O Circo

Tenho lido sobre os imperadores romanos desde jovem, e uma coisa sempre me pareceu clara nas histórias que sobreviveram a eles, o poder romano precisava de dois elementos para se sustentar diante do povo, o sangue como cenário e o elogio como moeda. Cômodo, filho de Marco Aurélio, vestia pele de leão e empunhava a clava de Hércules para descer à arena e matar animais e gladiadores diante de dezenas de milhares de pessoas reunidas no Coliseu. O Senado, que ele mesmo havia esvaziado de qualquer poder real, aplaudia e lhe concedia títulos cada vez mais extravagantes entre um combate e outro. Décadas depois, Domiciano exigiria, dentro do próprio palácio, ser chamado de senhor e deus. A função desses espetáculos nunca foi apenas matar; era lembrar aos presentes que a vida de quem estava na arena e a aprovação de quem ocupava as arquibancadas dependiam da mesma pessoa.
Quase dois mil anos depois, no domingo, quatorze de junho de dois mil e vinte e seis, o jardim sul da Casa Branca foi transformado em anfiteatro para celebrar, simultaneamente, o octogésimo aniversário de Donald Trump e os duzentos e cinquenta anos de independência dos Estados Unidos. Uma estrutura de aço de vinte e oito metros, batizada de A Garra, dominava o gramado onde normalmente aterrissam os helicópteros presidenciais. Atores vestidos como soldados da Guerra da Independência montavam guarda enquanto catorze lutadores cruzavam os corredores do edifício, alguns passando pelo Salão Oval, para chegar ao octógono. Um sobrevoo da Força Aérea abriu a noite, seguido do hino nacional. A multidão gritava EUA sempre que um competidor americano enfrentava um estrangeiro, o que nem sempre garantia a vitória do lutador local. Vi as fotos chegarem ao telefone em fragmentos, à distância, como vejo quase tudo o que acontece naquele país que tanto pesa sobre o meu.
Sentados perto do octógono, ao lado do presidente, estavam homens que hoje exercem o papel outrora reservado aos reis clientes diante dos imperadores romanos, trocando lealdade visível por proximidade. Mark Zuckerberg, que suspendeu as contas de Trump após o ataque ao Capitólio em janeiro de dois mil e vinte e um e desembolsou vinte e cinco milhões de dólares para encerrar o processo movido pelo próprio presidente, conversava brevemente com ele entre os combates. David Ellison, da Paramount Skydance, também estava lá, poucos dias depois de o Departamento de Justiça aprovar a fusão da sua empresa com a Warner Bros Discovery. Nenhum dos dois precisou explicar em voz alta a razão de estar ali. A proximidade física já dizia tudo.
O lutador Josh Hokit venceu Derrick Lewis por nocaute no segundo round e, na entrevista subsequente, retirou do pescoço uma corrente de ouro para entregar ao presidente como presente de aniversário. A Casa Branca publicou a foto do gesto horas depois. Menos de um ano antes, em agosto de dois mil e vinte e cinco, Tim Cook entrara no Salão Oval com uma placa de vidro montada sobre uma base de ouro de vinte e quatro quilates, oferta que acompanhou o anúncio de outros cem bilhões de dólares em investimentos da Apple nos Estados Unidos. Em ambos os casos, o metal precioso não comprava o mandatário; confirmava, diante das câmeras, quem precisava do presidente mais do que este necessitava de quem lhe estendia o tributo.
Foi após a entrega da corrente, ainda diante do microfone, que Hokit usou o ápice de sua carreira para declarar à multidão e ao país que Michelle Obama era um homem, indagando se não tinha razão. A plateia ao redor aplaudiu, e Joe Rogan, que conduzia a entrevista, sorriu, hesitando, antes de encerrar o quadro com o nome do atleta e se afastar do microfone.
Dana White, amigo de longa data de Trump e dono do UFC, classificou o comentário como falso e grosseiro no dia seguinte, tratando o caso como mera bobagem. O porta-voz da Casa Branca, indagado sobre o episódio, preferiu elogiar o desempenho do lutador no octógono e evitou o restante da pergunta. Trump publicou nas redes sociais que a noite fora incrível, omitindo qualquer menção a Hokit ou a Michelle Obama. O silêncio do homem que estava sentado a poucos metros daquele microfone no momento da declaração já é, em si, a resposta que importa.
Em Roma, o que tornava os jogos perigosos não era apenas o sangue na arena, mas o que eles autorizavam posteriormente, quando as luzes se apagavam e todos voltavam para casa sabendo exatamente o quanto se podia dizer e fazer perto do imperador sem sofrer sanções. Um presidente que assiste a um homem proferir aquele insulto, vê a plateia aplaudir e opta pelo silêncio depois, transmite a lição que Cômodo ditava ao Senado nas primeiras filas, a de que a proximidade ao poder vale mais do que a decência, e de que o silêncio de quem poderia condenar a afronta funciona como uma forma de aplauso.
Vi essa sequência de notícias durante um turno de guarda noturno aqui no norte de Israel, olhando para um céu onde qualquer luz fora do lugar pode ser um drone vindo do Líbano, e refleti que a minha segurança depende, em alguma medida, da disposição pessoal do mesmo homem que silenciou na primeira fila daquele octógono. Os interceptores que protegem este país chegam quando Washington assim decide, e Washington, neste momento da sua história, é dirigida por um homem cuja moral pública parece ser medida pela quantidade de ouro que lhe oferecem e pela disposição de tolerar o que se recusa a condenar.
A multidão do Coliseu rugia da mesma forma tanto diante da morte do leão quanto da do gladiador. O que importava, para quem estava nas arquibancadas, era estar perto o bastante da tribuna imperial para não ser, na luta seguinte, quem desceria à arena. Dois mil anos depois, do outro lado do mundo, ainda estamos decidindo onde ficar sentados.

