Confesso que tomei uma garrafa de vinho antes de me sentar para escrever. E não me senti culpado por isso. Nem pelo vinho, nem pelo que veio depois: a sensação, clara e sem aviso, de estar no melhor momento da minha vida. Feliz. Aqui. De Israel, de dentro de uma guerra que não pedi.
Sei o que isso pode parecer. Mas não me interessa o que parece.
Existo exatamente no centro do meu próprio olhar. Não sei sempre o que isso significa, mas sei o que faz sentir. É precisamente daqui, desse lugar onde o cotidiano e o insuportável dividem o mesmo ar, que certas coisas se tornam visíveis com uma clareza que a paz nunca permitiu.
Há uma forma de presença que só nasce quando o mundo externo esgota suas exigências. Não é serenidade. É algo anterior à serenidade, algo que existe antes de qualquer decisão sobre como estar. Quando o alarme soa e o corpo já conhece o caminho até o abrigo sem que a mente precise ordenar, o que sobra não é coragem nem resignação. É o que sempre esteve lá, antes de qualquer história que contei sobre mim mesmo. O irredutível. E esse, descobri, não é frágil. É apenas mais antigo do que tudo que tentei construir por cima dele.
Existe uma tradição que insiste em perguntar quem somos. Desconfio dessa pergunta porque pressupõe um eu estável, localizável, que aguarda descoberta como um objeto perdido numa gaveta. O que experimento é outra coisa: não a descoberta de quem sou, mas a cessação da recusa de ser o que já sou. Essa distinção demora a ser sentida em sua totalidade. Porque parar de recusar não é conquistar nada. É largar algo que nunca foi meu e que eu carregava como se minha sobrevivência dependesse disso. Talvez dependesse. Mas já não depende.
Vivo numa linha tênue entre revelar e esconder. Não por cálculo, não por pudor, não por estratégia de proteção. Mas porque a transparência total é uma violência contra a própria complexidade, e o silêncio total é uma traição contra o que pulsa e pede forma. O que encontro no meio não é compromisso. É o único lugar onde a honestidade ainda respira.
A guerra ensina isso de um jeito que nenhuma teoria alcança: que a consciência tem uma soberania que não depende das circunstâncias. Que mesmo aqui, mesmo agora, mesmo com tudo que pesa, há em mim um interior que não foi declarado território ocupado por ninguém. Escrever sobre isso não é escapismo. É o ato mais político que conheço. Porque afirmar que ainda sinto, que ainda percebo a luz quando toca meu rosto, que ainda reconheço o calor como algo que vem de dentro tanto quanto de fora, é recusar que a guerra tenha a última palavra sobre o que sou.
Talvez o que trago aqui não seja intimidade. Talvez seja algo mais radical: a percepção de que sou suficiente para mim mesmo neste instante, sem precisar de outro tempo, outro lugar, outra versão de mim ou do mundo. Com tudo que dói. Com tudo que ainda não tem nome. Com tudo que aquece a pele como se o mundo não estivesse partido, mesmo quando está.
Não peço nada com isso. Não peço compreensão, não peço acompanhamento, não peço sequer que acreditem. Apenas registro que existo. Que sinto. Que esse sentir é mais real do que qualquer coisa visível de fora.
Isso não é bullshit. É um estado. E estados não pedem para ser compreendidos. Apenas para ser reconhecidos por quem também já tocou esse lugar dentro de si e sabe que, quando se chega lá, nada mais parece tão urgente quanto permanecer.
Não posso afirmar com certeza que destruí meus quatro casamentos por não reconhecer o momento em que uma discussão deixa de ser uma discussão. Também não posso negar. O que posso dizer é que nenhuma das quatro mulheres que me conheceram de perto apontaria isso como causa. Mas há algo que conheço bem, não da teoria, mas da experiência repetida com uma consistência que deveria ter me ensinado algo antes da quarta vez. Você começa uma discussão com a intenção de resolver um mal-entendido pequeno. A outra pessoa reage de forma mais intensa do que você esperava. Você escala o tom para recuperar a posição. Ela escala de volta. Em poucos minutos, nenhum dos dois lembra qual era o mal-entendido original, e o que começou como uma conversa se tornou uma guerra que nenhum dos dois planejou travar. Você conhece esse padrão. Todo ser humano o conhece. Robert Pape passou a vida acadêmica demonstrando que estados soberanos, com exércitos, bombas e estrategistas pagos para pensar, caem no mesmo. Só que quando estados caem nele, o resultado não é uma noite mal dormida num sofá onde meus quase dois metros insistem em não caber. É o que estou vendo daqui, de Israel, onde moro, enquanto os mísseis explodem sobre nossas cabeças.
