Somos as bananas

É um verdadeiro mistério as nuances da justiça. O que deveria ser a garantia dos direitos do cidadão e a guardiã da constituição, nem sempre se comporta assim. A justiça deveria ser igual para todos, mas parece que existem os mais iguais e os menos iguais.

Desde sempre o homem se desentendeu entre seus iguais. Quando uma simples conversa não resolvia, foi preciso pedir auxílio a um terceiro que tendo escutado as partes, diria quem tem razão. De uma maneira muito simplista, se buscava um juiz. A origem da palavra vem do latim, aquele que julga.

Aquele que vai julgar precisa ser isento. Precisa escutar os argumentos das partes como iguais. Tem que ser conhecedor das leis, e acima de tudo, saber aplicá-las. Jamais quem vai julgar pode participar da investigação, o que seria uma forma de favorecimento a uma das partes. Ele está equidistante delas.

Nós estamos assistindo dia a dia a revelação do conluio entre o ex-juiz Sergio Moro e a equipe do MPF, que juntos compunham a Força Tarefa conhecida como Lava Jato. Quando digo “juntos”, estou me referindo ao fato de que nada acontecia sem o conhecimento e concordância de ambas as partes. Neste caso, o juiz que investigava, era o mesmo que julgava. Uma aberração jurídica.

O que eles faziam já era de conhecimento público e suas arbitrariedades como o uso da prisão preventiva, delação premiada, favorecimento de informações para a mídia com o intuito de pressionar as instâncias superiores, foi largamente denunciado pelos advogados das partes. Agora sabemos como estas coisas eram combinadas entre eles, com que propósito e a quem interessava mais.

O vem acontecendo nestas últimas semanas, de maneira contundente, são as manifestações ocorridas fora dos autos que confirmam a ligação umbilical entre Moro e os procuradores. O aplicativo Telegram tornou-se um apêndice do processo legal. Nele se combinavam ações, se adiantavam decisões e até mesmo se sugeriam investigações fora de sua alçada.

O presidente Lula foi a vítima mais conhecida e de maior relevância desta quadrilha, mas não a única. A maior vítima de todas foi a eleição presidencial que por ações e omissões dos quadrilheiros acabou sendo fraudada ao retirarem do pleito ele, o candidato que liderava as pesquisas.

Ninguém pode aceitar a manipulação da justiça em favor de quem quer que seja. Com certeza isso irá se voltar contra quem pensa que os fins justificam os meios. Uma país com uma justiça corrupta, é um país sem futuro.

Em qualquer um dos três poderes de uma nação podemos vir a encontrar corruptos. Isto acontece em praticamente todos os países do mundo. O que vai diferenciar uns dos outros, é a capacidade de lidar com a corrupção. Como ela é investigada, julgada e eventualmente punida. É a diferença entre uma nação moderna e uma República das Bananas.

Infelizmente somos as bananas. Somos o país liderado pelos que duvidam da mensagem e quer prender o mensageiro, e que acreditam nas razões do criminoso para o cometimento do crime em nome de um suposto bem maior. Somos aqueles que ainda não viram o tamanho da sua força quando unidos.

Agora que um dos crimes cometidos diz respeito a membros do STF, talvez a maior instância da justiça tome alguma providência. Será ela magnânima, ou será ela seletiva. Estes juízes vão entender que o que os atinge vem do fruto da árvore envenenada, ou serão eles capazes de enxergarem somente a fruta que lhes coube?

A verdade é uma só, e não cabe dúvida. Todo o trabalho da Lava Jato foi comprometido e todos os processos devem ser anulados. Aqueles membros da justiça que cometeram crimes têm que ser levados a julgamento. Um membro do judiciário que se torna um criminoso deveria ter uma pena maior do que o cidadão comum.

As eleições devem ser anuladas e novas eleições marcadas para tirar o país desta situação, onde um grupo de promotores, e um juiz de primeira instância, se aliaram para permitir que o mais inepto dentre todos os candidatos fosse eleito presidente do Brasil.

Está mais do que na hora das ruas rugirem nosso descontentamento e desaprovação destes acontecimentos. O Brasil é um navio sem timoneiro. Não estamos mais fora do curso, estamos literalmente à deriva e fazendo água. Até os ratos já estão abandonando o navio, muitos dos quais são justamente aqueles que ajudaram e contribuíram para chegarmos a esta situação.

Basta de complacência. Cada dia deste governo e tudo que vem dele é um desastre de proporções astronômicas. Continuando neste ritmo e em breve o navio vai a pique com todos os que estão nele.

Bananas, as ruas!

