O brasileiro e seu best self

Em meados do primeiro trimestre deste ano, viu-se de forma quase aturdida as ações de desprezo por parte do presidente e seus apoiadores pela vida dos brasileiros. Ao examinar jornais e fotos daquele mês, é possível detectar as ações das pessoas que participaram das passeatas no dia 15 de março. Postadas em redes sociais e em grupos de mídia de ampla abrangência, muitos desses atualmente investigados na CPI das Fake News, prestavam apoio incondicional ao seu líder. Saudosos à ditadura e a um militarismo a la república de bananas, bem como a pauta presente à época, e ainda hoje: a aclamação (in)popular pelo fechamento do Congresso e Supremo Tribunal Federal, viram suas ações desmoronar, até certo ponto.

Com o bloqueio e a extinção de vários sites que saíram de circulação, e também pelas imposições causadas pela pandemia, além da prisão de uma representante do grupo “300”, o qual raramente contou com mais de 20 pessoas, essas ações ficaram um tanto quanto adormecidas. Com isso, parece que paira uma certa latência no ar. Estariam os bolsonaristas fazendo um espécie de download existencial? Talvez. É possível que exista relação com o contundente envolvimento em corrupção pelos filhos do presidente, ou ainda, pela própria inoperância e incompetência com que o executivo tem lidado com a administração pública, ou mesmo pelo fato de que se vive a maior pandemia do século sem um ministro da saúde. As razões são infinitas.

O grande número de apoiadores surpreende. E com tudo que têm enfrentado os brasileiros, nestes 18 meses de governo, qualquer um questionaria se há algum traço que identifique tais pessoas (latentes) como anormais. No entanto, não há! Possivelmente, se fala em sujeitos que levam uma vida como a de qualquer outro ser humano que trabalha, estuda, cuida dos filhos, vai à feira, ao supermercado. Devem ser considerados cidadãos de bem. Pergunta-se, porém, o leitor, por qual razão empenham-se em uma cruzada rumo às trevas? Sem qualquer relação direta com o Estado Democrático de Direito?

Ao contrário, é observado um certo fervor em exaltar os anos de chumbo vividos neste país, bem como as múltiplas ações arbitrárias que vão de encontro à própria democracia e às liberdades individuais. Nem nos tempos da ditadura houve tantos militares em cargos políticos. Apontar que esses apoidores são contra a corrupção é uma forma rasa e simplista de tratar o assunto, visto que todos são contra a corrupção. O que gera aqui uma questão pragmática, pois ao falar em corrupção, é preciso dizer de quem, ou como, ou ainda, quando? Fala-se até em perdoar o PT, como se houvesse algo do tipo: “eu sei o que vocês fizeram no verão passado”, mas segue-se a máxima de que não há nada tão ruim que não possa piorar. No campo da educação, a exemplo das trocas com diversos ministros, bem como seus respectivos perfis “técnicos”, essa máxima é levada a níveis consideravelmente altos.

Esses mesmos cidadãos levantam a bandeira do que consideram política e o dito “politicamente correto”, no entanto, estão há anos-luz do pensamento crítico, o qual realmente leva as pessoas a pensarem de forma política, dentro de um contexto sócio-histórico e cultural. Isso, no Brasil, virou coisa de comunista. E é facilmente evidenciado quando empregam frases de efeito e sugestões de tomada do poder pela força, utilizando-se dos símbolos nacionais, para com isso, fortalecer uma ideia suprema de governo, de povo. Estão de fato não só fazendo apologia ao pensamento obscurantista, como à própria ignorância política, característica de quem vê em formas democráticas de poder, um problema a ser vencido. A esses, se lhes fosse dado o direito de escolher, não seriam brasileiros, mas Americanos, Canadenses, Alemães.

Obviamente que esses mesmos sujeitos encontram respaldo em manifestações de caráter neofascista, distorcendo informações e conhecimento, conforme suas orientações ideológicas e até religiosas. Atualmente o que se vê é uma onda negacionista, em parte alimentada por outra esfera altamente ideológica do governo, a ala evangélica. Fica nítido que a necessidade de se fazer presente, mesmo em um momento de pandemia, coloca a figura política (do presidente) e seus apoiadores, ainda com todos os riscos à saúde pública, e infringindo a própria constituição, em uma espécie de simbiose histérica.

