou, sem perceber, sem querer, reproduzimos as mesmas estruturas de dominação que buscamos destruir?

A história me ensinou algo devastador: quase toda revolução, quase todo movimento de libertação corre esse risco. Os jacobinos que derrubaram a monarquia francesa criaram o Terror. Os bolcheviques que libertaram os servos russos criaram o Gulag. Os revolucionários que expulsaram colonizadores frequentemente se tornaram os novos opressores de minorias dentro de suas próprias fronteiras.

É o padrão mais trágico e mais comum da experiência humana: o oprimido que se torna opressor.

E, quando olho para meu país hoje, quando vejo Israel pelas lentes dessa história que tanto estudei, vejo algo que me parte o coração.

Vejo um povo que conhece intimamente a dor da opressão agora controlando outro povo. Vejo muros que lembram guetos, embora digamos que são diferentes. Vejo postos de controle que regulam o movimento, que transformam a simples ação de ir ao trabalho ou visitar a família em uma humilhação diária. Vejo crianças que crescem sob ocupação, assim como nossos avós cresceram sob ocupação, embora insistamos que não é a mesma coisa.

E talvez não seja exatamente a mesma coisa. Mas é perto o suficiente para me fazer perguntar: como chegamos aqui?

Como um povo que gritou “nunca mais” se encontra criando as condições em que outro povo grita a mesma coisa? Como justificamos para nós mesmos que nossa segurança exige a indignidade deles? Como nos convencemos de que os muros que construímos são defensivos, enquanto os muros construídos contra nós eram opressivos?

A resposta, e isso é doloroso admitir, é que toda revolução corre o risco de reproduzir o que destruiu, não por maldade necessariamente, não por hipocrisia consciente, mas porque o poder corrói com uma sutileza insidiosa. Começamos dizendo que precisamos de poder para nos proteger. E isso é verdade. Realmente precisávamos. Realmente precisamos.

Mas o poder não para aí. O poder se expande. O poder se justifica. O poder encontra sempre mais razões para ser exercido, sempre mais ameaças que devem ser neutralizadas, sempre mais controles que devem ser implementados para garantir a segurança.

E, antes que percebamos, não estamos mais apenas nos defendendo. Estamos dominando.

E, quando alguém aponta isso, quando alguém diz que estamos reproduzindo estruturas de opressão, nos indignamos. Como ousam comparar? Como ousam equiparar nossa luta legítima pela sobrevivência com a opressão que sofremos? Não entendem que somos diferentes? Não entendem que nossas circunstâncias são únicas?

Talvez sejam. Talvez cada situação seja única. Mas isso não muda a verdade fundamental: um povo ocupado, controlado, humilhado diariamente, privado de autodeterminação, é um povo cuja dignidade está sendo negada. E eu, como judeu, como alguém cujo povo conhece essa dor intimamente, não posso fingir que não a vejo.

O paradoxo é ainda mais profundo: se reconheço isso, se admito que Israel, em sua forma atual, reproduz estruturas de dominação, o que faço? Apoio a derrubada dessas estruturas? Apoio aqueles que se rebelam contra elas?

E então me deparo com outra verdade inconveniente: aqueles que se rebelam contra a dominação israelense não são todos santos morais. Alguns querem genuinamente libertação e dignidade. Outros querem simplesmente inverter a dominação, nos colocar de volta sob seu controle, talvez até nos eliminar completamente.

Como, então, separo a rebelião legítima pela dignidade da violência que busca apenas inverter a opressão? Como apoio o direito de um povo de se rebelar contra instituições que o oprimem quando sei que alguns dos que se rebelam me destruiriam se pudessem?

Esta é a complexidade moral em que vivo. Não tenho respostas fáceis. Não tenho slogans simples. Não posso simplesmente dizer que Israel está certo ou que Israel está errado. Não posso simplesmente rotular a resistência palestina como inteiramente legítima ou inteiramente terrorismo. A realidade é mais nuançada, mais dolorosa, mais resistente a certezas confortáveis.

O que posso dizer é isto: toda revolução corre o risco de reproduzir o que destruiu. Isso não é uma possibilidade remota, é quase uma inevitabilidade. O oprimido que se torna opressor é um dos padrões mais trágicos e mais comuns da história humana.

Mas reconhecer esse risco não significa aceitá-lo como fatalidade. Significa permanecer vigilante. Significa questionar constantemente se nossas ações, justificadas como defesa, não se tornaram dominação. Significa ouvir quando os outros nos dizem que estamos reproduzindo o que sofremos, mesmo quando dói ouvir, mesmo quando nossa primeira reação é negar.

