Justiça, que justiça?

Toda vez que perdemos um companheiro de trincheira, uma enorme tristeza se abate sobre todos nós. Ninguém é perfeito e obviamente cada um de nós tem seus defeitos, para o bem e para o mal. Nesta hora isso perde relevância e nosso sentimento de perda é como de um elo da corrente que se abre e precisa ser preenchido novamente. Paulo Henrique Amorim, descanse em paz sabendo que seguimos na luta.

Desde que o terror deste governo chegou ao poder, com todas as consequências de ter na chefia do poder um mentecapto disfuncional, que a cada dia traz uma nova surpresa nos matando de vergonha, é preciso repensar como acabar com isso.

Em um estado democrático eu diria que bastaria aguardar as próximas eleições. Este é o caminho natural das coisas. Quem não deseja dar continuidade a isso que está aí, vota em outro candidato. Simples assim.

Nosso problema é que não existe um estado de direito. Assim sendo, vivemos uma meia democracia. Visto de fora, temos eleições livres onde cada cidadão representa um voto. Visto de dentro, vivemos um pesadelo eleitoral onde uma presidente é retirada do poder sem nexo causal, e um candidato a presidência é impedido de concorrer para dar a vitória para seu concorrente.

Tenho acompanhado o Glenn Greenwald em sua passagem pela Câmara e o Senado explicando o trabalho do The Intercept na divulgação das trocas de mensagens entre o ex-Juiz Sergio Moro e promotores do MP que acusam o Presidente Lula de receber propinas.

O interessante não é escutar os deputados e senadores que estão do nosso lado, é escutar os que estão a favor de Moro. É um exercício de parcimônia. São necessários paciência, contenção, medicação para pressão alta, taquicardia etc., tudo a mão.

Eles perguntam porque não entregar o material para perícia de órgãos de segurança como a PF do Brasil, ou o FBI e a CIA americanos (como se eles não tivessem mais o que fazer) e o Glenn explica que em nenhuma democracia do mundo um jornalista entrega material para qualquer órgão de segurança antes de publicar. E os caras insistem que é tudo falso.

Eles dizem que o material poderia ser falso, ou meio falsificado para atender o que desejam os inimigos de Moro. O Glenn explica que outros meios jornalísticos também periciaram o material e encontraram, por exemplo, diálogos que eles jornalistas trocaram com os promotores, palavra por palavra. Que procuradores que fizeram parte de alguns dos grupos e mantiveram as conversas em seus celulares, também encontraram os diálogos exatamente como estão sendo publicados, palavra por palavra. E os caras insistem que é tudo falso.

Alguns argumentam que Moro não poderia se lembrar de tudo e que já não possui os originais consigo. O Glenn explica que outros promotores têm consigo os originais. Que Moro até hoje não disse que o material era falsificado e que não se reconhecia neles. Tanto assim que até pediu desculpas ao MBL por tê-los chamados de tolos. Que o Moro parece ter uma estranha amnésia com relação aos fatos. E os caras insistem que tudo é falso.

Outros dizem que o conteúdo, mesmo que fosse verdadeiro não desabona o trabalho da Lava Jato. Glenn explica que em qualquer democracia do mundo, um juiz que confabulou com uma das partes de um processo seria imediatamente afastado, os casos julgados anulados e ele processado. Não se trata do trabalho da Lava Jato, mas de um caso específico contra uma pessoa específica. E os caras insistem que tudo é falso.

Em resumo, o nível de alguns parlamentares que estão neste congresso faz o Tiririca pensar como era feliz como palhaço. Tem gente ali com sérios problemas de concatenação lógica.  Tico e Teco não se falam. Sinopses neurais queimadas.

Não existem argumentos que os faça compreender o que está acontecendo, ou que os convençam de que seu herói talvez tenha cometido atos que o desabonem, condenáveis em qualquer cenário democrático no Planeta Terra.

Ainda existe muito material para ser divulgado. A cada vazamento as coisas ficam mais claras e mostram desnudando o que de fato aconteceu. Um conluio sinistro, fora da lei, com objetivos claros de interferência política de acordo com as convicções dos envolvidos.