 

 

 

 

 

 

 

O Ignorante Feliz

O Ignorante Feliz

Como muitas coisas na vida, existem alguns tipos de ignorantes. Um deles é o que reconhece a sua ignorância e busca se informar, ou cercar-se de quem pode suprir o conhecimento que necessita O outro tipo, o que mais me assusta, é aquele que não obstante a sua ignorância, ele acha que nada lhe faz falta.

Ninguém é ignorante em tudo. O ser humano tem suas limitações normais sobre o conhecimento, até porque temos assuntos que nos interessam mais, outros menos, e até alguns que nada nos interessa saber.

Ao longo da vida vamos nos defrontando com ignorantes. No trabalho, por exemplo, as vezes temos um chefe que sabe menos do que nós e somos obrigados a aturar isso. Na saúde, uma boa razão para se procurar uma segunda opinião, é porque até mesmo médicos eventualmente fazem diagnósticos equivocados, não raro, por ignorância. Ninguém vai passar pela Terra sem se defrontar com ignorantes.

Tomara todo ignorante ficasse no seu lugar e não tivesse em mãos poderes que são incapazes de lidar. Imaginem um médico recém-formado realizando uma cirurgia de alto risco sem nenhum acompanhamento. Um recém-formado engenheiro construindo uma Usina Atômica. Sim, sempre podem existir exceções, mas deu para entender o que eu quero dizer.

O que está acontecendo com o nosso presidente e o seu ministério de notáveis ignorantes em geral, e o seu ministro da justiça, em especial, é o pior dos cenários. Todos ali acham que não precisam de nenhuma assessoria porque sabem tudo sobre tudo. São de dar vergonha a uma enciclopédia.

O Bolsonaro e o Moro não fazem merda porque sejam más pessoas, eles fazem acreditando que estão agradando e com a convicção de que agem de boa fé no interesse do povo. Não se trata de um complô maquiavélico premeditado, se trata da união entre a ignorância e a soberba do poder.

Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso, sabe que não devemos ser mal-educados e que as piadinhas maldosas devem ser contadas em fóruns íntimos ou desprezadas de vez. Ninguém deve fazer bullying com outra pessoa, uma regra básica da boa convivência. Temos um presidente que por pura ignorância, ignora todas estas regras. Não vê mal algum em chamar os nordestinos de “paraíbas”. De visitar um museu judaico em memória dos seis milhões de judeus assassinados pelos nazistas e dizer na saída que devemos perdoá-los.

Quando Moro diz que não existe nada nos seus comentários com os procuradores que seja comprometedor, ele não está sendo cínico, ele está dizendo o que realmente sente. Do alto da sua ignorância ele é incapaz de reconhecer que tenha agido de má fé. Ter ajudado a acusação no processo que julgou não tem nada de mais. Adentrar em uma investigação que corre em segredo de justiça, avisar as pessoas que supostamente tiveram sido importunadas e dizer a elas que não se preocupem, todas as provas serão destruídas, é perfeitamente normal.

Bolsonaro, Moro e o resto dos ministros deste governo são o expoente do pior pesadelo que o Brasil já teve na sua história republicana. Parecem aquele cara que só terminou o primário, conseguiu entrar na academia de polícia, vestiu o uniforme e na rua vai peitando todo mundo que encontra pela frente. O cara é polícia e sempre tem razão. Quando não tem, ele vai plantar uma prova que parecer que tinha. E na boa, ele acha que está agindo corretamente.

Eu quero confessar que de informática me encontro entre aqueles que têm algum conhecimento um pouco acima do básico. Leio bastante, tenho interesse, mas não domino linguagem de computador. Por isso, para falar do Hacker de Araraquara, só posso argumentar até onde a razão me permite.

Em Israel existe uma empresa chamada NCO que ficou conhecida mundialmente, no ano passado, depois que o seu programa de clonagem de celulares, chamado Pegasus, foi utilizado pela Arábia Saudita para atrair o jornalista Jamal Khashoggi para sua embaixada na Turquia, onde foi morto e feito em pedacinhos, literalmente.

O custo deste programa chega a centenas de milhares de dólares. Normalmente é vendido somente para órgãos de segurança governamentais e, segundo dizem, vale cada dólar investido. Agora temos de aceitar que a empresa vai quebrar, já que um Hacker brasileiro consegue a mesma proeza com a maior facilidade.

Para um órgão governamental obter o número do celular de alguém, não é uma tarefa muito difícil, legal ou ilegalmente. Mas para um indivíduo como nós, a história é outra. A não ser que o celular do Moro fosse de domínio público e pudesse ser encontrado em qualquer site ou mídia social, a pergunta inicial é como o Hacker de Araraquara conseguiu o seu número?