Significa lembrar que o direito de se rebelar contra instituições opressivas não pertence apenas a nós, pertence a todos os povos, inclusive àqueles que agora vivem sob nosso controle.

E aqui está a verdade mais difícil: se realmente acreditamos que as pessoas têm o direito eterno de se rebelar contra instituições que as escravizam, roubam e oprimem, então precisamos admitir que os palestinos têm esse direito também, não o direito de nos destruir, nem o direito de nos negar a existência, mas o direito de resistir à ocupação, de lutar por sua dignidade, de derrubar as estruturas que os controlam.

Reconhecer esse direito não nega nosso direito de existir, de nos defender, de ter um lugar seguro no mundo. Mas exige que façamos uma distinção crucial entre defender nossa existência e dominar a deles.

Israel pode existir sem ocupação. Israel pode ser seguro sem transformar outro povo em súditos. Israel pode honrar sua própria história de opressão sem reproduzi-la contra outros.

Mas isso exige algo extraordinariamente difícil. Exige que abramos mão do poder. Exige que confiemos, ao menos em parte, em um futuro em que a segurança venha não do controle total, mas do acordo mútuo. Exige que arrisquemos.

E talvez isso seja pedir demais. Talvez, depois de tudo que sofremos, seja irrealista esperar que abramos mão de qualquer vantagem, de qualquer controle, de qualquer poder que nos mantenha seguros.

Mas, se não fizermos isso, se nos apegarmos ao poder como única garantia de segurança, então já perdemos algo fundamental. Perdemos a pureza moral daquela rebelião original. Perdemos o direito de afirmar que nossa revolução foi diferente, que, quando derrubamos as instituições que nos oprimiam, não criamos novas para oprimir outros.

Então eu te pergunto, não como provocação, mas como alguém genuinamente dividido: como permanecemos fiéis ao impulso moral da rebelião enquanto exercemos o poder que conquistamos? Como garantimos que as instituições que construímos para nos proteger não se tornem instrumentos de dominação? Como quebramos o ciclo em que o oprimido se torna opressor?

Não tenho resposta completa. Mas sei onde começa: começa em reconhecer que o perigo existe. Começa em admitir que nós, como qualquer povo que conquistou poder, corremos o risco de reproduzir o que destruímos. Começa em ouvir quando outros nos dizem que sua dignidade está sendo negada, mesmo quando isso dói, mesmo quando desafia nossa narrativa de vítimas que se defendem.

A menos que escolhamos resistir a essa reprodução conscientemente e dia após dia, a revolução inevitavelmente se desgastará e reproduzirá os velhos instrumentos de dominação.

O Autor do Próprio Mito

Meus amigos,

há um limite para o tempo que uma nação pode viver dentro de uma história contada por um só homem.

Benjamin Netanyahu não governa — ele narra.

E já faz muito tempo que ele deixou de contar a história de Israel. Passou a contar a sua própria.

Cada frase calculada, cada vídeo editado, cada declaração sobre um cessar-fogo “que sempre fez parte do plano” é uma tentativa de transformar a realidade em roteiro, a dor em trama, a crise em cena. Ele acredita que, se controlar as palavras, poderá controlar o destino. Mas o destino de um povo não se escreve em um teleprompter.

Quando ele diz que tudo está sob controle, o que realmente quer dizer é que ninguém mais pode fazer perguntas.

Quando chama o caos de plano, a improvisação de estratégia, o atraso de paciência — está tirando de vocês o direito de interpretar a própria história.

E uma nação sem sua própria voz não é uma nação livre.

Israel nasceu da pluralidade.

Nasceu do choque de ideias, da divergência honesta, da conversa entre mundos diferentes — religiosos e seculares, judeus e árabes, orientais e ocidentais.

Essa mistura, essa bela cacofonia, foi o que tornou este lugar único.

E agora, tudo isso corre o risco de se reduzir a um único monólogo, repetido noite após noite, enquanto a vida real acontece fora da câmera.

A verdade é que o povo israelense não precisa de um narrador.

Precisa de um futuro.

E o futuro não se escreve com frases prontas — constrói-se com coragem.

Coragem para admitir erros.

Coragem para entender que força não é parecer invencível, mas permanecer de pé mesmo quando o chão treme sob os pés.

Coragem para aceitar que o mundo mudou — e que a segurança de Israel não pode repousar apenas sobre muros, mas sobre princípios: justiça, empatia e dignidade.