O que mais se faz necessário para mudar alguma coisa? Realmente a Vaza Jato será capaz de fazer mudanças? Até que ponto se deseja fazer justiça, quando a única opção é a de anular os julgamentos do Presidente Lula?

Todo sistema judiciário está sendo colocado a prova. É um dos seus, desta casta de deuses superprivilegiados que está mostrando que o cumprimento da lei pode ser relativizado de acordo com interesses políticos.

Esqueçam da lei, esqueçam da justiça e não criem falsas esperanças. Este STF fez parte do golpe e dele não se pode esperar nada. E como nada está tão ruim que não possa piorar um pouco mais, vem aí o Ministro Terrivelmente Evangélico.

Moro, tua hora chegou

Sergio Moro é o resumo de um Brasil que a gente teima em dizer que não existe, mas que se faz presente no nosso dia a dia. É o país que se imaginava no passado, aquele da Casa Grande e Senzala. Mera ilusão, Moro está aí para provar que são os medíocres do andar de cima quem realmente mandam.

Eu conheço muitas pessoas que deixaram de advogar. A principal razão deles é a decepção com o sistema jurídico. Receberam seu diploma, passaram no exame da Ordem e pensaram que estariam ajudando a sociedade a fazer justiça. No seu imaginário os maus pagavam por seus crimes e os inocentes eram absolvidos. Idealistas, eles ainda tinham em conta o Código de Ética dos Advogados, e por ele pautavam suas ações. Infelizmente a realidade logo se fez presente e com ela a desilusão com a profissão. Uma lástima que sejam eles a pularem fora abrindo mais espaço para os maus advogados.

Moro não perdeu a pose ainda. Para ele tudo pode ser relativizado. Como juiz ele nunca errou, quando muito pode ter cometido um pequeno descuido, um mero deslize, nada que possa comprometer sua ilibada conduta. Os que o acusam de conluio com o MPF exageram e deveriam estar procurando o verdadeiro criminoso, aquele que obteve suas conversas e as vazou. Matem o mensageiro.

Não há dúvidas de que a conduta de Moro não é a exceção. Como ele, juízes e desembargadores agem da mesma forma. Alguns em benefício da acusação, outros em benefício da defesa. A venda de sentenças é pratica incomum, mas existente no sistema judiciário. Toda esta sujeira sempre foi varrida para baixo do tapete. Eis que surge o The Intercept, levanta o tapete e sacode a poeira.

Agora a conduta pouco republicana de Moro precisa ser contida o mais rapidamente possível sob o perigo de se alastrar para outros membros do judiciário. Moro precisa ser sacrificado em nome do sistema e isso é o que vai acontecer. Uma vez esclarecida a má conduta dele, Lula poderá sair livre pela porta da frente. Isto vai provar que o sistema funciona e que a sujeira pode, discretamente, voltar para baixo do tapete.

Afastar Moro não muda em nada como a justiça brasileira se comporta. Os mesmos anódinos que hoje sentam no STF e no STJ, lá vão permanecer. As mesmas decisões esdrúxulas vão continuar acontecendo e isto é apenas o reflexo do que acontece na base. Cidadãos da Senzala são condenados e penas de prisão por roubarem um chocolate e assaltantes do dinheiro público, membros da Casa Grande, saem livres desfilando suas tornozeleiras eletrônicas.

Foi dado a Moro um crédito que representa bem o poder que a elite do país dispõe. Cansados de perder eleições, desta vez eles entraram para ganhar. Para isso não fizeram economias e não conferiram diplomas nem pediram atestado de bons antecedentes para ninguém. Jogaram sujo, muito sujo. Contudo, venceram.

Quando a Lava a Jato teve início em 2009, ela teve a repercussão normal de um caso de polícia. Um doleiro era preso por lavagem de dinheiro. Mas em 2013, fica-se sabendo que o dinheiro lavado vinha de propinas da Petrobrás. Em 2014 o número de envolvidos e os valores manejados já eram um assombro. Dilma cumpria seu segundo ano do primeiro mandato com as leis anticorrupção já vigentes.