Pape é professor de ciência política na Universidade de Chicago, conselheiro estratégico de todos os presidentes americanos desde 2001 e um dos analistas militares mais influentes dos Estados Unidos. Passou vinte anos simulando o bombardeio da planta nuclear iraniana de Fordow, que caças israelenses e estadunidenses atingiram em junho de 2025, e a mudança de regime no Irã. Em 1996, publicou Bombing to Win, obra que examina o poder aéreo e a coerção na guerra e argumenta, com uma precisão que incomoda, que bombardear inimigos raramente produz os resultados políticos que os bombardeiros acreditam que vai produzir. Quatro dias antes do início da guerra contra o Irã, publicou na plataforma Substack uma newsletter com o nome do modelo que desenvolveu ao longo dessas décadas. O termo Armadilha de Escalada está agora se espalhando pelo mundo, e desde então Pape tornou-se presença constante em programas de televisão, podcasts e entrevistas ao redor do mundo, enquanto as buscas pelo termo no Google registram aumento de vinte por cento desde o início do conflito. Quando um modelo acadêmico começa a ser procurado assim, é porque a realidade está se comportando exatamente como ele previu, e isso não é uma boa notícia para ninguém que vive em seu raio de alcance, menos ainda para quem vive em Israel.
O modelo que Pape desenvolveu descreve uma sequência deceptivamente simples, e peço que você a leia com atenção porque ela explica o que está acontecendo agora de um jeito que os boletins de guerra não conseguem. Uma potência decide atacar outra com força limitada para atingir um objetivo determinado. A agredida reage expandindo o campo de batalha. A agressora escala o conflito para recuperar a iniciativa. O ciclo se repete, cada vez em nível mais alto, e o que começou como uma operação cirúrgica vai adquirindo a lógica implacável de uma guerra que ninguém planejou travar nessa escala. A armadilha não é que as guerras ficam maiores. É que os esforços para controlar um conflito podem torná-lo mais difícil de controlar. Essa distinção é o coração do problema.
Desde 28 de fevereiro, quando Israel e os Estados Unidos lançaram os primeiros ataques contra o Irã, os números acumulados falam por si. Cerca de oito mil voos sobre o território iraniano. Entre sete mil e sete mil e oitocentos alvos atingidos. O líder supremo Ali Khamenei morto. Parcela considerável da cúpula do regime eliminada. Os primeiros seis dias de guerra custaram aos Estados Unidos aproximadamente onze bilhões e trezentos milhões de dólares, segundo funcionários da administração Trump presentes a um briefing fechado no Congresso. O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais estimou que os primeiros doze dias custaram dezesseis bilhões e quinhentos milhões de dólares. Somando os gastos americanos desde 7 de outubro de 2023, incluindo ajuda militar a Israel e operações no Iêmen e no Irã, o total chega a entre trinta e um e trinta e três bilhões de dólares, e o Pentágono já solicitou ao Congresso duzentos bilhões adicionais para financiar e reabastecer suas forças. E ainda assim os Estados Unidos parecem longe de atingir os objetivos anunciados no início das hostilidades. Donald Trump afirma que os Estados Unidos já venceram, pede ajuda internacional para desobstruir o estreito de Ormuz, tenta se dissociar do bombardeio israelense da maior planta de gás natural do Irã e ameaça destruir as mesmas instalações se houver novos ataques iranianos ao Catar. A Agência Internacional de Energia declarou que a guerra provocou a maior disrupção de oferta de petróleo da história. O barril chegou a quase cento e vinte dólares na semana passada. A pressão inflacionária avança. As cadeias produtivas tremem. Você vai sentir isso no supermercado, na conta de luz, no preço da gasolina, independentemente de onde mora e de qual lado desta guerra torce. Aqui em Israel, sentimos de forma diferente, porque a guerra não é uma abstração que chega pela tela. Chega pelo céu.
