por Richard Klein | 27 jun, 2020 | Brasil, Comportamento, Crônica, Literatura, Livro
Quando garotos chegavam à puberdade, depois de passarem pela introdução visual e manual trancados no quarto ou no banheiro, seguiam a tradição de serem iniciados no sexo ou por uma doméstica ou por uma profissional. De uma hora para outra, parecia que todos já haviam transado menos eu e os amigos mais chegados. Como nenhum de nós tinha empregadas gostosas e disponíveis, o jeito seria recorrer às profissionais. Dada a nossa limitação orçamentária, todos os dedos apontavam para a mesma direção: a famosa Casa Rosa.
Em famílias locais tradicionais, os pais levavam os filhos para o evento ou pelo menos patrocinavam a excursão. Esse certamente não seria o meu caso. Com Rafael já na casa dos 75 anos, sexo não era provavelmente praticado muito menos discutido em casa, nem mesmo em piadas. Para ele, a libertinagem era uma coisa para domésticas e favelados promíscuos. Nunca aceitei isso, mas não pude deixar de assimilar parte da ideia de que o sexo era algo intrinsecamente sujo e que deveria ser ocultado da sociedade educada. Mesmo assim, já enjoado da minha mão, não via a hora de ser iniciado. Com isso em mente, eu e meus amigos ficamos meses juntando dinheiro para uma ida à Casa Rosa.
Finalmente o grande dia chegou. Numa tarde de sábado, marcamos de nos encontrar após o almoço para ir a nossa expedição erótica. Só que na última hora, quando estava preparando para sair recebi um telefonema do Maurício, meu melhor amigo e comparsa mor nessa aventura. “O Roberto me ligou dizendo que vai ao cinema hoje à tarde.”
“Para o cinema?! Como?! Já não tava tudo marcado!?”
“Pois é, ele disse que tinha esquecido. Que babaca né?”
“Esqueceu o caralho!! O veadinho amarelou!”, respondi com raiva. “E agora? Estou com a grana aqui. Como é que a gente faz? Vamo lá de qualquer maneira!”
“Olha, falei com meu pai e ele disse que só me deixa ir se for com o Roberto.” Maurício era medroso.
“Foda-se teu pai, Maurício! A gente pega um táxi e vai lá. Como é que ele vai saber? Se perguntar sobre a grana, fala que a gente foi no cinema e depois você me emprestou também. Sei lá, inventa!”
“Não dá, Rique. Já falei com o Jaime, com o Mário e com o Leo e ninguém vai. Se você está com tanta vontade, vai sozinho.”
A resposta mesquinha matou o papo. Não tinha coragem para ir pela primeira vez a uma zona sozinho. Mais tarde fiquei sabendo que até o pai do Roberto tinha ficado zangado com ele.
Algumas semanas mais tarde, consegui convencer os outros a ir sem um “guia”. Os pais deles liberaram e partimos para a Casa Rosa. Pegamos um táxi da casa do Léo em Copacabana sem saber ao certo como chegar lá, mas quando o motorista escutou “Rua Alice”, sabia exatamente onde era e o propósito daquela corrida.
Na ida, ficamos discutindo se deveríamos mentir sobre a nossa idade. Jaime, um cara mais ajuizado, porém cagão, falou: “Não sei se vão deixar menores de idade entrar lá, é melhor a gente dizer que tem dezoito anos.”
“Está maluco?! Você acha que a gente tem cara de dezoito anos? Olha só para a cara do Léo? Dezoito anos nem fodendo!”
“Tá bom, a gente diz que tem dezessete.”
Maurício, que gostava de ser o conciliador da turma, concordou. “Dezessete é um bom número, é quase dezoito e vai trazer mais respeito com as putas.”
Eu, que já estava me perguntando o que é que estava fazendo no táxi com aqueles panacas, intercedi. “Cara, se a gente falar que tem dezessete anos, a vamos parecer mais retardados do que a gente já parece. Vamos fazer o seguinte, cada um fala a idade que quiser.”
“Mas e se não deixarem a gente entrar?”
“Você já viu puteiro recusar cliente?”
A gente já estava em Laranjeiras. O motorista, que tinha ficado quieto durante a discussão mas que devia estar rindo por dentro, subiu uma ladeira e parou em frente a um casarão.
“É aqui.”
Depois de fazer a “vaquinha” para pagar o taxista, a gente saiu. A Rua Alice era bonita, arborizada e tranquila. O casarão chamava atenção com seu glamour desbotado de épocas gloriosas de um prostibulo de luxo e ficava atrás de um muro. Os dois eram de fato pintados de rosa. Assim que o táxi partiu, percebemos um carro de polícia estacionado logo depois da curva, o que fez com que o Jaime quisesse desistir.
“Quer ficar calmo, Jaime? Puta não morde!”
Quando estávamos para tocar a campainha, a porta se abriu e um grupo de policiais, uns ainda ajeitando o uniforme, saiu e nos cumprimentou com sorrisos cúmplices. Uma velhinha com cara de mafiosa apareceu logo atrás, deu boas vindas, nos levou até a recepção e desapareceu para dentro do casarão. Fomos sentar ao redor de uma mesa de madeira perto de uma pista de dança vazia e ficamos esperando. O silêncio nervoso era quebrado pelo show de samba que estava passando numa TV preto e branco. Ao lado havia luzes piscantes que subiam uma escadaria em cima de um balcão. Nele havia duas tabelas de preços penduradas: uma para bebidas e outra para programas.
Uma a uma, as garotas vieram descendo para a matinê. Nem de longe elas lembravam as beldades inacessíveis que enchiam nossa boca de água nas praias e nas revistas, mas pelo menos eram mais jovens e mais bonitas que nossas empregadas. A madame veio logo atrás, apontou para nós e disse:
“Está na hora do leite das crianças.”
Estavamos tão apavorados que elas nos escolheram, não o inverso. Quase sem dizer nada, nos levaram de volta para seus quartos. Quando a ação estava para começar, ouvi alguém bater o joelho contra a cama. A julgar pela reação, dava para sentir que tinha doído. Deu para ouvir a voz do Maurício gemendo através da parede fina de madeira e ele pulando de dor. Deu vontade de rir, mas, como todos, estava tenso demais para saber o que fazer.
Minha garota era mais bonita, branca, magra e nova que as outras e tentou me acalmar. “É a tua primeira vez aqui?”
Pensei em mentir, mas respondi que sim com o coração disparado.
Ela continuou. “Você me lembra um menino que esteve aqui na semana passada.”
Enquanto falava ela foi tirando a blusa e depois o sutiã e exibindo seus seios. Talvez pela minha cara hipnotizada ela deu uma risada. “Fica calmo, pode tirar a roupa também.”
Meio desconfortável, fui me despindo enquanto admirava seu corpo já nu. A situação me fez lembrar as cenas de abertura desengonçadas dos filmes pornôs. Quando estava pronto, me recostei no travesseiro e ela veio se deitar do meu lado. O colchão era duro e áspero.
“Meu nome é Lu e o teu”
“Rique.”
“Que nome bonito. É Rique de Henrique?”
“Não, de Richard.”
“Nossa, nome de lorde!” Ela deu outra risada e, vendo que ainda estava sem jeito, olhou para os seios depois para mim e me convidou: “Pode tocar se quiser.”
Nunca tinha visto peitos nus ao vivo antes, muito menos tocado. Coloquei as mãos e gostei. Depois, tomei coragem e comecei a explorar seu corpo, sem fazer a festa que tinha planejado, mas curtindo mais do que tinha imaginado. Sua pele nua era macia, morna e muito gostosa. Me sentindo ousado, coloquei minha boca nos bicos, ela pareceu gostar e depois de uma sessão mais intensa de bolinagem, já estava pronto. Ela se posicionou, me olhou nos olhos e disse.