Enquanto se tratou de uma investigação puramente criminal, a Lava a Jato levou a prisão inúmeros malfeitores. Mas quando em 2015, ela se politizou definitivamente, a Casa Grande viu a sua oportunidade de voltar ao poder. Tinham tudo para vencer a eleição e colocar Aécio Neves na presidência, um filho da elite, um digno representante dos interesses dos Neoliberais, aquele que acabaria com a festa da ralé. Finalmente aeroportos deixariam de ser rodoviárias aéreas, fim das filas em restaurantes e o trabalhador voltaria para o lugar de onde nunca deveria ter saído.

Foi por muito pouco, mas Dilma venceu e o sonho virou pesadelo, e o pesadelo se transformou em uma obsessão. O PT precisava ser esmagado e Dilma tinha que de ser deposta. Um plano B foi armado. Um Impeachment destituiu a presidente eleita e o vice-presidente assumiu a nação. Temer era um deles, uma raposa política que sabia tratar de política como um balcão de mordomias. Agora era a hora de terminar de vez com qualquer pretensão de entregar o poder para um trabalhador novamente.

Não foi preciso procurar muito. Ele já estava lá. Só foi preciso convencer delatores a dizerem o que queriam escutar. Se delatassem conforme o script, poderiam deixar aquelas celas e voltar para suas mansões. Até parte do dinheiro roubado poderiam ficar com eles. E assim foi. Uma denúncia de pouca relevância em 2014 contra Lula começou a ser requentada. Leo Pinheiro, preso, passa a delatar qualquer coisa que os procuradores desejassem escutar. Aceita inclusive mudar seus depoimentos de maneira a ficarem coadunados com a necessidade de envolver Lula com o triplex.

Moro ia bem no projeto de poder da elite brasileira, mas já produzia disparates que logo eram saudados e encobertos pela mídia. Assim sendo, levar Lula para depoimento de coercitivo sem nenhuma razão legal e vazar o fato para a imprensa, foi visto como um pequeno exagero sem maiores consequências, uma vez que a população acompanhava tudo pela TV em êxtase.

Tivesse naquele momento o judiciário tomado uma atitude não contemplativa, mas menos tolerantes, talvez não tivessem ajudado a alimentar o monstro. Não o fazendo, foi fácil desprezar o vazamento dos grampos envolvendo não apenas conversas familiares de Lula, mas até mesmo aquelas envolvendo a Presidenta Dilma. Eles seguiam fazendo ouvidos moucos as denúncias contra Moro.

A grande mídia, abraçou a causa. A elite agora estava com a faca e o queijo na mão, com supremo, com tudo. Lula estava preso e encarcerado. Moro o herói nacional era um juiz medíocre útil e aquela rapaziada do MPF, perfeitos para o que estava por vir.

O processo eleitoral começou e logo se viu que o povo não aceitava Alckmin, o preferido deles. Almoedo, nem com camiseta do Itaú emplacava. Só restava uma chance e ela se chamava Bolsonaro. Não seria tarefa fácil emplacar um racista, homofóbico e misógino para presidente do Brasil. Só havia uma maneira: produção de notícias falsas, fake News como ficaram conhecidas. Empresas especializadas foram contratadas a peso de ouro e logo surtiram efeito. Os ataques ao PT fizeram Bolsonaro disparar nas pesquisas e deram a ele a vitória.

Com a ajuda das Fake News de um lado, e o afastamento de Lula da corrida presidencial, graças a Moro, o caminho da presidência foi conquistado com uma diferença de 10 milhões de votos no segundo turno. Agora era hora de cumprir promessa de campanha e Moro assume o Ministério da Justiça.

Mesmo ministro, ele não deixou de ser o que sempre foi. Sua medida anticrime não emplacou no Congresso. Fez vistas grossas para o decreto sobre armas, das medidas de alteração das regras de trânsito e para completar, gostaria de baixar o imposto sobre o cigarro.