O que o modelo ilumina não é o inventário de armas ou a contagem de alvos destruídos, mas algo mais difuso e por isso mais difícil de combater, a transição progressiva de menor para maior engajamento, a ilusão de controle, o momento em que a crise episódica se converte em envolvimento estrutural. Análises geralmente explicam eventos, escreveu Pape. Poucas explicam em que fase um conflito está entrando e o que isso significa antes que se converta em engajamento. O modelo fornece as molduras para reconhecer esse momento. O problema é que reconhecer o momento e sair dele são coisas inteiramente diferentes, como qualquer pessoa que já terminou uma noite dormindo num sofá sabe muito bem.
A questão estratégica central é esta. Quais são as condições políticas desejáveis para os Estados Unidos ao final desse conflito? Trump e seus auxiliares têm oferecido respostas múltiplas e contraditórias, da mudança de regime ao enfraquecimento da capacidade militar iraniana, passando pelo fim do programa nuclear. Essa ambiguidade é disfuncional por uma razão precisa. Impede a formação de coalizões internacionais, fragiliza a legitimidade da operação e aumenta consideravelmente os custos para Washington. Destruir alvos e matar líderes são métricas táticas. Produzir as condições políticas desejáveis é uma métrica estratégica. Quando as duas não estão alinhadas, o que acontece é exatamente o que estamos vendo, oito mil voos e o objetivo ainda não alcançado.
O modelo captura a lógica do conflito, mas não sua geometria específica. O Irã, enfraquecido militarmente, recorre a retaliações assimétricas para evitar uma derrota percebida como total. O alastramento de ataques com mísseis e drones contra países vizinhos amplia os custos políticos e estratégicos da operação para os Estados Unidos e Israel, custos consideravelmente mais baixos para Teerã. Uma guerra defensiva para manter o regime no poder tem vantagens evidentes. Se a República Islâmica sobreviver ao conflito, seus partidários poderão declarar vitória estratégica simplesmente por ter resistido. Travar uma guerra de sobrevivência é politicamente mais sustentável do que travar uma guerra de conquista. E toda guerra é jogada por dois lados. O Irã também tem direito de fala, e vai reagir para impedir que se realize o que a potência agressora deseja. Teerã está há quarenta anos aprendendo a reagir de formas que o poder aéreo não consegue obliterar, e isso não mudou porque os bombardeios foram mais intensos desta vez. Os analistas convergem num ponto. Os Estados Unidos já entraram em modo de controle de danos e dificilmente evoluirão para um envolvimento em larga escala como ocorreu no Afeganistão e no Iraque. O caminho mais provável é uma saída estratégica que permita a Trump declarar vitória sem a realização de todos os propósitos cogitados no início da ofensiva. Mas o Irã continua no tabuleiro, e continua reagindo.
E aqui está o ponto que ninguém em Israel consegue dizer em voz alta porque a própria guerra tornou impossível dizê-lo. As eleições israelenses estão previstas para ocorrer até outubro de 2026, mas Netanyahu tem a capacidade de dissolver a coalizão governante antes disso e convocar eleições antecipadas, escolhendo o momento em que ele e seus parceiros religiosos e nacionalistas tenham a melhor chance de vencer. Enquanto a guerra durar, a pergunta sobre o que aconteceu naquela manhã de sábado de 7 de outubro de 2023 e quem é responsável por isso permanece enterrada sob os escombros da urgência militar. Netanyahu não quer falar sobre 7 de outubro, e Trump tem suas próprias razões para manter perguntas incômodas à distância, entre elas os arquivos Epstein que uma guerra convenientemente afoga. A oposição israelense grita no vazio, porque num país em guerra ninguém ouve quem questiona o comando, e Netanyahu sabe disso melhor do que qualquer estrategista. A guerra é o adiamento. A guerra é a defesa. A guerra é o único instrumento que transforma um homem que deveria estar sentado no banco dos réus num líder de guerra indispensável, e a armadilha que aprisiona o Irã aprisiona também Israel, com a diferença de que no nosso caso o arquiteto da armadilha vive em Balfour e chama a si mesmo de líder. Netanyahu e sua camarilha estão dispostos a manter toda uma população dentro desta armadilha, a pagar o preço em mísseis, em inflação e em mortes, enquanto for necessário para mantê-los no poder. Essa é a diferença entre uma armadilha que acontece e uma armadilha que é construída.