Para acessar o celular, estão informando de que se pode obter nas lojas do Google e da Apple um aplicativo que assume qualquer número de celular que desejarmos. Assim, foi possível “colocar” o mesmo número do celular do Moro no aparelho do Hacker. Fácil assim, se for procedente.

Agora bastaria baixar o Telegram no aparelho que o aplicativo puxaria o número indicado pelo outro aplicativo, neste caso o do Moro e enviaria uma senha para o celular original. Como não se trata de um clone, a senha chega no celular dele e é preciso obtê-la. Para isso, pede-se ao Telegram que também envie a senha por voz. Usa-se um outro aparelho para fazer a ligação e torcer para que seja atendida pela caixa-postal, se existir uma. A ligação do Telegram também vai cair na caixa postal. A seguir, uma ligação através do aparelho que está com o número do Moro faz a ligação para o celular original dele. Por se tratar do mesmo número, ele consegue entrar na caixa postal, e escutar a senha enviada. Com ela ele completa a instalação. Finalmente ele tem acesso ao Telegram do Moro.

Vamos admitir que tenha conseguido, mas o Telegram já estava desativado desde 2017, e segundo o que é informado pelo aplicativo, todo o seu conteúdo é perdido para sempre e não pode ser recuperado. Informam também que se o usuário não utilizar o programa por seis meses, a mesma coisa acontece.

Talvez eu esteja duvidando dos méritos e da capacidade tecnológica do Hacker de Araraquara. Talvez eu esteja sendo muito cético com relação a dificuldade de se obter o número dele. Posso estar exagerando com relação a existência de um aplicativo nas lojas que permite o celular se passar por outro número escolhido por mim. Admito que acredito nas informações dadas pelo Telegram de que ele não guarda o passado de quem o desinstala. Estou de fato tendo muitas dúvidas com relação a forma banal com que ele obteve todo o material.

Na minha humilde ignorância sobre esta incrível proeza tupiniquim, se confirmada como verdadeira, só posso dizer que preciso aprender muito para chegar aos pés do tal Vermelho do DEM, o Hacker de Araraquara que me fez rever meus conceitos sobre o ET de Varginha.

Justiça, que justiça?

Toda vez que perdemos um companheiro de trincheira, uma enorme tristeza se abate sobre todos nós. Ninguém é perfeito e obviamente cada um de nós tem seus defeitos, para o bem e para o mal. Nesta hora isso perde relevância e nosso sentimento de perda é como de um elo da corrente que se abre e precisa ser preenchido novamente. Paulo Henrique Amorim, descanse em paz sabendo que seguimos na luta.

Desde que o terror deste governo chegou ao poder, com todas as consequências de ter na chefia do poder um mentecapto disfuncional, que a cada dia traz uma nova surpresa nos matando de vergonha, é preciso repensar como acabar com isso.

Em um estado democrático eu diria que bastaria aguardar as próximas eleições. Este é o caminho natural das coisas. Quem não deseja dar continuidade a isso que está aí, vota em outro candidato. Simples assim.

Nosso problema é que não existe um estado de direito. Assim sendo, vivemos uma meia democracia. Visto de fora, temos eleições livres onde cada cidadão representa um voto. Visto de dentro, vivemos um pesadelo eleitoral onde uma presidente é retirada do poder sem nexo causal, e um candidato a presidência é impedido de concorrer para dar a vitória para seu concorrente.

Tenho acompanhado o Glenn Greenwald em sua passagem pela Câmara e o Senado explicando o trabalho do The Intercept na divulgação das trocas de mensagens entre o ex-Juiz Sergio Moro e promotores do MP que acusam o Presidente Lula de receber propinas.

O interessante não é escutar os deputados e senadores que estão do nosso lado, é escutar os que estão a favor de Moro. É um exercício de parcimônia. São necessários paciência, contenção, medicação para pressão alta, taquicardia etc., tudo a mão.

Eles perguntam porque não entregar o material para perícia de órgãos de segurança como a PF do Brasil, ou o FBI e a CIA americanos (como se eles não tivessem mais o que fazer) e o Glenn explica que em nenhuma democracia do mundo um jornalista entrega material para qualquer órgão de segurança antes de publicar. E os caras insistem que é tudo falso.

Eles dizem que o material poderia ser falso, ou meio falsificado para atender o que desejam os inimigos de Moro. O Glenn explica que outros meios jornalísticos também periciaram o material e encontraram, por exemplo, diálogos que eles jornalistas trocaram com os promotores, palavra por palavra. Que procuradores que fizeram parte de alguns dos grupos e mantiveram as conversas em seus celulares, também encontraram os diálogos exatamente como estão sendo publicados, palavra por palavra. E os caras insistem que é tudo falso.

