Um Trump a menos

Impossível não sentir um pouco de inveja dos americanos que se livraram do Trump. E o Brasil ainda precisa aguardar dois anos, isto se um Impeachment não remover o inepto antes.

A passagem de Trump pela política, suas atitudes e como criou em torno de si um movimento de fanáticos, entre eles judeus e nazistas, supremacistas brancos e negros, antiabortistas e mulheres, heteros e LGBTs é um mistério sociológico sem explicação.

Os americanos se dividem basicamente entre dois partidos que se alternam no poder, os Republicanos e os Democratas. Não vou entrar em detalhas, mas historicamente os Democratas de hoje eram considerados os Republicanos de ontem, e os Republicanos de hoje, os Democratas de ontem. Quem quiser que leia a história.

Trump não tinha nenhuma ligação com o partido Republicano, a não ser doações financeiras. Foi capaz de tomar o partido, se tornar candidato a presidente e vencer as eleições. O cara merece algum crédito. Quem mais seria capaz de uma proeza destas?

E assim, como presidente dos EUA, e investido dos poderes que o cargo lhe confere, deu início a maneira Trump de corrigir os caminhos da américa para torná-la “grande” novamente. Sua visão de vida comercial privada se tornou a nova política dos EUA, tanto interna, como externamente.

Entre seus feitos, destruir tudo o que Obama e seus antecessores haviam deixado como legado de governo. Não vou entrar no mérito, mas o fato é que ele tirou os EUA dos acordos do Clima, do Acordo Atômico com o Iran, da OMS e de boa parte dos organismos da ONU. Chantageou países árabes para acordos diplomáticos de relações com Israel. Trump agiu na política, como na sua vida real.

Talvez, e aqui é um real talvez, por conta desta maneira de agir, ele conseguiu atrair tantos extremistas a sua volta. Ele os tratava como iguais. Seus simpatizantes jamais foram hostilizados ou desprezados, mesmo quando cometiam um crime. Com esta mensagem compreendida, não foi nada demais tentar tomar o Congresso de assalto em frente as câmaras.

O sentimento de impunidade foi uma boa motivação. Some-se a ela a crença real de que as eleições foram roubadas e de que o país será entregue aos comunistas. Pronto, a receita do impensável está pronta. Basta uma ordem, que nem precisa ser direta, pode ser em um olhar, um movimento de cabeça ou um gesto. A massa compreendeu e lá se foram para fazer história em um dia, e responderem processos no outro.

Desta vez a democracia prevaleceu, mas nem sempre é assim. O sistema democrático é frágil e precisa se resguardar. A liberdade de pensamento é uma noção democrática que exige limites. Ninguém pode usar desta máxima para destruir a democracia. Não se pode permitir um partido político que pregue a ditadura, como não se pode permitir que alguém pregue a morte dos que não comunguem com o seu pensamento.

A Liberdade de Imprensa é um pilar da democracia, mas a oligarquia de imprensa não pode existir. Ela concentra na mão de poucos o poder da informação e do acesso a ela. Imprensa Livre é aquela que obedece a normas regulatórias para evitar sua concentração nas mãos de poucos que determinam qual informação poderá ser acessada, e aquela que deve ser suprimida, da mesma maneira que o sistema financeiro é livre, mas não permite a concentração de negócios em setores essenciais nas mãos de uma mesma empresa.

A democracia brasileira é ainda uma criança. Está longe da maturidade e por isso nosso sistema jurídico é tão politizado. Ainda somos incapazes de lidar com questões importantes sem que tudo acabe judicializado, o que faz com que, ironicamente falando, o Poder Judiciário se torne um poder acima da lei.

Felizmente, com todos os seus defeitos, a democracia permite que de alguma maneira, mesmo aquele que foi escolhido pelas urnas para presidir o país, possa ser processado e na forma legal, afastado do poder. Não é simples, mas vamos chegar lá.