“Vem, menino!”
O ato foi rápido e decepcionante, mas pelo menos contou como minha iniciação de “amante latino”. Não fui o primeiro a aparecer no andar de baixo, o que me fez sentir melhor. Depois de todos pagarem, descemos a ladeira tirando sarro do joelho e do orgulho dolorido do Maurício.
“E aí Mauricio? Qual era o tamanho do pau com que ela te bateu? “
…
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por Richard Klein | 20 jun, 2020 | Brasil, Comportamento, Crônica, Literatura, Livro
Capítulo 10
“... naturalmente minha mãe dizia,
Ele é uma criança não entende nada,
Por dentro eu ria satisfeito e mudo
Eu era um homem que entendia tudo.”
Erasmo Carlos – Não Entendo Nada
Segunda geração de Brasil, bem mais novo que Rafael, Daniel, o pai do meu amigo Avi, não teve a mesma sorte com a queda da bolsa de valores. Junto com a manada, perdeu muito dinheiro e talvez por isso morassem em um apartamento abafado em Copacabana.
Gostava dele. Por trás das feições duras, bigode espesso e olhar frio, havia uma personalidade simpática e generosa. Ele estimulava a amizade com seu filho gorducho por me considerar uma influência saudável. Mesmo sendo magro que nem um bicho-pau, em vez de passar o dia todo assistindo televisão e me entupindo de doces, jogava bola direto e ia para a praia fazer bodyboard.
Por isso, nossa amizade girava em torno de esportes. Nos fins de semana ou ele vinha comigo ao clube, ou íamos praticar alguma atividade ao ar livre com Daniel. As opções eram caminhadas na Floresta da Tijuca ou piqueniques em praias distantes. A tarde, como compensação pelos esforços matutinos, acabávamos em um dos muitos parques de diversões que viviam abrindo e logo depois fechando em terrenos baldios nos arredores e pela Zona Sul afora.
Depois que descobrimos o skate, nosso lugar favorito passou a ser o Aterro do Flamengo. Esse era um parque enorme ao longo da Baía de Guanabara, construído durante o governo Juscelino Kubitschek como uma forma de compensar o Rio de Janeiro por ter perdido seu status de capital nacional. A despeito do custo gigantesco de aterrar a baía e da decoração do melhor paisagista do país, Burle Marx, o que a cidade acabou recebendo foi um tremendo monumento à chatice.
Apesar de seus vários campos de futebol viverem cheios, as “atrações” do parque enorme incluíam o Museu de Arte Moderna que raramente tinha trabalhos empolgantes para um adolescente, uma área para se voar aeromodelos de brinquedo, um lago para barcos em miniatura, um memorial para os soldados brasileiros mortos na 2ª Guerra Mundial, playgrounds de concreto para crianças e um avião antigo para pessoas que nunca tinha entrado em um entrarem para ver como é que era. Mesmo assim, o cimento liso do seu passeio público e com várias rampas suaves eram ideais para skatistas iniciantes.
Nós dois tínhamos o mesmo skate: o horroroso Torlay, fabricado no Brasil. Era uma tábua dura de madeira com dois pares de rodas de borracha vagabunda presos embaixo. Eles quebravam toda hora e faziam a gente passar vergonha quando apareciam outros meninos andando em skates importados com rodas de poliuretano semitransparentes e com shapes de fibra de vidro. Além disso, para falar a verdade, a gente era ruim demais, típicos nerds tentando tirar onda. Os caras da gangue da minha rua – que de alguma forma também arrumavam skates importados – davam de mil na gente, isso sem falar dos californianos que apareciam na revista Skateboarder realizando manobras impressionantes em piscinas vazias.
Um dia, talvez para levantar nosso moral, o pai do Avi levou sua câmera Super 8 para filmar nossas performances. Eu nunca tinha visto um aparelho daqueles antes na vida e, percebendo minha curiosidade, Daniel me perguntou se queria dar uma olhada.
“Quer ver como funciona? É fácil. Você olha por este visor aqui, aponta a câmera e foca com esta rodela aqui.” Por estar sempre mexendo com a câmera dos meus pais, entendi na hora. “Para filmar é só apertar este botão aqui. Quer experimentar?”
Ele colocou a caixinha futurística na minha mão e, depois de explicar tudo de novo e de se certificar que tinha entendido, me liberou o aparelho. “Só filma quando você tiver certeza de que está tudo em foco e de que você sabe o que vai filmar, senão vai gastar filme à toa.”
Falei que estava tudo bem, esperei o Avi começar, mirei a câmera e consegui gravá-lo descendo e passando pela nossa frente. Quando parei, o Daniel pegou o aparelho de volta para examinar um mostrador na lateral do aparelho
“Filmou! Parabens! Ainda faltam mais trinta segundos.Ele me olhou meio confuso. “Vou guardar porque a gente ainda tem que gravar a visita na casa da tia do Avi na semana que vem.”
Depois, guardou o aparelho sem me perguntar se também queria ser filmado. “Quando revelar a gente te convida para dar uma olhada, tá bem?”
Ninguém notou o quanto tinha ficado embasbacado com aquilo. Aquele aparelho de capturar tempo, cheio de botões de controle e com luzinhas futurísticas piscando no visor era a coisa mais incrível que já tinha tocado. Fantástico demais para se traduzir em palavras. Depois daquela manhã o interesse pelo skate evaporou. Quando me convidarem para ver o resultado, o entusiasmo aumentou e não conseguia pensar em outra coisa. Aquilo era magia em estado puro, tecnologia de ponta, quase igual ao aparelho utilizado para fazer o 007 e os faroestes de John Wayne.
Minha obsessão fez com que pedisse uma câmera Super 8 e um projetor como presente de Bar Mitzvá. Esse pedido era quase um mandamento divino para um pais judeu. Tive a sorte dele poder ter me atendido. Com um equipamento meu, a obsessão só aumentou. Minha mesada ia toda para comprar filmes com os quais registrava férias, idas à praia, passeios na Floresta da Tijuca, surfistas pegando onda, gente jogando futebol, festas e qualquer outra coisa que desse na cabeça. Quando os cartuchos de três minutos e meio acabavam, mandava para revelar. Quando voltavam, reunia amigos e a família no escuro do quarto e projetava o filme na parede branca.
As estréias eram grandes eventos. Antes da apresentação, passava dias editando cuidadosamente as cenas com um cortador de película, colando os pedaços com cola especial e revisando os cortes em um precário retroprojetor. Meu quarto cheirava à cola química e havia tiras de filme penduradas por todo lado. Mas como dizem, me sentia feliz como um pinto no lixo.
*
Esse interesse ganhou uma nova dimensão durante uma viagem de férias da família a Bariloche, uma pequena cidade turística nos Andes argentinos com uma atmosfera europeia que dava a visitantes brasileiros – e aos nazistas escondidos ali – a impressão de estar no Velho Continente.
Um dia, saímos de barco numa excursão para uma ilha no enorme lago Nahuel Huapi. O lugar era tão bonito que artistas de Walt Disney tinham viajado até ali em busca de inspiração para criar os cenários do filme Bambi. No entanto, não demorou para a viagem se tornar chata. Não conseguindo aguentar as piadas forçadas e as conversas sobre meu futuro, saí da cabine e fui me juntar a um grupo que estava jogando pão às gaivotas lá fora.