Vocês sabem disso.

Vocês sentem isso todos os dias — quando levam seus filhos à escola, quando vão ao mercado, quando esperam alguém que amam voltar do exército.

No fundo, o que todos desejam é simples: viver em paz, com decência, com verdade.

Mas a verdade exige escuta.

E ninguém pode escutar enquanto ocupa todo o espaço da conversa.

O poder não deveria ser a voz mais alta da sala, e sim aquela capaz de fazer uma pausa — para ouvir o que o povo tem a dizer.

Israel precisa recuperar o “nós”.

O “nós” que sobreviveu a desertos e guerras.

O “nós” que resistiu mesmo quando o mundo virou o rosto.

O “nós” que fez florescer uma democracia frágil em meio ao medo e à dúvida.

Esse “nós” está se perdendo — não porque o inimigo é forte, mas porque esquecemos como ouvir uns aos outros.

Não é a primeira vez que a história tenta se repetir. Mas todas as vezes em que Israel escolheu recomeçar, escolheu a esperança em vez do cinismo. A verdade em vez do medo. O diálogo em vez do grito.

E é disso que este país precisa agora.

Não de um narrador eterno, mas de um novo capítulo escrito por muitas mãos.

Um capítulo em que a força não venha da arrogância, mas da compaixão.

Em que a segurança não seja o silêncio do outro, mas a paz que começa quando dois povos podem respirar o mesmo ar sem medo.

Israel não precisa de um autor.

Precisa de um coro.

Precisa de um povo que se lembre de que a história desta terra sempre foi maior do que qualquer líder.

A verdadeira grandeza de Israel nunca esteve em quem fala, mas em quem ouve.

E é ouvindo que toda nova história começa.

O Puro e o Impuro

Não há quem não conheça a dor; alguns lhe dão um nome como se fosse um parente distante que aparece apenas nos dias de luto, outros preferem o silêncio porque temem que o simples ato de falar já convoque desgraças que ainda não chegaram mas que, como todas as desgraças, têm um pé sempre à espreita no limiar; e não nos enganemos, a vida não distribui sofrimento com equidade nem com justiça, a uns concede a cicatriz breve que se esconde sob a manga, a outros marca o corpo inteiro como uma carta escrita em ferro e fogo que ninguém pediu para receber, e aqui começa o problema, porque filósofos e pregadores igualmente desejaram encontrar na dor um propósito didático, como se cada lágrima fosse obrigada a converter-se em sabedoria e cada golpe do destino em lição de moral, esquecendo que há dores que nada ensinam, apenas esmagam, e há sofrimentos que não amadurecem ninguém; apenas apodrecem por dentro aqueles que os carregam, e que ninguém diga que essa putrefação oculta é a mesma coisa que um amadurecimento silencioso, porque o silêncio dos mortos nada tem a ver com a paciência dos vivos, e ainda assim, em meio à tragédia, haverá sempre alguém a proclamar que a dor os tornou mais fortes, mais generosos, mais humanos, como se a bondade só pudesse nascer do açoite e não da ternura, como se a grandeza dependesse da ferida e não da dádiva, e pior ainda, repetido muitas vezes, esse refrão transforma-se em obrigação cruel: impõe ao ferido o dever de agradecer pela ferida, ao humilhado o dever de confessar que a humilhação o melhorou, e nesse ponto o veneno da romantização infiltra-se no sangue, porque a exceção se confunde com a regra, a rara vitória do sobrevivente com o destino obrigatório de todos os vencidos, e então esquecemos os que ficaram pelo caminho, os que não conseguiram erguer-se da queda, os que sucumbiram sob o peso de um sofrimento que não libertou mas apenas destruiu, e como não cabem na narrativa edificante são apagados da memória como se nunca tivessem existido, e é contra essa falsificação da experiência que me levanto, sem negar que alguns encontram na dor um caminho inesperado de doçura, mas recusando transformar essa possibilidade em lei universal, porque nada poderia ser mais injusto do que exigir flores de quem só recebeu cinzas, e se é verdade que até mesmo o fruto atingido pelo granizo pode, contra toda expectativa, tornar-se mais saboroso, também é verdade que muitos apodrecem sem que ninguém lhes preste homenagem, e assim, se me é permitido terminar com uma imagem menos cruel, digo apenas que sou uma pêra que sobreviveu à tempestade de granizo, e quando não apodreço torno-me mais doce do que as outras apesar das cicatrizes que carrego, e digo isto prendendo estas linhas à francesa Sidonie-Gabrielle Colette, autora de Le Pur et l’Impur, de quem tomo o título, pois foi ela quem primeiro soube dizer o que importa, e eu repito ao meu modo, ferido e inteiro, mais doce por ter resistido, e como o ano agora se renova, que este Rosh Hashaná abra um espaço em que a empatia — pela sua própria persistência silenciosa — vença todas as formas de sofrimento.