O estrategista do mal

Entre momentos de insônia e pesadelos, eu e mais alguns bilhões de pessoas pelo mundo vivemos horas de extrema tensão na noite de quarta, 6, para quinta-feira, 7 de janeiro de 2021. No meu devaneio, em primeiro plano, as imagens do Capitólio, em Washington, desfilavam a uma velocidade estonteante, sobrepondo-se umas às outras, para desembocar nos porões da ditadura civil-militar brasileira, onde as cenas de tortura deixaram Vlado e tantos outros sem vida.

Pela manhã, sonado, soube da morte de quatro pessoas na invasão do Congresso americano. Dois dias depois, somadas à de um policial. Que insanidade!

Por que milhares, senão milhões de pessoas, seguem cegamente um maluco capaz de por fogo no circo, sem perceber que este nunca olhou para além de seu próprio umbigo?

Trump, o homem dos cabelos platinados, não enterrou a democracia americana, mas ao apagar as luzes de seu mandato mostrou quão frágil ela é. Aquela democracia liberal, que muitos acreditavam capaz de superar todos os obstáculos graças à força de suas instituições, mostrou ser um gigante de pés de barro.

A invasão do seu símbolo máximo, o Congresso, se deu aos olhos do planeta, estarrecido, deixando gravada a imagem de um policial correndo pelas escadarias para fugir dos extremistas alucinados, sob ordens do fascista mor, que talvez acreditasse estar ali revertendo uma fraude que nunca existiu.

O mundo reagiu, se indignou, se deu conta de que, como disse George Walker Bush (aquele que inventou armas de destruição em massa para justificar o capítulo 2 da guerra do Iraque), os Estados Unidos tinham se transformado numa república de bananas.

Os chefes de Estado e de Governo se manifestaram contra aqueles atos de suicídio político. Todos denunciaram, salvo um, o amigo capitão, que revelou sua fidelidade ao amor descoberto tardiamente. Lembram-se do I love you?

Em se tratando do presidente brasileiro, nunca se sabe se agiu “só” porque é louco, ignorante, fascista, ou se foi também por estratégia política. Com ele, tudo se mistura. Não há dúvida de que foi tudo ao mesmo tempo.

Logo após o episódio do Capitólio, o ocupante do Alvorada veio à público ameaçar a idoneidade das presidenciais de 2022. Disse que se o voto eletrônico for mantido, o Brasil viverá cenas ainda piores que as vistas em Washington. Em termos de sofisma foi um golpe de mestre. Bolsonaro sempre criticou o sistema eleitoral, alegando a possibilidade de fraude, muito embora todos os especialistas o considerem muito mais seguro que as cédulas. Se ele não for reeleito, como esperam todos os democratas, alegará manipulação de hackers a serviço dos comunistas. Se vingar o voto em papel, a fraude será maciça (do seu próprio campo) e ele terá razões de sobra para reclamar a nulidade do voto.

Portanto, sairá vencedor dessa batalha.

O x da questão é que o Brasil não é os Estados Unidos, nossas instituições são muito mais frágeis que as norte-americanas, sem falar das forças armadas, que servem a Constituição.

Vale aqui citar a atitude do chefe do Estado Maior das Forças Armadas dos Estados Unidos, Mark Milley, que pediu desculpas públicas por ter participado de uma encenação polêmica do presidente Donald Trump, ocorrida no dia 1º de junho de 2020. “Eu não devia estar lá; disse o general.  Minha presença naquele momento e por todo o ambiente criado deram uma percepção de que os militares estavam envolvidos em política doméstica.”

Milley, pediu desculpas por participar de uma caminhada, ao lado do presidente Donald Trump, da Casa Branca até a Praça Lafayette, onde o republicano tirou uma foto com a Bíblia em frente a uma igreja que tinha sido danificada por manifestantes durante atos antirracismo pela morte de George Floyd, asfixiado por um policial branco, em Minneapolis.

Essa atitude mostrou que as forças armadas americanas pouco têm a ver com as brasileiras.

Atualmente, mais de 3 mil militares ocupam cargos no primeiro, segundo e terceiro escalões do governo, em lugar de pessoas muito mais qualificadas para as funções. Na verdade o Brasil é governado por uma comunidade civil-militar, exatamente como durante os anos negros da ditadura.