Cerca de meia hora depois, meu pai também saiu, aparentemente para acabar com a festa. O vento estava forte. “Richard, o que você está fazendo sozinho aí? Não está com frio?”
“Não. Pai, olha só que legal essas gaivotas mergulhando para pegar o pão.” Joguei um pedaço e uma das aves planando sobre o barco mergulhou a toda velocidade e conseguiu pegar a comida antes que caísse na água.
Rafael me deu um sorriso. “Vamos entrar para um chocolate quente?” Vendo que não tinha me convencido, emendou. “A gente conheceu um senhor inglês lá dentro que tenho certeza de que você vai gostar.”
“Por quê?”
“Porque ele é diretor de cinema.”
Bill era um cara grande nos seus cinquenta anos, largado, barba mal feita, olhos verdes e vivos e com um papo de bon-vivant. Se deleitando num copo de whisky, me contou que estava na América Latina fazendo um documentário para a BBC sobre um explorador que no século 19 havia viajado a cavalo desde a Argentina até os Estados Unidos. Quando explicou aquilo, achei que era a coisa mais incrível que alguém jamais poderia fazer – não ficar meses a fio andando a cavalo – mas viajar para rodar um filme. Decidi naquele momento que essa era a profissão que queria seguir quando crescesse.
*
De volta ao Rio, fiz um curso de Super 8 onde acabei escrevendo um roteiro e dirigindo um curta-metragem. O filme, “Cheque Mate”, combinava duas histórias paralelas: a de um homem jogando xadrez com uma pessoa que ninguém via, e o romance do mesmo personagem com um manequim feminino que tinha roubado de uma loja. Ao final do filme, ficava-se sabendo que o protagonista estava jogando contra a manequim de plástico. Ele joga o tabuleiro para o ar dizendo numa voz lenta e melancólica “Minha vida foi um jogo de xadrez.”
Como qualquer diretor moderno da época, nunca vou saber o significado de meu filme. Anos depois, fiquei lisonjeado ao ver um filme de Ingmar Bergman, O Sétimo Selo, e perceber estarrecido que tinha um enredo parecido ao meu. A diferença sendo que era um longa-metragem aclamado no mundo inteiro e o herói jogava xadrez com a morte.
Os organizadores do curso gostaram do resultado e acabaram levando o filme para vários festivais latino-americanos de cinema feitos por jovens, o que me encheu de esperança e de orgulho.
*
Quando entrei na fase mais hormonal da adolescência, meus amigos e eu começamos a usar o projetor para um tipo muito menos pretensioso de filme. Qualquer um que conheça do assunto vai concordar que os anos 1970 foram a era de ouro dos filmes pornôs: a depravação era autêntica e deixava garotos como a gente enlouquecidos. Havia centenas de filmes Super 8 suecos saindo clandestinamente das bancas de revista e indo para o fundo de nossos guarda-roupas. Por causa disto, meu projetor se tornou um equipamento raro e cobiçado na turma. Acabei tendo a ideia de emprestar o aparelho em troca de poder ficar com os filmes por alguns dias. Essa atividade secreta acabou sendo o começo do fim do meu sonho nunca concretizado de me tornar cineasta. Sem ninguém para compartilhar minha paixão, a carência de cursos decentes e a falta de encorajamento por parte de meus pais, meu interesse, embora sempre presente, acabaria se dissipando na psicose tropical.
*
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por Richard Klein | 13 jun, 2020 | Brasil, Comportamento
Capítulo 09
"O vento beija meus cabelos
As ondas lambem minhas pernas
O sol abraça o meu corpo
Meu coração canta feliz..."
Ricardo Graça Mello - De repente California
Apaixonado pelo zen da bossa nova, Frank Sinatra tornou Ipanema famosa no mundo inteiro ao gravar Girl from Ipanema nos anos sessenta. Quando os anos setenta chegaram, tanto Frank Sinatra quanto a bossa nova e a visão romântica e inteligente que representava do Brasil não existiam mais. Agora, sob uma ditadura pesada tudo tinha mudado. Porém, por várias razões, o bairro acabaria sendo central não só a assimilação da nova realidade como também no resgate da naufragada democracia.
Não havia dúvidas que a Zona Sul do Rio era a encarnação do “milagre econômico” proporcionado pelo golpe militar. A vida da classe média, tanto no Bairro quanto no Brasil inteiro, ia de vento em popa. A economia estava crescendo a uma taxa anual na casa dos dois dígitos e com o tricampeonato do México ainda fresco na memória, havia um clima de euforia. Pelo país afora as vendas de carros, televisores, eletrodomésticos e passagens aéreas dispararam. Em Ipanema isso também foi o caso para discos, pílulas anticoncepcionais, roupas “transadas” e pranchas de surf.
Contudo, nas cabeças mais claras, havia a consciência de que essa recém-descoberta prosperidade só era possível graças ao empobrecimento de muitos e ao forte aparato militar garantindo a situação. Talvez por ser o endereço de formadores de opinião bem conectados, gente que não interessava à ditadura molestar, Ipanema se tornou uma ilha de pensamento crítico onde artistas e intelectuais boêmios se reuniam a noite em bares e festas.
No que agora era talvez o melhor bairro da ex-capital do país, a resistência começou cedo. Em 1969 um grupo de residentes lançou um jornal semanal satírico chamado O Pasquim. Essa publicação levaria à prisão por variados períodos de tempo muitos de seus colaboradores, mas seu sucesso também os colocaria na elite jornalística do país.
O Pasquim estava à frente do seu tempo: não somente se posicionava contra os militares, mas também ridicularizava a burguesia e seus valores com humor irreverente. Entre artigos e charges geniais havia entrevistas ótimas, muitas regadas a várias garrafas de whisky, com todo o tipo de personalidades: astros do futebol, artistas, políticos, juristas, atores e outras celebridades. Numa época de censura pesada, a publicação mostrava esses personagens por ângulos até então inexplorados, encorajando-os a falar de suas vidas particulares, suas opiniões sobre assuntos controversos como drogas e sexo e a confessar seus pecados. Entre os entrevistados havia também pessoas de quem a imprensa tradicional fugia, como Luiz Inácio “Lula” da Silva – que nos anos 1970 era apenas o líder de um “inconveniente” sindicato de metalúrgicos na periferia de São Paulo.
Sendo uma das raras vozes independentes do país, O Pasquim virou um gênero de primeira necessidade para brasileiros de consciência. Com isso, o semanário vendia muito bem em todo território nacional. Por ser do bairro, ele fez com que Ipanema adquirisse uma imagem arejada de boemia, liberdade e resistência. Embora não refletisse completamente a realidade, essa imagem seria fundamental para a forma como o Brasil lidaria com seu retorno à democracia.
*
Os principais beneficiários do “milagre econômico” eram sem sombra de dúvida as novas gerações. Sem compromissos políticos e bem nascidos, introduziram muitas novidades em Ipanema. Figuras de cabelos compridos e sem classe social definida começaram a aparecer nas suas ruas. Traziam consigo um sentimento vivo que era ao mesmo tempo alienado e contestador. Garotas em camisetas sem sutiã passeavam com rapazes com o cabelo mais longo que o delas atraindo olhares horrorizados e curiosos de uma sociedade que, em sua maioria, ainda era conservadora.