Moro e Bolsonaro se merecem. Um vai cair logo, o outro é uma questão de tempo. Ambos são produto da nossa elite. O que esta elite fez para o Brasil não pode ser esquecido, tampouco perdoado.

Mais uma

O juiz Vallisney Oliveira, da 10ª Vara Federal do Distrito Federal abriu uma ação penal contra Lula, Dilma, Palocci, Mantega e Vaccari. Eles são acusados de terem recebido cerca de 1,5 bilhão de reais em dinheiro desviado dos cofres públicos. Se fossem compadres e dividiram irmanamente o botim, cada um ficou com 300 milhões de reais.

Convenhamos que estamos falando de muito dinheiro. O Geddel, por exemplo, escondeu 51 milhões de reais em caixas e malas em um quarto de um apartamento. Onde seria possível esconder 300 milhões? Eu poderia sugerir vários lugares, como um apartamento com 6 quartos, uma piscina, um avião desativado etc.

Quem rouba, o faz com um propósito. O ladrão de galinhas, para comer. O ladrão de rua para comprar drogas e assim por diante. Todos tem uma justificativa para roubar, ninguém rouba por roubar.

Um assaltante de bancos já está em outro nível. Ele rouba para sustentar a família. E quer sustentar em alto estilo. Vai comprar imóveis, carros e fazer investimentos.

Os grandes sonegadores também roubam com um propósito. Não querem dividir o lucro do seu trabalho com o governo e preferem gastar o dinheiro destinado ao pagamento de impostos com eles próprios e suas famílias. Também vão ostentar com imóveis, carros, viagens etc.

Em comum a todo mundo que rouba, um propósito que seja. Mas no fim das contas, todos, sem exceção, buscam satisfazer as suas necessidades e sabem que trabalhando honestamente elas não serão satisfeitas. Não no prazo de tempo que gostariam.

Então vamos admitir que os acusados, amicíssimos de longa data, agora no alto escalão do poder tivessem se sentado um dia e, de acordo com seu líder, decidido roubar uma merreca de 1,5 bilhão de reais. Simples assim. Trezentos pra cada um e vida que segue.

O problema quando se lida com uma quantia destas é exatamente o tamanho dela em todos os sentidos. Como se movimenta uma fábula destas? Graças ao Rodrigo Rocha Loures todos nós ficamos sabendo que 500 mil reais é o que cabe em uma mala de mão. Então eles trouxeram cada um 600 malas, dividiram a grana, colocaram a sua parte nelas e saíram andando pela porta da frente.

Tudo bem, trouxeram 200 malas maiores e acomodaram o dinheiro. Ainda assim, convenhamos que seja muita mala.

Voltando então para o propósito. O que dá para fazer com 300 milhões de reais para gastar? Muita coisa, com certeza. Mas têm alguns problemas. Como o dinheiro não tem origem lícita, não dá para sair gastando a “La loca”. Vai ser preciso comprar tudo em dinheiro vivo e não declarar nada. Quando se vem de um berço de ouro, isso se dilui em meio à fortuna original, mas quando a origem não é tão nobre, é como ascender um farol no meio da sala para todo mundo ver de longe.

No caso do suposto líder da quadrilha, sua vida já foi todinha revirada. Tudo que a PF tentou e não conseguiu nestes anos todos desde que ele deixou a presidência, foi tentar encontra um real que não tivesse origem. Tanto assim que acabaram tendo de condenar o homem por um apartamento que quiseram dar para ele. Ou seja, não existe na vida dele, nada que não seja fruto de seu trabalho.

Ainda assim, acusações estapafúrdias continuam surgindo e parecem não ter fim. Outras muito mais fáceis de comprovação e com provas materiais não interessam, ou não merecem atenção quando se tratam de “homens de bem” como Aécio Neves, por exemplo.

O judiciário brasileiro está politizado ou nas mãos de incompetentes. Talvez as duas coisas juntas. São atualmente o espelho no qual o futuro presidente eleito parece olhar para escolher seus ministros. Se for de extrema direita e estiver sendo acusado de algo pelo qual a justiça não se interessa, está aprovado.

