Setenta e nove Israels cabem dentro do Irã. Repito: setenta e nove. Quando soou o alerta, eu estava no trabalho e precisei largar tudo para descer ao abrigo, e pensei naquele número enquanto descia as escadas. Setenta e nove. Como se tamanho fosse uma resposta para alguma coisa.
Não é, claro. Mas o tamanho importa quando se fala de quatrocentos e quarenta quilogramas de urânio enriquecido a sessenta por cento, espalhados por um milhão e seiscentos mil quilômetros quadrados habitados por noventa milhões de pessoas que agora têm todas as razões do mundo para não revelar onde esse material está guardado. A física é cruel na sua simplicidade: chegar de zero a sessenta por cento é a travessia do deserto. De sessenta a noventa, ela já fez o trabalho pesado. O que resta é uma questão de semanas, talvez menos, e uma instalação que cabe no subsolo de um edifício comum em qualquer cidade de um país do tamanho de setenta e nove de nós.
Eu sabia disso antes da guerra. Os analistas da CIA sabiam. Os do Pentágono sabiam. Escreveram relatórios que foram lidos, arquivados e ignorados com a solenidade que os poderosos reservam para os avisos que contrariam o que já decidiram fazer. O Mossad sabia. A inteligência militar israelense sabia. E Netanyahu sabia, e é essa parte que não me larga, porque ele seguiu em frente mesmo assim, sem resposta para a única pergunta que importava: o que vem depois? Um homem que construiu toda a sua carreira sobre a premissa de que o Irã jamais poderia ter a bomba lançou uma guerra que pode ter tornado a bomba inevitável, e ainda não explicou, para nós nem para ninguém, como essas duas coisas se encaixam.
O aiatolá assassinado sabia também. Durante décadas, a bomba foi para ele uma fronteira que não se atravessa, não por falta de capacidade, mas porque a ambiguidade era sua proteção. Um Irã a dois passos da bomba mantinha o Ocidente em cautela. Um Irã com a bomba na mão era um convite ao ataque imediato. Ele jogava com o espaço entre essas duas posições, jogava bem, e morreu por isso, eliminado por quem havia concluído que o jogo estava terminado de qualquer forma.
Deixou uma lista de sucessores que não incluía o filho, querendo afastar exatamente a ala que ele representa. A Guarda Revolucionária escolheu o filho.
Existe uma lógica nos movimentos fanáticos que não é irracional, apenas construída sobre premissas que recusamos aceitar como reais até que se tornem factuais diante de nós. Quando um líder morre pela causa, a mensagem que chega à base não é derrota, é convite. Se meu pai morreu, como eu não faria o mesmo? Se sobrevivi, não foi para me render. O filho viu o pai ser morto, a esposa ser morta, o próprio filho ser morto. Foi ferido. E agora governa um país que, para vencer esta guerra, não precisa vencer batalha alguma. Precisa apenas continuar existindo, continuar governando, continuar enriquecendo urânio num território onde setenta e nove de nós caberiam com espaço sobrando.
No abrigo, naquela noite, pensei no paradoxo que nenhum general enuncia em público porque enunciá-lo seria admitir a derrota antes do fim: a única coisa que havia impedido o Irã de construir a bomba era a crença de que, sem ela, um ataque era menos provável. Atacamos. O raciocínio que sustentava a contenção desapareceu, e o que ficou em seu lugar não foi o vácuo, mas a conclusão oposta, agora com respaldo emocional que nenhuma doutrina estratégica consegue superar: a bomba é a única garantia de que isso não acontecerá uma segunda vez.
Valeu a pena? É a única pergunta que importa e a única que ninguém em posição de ter feito esta guerra está disposto a responder com honestidade. Eu moro aqui. Desci as escadas. Ouvi as paredes prenderem a respiração, e então o chão respondeu. E a pergunta não me abandona, não como abstração, mas como peso concreto que carrego junto com o número: setenta e nove.​​​​​​​​​​​​​​​​