Para aquela rapaziada, a vida era uma aventura. No mundo que estavam inaugurando, não havia a separação por “tribos”; a única coisa que importava era ser ou não ser “careta”. Se você não fosse, era possível surfar pela manhã, assistir a um show de música underground à noite, depois ouvir Led Zeppelin no toca-fitas do carro a caminho de uma discoteca e finalmente terminar a noite na Floresta da Tijuca fumando um baseado ouvindo uma fita do Caetano Veloso. Mundos, gostos e atividades se entrelaçavam na contestação existencial generalizada. Todos queriam ser diferentes de seus pais e do que a sociedade esperava deles. A vida era como uma caixinha de surpresas cheia de novidades, então, por que não experimentar todas? É claro que se você tivesse uma visão de mundo conservadora, o melhor que tinha a fazer era procurar outra turma.
Ao mesmo tempo, com Copacabana se tornando paulatinamente mais acessível e popular, uma nova onda de super-ricos migrou para Ipanema. Eles fariam com que a Avenida Vieira Souto, a sua via beira-mar, o endereço mais caro do país. A rua comercial, dois blocos atrás, Rua Visconde de Pirajá, absorveu o momento e, ao lado de lojas caríssimas, exibia lanchonetes de estilo americano, fliperamas, lojas de surf e butiques com roupas psicodélicas. Enquanto isso, espalhados pelas ruas laterais, bares à moda antiga continuavam sendo o ponto de encontro da geração dos esquerdistas boêmios, que bebiam suas cervejas vendo milionarios passarem sendo dirigidos por choferes nos seus carros de luxo.
Certamente o grupo mais visível do bairro era o dos surfistas. Vestindo shorts e camisetas importadas do Havaí, tomaram conta das esquinas e fizeram de Ipanema uma Califórnia brasileira. Para ficarem louros como seus pares americanos, a moçada tingia os cabelos com parafina para pranchas de surfe ou com água oxigenada. Embora a intelectualidade e o dogmatismo político os afugentassem, acreditavam que estavam resistindo ao sistema ao fazer tudo o que lhes desse na cabeça – essencialmente drogas, sexo, rock e surf. As novas garotas de Ipanema, a segunda geração a ser libertada pela pílula, desfilavam seus corpos torneados no território dos surfistas – a praia – dando origem mundial à tanga, ou biquíni fio-dental.
*
Em 1973 houve uma forte queda nos mercados de ações do mundo inteiro devido ao repentino aumento no preço internacional do petróleo. As bolsas brasileiras também despencaram e pessoas que haviam feito fortuna rapidamente perderam tudo do dia para a noite. No entanto, Rafael teve a sorte, ou a experiência, de vender suas ações dias antes do colapso.
Para a família, essa tacada foi como ganhar na loteria. A crise repentina levou a uma queda substancial no preço dos imóveis cariocas e com bastante dinheiro na mão, meu pai conseguiu comprar um apartamento em Ipanema. Foi assim que nos mudamos para a Rua Nascimento Silva, a apenas algumas portas abaixo da casa de Vinicius de Moraes, o aclamado poeta da bossa nova.
O novo endereço significou um upgrade tanto em nosso status social quanto em nosso estilo de vida. Apesar do apartamento novo não ter uma varanda com vista para o mar como o que alugávamos em Copacabana, era bem maior e, mais importante, era nosso. Os antigos donos, um casal de velhinhos portugueses, tinham juntado duas pequenas unidades de sala e dois quartos em um apartamento grande. Uma cozinha espaçosa separava os dois lados; o de frente, ficou para meus pais e o dos fundos ficou para minha irmã e eu.
Gostamos de cara do novo bairro. Independentemente de ser o olho de um furacão de mudanças comportamentais, o seu dia a dia era muito mais agrádavel. Com exceção dos prédios de luxo imponentes de frente para o mar na Avenida Vieira Souto, em termos de arquitetura e de jeito, Ipanema parecia com uma versão sofisticada de uma cidade costeira. Suas construções eram mais baixas, mais recentes e menos pomposas, proporcionando um ar mais residencial e mais real. A praia era mais vazia e ainda tinha resquícios de vegetação original, as ruas eram calmas e arborizadas e havia sempre uma brisa gostosa passando entre o mar e a Lagoa Rodrigo de Freitas que ficava logo atrás do bairro.
*
Sarah e eu passamos da infância à adolescência nesse lugar que era certamente um dos melhores para se viver em todo o planeta. Agora, com cada um em seu próprio quarto, me vi livre do domínio da minha irmã. Com uma privacidade que até há poucos meses tinha sido coisa de sonho, a primeira coisa que fiz foi colocar pôsteres para marcar meu território, um do Jimi Hendrix e um outro com uma capa de disco psicodélico do grupo Yes.
Outra novidade foi que Renée finalmente teve que dar o braço a torcer e autorizou a compra de um televisor, talvez admitindo que a sociedade elegante estranharia aspirantes que não possuíssem um. Por ter horror ao aparelho – talvez porque a programação lhe roubasse o centro das atenções – ela mandou colocar a televisão no quarto vazio do nosso lado do apartamento.
Com uma TV em casa, minha irmã e eu nos integramos ainda mais no universo brasileiro. Agora, como qualquer outra pessoa, podíamos assistir às novelas da Globo, as principais produções culturais brasileiras da época. Embora me cansaria delas depois de um tempo, no início fiquei vidrado. Elas passavam cinco dias por semana: às seis da tarde tinha uma voltada aos jovens, às sete uma comédia para antes do jantar, às oito a grande produção para toda a família e às dez da noite uma produção mais adulta. Todas eram excelentes já que por conta das salas de cinema e teatros estarem perdendo espaço para a televisão enquanto a censura e a repressão política barrava de produções de nível os melhores escritores, atores e técnicos se viram obrigados a trabalhar nelas por falta de outras opções. Essa concentração de talento trouxe uma qualidade espantosa, e essas produções que se tornariam um sucesso nos quatro cantos do globo.
Se meu interesse pelas novelas dissipou rápido, esse não foi o caso com a pessoa que mais gostou da novidade: dona Isabel. Toda noite às sete, enquanto preparava o jantar, ela ligava o aparelho para ficar ouvindo seus dramas e seus momentos da cozinha. Essa trilha sonora só terminava na hora que ía dormir. A maneira que aproveitei o televisor foi outra. Agora podia assistir a jogos de futebol, programas de comédias como A Grande Família, Chico City e Os Trapalhões além de filmes e séries de TV importadas das quais todo mundo falava. Nas tardes de sábado curtia videos das melhores bandas internacionais no Sábado Som. De repente, deixei de ser um completo esquisito na escola.
*
Não demorou muito para a gente descobrir o motivo pelo qual os antigos donos tinham vendido o apartamento a um preço tão camarada; a pior gangue do bairro utilizava a entrada do prédio como sua base. Só um deles morava no prédio, noss fundos , mas de qualquer forma estavam sempre ali. Em pouco tempo gente passou a conhecer todos de vista da rua. Era evidente que todos aqueles surfistas cabeludos e sarados eram “dissidentes” de famílias de classe média. Era também evidente que eram vagabundos de verdade; não trabalhavam nem estudavam e não tinham respeito a qualquer tipo de autoridade. O pior para meus pais era que, ainda por cima, nos olhavam com desprezo por sermos tão tipicamente burgueses. Com a rebeldia dos anos 1970 na porta de casa, se sentindo sitiados por um bando de bárbaros, Renée e Rafael passaram a odiar toda e qualquer coisa que se relacionasse àquela subcultura.
Ainda que o minhas habilidades como pegador de jacaré tivessem melhorado muito nas ondas oceânicas do novo bairro, meu status praieiro era microscópio comparado ao daquela rapaziada, os bad boys no topo da cadeia alimentar de Ipanema. Eles controlavam não só as ruas, mas também as ondas na parte da praia conhecida como as “Dunas do Barato”, o Píer de Ipanema. Agora há muito destruído, o Píer foi erguido para a construção de um emissário submarino que levaria o esgoto de Ipanema até o alto-mar. A obra alterou as correntes e o leito marinho o que resultou em ondas incríveis, a ponto de a imprensa especializada internacional classificar aquele point como um dos melhores lugares para se surfar na América Latina.