Alguns argumentam que Moro não poderia se lembrar de tudo e que já não possui os originais consigo. O Glenn explica que outros promotores têm consigo os originais. Que Moro até hoje não disse que o material era falsificado e que não se reconhecia neles. Tanto assim que até pediu desculpas ao MBL por tê-los chamados de tolos. Que o Moro parece ter uma estranha amnésia com relação aos fatos. E os caras insistem que tudo é falso.

Outros dizem que o conteúdo, mesmo que fosse verdadeiro não desabona o trabalho da Lava Jato. Glenn explica que em qualquer democracia do mundo, um juiz que confabulou com uma das partes de um processo seria imediatamente afastado, os casos julgados anulados e ele processado. Não se trata do trabalho da Lava Jato, mas de um caso específico contra uma pessoa específica. E os caras insistem que tudo é falso.

Em resumo, o nível de alguns parlamentares que estão neste congresso faz o Tiririca pensar como era feliz como palhaço. Tem gente ali com sérios problemas de concatenação lógica.  Tico e Teco não se falam. Sinopses neurais queimadas.

Não existem argumentos que os faça compreender o que está acontecendo, ou que os convençam de que seu herói talvez tenha cometido atos que o desabonem, condenáveis em qualquer cenário democrático no Planeta Terra.

Ainda existe muito material para ser divulgado. A cada vazamento as coisas ficam mais claras e mostram desnudando o que de fato aconteceu. Um conluio sinistro, fora da lei, com objetivos claros de interferência política de acordo com as convicções dos envolvidos.

O que mais se faz necessário para mudar alguma coisa? Realmente a Vaza Jato será capaz de fazer mudanças? Até que ponto se deseja fazer justiça, quando a única opção é a de anular os julgamentos do Presidente Lula?

Todo sistema judiciário está sendo colocado a prova. É um dos seus, desta casta de deuses superprivilegiados que está mostrando que o cumprimento da lei pode ser relativizado de acordo com interesses políticos.

Esqueçam da lei, esqueçam da justiça e não criem falsas esperanças. Este STF fez parte do golpe e dele não se pode esperar nada. E como nada está tão ruim que não possa piorar um pouco mais, vem aí o Ministro Terrivelmente Evangélico.

Moro, tua hora chegou

Sergio Moro é o resumo de um Brasil que a gente teima em dizer que não existe, mas que se faz presente no nosso dia a dia. É o país que se imaginava no passado, aquele da Casa Grande e Senzala. Mera ilusão, Moro está aí para provar que são os medíocres do andar de cima quem realmente mandam.

Eu conheço muitas pessoas que deixaram de advogar. A principal razão deles é a decepção com o sistema jurídico. Receberam seu diploma, passaram no exame da Ordem e pensaram que estariam ajudando a sociedade a fazer justiça. No seu imaginário os maus pagavam por seus crimes e os inocentes eram absolvidos. Idealistas, eles ainda tinham em conta o Código de Ética dos Advogados, e por ele pautavam suas ações. Infelizmente a realidade logo se fez presente e com ela a desilusão com a profissão. Uma lástima que sejam eles a pularem fora abrindo mais espaço para os maus advogados.

Moro não perdeu a pose ainda. Para ele tudo pode ser relativizado. Como juiz ele nunca errou, quando muito pode ter cometido um pequeno descuido, um mero deslize, nada que possa comprometer sua ilibada conduta. Os que o acusam de conluio com o MPF exageram e deveriam estar procurando o verdadeiro criminoso, aquele que obteve suas conversas e as vazou. Matem o mensageiro.

Não há dúvidas de que a conduta de Moro não é a exceção. Como ele, juízes e desembargadores agem da mesma forma. Alguns em benefício da acusação, outros em benefício da defesa. A venda de sentenças é pratica incomum, mas existente no sistema judiciário. Toda esta sujeira sempre foi varrida para baixo do tapete. Eis que surge o The Intercept, levanta o tapete e sacode a poeira.

Agora a conduta pouco republicana de Moro precisa ser contida o mais rapidamente possível sob o perigo de se alastrar para outros membros do judiciário. Moro precisa ser sacrificado em nome do sistema e isso é o que vai acontecer. Uma vez esclarecida a má conduta dele, Lula poderá sair livre pela porta da frente. Isto vai provar que o sistema funciona e que a sujeira pode, discretamente, voltar para baixo do tapete.

Afastar Moro não muda em nada como a justiça brasileira se comporta. Os mesmos anódinos que hoje sentam no STF e no STJ, lá vão permanecer. As mesmas decisões esdrúxulas vão continuar acontecendo e isto é apenas o reflexo do que acontece na base. Cidadãos da Senzala são condenados e penas de prisão por roubarem um chocolate e assaltantes do dinheiro público, membros da Casa Grande, saem livres desfilando suas tornozeleiras eletrônicas.