Você e eu não estamos nessas salas onde as decisões são tomadas. Eu estou em Israel, onde a distância entre estratégia e consequência não se mede em documentos de política, mas no som das sirenes. A conta chegará para todos nós, na forma de inflação, desemprego e instabilidade que já começam a se fazer sentir nas cadeias produtivas globais, colocada nas costas de quem escolheu essa guerra e de quem não escolheu nada, de quem vive aqui e de quem vive no Brasil, na Europa, em qualquer lugar onde o preço do petróleo determina o preço de tudo o mais. A armadilha não avisa quando fecha. Ela simplesmente fecha. E então você se pergunta como chegou até aqui, e a resposta é sempre a mesma: um passo de cada vez, cada um deles parecendo razoável no momento em que foi dado, até que você se encontra dormindo num sofá ou num bunker, esperando que os mísseis parem. A diferença é que do sofá você sai de manhã. Do bunker, ainda não sei quando.
Setenta e nove Israels cabem dentro do Irã. Repito: setenta e nove. Quando soou o alerta, eu estava no trabalho e precisei largar tudo para descer ao abrigo, e pensei naquele número enquanto descia as escadas. Setenta e nove. Como se tamanho fosse uma resposta para alguma coisa.
Não é, claro. Mas o tamanho importa quando se fala de quatrocentos e quarenta quilogramas de urânio enriquecido a sessenta por cento, espalhados por um milhão e seiscentos mil quilômetros quadrados habitados por noventa milhões de pessoas que agora têm todas as razões do mundo para não revelar onde esse material está guardado. A física é cruel na sua simplicidade: chegar de zero a sessenta por cento é a travessia do deserto. De sessenta a noventa, ela já fez o trabalho pesado. O que resta é uma questão de semanas, talvez menos, e uma instalação que cabe no subsolo de um edifício comum em qualquer cidade de um país do tamanho de setenta e nove de nós.
Eu sabia disso antes da guerra. Os analistas da CIA sabiam. Os do Pentágono sabiam. Escreveram relatórios que foram lidos, arquivados e ignorados com a solenidade que os poderosos reservam para os avisos que contrariam o que já decidiram fazer. O Mossad sabia. A inteligência militar israelense sabia. E Netanyahu sabia, e é essa parte que não me larga, porque ele seguiu em frente mesmo assim, sem resposta para a única pergunta que importava: o que vem depois? Um homem que construiu toda a sua carreira sobre a premissa de que o Irã jamais poderia ter a bomba lançou uma guerra que pode ter tornado a bomba inevitável, e ainda não explicou, para nós nem para ninguém, como essas duas coisas se encaixam.
O aiatolá assassinado sabia também. Durante décadas, a bomba foi para ele uma fronteira que não se atravessa, não por falta de capacidade, mas porque a ambiguidade era sua proteção. Um Irã a dois passos da bomba mantinha o Ocidente em cautela. Um Irã com a bomba na mão era um convite ao ataque imediato. Ele jogava com o espaço entre essas duas posições, jogava bem, e morreu por isso, eliminado por quem havia concluído que o jogo estava terminado de qualquer forma.
Deixou uma lista de sucessores que não incluía o filho, querendo afastar exatamente a ala que ele representa. A Guarda Revolucionária escolheu o filho.
Existe uma lógica nos movimentos fanáticos que não é irracional, apenas construída sobre premissas que recusamos aceitar como reais até que se tornem factuais diante de nós. Quando um líder morre pela causa, a mensagem que chega à base não é derrota, é convite. Se meu pai morreu, como eu não faria o mesmo? Se sobrevivi, não foi para me render. O filho viu o pai ser morto, a esposa ser morta, o próprio filho ser morto. Foi ferido. E agora governa um país que, para vencer esta guerra, não precisa vencer batalha alguma. Precisa apenas continuar existindo, continuar governando, continuar enriquecendo urânio num território onde setenta e nove de nós caberiam com espaço sobrando.