O Píer acabaria produzindo os primeiros campeões brasileiros de surf. Um dos membros da gangue, o Pepê, foi o mais destacado deles. Ele se tornaria campeão mundial tanto de surf quanto de voo livre, e anos mais tarde sua popularidade o ajudaria a se eleger vereador e a abrir a barraca de praia mais conhecida do Rio. Porém, seu irmão mais novo e menos talentoso, o Pipi, levou um tiro depois que pulou para trás do balcão para agredir o dono do boteco que ficava na nossa esquina. No dia, estava voltando da escola quando vi o surfista de cabelo oxigenado sentado imóvel na calçada. Amparado por um amigo, ele estava esperando por uma ambulância com sua camiseta empapada de sangue grudada na barriga. Na manhã seguinte quando estava saindo de casa, o porteiro me disse que o Pipi tinha morrido no hospital.
*
Sempre que não havia ondas, a galera se reunia do outro lado da rua para andar de skate na rampa de uma garagem. Enquanto faziam suas manobras radicais, Deep Purple, Alice Cooper, Led Zeppelin e Black Sabbath bombavam num toca-fitas. Nenhum deles conseguia entender as letras das músicas, mas eu entendia cada palavra, o que, de alguma forma, me fazia participar do que estava rolando. Ficava assistindo as suas manobras da janela de nossa sala de estar como um garoto doente fica vendo as outras crianças brincarem pela janela da enfermaria. Naquelas tardes, as letras das músicas e o som das guitarras distorcidas flutuavam para dentro do apartamento junto com o cheiro de maconha. Ver baseados do tamanho de um charuto passar de mão em mão entre aqueles surfistas era como testemunhar um assalto a banco de uma posição privilegiada. Esse era o crime subversivo, o fruto proibido, sobre o qual as autoridades nos advertiam na televisão agora que o medo do terrorismo de esquerda tinha ficado para trás.
Todas as vezes que eu passava na frente daquela gangue, parecia ouvir o comentário: “Lá vai aquele magricelo veadinho”. Os momentos mais constrangedores eram quando ia de carro com a minha mãe para o clube e o porteiro tinha que pedir educadamente que os caras saíssem de lado para que pudéssemos deixar a garagem. Sob olhares de desprezo, passávamos com as janelas fechadas, minha mãe nos seus cinquenta e poucos trajando um uniforme de tênis que incluía uma minissaia branca e eu com as minhas pernas finas e meus trajes de futebol desproporcionalmemte grandes. Por causa daqueles caras, para o meu desespero, meus pais acabaram proibindo o surf. Por outro lado, aquela turma me forçou a provar, ainda que apenas para mim mesmo, que não era o bostinha que eles viam. Ainda estou tentando.
…
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por Richard Klein | 6 jun, 2020 | Comportamento, Crônica
Capítulo 08
“Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento…”
Caetano Veloso – Alegria, Alegria
Célia era a amiga bonita e magricela do andar de baixo. Foi ela que tinha chamado a Sarah para ver a copa do mundo na sua casa. As duas eram coladas. Um dia entrou como um foguete no apartamento.
“Sarah! Sarah!” Quando minha irmã apareceu, ela precisou retomar o fôlego. “Sarah! Minha mãe acabou de dar de presente de aniversário dois ingressos para o Festival Internacional da Canção, você quer vir comigo?!!”
As duas comemoraram animadíssimas, mas logo Sarah se lembrou.
“Vou ter que perguntar para minha mãe.”
Acompanhando a conversa do quarto, pensei a mesma coisa na mesma hora; a dona Renée não ia liberar essa nem a pau. Sem motivo para inveja, me fingindo de morto, fiquei ouvindo as duas fazerem planos para convencê-la.
Quando minha mãe chegou, não deu outra.
“Você no Maracanãzinho à noite?! Nem pensar, é muito perigoso!”
Os festivais aconteciam no Maracanãzinho, o irmão menor do Maracanã, uma arena ao lado do estádio para eventos não futebolísticos.
“Mas mãe, o Maracanãzinho fica do lado de uma universidade e de um hospital! A gente vai de carro com os dois irmãos dela, qual o problema?”
“Todo mundo sabe que aquela área é cheia bêbados e de assaltantes! Aqueles dois franguinhos não vão conseguir defender vocês de nada! E imagina se você se perder no meio daquela gentalha?! Nem pensar! Você não vai e acabou!”
Sarah não se deu por vencida. “Mãe, pode ser que seja assim quando tem jogos de futebol no Maracanã, mas no dia do festival só vai ter gente de nível da Zona Sul. Não vai ter perigo nenhum! Por favor mãe, me deixa ir!”
“Para que? Para assistir músicos de segunda categoria fazendo um barulho ensurdecedor e tocando canções horríveis para um monte de comunistas emaconhados?” Dona Renée fez um gesto dramático e decretou “Você não vai e pronto!” Daí ela foi para a cozinha dar ordens à empregada.
Mais tarde, precisou a mãe da Célia subir para implorar que a dona Renée mudasse de ideia. Dona Dindinha garantiu que seus filhos – um estudando para ser médico e outro estudando para ser padre – conheciam bem o lugar e que a Sarah estaria segura com eles. Afinal ela estava deixando sua filha na mão deles. Além disso, o presente era muito especial para a Célia, que ia ficar de coração partido se fosse sem a melhor amiga no dia do seu aniversário. Os argumentos adultos e o fato de que sua família era dona do nosso apartamento fizeram Renée conceder. Ela disse que ia falar com o marido quando voltasse do trabalho. Ao ouvir essas palavras eu já sabia qual seria o resultado.
Durante o jantar, as duas explicaram o que tinha acontecido e, apesar dos argumentos contrários da minha mãe, meu pai liberou na hora.
“Qual o problema da Sarah ir para o Festival com a Célia e os irmãos dela? Ela adora este tipo de música e os dois são ótimos rapazes.”
*
Em uma época sem Internet, – e mesmo sem gravadores de fitas-cassete – a única opção para ouvir nossas músicas preferidas era ou comprar discos caros ou torcer para que tocassem no rádio. A oportunidade do convite da Célia era imperdível. Os melhores artistas do país e outras atrações internacionais estariam se apresentando naquela noite e o evento seria transmitido em horário nobre para o país inteiro.
Para piorar as coisas para mim, mais ligado em música que minha irmã, não tínhamos televisão em casa. Havia a possibilidade remota de assistir o festival na casa do Paulo mas, como meus pais, ele não se interessava em música brasileira. Não ia acontecer. Tive que aceitar que não assistiria o evento do qual todo mundo estaria falando. Meu único consolo era que aquela elas estavam indo para a semifinal; a final seria no próximo fim de semana.
Aquelas competições faziam as manchetes dos jornais no país inteiro e as canções concorrentes tocavam direto no rádio. Conforme a final ia se aproximando todo mundo já tinha escolhido sua preferida. Apesar de serem organizadas por gravadoras promovendo seus artistas e por estações de TV vendendo o espaço publicitário, eram vistas como eventos culturais da maior importância. Tinham até significância política já que, embora não os patrocinasse, o regime as encorajava como uma maneira de unir a nação em torno de uma celebração da música brasileira. Além disso, por tolerar a presença de artistas com mensagens de oposição, eram uma maneira dos generais provarem à população que, embora não permitissem que escolhesse seu próprio governo, não tinham nada contra a liberdade de expressão.