O Escudo Partido

A Estrela de David não nasceu como símbolo de Estado. Gershom Scholem passou décadas rastreando sua história e encontrou algo perturbador: durante séculos, o hexagrama foi um ornamento, um amuleto, uma figura decorativa sem peso teológico fixo. Aparecia em sinagogas e em mesquitas, em talismãs judaicos e em manuscritos islâmicos. Era de todos porque não era de ninguém em particular. Só no século XIX, quando o nacionalismo europeu exigiu que cada povo tivesse sua bandeira, seu emblema, sua identidade visual consolidada, é que a estrela de seis pontas foi recrutada para ser o sinal do povo judeu. Nasceu moderna, essa identidade. Nasceu como escolha, não como revelação.

Eu também escolhi. Não fugi de nada, não escapei de nenhuma perseguição. Vim porque quis, porque havia aqui algo que parecia valer uma vida inteira. O sal do Mediterrâneo de manhã, a sensação de pertencer a um projeto que sobreviveu ao impossível. Essa foi a aposta. E as apostas, quando se perde, doem de forma que só quem as fez entende.

Quando um símbolo é construído, pode ser destruído. Não fisicamente, mas por dentro, pela conduta daqueles que o carregam. O que Netanyahu e o círculo que o mantém no poder têm feito é precisamente isso: destruir o símbolo a partir de dentro, usar o escudo como arma e depois exibir os destroços como prova de resistência.

Há uma violência específica nisso. Não a violência da guerra, que tem sua própria lógica brutal e seu próprio julgamento na história. A violência do que se faz com o nome de um povo enquanto esse povo assiste, parte em silêncio forçado, parte em cumplicidade, parte em desespero genuíno. Gaza não é apenas uma catástrofe humanitária, embora seja isso também, de forma avassaladora. É o lugar onde a imagem de Israel como projeto moral foi sendo executada, decisão por decisão, declaração por declaração, por homens que precisam da guerra para sobreviver politicamente e que aprenderam a chamar essa necessidade de segurança nacional.