No abrigo, naquela noite, pensei no paradoxo que nenhum general enuncia em público porque enunciá-lo seria admitir a derrota antes do fim: a única coisa que havia impedido o Irã de construir a bomba era a crença de que, sem ela, um ataque era menos provável. Atacamos. O raciocínio que sustentava a contenção desapareceu, e o que ficou em seu lugar não foi o vácuo, mas a conclusão oposta, agora com respaldo emocional que nenhuma doutrina estratégica consegue superar: a bomba é a única garantia de que isso não acontecerá uma segunda vez.
Valeu a pena? É a única pergunta que importa e a única que ninguém em posição de ter feito esta guerra está disposto a responder com honestidade. Eu moro aqui. Desci as escadas. Ouvi as paredes prenderem a respiração, e então o chão respondeu. E a pergunta não me abandona, não como abstração, mas como peso concreto que carrego junto com o número: setenta e nove.
Escrevo isso sentado dentro de um cano de esgoto de dois metros colocado ao lado da minha budka, a pequena cabine pré-fabricada na entrada do lugar onde trabalho como guarda noturno, enquanto mísseis iranianos explodem sobre nossas cabeças. Há uma certa justiça poética em escrever sobre a merda que está acontecendo no meu país de dentro de um cano de merda. E daqui, com as sirenes ainda no ar, certas abstrações deixam de ser abstrações.
Este texto se baseia em um artigo de opinião de Tomer Persico, um dos analistas mais lúcidos e corajosos que escrevem hoje sobre religião e política em Israel, publicado no Haaretz em 13 de março de 2026. O rabino Yosef Kelner leciona na yeshivá Bnei David em Eli, nos territórios ocupados. Em gravações de suas aulas feitas em 2018 que só agora vieram a público, ele declarou que deixar de observar a Torá é imoralidade e traição nacional, contra as quais toda sanção é legítima, incluindo uma bala na cabeça. O governo israelense continua financiando suas aulas.
A propósito, só como nota de rodapé, no orçamento deste ano, já aprovado em primeira leitura na Knesset, mais de um bilhão de shekels a mais foi alocado para escolas religiosas, enquanto saúde, educação e outros setores perderam verbas.
É o mesmo governo que foi à guerra para impedir que o Irã obtivesse armas nucleares, citando, corretamente, o perigo do fundamentalismo religioso no controle de um Estado moderno. O argumento está certo. O problema é o espelho que ele levanta, um espelho que a coalizão de Netanyahu prefere não encarar e que alguns dos que me leem ajudaram a eleger, infelizmente.
No final de 1978, Yehuda Etzion, um dos fundadores do assentamento de Ofra, encontrou-se com Shabtai Ben-Dov, um pioneiro do pensamento sionista religioso daquela mesma comunidade. Etzion perguntou a Ben-Dov se destruir a Cúpula da Rocha no Monte do Templo em Jerusalém serviria como catalisador decisivo para a redenção messiânica. Se você quer fazer algo que resolva todos os problemas do povo judeu, respondeu Ben-Dov, faça. Etzion certamente queria. Junto com seus colegas na resistência judaica clandestina, reuniu dezenas de quilos de explosivos. A operação, que quase certamente teria lançado Israel em guerra com todo o mundo muçulmano, jamais foi executada, não por uma mudança de convicção, mas por dificuldades técnicas. Quero que você entenda isso com clareza: a contenção foi logística, não moral.
Costuma-se dizer que os fundamentalistas religiosos compreendem os limites da realpolitik, e a observação é verdadeira até certo ponto. O Irã não teria se tornado um ator regional relevante se seus líderes não tivessem demonstrado alguma capacidade de administrar um Estado moderno. Mas se a República Islâmica tivesse investido em seus próprios cidadãos os bilhões que gastou financiando grupos extremistas e terroristas ao redor de Israel, o Irã teria prosperado em vez de estagnar, com seu povo e não seus proxies colhendo os frutos de suas ambições. Khamenei declarou repetidas vezes seu desejo de destruir Israel. Em 2010, numa publicação ainda disponível online, descreveu Israel como uma entidade aterrorizante no Oriente Médio que seria sem dúvida destruída. Em 2018, escreveu que Israel é um câncer maligno que precisa ser removido e destruído. O ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad fez declarações semelhantes em muitas ocasiões. Pergunto: quem acredita que os líderes iranianos não eram sérios, ou que não teriam agido com base nessas declarações se tivessem oportunidade, precisa explicar por que o fundamentalismo xiita seria mais pragmático ou moderado do que outras formas de fundamentalismo religioso.