Os artistas subiam ao palco representando todos os segmentos da sociedade. A esquerda intelectual tinha Chico Buarque; os puristas da bossa nova, Tom Jobim e Nara Leão; os roqueiros e os psicodélicos, Os Mutantes; os afrodescendentes, Toni Tornado; a militância estudantil, Geraldo Vandré; a juventude despolitizada, Wanderléa e outros representantes da Jovem Guarda; os tropicalistas tinham Gilberto Gil e Caetano Veloso; os amantes da música tradicional e o povão, Jair Rodrigues e Paulinho da Viola; e ainda tinha Jorge Ben, que agradava a todos.
As revelações daqueles eventos não só encheriam os cofres das gravadoras mas também dariam origem – ou pelo menos influenciariam – a tudo o que viria depois em termos de música popular brasileira.
Acima de tudo, devido ao momento político, esses festivais se tornaram o único canal com alguma possibilidade de se debater a realidade no país, mesmo que de forma indireta.
“Para Dizer Que Não Falei de Flores” do Geraldo Vandré, por exemplo, se tornaria o hino da resistência à ditadura.
Havia ecos de Cuba quando o estádio se juntava para cantar.
“Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição
De morrer pela pátria
E viver sem razão”
Por outro lado, havia a turma hippie, interessada em liberdade individual. Seu carro chefe eram Os Mutantes como com a canção 2001.
“Astronauta libertado
Minha vida me ultrapassa
Em qualquer rota que eu faça
Dei um grito no escuro
Sou parceiro do futuro
Na reluzente galáxia”
Essas duas correntes antagônicas competiam lado a lado com canções de amor melosas e sambas engraçados.
*
A polêmica acirrada entre os defensores da liberdade individual radical e a militância política que esquentava os festivais, ia muito além dos palcos. Esse embate também acontecia – não só no Brasil – nas artes, no cinema, no teatro e na literatura. O movimento da Tropicália emergiu desse emaranhado tentando englobar os dois lados e tudo mais que pudesse. Seus expoentes seguiam a máxima do artista plástico Andy Warhol e de outras estrelas da vanguarda internacional de que “tudo é pop”.
Misturando rock com música brasileira e psicodelia com revolução, a música/manifesto Tropicália de Caetano Veloso deixava a plateia atônita, sem saber se vaiava ou se aplaudia.
“Eu organizo o movimento
Eu oriento o Carnaval
Eu inauguro o monumento no planalto central”
Sob as asas acolhedoras dos tropicalistas havia a simpatia pela revolução cubana, o amor pelos Beatles, uma procura por raízes brasileiras, sem esquecer, é claro, de uma boa dose de sagacidade comercial. Embora comumente associada à música de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Os Mutantes, a Tropicália foi bem mais ampla. Antes de se dissipar, o movimento envolveu artistas plásticos, como Hélio Oiticica, músicos vanguardistas como Tom Zé, escritores, cineastas, filósofos e uma pletora de malucos e gênios que marcaram a cultura brasileira.
*
No começo, os militares permitiram que os artistas cantassem o que quisessem. Contudo, a dinâmica dos festivais acabou sendo diferente do planejado. Conforme as canções de liberdade e de revolução foram ganhando destaque, ficou claro que a sua presença nas salas de estar da nação em horário nobre era um contrassenso. Querendo evitar uma imagem negativa ao acabar com a festa ou excluindo as estrelas, a saída que os generais encontraram foi a censura.
As coisas foram de mal a pior com o draconiano AI-5 que tirou as liberdades civis dos brasileiros. Sem ter que responder a um poder judiciário os militares acabaram indo muito além da censura. Ignorando a possível reação da sociedade civil, puseram em marcha um processo de exílio e de aprisionamento dos artistas contrários ao regime, independentemente do seu prestígio e da sua popularidade. A consequência foi que os festivais se esvaziaram de significado e acabaram morrendo.
Alguns anos mais tarde, num gesto de reconciliação, os militares aceitaram os artistas de volta. Porém, nada seria como antes. No seu retorno, apesar de serem recebidos como heróis, haviam amadurecido no exterior. Agora, expostos diretamente ao que estava acontecendo na cenário jovem internacional, tinham preocupações mais profissionais.
Apesar da queixa de alguns críticos puristas, quem acabou ganhando com essa mudança foi o público. Suas apresentações passaram a ser individuais em teatros ou em casas de shows. Mais refinados, propiciavam uma mistura única de resquícios de resistência autêntica, status de celebridade e talento. Essa alquimia contava com o suporte de músicos e produtores de qualidade internacional. Quando Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque subiam no palco, era como se o mundo tivesse voltado à normalidade só que com elementos de uma realidade fantástica.
*
Quando me tornei adolescente – anos depois da minha frustração com a não ida ao festival – comecei a frequentar shows. Eram ocasiões intensas, mais parecidas com partidas de futebol ou com comícios do que com apresentações musicais. Quando os teatros abriam as portas, o público entrava às pressas como gado. Com todos acomodados, começava um clima de Maracanã; diferentes sessões da plateia vaiavam umas às outras ou se aplaudiam como se estivessem torcendo para times diferentes. O público ficava cantando bordões políticos, musiquinhas relacionadas às drogas ou ficavam sacaneando uns aos outros.
“Que beleza…
A maconha que vem lá do Ceará!
O lêlê! O lálá!
Enrola na seda,
acende pra fumar! ”
“A turma lá da frente é bicha!” Os da frente se levantavam e respondiam com vaias.
Quando as luzes se apagavam, a sala caía em silêncio e a magia começava. Nos melhores shows, era como estivessemos na sala de estar dos artistas. As músicas mais calmas proporcionavam uma comunhão tão forte que nunca senti nada parecido, nem antes e nem depois. Artistas mais carismáticos como Gilberto Gil faziam momentos de “pergunta e resposta” em que a plateia respondia entusiasmada às suas orientações musicais. As canções mais animadas – muitas vezes sucessos que tocavam no rádio e apareciam na televisão – eram sempre deixadas para o final e acabavam num Carnaval fora de época com o teatro inteiro indo à loucura, pulando nos corredores e no palco.
Paralelamente a essas festas em forma de show havia algo novo chegando de mansinho. As bandas de rock eram a expressão da geração mais nova. No contexto da época, eram o submundo do submundo. O clima dos seus shows não era de carnaval fora de época. A celebração era macabra, guiada por guitarras distorcidas e ritmos frenéticos na bateria. O público era medonho: agressivo, meio sujo, tinham cabelos mais longos do que o normal e usavam drogas que a maioria de nós nem sabia que existiam. Uma de suas principais expressões era Raul Seixas e seu letrista, o agora mundialmente famoso, Paulo Coelho.
“Quem não tem colírio usa óculos escuros!” Aconselhava uma de suas músicas.
“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante.” Dizia outra.
Tal como Led Zeppelin, David Bowie e os Rolling Stones, seus temas; o sexo – tanto hétero como homo -, as drogas e o misticismo, eram perturbadores e anti sociais. Com essa leva vieram os Secos e Molhados. Muito a frente do seu tempo, adotavam um estilo andrógino e usavam uma maquiagem exagerada que mais tarde a banda americana Kiss copiaria. A voz lindamente feminina do seu vocalista Ney Matogrosso e seus trejeitos homoeróticos escancaravam a questão da identidade sexual nas rádios, nos palcos e nos televisores do país; isso nos idos de 1972. Esses artistas, ainda que populares com uma grande parcela dos jovens, chocavam a todos os não envolvidos. Ninguém com um posicionamento “sério” se atrevia a se identificar com eles, nem mesmo intelectuais esquerdistas “avançados”.
