Tenho lido sobre os imperadores romanos desde jovem, e uma coisa sempre me pareceu clara nas histórias que sobreviveram a eles, o poder romano precisava de dois elementos para se sustentar diante do povo, o sangue como cenário e o elogio como moeda. Cômodo, filho de Marco Aurélio, vestia pele de leão e empunhava a clava de Hércules para descer à arena e matar animais e gladiadores diante de dezenas de milhares de pessoas reunidas no Coliseu. O Senado, que ele mesmo havia esvaziado de qualquer poder real, aplaudia e lhe concedia títulos cada vez mais extravagantes entre um combate e outro. Décadas depois, Domiciano exigiria, dentro do próprio palácio, ser chamado de senhor e deus. A função desses espetáculos nunca foi apenas matar; era lembrar aos presentes que a vida de quem estava na arena e a aprovação de quem ocupava as arquibancadas dependiam da mesma pessoa.
Quase dois mil anos depois, no domingo, quatorze de junho de dois mil e vinte e seis, o jardim sul da Casa Branca foi transformado em anfiteatro para celebrar, simultaneamente, o octogésimo aniversário de Donald Trump e os duzentos e cinquenta anos de independência dos Estados Unidos. Uma estrutura de aço de vinte e oito metros, batizada de A Garra, dominava o gramado onde normalmente aterrissam os helicópteros presidenciais. Atores vestidos como soldados da Guerra da Independência montavam guarda enquanto catorze lutadores cruzavam os corredores do edifício, alguns passando pelo Salão Oval, para chegar ao octógono. Um sobrevoo da Força Aérea abriu a noite, seguido do hino nacional. A multidão gritava EUA sempre que um competidor americano enfrentava um estrangeiro, o que nem sempre garantia a vitória do lutador local. Vi as fotos chegarem ao telefone em fragmentos, à distância, como vejo quase tudo o que acontece naquele país que tanto pesa sobre o meu.
Sentados perto do octógono, ao lado do presidente, estavam homens que hoje exercem o papel outrora reservado aos reis clientes diante dos imperadores romanos, trocando lealdade visível por proximidade. Mark Zuckerberg, que suspendeu as contas de Trump após o ataque ao Capitólio em janeiro de dois mil e vinte e um e desembolsou vinte e cinco milhões de dólares para encerrar o processo movido pelo próprio presidente, conversava brevemente com ele entre os combates. David Ellison, da Paramount Skydance, também estava lá, poucos dias depois de o Departamento de Justiça aprovar a fusão da sua empresa com a Warner Bros Discovery. Nenhum dos dois precisou explicar em voz alta a razão de estar ali. A proximidade física já dizia tudo.
O lutador Josh Hokit venceu Derrick Lewis por nocaute no segundo round e, na entrevista subsequente, retirou do pescoço uma corrente de ouro para entregar ao presidente como presente de aniversário. A Casa Branca publicou a foto do gesto horas depois. Menos de um ano antes, em agosto de dois mil e vinte e cinco, Tim Cook entrara no Salão Oval com uma placa de vidro montada sobre uma base de ouro de vinte e quatro quilates, oferta que acompanhou o anúncio de outros cem bilhões de dólares em investimentos da Apple nos Estados Unidos. Em ambos os casos, o metal precioso não comprava o mandatário; confirmava, diante das câmeras, quem precisava do presidente mais do que este necessitava de quem lhe estendia o tributo.
Foi após a entrega da corrente, ainda diante do microfone, que Hokit usou o ápice de sua carreira para declarar à multidão e ao país que Michelle Obama era um homem, indagando se não tinha razão. A plateia ao redor aplaudiu, e Joe Rogan, que conduzia a entrevista, sorriu, hesitando, antes de encerrar o quadro com o nome do atleta e se afastar do microfone.
Dana White, amigo de longa data de Trump e dono do UFC, classificou o comentário como falso e grosseiro no dia seguinte, tratando o caso como mera bobagem. O porta-voz da Casa Branca, indagado sobre o episódio, preferiu elogiar o desempenho do lutador no octógono e evitou o restante da pergunta. Trump publicou nas redes sociais que a noite fora incrível, omitindo qualquer menção a Hokit ou a Michelle Obama. O silêncio do homem que estava sentado a poucos metros daquele microfone no momento da declaração já é, em si, a resposta que importa.
Em Roma, o que tornava os jogos perigosos não era apenas o sangue na arena, mas o que eles autorizavam posteriormente, quando as luzes se apagavam e todos voltavam para casa sabendo exatamente o quanto se podia dizer e fazer perto do imperador sem sofrer sanções. Um presidente que assiste a um homem proferir aquele insulto, vê a plateia aplaudir e opta pelo silêncio depois, transmite a lição que Cômodo ditava ao Senado nas primeiras filas, a de que a proximidade ao poder vale mais do que a decência, e de que o silêncio de quem poderia condenar a afronta funciona como uma forma de aplauso.
Vi essa sequência de notícias durante um turno de guarda noturno aqui no norte de Israel, olhando para um céu onde qualquer luz fora do lugar pode ser um drone vindo do Líbano, e refleti que a minha segurança depende, em alguma medida, da disposição pessoal do mesmo homem que silenciou na primeira fila daquele octógono. Os interceptores que protegem este país chegam quando Washington assim decide, e Washington, neste momento da sua história, é dirigida por um homem cuja moral pública parece ser medida pela quantidade de ouro que lhe oferecem e pela disposição de tolerar o que se recusa a condenar.
A multidão do Coliseu rugia da mesma forma tanto diante da morte do leão quanto da do gladiador. O que importava, para quem estava nas arquibancadas, era estar perto o bastante da tribuna imperial para não ser, na luta seguinte, quem desceria à arena. Dois mil anos depois, do outro lado do mundo, ainda estamos decidindo onde ficar sentados.