Scholem entendia que os símbolos carregam a ambivalência de sua própria história. A estrela que ornamentou a porta de sinagogas da Europa Central foi a mesma costurada em amarelo nos casacos dos condenados. O mesmo sinal. Significados opostos. O que muda não é o hexagrama, mas quem o usa e com qual poder nas mãos.

O que Netanyahu e Ben-Gvir e Smotrich fazem com esse símbolo não é diferente em estrutura, apenas em direção. Tomam o escudo de David e o transformam em carta branca. Invocam o Holocausto para silenciar a crítica. Convocam a memória dos perseguidos para justificar a perseguição. Usam a narrativa do povo que quase desapareceu para legitimar políticas que fazem outros povos desaparecer. Isso não é defesa. É o sofrimento convertido em arma, e é moralmente indefensável por qualquer critério que não seja o da pura conveniência tribal.

E o dano não fica contido nas fronteiras de Gaza ou na Cisjordânia. O dano vaza. Chega às ruas de Londres e São Paulo e Paris, onde jovens que nunca pisaram em Israel confundem o Estado com o povo, o governo com a tradição, Netanyahu com o judaísmo. Esse é o crime adicional que a extrema direita israelense comete contra os próprios judeus: tornar a estrela de David um símbolo de ocupação nas mentes de uma geração inteira. Scholem temia que o símbolo pudesse ser esvaziado. Não imaginou que pudesse ser preenchido com isso.

Há manhãs em que o mar está quieto e Israel parece exatamente o que deveria ser. Nesses momentos, a aposta ainda faz sentido. Mas entre esse silêncio e o que se vê nas telas há uma distância que cresce a cada semana, e é uma distância que homens como Netanyahu criaram deliberadamente, porque precisam do abismo para continuar de pé.

O escudo de David sobreviveu à indiferença, à apropriação, ao amarelo dos campos de concentração. Não sei se sobrevive a isso. A ser brandido por quem transformou o medo em ideologia e a ideologia em impunidade, enquanto o mundo assiste e vai aprendendo a associar a estrela de seis pontas não ao povo que a carregou por séculos, mas aos homens que a sequestraram numa tarde de outubro e ainda não a devolveram.

O Preço da Graça

A nossa tragédia existencial é que padecemos de uma inocência que beira a complacência. Em Israel, sob os foguetes diários e a angústia crônica, gostamos de acreditar que a sobrevivência repousa nas mãos de um estadista. Entregamos o pescoço da nação a um fiador que julgamos operar sob um pacto moral inviolável. O desespero exige essa fantasia. Mas a realidade desaba quando o guardião do amanhã revela ter a envergadura ética de um agiota.

Para entender a alma do sujeito que assina os cheques de proteção, basta olhar para a escória que ele perdoa. Tomemos o caso de Joseph Schwartz. Ele não era um arquiteto do mal ou um vilão shakespeariano. Era apenas o dono da Skyline Healthcare, uma formidável rede americana de clínicas para idosos. A anatomia moral desse indivíduo precisa ser desenhada com precisão clínica. O talento singular de Schwartz consistia em monetizar escaras e lençóis urinados. Ele transformou a reta final da vida alheia em uma rubrica contábil. Secou os cofres da empresa, sonegou montanhas de impostos, roubou a aposentadoria dos enfermeiros, e terceirizou a desnutrição de pessoas indefesas com uma eficiência metódica. A justiça federal americana, num raro lapso de decência, o trancafiou.

Mas eis que em novembro do ano passado, após três meses irrisórios de reclusão, o empresário saiu caminhando pela porta da frente. O presidente Donald Trump concedeu a ele um perdão incondicional. A desculpa oficial foi uma comovente compaixão por um idoso doente. O suborno real custou cerca de um milhão de dólares, pagos a lobistas que abrem as portas do poder com a mesma naturalidade com que pedem um café. Schwartz comprou a própria liberdade usando o dinheiro extorquido de quem limpava as fezes dos seus pacientes. E Trump, em sua infinita clemência transacional, emitiu o recibo sem piscar.