A liderança das nossas forças armadas, quando questionada, afirma que os militares respeitam e respeitarão a Constituição.  Resposta vista como a garantia de que não teremos um golpe militar. No entanto, em nenhum momento, foi dito que as forças armadas intervirão para evitar um eventual putsch. O militares se negam a falar sobre o assunto.

Além disso é útil lembrar que o capitão tem em mãos o controle de fato da Polícia Militar em vários Estados, da Polícia Federal, das forças armadas, dependentes do Ministério da Defesa, dos militares de pijama e da ativa membros do governo (que não vão querer perder a mamata), dos Serviços de Informação e dos milicianos próximos do 01, 02 e 03.

Isso para dizer que Bolsonaro, caso perca a eleição, apelará para as acusações de fraude e chamará para as ruas os seus torcedores fanatizados, que por muito menos já quiseram invadir o Congresso. Ao contrário de Trump no entanto, estará em situação de força para tentar o golpe. Não tenho dúvidas de que fará o impossível para permanecer na presidência. A roupa de ditador lhe cai como uma luva. Caso não consiga, irá negociar a anistia para todos os crimes que ele, sua família e acólitos cometeram.

A estratégia está montada ou, melhor dizendo, já está em andamento. Definitivamente, Jair Messias Bolsonaro não é apenas um louco, um ignorante, um fascista. É  também um estrategista do mal.

 

 

 

Uma democracia em cheque

Quem tivesse ligado a TV e visto as cenas da invasão do Congresso Americano, desavisado pensaria se tratar de um filme ou uma série. Como acreditar se tratar de cenas reais em um país onde as agencias de segurança costumam funcionar.

Não somente eram cenas reais, como foram comandadas pelo presidente do país. O lunático instigou seus seguidores a tomarem o Congresso para impedir que o vencedor das eleições presidenciais fosse declarado presidente.

Entre os invasores, grupos de judeus e nazistas cuja idolatria a Trump é capaz de  superar suas diferenças. Supremacistas com a bandeira confederada receberam juras de amor do presidente dos EUA. Racistas transitaram pelos corredores atacando os poucos policiais que tentaram resistir. Sem dúvida alguma, foi um caos promovido por diferentes facções da direita radical americana irmanadas em defesa de seu mestre.

Vale ressaltar que uma manifestação de “Vidas Negras Importam” que passou próxima ao Congresso há pouco tempo, assistiu a um Congresso protegido por centenas de agentes de polícia. Claro que neste caso não eram brancos comportados e civilizados que se manifestavam, uma invasão podia acontecer e foi preciso uma ação preventiva. Bem diferente de quando o presidente do país faz uma manifestação de desagravo ao resultado da eleição. (usei de sarcasmo para quem não entendeu).

A chamada democracia americana é uma ilusão. Enquanto no mundo inteiro o vencedor de uma eleição é aquele que recebe mais votos, lá o presidente é eleito por delegados de estados. Na verdade o eleitor está participando de uma pseudodemocracia, o seu voto se somado a maioria nem sempre elege o presidente. Trump se elegeu assim. Hillary teve mais votos, mas menos delegados.

Trump não é o político tradicional, nunca foi. É um homem de negócios, um empreendedor, empresário que sempre usou do poder do dinheiro para prevalecer. Péssimo pagador, deve milhões ao fisco americano e corre sério risco de parar na cadeia quando deixar a Casa Branca.

Na política usou das mesmas táticas para impor seus desejos. Chantageou meio mundo árabe para aceitarem relações diplomáticas com Israel em troca de armas. Retirou os EUA do Acordo do Clima, impôs sanções econômicas ao Irã depois de se retirar unilateralmente do acordo atômico que o país cumpria.

Com a China teve seus momentos de amor e ódio. Ultimamente, que se diga, muito mais ódio. Tentou dobrar o país de todas as maneiras. Rompeu acordos comerciais, impôs sanções, aumentou impostos de importação de seus produtos, obrigou empresas americanas a suspenderem suas atividades na China, tentou retirar as companhias chinesas do 5G da telefonia celular etc.

