Há muito tempo, no final do século passado, lembro-me de uma fotografia de Theodor Herzl pendurada nas escadarias do Colégio Israelita Brasileiro, em Porto Alegre, Brasil, que sempre me impressionava. Era uma foto em que ele estava de pé no parapeito de um hotel na Basileia, em 1897, a barba escura, os olhos voltados para o horizonte que não existe na foto, mas existe nele, na postura de quem acredita que está vendo algo que os outros ainda não viram. Era um homem secular, formado nos cafés de Viena, que não sabia praticamente nada sobre judaísmo quando começou a escrever sobre um Estado judeu. O que ele queria era uma nação. O que imaginou foi um lugar onde os judeus pudessem, finalmente, ser parte do mundo mantendo-se como judeus.
Não conheço a Basileia. Mas conheci o antissemitismo no Brasil. Não o ódio expresso, mas a estranheza de quando havia Natal em todos os lados exceto na minha casa, ou na piada ácida sobre judeus mesquinhos, ou na própria língua portuguesa que tanto amo e que criou verbos e substantivos próprios onde o antissemitismo surge quase poético, como judiar, judiaria, judiação.
Nas praias de Israel, onde às vezes caminho no fim da tarde, Israel parece, por alguns minutos, exatamente o que deveria ser. Pessoas de todas as origens, seculares ou religiosas, crianças correndo na areia, a língua hebraica misturada ao árabe, ao russo e a mais de uma dezena de línguas. Não é exagero. Nas edições mais recentes, o Ethnologue — uma organização de referência que atua como um inventário enciclopédico global das línguas vivas — cataloga formalmente entre 34 e 37 línguas vivas em uso corrente dentro do território de Israel. Nesses momentos, o país que escolhi ainda existe. O problema é que ele sobrevive apenas nesses interstícios entre o que é e o que foi prometido.
Vim para cá por escolha, aprendi desde cedo que países podem ser amados e odiados ao mesmo tempo. Quando cheguei a Israel, uma das primeiras coisas que fiz foi tirar um cartão de doação de órgãos. Foi um gesto deliberado, político, uma forma de dizer que eu havia apostado neste lugar com o que tinha de mais essencial, meu corpo. Não me arrependo do gesto.
O sionismo nasceu secular. Isso não é minha opinião progressista; é uma questão histórica. Os rabinos da época, em grande parte, se opuseram a Herzl. O Rabino-Chefe de Jerusalém na época, Yosef Chaim Sonnenfeld, líder do movimento ortodoxo, expressou essa oposição de forma categórica. Em uma carta de junho de 1898 enviada ao seu mentor, ele escreveu sobre *”os homens maus e malandros que aderiram a esta seita”*, chegando a afirmar que *”o inferno entrou na Terra de Israel com Herzl”*. Os haredim atuais são, nesse sentido, os herdeiros de uma longa tradição de rejeição ao projeto fundador do Estado que dominam politicamente hoje. Há nisso uma ironia com a qual Kafka teria se deleitado.
O movimento que nasceu para integrar os judeus ao mundo se tornou o veículo pelo qual os extremistas de direita e os haredim, que se recusam a servir no exército israelense porque não reconhecem o Estado, mas aceitam nosso dinheiro, chegaram ao poder.
Em 2025, os haredim representam 14,3% da população israelense. Em 1948, eram talvez quarenta mil pessoas num país recém-formado. A taxa de natalidade desse grupo é alta o suficiente para que o Instituto Demográfico de Israel projete uma maioria haredi no sistema de ensino antes de meados do século. Hoje somam mais de um milhão e quatrocentos mil. Sessenta por cento têm menos de vinte anos. Enquanto isso, 82.800 israelenses deixaram o país em 2023, um aumento de 44% em relação ao ano anterior. Em 2025, pela primeira vez na história do Estado, Israel registrou mais emigrantes do que imigrantes de longo prazo. Os yordim, os que descem, são em sua maioria seculares, escolarizados e economicamente produtivos. Os que ficam, cada vez mais, estudam Torá com subsídios estatais e não pagam imposto de renda. É a demografia, e não a democracia, que está redesenhando o futuro do país.
O cientista político Dani Filc, professor da Universidade Ben-Gurion do Negev e especialista na evolução ideológica do país, descreveu o Likud como um partido gradualmente assimilado por forças extremistas, que adotou suas teses mais radicais não porque Netanyahu as defendesse, mas porque eram o preço da sobrevivência. A corrupção nem sempre é financeira. Às vezes é simplesmente moral.
Antes do 7 de outubro, havia manifestações semanais de dezenas de milhares de pessoas contra a reforma judicial. Tel Aviv parava. Por um momento, aquilo era uma sociedade civil que se recusava a ceder. Depois do ataque, esse movimento foi parcialmente suspenso pela guerra, e ela foi usada para aprofundar exatamente o que o movimento tentava impedir. As ideias que antes eram apresentadas como radicais — ocupar Gaza permanentemente, expulsar populações, anexar a Cisjordânia — tornaram-se agenda de governo com a velocidade que o estado de emergência sempre concede aos que estavam esperando por ele.
Não estou falando de Israel como quem olha de fora e julga de longe. Estou falando de dentro, no norte do país, onde os alertas de foguetes são parte do nosso calendário. Estou falando como alguém que escolheu esse lugar, mas que precisa ser honesto sobre o que estamos nos tornando, e não é bom.
O sionismo que me trouxe aqui era uma ideia de dignidade coletiva, não de supremacia religiosa. A promessa de que um povo disperso poderia construir algo comum, plural, vivo. Era, em alguma medida, a mesma ideia que qualquer democracia liberal carrega: a de que é possível viver com as diferenças, não contra elas.
Herzl escreveu, em 1896, que na futura nação judaica cada um poderia servir a Deus à sua maneira. Era uma declaração de liberdade, não de teocracia. Era a declaração de alguém formado em Voltaire, que sabia o custo de viver sob a tutela de uma verdade única. O Estado que ele imaginou era moderno porque precisava ser moderno. Era um Estado de judeus, não um Estado judaico. A distinção importa. É exatamente ela que está sendo desfeita, metodicamente.
Ainda tenho o cartão ADI na carteira. Não o tirei. Mas há dias em que olho para ele e me pergunto para qual Israel estou doando meus órgãos. Para o país da praia de fim de tarde, das línguas misturadas, dos estudantes de tecnologia e das mães que empurram carrinhos de bebê nos calçadões, ou para o país de Ben-Gvir e dos rabinos que afirmam que o aprendizado da Torá protege mais o Estado do que os soldados que morrem no front, enquanto seus próprios filhos não servem e nós pagamos a conta?
Essa pergunta não tem resposta fácil. Há uma diferença importante entre não ter resposta e não fazer a pergunta. O que me preocupa não é a incerteza. É o silêncio dos que deveriam estar fazendo essa pergunta e não a estão fazendo.
Herzl nunca viu o país que imaginou. Morreu em 1904, aos quarenta e quatro anos. A declaração de independência viria quarenta e quatro anos depois. Ele e os fundadores deste Estado eram parte do movimento secular que ergueu esta nação, que agora está sendo devorada pelas forças que sempre acreditaram que um Estado judeu só poderia ser um Estado de um Deus.
Estamos aqui, neste momento, vendo o que está sendo feito com o sonho sionista original. Essa é a única obrigação que um país impõe a quem o escolheu: não olhar para outro lado quando ele está se perdendo.