Esses pioneiros iniciaram tudo o que a maioria das pessoas de classe média consideraria banal nas décadas seguintes: drogas leves, vegetarianismo, interesse em filosofias orientais e a busca por um jeito zen-individualista de levar a vida. Ignorando tanto a ditadura política da direita quanto a ditadura intelectual da esquerda a galera do rock só queria saber de viver intensamente.
Quando chegou a onda da discoteca, descobriram que dar uma melhorada no visual e soltar a franga nas pistas de dança atraía sexo. Isso e a grande quantidade de fatalidades relacionadas às drogas entre os que mergulharam de cabeça naquele estilo de vida, fizeram com que a primeira geração do rock brasileiro desaparecesse com a mesma velocidade que tinha aparecido.
A passagem de bastão entre as gerações dos festivais e a do rock, marcou o fim da aura de resistência política nos shows. Eles passaram a ser simplesmente um sopro de ar fresco na claustrofobia tanto do regime quanto dos lares tradicionalistas. Com essa mudança ficou claro que esse era um clube para privilegiados. Para fazer parte da turma e participar das atividades afins – sair com a galera descolada, comprar os discos certos e viajar para destinos alternativos – você tinha que ter dinheiro e não era todo mundo que tinha acesso a esse recurso.
Desde os primeiros festivais, nunca havia representantes da classe trabalhadora nos auditórios. As massas ainda eram as domésticas que preparavam o jantar do publico antes de saírem de casa, os cobradores e motoristas dos ônibus que levavam alguns lá, os “flanelinhas” que pediam para vigiar os carros de outros e os policiais lá fora, ávidos para extorquir o seu dinheiro. Nos anos 1970, os rebeldes das classes menos privilegiadas ouviam funk e iam á suas próprias festas, como bem retratado no filme “Cidade de Deus”, um relato verdadeiro desse período da história do Rio de Janeiro.
…
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por Richard Klein | 23 maio, 2020 | Brasil, Comportamento, Crônica, Literatura
Capítulo 07
“... choram
A nossa pátria mãe gentil,
Choram Marias e Clarices,
No solo do Brasil.”
Aldir Blanc – O Bêbado e a Equilibrista
Numa época em que Brasília ainda era um lugar onde ninguém queria morar e que São Paulo ainda estava se firmando como o pólo econômico do país, o Rio de Janeiro era de longe a cidade predileta dos expatriados no Brasil. Lá eles viviam muito bem nas margens da elite social carioca. Embora os dois grupos morassem e trabalhassem lado a lado, se vissem como equivalentes sociais, tivessem ambições parecidas e até os mesmos preconceitos, não se frequentavam, não eram sócios dos mesmos clubes, tinham interesses distintos e encaravam a vida de modos bem diferentes.
Talvez corretamente, a maioria se sentia num contexto colonialista. Porém, apesar das origens diversas, tinham em comum um olhar crítico vindo de realidades sociais e econômicas mais avançadas. Unanimamente achavam que, apesar dos esforços de modernização, a gritante desigualdade social caracterizava mais do que tudo o atraso do seu país de adoção.
O que mais os chocava era a atitude dos privilegiados perante o fosso medieval que os separava do povão e sua suposição de que isso fosse meritocrático e um fato imutável e natural. A contra gosto, ou em alguns casos com deleite, aprendiam logo que a única maneira de se conviver com essa disparidade era encarar os menos favorecidos como seres inferiores e facilmente exploráveis; tão ignorantes que nem conseguiam perceber, quanto menos entender, o óbvio.
A herança escravista, entranhada na formação do país e normalizada no seu cotidiano, criava uma ilusão de resignação cordial por parte da população humilde. Porém, observadores mais aguçados percebiam logo a resposta sutil porém onipresente. Ela vinha dissimulada na forma da malandragem; na falsa reverência, na palavra certa para se sair bem de uma situação difícil, no jeitinho, na desonestidade pequena o suficiente para não ser pego e no oportunismo. Apesar de não ser ódio de classe, apenas instinto de sobrevivência, essa atitude era um terreno fértil para a consciência de classe.
Confortáveis com esse teatro, Renée e Rafael mantiveram uma distância segura desse aspecto da vida brasileira. Caberia a minha irmã e a mim se adaptar sem orientação a esses códigos – ou à falta deles.
Meu despertar foi brusco.
*
O conhecidíssimo Clube de Regatas do Flamengo fazia parte de um enclave de vários clubes de classe média alta localizados no coração da Zona Sul carioca. Como os demais, ficava às margens da imunda, porém belíssima, lagoa Rodrigo de Freitas e próximo ao nosso próprio Paissandu, ao Clube dos Caiçaras, ao Clube Monte Líbano, à Associação Atlética Banco do Brasil, ao Clube Piraquê, ao Clube Militar, ao Jockey Club e à Sociedade Hípica Brasileira.
O Flamengo era o maior deles. Era popular não só por causa da imensa torcida do seu time de futebol mas também por ser o mais acessível financeira e socialmente na vizinhança. Apesar de não oferecer quadras de tênis nem áreas exclusivas, numa época sem academias de ginástica, ele era o único a possuir instalações esportivas de qualidade. Essas instalações incluíam um pequeno estádio de futebol – onde craques como Júnior e Zico treinavam – uma área dedicada ao remo, salas de musculação, saunas e duas piscinas olímpicas onde alguns dos melhores nadadores brasileiros haviam se formado. Era lá que tinha aulas de natação três vezes por semana.
Após as aulas, voltava a pé para o Paissandu que ficava no quarteirão de baixo. Apesar do tráfego constante e da caminhada ser curta, era considerada perigosa, propícia a assaltos. As calçadas eram desertas; não haviam lojas, escritórios ou qualquer tipo de vida pública ao redor, somente muros altos de concreto protegendo os clubes. Dito e feito, um dia no caminho vi três garotos que pareciam favelados se aproximando com a cara fechada. Pressenti o perigo, mas como não tinha para onde correr, olhei para baixo e fui em frente.
Quando a gente se cruzou, o mais alto e mais velho deles parou na minha frente, me olhou de cima e perguntou, “O que é que tu tem dentro dessa bolsa aí, playboy?”
“Nada, tô voltando da minha natação.” respondi preparado para o inevitável.
Sem se dar ao trabalho de me ouvir ele foi logo dizendo: “Me dá essa porra aqui!”
Ainda tentei segurar a bolsa, mas um dos outros dois me deu uma rasteira. Já no chão, vi os três desaparecendo na esquina com meus pertences.
Havia somente uma toalha molhada e uma sunga dentro, mas o sentimento de impotência por não ter sido forte ou corajoso o bastante para reagir foi traumático. Cheguei no clube em prantos. Quando minha mãe me viu, baixou o seu instinto de indignação britânica e fomos direto prestar queixa na delegacia de polícia que ficava do outro lado da rua.
Entramos lá, eu envergonhado de ter chorado e a Dona Renée exalando o seu ar de superioridade. Assim que entrou, exigiu que o recepcionista desinteressado nos levasse para falar com o delegado. Fomos com ele ao andar de cima e depois de uns minutos na sala do chefe, o auxiliar saiu e nos mandou entrar. Talvez em resposta à insistência arrogante da minha mãe, o delegado nem se deu ao trabalho de se levantar e pediu que a gente se sentasse para explicar o que estavamos fazendo ali. Sem esperar que terminássemos, quase nos ignorando através dos seus óculos escuros, o homem barrigudo, moreno e de bigode espesso deu um suspiro impaciente, abriu uma gaveta e atirou na nossa frente um álbum com fotos de bandidos perigosos para ver seu eu reconhecia algum.