Lembra inclusive o líder religioso Jim Jones, que motivado por questões religiosas, e uma loucura coletiva, levou 909 pessoas a cometerem suicídio. Aqui, os apoiadores agem como suicidas, mas também como assassinos indiretos. Uma pesquisa liderada pela FGV apontou que o comportamento do presidente está ligado a pelo menos 10% das mortes decorrentes de Corona Vírus no Brasil, que hoje conta com mais de 75 mil mortos, ocupando o segundo lugar em mortalidade, atrás apenas dos EUA. Isso corresponderia a mais de 7 mil mortes diretas. A pergunta que fica é: quanto ainda o Brasil caminhará para trás e pagará com vidas, por conta de um irresponsável e seus fanáticos seguidores, que têm causado um verdadeiro genocídio em nome de uma obsessão política inoperante?

 

Uma surra na educação

De acordo com a Wikipedia, “A Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) é uma denominação reformada, portanto, crê que a Bíblia é a única regra de fé e prática, fonte de toda doutrina ensinada na igreja. Todavia, a IPB subscreve os Símbolos de Westminster: (Confissão de Fé de Westminster (CFW), Catecismo Maior de Westminster e Breve Catecismo de Westminster) que considera ser exposição fiel das Sagradas Escrituras. Tais confissões são modificáveis, caso a igreja perceba erros em suas declarações e não são vistas como sagradas ou inspiradas por Deus.

Entre as doutrinas expressas na CFW estão as doutrinas da:  Trindade; Difisismo; Predestinação; Graça Comum; Divina Providência; Queda e Pecado original; Depravação Total; Vocação eficaz; Expiação eficaz; Eleição Incondicional; Perseverança dos santos; Justificação pela fé; Ordo salutis reformada; Dois sacramentos (Batismo e Eucaristia) e a Guarda do Domingo como “sábado cristão”. Além disso, a CFW expressa uma visão positiva da Lei de Deus, afirmando que embora não seja possível que os homens a cumpram integralmente, ela é o padrão que revela o caráter de Deus e deve ser observada por todos os cristãos. O Evangelho não anula a Lei. Assim, embora o homem não possa ser salvo por cumprir a Lei, ele deve obedecê-la por ser a revelação da vontade de Deus para os homens.]

A CFW também afirma que todo poder é instituído por Deus, e portanto os cristãos devem obedecer os magistrados. Todavia, não pode o poder político interferir na igreja, seus sacramentos, cultos e ordens. A Confissão se opõe a bigamia, define casamento como relação apenas possível entre homem e mulher e só admite divórcio em caso de adultério e deserção irremediáveis. O sistema de governo presbiteriano é também definido na Confissão, regulando-se por sínodos e concílios.”

Sim, esta é a ideologia, ou a teologia, como preferirem do novo ministro da educação, Milton Ribeiro, Pastor da igreja presbiteriana.

Mal assumiu e já chegava as mídias sociais o que ele pensa e diz. Não o que disse há muitos anos, mas o que pensa realmente na atualidade: crianças podem sofrer castigos físicos (tomar uma surra, como se dizia na minha época), na sua teoria da “Vara Disciplinar”. Também diz que o homem é quem deve impor a direção da família. Estas são as suas credenciais.

O que pensar da educação no Brasil nas mãos de um sujeito que ainda obedece a preceitos religiosos ultrapassados? Que tipo de cidadãos vamos educar para o futuro? Um retrocesso no ambiente de respeito ao gênero, da igualdade da mulher e respeito as diferenças. Todo um conjunto de conquistas sociais que pacificaram a sociedade em termos de acolhimento social vão para o ralo. O romance de 1985 da escritora Margaret Atwood, The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia) vai se tornando uma possibilidade real.

O Brasil vai tomando todos os caminhos errados possíveis, seja na educação, na saúde ou na economia. Parece uma obcessão pelo quanto pior, melhor. Quanto mais conservador, mais repressivo, mais repulsivo, ideal.

Novamente vou me valer da Wikipedia para uma definição: “Humanismo é a filosofia moral que coloca os humanos como os principais numa escala de importância, no centro do mundo. É uma perspectiva comum a uma grande variedade de posturas éticas que atribuem a maior importância à dignidade, aspirações e capacidades humanas, particularmente a racionalidade.”

Eu acredito na capacidade humana para superar desafios de toda ordem. Acredito que a cada geração somos capazes de melhorar o mundo em alguns aspectos e mesmo na adversidade, encontrar caminhos éticos e morais que fazem deste mundo um lugar melhor para se viver.