Quem considera Schwartz uma aberração não entendeu o sistema. Ele é a própria essência do negócio. Neste segundo mandato, os indultos escorreram da caneta presidencial em escala industrial. Executivos que implodiram bancos e bilionários que compraram comitês políticos encontraram a salvação instantânea. A balança da justiça foi obliterada. Ela não pesa mais o crime, apenas verifica o limite do cartão de crédito na antessala do Salão Oval. O reflexo mais direto dessa mercantilização do Estado é o enriquecimento da própria dinastia. Segundo levantamentos recentes da revista Forbes, a fortuna da família Trump dobrou desde o início deste segundo mandato. O perdão de Estado decaiu para um balcão de negócios. O líder do mundo livre rasgou o contrato civil e transformou o delito corporativo em uma taxa de conveniência.

É exatamente nesse cenário que a situação ganha ares de tragédia. Crescemos acreditando que a aliança com os americanos se baseava em princípios compartilhados e laços democráticos. Hoje, terceirizamos o sangue dos nossos filhos a um homem que venderia a própria mãe se a margem de lucro fosse atraente. Se a lei interna americana é leiloada para quem paga a melhor comissão, é delírio puro acreditar que a política externa guarde qualquer lastro moral. A diplomacia presidencial tornou-se uma casa de penhores.

Conhecemos a fragilidade da logística militar. Cada bateria antiaérea nossa só funciona porque acreditamos que as munições cruzarão o oceano quando a sirene berrar. Sob um governo administrado como um império de extorsão, um envio de mísseis de emergência deixa de ser um compromisso entre nações e vira insumo para chantagem pessoal. A defesa passa a depender não da urgência das baixas no campo de batalha, mas da digestão e dos humores privados na Sala Oval.

Dormimos em uma das fatias de terra mais letais do planeta, apostando o pescoço em um homem para quem absolutamente tudo, a lei, a honra, o sangue, e a existência de um aliado, não passa de mercadoria. E é preciso encarar a nossa própria hipocrisia com a crueza necessária. Em um país onde a única coisa que apodrece mais rápido que a banana é a moral dos nossos políticos, estar amarrado ao cinismo predatório de Donald Trump é um sinal de que estamos definitivamente do lado errado da história.