É fácil, no plano abstrato, aprender com a história judaica como o fanatismo religioso leva à destruição. Mas o que vejo ao meu redor me diz que a comunidade sionista religiosa demonstrou uma incapacidade persistente de aplicar essa lição a si mesma. Existe em Israel toda uma indústria da negação, segundo a qual o terrorismo judaico não existe, o messianismo é uma coisa maravilhosa e as palavras explícitas de políticos de alto escalão não significam realmente o que dizem. Em junho de 2019, num discurso na yeshivá Mercaz Harav em Jerusalém e numa entrevista à Rádio Kan, o então deputado Bezalel Smotrich declarou seu desejo de que Israel fosse governado segundo a Torá, como nos dias do rei Davi e do rei Salomão. Houve quem negasse que ele pretendia desmantelar a democracia. Mas há um problema elementar nessa visão que ninguém se deu ao trabalho de apontar: a Torá, na forma escrita e codificada que conhecemos, não existia nos dias de Davi e Salomão. Os estudiosos situam a composição dos textos do Pentateuco entre os séculos IX e V a.C., com partes significativas compiladas durante ou após o exílio babilônico, no século VI a.C., ou seja, depois dos reis que Smotrich invoca como modelo. Ele quer governar segundo uma Torá que não existia na época que cita como referência. Hoje ele é ministro das Finanças. É, além de perigoso, ignorante. Quando o rabino Kelner disse que toda sanção é legítima contra os que não observam os mandamentos, incluindo uma bala na cabeça, pessoas como eu e como a maioria dos que me leem agora, houve quem argumentasse que o governo deveria continuar financiando sua yeshivá. Digo a vocês: a negação não é confusão. É uma escolha. A escolha de vocês.
O que me perturba, aqui dentro deste cano enquanto ouço as explosões, é a ideia de que declarações são uma coisa e ações são outra. Essa ideia não se aplica a fundamentalistas, cuja lealdade absoluta à tradição, tal como a interpretam, é um princípio fundador tanto da religião quanto da identidade. É por isso que o Irã não pode obter armas nucleares. Netanyahu está certo nisso. Mas a razão não é apenas a hostilidade do Irã em relação a Israel. É a natureza do regime em si. O fundamentalismo religioso existe dentro de uma narrativa cósmica na qual a história é a arena para o cumprimento da vontade de Deus. Quando essa visão assume o controle de um Estado moderno, os resultados são catastróficos, não porque os crentes sejam singularmente cruéis, mas porque a lógica dessa visão é indiferente ao custo humano de sua realização.
O fundamentalismo religioso não se torna tolerável porque usa kipá, nem perde seu poder destrutivo porque fala hebraico. O fundamentalismo que esteve no poder no Irã trouxe àquele país décadas de repressão, ruína econômica e guerra regional. O fundamentalismo que ocupa o poder na atual coalizão israelense distribuiu armas a colonos, elogiou a queima de aldeias palestinas, propôs a deportação de cidadãos árabes e declarou sua intenção de governar pela escritura sagrada e não pela lei. A diferença de escala é real. A diferença de natureza não é. Um governo que financia um rabino que defende atirar em quem não observa os preceitos religiosos, pessoas como eu e como a maioria dos que me leem agora, enquanto vai à guerra contra um regime teocrático por ser um perigo para a civilização, não identificou uma contradição. Tornou-se uma. E eu estou aqui, neste cano de esgoto, enquanto eles vomitam merda pela boca e mísseis sobre nossas cabeças.
Há uma cena captada em vídeo em que um homem palestino grita em duas línguas ao mesmo tempo. Primeiro em árabe, para que os seus vizinhos tragam água. Depois em hebraico, para que os soldados israelenses presentes no fundo do quadro entendam que há crianças dentro da casa que está pegando fogo. O homem fala em duas línguas porque aprendeu, ao longo de décadas, que a sua própria não é suficiente para ser ouvido. E ainda assim, em ambas, não é ouvido.