Dito isso, também acredito que existam serem humanos que não fazem parte da nossa humanidade. Não pode haver perdão para aqueles que cometem crimes contra ela. Não se pode admitir que genocidas convivam na mesma sociedade de suas vítimas e desfrutem da impunidade.

Sem justiça, não pode haver paz, repetem os afrodescendentes americanos em suas manifestações contra o racismo, uma praga mundial. Toda sociedade preconceituosa é uma sociedade em permanente atrito social. É o que acontece com maior, ou menor intensidade em todos os países do mundo. Cada passo dado em direção as correções na educação, em punições mais rigorosas contra o preconceito nos elevam a novos patamares de bem-estar social e progresso.

A derrubada de estátuas deste tipo de gente no mundo todo é uma forma de jogar no lixo da história aqueles que prejudicaram as relações humanas, lugar merecido para eles. Que permaneçam sendo mencionados apenas nos livros como exemplo de doutrinas que superamos e renegamos, desejando que nunca mais sejam impostas.

Vivemos dias terríveis de pandemia mundial, de crises existenciais, crises econômicas e futuro incerto. Precisamos repensar o futuro como nunca antes visto. Nada pode voltar ao normal porque o normal deixou de existir. O momento para rever conceitos é o aqui e agora, superar o impossível e juntar forças para seguir em frente.

O mundo tal como o conhecemos até 2019 nunca mais será o mesmo depois de 2020. Como será o Brasil? Agora é o momento de usar toda nossa capacidade racional para sair da resistência passiva, para uma resistência ativa.

 

 

 

 

O olho que não quer ver

Diz o velho adágio que “o pior cego é o que não quer ver”. Pois é certo que por vezes temos a impressão de que o próprio olho, apenas um órgão no complexo sentido da visão, passa a ter vontade própria na rebelde perversidade da cegueira voluntária. É o que transpareceu na entrevista de ontem que o Ministro Luis Roberto Barroso, no programa Roda-Viva, da TV Cultura de São Paulo.
O Ministro Barroso constituiu-se, à época de sua indicação, como uma grande esperança para o setor progressista. Em entrevista pouco anterior à sua posse, descrevia o “Mensalão” como “um ponto fora da curva”, o que dava a impressão de ser uma visão crítica sobre os óbvios arroubos meramente moralistas do STF pelos quais a corte se conduziu, dando a impressão à sociedade de que aquilo que ali se julgava era algo realmente extraordinário e novo na política brasileira, nascida corrupta, crescida corrupta, e consolidada corrupta, sob as barbas longas e grisalhas no nosso sistema de justiça e dos órgãos fiscalizadores.
Se o Ministro exibe ao longo da entrevista um extenso cabedal filosófico pertencente ao mundo humanístico e iluminista, permeado de prudência, racionalidade, amor à ciência e devoção à democracia, escorrega pateticamente no “lavajatismo”, chegando a rezar o credo daquela classe média bem descrita pela filósofa Marilena Chauí, peça litúrgica que pretende nos levar a acreditar, nas suas próprias palavras, que “a eleição de 2018 foi uma resposta da sociedade que acreditou ser o certo o caminho do combate à corrupção”.
Nada pode ser mais contraditório e paradoxal do que em poucos minutos ouvir, da mesma pessoa, um discurso humanista e cientificista e o discurso raso do “o que aconteceu na Petrobrás foi crime”, como se a empresa fosse a sede das eventuais atividades criminosas e como se o tempo destas práticas fossem restritos aos governos do PT. Mas tudo pode piorar. O Ministro prossegue na sua exegese histórica afirmando que “a sociedade mudou depois da Lava-a-Jato, tornou-se menos leniente com a corrupção, e que os costumes mudaram”.
Temos então o tal olho que parece ter vontade própria de não querer ver, conectado a um cérebro que parece não ter processado adequadamente tudo o que o olho viu e ainda sem condições ou vontade de processar tudo aquilo que continua vendo.
Uma rápida passada de olhos no que está acontecendo hoje na gestão das OSS (Organizações Sociais de Saúde), aqueles monstrengos nascidos da maior fábrica de corrupção e corruptos da história recente da República, a Lei 9637/98, considerada constitucional pelo STF (já na presença do Min.Barroso, julgada 14 anos depois da instauração da ADI 1923) bastaria para se enxergar o contrário. A sociedade tornou-se ainda mais cega e leniente com a corrupção, e seus agentes ainda mais ousados, como se a crença na impunidade tivesse mesmo se ampliado aos múltiplos. Numerosos alertas foram feitos desde a sanção daquela lei, e não faltaram alertas de ministros mais antigos da corte (4 votos pela inconstitucionalidade) entre os quais o desesperado voto memorável do Min.Marco Aurélio Mello, que certamente já podia olhar a paisagem devastada pelo retrovisor, dado o alargado prazo entre a impetração da referida ação e seu julgamento.
Como ex-procurador do Estado do Rio de Janeiro, o direito de ignorar as práticas sistemáticas nas relações entre o público e privado que já levaram à prisão de 4 ex-governadores do RJ, de juízes, procuradores, de conselheiros do Tribunal de Contas do RJ, deveria ser algo não digno de ostentação, se não bastasse ainda o cenário do Estado de S.Paulo, onde quase nada se investiga e o pouco que se acha é arquivado sem prossecução criminal dos agentes em troca de acordos de indenização e leniência que poucas mães ofereceriam aos seus filhos.
Assim, a estreita visão espacial e temporal do Min.Barroso não combina com a amplitude e o estofo que exibe ao discorrer sobre as virtudes do iluminismo e do estado moderno, deixando-nos a árdua tarefa de buscar as raízes profundas do comportamento de um sistema ótico que na obsessão de formar uma imagem desejada perde-se nas aberrações cromáticas e geométricas próprias das lentes de má qualidade.
Estas contradições, embora humanas, não nos ajudarão a curar as doenças sistêmicas do Brasil. O Ministro Barroso frustrou-nos, definitivamente. Ingênuos fomos nós, que assistimos ao programa na esperança de algo realmente novo.