A Prestação de Contas

Aqui no vale abaixo de Gilboa, onde Saul caiu e onde foguetes caem agora com muito menos poesia, observo esta guerra há tempo suficiente para conhecer a distância entre o que foi prometido e o que está chegando. O acordo que toma forma entre os Estados Unidos e o Irã expressará, se assinado, uma capitulação que Netanyahu não pode nomear em público e Trump não reconhecerá em particular.
Em 2015, quando o governo Obama assinou um acordo nuclear com o Irã que atraiu duras críticas, Netanyahu fez um discurso perante o Congresso dos Estados Unidos que violou todas as convenções diplomáticas entre governos aliados. Ele foi a Washington dizer ao presidente americano que ele estava errado, e grande parte de sua identidade política foi construída sobre esse gesto. Três anos depois, ele convenceu Trump a abandonar o acordo. A política de pressão máxima que se seguiu não dissuadiu Teerã. Em vez disso, o regime acumulou quatrocentos e quarenta quilogramas de urânio enriquecido a sessenta por cento e avançou seu programa a um ponto onde o acordo original pareceria, em retrospectiva, um ajuste razoável.
Então Netanyahu convenceu Trump a lançar uma campanha militar. Os Estados Unidos atacaram a instalação subterrânea em Fordow em junho passado, e em fevereiro os dois países lançaram um ataque conjunto geral. Trump acreditava que a campanha duraria alguns dias, e quando o Estreito de Ormuz fechou e a interrupção das exportações de petróleo do Golfo tornou-se total, o presidente viu-se enfrentando consequências que ele optou por não planejar. O fechamento do estreito aparece no primeiro capítulo de todas as simulações de guerra conduzidas na região nas últimas três décadas. Trump sabia que o risco existia. O que ele não havia preparado era estar errado sobre a rapidez com que Netanyahu lhe disse que tudo terminaria. No último mês e meio, observamos a obstinação iraniana, ameaças americanas vazias e o que agora parece ser um compromisso que aborda o programa nuclear de alguma forma e não aborda quase nada mais, nem os mísseis balísticos, nem as organizações por procuração, e nem a mudança de regime em Teerã que fazia parte da promessa quando a guerra começou. O alívio das sanções que faz parte do acordo descongelará dezenas de bilhões de dólares e encherá os cofres do Irã com dinheiro que quase certamente chegará ao Hezbollah e ao Hamas.
Não sei o que Netanyahu disse a Trump em particular. Mas sei o que ele nos disse em público, que era que esta guerra terminaria em vitória total, que o programa nuclear do Irã seria desmantelado, que a ameaça seria removida e que os sacrifícios valeriam o que compraram. Mais de dois mil israelenses morreram desde que esta guerra começou. O acordo que toma forma não reflete essas promessas. Ele reflete os limites do que a força militar pode realizar quando a vontade política para sustentá-la evapora, e reflete o fracasso específico de um primeiro-ministro que passou anos convencendo um presidente americano a lutar uma guerra em termos que nunca foram honestos sobre o custo.
No Líbano, o quadro não é menos honesto. Os líderes de Israel falaram publicamente durante anos sobre o Hezbollah como se fosse um problema que a pressão militar resolveria eventualmente, e ele não foi resolvido. O grupo continua a atacar diariamente, com drones carregados de explosivos causando ferimentos em soldados e fatalidades a cada poucos dias, e não está considerando a rendição. A estratégia de Israel no Líbano, se é que houve uma, entrou em colapso, e a lacuna entre as declarações públicas e a realidade no terreno é a lacuna que define este governo com mais precisão.
Netanyahu não pode se opor publicamente a Trump. Ele está se contentando com briefings silenciosos entregues através de fontes diplomáticas anônimas, cuidadoso para não dizer nada que possa custar-lhe a relação americana da qual sua sobrevivência política depende. Ele construiu toda a sua carreira na alegação de que apenas ele entendia a ameaça iraniana, que apenas ele tinha o julgamento e as conexões para gerenciá-la, e que os céticos que duvidavam dele eram ingênuos ou fracos, ou ambos. O que está tomando forma no Golfo é a prestação de contas dessa alegação. O vale abaixo de Gilboa está silencioso esta noite, o que significa que os drones estão em algum outro lugar. O primeiro-ministro que nos levou até aqui está parado a uma distância cautelosa dos resultados, como se a guerra fosse algo que aconteceu a Israel em vez de algo que ele escolheu para nós.