Ele olhou debochado para a minha mãe e depois para mim. “Aqui tem fotos de assaltantes à mão armada. Reconhece algum?” Ele foi virando as páginas. “Este aqui a gente pegou num assalto no ano passado, mas soltaram ele há pouco tempo. Foi ele?”
Fiz que não com a cabeça.
“E este aqui? Assaltante de banco, reconhece?”
Depois da sessão de humilhação, com a desculpa de que tinha coisas importantes para fazer, o policial pediu para que a gente se retirasse sem sequer prometer que iria tentar fazer alguma coisa.
*
A delegacia era uma construção amarela desbotada que mais parecia uma casamata. Em cima da entrada, tinha uma insígnia com a inscrição “14ª Delegacia de Polícia” explicando a todos o que era aquele prédio destoante. Na sua calçada de terra batida sempre havia várias viaturas estacionadas. Do outro lado da rua, ficava uma igreja mal cuidada na esquina de um beco, a Cruzada São Sebastião. Nele se encontrava o único conjunto habitacional da vizinhança. Esse era, sem sombra de dúvida, o lugar mais perigoso do Leblon; para nós uma zona proibida.
Seus moradores eram remanescentes da favela da Praia do Pinto, que até meados dos anos 1960 ficava no meio de todos aqueles clubes requintados. Pouco depois do Golpe Militar de 1964, após tentativas “pacíficas” de remover os habitantes, as autoridades militares autorizaram que ateassem fogo aos barracos. Após a destruição, o terreno foi convenientemente repassado a empreiteiras camaradas limparem e aterrarem a área para depois construírem edifícios elegantes. As famílias que se mudariam para lá seriam na sua maioria de militares de médio escalão.
Os ex-favelados que se recusaram a mudar para subúrbios longínquos foram transferidos para o outro lado da rua onde, além da igreja, construíram aquele projeto social de prédios de oito andares. Suas novas acomodações rapidamente adquiriram um ar dilapidado que junto com a sua arquitetura minimalista, fizeram o lugar parecer um complexo penitenciário. A barra ali era pesada. Além dos locais, só camburões e outros veículos policiais se aventuravam beco a dentro.
Na calçada oposta às construções, havia um muro alto coroado por uma grade coberta por arame farpado. Ele separava aquele território de raiva engasgada de nosso campo de futebol de salão no Clube Paissandu.
Era lá que jogávamos nossas peladas na mesma hora em que os meninos da Cruzada jogavam as deles. Dava para ouvi-los claramente. Volta e meia alguém exagerava numa bola dividida ou num chute forte sem pontaria e a nossa bola ia parar do outro lado do muro. Quando isso acontecia, a gente dava a partida por encerrada já que a bola quase nunca voltava. Como revanche, o mesmo valia para as deles que a gente só devolvia se tivessem devolvido a nossa recentemente. Aconteciam ocasionais trocas de pedras e de palavrões e, às vezes, meninos mais atrevidos subiam no muro para nos ameaçar, porém quando faziam isso, se tornavam alvos fáceis para boladas.
*
Garotos como aqueles da Cruzada e como meus assaltantes trabalhavam no Paissandu como boleiros de tênis. Muitas vezes seus pais trabalhavam no clube também. Sem exceção, eram mais bem preparados fisicamente do que o mais forte e o mais bem preparado de todos nós. Às vezes combinávamos de jogar contra eles, mas era o mesmo que ficarmos sentados aprendendo com a sua magia futebolística legitimamente brasileira.
Apesar de, entre a gente, fazermos piadas do seu português errado, dos seus tênis furados e da sua ignorância, os respeitávamos em segredo. A verdade era que todo homem da classe média carioca tinha inveja do arquétipo do homem negro da favela, admirado por ser bom de bola, de briga e de samba, idealizado como viril, com um monte de gostosas de todas as cores e classes sociais correndo atrás deles. A única característica “positiva” que lhes faltava era, é claro, a nossa educação cara e a nossa pele branca.
Em nossa bolha, era fácil esquecer que aqueles que víamos como favelados eram a maioria absoluta da população carioca. Apesar disso, não tinham o mesmo grau de cidadania e somente adquiriam respeitabilidade como estrelas do futebol, artistas e mais tarde, para alguns, como traficantes. Senão, eram elementos secundários nos nossos lares, nos nossos clubes, nas nossas escolas, nos escritórios, nas repartições públicas e mesmo na praia, como vendedores ambulantes. Nas horas de lazer eram passistas de escolas de samba, frequentadores de praias longínquas, pedintes e assaltantes. Para alguns, quase todos eram marginais esperando para serem presos, fazendo por merecer o seu destino por serem preguiçosos, desonestos e depravados. A atitude parecia com a dos brancos para com a população negra na África do Sul durante o apartheid.
*
As empregadas domésticas – resquícios da época da escravidão, terminada apenas 74 anos antes de eu nascer – encarnavam a ligação entre os dois mundos. Todo mundo que conhecia tinha pelo menos uma. Todo apartamento, por mais modesto que fosse, vinha com uma área de serviço para elas. Uniformizadas, essas mulheres limpavam a nossa casa, lavavam a nossa roupa, cozinhavam a nossa comida e comiam nossas sobras. Quando chegava a noite, se isolavam nas áreas de serviço e iam dormir em quartos abafados e sem janelas tendo como confortos ventiladores pequenos, crucifixos na parede e rádios baratos. Do lado de fora, tábuas de passar, vassouras e roupas sujas as aguardavam para o dia seguinte.
Quando era pequeno, uma das várias domésticas que passaram por nossas vidas colocava seu emprego em risco trazendo seu filho em segredo para morar escondido em nosso apartamento nos dias de semana. De acordo com o rígido código de conduta, isso estava totalmente fora dos limites. Eu era novo demais para conhecer tais regras e me tornei o único da família a saber da presença do meu amigo secreto que me seguia por todo lado, mas que se escondia atrás das cortinas quando o resto da família estava em casa. Um dia Renée descobriu o garoto e não teve dúvidas nem tolerância: despediu a mulher no ato. Essa atitude severa estava de acordo com a ética da época e do lugar. Todos os vizinhos e amigos apoiaram a decisão.
Por outro lado, nossa última empregada, Dona Isabel, ficou conosco por mais de vinte anos. Ela era a versão brasileira da Mamãe Dois Sapatos, a doméstica do desenho animado Tom e Jerry – negra retinta, baixa e troncuda, com um traseiro gigantesco que balançava pesado em cima de suas pernas grossas e tortas. Por conta da convivência diária, era comum que surgissem laços afetivos entre as domésticas e gente da família e, certamente, esse foi o caso de Dona Isabel com a Sarah e eu. A considerávamos como uma segunda e mais compreensiva mãe. Mesmo assim, o reconhecimento tácito de sua condição estava sempre presente. Enquanto trabalhou com a gente nunca se sentou conosco na sala de estar como também nunca saímos juntos. Tudo o que sabíamos a respeito da sua vida particular é que vivia num subúrbio afastado com um “sobrinho”, que tinha crescido em uma fazenda em Minas Gerais, que encontrava consolo no Candomblé e que tinha trabalhado para o líder integralista Plínio Salgado. O engraçado é que apesar de não saber nem ler nem escrever, esperta, ela aprendeu a entender inglês e volta e meia nos surpreendia com frases na nossa língua.
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