De Remendo em Remendo…

Já não tenho mais nenhuma dúvida de que o segundo maior erro da Constituição de 1988 (o primeiro foi instituir um regime presidencialista, mas regulamentá-lo como parlamentarista) foi o empoderamento do Ministério Público.

Trata-se, em princípio, de medida correta e democrática. Os constituintes, então, adotaram-na imbuídos das melhores intenções.

Só não previram o quanto a sociedade brasileira, em seu atual estágio de desenvolvimento, e com suas características centenárias, estava totalmente despreparada para isso.

Como todas as instituições importantes do país nesta quadra histórica, o MP é totalmente inacessível às camadas populares, que são as que dele mais necessitam.

E, na mão de nossa classe média ressentida, recalcada e atrasada, terminou por se tornar mais uma corporação a serviço da estrutura opressiva reacionária que sempre deu as cartas no Brasil.

Hoje, não surpreende a ninguém com um mínimo de discernimento o fato de ser ele um dos principais pilares de criação e sustentação do esquema que nos conduziu a um golpe, o qual pariu um regime miliciano de extrema direita.

De guardião da legalidade, o Ministério Público passou a promotor e avalista das mais escandalosas ilegalidades.

A imaturidade da sociedade brasileira diante de um avanço civilizatório tão significativo gerou uma instituição perversamente distorcida pela explosiva mistura de vaidades despropositadas e exacerbadas, arrogância petulante, punitivismo primário e sobretudo inócuo, corporativismo patológico, e arraigadíssimos preconceitos de classe.

Ao contrário de consolidar nossa democracia, o MP a freia naquilo que lhe confere o sentido mais amplo e profundo.

O andar da carruagem revelou que as pessoas – com inúmeras e fantásticas exceções, que nem por isso deixam de ser exceções – não estavam emocionalmente preparadas para tanto poder.

Ele não lhes bastou. Subiu-lhes à cabeça.

Passaram a buscar protagonismo em todas as searas que pudessem alcançar. Criaram a máxima de que ninguém está acima da lei. Exceto eles próprios.

Defensores constitucionais da legislação, não hesitam em flexibilizá-la escandalosamente, quando para dela se beneficiarem. O rigor é só para os outros.

Não vou ficar aqui apontando a fogueira de vaidades, já de todos bem conhecida.

Tampouco vou esmiuçar o papel vergonhoso do Ministério Público na construção do cenário desolador que hoje coloca o Brasil entre os párias do mundo. Há inúmeros analistas sérios que já o fizeram.

Vou me ater ao título, e abordar outras situações, que compõem e complementam o quadro à perfeição mas, a meu ver, têm recebido menos atenção.

O MP é responsável, hoje, por pelo menos dois remendos institucionais escabrosos, capazes, por si sós, de atrasar nosso processo civilizatório em anos, talvez décadas. Isto porque institucionalizam o combate aos efeitos, em detrimento das causas, de seríssimos problemas que afligem nosso País. E, pior, o fazem em afronta direta à própria Constituição, cuja defesa deveria ser seu dever primário.