Eu não sou o seu judeu.

Deixa eu te dizer uma coisa. Somos pouco menos de dezesseis milhões em um mundo com mais de oito bilhões. Eu fiz a conta e ela arde: 0,2%. Quase um sussurro. Junte quinhentas e vinte pessoas numa praça e deixe alguém gritar contra judeus; talvez uma — no máximo uma — seja de fato judia. O resto julgará um rosto que nunca encontrou, uma ausência promovida a evidência, uma cadeira vazia tratada como prova.

O ódio aprende a viver do que não vê. Em 2025 ele voltou com roupa nova e o mesmo cheiro velho: paredes marcadas ao amanhecer, portas arrombadas “para dar o recado”, ameaças disfarçadas de opinião, listas de “preocupações” que soam como listas de alvos. O coro se alimenta do vazio e chama o vazio de verdade.

Eu não sou o judeu que você esboça para acertar uma conta que não é minha. Não sou curiosidade de sala de estar. Não sou personagem achatado de série que confunde roteiro com história. Não vou vestir máscara para certificar coalizões nem para enfeitar causas. Minha identidade não é um selo kasher para uso político; minha fé não bate ponto em cartório de rezas. Ser judeu, para mim, é chão e fôlego — o que firma meus passos e enche meus pulmões.

Há um absurdo com o qual tive de conviver. Sou brasileiro e judeu, e desde 1975 convivo com o voto do meu país na ONU chamando o sionismo de racismo. Carreguei essa equação torta — sionista e brasileiro ao mesmo tempo — como se a pertença viesse com um veredito anexado. Poucos anos depois, fiz dezoito e fui convocado a servir à mesma ditadura que deu aquele voto. Pedi dispensa por dois motivos simples: eu passaria um ano em Israel e não serviria a um regime de farda. O tenente leu meu nome, ergueu os olhos e perguntou, afiado como lâmina: “Se houver guerra entre o Brasil e Israel, de que lado você fica?”. Respondi na hora: “Do lado que vencer”. A única resposta que desmontava o teatro; a pergunta queria confissão, não lealdade.

Eis o paradoxo para quem fica do lado de fora da porta: mesmo com a guerra, eu me sinto mais seguro em Israel. Eu não apoio esta guerra. Eu me oponho a ela e aos excessos cometidos em meu nome; quero que termine. Mas aqui eu não caminho com um tribunal invisível nos calcanhares. Aqui eu não sou julgado por ser judeu; aqui eu sou julgado por ser de esquerda. Embora a maioria das pessoas aqui seja judia, vivemos sob o jugo de um governo de vocação fascista — e o fascismo, onde se instala, precisa de ódio para se justificar, recicla o antissemitismo antigo e fabrica inimigos novos.

Eu tenho um lado. Ter lado não me rouba a capacidade de análise; obriga-me a exercê-la. Quando critico Israel, não é por ser um país judeu; critico Israel porque hoje é governado por quem flerta com o fascismo. Meu adversário é o fascismo, onde quer que se sente.

É a outra face da mesma moeda. Do lado de fora, sou condenado por ser judeu; do lado de dentro, por ser dissidente. O metal é o mesmo; só muda o cunho: reduzir gente a emblema, converter consciência em culpa automática, rebatizar o desacordo de traição. A moeda gira e, onde quer que caia, para quem vive de rótulos eu já nasci errado.

A responsabilidade tem endereço. Ela recai sobre o governo de Israel e sobre os políticos que escolheram a escalada. Não recai sobre os judeus espalhados pelo mundo — gente, não um monólito. Eu me oponho a quem governa o meu país quando escolhe a brutalidade, e permaneço judeu ao fazê-lo. Se você confunde pertença com obediência, bateu na porta errada. Não sou o selo da sua raiva, nem o álibi da sua consciência inquieta. Não sou o seu boneco.

O que eu guardo é a memória. A língua. Os meus mortos. E um juramento simples: não me calar. Recuso papéis distribuídos por conveniência. Não preciso que me expliquem quem eu sou. A pergunta circula pela sala, o eco fica. O resto é você — e o silêncio que decide o que fazer com isto.

Eu não sou o seu judeu.