Sandice parece ser a bola da vez. Na Idade Média a igreja dizia que a terra era o centro do nosso sistema e que tudo mais orbitava a nossa volta. Muitos morreram ao tentar provar o contrário, outros para não acabarem mortos admitiram a bobagem.

Chegamos ao mesmo patamar. Ainda não estamos sendo jogados na fogueira por dizer o que é certo e lógico, mas em continuar assim logo vamos ser obrigados a admitir que a Revolução Francesa de 1789 foi marxista, mesmo com Marx tendo nascido somente em 1818.

Ontem a Lei de Gérson, hoje a Lei de Moro

Em 1976, um ex-jogador da seleção brasileira de futebol participa de um anúncio de cigarros. Nele, com seu sotaque carioca acentuado para parecer um “malandro”, ele diz uma frase que o marcaria para o resto da vida: “O importante é levar vantagem em tudo, certo?” O canhotinha de ouro deixou de existir neste dia.

No Brasil inteiro, levar vantagem era ser legal, era ser esperto, malandro. Qualquer um que fizesse algo em desacordo com a ética e a moral, usava a frase da propaganda como justificativa e todos riam dando razão.

Ao me recordar daquela época, vejo como o país tomou aquela máxima como uma forma de bem viver. Não devolver o troco, pedir desconto para pagar sem nota fiscal, enganar o imposto de renda, passar a frente em uma fila, tudo isso passou a ser visto como natural. O Brasil virou o paraíso dos estelionatários.

De um dia para o outro, as pessoas mostraram quem realmente eram e estavam respaldadas pela Lei de Gérson.

Muitos anos se passaram até que a ética e a moral fossem chamadas de volta do exílio onde se encontravam, mortas de vergonha. E assim aos poucos o país foi começando a se dar conta de que aquela malandragem toda somente trazia prejuízos para o bem comum e benefícios para poucos. O respeito ao próximo, a solidariedade bateram à porta e foram convidados a entrar.

A vida é cheia de ciclos. Nossa existência tem muito da roda, ora estamos por cima, ora por baixo. E foi o que aconteceu.

De alguns anos para cá, nossa paciência com a corrupção chegou ao fim. No país onde alguém devolve uma carteira achada na rua com dinheiro dentro é motivo de notícia em todos os jornais, corrupto passou a ser o sujeito mais detestado na sociedade. Não qualquer corrupto, não aquele que continua sonegando impostos, apenas aquele que rouba daqueles que pagam. Não importa que o efeito seja o mesmo, ou seja, se alguém sonega vai faltar dinheiro para a saúde, educação e segurança. Se alguém rouba o dinheiro que era destinado para isso é a mesma coisa. Estranho, não?

O país foi se enchendo de ufanismo na mesma proporção em que limitava a história. A corrupção passou a existir somente em um partido político e as normas jurídicas também. O fato de a corrupção ser uma epidemia distribuída em todo espectro político e conhecida, não era importante. O que poderia salvar a maioria era apontar o bode expiatório. Fazer alguém pagar por isso, saciar as massas e dar a elas a sensação de que um novo país era possível, aquele onde a política seria a partir de agora sustentada por homens de bem preocupados, exclusivamente, com a melhor distribuição de renda e justiça social a fim de diminuir a distância entre os mais e os menos favorecidos. Nascia a Lava a Jato.

Tudo andou de acordo com um excelente planejamento. A presidente eleita que havia criado as Leis anticorrupção precisava ser deposta. Uma manobra totalmente estapafúrdia foi criada a toque de caixa para justificar o Impeachment. Mas isso ainda não era suficiente.

O maior presidente que o pais já teve, reconhecido internacionalmente por trazer o Brasil ao patamar de igual entre as nações mais desenvolvidas tinha que ser retirado da vida pública. Sua permanência no cenário político era uma ameaça permanente ao plano original. Alguns bois de piranha foram dados às massas, afinal era necessário fazer algum sacrifício e assim, aquele que liderou o processo para deposição da presidente em troca de muitos favores e outros tantos favorecimentos, pagou por sua ganância insaciável.