Teve seus momentos na TV. Participou do Reality The Apprentice (O Aprendiz). Nele um grupo de pessoas precisando desesperadamente de um emprego, precisam agradar Trump, o chefe, para permanecerem no programa. A cada semana, o chefe vai eliminando participantes até que resta um, aquele que recebe o emprego. Para chegar lá, precisou cumprir diversas tarefas, mas acima de tudo, teve que passar por cima dos demais competidores. Nem sempre venceu o mais capaz, mas sempre o que mais agradou o chefe.

Esta figura sinistra, filho da meritocracia, um capitalista sagaz, tomou o Partido republicano e se elegeu presidente. Soube jogar de acordo com as regras e montou uma estratégia para ter mais delegados no colégio eleitoral, não para ter mais votos. Deu certo e o mundo teve de conviver por quatro anos com ele.

De temperamento difícil, mimado como uma criança, não conheceu adversários no seu partido. Mesmo entre seus apoiadores semeou discórdias e sempre que contrariado não hesitou em despedi-los. A lista é longa. Trump conseguiu ter seu nome marcado para sempre. Para seus apoiadores um Deus na Terra, para seus opositores, um demônio.

Os EUA tremeram nesta semana. Boa parte das lideranças políticas temem pelas instituições, acham que Trump continua sendo um perigo para a democracia faltando poucos dias para o término de seu mandato. Uns sugerem o inédito segundo Impeachment, outros o uso da Emenda 25 que permitiria seu afastamento com o vice assumindo a presidência. Todos parecem compreender o perigo que ele continua representando.

Trump foi um ídolo para outros países também. Bolsonaro, por exemplo, está convencido de que as eleições americanas foram fraudadas em favor dos democratas. Que o Covid-19 foi criado em um laboratório chinês para que pudessem vender uma vacina com nanorobôs que nos transformaria em comunistas.

A queda desta figura nefasta é um alívio para todo o mundo. As lições sobre como ele chegou ao poder precisam ser aprendidas para que nunca mais volte a acontecer. Se a democracia americana não mudar, o fascismo vai voltar com mais força e desta vez para ficar. Eles com certeza aprenderam a lição de que eleições não são um bom negócio.

 

A agenda do caos

Em um dos mais estarrecedores episódios testemunhados por este autor, nesta semana o presidente Donald Trump foi exposto em uma mais que constrangedora gravação de ligação telefônica com o secretário de estado do estado da Geórgia, nos EUA, onde tentava convencê-lo sob os mais nefastos argumentos a “arrumar” 11780 votos a favor dele, de modo que, usando de “pessoas dotadas de vontade de resolver o problema, e como excelente advogado que é”, providenciasse uma fraude eleitoral que lhe fosse favorável.

Esta iniciativa, se é tão surpreendente enquanto atitude de um agente de estado, em absoluto não surpreende quem conhece a vida íntima das empresas privadas, estas tão protegidas por legislações que garantem o sigilo de negócios, a privacidade de pessoas físicas e jurídicas, o sigilo bancário, telefônico, eletrônico, e onde os trituradores de papel devolvem a verdade à poeira cósmica.

Se algo de bom pode sair do episódio é a clara e cristalina leitura do que é a vida cotidiana nos intestinos das grandes corporações das quais Trump é um perfeito representante, seja do ponto de vista técnico, ético e comportamental como político. Em síntese, o episódio revela uma verdade totalmente arraigada nessas instituições que viram na candidatura de Trump a sua maior oportunidade de tomada do estado que talvez o mundo já tenha presenciado.

Mas nada disso seria suficiente para os agentes de poder econômico e poder de fato que irromperam no cenário Reagan/Tatcher, que derrotados politicamente em alguns contextos europeus e sulamericanos foram levados à radicalização por um novo projeto de poder, este já passando distante do campo democrático tradicional.