Os remendos são filhos diletos dos já referidos punitivismo, corporativismo, preconceito e viés ideológico protofascista.

O primeiro deles é terem liderado uma luta, afinal vitoriosa, contra a PEC 37, que explicitava sua incompetência para investigar crimes.

A PEC, a rigor, era desnecessária, porque a Constituição é bem clara a respeito da exclusividade investigatória da Polícia Civil.

A posição do MP, contrária à Carta Magna, mas ainda assim hoje consagrada no Brasil graças à luta dele, em causa própria, é aberração visível a olho nu para qualquer observador minimamente inteligente e imparcial.

Importante lembrar que à época da discussão da PEC o principal argumento de nossos “bravos” procuradores era o de que a Polícia Civil não dispunha de condições para dar conta da missão satisfatoriamente.

Então, ao invés de reconhecerem esta situação como causadora da deficiência crônica das investigações criminais, liderarem um esforço para revertê-la, e criar uma discussão séria a respeito da questão policial no País – e os céus sabem o quanto precisamos disso! –, o que fazem Suas Excelências? Remendam-na, em benefício próprio. Utilizam todo o poder que a Constituição ingenuamente lhes outorgou para enganar a população, e mobilizá-la no sentido de levar sua instituição ao proscênio. Isso também ao argumento – implícito, mas nem por isso menos cafajeste – de que ela sabe melhor. Só eles são bons. O resto é o resto.

O resultado? Quem investiga é o mesmo que acusa, o responsável pelo controle externo da polícia faz o trabalho da própria polícia, y otras cositas más. Uma barafunda.

O segundo remendo também foi vitorioso em certo momento. Hoje, felizmente, o Supremo Tribunal Federal restaurou a sanidade. Resta saber até quando.

É inadmissível a atitude do MP de pressionar – outra vez – para que se institucionalize a inconstitucional – outra vez – prisão do réu antes do trânsito em julgado de sentença condenatória.

O argumento de que a obediência ao texto constitucional vai causar impunidade, e que centenas de criminosos serão libertados outra coisa não é – outra vez – do que um remendo. Dos mais tristes e perigosos.

Afinal, por que, diabos, há tantos presos cujos recursos não são julgados?

Ao invés – outra vez – de trabalharem para diagnosticar e reverter as causas da morosidade da justiça, da linha de produção de criminosos em que se transformou a sociedade dos despossuídos, e da consequente superpopulação carcerária (entre as quais a brutal injustiça social que nos assola), o que fazem Suas Excelências? Buscam – outra vez – alçar-se ao protagonismo descabido, desta vez para satisfazer sua sanha vingativa. A qual, por isso mesmo, perde o sentido mais amplo que deveria ser inerente à função acusatória, de saneamento do tecido social.

Não é por acaso, absolutamente, que a quase totalidade dos promotores e procuradores provenha de famílias brancas e abastadas. Tampouco é por acaso que a esmagadora maioria das pessoas que eles não querem ver na rua seja composta de pretos e pobres.

Eles sabem disso, mas fingem, apenas fingem, que não. Sabem que do contrário não poderiam explicar sua inércia, que é fundamental para manter o bem-bom, garantir que os excluídos não o ameacem e, de quebra, ainda conseguir uma boa e farta exposição na mídia. Porque, afinal, ninguém é de ferro!

O problema do remendo é que termina por sempre desrespeitar o contexto original.

E quando – outra vez – o galo cantar, sequer haverá brioches.

 

  • Agradeço a leitura crítica e contributiva de Tânia Maria Baibich.

Fora de controle

Para completar a “semana jurídica” onde tivemos o juiz federal Bretas (RJ) adulando Bozo em cerimônias públicas, o que fere o código da magistratura, e Moro jogando Lula no alçapão da lei de segurança nacional (até onde sei a PF rejeitou a queixa), a presidenta da 1a. câmara do TRT Região 15, Dra. Olga Aida Joaquim Gomieri disse ser ‘fãzona’ do presidente, que ‘está brilhando’, ‘com muita garra’, fato que foi filmado em plena sessão de julgamento, algo que em uma visão nem tanto alargada fere também o código da magistratura além de ferir o princípio constitucional da impessoalidade na função pública e da isenção na jurisdição.