O reflexo de quem nos vê

A lição mais valiosa que aprendi sobre mim mesmo foi o desprendimento. Não porque fosse inalcançável, mas porque o busquei no lugar errado. O procurei no desprezo, habitando a postura rígida de quem almeja a imperturbabilidade e o autocontrole. O procurei na indiferença, cultivada como virtude num esforço sincero para silenciar o ego. Não estava em nenhum dos dois, estava na compreensão. E a compreensão, descobri, é um caminho muito mais silencioso e duradouro do que tudo aquilo que eu conquistava com gestos dramáticos ou com a encenação da autossuficiência. Ela nasce da empatia profunda, do encontro autêntico onde reconhecemos a humanidade do outro, sabendo que as sombras e as luzes que projetam sobre nós vêm de seus próprios abismos inconscientes.
Porque os outros nos veem sempre através de algo.
Ninguém chega a nós com os olhos limpos. Isso não é um julgamento imutável, é o reflexo da história de quem nos vê.
Há ainda uma segunda camada, mais fugaz e traiçoeira, o estado emocional do momento. A mesma pessoa, no mesmo dia, pode nos achar generosos de manhã e ameaçadores à tarde, dependendo do que aconteceu com ela entre um café e outro. Nós não mudamos nada. Foi ela quem atravessou um corredor interno diferente e chegou até nós com outra luz nos olhos ou sem nenhuma. O retrato que ela faz de nós nesse instante carrega muito mais das suas próprias vivências do que da nossa realidade. Mas ela raramente sabe disso. E nós, que recebemos esse retrato como se fosse uma sentença absoluta, também não sabemos.
É aí que mora o equívoco que nos faz tanto mal. Tratamos a opinião alheia como se fosse uma fotografia tirada com equipamento preciso, em condições ideais, por alguém sem nenhum interesse no resultado.
Como se o olhar do outro fosse neutro. Como se não fosse um espelho a tremer, que deforma a imagem, refletindo apenas as suas próprias projeções, e não a verdade.
O resultado é que passamos anos tentando corrigir uma imagem que não é nossa, nos esforçando para desfazer impressões que, no fim das contas, nunca nos pertenceram.
Quando ampliamos esse espelho para a geografia que habitamos, o reflexo se torna ainda mais trágico. Ao olharmos uns para os outros aqui, entre israelenses e palestinos, percebemos que a mesma lente embaçada que distorce o indivíduo é multiplicada aos milhões. Ninguém olha para quem está do outro lado dessa fronteira invisível com os olhos limpos. Cada lado projeta sobre o rosto do vizinho as suas próprias dores históricas, os seus traumas acumulados, os seus medos profundos de aniquilação e a necessidade desesperada de encontrar contornos definidos onde só existe a neblina do conflito, e recebe de volta a mesma refração distorcida.
Deixamos, de ambos os lados, de ver a complexidade crua das vidas que respiram o mesmo pó. O vizinho se torna uma tela em branco onde cada um pinta as suas narrativas não resolvidas e os seus lutos. Tratamos a imagem que criamos de quem vive ao lado e a imagem que eles criam de nós como uma fotografia nítida do inimigo, quando ela é, na verdade, o mesmo espelho a tremer, agora manchado por gerações de sangue e desconfiança.
O resultado coletivo é o prolongamento do sofrimento. Passamos décadas lutando contra impressões e sentenças absolutas que nasceram nos nossos próprios abismos inconscientes. E enquanto cada lado exige que o outro caiba no retrato monstruoso que desenhou, a verdadeira compreensão silenciosa e empática continua encoberta. Ela só florescerá no dia em que for possível atravessar esse corredor interno doloroso não para confirmar os nossos preconceitos, mas para reconhecer a humanidade daquele que partilha a mesma terra, livre do peso das projeções cruzadas.
O verdadeiro desprendimento, afinal, seja no silêncio de um único indivíduo ou na vastidão de uma terra dividida, não é erguer muros de concreto ou cultivar a indiferença. É aceitar que o espelho a tremer sempre existirá entre nós. Quando abandonamos a necessidade de forçar o outro a assumir a imagem distorcida que criamos para ele, reencontramos o caminho silencioso da compreensão. E é apenas nesse espaço, limpo das projeções do medo e das encenações do ego, que podemos, enfim, enxergar a nós mesmos e ao outro, dividindo o mesmo chão, exatamente como somos.
Porque, no fim das contas, a esperança não repousa na tentativa de traçar novas fronteiras sobre mapas exaustos, mas no reconhecimento da matéria profunda que nos une. Israelenses e palestinos não são apenas figuras antagônicas, são filhos do mesmo vento árido, da mesma pedra e da mesma raiz ancestral. A terra não distingue o passo de quem caminha sobre ela, ela apenas sustenta a todos com a sua presença silenciosa. É neste pertencimento inegável, na certeza de que não possuímos a geografia, mas somos por ela acolhidos em igual medida, que reside a verdadeira possibilidade de futuro. Uma compreensão que não nasce de acordos políticos frios, mas que brota na intimidade do olhar que descobre que o outro não é a negação da nossa existência, mas o companheiro inevitável na partilha deste mesmo e único lar.