Talvez pelo sucesso da democratização da internet e da informação, pelo qual maiores parcelas da sociedade tornaram-se conscientes das ameaças do neoliberalismo, os agentes do poder passaram a adotar uma nova estratégia, desta vez mais profunda, cruel, vingativa e perversa, pela qual agiriam para desorganizar os sistemas de informação (e formação) através da propagação persistente e intensa das fake news e das teorias conspiratórias com o claro objetivo de corromper a linguagem, o senso de realidade, de ciência, de democracia e de cultura institucional de modo a atingir em cheio a maior força de estabilidade das sociedades: os laços de confiança entre os indivíduos e entre os indivíduos e as instituições políticas, sociais, científicas e culturais (se é que podemos segmentá-las desta forma).

Ainda na agenda estadunidense, hoje novamente agudizada pelos choques entre fascistas e as forças de segurança e representação no Congresso (Capitólio), vimos hoje novamente a resultante dessas rupturas de laços de confiança daquela sociedade, tragicamente capitaneada pelo líder da nação ainda no exercício do cargo, o que expos à vergonha mundial a nação tida como a mais poderosa da Terra.

Não é implausível que de alguma forma esses fenômenos se reproduzam no Brasil em futuro próximo, dado que diversos ensaios de movimentos semelhantes já foram levados a cabo, não obstante a ação incisiva de alguns agentes de algumas instituições democráticas brasileiras que ainda operam no campo da razão e da lei.

O mais importante e sensível no momento e que se apreenda, de uma vez por todas, a ideia de que existe uma agenda do caos em operação e progresso no mundo, e que as instituições correm real perigo. A vitória de Biden nos EUA e uma eventual derrota de Bolsonaro em 2022 (ou antes) não trará soluções pelos fatos em si mesmos. É fundamental uma agenda sociopolítica especificamente desenhada e executada como contraposição à agenda de rupturas que fundamenta todo o processo que levou Trump e Bolsonaro ao poder (e ao Brexit na Inglaterra) e que ainda permanecerá arraigada profundamente à realidade visível nos planos mais imediatos da realidade.

Tempos difíceis e imprevisíveis pela frente.

Um pouco de alento

E começamos 2021 para tentar esquecer o ano que passou. Infelizmente, em muitos países, ele será a repetição da mesma tragédia. Países que não tiveram o cuidado de garantirem vacinas para sua população, vão continuar sofrendo as consequências.

Mas nem tudo são tragédias.

Vamos ter um novo presidente nos EUA. Ao menos, o pior presidente americano de todos os tempos está deixando o cargo. Dele, os americanos se vacinaram, assim espero. Não quero dizer com isso que Biden seja muito melhor, mas convenhamos, Trump precisava sair.

O mundo como conhecemos vai ser reconstruído. A Inglaterra deixou a Europa e voltou a ser a ilha que sempre foi. Os ingleses não fazem ideia das consequências para eles, e por enquanto, aguardam o destino que lhes está reservado. Imaginam que. Independentes, sejam capazes de melhorarem de vida sem o Mercado Europeu como sócios.

A Argentina deu um exemplo de civilidade para a América Latina e o mundo ao aprovar a Lei do Aborto. Milhares de mulheres serão salvas da morte em consequência de terem assegurado este direito e não precisarem mais recorrerem a abortos em clínicas clandestinas.

Conhecemos novas formas de solidariedade. O uso da máscara e o distanciamento social ajudaram a salvar vidas. Muita gente vai continuar usando máscara nos invernos para se prevenir de gripes e resfriados.

A ciência vai utilizar a mesma técnica das novas vacinas contra o Covid-19 para prevenir outras doenças e nos preparar para o surgimento de novos vírus no futuro. Um grande passo da ciência que vai beneficiar toda a humanidade.

É preciso poupar. Talvez esta seja a maior das lições. A sociedade precisa aprender a ter reservas econômicas para situações inesperadas. Os governos precisam garantir formas de poupança que garantam aos cidadãos que lhes sejam supridas as necessidades mínimas diante de situações de quarentenas.

As relações de trabalho também serão diferentes. Aprendemos que para muita gente é possível trabalhar de casa sem a necessidade de deslocamento diário para as sedes das empresas. Menos tráfego, menos poluição e combustível mais barato para lazer.