Não há muito tempo, a desembargadora Dra. Marilia Castro Neves, do RJ, ofendeu gravemente Marielle Franco, acusando-a de ser “engajada com bandidos”, o que lhe valeu a condição de ré por crime de caúnia.

A densidade crescente de maus comportamentos de magistrados, sua ousadia, e a natureza das lesões aos códigos públicos, à Constituição e a qualquer código de ética de um regime democrático de direito, mostram que está em curso uma verdadeira epidemia de algum tipo de desordem cognitiva caracterizada pela incapacidade de compreensão e adequação de comportamentos e instintos atávicos dessas senhoras e senhores.

É claro que o número de ocorrências deste tipo que vêm a público não é em si mesmo alarmante. Mas temos que considerar, como em qualquer dinâmica sócio-cultural, que a aberração que chega à observação plena da sociedade é um mero sintoma de uma condição subjacente de dimensões difíceis de se avaliar.

Como exemplo comparativo, o recente episódio do ex-secretário da cultura do governo federal entoando Goebbels ao som de Wagner postado em imagem rigorosamente construída à semelhança do regime nazista é também sintoma do aparato ideológico subjacente que criou todas as condições para que aquilo ocorresse, o que envolve um grande número de pessoas dos mais variados níveis hierárquicos.

E se temos que nos lembrar do passado nazista, temos que também lembrar que a máquina nazista apoiou-se fortemente no judiciário alemão da época. Em outras palavras, toda a construção nazista foi feita rigorosamente dentro da lei e julgada inocente.

Para muito além do caráter picaresco ou ridículo das cenas que vimos observando, o cenário mostra que pessoas investidas do poder de dizer à sociedade o que é certo e o que é errado, o que é legal e o que é ilegal, o que é criminoso e o que não é, estão com seus sistemas internos de pesos e contrapesos bastante desregulados, o que é um risco gravíssimo à democracia, o que não é tão novo. Talvez a Operação Lava-a-Jato possa ser mesmo vista aos olhos da história como verdadeira inauguração de era.

Eu saúdo o Papa Francisco

SHABAT SHALOM, PAPA FRANCISCO!

Sou judeu e pouco tenho a ver com isso. Mas por ser judeu humanista e universalista não posso deixar de comentar algumas coisas.

Ver católicos revoltados com o Papa por ter recebido Lula no Vaticano é realmente algo inusitado.

Espera-se de um católico (que conheça minimamente a Paixão de Cristo) e outras partes da Bíblia que tenha capacidade de refletir sobre o conceito de pecado, crime, condenação, e sobre o Jesus histórico ou o Jesus homem.

Espera-se de um católico que conheça o fato de que nenhum idiota chega ao papado. Que para sentar-se no trono de São Pedro há de se comer muitos pães amassados pelo diabo. É muita formação, muita informação, muita disciplina, muita continência, muita capacidade. Inclusive sobre leis.

Como judeu, eu poderia até ficar verde de raiva e de sede de vingança contra a Igreja Católica. Mas meu tempo e lugar é outro. O Papa Francisco também está em outro tempo e lugar. Temos a felicidade e o privilégio de poder vê-lo à frente do Vaticano, pedindo perdão pelos erros do passado e lutando para corrigir os atuais.

Assim, é difícil imaginar-me como católico e não me sentir verdadeiramente intimado a uma reflexão profunda sobre o fato de o Papa Francisco receber Lula. Se sou católico observante e conhecedor da Igreja e do Papa, sou obrigado a rever meus conceitos e ideias preconcebidas sobre Lula quando o Papa o recebe. Na realidade, quando o Papa recebe Lula, ele convida todos os católicos que não gostam do Lula a fazer isso. Afinal, tenho que ter como pressuposto fundamental que o Papa tem conhecimentos, experiências e uma capacidade que eu não tenho.

Se como católico, coloco-me acima do Papa, é por que nunca fui católico. Não aprendi nada. Estou condenando uma pessoa simplesmente por que outras o condenaram. Isto, a Bíblia chama de “fofoca”. E penaliza gravemente, especialmente aos judeus, uma vez que este regramento é da Torá, ou Pentateuco, parte das Bíblias cristãs e judaicas.

O Papa sabe que boa parte da Lava-a-Jato é fofoca. O Papa sabe o que é LAWFARE e está protestando contra isso. Para tomar esta posição, ele, além de ser muito sábio e corajoso, está muito bem assessorado. Muito melhor do que pseudocatólicos hidrofóbicos e ignorantes.

Eu saúdo o Papa Francisco! Muito obrigado pela sua coragem!