Uma nova ordem estava no ar, e nela o nome mais conhecido, Juiz Moro, Sérgio Fernando Moro. Um sujeito até então totalmente desconhecido, juiz de primeira instância que ascendeu ao cargo por coisas do destino. Não conseguindo passar na prova da OAB para exercer a advocacia, passou em um concurso para juiz. Simples assim.

Moro passou a ser no Brasil o paladino da justiça. Aquele que a sociedade pensava não existir entre nós. A deusa da justiça encarnada em um ser humano. Era Deus no céu e Moro na terra. Os fins passaram a justificar os meios e um novo tipo de justiça passou a ser aceito, a Lei de Moro.

Não eram mais necessárias provas para uma condenação, bastavam convicções. Não se exigiam mais delitos comprovados, qualquer indício passou a ser aceito. Sua influência chegou ao STF na famosa frase de uma ministra da corte: “Não tenho prova cabal contra o réu, mas vou condená-lo porque a lei me permite”.

A cada disparate da justiça contra os membros de um campo político, mais apoio midiático e teses “nonsense” para sustentá-las. Nunca vimos antes tanto apoio ao absurdo. A razão foi escondida e o direito a inocência até prova em contrário, exilado. Na Lei de Moro não existe estado de direito, somente o direito do estado personificado na sua pessoa. Ele é o estado.

Assim sendo, o resultado para o julgamento do presidente do povo não poderia ser outro. Ele foi a julgamento apenas pró-forma, pois condenado já estava. O plano prosseguia e ia ganhando apoio popular. Mas eis que algo surge no horizonte, pesquisas eleitorais mostram que aquele ser ganharia as eleições.

Nunca a justiça brasileira foi tão rápida. Enquanto milhares de brasileiros morrem antes de receber o que tinham direito pela demora em terem seus pleitos julgados, a segunda instância imediatamente, em tempo recorde, carimbou a confirmação da condenação. Mas somente isso não bastava. Ampliou a pena de maneira a permitir o cumprimento da pena na cadeia. Agora que o STF havia aberto a possibilidade de um condenado em segunda instância começar a cumprir a pena enquanto aguarda por recurso, tudo se encaixou.

Podemos dizer que todas as instituições cumpriram seu papel com a ajuda da mídia. O ex-presidente foi colocado na prisão e impedido de concorrer nas eleições. O resultado foi o desejado. Sem ele na disputa, o milico que foi retirado do exército por ato de terrorismo ganhou as eleições. O perigo de uma volta ao verdadeiro combate a corrupção foi afastado. Quem se importa? Novos ministros, inclusive com condenações já estão sendo nomeados, mas nenhum chamou mais atenção do que o Juiz Moro.

Aquele que julgou e condenou o maior adversário do presidente eleito foi convidado, e aceitou ser o seu Ministro da Justiça sem qualquer impedimento ético. Ele troca um salário que com todos os benefícios chega próximo dos R$ 100.000,00 e uma carreira na magistratura, por um salário de R$ 30.000,00 durante possíveis quatro anos, se lá permanecer. Quem faria isso?

Dois tipos de pessoas que eu conheço aceitariam trocar uma carreira de luxo segura a te sua aposentadoria por uma nomeação momentânea com prazo conhecido. Uma é aquela para quem o mais importante é o amor ao próximo e ao país acima de tudo. Alguém disposto a sacrificar seu futuro pelo bem da nação.

O outro tipo de pessoa é aquela que tem algo a ganhar com tal nomeação, ou a perder sem o cargo e isso me faz trazer a tona pelo menos dois fatos conhecidos. O caso Banestado e as informações trazidas por Tecla Durán.

O caso Banestado foi uma investigação nos anos 90, arbitrada por Moro que constatou a remessa ilegal, fruto de corrupção envolvendo políticos, empresários e empreiteiras de mais de 500 bilhões de reais em dinheiro de hoje por diversos doleiros. Qualquer semelhança com a Lava Jato não é mera coincidência. Alguém lembra disso? Claro que não, já que no final do governo Collor, tudo foi devidamente arquivado por quem teria se tornado então um herói nacional, ele mesmo, Moro. Uns poucos lambaris pagaram o pato. Dinheiro restituído, nenhum.