Foi dado a Moro um crédito que representa bem o poder que a elite do país dispõe. Cansados de perder eleições, desta vez eles entraram para ganhar. Para isso não fizeram economias e não conferiram diplomas nem pediram atestado de bons antecedentes para ninguém. Jogaram sujo, muito sujo. Contudo, venceram.

Quando a Lava a Jato teve início em 2009, ela teve a repercussão normal de um caso de polícia. Um doleiro era preso por lavagem de dinheiro. Mas em 2013, fica-se sabendo que o dinheiro lavado vinha de propinas da Petrobrás. Em 2014 o número de envolvidos e os valores manejados já eram um assombro. Dilma cumpria seu segundo ano do primeiro mandato com as leis anticorrupção já vigentes.

Enquanto se tratou de uma investigação puramente criminal, a Lava a Jato levou a prisão inúmeros malfeitores. Mas quando em 2015, ela se politizou definitivamente, a Casa Grande viu a sua oportunidade de voltar ao poder. Tinham tudo para vencer a eleição e colocar Aécio Neves na presidência, um filho da elite, um digno representante dos interesses dos Neoliberais, aquele que acabaria com a festa da ralé. Finalmente aeroportos deixariam de ser rodoviárias aéreas, fim das filas em restaurantes e o trabalhador voltaria para o lugar de onde nunca deveria ter saído.

Foi por muito pouco, mas Dilma venceu e o sonho virou pesadelo, e o pesadelo se transformou em uma obsessão. O PT precisava ser esmagado e Dilma tinha que de ser deposta. Um plano B foi armado. Um Impeachment destituiu a presidente eleita e o vice-presidente assumiu a nação. Temer era um deles, uma raposa política que sabia tratar de política como um balcão de mordomias. Agora era a hora de terminar de vez com qualquer pretensão de entregar o poder para um trabalhador novamente.

Não foi preciso procurar muito. Ele já estava lá. Só foi preciso convencer delatores a dizerem o que queriam escutar. Se delatassem conforme o script, poderiam deixar aquelas celas e voltar para suas mansões. Até parte do dinheiro roubado poderiam ficar com eles. E assim foi. Uma denúncia de pouca relevância em 2014 contra Lula começou a ser requentada. Leo Pinheiro, preso, passa a delatar qualquer coisa que os procuradores desejassem escutar. Aceita inclusive mudar seus depoimentos de maneira a ficarem coadunados com a necessidade de envolver Lula com o triplex.

Moro ia bem no projeto de poder da elite brasileira, mas já produzia disparates que logo eram saudados e encobertos pela mídia. Assim sendo, levar Lula para depoimento de coercitivo sem nenhuma razão legal e vazar o fato para a imprensa, foi visto como um pequeno exagero sem maiores consequências, uma vez que a população acompanhava tudo pela TV em êxtase.

Tivesse naquele momento o judiciário tomado uma atitude não contemplativa, mas menos tolerantes, talvez não tivessem ajudado a alimentar o monstro. Não o fazendo, foi fácil desprezar o vazamento dos grampos envolvendo não apenas conversas familiares de Lula, mas até mesmo aquelas envolvendo a Presidenta Dilma. Eles seguiam fazendo ouvidos moucos as denúncias contra Moro.

A grande mídia, abraçou a causa. A elite agora estava com a faca e o queijo na mão, com supremo, com tudo. Lula estava preso e encarcerado. Moro o herói nacional era um juiz medíocre útil e aquela rapaziada do MPF, perfeitos para o que estava por vir.

O processo eleitoral começou e logo se viu que o povo não aceitava Alckmin, o preferido deles. Almoedo, nem com camiseta do Itaú emplacava. Só restava uma chance e ela se chamava Bolsonaro. Não seria tarefa fácil emplacar um racista, homofóbico e misógino para presidente do Brasil. Só havia uma maneira: produção de notícias falsas, fake News como ficaram conhecidas. Empresas especializadas foram contratadas a peso de ouro e logo surtiram efeito. Os ataques ao PT fizeram Bolsonaro disparar nas pesquisas e deram a ele a vitória.

Com a ajuda das Fake News de um lado, e o afastamento de Lula da corrida presidencial, graças a Moro, o caminho da presidência foi conquistado com uma diferença de 10 milhões de votos no segundo turno. Agora era hora de cumprir promessa de campanha e Moro assume o Ministério da Justiça.

Mesmo ministro, ele não deixou de ser o que sempre foi. Sua medida anticrime não emplacou no Congresso. Fez vistas grossas para o decreto sobre armas, das medidas de alteração das regras de trânsito e para completar, gostaria de baixar o imposto sobre o cigarro.