Minha Israel já não existe mais.

Há muito tempo, no final do século passado, lembro-me de uma fotografia de Theodor Herzl pendurada nas escadarias do Colégio Israelita Brasileiro, em Porto Alegre, Brasil, que sempre me impressionava. Era uma foto em que ele estava de pé no parapeito de um hotel na Basileia, em 1897, a barba escura, os olhos voltados para o horizonte que não existe na foto, mas existe nele, na postura de quem acredita que está vendo algo que os outros ainda não viram. Era um homem secular, formado nos cafés de Viena, que não sabia praticamente nada sobre judaísmo quando começou a escrever sobre um Estado judeu. O que ele queria era uma nação. O que imaginou foi um lugar onde os judeus pudessem, finalmente, ser parte do mundo mantendo-se como judeus.
Não conheço a Basileia. Mas conheci o antissemitismo no Brasil. Não o ódio expresso, mas a estranheza de quando havia Natal em todos os lados exceto na minha casa, ou na piada ácida sobre judeus mesquinhos, ou na própria língua portuguesa que tanto amo e que criou verbos e substantivos próprios onde o antissemitismo surge quase poético, como judiar, judiaria, judiação.
Nas praias de Israel, onde às vezes caminho no fim da tarde, Israel parece, por alguns minutos, exatamente o que deveria ser. Pessoas de todas as origens, seculares ou religiosas, crianças correndo na areia, a língua hebraica misturada ao árabe, ao russo e a mais de uma dezena de línguas. Não é exagero. Nas edições mais recentes, o Ethnologue — uma organização de referência que atua como um inventário enciclopédico global das línguas vivas — cataloga formalmente entre 34 e 37 línguas vivas em uso corrente dentro do território de Israel. Nesses momentos, o país que escolhi ainda existe. O problema é que ele sobrevive apenas nesses interstícios entre o que é e o que foi prometido.
Vim para cá por escolha, aprendi desde cedo que países podem ser amados e odiados ao mesmo tempo. Quando cheguei a Israel, uma das primeiras coisas que fiz foi tirar um cartão de doação de órgãos. Foi um gesto deliberado, político, uma forma de dizer que eu havia apostado neste lugar com o que tinha de mais essencial, meu corpo. Não me arrependo do gesto.
O sionismo nasceu secular. Isso não é minha opinião progressista; é uma questão histórica. Os rabinos da época, em grande parte, se opuseram a Herzl. O Rabino-Chefe de Jerusalém na época, Yosef Chaim Sonnenfeld, líder do movimento ortodoxo, expressou essa oposição de forma categórica. Em uma carta de junho de 1898 enviada ao seu mentor, ele escreveu sobre *”os homens maus e malandros que aderiram a esta seita”*, chegando a afirmar que *”o inferno entrou na Terra de Israel com Herzl”*. Os haredim atuais são, nesse sentido, os herdeiros de uma longa tradição de rejeição ao projeto fundador do Estado que dominam politicamente hoje. Há nisso uma ironia com a qual Kafka teria se deleitado.
O movimento que nasceu para integrar os judeus ao mundo se tornou o veículo pelo qual os extremistas de direita e os haredim, que se recusam a servir no exército israelense porque não reconhecem o Estado, mas aceitam nosso dinheiro, chegaram ao poder.
Em 2025, os haredim representam 14,3% da população israelense. Em 1948, eram talvez quarenta mil pessoas num país recém-formado. A taxa de natalidade desse grupo é alta o suficiente para que o Instituto Demográfico de Israel projete uma maioria haredi no sistema de ensino antes de meados do século. Hoje somam mais de um milhão e quatrocentos mil. Sessenta por cento têm menos de vinte anos. Enquanto isso, 82.800 israelenses deixaram o país em 2023, um aumento de 44% em relação ao ano anterior. Em 2025, pela primeira vez na história do Estado, Israel registrou mais emigrantes do que imigrantes de longo prazo. Os yordim, os que descem, são em sua maioria seculares, escolarizados e economicamente produtivos. Os que ficam, cada vez mais, estudam Torá com subsídios estatais e não pagam imposto de renda. É a demografia, e não a democracia, que está redesenhando o futuro do país.