Assisti a esse vídeo várias vezes. Não porque goste de me castigar, mas porque sinto que há, naquele instante de vinte e poucos segundos, gravado anteontem à noite na aldeia de Susiya, ao sul de Hebron, algo que nenhum relatório técnico consegue alcançar: a geometria do abandono. A forma como um ser humano aprende, em tempo real, que as instituições criadas para protegê-lo estão presentes mas não disponíveis. Uniformizadas mas não comprometidas. Armadas, mas não com a intenção de usar as armas a seu favor.
Os soldados não se movem. O fogo continua.
Existem eventos que os analistas chamam de pontos de inflexão e que outros, se forem honestos, deveriam chamar de momentos de revelação. A diferença não é apenas de vocabulário. Um ponto de inflexão é uma mudança de trajetória. Uma revelação é um instante em que aquilo que sempre existiu finalmente se torna impossível de ignorar. O que aconteceu em Susiya na segunda-feira é ambos, mas sobretudo o segundo.
A violência dos colonos na Cisjordânia não é nova. Os incêndios não são novos. A passividade das forças militares diante deles tampouco é nova. O que é novo é a formalização burocrática dessa violência. Em 8 e 9 de fevereiro, o gabinete de segurança israelense aprovou medidas que revogam restrições históricas à compra de terras palestinas por cidadãos israelenses, e retomaram o registro de propriedades na Área C. Para quem estuda a história colonial comparada, o gesto é familiar: o fogo vem antes, o título de propriedade vem depois. O medo desbasta o terreno; a lei o formaliza.
Hannah Arendt escreveu em Origens do Totalitarismo que a privação dos direitos começa sempre pela privação do direito a ter direitos. O que está sendo construído em Masafer Yatta não é apenas a ausência de proteção; é a construção jurídica de uma categoria de pessoa para quem a proteção não se aplica, e a simultânea aceitação dessa categoria na linguagem dos relatórios militares, na cobertura da mídia que descreve incêndios como atrito entre populações.
Atrito. Como se o fogo fosse uma força da natureza. Como se os incendiários fossem partículas em colisão.
Hamdan Ballal, cujo irmão foi agredido até a cianose facial, cujos familiares foram algemados e depois abandonados à noite em uma estrada frequentada por colonos armados, co-dirigiu com o israelense Yuval Abraham o documentário No Other Land, vencedor do Oscar de Melhor Documentário em março de 2025. Na cerimônia em Los Angeles, Abraham usou o palco para falar sobre a desigualdade entre ele, cidadão israelense com direitos plenos, e Ballal, que vive sob ocupação militar. Houve vaias. Houve aplausos. O mundo assistiu a dois homens, um israelense e um palestino, que fizeram um filme juntos sobre a destruição de um lugar, e não conseguiu decidir se isso era coragem ou traição.
Em Israel, a resposta foi mais direta. O filme não recebeu distribuição comercial. Exibições universitárias e independentes enfrentaram pressão para serem canceladas. Políticos da coalizão governante classificaram Abraham publicamente como traidor. Houve pedidos formais de investigação contra ele. Nas redes sociais e em certos meios profissionais, citar o filme ou expressar solidariedade com seus diretores passou a ter consequências reais. Um país que pune os seus próprios cidadãos por documentar o que acontece dentro do território que controla não está apenas suprimindo uma narrativa externa. Está suprimindo o testemunho interno. E quando o testemunho se torna traição, o que resta não é segurança. É silêncio administrado.
É nesse contexto que se deve ler o que aconteceu com a família Ballal nas semanas seguintes ao Oscar. A agressão contra Mohammed Ballal, a detenção dos familiares, o abandono deles à noite em uma estrada frequentada por colonos armados, esses eventos não ocorreram apesar da visibilidade internacional do filme. Ocorreram por causa dela. A violência em Masafer Yatta tem sempre tido como alvo os corpos que estão no terreno. Depois do Oscar, passou a ter também como alvo a voz que os representa fora dele.