Moro e Bolsonaro se merecem. Um vai cair logo, o outro é uma questão de tempo. Ambos são produto da nossa elite. O que esta elite fez para o Brasil não pode ser esquecido, tampouco perdoado.

Mais uma

O juiz Vallisney Oliveira, da 10ª Vara Federal do Distrito Federal abriu uma ação penal contra Lula, Dilma, Palocci, Mantega e Vaccari. Eles são acusados de terem recebido cerca de 1,5 bilhão de reais em dinheiro desviado dos cofres públicos. Se fossem compadres e dividiram irmanamente o botim, cada um ficou com 300 milhões de reais.

Convenhamos que estamos falando de muito dinheiro. O Geddel, por exemplo, escondeu 51 milhões de reais em caixas e malas em um quarto de um apartamento. Onde seria possível esconder 300 milhões? Eu poderia sugerir vários lugares, como um apartamento com 6 quartos, uma piscina, um avião desativado etc.

Quem rouba, o faz com um propósito. O ladrão de galinhas, para comer. O ladrão de rua para comprar drogas e assim por diante. Todos tem uma justificativa para roubar, ninguém rouba por roubar.

Um assaltante de bancos já está em outro nível. Ele rouba para sustentar a família. E quer sustentar em alto estilo. Vai comprar imóveis, carros e fazer investimentos.

Os grandes sonegadores também roubam com um propósito. Não querem dividir o lucro do seu trabalho com o governo e preferem gastar o dinheiro destinado ao pagamento de impostos com eles próprios e suas famílias. Também vão ostentar com imóveis, carros, viagens etc.

Em comum a todo mundo que rouba, um propósito que seja. Mas no fim das contas, todos, sem exceção, buscam satisfazer as suas necessidades e sabem que trabalhando honestamente elas não serão satisfeitas. Não no prazo de tempo que gostariam.

Então vamos admitir que os acusados, amicíssimos de longa data, agora no alto escalão do poder tivessem se sentado um dia e, de acordo com seu líder, decidido roubar uma merreca de 1,5 bilhão de reais. Simples assim. Trezentos pra cada um e vida que segue.

O problema quando se lida com uma quantia destas é exatamente o tamanho dela em todos os sentidos. Como se movimenta uma fábula destas? Graças ao Rodrigo Rocha Loures todos nós ficamos sabendo que 500 mil reais é o que cabe em uma mala de mão. Então eles trouxeram cada um 600 malas, dividiram a grana, colocaram a sua parte nelas e saíram andando pela porta da frente.

Tudo bem, trouxeram 200 malas maiores e acomodaram o dinheiro. Ainda assim, convenhamos que seja muita mala.

Voltando então para o propósito. O que dá para fazer com 300 milhões de reais para gastar? Muita coisa, com certeza. Mas têm alguns problemas. Como o dinheiro não tem origem lícita, não dá para sair gastando a “La loca”. Vai ser preciso comprar tudo em dinheiro vivo e não declarar nada. Quando se vem de um berço de ouro, isso se dilui em meio à fortuna original, mas quando a origem não é tão nobre, é como ascender um farol no meio da sala para todo mundo ver de longe.

No caso do suposto líder da quadrilha, sua vida já foi todinha revirada. Tudo que a PF tentou e não conseguiu nestes anos todos desde que ele deixou a presidência, foi tentar encontra um real que não tivesse origem. Tanto assim que acabaram tendo de condenar o homem por um apartamento que quiseram dar para ele. Ou seja, não existe na vida dele, nada que não seja fruto de seu trabalho.

Ainda assim, acusações estapafúrdias continuam surgindo e parecem não ter fim. Outras muito mais fáceis de comprovação e com provas materiais não interessam, ou não merecem atenção quando se tratam de “homens de bem” como Aécio Neves, por exemplo.

O judiciário brasileiro está politizado ou nas mãos de incompetentes. Talvez as duas coisas juntas. São atualmente o espelho no qual o futuro presidente eleito parece olhar para escolher seus ministros. Se for de extrema direita e estiver sendo acusado de algo pelo qual a justiça não se interessa, está aprovado.

Sandice parece ser a bola da vez. Na Idade Média a igreja dizia que a terra era o centro do nosso sistema e que tudo mais orbitava a nossa volta. Muitos morreram ao tentar provar o contrário, outros para não acabarem mortos admitiram a bobagem.

Chegamos ao mesmo patamar. Ainda não estamos sendo jogados na fogueira por dizer o que é certo e lógico, mas em continuar assim logo vamos ser obrigados a admitir que a Revolução Francesa de 1789 foi marxista, mesmo com Marx tendo nascido somente em 1818.