Mas temos mais recentemente Rodrigo Tecla Durán. Ex-advogado da Odebresht ele contou que um amigo de Moro, Carlos Zucolotto, intermediava negociações paralelas na lava Jato. Zucolotto e a esposa de Moro eram sócios em um escritório de advocacia. Com pagamentos aos membros da operação, penas podiam ser diminuídas e regimes de prisão modificados para cumprimento em casa.

Qualquer um destes casos poderia ser investigado pela Polícia Federal se provocada pelo Ministério Público, ou não. Aí entra o caso da pessoa que tem algo a ganhar no cargo de Ministro da Justiça, a quem está subordinada a Polícia Federal, o nome dela é Sérgio Fernando Moro.

Acho que assim podemos compreender melhor a troca de favores que aconteceu entre o presidente eleito e o juiz que já estava acertado para a função antes do período eleitoral conforme seu vice na chapa declarou.

Concluindo, uma enorme quantidade de pessoas foi enganada e levada a acreditar que tudo era pelo Brasil e contra a corrupção. Foram massa de manobra, idiotas úteis. Legitimaram um plano há muito concebido para chegar aonde chegamos. A primeira etapa foi concluída com louvor. A segunda etapa começa agora com a submissão do país aos interesses neoliberais de brasileiros e estrangeiros que vão tornar o país uma nova Cuba de Fulgencio Batista, com a abertura de Cassinos com seus correlatos, drogas e prostituição. E uma nova Venezuela onde as instituições serão submetidas à vontade presidencial, seja por bem, seja por baionetas. Mas não se preocupem, tudo será referendado por uma nova ordem.

Sejam bem vindos a Lei de Moro.

Lula e o Santo Sudário

Sabem aquela criança que colocou o dedo no fogo da vela para ver se queimava? Que botou o dedo na tomada para ver se dava choque? Aquela criança fui eu. Aliás, fui, não, sou eu.

Desde sempre tive certa dificuldade em aceitar verdades absolutas sem uma boa explicação. Infelizmente algumas delas exigiram também dolorosas comprovações físicas. Fazer o que? Eu precisava ter certeza.

Provavelmente por conta disso que a religião nunca foi a minha praia. Digo que sempre fui a favor da tradição, mas nunca uma pessoa de crença religiosa. Em vista disso, eu me sinto perfeitamente bem fazendo uma reza do vinho no Shabat Judaico, e nem por isso acreditando na entidade a qual a reza menciona. Pode parecer estranho para um crente, mas na minha cabeça isso está perfeitamente resolvido. Eu acho bonita a tradição do ascender das velas no final de tarde da sexta-feira, da reza do vinho, do pão especial etc., da cerimônia passada de geração a geração. Mas isto não me faz acreditar em nenhum ser superior. Enfim, este sou eu e, contudo, respeito e admiro inúmeros amigos queridos que seguem a sua religião.

Uma das questões que envolvem a fé é a crença radical e dogmática sobre certos acontecimentos. Por exemplo, existem inúmeros relatos da aparição de Nossa Senhora, ou a Virgem Maria para diversas pessoas, inclusive crianças. Fátima e Lurdes são as mais famosas. Em todos estes casos o que existe em comum é alguém dizendo que viu e acreditem. Nunca foi possível uma análise científica por razões óbvias.

O Sudário de Turin, no entanto é uma história completamente diferente. Ele é uma peça de linho onde existe uma imagem de um homem que aparentemente sofreu traumatismos físicos de maneira consistente com uma crucificação. Nada demais se não fosse atribuído a ele ser o manto que envolveu o corpo de Jesus depois da crucificação.