O cientista político Dani Filc, professor da Universidade Ben-Gurion do Negev e especialista na evolução ideológica do país, descreveu o Likud como um partido gradualmente assimilado por forças extremistas, que adotou suas teses mais radicais não porque Netanyahu as defendesse, mas porque eram o preço da sobrevivência. A corrupção nem sempre é financeira. Às vezes é simplesmente moral.
Antes do 7 de outubro, havia manifestações semanais de dezenas de milhares de pessoas contra a reforma judicial. Tel Aviv parava. Por um momento, aquilo era uma sociedade civil que se recusava a ceder. Depois do ataque, esse movimento foi parcialmente suspenso pela guerra, e ela foi usada para aprofundar exatamente o que o movimento tentava impedir. As ideias que antes eram apresentadas como radicais — ocupar Gaza permanentemente, expulsar populações, anexar a Cisjordânia — tornaram-se agenda de governo com a velocidade que o estado de emergência sempre concede aos que estavam esperando por ele.
Não estou falando de Israel como quem olha de fora e julga de longe. Estou falando de dentro, no norte do país, onde os alertas de foguetes são parte do nosso calendário. Estou falando como alguém que escolheu esse lugar, mas que precisa ser honesto sobre o que estamos nos tornando, e não é bom.
O sionismo que me trouxe aqui era uma ideia de dignidade coletiva, não de supremacia religiosa. A promessa de que um povo disperso poderia construir algo comum, plural, vivo. Era, em alguma medida, a mesma ideia que qualquer democracia liberal carrega: a de que é possível viver com as diferenças, não contra elas.
Herzl escreveu, em 1896, que na futura nação judaica cada um poderia servir a Deus à sua maneira. Era uma declaração de liberdade, não de teocracia. Era a declaração de alguém formado em Voltaire, que sabia o custo de viver sob a tutela de uma verdade única. O Estado que ele imaginou era moderno porque precisava ser moderno. Era um Estado de judeus, não um Estado judaico. A distinção importa. É exatamente ela que está sendo desfeita, metodicamente.
Ainda tenho o cartão ADI na carteira. Não o tirei. Mas há dias em que olho para ele e me pergunto para qual Israel estou doando meus órgãos. Para o país da praia de fim de tarde, das línguas misturadas, dos estudantes de tecnologia e das mães que empurram carrinhos de bebê nos calçadões, ou para o país de Ben-Gvir e dos rabinos que afirmam que o aprendizado da Torá protege mais o Estado do que os soldados que morrem no front, enquanto seus próprios filhos não servem e nós pagamos a conta?
Essa pergunta não tem resposta fácil. Há uma diferença importante entre não ter resposta e não fazer a pergunta. O que me preocupa não é a incerteza. É o silêncio dos que deveriam estar fazendo essa pergunta e não a estão fazendo.
Herzl nunca viu o país que imaginou. Morreu em 1904, aos quarenta e quatro anos. A declaração de independência viria quarenta e quatro anos depois. Ele e os fundadores deste Estado eram parte do movimento secular que ergueu esta nação, que agora está sendo devorada pelas forças que sempre acreditaram que um Estado judeu só poderia ser um Estado de um Deus.
Estamos aqui, neste momento, vendo o que está sendo feito com o sonho sionista original. Essa é a única obrigação que um país impõe a quem o escolheu: não olhar para outro lado quando ele está se perdendo.