Encontros virtuais vão continuar acontecendo. Sem prejuízo da visita presencial, muitas apresentações de produtos e negócios vão continuar acontecendo pelos programas de conferência virtual. Mas não são só negócios, amigos e familiares podem se ver com mais frequência pela Internet.

O ano virou, foram muitas perdas. Agora precisamos levantar a cabeça, deixar os lamentos para trás e seguir em frente. Temos muito que fazer. Resistimos até aqui e vamos continuar resistindo até que surja um novo Brasil sem isto que está na presidência.

 

Vacine-se!

Muito em breve o mundo vai conhecer uma nova divisão de classes sociais, a dos vacinados e a dos não vacinados para o Covid-19. Isto nunca aconteceu antes, e as consequências por enquanto são meramente especulativas, mas nem por isso, menos estarrecedoras.

Em Israel, a vacinação deve começar antes do final do ano. A estimativa, pelo menos o desejo do governo, é de vacinar 60.000 pessoas por dia. Se for assim, em 150 dias toda a população estará protegida. Como nem todos precisam se vacinar, e nem será alcançado um número tão grande de vacinações diárias, fica elas por elas e em aproximadamente 5 meses a pandemia será história num país com 9 milhões de habitantes.

Aqui já se fala que os vacinados vão  receber uma espécie de passaporte verde. Uma licença para andar livre pelas ruas, poder frequentar cinemas e teatros, rezar nos seus templos, viajar etc. Em outras palavras, se transportar de volta para 2019, ou para quando o vírus pertencia somente aos filmes de ficção.

Israel é um país pequeno, nem todos os países vão poder vacinar toda a população em poucos meses. Então na maioria das nações vamos ter convivendo ao mesmo tempo aqueles que estão livres para voltar a nova normalidade, junto com aqueles que ainda vão ter de usar máscaras, manter a higiene e o distanciamento social. Imaginem isto nas ruas. Complicado.

Em teoria, quem não se vacinou, por qualquer razão que seja, precisa se manter dentro das regras. Por um período de tempo estas pessoas serão cidadãos de segunda categoria. Vão continuar não podendo frequentar os mesmos lugares dos demais e terão restringidos seus movimentos, mais ou menos como estamos neste momento.

Vamos ter numa mesma família vacinados e não vacinados. O mesmo nas empresas, nas escolas, no transporte público etc. Por um período de tempo a convivência ainda será apartada e nem todos vão poder voltar a receber beijos e abraços de seus entes queridos. Muita paciência nesta hora.

As vacinas não vão chegar em todos os lugares e para todos ao mesmo tempo. Obviamente que para proteger toda a população serão necessários no mínimo alguns anos. E se a vacina for como a da gripe, será necessário fazer isso anualmente. Enquanto uns ainda nem receberam a primeira dose, outros vão estar precisando se revacinar. A logística para isso é sem precedentes.

No momento existem dois tipos de vacinas, a desenvolvida pela Pfizer e Moderna com uma nova tecnologia, e as tradicionais como a Sputnik. As primeiras exigem duas doses, as outras uma só. A da Pfizer necessita ficar armazenada em -70º C, o que complica muito sua chegada em países mais pobres com pouca estrutura. O desafio para vacinar toda a população da Terra é enorme.

Infelizmente o Covid-19 ainda vai permanecer vivo e ativo em nosso planeta por muito tempo fazendo vítimas. O bom é que deixará várias lições para serem estudadas e aprendidas. Foram muitos erros e poucos acertos até aqui. Cada país lidou com a ameaça a sua maneira. Necessitamos que sejam criados protocolos internacionais para futuras ameaças. A contenção terá de ser imediata e a reação não vai poder levar o tempo que levou, as perdas em vidas e econômicas ainda estão sendo contadas.

Mas sejamos otimistas, uma luz surgiu no fim do túnel com a chegada das vacinas. Depois de tantas perdas neste ano trágico, este é o melhor presente de Natal de todos os tempos.

Boas festas!