Ontem a Lei de Gérson, hoje a Lei de Moro

Em 1976, um ex-jogador da seleção brasileira de futebol participa de um anúncio de cigarros. Nele, com seu sotaque carioca acentuado para parecer um “malandro”, ele diz uma frase que o marcaria para o resto da vida: “O importante é levar vantagem em tudo, certo?” O canhotinha de ouro deixou de existir neste dia.

No Brasil inteiro, levar vantagem era ser legal, era ser esperto, malandro. Qualquer um que fizesse algo em desacordo com a ética e a moral, usava a frase da propaganda como justificativa e todos riam dando razão.

Ao me recordar daquela época, vejo como o país tomou aquela máxima como uma forma de bem viver. Não devolver o troco, pedir desconto para pagar sem nota fiscal, enganar o imposto de renda, passar a frente em uma fila, tudo isso passou a ser visto como natural. O Brasil virou o paraíso dos estelionatários.

De um dia para o outro, as pessoas mostraram quem realmente eram e estavam respaldadas pela Lei de Gérson.

Muitos anos se passaram até que a ética e a moral fossem chamadas de volta do exílio onde se encontravam, mortas de vergonha. E assim aos poucos o país foi começando a se dar conta de que aquela malandragem toda somente trazia prejuízos para o bem comum e benefícios para poucos. O respeito ao próximo, a solidariedade bateram à porta e foram convidados a entrar.

A vida é cheia de ciclos. Nossa existência tem muito da roda, ora estamos por cima, ora por baixo. E foi o que aconteceu.

De alguns anos para cá, nossa paciência com a corrupção chegou ao fim. No país onde alguém devolve uma carteira achada na rua com dinheiro dentro é motivo de notícia em todos os jornais, corrupto passou a ser o sujeito mais detestado na sociedade. Não qualquer corrupto, não aquele que continua sonegando impostos, apenas aquele que rouba daqueles que pagam. Não importa que o efeito seja o mesmo, ou seja, se alguém sonega vai faltar dinheiro para a saúde, educação e segurança. Se alguém rouba o dinheiro que era destinado para isso é a mesma coisa. Estranho, não?

O país foi se enchendo de ufanismo na mesma proporção em que limitava a história. A corrupção passou a existir somente em um partido político e as normas jurídicas também. O fato de a corrupção ser uma epidemia distribuída em todo espectro político e conhecida, não era importante. O que poderia salvar a maioria era apontar o bode expiatório. Fazer alguém pagar por isso, saciar as massas e dar a elas a sensação de que um novo país era possível, aquele onde a política seria a partir de agora sustentada por homens de bem preocupados, exclusivamente, com a melhor distribuição de renda e justiça social a fim de diminuir a distância entre os mais e os menos favorecidos. Nascia a Lava a Jato.

Tudo andou de acordo com um excelente planejamento. A presidente eleita que havia criado as Leis anticorrupção precisava ser deposta. Uma manobra totalmente estapafúrdia foi criada a toque de caixa para justificar o Impeachment. Mas isso ainda não era suficiente.

O maior presidente que o pais já teve, reconhecido internacionalmente por trazer o Brasil ao patamar de igual entre as nações mais desenvolvidas tinha que ser retirado da vida pública. Sua permanência no cenário político era uma ameaça permanente ao plano original. Alguns bois de piranha foram dados às massas, afinal era necessário fazer algum sacrifício e assim, aquele que liderou o processo para deposição da presidente em troca de muitos favores e outros tantos favorecimentos, pagou por sua ganância insaciável.

Uma nova ordem estava no ar, e nela o nome mais conhecido, Juiz Moro, Sérgio Fernando Moro. Um sujeito até então totalmente desconhecido, juiz de primeira instância que ascendeu ao cargo por coisas do destino. Não conseguindo passar na prova da OAB para exercer a advocacia, passou em um concurso para juiz. Simples assim.

Moro passou a ser no Brasil o paladino da justiça. Aquele que a sociedade pensava não existir entre nós. A deusa da justiça encarnada em um ser humano. Era Deus no céu e Moro na terra. Os fins passaram a justificar os meios e um novo tipo de justiça passou a ser aceito, a Lei de Moro.

Não eram mais necessárias provas para uma condenação, bastavam convicções. Não se exigiam mais delitos comprovados, qualquer indício passou a ser aceito. Sua influência chegou ao STF na famosa frase de uma ministra da corte: “Não tenho prova cabal contra o réu, mas vou condená-lo porque a lei me permite”.

A cada disparate da justiça contra os membros de um campo político, mais apoio midiático e teses “nonsense” para sustentá-las. Nunca vimos antes tanto apoio ao absurdo. A razão foi escondida e o direito a inocência até prova em contrário, exilado. Na Lei de Moro não existe estado de direito, somente o direito do estado personificado na sua pessoa. Ele é o estado.