Neste caso específico a ciência pode fazer o seu trabalho e constatou que não se tratava do corpo de Jesus por se tratar de um manto com idade menor do que aquela atribuída a morte de Jesus e porque a distribuição do sangue no tecido não é compatível com os ferimentos. Portanto uma falsificação. Não sei se foi este o propósito desde o início, mas o fato é que muita gente ganhou dinheiro com o Sudário.

Com todas as evidências científicas, ainda assim, muitos cristãos acreditam se tratar do manto que envolveu Jesus, portanto na santidade da relíquia. Nada fará com que mudem de ideia. A fé é muito mais forte e esta crença é inabalável.

Mas afinal de contas o que tem Lula a ver com isso? É que eu acredito que a analogia entre o fato de a despeito de toda ciência dizer o contrário, as pessoas seguirem acreditando no Santo Sudário, explique o fato de apesar de todas as provas em contrário, ou justamente a falta delas, fazer com que ainda existam pessoas que acreditem que Lula é ladrão.

Eu quero acreditar que a maioria das pessoas tem bom senso, mas isso não é uma verdade absoluta já que possuímos discernimento para algumas coisas, e a falta dele para outras.

Neste sentido eu diria então que boa parte de nós sabe distinguir o certo do errado e que aqueles que não sabem são os chamados perturbados de conduta, ou sociopatas. Vou dar o desconto para o que possa ser certo em determinadas culturas, ser errado para outras, me atendo ao que seria comum em todas elas.

Em qualquer país civilizado onde vigora o estado de direito e o exercício pleno da democracia, nenhum ser humano pode pagar por um crime que não cometeu e a presunção de inocência prevalece até prova em contrário. Eu disse PROVA em contrário. Pode-se acreditar que determinada pessoa cometeu um crime, mas é preciso provar que de fato foi ela. Até prova em contrário esta pessoa é inocente.

Na religião não existe a necessidade de uma prova. A fé religiosa e a crença são mais do que suficientes. Assim sendo, em cada uma das religiões de uma forma ou de outra, como distintos nomes e atribuições, a existência de um ser superior é fato.

Será que nós poderíamos trazer esta fé para nossa vida diária e fazer dela um fato? A gente poderia acabar com a medicina e viver da cura pela fé? A gente poderia acabar com a ciência e viver dos dogmas religiosos?

Acho que seria muito difícil e por isso a convivência deve ser harmoniosa. Ao homem o que é do homem e a Deus o que é de Deus.

Sendo assim, posso afirmar que no mundo real o julgamento de uma pessoa acusada de um crime deve ser baseado em provas cabais. A privação da liberdade de um ser humano precisa estar baseada na inabalável convicção de que o legítimo processo transcorreu em ordem e que todas as provas e fatos trazidos a ele mostraram sem a menor dúvida que tal pessoa cometeu o crime. Isso vale para todos.

Aqueles que ainda querem acreditar que Lula cometeu um crime são as mesmas que ainda creem no Santo Sudário.

Não importa que não existam provas, não importa que a defesa fosse cerceada, que o julgamento se baseou no testemunho de uma pessoa em contra outras dezenas. Lula já estava condenado muito antes de entrar no plenário porque a crença de seu juiz na sua culpa era de uma fé celestial inabalável, assim como daqueles que ainda acreditam nesta farsa.

Apesar disso tudo, escutamos algumas vozes do bom senso e uma delas acaba de vir do Comitê de Direitos Humanos da ONU. Um grupo de homens de diferentes países, de diferentes culturas acaba de dizer que, independente do fato da culpa ou não de Lula, ele tem direito a concorrer à presidência enquanto existirem recursos em andamento e que os mesmos devem ser julgados com isenção. O Brasil é signatário de uma convenção que torna as resoluções deste comitê aplicáveis acima da lei brasileira neste assunto, qual seja os direitos humanos.

É compreensível a demanda, uma vez que não podendo concorrer e vindo a ser o vencedor, ficando provada sua inocência, não haveria como reparar o mal causado a ele. Todas as causas que precederam a de Lula neste mesmo sentido, tiveram ganho favorável nas cortes nacionais.

E agora, vamos ter uma decisão baseada na convicção celestial ou na fé dos homens?