Há uma distinção que vale guardar: entre espaço e lugar. O espaço é abstrato, mensurável, permutável. O lugar é vivido, carregado de história, de cheiros, de mortos enterrados e de filhos nascidos. O que a estratégia de deslocamento em Masafer Yatta ataca, através dos incêndios, das demolições, do corte de tubulações de água, da destruição de painéis solares nas escolas, não é o espaço. É o lugar. É a teia de relações entre pessoas e terra que torna a vida não apenas possível mas com sentido.
Quando se destrói o caminhão que transporta água, não se está apenas privando pessoas de hidratação. Está-se destruindo a prova material de que amanhã será possível, de que haverá um amanhã suficientemente parecido com hoje para que valha a pena insistir.
É tentador separar o que está acontecendo em Susiya da geopolítica regional, e desta dos grandes jogos de poder entre Washington, Teerã e Damasco. Os analistas adoram essas separações. Elas permitem que se fale de cada coisa sem falar de todas ao mesmo tempo. Mas o homem que grita em duas línguas não tem esse luxo.
A queda do regime de Assad na Síria, a atenção americana voltada para o programa nuclear iraniano, os porta-aviões no Golfo, tudo isso é real e tudo isso importa. Mas importa também, e isso é o que os relatórios geopolíticos frequentemente deixam de fora por uma espécie de pudor técnico, que a atenção é um recurso finito, e que quem controla onde ela é dirigida controla, em alguma medida, o que pode ser feito enquanto o mundo olha para outro lado.
A cobertura da mídia documenta este fenômeno sem nomeá-lo com clareza. Enquanto a mídia israelense trata os incêndios de Susiya como relatos palestinos aguardando confirmação, e enquanto a ocidental os insere dentro de uma tendência de longo prazo, o que é verdade mas tem o efeito de torná-los esperados, portanto menos urgentes, os incêndios continuam. A contextualização, quando não é acompanhada de indignação, torna-se uma forma sofisticada de anestesia.
Existe uma estatística que persiste: 94% das investigações sobre crimes cometidos por colonos contra palestinos na Cisjordânia são encerradas sem indiciamento. Apenas 3% resultam em condenação.
Sei que números em sistemas jurídicos são complicados. Sei que encerrado sem indiciamento não é automaticamente equivalente a crime impune. Existem razões processuais, lacunas probatórias, complexidades de jurisdição. Mas sei também que quando os números são tão consistentes ao longo de duas décadas, deixam de ser acidentais e tornam-se estruturais. Uma taxa de impunidade de 94% não é uma falha do sistema. É o sistema.
E quando o sistema funciona desta maneira, quando o agressor sabe por experiência estatisticamente fundamentada que não haverá consequências, a violência deixa de ser um ato individual e passa a ser uma política. Não necessariamente declarada, não formalizada em nenhuma circular governamental. Mas política no sentido mais concreto: uma forma de organizar o mundo de acordo com uma hierarquia de quem merece ser protegido.
Os soldados que observaram o fogo em Susiya não tomaram uma decisão anteontem à noite. Seguiram uma norma não escrita mas perfeitamente compreendida por todos os presentes. A sedimentação de décadas.
Susiya existe. As pessoas que vivem em Susiya têm nomes. Mohammed Ballal, cujo pescoço foi pressionado com força suficiente para provocar cianose, tem um nome. As quatro pessoas que inalaram fumaça na noite de segunda-feira têm nomes. As crianças que estavam dentro da casa enquanto o portão ardia têm nomes.
Há um tipo de crueldade que opera através da abstração. Que transforma pessoas em populações, e populações em problemas demográficos, e problemas demográficos em questões de planejamento territorial. Cada passo nessa escada torna o próximo ato de violência um pouco mais administrável, um pouco mais técnico, um pouco menos parecido com o que é.
O homem que gritou em duas línguas recusou-se a ser abstrato. Ele gritou porque havia crianças concretas, num lugar concreto, com fogo concreto chegando perto. E os soldados, concretos, uniformizados, presentes, não se moveram.
Essa imobilidade é o escândalo. É o momento em que a pretensão de uma ordem jurídica que protege a todos igualmente encontra o teste da realidade e o reprova, às 21h54 de uma segunda-feira em fevereiro, com o céu alaranjado sobre Susiya e alguém gritando em duas línguas ao mesmo tempo.
O fogo apaga. A pergunta, quem teria apagado se tivesse querido, permanece acesa.