Assim sendo, o resultado para o julgamento do presidente do povo não poderia ser outro. Ele foi a julgamento apenas pró-forma, pois condenado já estava. O plano prosseguia e ia ganhando apoio popular. Mas eis que algo surge no horizonte, pesquisas eleitorais mostram que aquele ser ganharia as eleições.

Nunca a justiça brasileira foi tão rápida. Enquanto milhares de brasileiros morrem antes de receber o que tinham direito pela demora em terem seus pleitos julgados, a segunda instância imediatamente, em tempo recorde, carimbou a confirmação da condenação. Mas somente isso não bastava. Ampliou a pena de maneira a permitir o cumprimento da pena na cadeia. Agora que o STF havia aberto a possibilidade de um condenado em segunda instância começar a cumprir a pena enquanto aguarda por recurso, tudo se encaixou.

Podemos dizer que todas as instituições cumpriram seu papel com a ajuda da mídia. O ex-presidente foi colocado na prisão e impedido de concorrer nas eleições. O resultado foi o desejado. Sem ele na disputa, o milico que foi retirado do exército por ato de terrorismo ganhou as eleições. O perigo de uma volta ao verdadeiro combate a corrupção foi afastado. Quem se importa? Novos ministros, inclusive com condenações já estão sendo nomeados, mas nenhum chamou mais atenção do que o Juiz Moro.

Aquele que julgou e condenou o maior adversário do presidente eleito foi convidado, e aceitou ser o seu Ministro da Justiça sem qualquer impedimento ético. Ele troca um salário que com todos os benefícios chega próximo dos R$ 100.000,00 e uma carreira na magistratura, por um salário de R$ 30.000,00 durante possíveis quatro anos, se lá permanecer. Quem faria isso?

Dois tipos de pessoas que eu conheço aceitariam trocar uma carreira de luxo segura a te sua aposentadoria por uma nomeação momentânea com prazo conhecido. Uma é aquela para quem o mais importante é o amor ao próximo e ao país acima de tudo. Alguém disposto a sacrificar seu futuro pelo bem da nação.

O outro tipo de pessoa é aquela que tem algo a ganhar com tal nomeação, ou a perder sem o cargo e isso me faz trazer a tona pelo menos dois fatos conhecidos. O caso Banestado e as informações trazidas por Tecla Durán.

O caso Banestado foi uma investigação nos anos 90, arbitrada por Moro que constatou a remessa ilegal, fruto de corrupção envolvendo políticos, empresários e empreiteiras de mais de 500 bilhões de reais em dinheiro de hoje por diversos doleiros. Qualquer semelhança com a Lava Jato não é mera coincidência. Alguém lembra disso? Claro que não, já que no final do governo Collor, tudo foi devidamente arquivado por quem teria se tornado então um herói nacional, ele mesmo, Moro. Uns poucos lambaris pagaram o pato. Dinheiro restituído, nenhum.

Mas temos mais recentemente Rodrigo Tecla Durán. Ex-advogado da Odebresht ele contou que um amigo de Moro, Carlos Zucolotto, intermediava negociações paralelas na lava Jato. Zucolotto e a esposa de Moro eram sócios em um escritório de advocacia. Com pagamentos aos membros da operação, penas podiam ser diminuídas e regimes de prisão modificados para cumprimento em casa.

Qualquer um destes casos poderia ser investigado pela Polícia Federal se provocada pelo Ministério Público, ou não. Aí entra o caso da pessoa que tem algo a ganhar no cargo de Ministro da Justiça, a quem está subordinada a Polícia Federal, o nome dela é Sérgio Fernando Moro.

Acho que assim podemos compreender melhor a troca de favores que aconteceu entre o presidente eleito e o juiz que já estava acertado para a função antes do período eleitoral conforme seu vice na chapa declarou.

Concluindo, uma enorme quantidade de pessoas foi enganada e levada a acreditar que tudo era pelo Brasil e contra a corrupção. Foram massa de manobra, idiotas úteis. Legitimaram um plano há muito concebido para chegar aonde chegamos. A primeira etapa foi concluída com louvor. A segunda etapa começa agora com a submissão do país aos interesses neoliberais de brasileiros e estrangeiros que vão tornar o país uma nova Cuba de Fulgencio Batista, com a abertura de Cassinos com seus correlatos, drogas e prostituição. E uma nova Venezuela onde as instituições serão submetidas à vontade presidencial, seja por bem, seja por baionetas. Mas não se preocupem, tudo será referendado por uma nova ordem.

Sejam bem vindos a Lei de Moro.